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A Igreja precisa se abrir ao mundo?
Igreja Católica

A Igreja precisa se abrir ao mundo?

A Igreja precisa se abrir ao mundo?

A Igreja deve abrir-se ao mundo como fez Jesus Cristo: não para “confirmar o mundo no seu ser terreno, tornando-se seu companheiro e deixando-o assim como é, mas para o transformar”.

Papa Bento XVI3 de Abril de 2018
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Assistimos, há decênios, a uma diminuição da prática religiosa, constatamos o crescente afastamento duma parte notável de batizados da vida da Igreja. Surge a pergunta: Porventura não deverá a Igreja mudar? Não deverá ela, nos seus serviços e nas suas estruturas, adaptar-se ao tempo presente, para chegar às pessoas de hoje que vivem em estado de busca e na dúvida?

Uma vez alguém instou a beata Madre Teresa a dizer qual seria, segundo ela, a primeira coisa a mudar na Igreja. A sua resposta foi: tu e eu!

Este pequeno episódio evidencia-nos duas coisas: por um lado, a religiosa pretendeu dizer ao seu interlocutor que a Igreja não são apenas os outros, não é apenas a hierarquia, o Papa e os Bispos; a Igreja somos nós todos, os batizados. Por outro lado, Madre Teresa parte efetivamente do pressuposto de que há motivos para uma mudança. Há uma necessidade de mudança. Cada cristão e a comunidade dos crentes no seu todo são chamados a uma contínua conversão.

E esta mudança, concretamente como se deve configurar? Trata-se porventura de uma renovação parecida com a que realiza, por exemplo, um proprietário de casa mediante uma reestruturação ou a pintura do seu imóvel? Ou então trata-se de uma correção para retomar a rota e percorrer, de modo mais ágil e direto, um caminho? Certamente estes e outros aspectos são importantes, mas aqui não podemos tratar de todos eles. Mas, cingindo-nos ao motivo fundamental da mudança, este é a missão apostólica dos discípulos e da própria Igreja.

De fato, a Igreja deve verificar incessantemente a sua fidelidade a esta missão. Os três evangelhos sinóticos põem em evidência diversos aspectos do mandato da referida missão: esta assenta antes de tudo na experiência pessoal: “Vós sois testemunhas” (Lc 24, 48); exprime-se em relações: “Fazei discípulos de todos os povos” (Mt 28, 19); transmite uma mensagem universal: “Proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15).

Mas, por causa das pretensões e condicionamentos do mundo, este testemunho fica muitas vezes ofuscado, são alienadas as relações e acaba relativizada a mensagem. Se, depois, a Igreja, como diz o Papa Paulo VI, “procura modelar-se em conformidade com o tipo proposto por Cristo, não poderá deixar de distinguir-se profundamente do ambiente humano, em que afinal vive ou do qual se aproxima” (Ecclesiam Suam, 60). Para cumprir a sua missão, deverá continuamente também manter as distâncias do seu ambiente, deverá por assim dizer “desmundanizar-se”.

De fato, a missão da Igreja deriva do mistério de Deus uno e trino, do mistério do seu amor criador. E em Deus não está apenas mais ou menos presente o amor; mas Ele mesmo, por sua natureza, é amor. E o amor de Deus não quer ficar isolado em si mesmo, mas quer, como é próprio da sua natureza, difundir-se. Na encarnação e no sacrifício do Filho de Deus, o amor divino alcançou de um modo particular a humanidade — isto é, a nós —, e isto pelo fato de que Cristo, o Filho de Deus, saiu por assim dizer da sua esfera que é ser Deus, encarnou e fez-se homem; não apenas para confirmar o mundo no seu ser terreno, tornando-se seu companheiro e deixando-o assim como é, mas para o transformar.

