CNP
Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Como se converteu o assassino de Santa Maria Goretti?
Testemunhos

Como se converteu o assassino
de Santa Maria Goretti?

Como se converteu o assassino de Santa Maria Goretti?

Conheça o testamento espiritual e a história de conversão de Alexandre Serenelli, o homem que matou Santa Maria Goretti.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Julho de 2017
imprimir

"Se o grão de trigo não cair em terra e morrer, fica a sós consigo; mas se morrer produzirá muito fruto" ( Jo 12, 24). O grão de trigo contém um germe secreto de renovação e fecundidade. Mas até quando não se desagregar no sulco, permanecerá sozinho na esterilidade. Pelo contrário, uma vez atirado ao solo, e aí apodrecer, retomará a plenitude da vida e produzirá muitos frutos. Porventura, não seriam as palavras do Divino Mestre o mais oportuno elogio da morte trágica de Marieta? Seus restos mortais, dissolvendo·se pouco a pouco no túmulo transformaram-se em fonte de vida. Quantos desalentados encontraram à beira da sepultura dessa jovem mártir o ânimo para as lutas, quantos enfermos a saúde, e, acima de tudo, quantos pecadores a sua regeneração!

A mais impressionante foi, sem dúvida, a do pró­prio assassino. Digna de um Agostinho arrependido, a conversão desse infeliz constitui, ao lado do martírio, a mais fúlgida glória a aureolar a fronte de Santa Maria Goretti. Não será fora de propósito refazer-nos até aquele doloroso dia de 5 de julho de 1902 e acompanhar o pobre Alexandre até os baixios onde se enlameara, para que mais apareça a ação maravilhosa da gra­ça a reerguê-lo até os cimos da regeneração.

Após o crime, Alexandre fechara-se no seu quarto, e jogando o ferro ensanguentado atrás de um caixote, estendera-se na cama, aguardando os acontecimentos. Era esta a atitude dos heróis dos seus romances, quando nada mais lhes restava a fazer…

A chegada dos Carabineiros não o assustou. Não se levantou para recebê-los quando o chamaram, mas preferiu deixar que arroubassem a porta. Isto parecia-lhe mais digno de sua façanha. Foi, então, algemado. Entretanto, os soldados não se arriscaram a levá-lo. A multidão ardia de ódio contra o assassino. Queria linchá-lo a todo custo. Foi preciso, portanto, esperar os socorros da polícia a cavalo. E quando, finalmente, Alexandre apareceu entre os guardas rompeu uma explosão de ira. Entre o agitar-se das foices e dos facões reboavam os gritos de: "Morra o assassino!" Aquele povo parecia uma malta de revoltosos sedentos de justiça, não já os piedosos cristãos que, minutos antes, murmuravam orações. Não foi pequeno o trabalho da polícia, porém, com habilidade e com ameaças, conseguiu abrir caminho e pôr a salvo o criminoso.

No processo o réu demonstrou o mais revoltante cinismo. Confessou friamente o crime, e não se pejou de revelar abertamente suas torpes intenções. Foi, então, pronunciada a sentença:

Os jurados declaram Alexandre Serenelli culpado do homicídio premeditado para conseguir a realização de outro crime… A corte estabelece que seja aplicada a Alexandre Serenelli a pena máxima e o condena à prisão de trinta anos; e à vigilância especial da Pública Segurança por três anos; e à interdição perpétua de todo serviço público.

Em seguida, foi transferido para a cidade de Noto, na Sicília, a fim de lá expiar a pena merecida. O ambiente não parecia o mais propício para resipiscências, e, de fato, os primeiros anos de reclusão não acusaram mudança alguma: sempre o mesmo cinismo e o mesmo desprezo.

Entrementes, o sangue da sua vítima implorava misericórdia. "Quero vê-lo perto de mim no céu", dissera na hora de manifestar publicamente o seu perdão, e aquelas derradeiras palavras continuavam a ecoar diante do trono de Deus como uma súplica infalível.

