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Bento XVI curou-me de um tumor, diz jovem
Bento XVI

Bento XVI curou-me
de um tumor, diz jovem

Bento XVI curou-me de um tumor, diz jovem

O jovem Peter Srsich está convencido de que foi curado de um câncer graças à oração do Papa Bento XVI.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Setembro de 2013
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Um jovem norte-americano de 19 anos assegura que foi curado de um tumor no tórax graças à oração de Sua Santidade, o Papa emérito Bento XVI. Peter Srsich é universitário do estado do Colorado e visitou o Santo Padre durante uma audiência geral, no ano passado. Depois de contar ao Papa sua história, ele recebeu a imposição das mãos justamente em seu peito, onde se encontrava o seu linfoma.

Peter tinha 17 anos quando lhe diagnosticaram, após um exame de radiografia, um tumor no tórax. "Fizemos nele um exame de raios-x e este revelou um tumor das dimensões de uma bola de softball no tórax", afirmou a mãe do jovem, Laura Srsich. "O diagnóstico foi que ele estava no quarto estágio do linfoma de Hodgkin."

A família Srsich recorreu ao tratamento do câncer em um hospital infantil do Colorado e, ao mesmo tempo, recebeu o apoio da fundação Make-a-Wish (que significa, literalmente, "faça um desejo"), que trabalha em cerca de 50 países do mundo ajudando crianças e adolescentes em dificuldades. "A primeira coisa que Peter disse foi: eu gostaria de me encontrar com o Papa em Roma", declarou sua mãe.

O seu desejo foi atendido em maio de 2012, quando Peter e sua mãe foram recebidos pelo Papa Bento XVI na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante uma audiência geral. "Quando me levantei para falar com ele, surpreendeu-me sua humanidade", conta Peter. "Foi uma experiência de humildade para mim ver como ele era humilde."

Ali, o Pontífice ouviu Peter, que lhe contou as circunstâncias de sua viagem e o drama pelo qual passava. Depois, o rapaz ofereceu ao Papa uma pulseira verde, na qual estava escrito: "Rezando por Peter". Em troca, o sucessor de São Pedro ofereceu-lhe uma bênção.

Para a família de Peter, não foi uma bênção qualquer. "Ele pôs sua mão justamente no tórax, onde estava o tumor. Não podia saber onde ele se encontrava, mas colocou sua mão justamente aí", conta Peter. Um ano depois, o jovem se encontra em perfeitas condições de saúde. No segundo ano da faculdade, ele espera poder tornar-se sacerdote.

Para Peter, a renúncia do Santo Padre só reforçou ainda mais a sua visão do encontro. Ele crê que Bento XVI colocou Deus e a Igreja acima de si mesmo e de suas exigências pessoais, um gesto de enorme humildade. "Sempre me lembrarei dele como um dos homens mais humildes do mundo e, em particular, pelo ato que acaba de cumprir", disse Peter.

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Possessão? A tentação é pior, diz exorcista
Doutrina

Possessão?
A tentação é pior, diz exorcista

Possessão? A tentação é pior, diz exorcista

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa para a alma.”

Catholic News AgencyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2019
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Ainda que representações dramáticas de possessões demoníacas, como as de Hollywood, dêem a entender que são elas a principal atividade do demônio, um padre e exorcista dominicano alerta: a ameaça maior e mais comum colocada pelo demônio para a salvação de uma pessoa é a tentação ao pecado.

“A manifestação demoníaca mais comum é a tentação, e ela é muito pior do que a possessão”, disse o Pe. François Dermine, O.P., em entrevista à Catholic News Agency, em 10 de maio.

O sacerdote, exorcista há mais de 25 anos, explica que a possessão não é uma ameaça espiritual da mesma forma que a tentação, e que é até possível, a um possesso, que ele faça um “progresso espiritual extraordinário”, chegando mesmo à santidade.

Isso se deve ao fato de que a possessão do corpo de uma pessoa ocorre sem o seu conhecimento ou consentimento. A possessão em si mesma não torna a sua vítima moralmente culpável.

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa [para a alma]”, diz o sacerdote.

“Resistir à tentação é simples”, ele afirma, ainda que nem sempre seja fácil. “É preciso evitar as ocasiões de pecado, é claro, levar uma vida cristã e ter vida espiritual. Faz-se necessário rezar, comportar-se corretamente e amar as pessoas com que nos encontramos todos os dias e também aquelas com que convivemos.”

Segundo o Pe. Dermine, depois da tentação, outra forma muito comum de atividade demoníaca é a opressão. Às vezes as pessoas podem encontrar alguns problemas, geralmente de saúde, nos negócios ou na família, e que não podem ser explicados por causas naturais. Quando se julga que a causa desses problemas é uma opressão diabólica, dá-se-lhes o nome de “preternaturais” e eles podem demandar o auxílio de um exorcista.

“Das ações extraordinárias do demônio, essa é a mais comum”, diz o Pe. Dermine, explicando que a tentação é considerada como ação demoníaca “ordinária”.

