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O que o autor de “O Senhor dos Anéis” pensava sobre o casamento
Doutrina

O que o autor de “O Senhor
dos Anéis” pensava sobre o casamento

O que o autor de “O Senhor dos Anéis” pensava sobre o casamento

Carta de J. R. R. Tolkien para o seu filho Michael revela visão profundamente cristã e realista do escritor a respeito do matrimônio. “A fidelidade no casamento cristão”, ele admite, “acarreta em grande mortificação”.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Outubro de 2015
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Além de escrever com excelência, J. R. R. Tolkien – o autor de "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" e "O Sillmarillion" – foi também um devotado católico e dedicado pai de família. É o que se percebe pela leitura de suas obras e, sobretudo, de suas biografias e cartas pessoais.

Uma delas, endereçada a seu filho Michael [1], é de grande preciosidade. Contém a visão nitidamente cristã de Tolkien em relação ao casamento e lança uma luz extraordinária na doutrina moral da Igreja sobre a sexualidade.

Companheiros em um naufrágio

A carta em questão foi escrita em março de 1941 e descreve todo um itinerário do relacionamento entre homem e mulher, desde a clássica distinção entre os tipos de amor até a redenção do casamento por Jesus.

Tolkien começa sua narrativa pela famosa história da Queda:

"Este é um mundo decaído. A desarticulação do instinto sexual é um dos principais sintomas da Queda. O mundo tem 'ido de mal a pior' ao longo das eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o 'duro espírito da concupiscência' vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu."

O romantismo do autor d'O Senhor dos Anéis não obscurece a visão que ele tem da realidade. Estamos marcados pelo pecado original e, nessa condição, não só o ser humano é capaz de ter sexo sem levar em conta o espírito da pessoa com quem se envolve – "para o grande dano de sua alma (e corpo)" –, como a própria relação de amizade "que deveria ser possível entre todos os seres humanos é praticamente impossível entre um homem e uma mulher":

"O diabo é incessantemente engenhoso, e o sexo é seu assunto favorito. Ele é da mesma forma bom tanto em cativá-lo através de generosos motivos românticos ou ternos quanto através daqueles mais vis ou mais animais. Essa 'amizade' tem sido tentada com freqüência: um dos dois lados quase sempre falha. Mais tarde na vida, quando o sexo esfria, tal amizade pode ser possível. Ela pode ocorrer entre santos. Para as pessoas comuns ela só pode ocorrer raramente: duas almas que realmente possuam uma afinidade essencialmente espiritual e mental podem acidentalmente residir em um corpo masculino e em um feminino e ainda assim podem desejar e alcançar uma 'amizade' totalmente independente de sexo. Porém, ninguém pode contar com isso."

Na "romântica tradição cavalheiresca" – nota Tolkien –, é possível perceber uma relativa dose de virtudes humanas, que fazem o amor meramente natural desfrutar, "se não de pureza, pelo menos de fidelidade, abnegação, 'serviço', cortesia, honra e coragem". Só isso, porém, não é suficiente para remir a sexualidade de sua decadência. Esse amor "pode ser muito nobre", ele admite, mas:

" Ele tende a tornar a Dama uma espécie de divindade ou estrela guia (...). Isso é falso, é claro, e na melhor das hipóteses fictício. A mulher é outro ser humano decaído com uma alma em perigo.

Ele leva (ou, de qualquer maneira, levou no passado) o rapaz a não ver as mulheres como elas realmente são, como companheiras em um naufrágio, e não como estrelas guias.

Um resultado observado é que na verdade ele faz com que o rapaz torne-se cínico. Leva-o a esquecer os desejos, necessidades e tentações delas. Impõe noções exageradas de 'amor verdadeiro', como um fogo vindo de fora, uma exaltação permanente, não-relacionado à idade, à gestação e à vida simples, e não-relacionado à vontade e ao propósito.

Um resultado disso é fazer com que os jovens — homens e mulheres — procurem por um 'amor' que os manterá sempre bem e aquecidos em um mundo frio, sem qualquer esforço da parte deles; e o romântico incurável continua procurando até mesmo na sordidez das cortes de divórcio."

A graça que aperfeiçoa a natureza

"Gratia non tollit, sed perficit naturam – a graça não destrói a natureza, mas a leva à perfeição" [2], ensina Santo Tomás de Aquino. Assim também, a Redenção operada por Jesus não transforma o casamento de modo "mágico", como se todos os defeitos de nossa natureza decaída sumissem num estalar de dedos. Tolkien mostra compreender bem isso, quando, ao falar sobre o casamento à luz da graça, explica em que consiste a natureza, tanto do homem, quanto da mulher:

"Você pode encontrar na vida (como na literatura) mulheres que são volúveis, ou mesmo puramente libertinas — não me refiro a um simples flerte, o treino para o combate real, mas às mulheres que são tolas demais até mesmo para levar o amor a sério, ou que são de fato tão depravadas ao ponto de desfrutar as 'conquistas', ou mesmo que apreciem causar dor — mas essas são anormalidades, embora falsos ensinamentos, uma má criação e costumes deturpados possam encorajá-las.