Certa vez Sua Excelência, Dom Blandini, Bispo do lugar em visita às prisões, manifestou o desejo de avistar-se com Alexandre Serenelli. Levado à cela foi por ele acolhido com a mesma indiferença com que encarava toda espécie de autoridade. Que lhe viria contar esse Padre? Já o imaginava. Ele, porém, não era homem de tremer diante das ameaças do invisível. Assim como desacatara a justiça humana, assim também ele não temia a própria justiça divina… Qual foi, ao invés, a sua admiração quando viu aquele Bom Pastor sentar-se-lhe ao lado, interessar-se por ele, indagar da saúde, da vida que levava na prisão e, ainda, prontificar-se para diminuir-lhe a pena. Como era diferente esse Padre real das vulgaridades com que seus jornais o descreviam! Como lhe calavam na alma aquelas palavras afetuosas! Como feriam aquele coração que nunca experimentara os carinhos maternos.

Ao despedir-se, Sua Excelência deixou-lhe, para distrair-se, algumas publicações católicas, livros e revistas e, também, uma pequena biografia de Maria Goretti. Maria Goretti?! Oh, ele devia conhecê-la muito bem essa menina! Que se diria aí que ele não soubesse! Levado aparentemente pela curiosidade, e mais acertadamente pela graça, abriu então aquele livrinho e começou a ler, de início com displicência, depois com interesse, e depois… depois com o arrependimento a erguer-se impiedoso naquele coração de pedra. Foi na leitura das Epístolas de S. Paulo que o pecador Agostinho encontrou o caminho da conversão. Foi na leitura da vida dos santos que o soldado Iná­cio de Loiola iniciou sua regeneração. E Alexandre Serenelli, que na leitura dos jornais perversos precipitara-se no abismo, avistava, nas páginas que narravam o heroísmo de sua vítima, a escada que o ajudaria a sair das suas misérias. A virtude da pequena mártir fulgurou-lhe em todo o seu esplendor e o crime por ele perpetrado em toda a sua hediondez. Começou, então, a compreender que era realmente "um monstro" e pela primeira vez, depois de longos anos, Alexandre chorou…

É neste momento que ele inicia a subida ao Calvário, em cujo cimo expiará ao lado do Divino Salvador, junto ao Bom Ladrão, todo o horror do seu crime. Dia e noite a lembrança do passado avivava-se-lhe na mente; e o delito, que parecia não ter deixado outro rastro afora o tormento físico da prisão, rasgava-lhe agora na alma um sulco profundo. Ninguém mais o reconhecia. Aquele cinismo revoltante mudara-se em nuvens de tristeza que o deixavam abatido. Não era difícil adivinhar o novo drama que se iniciava naquela pobre alma. A angústia daquele arrependimento deixava suspeitar um desfecho precipitado, e, talvez, teríamos um novo Judas, se uma suave Advogada do céu não lhe arredasse as pedras de tropeço…

Data deste tempo um sonho que veio reanimá­-lo. "Parecia-me estar — conta ele próprio — num jardim cheio de lírios. De repente, vi aparecer Marieta, que, toda vestida de branco, colhia daquelas flores e, passando-as para as minhas mãos, dizia-me: Toma. Eu aceitava-as e assim que as beijava com grande devoção, transformavam-se em chamazinhas cintilantes." E conclui: " Tenho esperança de salvar-me, pois tenho uma Santa no Paraíso que reza por mim."

Não permitia que lhe diminuíssem a culpabilidade. Não, não havia atenuantes. Ele só era o responsável, pois "sabia perfeitamente o que estava fazendo". Por que apelar para discutidas enfermidades mentais derivadas dos parentes? "No dia do crime, insistia, eu estava com pleno conhecimento de tudo."