Do evento cristológico faz parte o dado incompreensível de que há — como dizem os Padres da Igreja — um sacrum commercium, uma permuta entre Deus e os homens. Os Padres explicavam-na assim: nós não temos nada que possamos dar para Deus, podemos apenas apresentar-lhe o nosso pecado. E Ele acolhe-o, assume-o como próprio e, em troca, dá-se a si mesmo e a sua glória a nós. Trata-se de uma permuta deveras desigual, que se realiza na vida e na paixão de Cristo. Ele faz-se pecador, toma o pecado sobre si, assume aquilo que é nosso e dá-nos aquilo que é seu.

Mas em seguida, à medida que se desenvolvem o pensamento e a vida à luz da fé, torna-se evidente que, devido à faculdade que Ele entretanto nos concedeu, não lhe damos só o pecado: a partir do íntimo, Ele concede-nos a força de lhe darmos também algo de positivo, o nosso amor, de lhe darmos a humanidade em sentido positivo. Naturalmente, é claro que só graças à generosidade de Deus é que o homem — o mendigo que recebe a riqueza divina — pode também dar alguma coisa para Deus; Deus torna-nos suportável o dom para nós, fazendo-nos capazes de ser doadores para com Ele.

Ora, a Igreja deve todo o seu ser a esta permuta desigual. Por si mesma nada possui diante d’Aquele que a fundou, de modo que possa dizer: fizemo-lo muito bem! O sentido dela é ser instrumento da redenção, deixar-se permear pela palavra de Deus e introduzir o mundo na união de amor com Deus. A Igreja insere-se na atenção condescendente do Redentor pelos homens. Quando é verdadeiramente ela mesma, a Igreja sempre se sente em movimento, deve colocar-se continuamente ao serviço da missão que recebeu do Senhor. E por isso deve abrir-se incessantemente às inquietações do mundo, do qual ela mesma faz parte, e dedicar-se a elas sem reservas, para continuar a fazer presente a permuta sagrada que teve início com a Encarnação.

Entretanto, no desenvolvimento histórico da Igreja manifesta-se também uma tendência contrária, ou seja, a de uma Igreja satisfeita consigo mesma, que se acomoda neste mundo, que é autossuficiente e se adapta aos critérios do mundo. Assim não é raro dar à organização e à institucionalização uma importância maior do que dá ao seu chamamento a permanecer aberta a Deus e a abrir o mundo ao próximo.

Para corresponder à sua verdadeira tarefa, a Igreja deve esforçar-se sem cessar por distanciar-se desta sua secularização e tornar-se novamente aberta para Deus. Assim fazendo, segue as palavras de Jesus: “Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo” (Jo 17, 16), e é precisamente assim que Ele se entrega pelo mundo. Em certo sentido, a história vem em ajuda da Igreja com as diversas épocas de secularização, que contribuíram de modo essencial para a sua purificação e reforma interior.

De fato, as secularizações — sejam elas a expropriação de bens da Igreja, o cancelamento de privilégios, ou coisas semelhantes — sempre significaram uma profunda libertação da Igreja de formas de mundanidade: despoja-se, por assim dizer, da sua riqueza terrena e volta a abraçar plenamente a sua pobreza terrena. Deste modo, partilha o destino da tribo de Levi, que, segundo afirma o Antigo Testamento, era a única tribo em Israel que não possuía um patrimônio terreno, mas, como porção de herança, tinha tido em sorte exclusivamente o próprio Deus, a sua palavra e os seus sinais. Com esta tribo, a Igreja partilhava naqueles momentos da história a exigência duma pobreza que se abria para o mundo, para se destacar dos seus laços materiais e assim também a sua ação missionária voltava a ser credível.

Os exemplos históricos mostram que o testemunho missionário de uma Igreja “desmundanizada” refulge de modo mais claro. Liberta dos fardos e dos privilégios materiais e políticos, a Igreja pode dedicar-se melhor e de modo verdadeiramente cristão ao mundo inteiro, pode estar verdadeiramente aberta ao mundo. Pode de novo viver, com mais agilidade, a sua vocação ao ministério da adoração de Deus e ao serviço do próximo. A tarefa missionária, que está ligada à adoração cristã e deveria determinar a estrutura da Igreja, torna-se visível mais claramente.