Muito embora as condições modernas tenham modificado as circunstâncias femininas, e o detalhe do que é considerado decoro, elas não modificaram o instinto natural. (...) Uma mulher jovem, mesmo uma 'economicamente independente', como dizem agora (o que na verdade geralmente significa subserviência econômica a empregadores masculinos ao invés de subserviência a um pai ou a uma família), começa a pensar no 'enxoval' e a sonhar com um lar quase que imediatamente. Se ela realmente se apaixonar, o navio naufragado pode de fato acabar nas rochas.

De qualquer maneira, as mulheres são em geral muito menos românticas e mais práticas. Não se iluda com o fato de que elas são mais 'sentimentais' no uso das palavras — mais espontâneas com 'querido' e coisas do gênero. Elas não querem uma estrela guia. Elas podem idealizar um simples jovem como um herói, mas elas não precisam realmente de tal deslumbramento tanto para se apaixonarem como para permanecerem assim. Se elas possuem alguma ilusão, é a de que podem 'remodelar' os homens. Elas aceitarão conscientemente um canalha e, mesmo quando a ilusão de reformá-lo mostrar-se vã, continuarão a amá-lo.

Elas são, é claro, muito mais realistas sobre a relação sexual. A não ser que sejam corrompidas por péssimos costumes contemporâneos, elas via de regra não falam de modo 'obsceno'; não porque sejam mais puras do que os homens (elas não são), mas porque não acham isso engraçado. Conheci aquelas que aparentavam achar isso engraçado, mas é fingimento. Tais coisas podem lhes ser intrigantes, interessantes, atraentes (em boa parte atraentes demais): mas é um interesse natural honesto, sério e óbvio; onde está a graça?

Elas precisam, é claro, ser ainda mais cuidadosas nas relações sexuais (...). Erros lhes causam danos física e socialmente (e matrimonialmente). Mas elas são instintivamente monogâmicas, quando não-corrompidas.
Os homens não são. Não há por que fingir. Os homens simplesmente não o são, não por sua natureza animal. A monogamia (ainda que há muito venha sendo fundamental às nossas idéias herdadas) é para nós, homens, uma porção de ética 'revelada', em concordância com a fé e não com a carne. Cada um de nós poderia gerar de forma saudável, por volta dos nossos 30 anos, algumas centenas de filhos e apreciar o processo."

"Para um homem cristão, não há saída"

"Este é um mundo decaído, e não há consonância entre nossos corpos, mentes e almas. Entretanto, a essência de um mundo decaído é que o melhor não pode ser alcançado através do divertimento livre, ou pelo o que é chamado 'auto-realização' (em geral um belo nome para auto-indulgência, completamente hostil à realização de outros aspectos da personalidade), mas pela negação, pelo sofrimento. A fidelidade no casamento cristão acarreta nisto: grande mortificação.

Para um homem cristão não há saída. O casamento pode ajudar a santificar e direcionar os desejos sexuais dele ao seu objeto apropriado; a graça de tal casamento pode ajudá-lo na luta, mas a luta permanece. A graça não irá satisfazê-lo — tal como a fome pode ser mantida à distância com refeições regulares. Ela oferecerá tantas dificuldades à pureza própria desse estado quanto fornece facilidades. Homem algum, por mais que amasse verdadeiramente sua noiva quando jovem, viveu fiel a ela como esposa na mente e no corpo, sem um exercício consciente e deliberado da vontade, sem abnegação. Isso é dito a poucos — mesmo àqueles educados 'na Igreja'. Aqueles de fora parecem que raramente ouviram tal coisa.

Quando o deslumbramento desaparece, ou simplesmente diminui, eles acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está para ser encontrada. A verdadeira alma gêmea com muita freqüência mostra-se como sendo a próxima pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem poderiam de fato ter casado de uma maneira muito proveitosa 'se ao menos...'. Por isso o divórcio, para fornecer o 'se ao menos...'.