Não lhe bastava no entanto, arrepender-se e recriminar-se. Sentia a necessidade de uma reparação, de uma confissão pública que o cobrisse de humilha­ções e que exaltasse até o céu a sua vítima. Auxiliado por um companheiro, dirigiu ao mesmo Bispo que o visitara uma carta, em que não sabemos se mais admirar a coragem com que se declara culpado ou o louvor com que enaltece sua vítima. "Detesto — escreve — e abomino um homicídio tão bárbaro, que hoje amargurado lamento, por saber que tirei a vida a uma pobre inocente, a qual até o último momento quis conservar a sua honra, preferindo morrer tão cedo, antes que render-se aos meus vis desejos e cuja resistência me levou a dar um passo tão horrível quão lamentável. Publicamente detesto a minha vil ação e peço perdão a Deus, à infeliz e desolada família da vítima, do enorme pecado que cometi; e espero que eu também poderei obter o perdão, como tantos outros nesta miserável vida o obtiveram… e paz… e até as bênçãos da nobre extinta…"

[...]

O encontro de D. Assunta Goretti e Alexandre Serenelli.

Véspera de Natal do ano do Senhor de 1937.

Trinta e cinco anos são decorridos daquela tarde ensoalhada da Campanha Romana, em que uma camponezinha de doze anos escreveria para sempre o seu nome entre as virgens que acompanham o Cordeiro Divino.

Dia gélido nas terras italianas. O coração do inverno. Em Corinaldo, assim como em todas as aldeias da Itália, as famílias dos lavradores recolhem-se nos estábulos, aquecendo-se com o calor dos animais. Raros transeuntes atravessam as ruas. Só um homem arrasta-se vagarosamente como que alheio a toda essa onda de frio. Cinquenta e cinco anos. Mal vestido. Um tanto curvo. Segue passo a passo para a casa de D. Assunta.

— Quem quer falar com ela? perguntam-lhe.

— Alexandre Serenelli.

D. Assunta não tarda a aparecer. Forte ainda, apesar dos seus setenta anos, o cabelo branco a aureolar-lhe o rosto sulcado de rugas, o pobre homem a reconhece perfeitamente. A cena é rápida. Sem mesmo cumprimentá-la, atira-se-lhe aos pés e suplica:

— D. Assunta, perdoe! Pode perdoar-me?

Não imaginemos cenas romanescas, lutas íntimas a preceder a hora final, o coração a bater violentamente. O povo dos campos é o povo simples e a resposta é igualmente simples.

— Como não perdoar? Perdoou o Senhor. Perdoou-lhe minha filha. Como não hei de perdoar eu?

Na manhã seguinte D. Assunta e Alexandre Serenelli ajoelhavam-se um ao lado do outro, na mesma mesa Eucarística.

[...]

Quando D. Assunta era interrogada no Processo de Beatificação de sua filha se estava disposta a conceder o perdão ao assassino, não hesitou em responder afirmativamente. Mas· o público protestou: "Nós, porém, não lhe perdoaremos". Retrucou, então aquela verdadeira cristã: "E se o Senhor não perdoasse a nós?"

Por que, pois, negar o abraço fraternal a esse filho pródigo, para o qual já nosso Pai Celeste mandou preparar o banquete festivo?


Do livro Santa Maria Goretti, mártir da pureza, do Pe. J. C. M. Colombo, 2.ª ed. Paulinas, 1949, pp. 90-97.

*

É amplamente conhecido o fim que teve o penitente Alexandre Serenelli. Passando o resto de seus dias "como jardineiro do Convento dos Padres Capuchinhos", na província de Macerata, região das Marcas, o rapaz foi "totalmente integrado na família divina, separado do mundo", e marchou "em passos largos no caminho da regeneração mais completa".

