CNP
Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Um Cardeal contra a ditadura do relativismo
Testemunhos

Um Cardeal contra
a ditadura do relativismo

Um Cardeal contra a ditadura do relativismo

Muito antes de o Cardeal Ratzinger denunciar a “ditadura do relativismo”, um prelado inglês dedicara sua vida a lutar contra a mesma coisa. Mas na sua época o nome do inimigo era outro.

Hermann Geissler,  EWTNTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2018
imprimir

No Consistório de 15 de maio de 1879, John Henry Newman foi criado Cardeal da Santa Igreja Romana. Leão XIII, que há pouco fora eleito Papa, quis conferir pessoalmente a dignidade de Cardeal ao famoso convertido, a quem ele carinhosamente chamava na audiência “meu Cardeal”.

Ao receber o biglietto com a notícia de sua elevação ao cardinalato, três dias antes do Consistório acima mencionado, Newman falou às pessoas presentes na residência do Cardeal Howard, em Roma. Seu discurso se tornaria célebre.

Depois de agradecer ao Santo Padre por tão grande honra, ele disse humildemente que cometera “muitos erros” em sua vida e que não possuía nada “da elevada perfeição que caracteriza os escritos dos santos”. Acrescentou, no entanto, ter agido sempre com “uma intenção honesta, sem interesses pessoais, uma têmpera de obediência, uma disposição a ser corrigido, um horror ao erro, um desejo de servir a Santa Igreja e, por misericórdia de Deus, uma justa medida de sucesso”.

O recém-eleito Cardeal resumiu, então, o núcleo essencial de sua missão como pastor e teólogo:

Alegro-me em dizer que a um grande mal desde o princípio eu me opus. Resisti por 30, 40, 50 anos, com o melhor que estava ao meu alcance fazer, ao espírito de liberalismo em religião [1]. Nunca a Santa Igreja precisou tão intensamente como agora de defensores contra esse erro, quando infelizmente ele se espalhou como uma armadilha por todo o mundo; e, nessa grande ocasião, quando é natural para alguém em minha posição olhar para o mundo, para a Santa Igreja e para o seu futuro, eu espero que não seja fora de propósito renovar o protesto que eu tão frequentemente tenho feito contra ele.

Para celebrar a memória desse grande Cardeal, seria apropriado mencionar certos estágios de sua vida, com o propósito de ilustrar seu exemplar compromisso no serviço da Verdade.

Conversão: Deus e dogma

Newman, em foto mais jovem.

O Cardeal Newman nasceu em Londres, a 21 de fevereiro de 1801. Foi criado na tradição anglicana e, na juventude, tinha uma forte inclinação religiosa, que se expressava na leitura da Bíblia. Desde a mais tenra idade, a Sagrada Escritura forneceu-lhe altos padrões morais, mas seu potencial intelectual exigia algo mais preciso e mais claramente definido.

Bem cedo, quando contava apenas 14 anos, ele foi tentado pela descrença e pela autossuficiência. Queria ser um homem honrado, mas sem acreditar em Deus. “Lembro-me que queria ser virtuoso sem ser religioso”, escreve. “Eu não havia entendido o que significava amar a Deus.” Enquanto o jovem estudante lutava com essa tentação, Deus bateu-lhe à porta do coração.

Durante as férias de 1816, ele leu Force of Truth, de Thomas Scott, e o conteúdo do livro deixou-lhe uma profunda impressão. Experimentou em seguida sua “primeira conversão”, que ele mesmo considerava uma das graças mais significativas de sua vida. A experiência envolvia uma consciência aguçada da existência e da presença de Deus, bem como do mundo invisível.

Em sua Apologia pro vita sua, Newman confessou que essa experiência teve uma grande influência em sua personalidade,

isolando-me dos objetos que me rodeavam, confirmando-me na desconfiança da realidade dos fenômenos materiais e fazendo com que concentrasse todos os meus pensamentos em dois seres, dois únicos seres, de evidência luminosa e absoluta, eu e meu Criador. [2]

Ele também escolheu da obra de Scott duas frases que marcariam toda a sua vida: “É preferível a santidade à paz” e “O progresso é a única evidência da vida” [3].

Depois dessa primeira conversão, Newman procurou amar a Deus sobre todas as coisas e seguir a Verdade sem concessões:

Aos quinze anos (no outono de 1816), operou-se uma grande mudança nos meus pensamentos. Sofri o influxo de um credo bem definido, meu espírito ressentiu a impressão do que era um dogma, impressão que, graças a Deus, nunca mais me deixou, nem se ofuscou. [4]

Ele começou a perceber, então, a importância dos grandes dogmas cristãos: a Encarnação do Filho de Deus, a obra da Redenção de Cristo, o dom do Espírito que habita na alma da pessoa batizada, a fé que não pode permanecer como uma simples teoria, devendo exprimir-se em um programa de vida.

O Movimento de Oxford

Depois de seus estudos no Trinity College, em Oxford, Newman foi eleito fellow do Oriel College. Tornou-se ministro anglicano e, depois, vigário de Santa Maria, igreja da Universidade de Oxford. No Oriel College ele conheceu alguns representantes da Alta Igreja Anglicana e começou a se interessar pelos Padres da Igreja. Neles descobriu o frescor e a honestidade da Igreja primitiva, que tinha de lançar raízes em um mundo pagão.

O Cardeal Newman em Roma.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais insatisfeito com a situação espiritual de sua confissão religiosa e preocupado com a crescente influência do liberalismo em Oxford e por toda a Inglaterra. Para combater essas tendências, Newman, juntamente com alguns amigos, fundou o Movimento de Oxford em 1833. Seus defensores denunciavam o distanciamento da nação da prática da fé e lutavam por um retorno ao Cristianismo primitivo por meio de uma sadia reforma dogmática, espiritual e litúrgica.

Newman resume o princípio fundamental do Movimento de Oxford com as seguintes palavras:

Minha luta era contra o liberalismo. Por liberalismo entendia o princípio antidogmático e seus desenvolvimentos. […] Desde os quinze anos, o dogma tem sido o princípio fundamental da minha religião; não conheço outra; não posso conceber a ideia de nenhuma outra religião. Religião de puro sentimento é um sonho e um escárnio. Piedade que prescinde da existência de um Ser Supremo é o mesmo que amor filial sem pais. [5]

Fica claro, a partir disso, que a doutrina do liberalismo que Newman rejeitava é idêntica à concepção relativista da religião e da moral.

Publicando tracts (“panfletos”) fáceis de disseminar, o Movimento de Oxford se esforçava por penetrar as consciências dos eclesiásticos, bem como dos simples fiéis, que se encontravam entre os extremos do sentimentalismo e do racionalismo.

Newman percebeu que a polêmica contra o liberalismo religioso exigia uma doutrina fundamental sólida. Ele estava convencido de ter encontrado a base para tanto nos escritos dos Padres, que ele admirava como os verdadeiros arautos e mestres da fé cristã, representantes daquela religião antiga “que praticamente desaparecera desta terra e que devia ser ressuscitada”.