E, é claro, via de regra eles estão bastante certos: eles cometeram um erro. Apenas um homem muito sábio no fim de sua vida poderia fazer um julgamento seguro a respeito de com quem, entre todas as oportunidades possíveis, ele deveria ter casado da maneira mais proveitosa! Quase todos os casamentos, mesmo os felizes, são erros: no sentido de que quase certamente (em um mundo mais perfeito, ou mesmo com um pouco mais de cuidado neste mundo muito imperfeito) ambos os parceiros poderiam ter encontrado companheiros mais adequados.

Mas a 'verdadeira alma gêmea' é aquela com a qual você realmente está casado. Na verdade, você faz muito pouco ao escolher: a vida e as circunstâncias encarregam-se da maior parte (apesar de que, se há um Deus, esses devem ser Seus instrumentos ou Suas aparências). (...) Neste mundo decaído, temos como nossos únicos guias a prudência, a sabedoria (rara na juventude, tardia com a idade), um coração puro e fidelidade de vontade."

Conselhos de um homem casado

Tolkien e sua esposa, Edith. Retrato de 1966.

J. R. R. Tolkien, como se sabe, foi um homem casado. Tendo vivido em boa parte do século XX, o escritor presenciou a reascensão do divórcio no mundo, mas, em sua sabedoria, decidiu não participar da confusão. O casamento dele com Edith Bratt durou 55 longos anos, até que a morte os separasse.

Desde o princípio, porém, ele havia compreendido que o amor está necessariamente ligado à renúncia e à abnegação de si mesmo. Quando conheceu Edith, aos 16 anos, ele ficou instantaneamente encantado e chegou mesmo a começar um namoro com a moça. O seu "guardião" e pai espiritual, no entanto, temendo que o romance atrapalhasse a sua formação, aconselhou-o a não mais ver Edith, até que ele chegasse à maioridade.

"Tive de escolher entre desobedecer e magoar (ou enganar) um guardião que havia sido um pai para mim, mais do que a maioria dos pais verdadeiros, mas sem qualquer obrigação, e 'desistir' do caso de amor até que eu completasse 21", ele escreve. "Não me arrependo de minha decisão, embora ela tenha sido muito difícil (...). Por quase três anos eu não vi ou escrevi à minha amada. Foi extremamente difícil, doloroso e amargo."

Com 24 anos, eles finalmente se casaram e deram início a um relacionamento feliz e duradouro, do qual vieram quatro filhos: John (que se tornou padre), Michael, Christopher e Priscilla.

Numa época em que membros do próprio clero veem (e chegam a pregar) a castidade como algo inatingível, as palavras de Tolkien são uma lufada de ar fresco para muitos jovens casais que querem entregar-se a Deus pelo sacramento do Matrimônio. Mostram que continua sendo um erro gravíssimo concluir "que a norma ensinada pela Igreja é em si própria apenas um 'ideal' que deve posteriormente ser adaptado, proporcionado, graduado" [3], como se Deus nos mandasse o impossível e o impraticável.

Com as nossas próprias forças, é verdade, a luta pela pureza e pela perfeição será sempre árdua e praticamente fadada ao fracasso. Com a graça de Deus, no entanto, ela não só é possível, como deve ser a meta para a qual caminhamos com sempre maiores amor e fervor.

"Cristo redimiu-nos!": brada o Papa São João Paulo II, em sua encíclica Veritatis Splendor [3]. Mais que filhos de Adão e Eva, somos, agora, filhos de Jesus e Maria! Percorramos, pois, confiante e generosamente o caminho da Cruz, que, neste mundo, é o único caminho para amarmos a Deus.

Escutemos, por fim, um último conselho do autor d'O Senhor dos Anéis a seu filho, Michael, e vejamos se não são as palavras acaloradas de um pai que ama o seu filho e quer vê-lo no Céu:

"Da escuridão da minha vida, tão frustrada, coloco diante de você a única grande coisa para se amar sobre a terra: o Santíssimo Sacramento. Nele você encontrará romance, glória, honra, fidelidade e o verdadeiro caminho de todos os seus amores sobre a terra. Mais do que isso, você encontrará a Morte: pelo divino paradoxo, o qual encerra a vida e demanda a entrega total; e ainda pelo único gosto (ou antegosto) do qual o que você procura em seus relacionamentos terrenos (amor, fidelidade, alegria) pode ser mantido ou tomar aquela compleição de realidade – de duração eterna – que todo coração humano deseja."

Referências

  1. Carta n. 43, a Michael Tolkien (6-8 de março de 1941). In: As Cartas de J. R. R. Tolkien (org. de Humphrey Carpenter e trad. de Gabriel Oliva Brum). Curitiba: Arte & Letra, 2006.
  2. Suma Teológica, I, q. 1, a. 8, ad 2.
  3. Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 103.