Partiu para a eternidade, enfim, no dia 6 de maio de 1970, deixando à Igreja o seguinte testamento:

Tenho quase 80 anos de idade, próximo a concluir a minha jornada. Olhando meu passado, reconheço que na minha primeira juventude trilhei um falso caminho: o caminho do mal, que me levou à ruína. Vejo através da imprensa que a maioria dos jovens seguem sem se incomodar o mesmo caminho; eu também não me incomodava. Tinha perto de mim pessoas de fé e que praticavam o bem, mas eu não me importava, cego por uma força bruta que me impulsionava para o mau caminho. Fui consumido por décadas por um crime passional que hoje me horroriza a memória. Maria Goretti, hoje santa, foi o anjo bom que a Providência colocou adiante dos meus passos para me salvar. Eu ainda trago no coração suas palavras de repreensão e perdão. Ela rezou por mim, intercedeu por seu assassino. Foram quase 30 anos de prisão. Se eu não fosse menor de idade, teria sido condenado à prisão perpétua. Aceitei o julgamento merecido, admiti a minha culpa. Maria foi realmente a minha luz, a minha protetora. Com sua ajuda, comportei-me bem nos 27 anos de prisão e procurei viver honestamente quando a sociedade me aceitou de volta entre os seus membros. Os filhos de São Francisco, os Frades Menores Capuchinhos das Marcas, com caridade seráfica me acolheram, não como escravo, mas como a um irmão. Moro com eles há 24 anos e agora vejo o tempo passar com serenidade, aguardando o momento de ser admitido à visão de Deus, de poder abraçar meus entes queridos, de estar perto do meu anjo da guarda e de sua querida mãe, Assunta. Aqueles que lerem esta carta, que a tenham como exemplo para escapar do mal e seguir o bem, sempre. Acho que a religião com seus preceitos não é algo que se pode desprezar, mas é o verdadeiro conforto, a única via segura em todas as circunstâncias, mesmo as mais dolorosas da vida. Paz e bem.

Macerata, 5 de maio de 1961
Alexandre Serenelli

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Bispos reunidos em Assembleia deixam mensagem ao povo de Deus
Notícias

Bispos reunidos em Assembleia
deixam mensagem ao povo de Deus

Bispos reunidos em Assembleia deixam mensagem ao povo de Deus

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil se pronuncia a respeito de “politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB”.

Site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil19 de Abril de 2018
imprimir

O cardeal Sergio da Rocha, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) falou aos jornalistas reunidos na Coletiva de Imprensa da 56.ª Assembleia Geral da entidade, na tarde do dia 19 de abril, e pediu a dom Murilo Krieger, vice-presidente, que lesse a mensagem da conferência ao povo de Deus.

O documento registra a comunhão do episcopado brasileiro com o papa Francisco e destaca a necessidade de promover o diálogo respeitoso para estimular a comunhão na fé em tempo de politização e polarizações nas redes sociais.

A mensagem retoma a natureza e a missão da entidade na sociedade brasileira.

Confira, na sequência, a íntegra do documento que será enviado à todas as 277 circunscrições eclesiásticas do Brasil, incluindo arquidioceses, dioceses, prelazias, entre outras.


Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao povo de Deus

“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo.” (1Jo 1, 3)

Em comunhão com o Papa Francisco, nós, Bispos membros da CNBB, reunidos na 56.ª Assembleia Geral, em Aparecida-SP, agradecemos a Deus pelos 65 anos da CNBB, dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira. Convidamos os membros de nossas comunidades e todas as pessoas de boa vontade a se associarem à reflexão que fazemos sobre nossa missão e assumirem conosco o compromisso de percorrer este caminho de comunhão e serviço.

Vivemos um tempo de politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB. Queremos promover o diálogo respeitoso, que estimule e faça crescer a nossa comunhão na fé, pois só permanecendo unidos em Cristo podemos experimentar a alegria de ser discípulos missionários.

A Igreja fundada por Cristo é mistério de comunhão: “povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano). Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5, 25), assim devemos amá-la e por ela nos doar. Por isso, não é possível compreender a Igreja simplesmente a partir de categorias sociológicas, políticas e ideológicas, pois ela é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo.

Nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós por uma fraternidade sacramental e em comunhão com o sucessor de Pedro; isso nos constitui um colégio a serviço da Igreja (cf. Christus Dominus, 3). O nosso afeto colegial se concretiza também nas Conferências Episcopais, expressão da catolicidade e unidade da Igreja. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, 23, atribui o surgimento das Conferências à Divina Providência e, no decreto Christus Dominus, 37, determina que sejam estabelecidas em todos os países em que está presente a Igreja.