Enquanto o Movimento de Oxford se expandia, Newman desenvolveu a teoria da Via Media. Com isso ele pretendia demonstrar que a Comunhão Anglicana era a legítima herdeira do Cristianismo primitivo e a verdadeira Igreja de Cristo, já que não possuía nenhum sinal nem dos erros doutrinais dos protestantes nem da corrupção e dos abusos que ele acreditava existir na Igreja de Roma.

Em direção à Igreja Católica

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

A Via Media de Newman estava calcada no dogma, no sistema sacramental e no antirromanismo. Entretanto, estudando a história da Igreja no século IV, Newman fez uma grande descoberta: percebeu o Cristianismo do seu próprio século refletido em três grupos religiosos daquele período: nos arianos, os protestantes; nos ortodoxos, a Igreja de Roma; nos semiarianos, os anglicanos [6]. Essa constatação suscitou-lhe as primeiras dúvidas a respeito da Comunhão Anglicana.

Pouco tempo depois, ele leu um artigo no qual a posição dos donatistas africanos à época de Agostinho era comparada à dos anglicanos. Newman não conseguia esquecer a frase: Securus judicat orbis terrarum, citada por Santo Agostinho [7]: “A Igreja universal, em seus juízos, está segura da Verdade”, na tradução do próprio Newman.

Ele percebeu que os conflitos doutrinários na Igreja antiga eram resolvidos não só com base no princípio da antiguidade, mas também no da catolicidade: a opinião da Igreja como um todo é um decreto infalível. Consequentemente, “a teoria da Via Media ficava absolutamente pulverizada”.

Fiel ao princípio de respeitar a Verdade, Newman decidiu retirar-se em Littlemore, um pequeno vilarejo próximo de Oxford, para alguns anos de oração e estudo. Ele começou a juntar as peças de uma reflexão que há anos o ocupava: se a Igreja Católica Romana faz parte da sucessão apostólica, como justificar aquelas doutrinas suas que não pareciam fazer parte do patrimônio de fé legado pelo Cristianismo primitivo?

O princípio do desenvolvimento autêntico que ele formulou habilitava-o a justificar vários novos ensinamentos na vida da Igreja: os dogmas tardios eram desenvolvimentos autênticos da Revelação original. Ele ilustrou esse argumento, crucial para o seu futuro, em um ensaio intitulado An Essay on the Development of Christian Doctrine.

Nesta obra-prima teológica, há uma passagem em que, rejeitando a ideia de que verdade e erro em matéria religiosa seriam supostamente uma questão de opinião e de que a salvação não dependeria de uma profissão correta da fé, Newman reafirma o que costumava chamar de princípio dogmático:

De que há, portanto, uma verdade; de que há uma só verdade; de que o erro religioso é, em si mesmo, de natureza imoral; de que seus defensores, a menos que o façam involuntariamente, são culpados em defendê-lo; de que ele é de se temer; de que a busca pela Verdade não é a gratificação da curiosidade; de que sua obtenção não tem nada do entusiasmo de uma descoberta; de que a mente está sujeita à verdade e, portanto, não lhe é superior, estando aquela obrigada não a dissertar sobre esta, mas a venerá-la; de que a verdade e a falsidade são colocadas diante de nós para provar os nossos corações; de que nossa escolha é um terrível desenho do destino no qual está inscrita ou a nossa salvação ou a nossa condenação; de que “quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica”; de que “quem quiser salvar-se deve pensar assim a respeito da Trindade” (cf. Símbolo Atanasiano), e não de outro modo; de que, “se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência, buscando-a como se procura a prata, se a pesquisares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus” (Pr 2, 3-5). Esse é o princípio dogmático, que tem força.

Enquanto Newman assim procedia com seus estudos sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, ele percebeu que a Igreja de Roma era a Igreja dos Padres, a verdadeira Igreja de Cristo.

Em sua Apologia ele escreveu:

Tudo isso levou-me a examinar mais atentamente o que não duvido fosse de muito objeto das minhas considerações, isto é, o encadeamento de argumentos por meio do qual o espírito progride das suas primeiras ideias religiosas até às últimas; cheguei à conclusão de que em verdadeira filosofia não há meio termo entre ateísmo e catolicismo, e de que um espírito consequente consigo mesmo, nas circunstâncias em que se acha neste mundo, deve abraçar um ou outro. [8]

Em 9 de outubro de 1845, Newman abraçou a fé católica e foi recebido na Igreja — “no único redil de Cristo” [9], como ele escreveu — pelo beato Dominic Barberi, um passionista italiano.

“Testes” pela Verdade

O Cardeal Newman, já em idade avançada.

Depois de ordenar-se padre católico, Newman fundou o Oratório de São Filipe Néri em Birmingham. Em suas muitas atividades pastorais e teológicas, trabalhou sobretudo para formar intelectual e espiritualmente os fiéis católicos, seus confrades e novos convertidos. De fato, ele estava convencido de que os grandes desenvolvimentos culturais e sociais da época exigiam uma fé que fosse capaz de demonstrar as razões para se ter esperança.

Em meio a numerosas dificuldades e desentendimentos de vários lados, ele trabalhou incansavelmente para incutir cultura nos leigos, “pessoas do mundo para o mundo”, mas que fossem iluminados por uma fé radiante, que eles mesmos seriam capazes de defender.

Veio à luz em 1870 uma obra sua intitulada An Essay in Aid of a Grammar of Assent. Neste outro clássico, Newman analisa filosoficamente o ato de assentimento da mente humana às verdades reveladas, procurando defender o direito das pessoas comuns à segurança nessa matéria, ainda que elas não sejam capazes de justificar e formular a fé por si mesmas. Nesse ensaio, o autor mostra de modo convincente e oportuno como a mente pode alcançar segurança, tanto em geral quanto na área da fé.

Na seção que conclui o livro, Newman nos dá como legado uma bonita passagem na qual resume o difícil teste pela Verdade, comparando-a com a religião natural, as promessas feitas aos ao povo de Israel e as várias religiões que havia espalhadas pelo Império Romano. Esta passagem, particularmente importante no mundo de hoje, onde o Cristianismo é chamado a se afirmar e espalhar em uma sociedade pluralista e multirreligiosa, diz o seguinte:

A religião natural é baseada no sentido de pecado; ela reconhece a doença, mas não é capaz de encontrar, só o que ela faz é procurar, o remédio. Esse remédio, tanto para a culpa quanto para a impotência moral, encontra-se na doutrina central da Revelação, a Mediação de Cristo.

É assim que o Cristianismo é o cumprimento da promessa feita a Abraão e das revelações mosaicas. Foi deste modo que, desde o começo, ele foi capaz de ocupar o mundo e dominar cada classe social que seus pregadores alcançavam; foi por isso que o poder romano, bem como as inúmeras religiões por ele abraçadas, não lhe puderam resistir; foi esse o segredo de sua energia perene e de seus martírios intermináveis; é por isso que, no presente, ele é tão misteriosamente poderoso, apesar dos novos e temíveis adversários que lhe obstruem o caminho.