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O corpo incorrupto de São Filipe Néri
Santos & Mártires

O corpo incorrupto de São Filipe Néri

O corpo incorrupto de São Filipe Néri

Em 1599, quatro anos após a morte de São Filipe Néri, seu corpo foi exumado, examinado por médicos e considerado milagrosamente incorrupto.

Joan Carroll CruzTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Maio de 2018
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Filipe foi agraciado com uma infância feliz e confortável sob os cuidados de uma excelente mãe adotiva, tendo sua própria mãe falecido quando ele era pequeno. Aos 17 anos, ele foi enviado para ser aprendiz de seu tio, que tinha um negócio de sucesso em San Germano, no sopé de Monte Cassino, onde estava localizado o famoso mosteiro fundado por São Bento de Núrsia.

Filipe repelia a ideia de uma carreira próspera nos negócios e se punha, ao contrário, sob a guia de um dos monges daquele monastério. Três anos depois, ele foi encontrado em Roma, estudando com os padres agostinianos, mas, ao invés de ser ordenado, como era de se esperar, ele abandonou seus estudos e pelos 13 anos seguintes viveu uma vida santa e engajada em um apostolado ativo. Ele foi eventualmente ordenado a 23 de maio de 1551, e atraiu em torno de si vários seguidores sacerdotes, que passaram a levar uma vida de comunidade, sob a sua direção. Foi o começo da Congregação do Oratório, aprovada em 1575 pelo Papa Gregório XIII.

Esses padres seculares, que viviam em comum, sem votos religiosos, e que se dedicavam à oração e à pregação, olhavam com um santo orgulho para Filipe como o distinto fundador de sua organização, tão peculiarmente constituída.

Homem avançado na vida espiritual, Filipe contava entre seus amigos santos como Inácio de Loiola, Camilo de Lelis, Carlos Borromeu, Catarina de Ricci e Francisco de Sales, os quais se deleitavam, como qualquer um que o conhecesse, com seu jeito agradável e reconfortante de ser. Ele frequentemente se servia de pequenos gracejos para esconder os milagres que o rondaram continuamente até o momento de sua morte, aos 80 anos de idade.

Na noite seguinte à sua santa morte, vários médicos procederam à autópsia de seu corpo, durante a qual suas vísceras foram removidas [1]. Os médicos abriram-lhe o peito, o qual desempenhara parte proeminente em uma das mais impressionantes experiências místicas vividas pelo santo.

Na véspera de Pentecostes de 1544, de fato, enquanto meditava nas catacumbas de São Sebastião, Filipe se sentiu, de uma forma extraordinária, “repleto de Deus”. Os médicos descobriram que a dilatação que existia em seu peito desde aquela experiência fora causada por duas costelas rompidas que se ergueram e formaram um arco em torno de seu alargado coração. A artéria pulmonar estava bastante extensa, mas os outros órgãos pareciam normais. Eles não conseguiam explicar como o santo vivera sem experimentar dor extrema e, depois de uma longa examinação e de uma minuciosa consulta, eles atestaram, sob a forma de um juramento escrito, que a causa de tudo aquilo era sobrenatural e milagrosa [2].

O corpo foi enterrado depois de três dias, não em um cemitério comum, mas em uma pequena capela, no interior da igreja de Santa Maria em Vallicella (também conhecida como “Chiesa Nuova”). Quatro anos depois, a 7 de março de 1599, seu caixão foi aberto. A citação seguinte é frequentemente registrada nas biografias do santo:

Eles encontraram o corpo coberto com teias de aranha e poeira, que entraram através de uma fenda na tampa do caixão, causada pela umidade na parede que fora construída sobre ela; suas vestimentas se encontravam bastante sujas; a casula se decompôs de tal modo que ficou toda aos pedaços, e a placa sobre a qual o nome do santo havia sido gravado estava coberta de verdete, de modo que eles esperavam encontrar seu corpo reduzido a cinzas.

Na noite seguinte, porém, havendo removido todas as sujeiras, eles encontraram não somente braços e pernas preservados, mas o tórax e o abdômen tão bonitos e viçosos, e a pele e a carne tão naturais, que todos ficaram impressionados; o tórax, além disso, mantinha sua coloração branca. O estado do corpo foi considerado, por Andrea Cesalpino, Antonio Porto e Ridolfo Silvestri, três dos mais importantes médicos da época, como indubitavelmente milagroso; e todos os três escreveram sobre o assunto… [3]

O rosto, que havia sofrido um pouco, foi coberto com uma máscara de prata, cumprindo assim a profecia de Filipe, de que sua cabeça seria depositada na prata [4].