A Igreja abre-se ao mundo, não para obter a adesão dos homens a uma instituição com as suas próprias pretensões de poder, mas sim para os fazer reentrar em si mesmos e, deste modo, conduzi-los a Deus — Àquele de quem cada pessoa pode afirmar com Agostinho: “Ele é mais interior do que aquilo que eu tenho de mais íntimo” (cf. Conf. III, 6, 11). Ele que está infinitamente acima de mim, todavia está de tal maneira em mim que constitui a minha verdadeira interioridade. Através deste estilo de abertura da Igreja ao mundo, é conjuntamente delineada também a forma em que se pode realizar, eficaz e adequadamente, a abertura ao mundo por parte do indivíduo cristão.

Não se trata aqui de encontrar uma nova tática para relançar a Igreja. Trata-se, antes, de depor tudo aquilo que seja apenas tática e procurar a plena sinceridade, que não descura nem reprime nada da verdade do nosso hoje, mas realiza a fé plenamente no hoje vivendo-a precisa e totalmente na sobriedade do hoje, levando-a à sua plena identidade, tirando dela aquilo que só na aparência é fé, pois na verdade não passa de convenção e hábito.

Por outras palavras, podemos dizer: a fé cristã constitui sempre, e não apenas no nosso tempo, um escândalo para o homem. Que o Deus eterno se preocupe conosco, seres humanos, e nos conheça; que o Inatingível, num determinado momento e num determinado lugar, se tenha colocado ao nosso alcance; que o Imortal tenha sofrido e morrido na cruz; que nos sejam prometidas a nós, seres mortais, a ressurreição e a vida eterna — crer em tudo isto não passa, aos olhos dos homens, de uma real presunção.

Este escândalo, que não pode ser abolido se não se quer abolir o cristianismo, foi infelizmente encoberto, mesmo recentemente, por outros tristes escândalos dos anunciadores da fé. Cria-se uma situação perigosa, quando estes escândalos ocupam o lugar do skandalon primordial da Cruz tornando-o assim inacessível, isto é, quando escondem a verdadeira exigência cristã por trás da incongruência dos seus mensageiros.

Esta é mais uma razão para pensar que seja hora novamente de encontrar a verdadeira separação do mundo, de tirar corajosamente o que há de mundano na Igreja. Isto naturalmente não significa retirar-se do mundo, antes pelo contrário. Uma Igreja aliviada dos elementos mundanos é capaz de comunicar aos homens, precisamente no âmbito sóciocaritativo — tanto aos que sofrem como àqueles que os ajudam —, a força vital particular da fé cristã. “Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência” (Deus Caritas Est, 25).

Certamente também as obras caritativas da Igreja devem continuamente prestar atenção à necessidade duma adequada separação do mundo, para evitar que, devido a um progressivo afastamento da Igreja, se sequem as suas raízes. Só a relação profunda com Deus torna possível uma atenção plena ao homem, tal como sem a atenção ao próximo se empobrece a relação com Deus.

Portanto, ser aberta às vicissitudes do mundo significa, para a Igreja “desmundanizada”, testemunhar segundo o Evangelho, com palavras e obras, aqui e agora a soberania do amor de Deus. E esta tarefa remete ainda para além do mundo presente: de fato, a vida presente inclui a ligação com a vida eterna. Como indivíduos e como comunidade da Igreja, vivemos a simplicidade dum grande amor que, no mundo, é simultaneamente a coisa mais fácil e a mais difícil, porque requer nada mais nada menos que o doar-se a si mesmo.

Queridos amigos, resta-me implorar para todos nós a bênção de Deus e a força do Espírito Santo, a fim de podermos, cada um no próprio campo de ação, reconhecer e testemunhar sempre de novo o amor de Deus e a sua misericórdia. Obrigado pela vossa atenção!