O Cristianismo traz consigo aquele dom de estancar e curar a chaga profunda da natureza humana, fato que conta mais para o seu sucesso do que uma enciclopédia repleta de conhecimento científico e uma livraria inteira de controvérsias, e por essa razão ele deve durar enquanto durar a natureza humana. Trata-se de uma verdade vital que não envelhecerá jamais.

Algumas pessoas falam do Cristianismo como se fosse uma coisa da história, com influências apenas indiretas sobre os tempos modernos, mas eu não posso consentir em que ele seja uma religião meramente histórica. Suas fundações certamente se encontram em gloriosas memórias passadas, mas seu poder está no presente. Não se trata de “saudosismo”; nós não o contemplamos em conclusões retiradas de documentos mudos e eventos mortos, mas através da fé exercida sobre objetos eternos, da posse e do uso de dons sempre recorrentes.

Nossa comunhão com o Cristianismo está no invisível, não no obsoleto. Até os dias de hoje seus ritos e cerimônias estão continuamente revelando a intervenção ativa daquela Onipotência em que há muito tempo começou a religião. Primeiramente e acima de tudo está a Santa Missa, na qual Ele, que morreu uma vez por nós sobre a Cruz, traz de volta e perpetua, através de sua presença literal nela, aquele único e mesmo sacrifício que não se pode repetir.

Depois, há a verdadeira entrada dEle, em corpo, alma e divindade, no corpo e na alma de cada adorador que dEle se aproxima para receber esse dom — um privilégio mais íntimo do que se convivêssemos com Ele durante sua estadia temporária e de longa data sobre a terra.

Há então, além disso, a sua permanência pessoal em nossas igrejas, elevando toda liturgia terrena a um antegozo do céu.

Tal é o modo como se professa o Cristianismo e, eu repito, o próprio fato de ele “adivinhar” as nossas necessidades constitui, em si mesmo, uma prova de que ele é realmente o suprimento delas.

Contra o liberalismo religioso

Concluímos retornando ao discurso de Newman, feito quando de sua elevação ao Colégio de Cardeais. Naquela ocasião, ele renovou seu protesto contra o liberalismo religioso, dando uma descrição precisa daquilo em que ele consiste — uma descrição cujo caráter profético é óbvio em nossa época:

Liberalismo em religião é a doutrina de que não existe nenhuma verdade positiva em religião, mas de que um credo é tão bom quanto qualquer outro, e é esse o ensinamento que está ganhando força e substância dia após dia. É inconsistente com qualquer reconhecimento de uma religião como verdadeira. Ensina que todas devem ser toleradas, pois todas são uma questão de opinião.

A religião revelada não é uma verdade, mas um sentimento e um “gosto”; não se trata de um fato objetivo, milagroso; e é direito de cada indivíduo fazê-la dizer apenas o que lhe manda a fantasia.

A devoção não necessariamente se funda sobre a fé. Os homens podem ir a igrejas protestantes e a católicas, podem se alimentar das duas e pertencer a nenhuma delas. Podem confraternizar juntos em pensamentos e sentimentos espirituais, sem ter quaisquer visões de doutrina em comum, nem ver a necessidade disso.

Visto que, então, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e privada, nós devemos necessariamente ignorá-la nas relações humanas. Se uma pessoa “veste” uma nova religião a cada manhã, ninguém tem nada a ver com isso. Pensar sobre a religião de uma pessoa é tão impertinente quanto pensar em suas fontes de renda ou na gestão de sua família. A religião em nenhum sentido é o vínculo da sociedade.

Hoje nós somos testemunhas de uma mentalidade, difundida em muitos ambientes, que sustenta precisamente essas ideias, denunciadas por Newman, com consequências muito graves para a causa da Verdade, para o diálogo ecumênico e interreligioso, para a liturgia e a espiritualidade, bem como para a dimensão social e cultural da fé.

O Beato Cardeal Newman pode lembrar a todos, pastores e fiéis leigos, que a Verdade é um tesouro muito precioso a ser aceito com fé, proclamado com honestidade e defendido com força. “Normalmente a Igreja nada tem a fazer”, assim conclui o Cardeal Newman o seu discurso, “a não ser cumprir com seus próprios deveres, com confiança e em paz, esperando ver a salvação de Deus”.

Referências

  1. “Desde o fim do século XVIII a palavra [Liberalismo] tem sido aplicada mais e mais a certas tendências na vida intelectual, religiosa, política e econômica, que implicam uma emancipação parcial ou total do homem em relação à ordem divina, sobrenatural e moral. […] [O Liberalismo Católico], em geral, advoga largueza na interpretação do dogma, descuido ou desconsideração com os decretos disciplinares e doutrinais das congregações romanas, simpatia pelo Estado mesmo em suas ações contra a liberdade da Igreja, e uma disposição em considerar como clericalismo os esforços da Igreja em proteger os direitos da família e dos indivíduos ao livre exercício da religião.” (Gruber, H. [1910]. Liberalismo. Em: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company)
  2. John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 32.
  3. Ibid., p. 33.
  4. Ibid., p. 31.
  5. Ibid., p. 91.
  6. Cf. Ibid., pp. 167s; 197s.
  7. Cf. Ibid., p. 170.
  8. Ibid., p. 266.
  9. Ibid., p. 307.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

“Juntando os caquinhos da mãe que o mundo havia destruído em mim”
Testemunhos

“Juntando os caquinhos da mãe
que o mundo havia destruído em mim”

“Juntando os caquinhos da mãe que o mundo havia destruído em mim”

“Mentiram para mim. Matrimônio não é prisão, filhos não são um peso, são o encontro com a vontade de Deus, com a vocação para a qual ele nos chamou.”

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2018
imprimir

Gostaria muito de agradecer por cada sim dado a esse projeto que se transforma em canal da graça para transformar muitas vidas. Como um simples obrigado não é suficiente para agradecer por tantas bênçãos, gostaria de ofertar um pouco da minha história.

Meu nome é Nadja, tenho 32 anos e, como a maioria das mulheres da minha geração, fui educada, pelas circunstâncias e por nossa cultura, para valorizar a vida profissional. Minha mãe assumiu o papel de chefe da família e se tornou meu grande exemplo de mulher forte e guerreira. Cresci sonhando em ser independente, ao ponto de querer aprender sobre mecânica e consertos para não precisar de ninguém. Aos 12 anos, tinha minha vida acadêmica planejada e era disciplinada para alcançá-la. Minha intenção não era ruim. Almejava conhecimento para ter valor como pessoa, melhorar a vida dos meus pais e transformar o mundo em um lugar melhor. Casamento e filhos nunca foram parte dos planos.

Aos 16 anos, a curiosidade sobre um assunto de escola (assim acreditei na época) — o povo judeu — conduziu-me a um livro e um personagem que transformariam minha própria história. Na Bíblia, deparei-me com o que para mim era um personagem incrível: Jesus de Nazaré. Não sabia explicar o porquê, mas, naquela figura, encontrei tudo o que queria ser.