O sacerdote adverte que as pessoas não deveriam concluir de imediato que problemas físicos ou sofrimentos sejam resultado de uma opressão demoníaca, porque na maioria das vezes eles podem ser explicados por causas naturais.

Se alguém visitou um médico (ou um psicólogo, se for o caso) e nenhuma explicação natural pôde ser encontrada, então é o caso de se procurar um exorcista. “Quando uma pessoa vem e pede uma bênção para um problema específico”, diz o padre, “a primeira coisa que um exorcista deve perguntar é: você já foi a um médico?”.

O Pe. François Dermine é nascido no Canadá, mas vive na Itália praticamente desde que foi ordenado sacerdote, em 1979. Exorcista desde 1994, ele exerce seu ministério na Arquidiocese de Ancona-Osimo e foi convidado a falar sobre como é a vida de um exorcista durante o 14.º curso sobre exorcismo e orações de libertação — evento organizado pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum e pelo Gruppo di Ricerca e Informazione Socio-Religiosa.

O curso tem duração de uma semana, encerrou-se no dia 10 de maio e tem como finalidade não só formar novos exorcistas, mas também inteirar sacerdotes e leigos do exorcismo e de tópicos semelhantes. O Pe. Dermine disse que muitos dos leigos participando do curso compareceram a pedido de seus bispos, para que aprendessem a prestar auxílio aos sacerdotes durante os exorcismos.

O sacerdote conta ainda que, em sua palestra, apresentou alguns dos erros mais comuns cometidos por exorcistas, como o de confundir manifestações demoníacas preternaturais com carismas sobrenaturais, vindos de Deus. “Há uma diferença muito importante”, ele explica. “Nós temos uma natureza humana e não podemos conhecer as coisas sem antes as termos aprendido por meio de nossos sentidos.”

“Deus nos criou para agir de uma certa forma. Se você tem percepções extrassensoriais e coisas do tipo, e elas não servem para influenciar ou provocar um resultado espiritual, então elas não podem vir de Deus”, ele adverte. Pessoas com tais percepções são normalmente chamadas de “médiuns” na cultura secular.

Esses tipos de sentimentos ou manifestações preternaturais podem ser “causa de muitos problemas”, explica o sacerdote, e as pessoas envolvidas nisso podem precisar da ajuda de um exorcista.

O padre nota que existe um valor cultural em se ministrar um curso sobre exorcismos para padres e leigos, e isso acontece porque o tópico é no mais das vezes misterioso, suscitando o desejo de aprender. “A maior parte das pessoas que vêm aqui fazem-no não porque têm intenção de se tornarem exorcistas necessariamente, mas porque querem aprender”, ele diz.

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Um exame de consciência litúrgico
Liturgia

Um exame de consciência litúrgico

Um exame de consciência litúrgico

Toda liturgia deveria ser capaz de expressar a grandeza que é pertencer à Igreja. Tudo nela deveria nos dizer ao coração: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma… está aqui.”

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Maio de 2019
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“Quão amável, ó Senhor, é vossa casa,
quanto a amo, Senhor Deus do universo!
Minha alma desfalece de saudades
e anseia pelos átrios do Senhor!
[...]
Na verdade, um só dia em vosso templo
vale mais do que milhares fora dele!”

(Sl 83(84), 2-3.11)

É notório o trabalho pastoral e teológico que Bento XVI, antes mesmo de ser eleito Papa, realizou no âmbito da sagrada liturgia. Quem não conhece esse trabalho tem agora a oportunidade de adquirir a obra Teologia da Liturgia, lançada recentemente pela CNBB, e que constitui o primeiro volume das obras completas de Ratzinger em português.

Foi desejo do próprio Papa emérito que no primeiro volume de suas opera omnia constassem seus escritos sobre a liturgia. Ele quis seguir a mesma ordem do Concílio Vaticano II — de cujos documentos o primeiro foi justamente a Sacrosanctum Concilium — e priorizar aquela que foi a “realidade central” de sua vida desde a infância, como ele mesmo escreve em sua autobiografia:

Cada novo degrau no acesso à liturgia era, para mim, um grande acontecimento. Cada livro novo me era uma preciosidade, e eu não podia sonhar com nada mais lindo. Foi para mim uma aventura cativante esse lento acesso ao misterioso mundo da liturgia, que lá no altar, diante de nós e para nós, se realizava. Tornou-se cada vez mais claro para mim que eu me encontrava aí diante de uma realidade que não foi inventada por uma pessoa qualquer, e não havia sido criada por uma autoridade ou grande personagem. Essa misteriosa fusão de textos e ações tinha nascido da fé da Igreja, através dos séculos. Carregava dentro de si o peso de toda a história, mas era, ao mesmo tempo, muito mais do que um produto da história humana. Cada século tinha contribuído com seus vestígios. As introduções nos ensinavam o que tinha vindo da Igreja primitiva, da Idade Média, dos tempos modernos. Nem tudo era lógico. Tudo era bastante complicado; nem sempre era fácil a gente se orientar. Mas exatamente por isso aquela estrutura era maravilhosa, e nos sentíamos em casa [1].