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Bispos reunidos em Assembleia deixam mensagem ao povo de Deus
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Bispos reunidos em Assembleia
deixam mensagem ao povo de Deus

Bispos reunidos em Assembleia deixam mensagem ao povo de Deus

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se pronuncia a respeito de “politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB”.

Site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil19 de Abril de 2018
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O cardeal Sergio da Rocha, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) falou aos jornalistas reunidos na Coletiva de Imprensa da 56.ª Assembleia Geral da entidade, na tarde do dia 19 de abril, e pediu a dom Murilo Krieger, vice-presidente, que lesse a mensagem da conferência ao povo de Deus.

O documento registra a comunhão do episcopado brasileiro com o papa Francisco e destaca a necessidade de promover o diálogo respeitoso para estimular a comunhão na fé em tempo de politização e polarizações nas redes sociais.

A mensagem retoma a natureza e a missão da entidade na sociedade brasileira.

Confira, na sequência, a íntegra do documento que será enviado à todas as 277 circunscrições eclesiásticas do Brasil, incluindo arquidioceses, dioceses, prelazias, entre outras.


Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao povo de Deus

“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo.” (1Jo 1, 3)

Em comunhão com o Papa Francisco, nós, Bispos membros da CNBB, reunidos na 56.ª Assembleia Geral, em Aparecida-SP, agradecemos a Deus pelos 65 anos da CNBB, dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira. Convidamos os membros de nossas comunidades e todas as pessoas de boa vontade a se associarem à reflexão que fazemos sobre nossa missão e assumirem conosco o compromisso de percorrer este caminho de comunhão e serviço.

Vivemos um tempo de politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB. Queremos promover o diálogo respeitoso, que estimule e faça crescer a nossa comunhão na fé, pois só permanecendo unidos em Cristo podemos experimentar a alegria de ser discípulos missionários.

A Igreja fundada por Cristo é mistério de comunhão: “povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano). Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5, 25), assim devemos amá-la e por ela nos doar. Por isso, não é possível compreender a Igreja simplesmente a partir de categorias sociológicas, políticas e ideológicas, pois ela é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo.

Nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós por uma fraternidade sacramental e em comunhão com o sucessor de Pedro; isso nos constitui um colégio a serviço da Igreja (cf. Christus Dominus, 3). O nosso afeto colegial se concretiza também nas Conferências Episcopais, expressão da catolicidade e unidade da Igreja. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, 23, atribui o surgimento das Conferências à Divina Providência e, no decreto Christus Dominus, 37, determina que sejam estabelecidas em todos os países em que está presente a Igreja.

Em sua missão evangelizadora, a CNBB vem servindo à sociedade brasileira, pautando sua atuação pelo Evangelho e pelo Magistério, particularmente pela Doutrina Social da Igreja. “A fé age pela caridade” (Gl 5, 6); por isso, a Igreja, a partir de Jesus Cristo, que revela o mistério do homem, promove o humanismo integral e solidário em defesa da vida, desde a concepção até o fim natural. Igualmente, a opção preferencial pelos pobres é uma marca distintiva da história desta Conferência. O Papa Bento XVI afirmou que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza”. É a partir de Jesus Cristo que a Igreja se dedica aos pobres e marginalizados, pois neles ela toca a própria carne sofredora de Cristo, como exorta o Papa Francisco.

A CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político. As ideologias levam a dois erros nocivos: por um lado, transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo; por outro, viver entregue ao intimismo, suspeitando do compromisso social dos outros e considerando-o superficial e mundano (cf. Gaudete et Exsultate, n. 100-101).

Ao assumir posicionamentos pastorais em questões sociais, econômicas e políticas, a CNBB o faz por exigência do Evangelho. A Igreja reivindica sempre a liberdade, a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76). Isso nos compromete profeticamente. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada. Se, por este motivo, formos perseguidos, nos configuraremos a Jesus Cristo, vivendo a bem-aventurança da perseguição (Mt 5, 11).