O corpo do santo, depois de receber novas vestes, inclusive a casula com a qual ele rezou sua última Missa, foi posto em um novo caixão de cipreste e, na presença de vários e distintos bispos e cardeais, foi novamente depositado no mesmo túmulo em que estava previamente.

Um abastado devoto de São Filipe, em grande débito para com ele, por causa dos milagres realizados em seu favor, tendo primeiro se decidido a fornecer-lhe um esplêndido caixão prateado como sinal de sua gratidão, mudou seu propósito e começou a construir um magnífico relicário de pedras e materiais preciosos, que podem ser visto e admirados na “Chiesa Nuova”, em Roma.

Ao se dar acabamento à capela, sete anos após a morte de Filipe, o corpo do santo foi novamente exposto e, depois de uma grande cerimônia assistida pelos membros do clero de Roma e da comunidade do santo, a relíquia foi trasladada, em solene procissão, até essa elegante capela, sob cujo altar ainda hoje ela repousa.

Depois de sua solene exposição durante o ano da canonização de Filipe, realizada por Gregório XV em março de 1622, o corpo do santo, que havia passado por um processo simples de embalsamento à época da autópsia, foi novamente preservado, desta vez de modo mais extensivo [5].

O corpo inteiro de São Filipe Néri encontra-se exposto para veneração sob o altar de sua capela; suas mãos estão completamente visíveis, mas seu rosto está coberto por uma máscara prateada. Nenhum osso jamais foi tirado de seu corpo. As únicas relíquias de primeiro grau distribuídas consistem em lascas de pele arrancadas no último embalsamamento de seu corpo.

Referências

  1. Louis Ponnelle and Louis Bordet, St. Philip Neri and the Roman Society of His Times (London: Sheed & Ward, 1932), 556.
  2. Doreen Smith, St. Philip Neri. A Tribute (London: Sands & Co., 1945), 83.
  3. Father Bacci, The Life of Saint Philip Neri, vol. II (Kegan Paul, Trench, Trubner & Co., 1902), 125-26. Apesar da opinião desses médicos, os padres da Congregação do Oratório não consideram como “milagrosa”, de nenhum modo, a preservação do corpo nessa exumação, dado que suas vísceras foram removidas e o corpo foi embalsamado de modo simples após a autópsia do santo em 1595. A citação acima foi feita meramente para descrever as condições em que o corpo foi encontrado e o estado da relíquia naquela ocasião.
  4. Ibid., 127.
  5. Essa informação foi colhida da declaração preparada pela Congregação do Oratório, em Roma.

Notas

  • Traduzido e levemente adaptado de: “The Incorruptibles: A Study of Incorruption in the Bodies of Various Catholic Saints and Beati”, Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 187-190.

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Você daria cocaína para o seu filho?
Educação

Você daria cocaína para o seu filho?

Você daria cocaína para o seu filho?

Você daria a seu filho de sete anos uma garrafa de vinho para ele beber? E sua filha de 12 anos, que acabou de entrar na adolescência, você por acaso lhe daria um punhado de cocaína?

Religión en LibertadTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Maio de 2018
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Você daria a seu filho de sete anos uma garrafa de vinho para ele beber? E sua filha de 12 anos, que acabou de entrar na adolescência, você por acaso lhe daria um punhado de cocaína?

A resposta para essas perguntas parece óbvia, mas é o que acontece muitas vezes, quando se entrega a crianças, sem nenhum tipo de restrição, tablets e smartphones.

É o que afirma Mandy Saligari, especialista em vícios, terapeuta e diretora de uma clínica de reabilitação em Londres, que tem se deparado, nos últimos anos, com uma enxurrada de casos de crianças e adolescentes viciados nessas novas tecnologias.

Há anos que numerosos especialistas em educação vem alertando para esses males, e que neuropsicólogos de prestígio vem avisando dos efeitos negativos que essas tecnologias produzem nas crianças, sem que suas advertências, no entanto, surtam grandes efeitos.

Mandy, assim como muitos outros especialistas, afirma que os pais não têm real consciência da gravidade que é os seus filhos passarem horas e horas diante de uma tela.

“Sempre digo às pessoas: quando você dá a seu filho um tablet ou um telefone, é como se você estivesse realmente lhe dando uma garrafa de vinho ou um punhado de cocaína”, disse Mandy, durante uma conferência educativa em Londres. Ela se perguntava, ao mesmo tempo, “por que prestamos muito menos atenção a essas coisas do que às drogas e ao álcool, quando uma coisa e outra trabalham com os mesmos impulsos cerebrais”.

Nacho Calderón, um prestigiado neuropsicólogo espanhol, assegura que “os celulares e tablets estão gerando déficit de atenção com hiperatividade. Indo aos casos mais extremos, chegaríamos, é claro, a problemas graves de conduta, de agressividade, de isolamento social, e de crianças que só sabem viver através de uma tela”.