Detenhamo-nos por um momento nestas últimas palavras do Papa, pois elas descrevem um sentimento que com certeza já perpassou o coração de todo católico diante de uma liturgia bem celebrada: sentirmo-nos em casa.

A expressão tem um sentido bem preciso. O Papa evidentemente não está dizendo que a liturgia foi feita para as pessoas se sentirem em casa como se se tratasse de algo banal, trivial, profano. Ele fala de nos sentirmos em casa como um sinal de pertença e de familiaridade. Neste sentido preciso, sim, é possível afirmar que a liturgia foi feita para que nos sintamos em casa.

Mas a casa a que o Papa se refere não é um templo feito por mão de homens, para usar uma expressão do Apóstolo (cf. At 17, 24). O que a liturgia faz é colocar-nos em contato com o mistério da Igreja, o mistério

da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembleia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloquência que o sangue de Abel (Hb 12, 22-24).

Em uma palavra, a liturgia existe a fim de nos transportar para o que há além desta vida terrena. No Batismo, todos nós, católicos, recebemos uma nova vida, a vida sobrenatural da graça, isto é, uma vida muito acima dos dados meramente naturais. Por meio desta porta, nós adentramos o edifício espiritual da Igreja, o Corpo místico de Cristo, formado

  • por todos os santos que já passaram por este mundo e agora estão no Céu,
  • por todas as almas justas que estão se purificando no Purgatório e
  • por todos os guerreiros valorosos que militam neste vale de lágrimas.

Esta casa, caro leitor, é a morada de todos os bem-aventurados, dos homens e mulheres que, em todos os tempos e lugares, temeram e amaram a Deus, e cumpriram com a sua santíssima vontade. Por isso, porque é uma casa ornada das mais belas virtudes, nenhuma casa se lhe é capaz de igualar.

A liturgia deveria ser capaz de expressar esta magnificência que é pertencer à Igreja. Todas as orações que nela existem, todos os cantos que foram compostos e incorporados a ela ao longo dos séculos, todos os gestos sagrados que o sacerdote faz e que o povo acompanha (ou deveria acompanhar) com piedade e devoção, tudo isso deveria falar mui ternamente ao nosso coração e dizer: “Esta é a tua casa. Este é o teu lugar. Tudo aquilo por que tanto anseia o mais profundo de tua alma está aqui.”

Mas a experiência que, ao pequeno Ratzinger, transmitiu imediatamente a sensação de pertença, pode ser para outros, em um primeiro momento, ocasião de choque e estranhamento. Vejamos o que aconteceu, por exemplo, ao famoso escritor francês Paul Claudel (em suas próprias palavras):

Assim era a infeliz criança que, a 25 de dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris para assistir aos ofícios de Natal. Começava então a escrever, e parecia-me que nas cerimônias católicas, consideradas com um diletantismo superior, encontraria um excitante apropriado e a matéria de alguns exercícios decadentes.

Foi com essas disposições que, acotovelado e empurrado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à missa cantada. Depois, não tendo nada melhor a fazer, voltei para assistir às vésperas. As crianças do coro, vestidas de branco, e os alunos do seminário menor de Saint Nicholas du Chardonnet, que os ajudavam, cantavam o que mais tarde soube ser o Magnificat.

Eu próprio estava de pé entre a multidão, junto do segundo pilar à entrada do coro, à direita da sacristia. E foi então que se produziu o acontecimento que domina toda a minha vida. Em um instante, meu coração foi tocado e acreditei.

Acreditei com tal força de adesão, com tal elevação de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida, que, a partir de então, todos os livros, todos os raciocínios e todas as circunstâncias de uma vida agitada não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, atingi-la.

Tive de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável. Tentando, como o fiz várias vezes, reconstituir os minutos que se seguiram a esse instante extraordinário, encontro os elementos seguintes que, entretanto, formavam apenas um clarão, uma única arma de que a Providência Divina se servia para atingir e abrir enfim o coração de uma pobre criança desesperada: ‘Como são felizes os que crêem! E se fosse verdade? É verdade! Deus existe. Ele está em toda parte. É alguém, é um Ser tão pessoal quanto eu. Ele me ama, Ele me convoca.’

As lágrimas e os soluções vieram… e o canto tão doce do Adeste fideles aumentou ainda mais minha emoção. Emoção bem doce, mas a que se misturava um sentimento de espanto e quase de horror. Pois minhas convicções filosóficas estavam intactas. Deus as deixara desdenhosamente onde estavam, e eu nada via a mudar nelas; a religião católica me parecia continuar o mesmo tesouro de anedotas absurdas, seus padres e fiéis me inspiravam a mesma aversão que ia até o ódio e o desgosto. O edifício de minhas opiniões e de meus conhecimentos permanecia de pé, e não lhe achava qualquer defeito. Tinha apenas me retirado dele. Um novo e formidável ser, com exigências terríveis para o jovem e o artista que eu era, tinha-se revelado, e não sabia como conciliá-lo com coisa alguma que me cercava.