A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos.

Neste Ano Nacional do Laicato, conclamamos todos os fiéis a viverem a integralidade da fé, na comunhão eclesial, construindo uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus. Para isso, a liberdade de expressão e o diálogo responsável são indispensáveis. Devem, porém, ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor “para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo” (LG 37). “Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor” (Papa Francisco, Mensagem para o 52.º dia Mundial das Comunicações de 2018).

Deste Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos, por sua materna intercessão, abundantes bênçãos divinas sobre todos.

Aparecida-SP, 19 de abril de 2018.

Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

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Posso dar um nome ao meu anjo da guarda?
Espiritualidade

Posso dar um nome
ao meu anjo da guarda?

Posso dar um nome ao meu anjo da guarda?

Anjos têm nome? Posso tentar descobrir o nome do meu anjo da guarda, ou mesmo dar a ele um nome próprio de minha preferência?

Gretchen Filz,  Get FedTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2018
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Um dos ensinamentos mais belos e consoladores de nossa Igreja Católica é que cada um de nós possui um anjo da guarda, dado por Deus a nós a fim de nos conduzir pelo caminho da salvação. “Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida” [1], ensina São Basílio Magno.

Anjos são espíritos puros. Eles têm inteligência e vontade, e operam de vários modos especiais a fim de nos guiar, influenciar e proteger. Não é apenas permitido, mas também muito bom e louvável que aprendamos a invocar nossos anjos guardiões e a reconhecer suas inspirações.

Existem, no entanto, alguns perigos a evitar em nosso relacionamento para com eles. Um erro particularmente persistente entre muitos católicos é o de tentar descobrir o nome ou a identidade de seus anjos da guarda, ou até mesmo dar-lhes um nome qualquer. Trata-se de uma prática compreensível, pois, quando seres humanos se relacionam, saber o nome um do outro constitui um primeiro passo indispensável. Contudo, uma distinção deve ser feita a esse respeito: entre si, os seres humanos são iguais, mas esse não é o caso entre nós e os poderosos membros da corte celeste.

Tentar descobrir o nome, ou dar um nome, ao nosso anjo da guarda, é uma má ideia por três razões principais.

Em primeiro lugar, Deus criou uma multidão de anjos, mais do que somos capazes de imaginar. E, no entanto, ele deu aos seres humanos, nas Sagradas Escrituras, os nomes de apenas três deles: São Gabriel, São Miguel e São Rafael. Como isso é tudo o que Deus quis nos revelar a respeito da identidade de anjos específicos, não devemos tentar descobrir os nomes de outros anjos. Esse conhecimento está além de nossa condição, e procurá-lo seria não só um ato de irreverência, mas também nos faria cair no vício da curiosidade.

A Bíblia possui relatos de seres humanos tentando sondar os nomes dos anjos, sem êxito algum. No livro do Gênesis, por exemplo, o patriarca Jacó não conseguiu descobrir o nome da criatura misteriosa que lutou com ele no deserto. “Jacó lhe pediu: ‘Dize-me, por favor, teu nome’. Mas ele respondeu: ‘Para que perguntas por meu nome?’” (Gn 32, 30).

Quando um anjo apareceu à mãe de Sansão, no livro dos Juízes, ela disse a seu esposo: “Veio me visitar um homem de Deus, cujo aspecto era terrível como o de um anjo do Senhor. Não lhe perguntei de onde vinha, nem ele me revelou o seu nome. Ele disse-me: ‘Ficarás grávida e darás à luz um filho’” (Jz 13, 6-7). Quando o anjo retornou, o pai de Sansão, chamado Manué, “perguntou-lhe: ‘Qual é teu nome, para que possamos te honrar quando tua palavra se cumprir?’ E o anjo do Senhor lhe disse: ‘Por que perguntas o meu nome? Ele é maravilhoso!” (Jz 13, 16-18).