Isso ficou patente em um pequeno experimento feito por Dolmio, uma marca britânica de alimentos, com o objetivo de promover as refeições em família. Sem querer, os produtores do comercial se depararam com algo aterrador.

Os protagonistas eram quatro famílias com filhos e o momento escolhido era a hora da refeição. Neste experimento o filho se encontrava sentado à mesa com seu tablet enquanto seus pais preparavam a comida. O objetivo era observar o que faria as crianças deixarem de olhar para a tela, enquanto a realidade ao redor delas fosse se transformando.

Mas a dependência das crianças era tal que elas haviam perdido o contato com o espaço e o tempo, bem como com a realidade de tudo à sua volta. Os pais começaram mudando os quadros e a decoração da sala sem que eles se dessem conta. Também passavam pela sala com objetos estranhos e com capacetes de vikings, por exemplo. Mas nada disso fazia seus filhos erguerem a cabeça.

O experimento foi mais além e seus pais foram trocados por outros adultos que simplesmente vestiam roupas da mesma cor. As crianças não notaram nada, apesar de eles se moverem de um lado para o outro. Inclusive seus irmãos foram trocados por outras crianças, que chegaram a se sentar à mesa com eles. Nem assim, porém, eles perceberam o que acontecia.

Só uma coisa fez com que eles levantassem os olhos: o momento em que se desligou a internet. As crianças tiveram então uma grande surpresa, ao notarem o que havia ocorrido.

Mas esse é apenas um exemplo recente do que está acontecendo em tantos lares onde as telas já constituem como que uma “extensão” das mãos de crianças e adolescentes. As cifras são arrepiantes.

Mandy recorda que inúmeras crianças de 13 anos são tratadas por vício em tecnologia digital e que dois terços dos britânicos entre 12 e 15 anos não conseguem ter um equilíbrio entre o tempo em que estão em frente a esses dispositivos e outras atividades.

Vícios são “um padrão de comportamento que pode se manifestar de diferentes maneiras”.

Quando pensam em vícios — adverte essa especialista —, o pensamento dos pais se dirige a coisas específicas ou a determinados tipos de substância, mas, na realidade, a dependência é “um padrão de comportamento que pode se manifestar de diferentes maneiras”.

Um problema ligado a esse é o aumento no número de menores de idade que enviam e receberam imagens pornográficas, ou que acessam conteúdos impróprios para sua idade a partir dos dispositivos que têm em mãos.

Mandy afirma que dois terços dos pacientes de sua clínica têm entre 16 e 20 anos, um “aumento dramático” em relação a 10 anos atrás. “Muitas de minhas pacientes são meninas de 13 e 14 anos, envolvidas com os chamados nudes, e descrevendo-os como coisas ‘completamente normais’.”

Segundo sua experiência, muitas dessas meninas acreditam que enviar uma foto de si mesmas nuas a alguém, através de um telefone, é algo “normal”, desde que o pai ou um adulto não descubra o que está acontecendo.

Por essa razão, muitos especialistas como ela estão de acordo em que deve existir um maior controle dos pais nessa matéria. 40% dos pais de filhos entre 12 e 15 anos confessam que acham difícil controlar o tempo que seus filhos passam diante desses dispositivos. O resultado é que, mesmo morando sob o mesmo teto que seus pais, as crianças e adolescentes de hoje recebem estímulos e influência de uma porção de pessoas e lugares, menos daqueles que os geraram e que realmente os deveriam educar.

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Existe “cura gay”?
Doutrina

Existe “cura gay”?

Existe “cura gay”?

“A ‘cura gay’ não é aquilo que muitas vezes as pessoas pensam”. Uma resposta firme, equilibrada e católica para a delicada questão da homossexualidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Maio de 2018
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É bastante conhecida a orientação da Igreja às pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo. O Catecismo da Igreja Católica diz, em seu parágrafo 2359, que:

As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.

O que muitas vezes se pergunta é se a Igreja não estaria exigindo demais dos homossexuais, pedindo-lhes que vivam a castidade. Não seria um fardo demasiado pesado para se carregar? Por que não “liberar” simplesmente que essas pessoas vivam seus desejos e “abrir” a doutrina da Igreja a esse tipo de situação?

Essas perguntas dizem respeito à realidade de “um número não negligenciável de homens e de mulheres”, que “apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas” (Catecismo, § 2358). Por isso, exigem uma resposta elaborada, minuciosa e profunda — justamente o que Padre Paulo Ricardo faz neste breve vídeo, extraído de nosso episódio ao vivo “Masturbação: nunca mais”.