Certo dia, em meio às confusões de sentimentos com que a morte do meu pai me obrigou a entrar em contato, percebi que meus relacionamentos e sonhos, por melhores que fossem, não preenchiam a solidão, o vazio e a falta de sentido de vida que havia em mim. Pedi a Deus para me mostrar que Ele era mais que um personagem, que Ele podia transformar minha vida, como fez naquelas histórias. Mesmo sem que eu merecesse, assim Ele fez. Vivi, naqueles dias, uma grande experiência do amor de Deus. Jesus se tornou uma pessoa, um amigo, meu mestre, meu amor. Os dons guardados passaram a todo momento a apontar o grande amor de Deus por mim. Não havia mais vazio, nem solidão. Minha vida ganhou sentido.

Sonhava agora colocar meu conhecimento a serviço de Deus, mas do meu jeito. A família passou a ser uma possibilidade, mas só depois da minha pós-graduação, afinal, não havia contradição alguma em ser uma mulher cristã independente. Entretanto, a aprovação no tão sonhado curso de medicina não trouxe a realização que eu esperava; na verdade, foram anos de grandes batalhas interiores.

O desejo de ter uma família crescia, apaixonei-me pelo tema, li muito. As pessoas se tornaram mais importantes que os estudos e minha grande realização encontrei como catequista.

No tempo certo, conheci o homem que hoje é meu esposo. De cara, minha independência trouxe grandes dificuldades ao nosso relacionamento. Eu não sabia partilhar meus sentimentos, queria continuar resolvendo tudo sozinha, não sabia cuidar e tinha muita resistência em ser cuidada. Não fazia a mínima ideia do que era ceder e submeter-se; mesmo que fosse a Deus, ainda era inaceitável. Pouco a pouco, com ajuda e muita paciência do meu futuro esposo, fui encontrando minha feminilidade. Construir uma família, em Deus, tornou-se meu grande sonho e a necessidade de deixar os antigos surgiu. Abandonei minha tão sonhada e planejada pós-graduação ao entender que ela, de diversas formas, impedia-me de ser aquilo que, agora em Deus, eu sonhava ser.

Essa mudança de planos tornou realidade um grande desejo: receber o sacramento do Matrimônio e começar uma nova família, onde encontrei minha vocação. Caná se tornou uma realidade viva.

Entretanto, ter filhos era uma grande dificuldade para mim. Não usei métodos contraceptivos por pura obediência, sempre reforçada por meu esposo, mas a luta interna que se travou em mim daria outro testemunho. Eu tinha muito medo de que os filhos atrapalhassem minha vida profissional, financeira, minha liberdade e minha relação com meu esposo, mas o maior medo era que meu imenso egoísmo não me permitisse amá-los. Seria impossível abdicar de tanto por alguém.

Ganhamos a coletânea de palestras “Educar para o Céu”, do Padre Paulo Ricardo. Tudo começou a fazer sentido ali… mudou a minha forma de ver as crianças e o nosso papel como adultos. Assisti a outros vídeos, li textos, testemunhos, e Deus, pouco a pouco, foi juntando os caquinhos da mãe que o mundo havia destruído em mim. Certo dia, atendendo um bebezinho, senti forte no meu coração um sentimento que dizia: “É isso que eu quero, que você lute para preservar a inocência, lute contra o mal, devolva-o a mim melhor”. Senti muita segurança naquele dia. Duas semanas depois, descobri que estava grávida.

Muitas emoções brigaram dentro de mim. Senti medo de não ser uma boa mãe. Quis voltar no tempo, quis não ter engravidado, ter usado anticoncepcional. Senti-me irresponsável por conceber uma vida sem ser capaz de amá-la. Então pedi com muita fé a Maria que me ajudasse. Que o corpo da minha filhinha fosse gerado em mim, mas sua alma fosse abrigada em seu Coração Imaculado. Pedi também que ela me acolhesse em seu ventre e me gerasse uma nova mulher, uma mãe. Que assumisse com sua maternidade os momentos nos quais as minhas limitações me fizessem falhar.

Nesse dia, o coração de mãe em caquinhos que eu carregava foi restaurado, o medo deu lugar à esperança e vivi minha gravidez com muita alegria e gratidão. Que tempo abençoado, quanta providência de Deus, quanto amadurecimento. Infelizmente, as palavras não descrevem tamanha felicidade. Nasceu minha Gianna Maria e, com ela, eu nasci como mãe. Nos cuidados com ela e com meu esposo, na catequese, no acolhimento da Igreja que Deus nos confiou, encontrei o que tanto busquei, encontrei a mim mesma.

Senti-me revoltada algumas vezes. Mentiram para mim. Matrimônio não é prisão, filhos não são um peso, são o encontro com a vontade de Deus, com a vocação para a qual ele nos chamou. Existem sacrifícios? Claro, mas isso não é ruim, pelo contrário, é encontrar a grande alegria de se libertar de si, dos nossos caprichos, das nossas vontades, é caminhar em direção à verdadeira liberdade. Ainda há medo de errar? Sim, mas há esperança maior que Deus nos quer com Ele, que Maria nos acolhe, que os anjos batalham e os santos, especialmente minha querida Gianna Molla, intercedem pela salvação da nossa família.

Querido Padre Paulo Ricardo, queridos colaboradores do site, alunos e cada pessoa envolvida nesse projeto de evangelização, muito obrigada por lutarem também. Que a cada dia novas mulheres se encontrem consigo mesmas, com sua feminilidade e descubram a alegria da maternidade e da vocação à qual Deus nos chamou.

Referências

  • Testemunho enviado por Nadja ao nosso suporte, em 30 de outubro de 2016.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Os dez princípios do conservadorismo
Política

Os dez princípios do conservadorismo

Os dez princípios do conservadorismo

O conservadorismo é um estado da mente, um tipo de caráter, uma maneira de olhar para a ordem social e civil. Eis aqui dez princípios gerais desse conjunto de opiniões, formulados pelo filósofo Russell Kirk.

Russell KirkTradução:  Padre Paulo Ricardo12 de Novembro de 2018
imprimir

Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões designado como conservadorismo não possui nem uma Escritura Sagrada nem um Das Kapital que lhe forneça um dogma. Na medida em que seja possível determinar o que os conservadores crêem, os primeiros princípios do pensamento conservador provêm daquilo que professaram os principais escritores e homens públicos conservadores ao longo dos últimos dois séculos. Sendo assim, depois de algumas observações introdutórias a respeito deste tema geral, eu irei arrolar dez destes princípios conservadores.

Talvez seja mais apropriado, a maior parte das vezes, usar a palavra “conservador” principalmente como adjetivo. Porque não existe um Modelo Conservador, sendo o conservadorismo, na verdade, a negação da ideologia: trata-se de um estado da mente, de um tipo de caráter, de uma maneira de olhar para a ordem social civil.

A atitude que nós chamamos de conservadorismo é sustentada por um conjunto de sentimentos, mais do que por um sistema de dogmas ideológicos. É quase verdade que um conservador pode ser definido como sendo a pessoa que se acha conservadora. O movimento ou o conjunto de opiniões conservadoras pode comportar uma diversidade considerável de visões a respeito de um número considerável de temas, não havendo nenhuma Lei do Teste (Test Act) [1] ou Trinta e Nove Artigos (Thirty-Nine Articles) [2] do credo conservador.