Em sua missão evangelizadora, a CNBB vem servindo à sociedade brasileira, pautando sua atuação pelo Evangelho e pelo Magistério, particularmente pela Doutrina Social da Igreja. “A fé age pela caridade” (Gl 5, 6); por isso, a Igreja, a partir de Jesus Cristo, que revela o mistério do homem, promove o humanismo integral e solidário em defesa da vida, desde a concepção até o fim natural. Igualmente, a opção preferencial pelos pobres é uma marca distintiva da história desta Conferência. O Papa Bento XVI afirmou que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza”. É a partir de Jesus Cristo que a Igreja se dedica aos pobres e marginalizados, pois neles ela toca a própria carne sofredora de Cristo, como exorta o Papa Francisco.

A CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político. As ideologias levam a dois erros nocivos: por um lado, transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo; por outro, viver entregue ao intimismo, suspeitando do compromisso social dos outros e considerando-o superficial e mundano (cf. Gaudete et Exsultate, n. 100-101).

Ao assumir posicionamentos pastorais em questões sociais, econômicas e políticas, a CNBB o faz por exigência do Evangelho. A Igreja reivindica sempre a liberdade, a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76). Isso nos compromete profeticamente. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada. Se, por este motivo, formos perseguidos, nos configuraremos a Jesus Cristo, vivendo a bem-aventurança da perseguição (Mt 5, 11).

A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos.

Neste Ano Nacional do Laicato, conclamamos todos os fiéis a viverem a integralidade da fé, na comunhão eclesial, construindo uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus. Para isso, a liberdade de expressão e o diálogo responsável são indispensáveis. Devem, porém, ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor “para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo” (LG 37). “Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor” (Papa Francisco, Mensagem para o 52.º dia Mundial das Comunicações de 2018).

Deste Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos, por sua materna intercessão, abundantes bênçãos divinas sobre todos.

Aparecida-SP, 19 de abril de 2018.

Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília-DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Posso dar um nome ao meu anjo da guarda?
Espiritualidade

Posso dar um nome
ao meu anjo da guarda?

Posso dar um nome ao meu anjo da guarda?

Anjos têm nome? Posso tentar descobrir o nome do meu anjo da guarda, ou mesmo dar a ele um nome próprio de minha preferência?

Gretchen Filz,  Get FedTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2018
imprimir

Um dos ensinamentos mais belos e consoladores de nossa Igreja Católica é que cada um de nós possui um anjo da guarda, dado por Deus a nós a fim de nos conduzir pelo caminho da salvação. “Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida” [1], ensina São Basílio Magno.

Anjos são espíritos puros. Eles têm inteligência e vontade, e operam de vários modos especiais a fim de nos guiar, influenciar e proteger. Não é apenas permitido, mas também muito bom e louvável que aprendamos a invocar nossos anjos guardiões e a reconhecer suas inspirações.

Existem, no entanto, alguns perigos a evitar em nosso relacionamento para com eles. Um erro particularmente persistente entre muitos católicos é o de tentar descobrir o nome ou a identidade de seus anjos da guarda, ou até mesmo dar-lhes um nome qualquer. Trata-se de uma prática compreensível, pois, quando seres humanos se relacionam, saber o nome um do outro constitui um primeiro passo indispensável. Contudo, uma distinção deve ser feita a esse respeito: entre si, os seres humanos são iguais, mas esse não é o caso entre nós e os poderosos membros da corte celeste.

Tentar descobrir o nome, ou dar um nome, ao nosso anjo da guarda, é uma má ideia por três razões principais.

Em primeiro lugar, Deus criou uma multidão de anjos, mais do que somos capazes de imaginar. E, no entanto, ele deu aos seres humanos, nas Sagradas Escrituras, os nomes de apenas três deles: São Gabriel, São Miguel e São Rafael. Como isso é tudo o que Deus quis nos revelar a respeito da identidade de anjos específicos, não devemos tentar descobrir os nomes de outros anjos. Esse conhecimento está além de nossa condição, e procurá-lo seria não só um ato de irreverência, mas também nos faria cair no vício da curiosidade.