Trocando em miúdos o que explica o padre, temos o seguinte.

Em primeiro lugar, “é perfeitamente possível ser feliz sem praticar sexo”. A frase pode escandalizar a muitos, mas é isso mesmo. As pessoas só pensam o contrário porque ficaram cegas, obstinadas no pecado, e não querem ouvir nada que aponte o erro de seus maus hábitos:

A imoralidade desenfreada que reina no mundo de hoje é uma das causas principalíssimas — a mais importante depois da propaganda materialista e ateia — da descristianização cada vez maior da sociedade moderna. O mesmo Cristo nos avisa no Evangelho que “todo o que pratica o mal odeia a luz” (Jo 3, 20). Não há nada que cegue tanto como a obstinação no pecado. [1]

Muita gente confunde, além disso, “felicidade” com “prazer”. Enquanto esta é uma sensação principalmente animal, a primeira experiência só pode ser feita pelos seres humanos, detentores que são de uma alma imortal.

A doutrina católica é clara em indicar que a suma felicidade de nossa vida consiste em conhecer e amar a Deus. Todo o resto, portanto, deve subordinar-se a isso. Se estamos fazendo o contrário, somos nós quem devemos mudar, não a Igreja. São os homens que precisam converter-se a Deus, mudar a própria mentalidade e vida, e conformá-los à vontade divina. Propor o contrário seria paganizar a religião e colocá-la a serviço de nossos interesses.

Em segundo lugar, “a ‘cura gay’ não é aquilo que muitas vezes as pessoas pensam”. Como a expressão “cura gay” já gerou muitos mal entendidos, expliquemos o que queremos dizer com ela. Se existe uma “cura gay”, ela não consiste em fazer uma pessoa, que tem atração pelo mesmo sexo, sentir-se atraída pelo sexo oposto. Uma cura da sexualidade humana que se queira “integral” precisa colocar em relevo, sempre, o sexo compatível com a santidade: para quem deseja seguir a Cristo, o ato sexual só pode ser realizado dentro do Matrimônio e de um modo que não se feche à transmissão da vida.

O porquê desse ensinamento da Igreja poderia ser tranquilamente destrinchado tanto racionalmente quanto a partir da Revelação divina. Mas isso nos levaria longe demais. O que importa saber, à luz disso, é que o modo como nossa sociedade, de modo geral, vem vivendo a sexualidade, precisa ser profundamente transformado. Não são apenas os homossexuais, portanto, que precisam de curar-se. Um casal de namorados que se relaciona antes de casar-se, um cônjuge que trai a própria esposa, um jovem que vive afundado na masturbação e na pornografia, todos precisam ter a própria sexualidade curada. A Igreja não é homofóbica. O seu convite à castidade estende-se a todos os seus filhos, indiscriminadamente.

Por fim, “o celibato é o tempero da moral sexual”. Convidar as pessoas à castidade pode significar muitas vezes, até para pessoas casadas, uma renúncia, provisória ou definitiva, ao ato conjugal. Por isso, falar de celibato não pode ser um “bicho de sete cabeças” — como parece ser em muitos ambientes, de Igreja até! Por trás de uma omissão a esse respeito está escondida muitas vezes a ideia de que é impossível ser feliz e realizar-se sem sexo. Ou seja, estamos reduzindo a doutrina moral da Igreja aos postulados da revolução sexual.

A pergunta que precisamos nos fazer, ao fim e ao cabo, é se acreditamos mais em Freud ou em Jesus Cristo; se damos mais crédito ao que assistimos na televisão ou ao que lemos e ouvimos da Palavra de Deus. Só se tivermos fé no que nos ensina a Igreja, afinal, poderemos cumprir o que ela — não em seu próprio nome, mas em nome de Cristo — nos manda. Como diz G. K. Chesterton, “não é que o ideal cristão tenha sido tentado e considerado imperfeito; ele foi considerado difícil sem nem mesmo ser tentado” [2].

Tentemos, pois! O que está em jogo é a nossa realização neste mundo — e a nossa eterna salvação no outro.

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Os falecidos não podem nos trazer mensagens do além?
Doutrina

Os falecidos não podem
nos trazer mensagens do além?

Os falecidos não podem nos trazer mensagens do além?

Para sabermos o que acontece depois da morte, não necessitamos perturbar o repouso dos falecidos. Deus escolheu outro caminho para nos instruir sobre o sentido da vida e o destino eterno que teremos.