Em suma, uma pessoa conservadora é simplesmente uma pessoa que considera as coisas permanentes mais satisfatórias do que o “caos e a noite primitiva” [3]. (Mesmo assim, os conservadores sabem, como Burke, que a saudável “mudança é o meio de nossa preservação”.) A continuidade da experiência de um povo, diz o conservador, oferece uma direção muito melhor para a política do que os planos abstratos dos filósofos de botequim. Mas é claro que a convicção conservadora é muito mais do que esta simples atitude genérica.

Não é possível redigir um catálogo completo das convicções conservadoras; no entanto, ofereço aqui, de forma sumária, dez princípios gerais; tudo indica que se possa afirmar com segurança que a maioria dos conservadores subscreveria a maior parte destas máximas. Nas várias edições do meu livro The Conservative Mind (“A Mentalidade Conservadora”, ainda sem tradução para o português), fiz uma lista de alguns cânones do pensamento conservador — a lista foi sendo levemente modificada de uma edição para a outra; em minha antologia The Portable Conservative Reader, ofereço algumas variações sobre este assunto.

Agora, lhes apresento uma resenha dos pontos de vista conservadores que difere um pouco dos cânones que se encontram nestes meus dois livros. Por fim, as diferentes maneiras através das quais as opiniões conservadoras podem se expressar são, em si mesmas, uma prova de que o conservadorismo não é uma ideologia rígida. Os princípios específicos enfatizados pelos conservadores, em um dado período, variam de acordo com as circunstâncias e as necessidades daquela época. Os dez artigos de convicções abaixo refletem as ênfases dos conservadores americanos da atualidade.

Primeiro, um conservador crê que existe uma ordem moral duradoura. Esta ordem é feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma constante e as verdades morais são permanentes.

Esta palavra ordem quer dizer harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem exterior da comunidade. Vinte e cinco séculos atrás, Platão ensinou esta doutrina, mas hoje em dia até as pessoas instruídas acham difícil de compreendê-la. O problema da ordem tem sido uma das principais preocupações dos conservadores desde que a palavra conservador se tornou um termo político.

O nosso mundo do século XX experimentou as terríveis conseqüências do colapso na crença em uma ordem moral. Assim como as atrocidades e os desastres da Grécia do século V a.C., a ruína das grandes nações, em nosso século, nos mostra o poço dentro do qual caem as sociedades que fazem confusão entre o interesse pessoal, ou engenhosos controles sociais, e as soluções satisfatórias da ordem moral tradicional.

O filósofo político Russell Kirk, autor destas linhas.

Foi dito pelos intelectuais progressistas que os conservadores acreditam que todas as questões sociais, no fundo, são uma questão de moral pessoal. Se entendida corretamente, esta afirmação é bastante verdadeira. Uma sociedade onde homens e mulheres são governados pela crença em uma ordem moral duradoura, por um forte sentido de certo e errado, por convicções pessoais sobre a justiça e a honra, será uma boa sociedade — não importa que mecanismo político se possa usar; enquanto se uma sociedade for composta de homens e mulheres moralmente à deriva, ignorantes das normas, e voltados primariamente para a gratificação de seus apetites, ela será sempre uma má sociedade — não importa o número de seus eleitores e não importa o quanto seja progressista sua constituição formal.

Segundo, o conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade. É o costume tradicional que permite que as pessoas vivam juntas pacificamente; os destruidores dos costumes demolem mais do que o que eles conhecem ou desejam. É através da convenção — uma palavra bastante mal empregada em nossos dias — que nós conseguimos evitar as eternas discussões sobre direitos e deveres: o Direito é fundamentalmente um conjunto de convenções. Continuidade é uma forma de atar uma geração com a outra; isto é tão importante para a sociedade com o é para o indivíduo; sem isto a vida seria sem sentido. Revolucionários bem sucedidos conseguem apagar os antigos costumes, ridicularizar as velhas convenções e quebrar a continuidade das instituições sociais — motivo pelo qual, nos últimos tempos, eles têm descoberto a necessidade de estabelecer novos costumes, convenções e continuidade; mas este processo é lento e doloroso; e a nova ordem social que eventualmente emerge pode ser muito inferior à antiga ordem que os radicais derrubaram um seu zelo pelo Paraíso Terrestre.

Os conservadores são defensores do costume, da convenção e da continuidade porque preferem o diabo conhecido ao diabo que não conhecem. Eles crêem que ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício. Por isto, o organismo social é uma espécie de corporação espiritual, comparável à Igreja; pode até ser chamado de comunidade de almas. A sociedade humana não é uma máquina, para ser tratada mecanicamente. A continuidade, a seiva vital de uma sociedade não pode ser interrompida. A necessidade de uma mudança prudente, recordada por Burke, está na mente de um conservador. Mas a mudança necessária, redarguem os conservadores, deve ser gradual e discriminatória, nunca se desvencilhando de uma só vez dos antigos cuidados.

Terceiro, os conservadores acreditam no que se poderia chamar de princípio do preestabelecimento. Os conservadores percebem que as pessoas atuais são anões nos ombros de gigantes, capazes de ver mais longe do que seus ancestrais apenas por causa da grande estatura dos que nos precederam no tempo. Por isto os conservadores com freqüência enfatizam a importância do preestabelecimento — ou seja, as coisas estabelecidas por costume imemorial, de cujo contrário não há memória de homem que se recorde. Há direitos cuja principal ratificação é a própria antiguidade — inclusive, com freqüência, direitos de propriedade. Da mesma forma a nossa moral é, em grande parte, preestabelecida. Os conservadores argumentam que seja improvável que nós modernos façamos alguma grande descoberta em termos de moral, de política ou de bom gosto. É perigoso avaliar cada tema eventual tendo como base o julgamento pessoal e a racionalidade pessoal. O indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, declarou Burke. Na política nós agimos bem se observarmos o precedente, o preestabelecido e até o preconceito, porque a grande e misteriosa incorporação da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior do que a mesquinha racionalidade privada de uma pessoa.

Quarto, os conservadores são guiados pelo princípio da prudência. Burke concorda com Platão que entre os estadistas a prudência é a primeira das virtudes. Toda medida política deveria ser medida a partir das prováveis conseqüências de longo prazo, não apenas pela vantagem temporária e pela popularidade. Os progressistas e os radicais, dizem os conservadores, são imprudentes: porque eles se lançam aos seus objetivos sem dar muita importância ao risco de novos abusos, piores do que os males que esperam varrer. Com diz John Randolph de Roanoke, a Providência se move devagar, mas o demônio está sempre com pressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios não podem ser simples, se desejam ser eficazes. O conservador afirma que só agirá depois de uma reflexão adequada, tendo pesado as conseqüências. Reformas repentinas e incisivas são tão perigosas quanto as cirurgias repentinas e incisivas.