O estado de um homem que fosse arrancado de um golpe de seu corpo, para ser colocado em um corpo estranho, no meio de um mundo desconhecido, é a única comparação que posso encontrar para exprimir este estado de confusão completa. O que mais repugnava a minhas opiniões e a meu gosto, era, entretanto, a verdade e o fato de ter de acomodar-se a ela custasse o que custasse. Ah! Isso não aconteceria sem que tentasse tudo que me fosse possível para resistir [2].

Percebam como, curiosamente, o que para um católico de berço, praticante, foi sentir-se em casa, para esse artista (até então um católico “morno”) foi justamente a experiência do deslocamento: o homem que ele era até aquele momento sentia-se fora de lugar, transportado a uma realidade nova e inesperada.

É que o pequeno Ratzinger tinha fé; Paul Claudel ainda não. E foi só a partir do momento em que lhe caíram as escamas dos olhos, foi só quando ele acreditou, que a liturgia ganhou, para ele, todo o sentido que realmente possui.

Paul Claudel.

Foi preciso, portanto, uma experiência totalmente alheia a seu mundo para que Paul Claudel se convertesse. Como o peixe que é tirado da água para a terra, Cristo pescou a alma desse homem, tirando-a de um ambiente para colocá-lo em outro completamente diferente. Essa migração — que constitui, no fundo, a essência de toda e qualquer conversão — deveria nos lembrar uma coisa de que muitos em nossa época parecem ter-se esquecido, a saber: que não são as nossas “adaptações”, as nossas “manipulações”, as nossas tentativas de “acomodar” o sagrado à banalidade das nossas vidas o que trará as pessoas de volta à Igreja. Muito pelo contrário, é justamente o estupor diante do sobrenatural, o espanto diante do sagrado, a admiração com o que é nobre e elevado, a isca de que tantos precisam para se livrar da miséria, da baixeza, da lama em que estão afundados.

Lendo o relato da conversão de um homem ao simples ouvir de uma música sacra, deveríamos nos perguntar se a mesma experiência teria acontecido, por exemplo, se aquelas crianças em Notre-Dame (a mesma Notre-Dame que estava em chamas alguns dias atrás) estivessem cantando uma música popular, um “sambinha” para Cristo, um jogral infantil ou um iê-iê-iê festivo para homenagear os fiéis presentes na celebração daquelas Vésperas…

Ora, alguém poderá dizer, “o Espírito sopra onde quer”. E é verdade. Mas será que podemos tão soberbamente pretender que o Espírito Santo se adeque à pobreza de nossos esquemas, à vulgaridade de nossas profanações, à baixeza de nossas invencionices? Que Deus se sirva até das mais insignificantes das coisas para trazer uma pessoa a si, é coisa de que ninguém duvida; agora, que façamos o que quisermos na liturgia, sob o pretexto de que “o que importa é o coração”, e como se um “batuque” e um “molejo” estivessem no mesmo nível de um coro de crianças cantando um Magnificat ou um Adeste fideles, é no mínimo uma profunda falta de bom senso (para não falar do pecado de irreverência que aqui se esconde sob a aparência de “simplicidade” e “despojamento”). Além do mais, que uma e outra pessoa aja dessa forma por ignorância, é coisa que se pode muito bem admitir; que não haja, no entanto, uma única voz capaz de dizer esse óbvio ululante, é coisa que escapa à nossa compreensão, é coisa que só a expressão “mistério da iniquidade” pode explicar…

É por isso que nós, católicos, precisamos fazer um exame de consciência urgente, perguntando-nos se o modo como celebramos a liturgia tem revelado aos homens a face de Deus ou a face… do próprio homem. Nossas crianças será que sentem, a respeito da liturgia de nossas igrejas, o mesmo que sentia o pequeno Ratzinger, a ponto de dizerem: “Estou em casa”? Será que nossas Missas têm favorecido e despertado nas pessoas esse nobre sentimento de pertença que o Papa Bento XVI teve em menino e que foi decisivo para sua vida e vocação cristã? Ou, ao contrário, não estaremos sonegando a nossos filhos, com nossos desrespeitos, nossas bizarrices, nossas danças e piruetas “litúrgicas”, o próprio tesouro da fé da Igreja?

E os que estão de fora — como estava Paul Claudel antes daquela visita a Notre-Dame —, com que impressão ficam ao se aproximar de nossas igrejas? A de um grupo sério de pessoas que temem a Deus e O veneram com respeito e reverência? Ou a de um bando que vive da gritaria e do oba-oba?

Na verdade, ante a dessacralização e as profanações que acontecem em tantas de nossas Missas, ao ver o silêncio e as orações secretas substituídas pela verborragia e pelos “programas de auditório”, diante do sentimentalismo que tomou o lugar da nobreza do canto gregoriano [3], não há como não tomar emprestadas as palavras do salmista ao ver desolada sua terra: “Por que razão vós destruístes sua cerca, para que todos os passantes a vindimem, o javali da mata virgem a devaste, e os animais do descampado nela pastem?” (Sl 79(80), 13-14).