Em segundo lugar, o ato de dar nomes é bastante significativo. Nomear uma coisa significa reivindicar autoridade sobre ela. No jardim do Éden, o Senhor concedeu a Adão domínio sobre todos os animais e, como um exercício dessa autoridade, Adão deu a todos os animais um nome que lhes fosse apropriado. Entretanto, Deus só trouxe a Adão as criaturas que estavam abaixo dos seres humanos na hierarquia da Criação (ou no mesmo nível, no caso de Eva). Deus não levou a Adão criaturas superiores aos homens, como são os anjos, puros espíritos.

“O Anjo da Guarda”, de Bernardo Strozzi.

Por isso, não cabe a nós dar nomes ou descobrir os nomes de criaturas que estão acima de nós. Conhecer o nome de um anjo é descobrir muito mais a respeito da sua identidade do que quando sabemos o nome de um ser humano. Porque os anjos são espíritos puros, conhecer-lhes o nome significa conhecer-lhes a essência, o próprio núcleo do seu ser e o propósito para o qual foram criados. Esse conhecimento está reservado somente a Deus e a quem Ele o quis revelar no Céu.

Em terceiro lugar, ao tentarmos descobrir o nome de nosso anjo da guarda, podemos acabar procurando por sinais de que nosso anjo está tentando nos responder com um nome específico. Nessa tentativa, nós poderíamos confundir muitas coisas como sendo “sinais”, sem que o sejam de fato, e terminaríamos apenas por nos iludir a nós mesmos.

Mais do que isso: assim como estamos na companhia dos anjos, também estamos na companhia de demônios. Se um deles vê que estamos tentando descobrir o nome de nosso anjo da guarda, e sabe o tipo de coisas que tomaremos por sinais (porque os anjos decaídos são mestres na arte de enganar), eles podem se disfarçar como anjos de luz e mandar-nos falsos sinais. Se observam que estamos seguindo seus enganos, eles nos podem nos levar para bem longe. É essa a razão por que muitos santos revelavam a seus diretores espirituais todos os fatos sobrenaturais que lhes ocorriam, para servir de proteção contra ilusões demoníacas.

Existe ainda uma última razão para não brincarmos com nomes de anjos: a Igreja desaconselha essa prática. De acordo com o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, “é de se rechaçar o costume de dar aos anjos nomes particulares, com exceção de Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem nas Escrituras” [2].

Em síntese, uma vez que a humanidade se encontra hierarquicamente abaixo dos anjos, não devemos arrogar-nos um lugar superior, tentando nomear ou descobrir o nome dos anjos que nos foram designados como guardiões. A Igreja desencoraja essa prática para nossa própria proteção. Assim como as nada aconselháveis tentativas de se comunicar inapropriadamente com o mundo dos espíritos, fazer isso pode nos tornar vulneráveis à ação demoníaca, a qual Deus pode permitir a fim de nos ensinar uma lição de humildade.

Fica claro, por todas essas razões, que não é de nossa alçada saber sobre os anjos mais do que nos foi revelado por Deus. Basta-nos o fato de que os temos sempre bem próximos a nós — só uma oração a distância. Procure diariamente, portanto, a guia do seu anjo da guarda, aprenda a amá-lo e a obedecer-lhe… mas não tente descobrir o nome que ele tem, para o seu próprio bem.

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Seja professor!
Padre Paulo Ricardo

Seja professor!

Seja professor!

Relembre conosco esta mensagem do Padre Paulo Ricardo a todos os nossos alunos e aprenda o que realmente significa ser “discípulo missionário” em nosso mundo.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2018
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A razão de ser de nosso apostolado é bastante simples: todo cristão, imitando a seu divino Mestre, está chamado a fazer tudo o que fez Jesus Cristo em sua vida pública: Ele percorria “cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade” (Mt 9, 35).

Pregar e fazer o bem. Eis aqui vocação de todos nós e, portanto, a finalidade do site do Padre Paulo Ricardo. E você, se ainda não faz parte da nossa família, pode nos ajudar (e muito!) a cumprir a parte que nos cabe dessa missão que o Senhor confiou a quantos o seguem: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28, 19).