Frei Boaventura Kloppenburg22 de Maio de 2018
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Não é permitido, como já vimos, evocar as almas de pessoas que já morreram, prática muito comum no espiritismo. Mas por que tão rigorosa interdição, afinal? Não poderíamos ser positivamente ajudados pela instrução dos falecidos? Ou quererá Deus deixar-nos na ignorância acerca dos acontecimentos depois da morte?

O próprio Jesus nos deu a resposta na parábola do pobre Lázaro e do rico epulão (cf. Lc 16, 19-31). Ambos morrem e são julgados, cada um de acordo com a vida que levou nesta terra. Lázaro “foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”, isto é, ao céu. O rico avarento é condenado ao inferno.

A diferença entre os dois, depois da morte, é grande. O falecido rico gozador implora: “Pai Abraão, tem piedade de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois estou torturado nesta chama”. Mas a separação entre ambos é definitiva e a comunicação, impossível. A resposta do céu é clara e dura: “Entre vós e nós existe um grande abismo, de modo que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o podem, nem tampouco atravessarem os de lá até nós” (v. 26).

“A alma de Lázaro levada para junto de Abraão”, Mestre de James IV da Escócia.

O falecido epulão insiste num pedido com filantrópica proposta: “Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até a casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; que ele os advirta, para que não venham eles também para este lugar de tormento”. Era uma sugestão que parecia muito boa. Estabelecer-se-ia um útil intercâmbio entre os do além, com seus novos conhecimentos, e os da terra, sempre necessitados de esclarecimento e orientação. No entanto, a resposta do céu é seca: “Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam!” (v. 29).

Mas o proponente insiste, com uma justificação: “Não, pai Abraão, se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se converterão”. A razão parecia óbvia. É a solução proposta também pelos atuais movimentos espiritistas. Se é verdade que as almas dos falecidos sobrevivem conscientemente e que elas continuam solidárias conosco, afirmações que são corroboradas pela Bíblia e ensinadas pela Igreja Católica, por que não poderia o Criador escolher esta via para trazer revelações úteis do além? A resposta do céu, entretanto, segundo Jesus, é sem rodeios: “Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão” (v. 31).

É a rejeição pura e simples da via espiritista [1].

Deus certamente “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4). Ele não quer deixar-nos na ignorância. Mas o Criador dos homens escolheu outra via para instruí-los sobre o sentido da vida e o destino eterno. Na Constituição dogmática Dei Verbum, de 1965, o Concílio Vaticano II resume no n. 2 assim o plano divino da revelação:

Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tomar conhecido o mistério de sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, e, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina. Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15), e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber.

Este plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido. No entanto, o conteúdo profundo da verdade, seja a respeito de Deus, seja da salvação do homem, se nos manifesta por meio dessa revelação em Cristo, que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelação.

Deste plano de revelação estão excluídos os falecidos. Depois de Moisés e dos Profetas, Deus nos enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para que habitasse entre os homens e lhes expusesse os segredos de Deus (cf. Jo 1, 1-18). Com Jesus recebemos a plenitude da revelação necessária para a nossa salvação.

  • Ele se apresenta a si mesmo com uma declaração solene: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).
  • Ele está “cheio de verdade” (Jo 1, 14).
  • “Nele se acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2, 3).
  • Ele é pessoalmente o anunciado e prometido Emanuel, Deus-com-os-homens. Ele é para nós como a nuvem luminosa do Êxodo: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12).
  • Ele é a luz das gentes (cf. Lc 2, 32), o sol nascente que ilumina os que estão nas trevas (cf. Lc 1, 78s).
  • “Eu, a luz, vim ao mundo para que aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12, 46).

Não necessitamos perturbar o repouso dos falecidos (cf. 1Sm 28, 15). O Concílio Vaticano II, na citada Constituição Dei Verbum (n. 4b), nos garante que “a economia cristã, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6, 14; Tt 2, 13)”.

Não haverá “terceira revelação”.

O espiritismo, que pretende ser precisamente esta “terceira revelação”, não só não entra nos planos de Deus Revelador, mas se opõe à economia divina.

Referências

  • Trecho extraído e levemente adaptado de “Espiritismo: Orientação para Católicos”. 9.ª ed., São Paulo: Loyola, 2014, pp. 54-56.

Notas

  1. O que dizer, então, das aparições de almas do Purgatório, as quais já relatamos aqui em algumas oportunidades? Elas devem ser entendidas como milagres, permissões extraordinárias de Deus. “Quem negará a Deus todo-poderoso”, afinal, “a capacidade de enviar-nos seus mensageiros? Quando Deus manda, a iniciativa é sua; e a conseqüente manifestação do além toma para nós um caráter espontâneo. Bem outra é a situação quando a iniciativa é nossa, querendo nós provocar alguma conversação com entidade do além.”

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