Nós nos perguntamos o porquê, mas não é muito difícil chegar a uma resposta satisfatória. Como não enxergar em tudo isso que nos está acontecendo a justa mão de Deus nos castigando por nossos pecados? Não é curioso (para não dizer providencial) que justamente a nossa época, tão dada à sensualidade, seja privada na liturgia de todos os aspectos sensíveis que a enobreceram em outras épocas? Por que outro motivo nos teria sido negada a beleza e as glórias da liturgia, senão para que pagássemos o preço (merecido) da feiura dos pecados em que vivemos atolados?

Sim, tudo isso é verdade, mas lembremo-nos sempre: Deus, como Pai amoroso, só nos castiga porque busca a nossa conversão. Ele não permitiria os males que estamos experimentando, se não quisesse deles extrair um bem muito concreto: a purificação da nossa fé.

Portanto, se a liturgia de sua paróquia está ruim, se na Missa de que você participa o Cristo parece se despojar totalmente, como fez no Calvário, não deixe nunca de adorá-lo sob as espécies eucarísticas e de fazer-lhe companhia em meio aos verdugos que O maltratam… E não, não se trata de “cruzar os braços”. Se você puder fazer algo, mãos à obra, é claro! O que pudermos realizar, o que estiver ao nosso alcance fazer pelo resgate da liturgia, façamos, não fiquemos inertes.

Só não caiamos na tentação de trair a fé; de deixar a nossa casa, que é a Igreja; de abandonar Nosso Senhor justamente quando Ele mais precisa daqueles que O adorem, em espírito e em verdade.

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Lembranças da minha vida: autobiografia parcial (1927-1977), trad. Frederico Stein, 2.ª ed., São Paulo: Paulinas, 2007, pp. 20-21.
  2. Jacques Madaule, Paul Claudel (1868-1955), in: Convertidos do século XX, trad. Hoche Luiz Pulchério, 2.ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 1966, pp. 132-133.
  3. “Halevy, afamado compositor de óperas, discípulo de Cherubini, diz: ‘Como podem os sacerdotes católicos, possuidores do canto gregoriano, a mais linda melodia religiosa que existe no mundo, permitir nas suas igrejas a pobreza da nossa música moderna?’” (Pe. João Batista Reus, Curso de Liturgia, 3.ª ed., Rio de Janeiro: Vozes, 1952, p. 65)

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Nem todo o mundo é hipócrita como você!
Espiritualidade

Nem todo o mundo
é hipócrita como você!

Nem todo o mundo é hipócrita como você!

Não é que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um?

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2019
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Se há uma coisa que ainda precisamos compreender bem e em toda a sua profundidade, é a ação transformadora, realmente transformadora, da graça de Deus na alma humana. Digo que precisamos compreender, na primeira pessoa, porque de modo geral até os católicos ignoramos a beleza da teologia da graça, que está presente não só nos bons escritos dos santos Doutores da Igreja, mas principalmente nas páginas do Santo Evangelho.

Para esclarecer as coisas, digamos desde o início qual é o erro que parece ter impregnado a mente das pessoas de nossa época e que precisamos combater com todas as nossas forças, especialmente nestes tempos de confusão moral: trata-se da visão protestante de justificação. Em que ela consiste, é o Pe. Boulenger quem nos explica:

Na opinião deles (Lutero, Calvino), o homem, desde o pecado original, está despojado do livre-arbítrio, e por isso incapaz de qualquer coisa boa, de modo que a fé sozinha, a fé sem obras, é o requisito único para a justificação. Acresce que esta fé, dos tais inovadores, não é a fé propriamente dita, pela qual cremos, por serem revelações de Deus, todas as verdades que a Igreja nos ensina, não. É uma confiança que nos leva a julgar perdoados pela imputação os nossos pecados, isto é, pela aplicação dos méritos de Jesus Cristo [...].

No sistema deles, pela justificação, os pecados não são verdadeiramente destruídos. São apenas vendados. Encobertos e ocultos pelos méritos de Jesus Cristo que nos são atribuídos. Não é nenhuma renovação intrínseca que a graça produz no homem justificado.

Essa justificação vem a ser, antes, uma espécie de sentença, uma proclamação que nos declara justos, se bem que, interiormente, não haja em nós mudança alguma [1].

Na prática, o que é essa “justificação” senão uma farsa, uma roupa bonita com que Deus veste o pecador só para lhe disfarçar a sujeira, as misérias e a podridão? É tão aberrantemente contrária ao espírito do Evangelho e da Nova Aliança essa forma de pensar que custa-nos crer que alguém lhe possa realmente dar crédito. O Jesus que tanto condenou a hipocrisia dos fariseus — cujos lábios e corações viviam fora de sintonia (cf. Is 29, 13) — torna-se nessa teologia miserável, Ele mesmo, um grande fariseu.

Mas, antes de apontar o dedo aos protestantes (pois não é a finalidade deste artigo), façamos nós mesmos, católicos, um exame de consciência, e vejamos bem se com nossas palavras e julgamentos não somos nós os primeiros a precisar de advertência e emenda.