Quinto, os conservadores prestam atenção no princípio da variedade. Eles gostam do crescente emaranhado de instituições sociais e dos modos de vida tradicionais, e isto os diferencia da uniformidade estreita e do igualitarismo entorpecente dos sistemas radicais. Em qualquer civilização, para que seja preservada uma diversidade sadia, devem sobreviver ordens e classes, diferenças em condições materiais e várias formas de desigualdade. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Juízo Final e a igualdade diante do tribunal de justiça; todas as outras tentativas de nivelamento irão conduzir, na melhor das hipóteses, à estagnação social. Uma sociedade precisa de liderança honesta e capaz; e se as diferenças naturais e institucionais forem abolidas, algum tirano ou algum bando de oligarcas desprezíveis irá rapidamente criar novas formas de desigualdade.

Hitler e Mussolini, exemplos de ideólogos que “transformaram boa parte do século XX em um inferno terrestre”.

Sexto, os conservadores são refreados pelo princípio da imperfectibilidade. A natureza humana sofre irremediavelmente de certas falhas graves, bem conhecidas pelos conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita poderá jamais ser criada. Por causa da inquietação humana, a humanidade tornar-se-ia rebelde sob qualquer dominação utópica e se desmantelaria, mais uma vez, em violento desencontro — ou então morreria de tédio. Buscar a utopia é terminar num desastre, dizem os conservadores: nós não

somos capazes de coisas perfeitas. Tudo o que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade que seja sofrivelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustes e desprazeres continuarão a se esconder. Dando a devida atenção à prudente reforma, podemos preservar e aperfeiçoar esta ordem sofrível. Mas se os baluartes tradicionais de instituição e moralidade de uma nação forem negligenciados, se dá largas ao impulso anárquico que está no ser humano: “afoga-se o ritual da inocência” [4]. Os ideólogos que prometem a perfeição do homem e da sociedade transformaram boa parte do século XX em um inferno terrestre.

Sétimo, os conservadores estão convencidos que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas. Separe a propriedade do domínio privado e Leviatã se tornará o mestre de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada, construíram-se grandes civilizações. Quanto mais se espalhar o domínio da propriedade privada, tanto mais a nação será estável e produtiva. Os conservadores defendem que o nivelamento econômico não é progresso econômico. Aquisição e gasto não são as finalidades principais da existência humana; mas deve-se desejar uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade.

Sir Henry Maine, em sua Village Communities, defende vigorosamente a causa da propriedade privada, como diferente da propriedade pública: “Ninguém pode ao mesmo tempo atacar a propriedade privada e dizer que aprecia a civilização. A história destas duas realidades não pode ser desintrincada”. Pois a instituição da propriedade privada tem sido um instrumento poderoso, ensinando a responsabilidade a homens e mulheres, dando motivos para a integridade, apoiando a cultura geral e elevando a humanidade acima do nível do mero trabalho pesado, proporcionando tempo livre para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de guardar o fruto do próprio trabalho; ser capaz de ver o próprio trabalho transformado em algo de duradouro; ser capaz de deixar em herança a sua propriedade para sua posteridade; ser capaz de se erguer da condição natural da oprimente pobreza para a segurança de uma realização estável; ter algo que é realmente propriedade pessoal — estas são vantagens difíceis de refutar. O conservador reconhece que a posse de propriedade estabelece certos deveres do possuidor; ele reconhece com alegria estas obrigações morais e legais.

Oitavo, os conservadores promovem comunidades voluntárias, assim como se opõem ao coletivismo involuntário. Embora os americanos tenham se apegado vigorosamente aos direitos privados e de privacidade, também têm sido um povo conhecido por seu bem sucedido espírito comunitário. Na verdadeira comunidade, as decisões que afetam de forma mais direta as vidas dos cidadãos são tomadas no âmbito local e de forma voluntária. Algumas destas funções são desempenhadas por organismos políticos locais, outras por associações privadas: enquanto permanecem no âmbito local e são caracterizadas pelo comum acordo das pessoas envolvidas, elas constituem comunidades saudáveis. Mas quando as funções, quer por deficiência, quer por usurpação, passam para uma autoridade central, a comunidade se encontra em sério perigo. Se existe algo de benéfico ou prudente em uma democracia moderna, isto se dá através da volição cooperativa. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma coordenação política distante, o governo verdadeiro, através do consentimento dos governados, cede lugar para um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humanas.

Uma nação não é mais forte do que as numerosas pequenas comunidades pelas quais é composta. Uma administração central, ou um grupo seleto de administradores e servidores públicos, por mais bem intencionado e bem treinado que seja, não pode produzir justiça, prosperidade e tranqüilidade para uma massa de homens e mulheres privada de suas responsabilidades de outrora. Esta experiência já foi feita; e foi desastrosa. É a realização de nossos deveres em comunidade que nos ensina a prudência, a eficiência e a caridade.

Nono, o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas. Politicamente falando, poder é a capacidade de se fazer aquilo que se queira, a despeito da aspiração dos próprios companheiros. Um estado em que um indivíduo ou um pequeno grupo é capaz de dominar as aspirações de seus companheiros sem controles é um despotismo, quer seja monárquico, aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa pretende ser um poder em si mesmo, então a sociedade se transforma numa anarquia. A anarquia nunca dura muito tempo porque é intolerável para todos e contrária ao fato irrefutável de que algumas pessoas são mais fortes e espertas do que seus próximos. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, nas quais o poder é monopolizado por pouquíssimos.

O conservador se esforça por limitar e balancear o poder político para que não surjam nem a anarquia, nem a tirania. No entanto, em todas as épocas, homens e mulheres foram tentados a derrubar os limites colocados sobre o poder, a favor de um capricho temporário. É uma característica do radical que ele pense o poder como uma força para o bem — desde que o poder caia em suas mãos. Em nome da liberdade, os revolucionários franceses e russos aboliram os limites tradicionais ao poder; mas o poder não pode ser abolido; e ele sempre acha um jeito de terminar nas mãos de alguém. O poder que os revolucionários pensavam ser opressor nas mãos do antigo regime, tornou-se muitas vezes mais tirânico nas mãos dos novos mestres do estado.

Sabendo que a natureza humana é uma mistura do bem e do mal, o conservador não coloca sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, freios e contrapesos políticos (checks and balances), correta coerção das leis, a rede tradicional e intricada de contenções sobre a vontade e o apetite — tudo isto o conservador aprova como instrumento de liberdade e de ordem. Um governo justo mantém uma tensão saudável entre as reivindicações da autoridade e as reivindicações da liberdade.

Décimo, o pensador conservador compreende que a estabilidade e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade robusta. O conservador não se opõe ao aprimoramento da sociedade, embora ele tenha suas dúvidas sobre a existência de qualquer força parecida com um místico Progresso, com P maiúsculo, em ação no mundo. Quando uma sociedade progride em alguns aspectos, geralmente ela está decaindo em outros. O conservador sabe que qualquer sociedade sadia é influenciada por duas forças, que Samuel Taylor Coleridge chamou de Conservação e Progressão (Permanence and Progression). A Conservação de uma sociedade é formada pelos interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade; sem esta Conservação as fontes do grande abismo se dissolvem, a sociedade resvala para a anarquia. A Progressão de uma sociedade é aquele espírito e conjunto de talentos que nos instiga a realizar uma prudente reforma e aperfeiçoamento; sem esta Progressão, um povo fica estagnado.