O apostolado cristão, que se impõe hoje em dia com ainda mais necessidade, só dará frutos duradouros se estivermos unidos e empenhados, como família e filhos de um mesmo Pai, a conhecer a nossa fé e a difundi-la nos meios em que Ele nos colocou.

É por isso que nós queremos tê-lo ao nosso lado, para que juntos, somando forças, levemos a luz da doutrina católica a um mundo do qual se apodera cada vez mais aquele paganismo que, em outros tempos, fiéis como você e eu ajudaram a dissipar.

Além do imenso material disponibilizado gratuitamente, como homilias diárias, aulas ao vivo e muitos outros programas, temos um extenso catálogo de conteúdos exclusivos, pensados com todo o cuidado para você aprofundar seus conhecimentos sobre a fé da Igreja e assim, bem formado e preparado, tornar-se efetivamente “fermento no meio da massa”.

Sejamos o que o Senhor nos chamou a ser: sal da terra e luz do mundo!

Caso tenha alguma dúvida ou dificuldade para fazer a sua inscrição, entre em contato conosco ou pelo endereço de e-mail: suporte@padrepauloricardo.org, ou pelo telefone: (43) 3027-4136.

Agradecemos desde já a sua generosidade e contamos com suas orações.

Que Deus o abençoe sempre e a Virgem Santíssima, Rainha dos Apóstolos, o proteja sob o seu manto.

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O filme religioso mais inesperado de 2018
Família

O filme religioso
mais inesperado de 2018

O filme religioso mais inesperado de 2018

Quem assistir ao suspense “Um lugar silencioso” irá se surpreender com um filme religioso, que apresenta o silêncio, a simplicidade, a oração e o cuidado recíproco como meios para afugentar os “monstros” de nossa época.

Dom Robert Barron,  Catholic World ReportTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Abril de 2018
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Fui assistir a “Um lugar silencioso” (A Quiet Place), o novo suspense do diretor John Krasinski, sem absolutamente nenhuma expectativa de encontrar temas teológicos ou espirituais. Tudo o que eu queria era uma noite de lazer no cinema.

Mas que maravilha quando um filme nos surpreende! Eu não sei se serei capaz de encontrar o fio de ouro que liga todos esses temas e os transforma em uma mensagem coerente, mas só uma pessoa muito cega para não perceber as inúmeras ideias religiosas desse filme cativante. (As linhas a seguir contêm revelações sobre o enredo do filme.)

O bispo norte-americano Robert Barron, autor desta crítica.

A estrutura básica da narrativa é apresentada em traços simples e rápidos. Uma praga terrível de criaturas ferozes e famintas desceu sobre a terra. De onde são os monstros? Do espaço sideral, talvez? Isso não se sabe — o que torna a história ainda mais interessante. As poucas pessoas que sobreviveram ao holocausto aprenderam que as criaturas em questão, mesmo sendo cegas, possuem uma audição extraordinariamente aguçada. Por isso, a chave para a sobrevivência está no silêncio.

Nossa atenção se volta para a família Abbot, dois jovens pais e três crianças pequenas, percorrendo silenciosamente seu caminho em meio a um território aberto, cheio de beleza, mas ao mesmo tempo muito perigoso. Quando o filho caçula acende um foguete de brinquedo, fazendo com que um barulho rompa o silêncio, uma das criaturas o devora pouco antes de que seu pai aterrorizado possa salvá-lo.

O filme avança vários meses mais tarde, com os Abbots (inglês para “abade”: coincidência?) conduzindo suas vidas de um modo que só se pode qualificar de monástico: nenhuma conversa além de sussurros, linguagem elaborada de sinais, trabalho silencioso com livros e nos campos, oração em silêncio mas notavelmente fervorosa antes do jantar etc. (Devo confessar que esse último gesto, tão ausente dos filmes e da televisão hoje em dia, pegou-me de surpresa.) Dadas as terríveis exigências do momento, qualquer entretenimento eletrônico, com aparelhos e máquinas, ou ferramentas que façam barulho, estão fora de questão. A agricultura deles é manual, a pescaria se faz com aparatos nada modernos, e até o caminhar é feito a pés descalços.