A Bíblia possui relatos de seres humanos tentando sondar os nomes dos anjos, sem êxito algum. No livro do Gênesis, por exemplo, o patriarca Jacó não conseguiu descobrir o nome da criatura misteriosa que lutou com ele no deserto. “Jacó lhe pediu: ‘Dize-me, por favor, teu nome’. Mas ele respondeu: ‘Para que perguntas por meu nome?’” (Gn 32, 30).

Quando um anjo apareceu à mãe de Sansão, no livro dos Juízes, ela disse a seu esposo: “Veio me visitar um homem de Deus, cujo aspecto era terrível como o de um anjo do Senhor. Não lhe perguntei de onde vinha, nem ele me revelou o seu nome. Ele disse-me: ‘Ficarás grávida e darás à luz um filho’” (Jz 13, 6-7). Quando o anjo retornou, o pai de Sansão, chamado Manué, “perguntou-lhe: ‘Qual é teu nome, para que possamos te honrar quando tua palavra se cumprir?’ E o anjo do Senhor lhe disse: ‘Por que perguntas o meu nome? Ele é maravilhoso!” (Jz 13, 16-18).

Em segundo lugar, o ato de dar nomes é bastante significativo. Nomear uma coisa significa reivindicar autoridade sobre ela. No jardim do Éden, o Senhor concedeu a Adão domínio sobre todos os animais e, como um exercício dessa autoridade, Adão deu a todos os animais um nome que lhes fosse apropriado. Entretanto, Deus só trouxe a Adão as criaturas que estavam abaixo dos seres humanos na hierarquia da Criação (ou no mesmo nível, no caso de Eva). Deus não levou a Adão criaturas superiores aos homens, como são os anjos, puros espíritos.

“O Anjo da Guarda”, de Bernardo Strozzi.

Por isso, não cabe a nós dar nomes ou descobrir os nomes de criaturas que estão acima de nós. Conhecer o nome de um anjo é descobrir muito mais a respeito da sua identidade do que quando sabemos o nome de um ser humano. Porque os anjos são espíritos puros, conhecer-lhes o nome significa conhecer-lhes a essência, o próprio núcleo do seu ser e o propósito para o qual foram criados. Esse conhecimento está reservado somente a Deus e a quem Ele o quis revelar no Céu.

Em terceiro lugar, ao tentarmos descobrir o nome de nosso anjo da guarda, podemos acabar procurando por sinais de que nosso anjo está tentando nos responder com um nome específico. Nessa tentativa, nós poderíamos confundir muitas coisas como sendo “sinais”, sem que o sejam de fato, e terminaríamos apenas por nos iludir a nós mesmos.

Mais do que isso: assim como estamos na companhia dos anjos, também estamos na companhia de demônios. Se um deles vê que estamos tentando descobrir o nome de nosso anjo da guarda, e sabe o tipo de coisas que tomaremos por sinais (porque os anjos decaídos são mestres na arte de enganar), eles podem se disfarçar como anjos de luz e mandar-nos falsos sinais. Se observam que estamos seguindo seus enganos, eles nos podem nos levar para bem longe. É essa a razão por que muitos santos revelavam a seus diretores espirituais todos os fatos sobrenaturais que lhes ocorriam, para servir de proteção contra ilusões demoníacas.

Existe ainda uma última razão para não brincarmos com nomes de anjos: a Igreja desaconselha essa prática. De acordo com o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, “é de se rechaçar o costume de dar aos anjos nomes particulares, com exceção de Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem nas Escrituras” [2].

Em síntese, uma vez que a humanidade se encontra hierarquicamente abaixo dos anjos, não devemos arrogar-nos um lugar superior, tentando nomear ou descobrir o nome dos anjos que nos foram designados como guardiões. A Igreja desencoraja essa prática para nossa própria proteção. Assim como as nada aconselháveis tentativas de se comunicar inapropriadamente com o mundo dos espíritos, fazer isso pode nos tornar vulneráveis à ação demoníaca, a qual Deus pode permitir a fim de nos ensinar uma lição de humildade.