Qual é a nossa reação, por exemplo, diante do bem e dos bons? Isto é, quando somos confrontados com a verdade do Evangelho, ou com alguém que procura vivê-la; quando nos deparamos com a vida de um santo, ou com uma pessoa que se esforça por viver os Mandamentos, ter uma vida de oração e lutar contra os próprios pecados… qual é normalmente a nossa postura? O que sai de nossa boca (ou em que tipo de pensamentos consentimos) quando o Cristo se apresenta diante de nós na forma de um ensinamento que nos constrange ou de uma pessoa que nos corrige, ainda que seja só com sua vida?

Talvez sejamos daqueles que dizem, meio que irrefletidamente: “Mas também não se pode ser tão radical assim”, ou: “Ninguém suporta, também, viver a religião assim, a ferro e fogo”. Talvez pensemos: “Religião não pode ser camisa de força”, ou achemos que as pessoas que procuram viver o Evangelho, no fundo, não passam de umas “reprimidas” e “recalcadas”. Talvez sejamos ainda piores e até já tenhamos teorias prontas sobre o interior e o passado dos outros: “O fulano fala e age assim agora, posa de santo, mas ele já fez isto e aquilo”; “O fulano se comporta assim agora, mas lá no fundo…” etc.

Ou seja, na cabeça de muitos de nós, qualquer pessoa que aparente ser um pouco melhor do que nós, um pouco mais esforçada do que nós, um pouco mais perfeita do que nós, já é motivo para darmos na língua e acharmos que é uma hipócrita. (No fundo, um artifício para que estejamos sempre “por cima”, para que nos sintamos sempre superiores.)

Pode até ser que não nos demos conta, mas por trás de todas essas ideias está escondida uma profunda falta de fé na santidade. No fundo, nós não acreditamos que as pessoas possam realmente ser transformadas pela graça. Para nós, elas sempre vão continuar as mesmas pecadoras miseráveis de sempre, mas disfarçadas com uma roupinha melhor aqui, um traje mais elegante acolá.

Ou seja, ao acusarmos de “hipócritas” e “farisaicas” as pessoas de igreja, na verdade, estamos revelando mais de nós mesmos do que daqueles a quem acusamos. Querendo enxergar o “fundo” do coração dos outros, nós estamos na verdade externando o que vai no fundo do nosso coração.

Talvez fosse necessário dizer a essas pessoas que nem todo o mundo é hipócrita como elas... Se é o seu caso, preste atenção: não é porque você acha os Mandamentos um fardo, não é porque você acha a religião um peso, que as pessoas são do mesmo modo. Há pessoas sinceras, que realmente querem a Deus, que realmente buscam a santidade, que realmente acreditam no Céu e querem viver por ele. E você, ao invés de desencorajar a piedade dos outros falando asneiras, faria muito melhor se entrasse na Igreja também, com o coração, ao invés de acusar as de dentro de estarem lá só de corpo presente.

Não que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um? E qual é a linha que separa um hipócrita, afinal, uma pessoa fingida e dissimulada, de um pecador que busca sinceramente conformar-se à vontade de Deus? Se tanto o fariseu quanto o publicano da parábola eram pecadores, por que Nosso Senhor elogiou a este e reprovou a conduta daquele (cf. Lc 18, 9-14)?

A resposta é simples: enquanto o publicano teve a humildade de reconhecer a própria miséria e saber-se necessitado da graça divina, o fariseu era cheio de si, autossuficiente demais para precisar de Deus. E talvez nós, com nossa soberba e arrogância, estejamos enveredando pelo mesmo caminho, pois, aparentemente, os esforços que os outros fazem no caminho da santidade não são necessários para nós, não é preciso ser tão “ferrenho” assim no seguimento da santidade…

Daí o fato curiosíssimo de algumas pessoas sentirem “alergia” só de ouvirem falar de “perfeição” e de “santidade”. Elas acham que está demais esse discurso. “Tem gente demais querendo ser perfeito”, talvez elas pensem.

Mas não, elas estão erradas. O que está em alta, ainda, não são os cristãos que querem ser perfeitos. (Chegaremos lá, se Deus quiser.) Hoje, infelizmente, o que abundam são cristãos medíocres, que não querem de jeito nenhum ser perfeitos. E é a esses que cabe puxar as orelhas, ao invés de desencorajar os católicos praticantes que, sendo imperfeitos, querem pelo menos abandonar o pecado e fazer-se santos por graça de Deus.

Em tempos de mornidão espiritual como os nossos, nos quais a mediocridade parece ter-se transformado em “regra de perfeição”, nunca é demais recordar o ensinamento tradicional da Igreja e dos Santos Padres de que, na vida espiritual, não progredir é regredir, pois é dever de todo cristão multiplicar o talento recebido, fazer brotar a semente plantada por Cristo e esforçar-se, numa palavra, por crescer dia a dia na caridade. Ouçamos o que nos diz a este respeito São Bernardo de Claraval:

Viu Jacó na escada anjos a subir e anjos descer. Mas viu acaso algum deles parado ou sentado? O parar-se no degrau desta frágil escada e na incerteza desta vida mortal não é, de forma alguma, permanecer imóvel no mesmo lugar. Não temos aqui morada permanente, nem possuímos ainda a futura, senão que nos dirigimos a ela. Não há remédio: é necessário ou que subas ou que desças; se tentares parar, é forçoso que caias. Não pode, em absoluto, ser chamado de bom quem não deseja ser melhor, pois quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom (Epist. 91 [PL 182, 224]; cf. também Santo Agostinho, Sermão 169, 18).

“Quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom”. Não nos esqueçamos nunca que “é uma luta a vida do homem sobre a terra” ( 7, 1), e que é só combatendo dia após dia contra nós mesmos, contra nossas más inclinações, contra nossa hipocrisia, sim — porque até que nos tornemos de Deus por inteiro, todos somos uma farsa em alguma medida —, só assim é que poderemos ganhar aquela paz que não nos pode dar o mundo, aquela tranquilidade de consciência que só experimentam os que vivem em Cristo.

Não é verdade, pois, que “o jogo já está ganho” — como deduzem os protestantes, tirando as consequências práticas de sua visão farisaica de justificação, e como muitos católicos fazem crer hoje em dia, desacreditados que estão da santidade. A santa liturgia ensina-nos justamente o contrário, quando canta a Jesus Ressuscitado, na Páscoa: “Tu nobis, victor rex, miserere! — Tu, rei vitorioso, tem piedade de nós!” Ora, se é vencedor o nosso rei, se derrotou o demônio, o pecado e a morte, por que pedir-lhe misericórdia? É que a vitória de Cristo já está garantida, mas a nossa perseverança não. E como só quem perseverar até o fim será salvo (cf. Mt 10, 22)... ninguém está dispensado de vigiar e orar.

Referências

  1. Boulenger, Doutrina Catholica: Manual de Instrucção Religiosa para uso dos Collegios e Catechistas voluntarios, v. 3. Livraria Paulo de Azevedo & Cia., pp. 19-20.

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“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”
Espiritualidade

“Como se pode fazer de
uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”

“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”

As provocações dos hereges não merecem resposta, mas nós, católicos, deveríamos ter sempre na ponta da língua a verdade da nossa fé e as razões da nossa esperança em Jesus Sacramentado.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Maio de 2019
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“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”: a provocação feita pelo profanador de Trieste é uma objeção à Eucaristia que atravessa os séculos. Patatina não passa de uma versão mais irreverente do escândalo que muitos dos primeiros discípulos experimentaram ao ouvir falar desse mistério pela primeira vez. É uma versão muito parecida com a acusação que os protestantes vivem fazendo contra os católicos, de que, além de adorarmos imagens, ainda por cima nos prostramos diante de uma “bolacha” ou um “pedaço de pão”. Não estamos falando, portanto, de uma agressão pontual, mas de um desafio constante à nossa fé.

Mas se os hereges debochados, como o profanador de Trieste, ou mesmo os protestantes mais agressivos, não merecem uma resposta, nós, católicos, entretanto, deveríamos ter sempre na ponta da língua a resposta a essa provocação. Se não para os que nos perguntam e provocam, ao menos para nós mesmos, para que tenhamos cada vez mais firmeza da nossa fé, para que nos estejam sempre presentes no espírito as razões da nossa esperança (cf. 1Pd 3, 15).

Respondamos, então, como é possível que em toda Santa Missa os católicos façam de uma “batatinha”, de uma “bolacha”, de um “pãozinho” (ou seja lá como se queira chamar a matéria deste sacramento), nada mais nada menos do que o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como se dá isso, afinal? Onde o porquê disso?

Comecemos do Evangelho, mais exatamente do momento exato em que Jesus nos promete a Eucaristia. Sabemos que a instituição deste sacramento se deu na noite da Quinta-feira Santa, na Última Ceia. Mas antes disso, em seu ministério público, Jesus já havia aludido ao mistério que havia de inaugurar, e isso aconteceu no célebre “discurso do pão da vida”, presente no capítulo 6 do Evangelho de São João (v. 22-71).

“A Eucaristia”, por Juan de Juanes.

A quem ainda não leu esta importante passagem bíblica, vale a pena fazê-lo, mas sua ideia central é muito simples: Jesus Cristo quer se dar aos homens como alimento. Percebam, no entanto, que Ele não institui a Eucaristia naquele episódio, estando no meio da multidão, senão que escolhe seus momentos finais para fazê-lo, estando na intimidade com seus amigos, e deixando-lhes sua carne e seu sangue como um verdadeiro testamento. Nosso Senhor revestiu de grande solenidade a instituição da Eucaristia, e com isso Ele já indicava o respeito e a reverência que queria receber dos homens neste sacramento.

A promessa do pão da vida, no entanto, é feita a todo o povo, porque de toda a multidão que O escutava desde já Nosso Senhor queria receber a obediência da fé. Jesus Cristo usará nessa ocasião termos fortes, como nunca antes tinha usado: falará de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, dizendo ainda que seria necessário τρώγειν (lit., “roer, mastigar, comer”) o seu corpo para ter a vida eterna (cf. Jo 6, 53-55). Muitos, ao ouvir dessas palavras, reagirão assustados e perplexos — “Isto é muito duro! Quem o pode admitir?” (Jo 6, 60), deixarão de seguir a Jesus (cf. Jo 6, 66) e no próprio colégio apostólico haverá um que não crê: Judas Iscariotes, a quem o Senhor chama “um demônio” (Jo 6, 70) já nesta ocasião.