Mas, coisa admirável de se contemplar, nessa atmosfera orante, silenciosa e cheia de dificuldades, mesmo com a ameaça de morte sempre à espreita, o que floresce é uma família generosa e sacrificada. Os pais dão cuidado e proteção a seus filhos, e o irmão e a irmã sobreviventes são solícitos tanto um para com o outro quanto em relação a seus pais. A jovem garota chega regularmente a arriscar a própria vida para prestar tributo silencioso a seu irmão falecido no lugar em que ele foi morto.

Monstros e criaturas animalescas nos filmes de terror mais reflexivos evocam aquelas coisas que mais nos amedrontam: doença, fracasso, nossa própria maldade e também a morte. É admirável ver um filme de Hollywood sugerindo a necessidade, para afugentar a escuridão em nosso tempo, do silêncio, da simplicidade, do retorno à terra, da oração e do cuidado recíproco.

O drama central de “Um lugar silencioso” é o fato de a senhora Abbott estar esperando um filho. A família inteira se dá conta, é claro, que naquelas circunstâncias uma criança chorando significaria morte certa para todos eles. Mesmo assim, eles decidem não matar o filho quando ele nasce, mas sim escondê-lo e emudecer seus choros de várias formas.

Quando tantos em nossa cultura desejam matar os próprios filhos por razões as mais banais, quando a lei em muitos lugares concede ampla proteção até aos abortos com nascimento parcial, quando pessoas dizem tranquilamente que jamais colocariam um filho em um mundo tão terrível, a família monástica desse filme acolhe a vida, mesmo vivendo no pior dos mundos, mesmo quando tal atitude representa para eles um perigo supremo.

Quando o bebê se encontra prestes a nascer, a mãe se vê sozinha (assista ao filme para saber os detalhes) e na mais vulnerável das situações, pois uma das criaturas acaba de invadir a casa da família. Assim que ela entra em trabalho de parto, o monstro faminto fica à espreita. Imediatamente me veio à mente a cena no livro do Apocalipse, quando a Virgem Maria sofre dores do parto, enquanto o dragão espera pacientemente para devorar-lhe o filho (cf. Ap 12, 2ss).

Enquanto a “abadessa” se esforça para dar à luz, o “abade” sai à procura de seus filhos em perigo e, no fim, se depara com os dois presos em um carro abandonado, com um dos monstros arranhando a cobertura para pegá-los, como o Tiranossaurus Rex em “Jurassic Park”. Depois de dizer através de sinais: “Eu amo você, eu sempre amei você” a sua filha, emocionada através da janela do carro, o pai dá um grito, trazendo o monstro para si mesmo.

Esse ato de amor que se esvazia de si próprio, e que serve para livrar seus filhos do perigo, é uma bela alusão às especulações dos Padres da Igreja a respeito da morte de Jesus, o qual, em seu ato de auto-sacrifício na cruz, atraiu os poderes das trevas para o campo aberto, afastando-os da humanidade, que permanecia sob seu domínio. Em linhas semelhantes, em um trabalho ímpar de enredo (ou Providência) comparável à eficácia do sacrifício de Cristo, fica claro, após a morte do pai, que ele havia deixado para sua família os meios através dos quais os monstros podiam ser derrotados.

Eu realmente não faço ideia se todas ou algumas dessas ideias estavam na mente do diretor, mas sei, pela página de John Krasinski no Wikipédia, que ele é filho de pais católicos, um polonês e uma irlandesa, e que foi criado como praticante devoto de sua fé. Por isso, até que se demonstre definitivamente o contrário, eu mantenho que “Um lugar silencioso” é o filme religioso mais inesperado de 2018.

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