Fica claro, por todas essas razões, que não é de nossa alçada saber sobre os anjos mais do que nos foi revelado por Deus. Basta-nos o fato de que os temos sempre bem próximos a nós — só uma oração a distância. Procure diariamente, portanto, a guia do seu anjo da guarda, aprenda a amá-lo e a obedecer-lhe… mas não tente descobrir o nome que ele tem, para o seu próprio bem.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Seja professor!
Padre Paulo Ricardo

Seja professor!

Seja professor!

Relembre conosco esta mensagem do Padre Paulo Ricardo a todos os nossos alunos e aprenda o que realmente significa ser “discípulo missionário” em nosso mundo.

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2018
imprimir

A razão de ser de nosso apostolado é bastante simples: todo cristão, imitando a seu divino Mestre, está chamado a fazer tudo o que fez Jesus Cristo em sua vida pública: Ele percorria “cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade” (Mt 9, 35).

Pregar e fazer o bem. Eis aqui vocação de todos nós e, portanto, a finalidade do site do Padre Paulo Ricardo. E você, se ainda não faz parte da nossa família, pode nos ajudar (e muito!) a cumprir a parte que nos cabe dessa missão que o Senhor confiou a quantos o seguem: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28, 19).

O apostolado cristão, que se impõe hoje em dia com ainda mais necessidade, só dará frutos duradouros se estivermos unidos e empenhados, como família e filhos de um mesmo Pai, a conhecer a nossa fé e a difundi-la nos meios em que Ele nos colocou.

É por isso que nós queremos tê-lo ao nosso lado, para que juntos, somando forças, levemos a luz da doutrina católica a um mundo do qual se apodera cada vez mais aquele paganismo que, em outros tempos, fiéis como você e eu ajudaram a dissipar.

Além do imenso material disponibilizado gratuitamente, como homilias diárias, aulas ao vivo e muitos outros programas, temos um extenso catálogo de conteúdos exclusivos, pensados com todo o cuidado para você aprofundar seus conhecimentos sobre a fé da Igreja e assim, bem formado e preparado, tornar-se efetivamente “fermento no meio da massa”.

Sejamos o que o Senhor nos chamou a ser: sal da terra e luz do mundo!

Caso tenha alguma dúvida ou dificuldade para fazer a sua inscrição, entre em contato conosco ou pelo endereço de e-mail: suporte@padrepauloricardo.org, ou pelo telefone: (43) 3027-4136.

Agradecemos desde já a sua generosidade e contamos com suas orações.

Que Deus o abençoe sempre e a Virgem Santíssima, Rainha dos Apóstolos, o proteja sob o seu manto.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

O filme religioso mais inesperado de 2018
Família

O filme religioso
mais inesperado de 2018

O filme religioso mais inesperado de 2018

Quem assistir ao suspense “Um lugar silencioso” irá se surpreender com um filme religioso, que apresenta o silêncio, a simplicidade, a oração e o cuidado recíproco como meios para afugentar os “monstros” de nossa época.

Dom Robert Barron,  Catholic World ReportTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Abril de 2018
imprimir

Fui assistir a “Um lugar silencioso” (A Quiet Place), o novo suspense do diretor John Krasinski, sem absolutamente nenhuma expectativa de encontrar temas teológicos ou espirituais. Tudo o que eu queria era uma noite de lazer no cinema.

Mas que maravilha quando um filme nos surpreende! Eu não sei se serei capaz de encontrar o fio de ouro que liga todos esses temas e os transforma em uma mensagem coerente, mas só uma pessoa muito cega para não perceber as inúmeras ideias religiosas desse filme cativante. (As linhas a seguir contêm revelações sobre o enredo do filme.)

O bispo norte-americano Robert Barron, autor desta crítica.