Por isto o conservador inteligente se esforça por reconciliar as reivindicações da Conservação e as reivindicações da Progressão. Ele pensa que o progressista e o radical, cegos aos justos reclamos da Conservação, colocariam em perigo a herança que nos foi legada, num esforço de nos apressar na direção de um duvidoso Paraíso Terrestre. O conservador, em suma, é a favor de um razoável e moderado progresso; ele se opõe ao culto do Progresso, cujos devotos crêem que tudo o que é novo é necessariamente superior a tudo o que é velho.

O conservador raciocina que a mudança é essencial para um corpo social da mesma forma que o é para o corpo humano. Um corpo que deixou de se renovar, começou a morrer. Mas se este corpo deve ser vigoroso, a mudança deve acontecer de uma forma harmoniosa, adequando-se à forma e à natureza do corpo; do contrário a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer que devora o seu hospedeiro. O conservador cuida para que numa sociedade nada nunca seja completamente velho e que nada nunca seja completamente novo. Esta é a forma de conservar uma nação, da mesma forma que é o meio de conservar um organismo vivo. Quanta mudança seja necessária em uma sociedade, e que tipo de mudança, depende das circunstâncias de uma época e de uma nação.

Assim, este são os dez princípios que tiveram grande destaque durante os dois séculos do pensamento conservador moderno. Outros princípios de igual importância poderiam ter sido discutidos aqui: a compreensão conservadora de justiça, por exemplo, ou a visão conservadora de educação. Mas estes temas, com o tempo que passa, eu deverei deixar para a sua investigação pessoal.

Eric Voegelin costumava dizer que a grande linha de demarcação na política moderna não é a divisão entre progressistas de um lado e totalitários do outro. Não, de um lado da linha estão todos os homens e mulheres que imaginam que a ordem temporal é a única ordem e que as necessidades materiais são as únicas necessidades e que eles podem fazer o que quiserem do patrimônio da humanidade. No outro lado da linha estão todas as pessoas que reconhecem uma ordem moral duradoura no universo, uma natureza humana constante e deveres transcendentes para com a ordem espiritual e a ordem temporal.

Referências

  • Adaptado de “A Política da Prudência”. Tradução do original inglês feita pelo Pe. Paulo Ricardo e publicada originalmente em 18 de setembro de 2006.

Notas

  1. Test Act: lei inglesa de 1673 que exigia dos titulares de cargos civis e militares professarem a fé da Igreja Anglicana através de uma fórmula de juramento (N. do T.).
  2. Declaração oficial da doutrina da Igreja Anglicana (N. do T.).
  3. A frase Chaos and Old Night provém do poema épico “Paraíso Perdido” (Paradise Lost), de John Milton (I, 544). Milton usa esta frase para se referir à “matéria” a partir da qual Deus ordenou e criou o mundo (N. do T.).
  4. William Buttler Yeats, The Second Coming (N. do T.).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Você certamente não faria esta pergunta a Santo Tomás de Aquino...
Fé e Razão

Você certamente
não faria esta pergunta
a Santo Tomás de Aquino...

Você certamente não faria esta pergunta a Santo Tomás de Aquino...

… mas alguém fez. “O que é mais forte?”, perguntaram-lhe. “A verdade, o vinho, o rei ou a mulher?” Veja a resposta magistral do maior dos Doutores ao que parece a mais tola das perguntas.

Santo Tomás de AquinoTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Novembro de 2018
imprimir

Certa feita, enquanto participava das costumeiras disputas acadêmicas na Universidade de Paris [1], Santo Tomás de Aquino foi confrontado com a seguinte questão, que mais parece uma brincadeira de aluno do que um problema filosófico: O que é mais forte? A verdade, vinho, o rei ou a mulher?

O que mais surpreende, porém, não é tanto a pergunta quanto a seriedade com que lhe respondeu o Doutor Angélico. Para a nossa sorte, a resposta do Aquinate, ou ao menos um resumo do que ele disse, nos foi preservada por escrito e é um excelente testemunho de que, além de bem humorado, Tomás de Aquino sabia dar às perguntas mais “bobas” as respostas mais brilhantes e encontrar em meio ao que para nós pode parecer “tolice” as verdades mais importantes.

Vejamos abaixo como o Doutor Angélico resolve esse “intrincado” problema [2]!


Se a verdade é mais forte do que o vinho, o rei e a mulher

1. Quanto à primeira questão, perguntou-se se a verdade é mais forte do que o vinho, o rei e a mulher.

E parece que seja o vinho, pois é o que mais afeta o homem. Mas o mesmo se aplica ao rei, que obriga o homem ao que é mais difícil, a saber: pôr em risco a própria vida. E o mesmo vale ainda com respeito à mulher, a quem estão sujeitos inclusive os reis.

2. Mas, em sentido contrário, lê-se em III Esdras, 4, 35 [3]: “A verdade é mais forte”.

3. Resposta. Deve-se dizer que esta é a questão que foi proposta a alguns jovens, tal como narra o livro de Esdras.

Em primeiro lugar, deve-se saber que, se consideramos essas quatro coisas em si mesmas (ou seja, o vinho, o rei, a mulher e a verdade), não podemos compará-las, uma vez que não pertencem ao mesmo gênero. No entanto, se as consideramos por referência a algum efeito comum, elas convêm em um mesmo aspecto e podem assim ser comparadas. Ora, o efeito em que elas se assemelham é a imutação do coração humano. É preciso saber, por conseguinte, qual delas é a mais capaz de imutar o coração do homem.

Pois bem, deve-se ter em mente que o homem está sujeito a alterações quanto ao corpo e quanto à sua natureza animal, que é sensível e inteligível. A parte inteligível, por sua vez, é prática e especulativa.

a) Pois bem, dentre as coisas que estão naturalmente ordenadas a imutar a disposição do corpo, o vinho é a principal, já que embriaga e deixa a voz entorpecida.

b) Mas, dentre as coisas que imutam o apetite sensitivo, a principal é o prazer, sobretudo o venéreo; e, nesse sentido, a mulher é mais forte.

c) Do mesmo modo, no que se refere à ação e às coisas humanas, o rei é quem mais poder detém.

d) Na ordem, porém, das coisas especulativas, a verdade é a mais excelente e poderosa.

Ora, as forças corporais estão subordinadas às animais, e estas, por sua vez, às intelectuais. As virtudes intelectuais de ordem prática, no entanto, subordinam-se às puramente especulativas.

Por conseguinte, a verdade, considerada em si mesma, é mais digna, excelente e forte.