Dos lábios de São Pedro, no entanto, Nosso Senhor recebe aquilo por que tanto ansiava: um ato de fé. “Senhor, a quem iremos nós?”, ele diz. “Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).

A atitude do primeiro Papa é a atitude que toda a multidão de fiéis deverá imitar ao longo dos séculos para com o Santíssimo Sacramento. Com a diferença que se canta no hino Adoro te devote: In cruce latebat sola deitas, / at hic latet simul et humanitas, isto é, “Na cruz estava oculta somente a divindade, / mas aqui se esconde também a humanidade”. Ou seja, São Pedro ainda pôde ver a carne física de Cristo, enquanto de nossa parte é exigida a fé tanto na divindade quanto na humanidade de Nosso Senhor, ambas escondidas sob a aparência do pão e do vinho.

Toda essa digressão é necessária para explicar por que Deus não opera logo, em nossos altares, todos os dias, o milagre de Lanciano, por exemplo, transformando tudo — inclusive as aparências do pão e do vinho — em seu Corpo e em seu Sangue gloriosos. Ele não o faz porque quer a nossa fé, assim como quis a de seus primeiros discípulos. Se toda vez que fôssemos à Missa o padre tivesse em suas mãos um pedaço da carne viva de Cristo, não seria necessário ter fé. A Missa poderia até se tornar um “espetáculo” aos olhos do mundo, mas não foi para se mostrar vaidosamente aos homens que o Filho de Deus instituiu a Eucaristia; foi para se unir a nós que Ele o fez.

E aqui está a outra grande razão pela qual Nosso Senhor se esconde na Hóstia consagrada: porque foi dando-se a nós na forma de alimento — ou seja, nas espécies do pão e do vinho — que Ele conseguiu realizar o grande desejo de se unir a nós. Eis a razão de Ele se submeter a um tal rebaixamento! Eis o grande amor que O faz descer ao aspecto de um simples alimento, submetendo-se (como se submete) a profanações como a de Trieste, a irreverências que tão frequentemente ocorrem em nossas Missas e às ingratidões de tantas das nossas comunhões!

Embora Nosso Senhor se exponha a isso, no entanto, que fique bem claro: o que Ele quer é a nossa fé e o nosso amor. Não é para os descrentes, para os Judas Iscariotes ou para os malfeitores que Cristo desce aos altares.  É, ao contrário, para estar com os que crêem nEle, para estar com os que O amam, para ouvir deles como ouviu de São Pedro: Domine, ad quem ibimus? Verba vitae aeternae habes. Como diz Santa Teresa d’Ávila, “Ele tudo suporta e se dispõe a sofrer para encontrar uma única alma que O receba e Lhe dê uma acolhida amorosa; que essa alma seja a vossa” (Caminho de Perfeição, 35, 2).

Mas se ainda não estamos convencidos o suficiente da grandeza do amor que brota do Coração Eucarístico de Nosso Senhor, que nos convença esta revelação recebida por Santa Teresa e registrada em seu Livro da Vida (38, 23):

Indo comungar, vi com os olhos da alma, com maior clareza do que com os do corpo, dois demônios deveras abomináveis. Tive a impressão de que, com os seus chifres, mantinham presa a garganta do pobre sacerdote. E, na hóstia que ia receber, vi meu Senhor, com a majestade que descrevi, posto naquelas mãos, que percebi com clareza serem transgressoras, compreendendo que aquela alma estava em pecado mortal. Que seria, Senhor meu, ver Vossa formosura entre figuras tão abomináveis? Elas estavam como que amedrontadas e espantadas diante de Vós, e creio que de boa vontade teriam fugido se Vós lhes tivésseis permitido.

Isso me provocou tamanha perturbação que não sei como pude comungar, e fui tomada de grande temor, pensando que, se fosse visão de Deus, Este não me permitiria ver o mal que se instalara naquela alma. O Senhor disse que rogasse por ele e que permitira semelhante coisa para que eu entendesse que força tinham as palavras da consagração e visse que, por pior que seja o sacerdote que as pronuncia, Deus está sempre ali; disse também que o fizera para que eu conhecesse Sua grande bondade, que se põe nas mãos do inimigo só para o meu bem e o de todos.

“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?” Como pode ser que Ele se submeta a ficar nas mãos de um criminoso debochado como o de Trieste? Porque é grande a sua bondade, a ponto de se pôr nas mãos do inimigo… só para se unir aos que quer como seus amigos. Assim como aconteceu dois mil anos atrás, quando o Bom Jesus deixou-se prender, flagelar e coroar de espinhos, só para ter o nosso amor, também hoje a sua entrega se repete em nossas igrejas. E cabe a cada um de nós responder se temos sido os malfeitores que O profanam ou as almas adoradoras que O consolam e desagravam.

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