Notas

  1. Trata-se do Quodlibet XII, q. 14 a. 1, traduzido pela nossa equipe com base na versão digital do Corpus Thomisticum, disponível aqui.
  2. Duas vezes ao ano, pelo Natal e pela Páscoa, celebravam-se nas universidades medievais do século XIII as chamadas disputas quodlibetais (quæstiones de quolibet), um período de discussões acadêmicas, feitas em público e não sem certa solenidade, sobre temas os mais variados, propostos livrementes pelos professores e alunos assistentes. Era uma forma ao mesmo tempo livre e rigorosa, amoldada ao método da demonstração silogística, de exercitar a inteligência e promover o debate no meio universitário. A um mestre regente se propunha algum problema, fosse de filosofia ou teologia, que ele devia solucionar em seguida do modo mais claro possível. A solução do problema era depois transcrita e arquivada. Foi assim que nos chegaram as quæstiones protagonizadas pelo Angélico.
  3. Trata-se de um livro apócrifo do Antigo Testamento.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Do rei Davi aos dias atuais, uma breve história do canto gregoriano
Liturgia

Do rei Davi aos dias atuais,
uma breve história do canto gregoriano

Do rei Davi aos dias atuais, uma breve história do canto gregoriano

Justamente por sua história, “a Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano”. Mas como se formou esse patrimônio de nossa fé? Por que seria importante resgatá-lo ainda hoje?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Novembro de 2018
imprimir

Alguém poderia pensar que não há muito o que dizer sobre algo que se chama “cantochão”. Afinal de contas, a palavra mesma já indica que se trata de algo plano e que é um canto.

Na verdade, o único sentido em que se pode dizer que o canto gregoriano é “plano” é que suas belas melodias foram compostas para cantar-se sem acompanhamento e harmonização, como convém à antiga cultura monástica da qual elas nasceram. Isto a que chamamos canto gregoriano é uma das formas de arte mais ricas e sutis na música ocidental — na música de qualquer cultura, melhor dizendo.

A tradição de cantar a Escritura, uma prática conhecida como cantilena, começou pelo menos mil anos antes do nascimento de Cristo. Vários livros do Antigo Testamento, especialmente os Salmos e as Crônicas, atestam a função central que desempenhava a música no culto do Templo. Algumas melodias gregorianas ainda em uso são notavelmente próximas das melodias cantadas nas sinagogas hebraicas, como o tonus peregrinus usado para o Salmo 113, In exitu Israel, o antigo tom do Evangelho e o tom do Prefácio.

Como o saltério de Davi foi composto justamente com o propósito de ser usado no culto divino, e sendo o livro messiânico por excelência, vemos Pedro, Paulo e os Padres apostólicos citando-o abundantemente em sua pregação. Os primeiros cristãos escolhiam espontaneamente o saltério como seu “livro de oração”. A liturgia cristã como um todo, então, emergiu desta combinação de saltério e sacrifício. O primeiro é o “incenso verbal” de nossas orações e louvores, o culto prestado por nossa inteligência; o segundo, a morte e destruição cruenta de um animal, é o oferecimento total de nosso ser a Deus. Na Missa, esses dois elementos se combinam de um modo maravilhoso para formar o sacrifício racional consistente na oferta perfeita de Jesus Cristo sobre o altar, que une nossas orações e louvores aos dEle, tornando-os dignos da Santíssima Trindade.

São Gregório Magno, pintado por Francisco de Zurbarán.

O canto desenvolveu-se prodigiosamente ao longo do primeiro milênio de cristianismo. Pela época em que temos como Papa a São Gregório Magno, que reinou de 590 a 604, um corpo de cantos já existia para o sacrifício da Missa e a rotina diária de oração (o Ofício Divino, também conhecido como Liturgia das Horas). Ao dar forma final ao Cânon Romano, que é o traço mais característico do rito latino, São Gregório organizou esse repertório musical e, em consequência, o canto passou desde então a ser honrado com o seu nome: gregoriano.

Com o passar do tempo, não só os salmos e suas antífonas receberam forma musical, mas também as leituras da Escritura, as orações, as intercessões, as ladainhas, as instruções (como o Flectamus genua, da Sexta-feira Santa), tudo o que devesse, enfim, ser proclamado de alta voz. O conteúdo do repertório musical gregoriano remonta a antes do ano 800; seu acabamento deu-se por volta do ano 1200.

Como o canto era a música, feita “sob medida”, que havia crescido com a liturgia da Igreja, para onde esta viajasse, aquela viajaria junto. Ninguém sonhava em separar os textos da liturgia de sua música; eles eram como um composto de corpo e alma, ou um casal unido em santo e indissolúvel matrimônio. Seria possível comparar o canto às vestimentas usadas pelo ministro da liturgia. Uma vez desenvolvido esse vestuário cerimonial, ninguém em sã consciência pensaria em se livrar da casula, da estola, da alva, do amito e do manípulo. Esses são os trajes que os ministros do Rei têm o privilégio de usar! Assim também, os cantos são os trajes usados pelos textos litúrgicos.

O Concílio de Trento, no século XVI, confirmou o lugar do canto na liturgia e desencorajou o uso do canto polifônico excessivamente complexo, especialmente quando baseado em músicas seculares.

Apesar disso, ao longo do tempo as velhas melodias do canto foram se abreviando ou corrompendo, obrigadas que eram a se conformar a uma batida específica, considerada a apropriada para cada época. Por volta do início do século XIX, o canto gregoriano encontrava-se em um estado de séria ruína e negligência.

Mas a restauração de um tão valioso tesouro da Igreja — e de uma parte tão essencial de sua solene liturgia — devia iniciar-se mais cedo ou mais tarde. E ela veio por meio dos esforços conjuntos de um monge e um Papa. Dom Próspero Guéranger (1805-1875) fundou a Abadia de Solesmes em 1833 e transformou-a em centro de referência da observância monástica, com o Ofício Divino e a Missa cantados integralmente. Os monges de Solesmes debruçaram-se sobre manuscritos antigos em seu trabalho de restaurar as melodias e os ritmos característicos do canto gregoriano.

Pouco depois de sua posse em 1903, o Papa São Pio X encontrou-se em Roma com monges de Solesmes e confiou-lhes a missão de publicar todos os livros litúrgicos de canto, com melodias e ritmos corrigidos. Os monges obedeceram, e Pio X deu ao trabalho deles seu selo de aprovação. Dessa instrução papal nasceu uma longa lista de publicações influentes de (ou com o selo de) Solesmes, muitas das quais ainda se encontram em uso nos dias de hoje, como o Liber Usualis, o Graduale Romanum e o Antiphonale Monasticum.

De Solesmes e Pio X à Sacrosanctum Concilium, a Constituição do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, há uma linha lógica e contínua. Eis o que o último concílio ecumênico tinha a dizer sobre o assunto:

A ação litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto… A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar. Não se excluem todos os outros gêneros de música sacra, mormente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito da ação litúrgica (n. 113.116).

O movimento litúrgico original, de onde vieram essas inspiradoras palavras, era dedicado a restaurar e recuperar as mais belas e ricas tradições da oração católica. Infelizmente, uma combinação explosiva de falso “antiquarismo” e modernismo cheio de novidades lançou um balde de água fria sobre esses esforços, deixando-nos uma zona de guerra de visões conflitantes na qual ainda nos achamos afundados — e na qual o canto gregoriano chegou quase à extinção. A boa notícia é que a maré está começando a mudar aqui e ali. O canto gregoriano não morrerá jamais porque se trata da música litúrgica perfeita.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.