A estrutura básica da narrativa é apresentada em traços simples e rápidos. Uma praga terrível de criaturas ferozes e famintas desceu sobre a terra. De onde são os monstros? Do espaço sideral, talvez? Isso não se sabe — o que torna a história ainda mais interessante. As poucas pessoas que sobreviveram ao holocausto aprenderam que as criaturas em questão, mesmo sendo cegas, possuem uma audição extraordinariamente aguçada. Por isso, a chave para a sobrevivência está no silêncio.

Nossa atenção se volta para a família Abbot, dois jovens pais e três crianças pequenas, percorrendo silenciosamente seu caminho em meio a um território aberto, cheio de beleza, mas ao mesmo tempo muito perigoso. Quando o filho caçula acende um foguete de brinquedo, fazendo com que um barulho rompa o silêncio, uma das criaturas o devora pouco antes de que seu pai aterrorizado possa salvá-lo.

O filme avança vários meses mais tarde, com os Abbots (inglês para “abade”: coincidência?) conduzindo suas vidas de um modo que só se pode qualificar de monástico: nenhuma conversa além de sussurros, linguagem elaborada de sinais, trabalho silencioso com livros e nos campos, oração em silêncio mas notavelmente fervorosa antes do jantar etc. (Devo confessar que esse último gesto, tão ausente dos filmes e da televisão hoje em dia, pegou-me de surpresa.) Dadas as terríveis exigências do momento, qualquer entretenimento eletrônico, com aparelhos e máquinas, ou ferramentas que façam barulho, estão fora de questão. A agricultura deles é manual, a pescaria se faz com aparatos nada modernos, e até o caminhar é feito a pés descalços.

Mas, coisa admirável de se contemplar, nessa atmosfera orante, silenciosa e cheia de dificuldades, mesmo com a ameaça de morte sempre à espreita, o que floresce é uma família generosa e sacrificada. Os pais dão cuidado e proteção a seus filhos, e o irmão e a irmã sobreviventes são solícitos tanto um para com o outro quanto em relação a seus pais. A jovem garota chega regularmente a arriscar a própria vida para prestar tributo silencioso a seu irmão falecido no lugar em que ele foi morto.

Monstros e criaturas animalescas nos filmes de terror mais reflexivos evocam aquelas coisas que mais nos amedrontam: doença, fracasso, nossa própria maldade e também a morte. É admirável ver um filme de Hollywood sugerindo a necessidade, para afugentar a escuridão em nosso tempo, do silêncio, da simplicidade, do retorno à terra, da oração e do cuidado recíproco.

O drama central de “Um lugar silencioso” é o fato de a senhora Abbott estar esperando um filho. A família inteira se dá conta, é claro, que naquelas circunstâncias uma criança chorando significaria morte certa para todos eles. Mesmo assim, eles decidem não matar o filho quando ele nasce, mas sim escondê-lo e emudecer seus choros de várias formas.

Quando tantos em nossa cultura desejam matar os próprios filhos por razões as mais banais, quando a lei em muitos lugares concede ampla proteção até aos abortos com nascimento parcial, quando pessoas dizem tranquilamente que jamais colocariam um filho em um mundo tão terrível, a família monástica desse filme acolhe a vida, mesmo vivendo no pior dos mundos, mesmo quando tal atitude representa para eles um perigo supremo.

Quando o bebê se encontra prestes a nascer, a mãe se vê sozinha (assista ao filme para saber os detalhes) e na mais vulnerável das situações, pois uma das criaturas acaba de invadir a casa da família. Assim que ela entra em trabalho de parto, o monstro faminto fica à espreita. Imediatamente me veio à mente a cena no livro do Apocalipse, quando a Virgem Maria sofre dores do parto, enquanto o dragão espera pacientemente para devorar-lhe o filho (cf. Ap 12, 2ss).

Enquanto a “abadessa” se esforça para dar à luz, o “abade” sai à procura de seus filhos em perigo e, no fim, se depara com os dois presos em um carro abandonado, com um dos monstros arranhando a cobertura para pegá-los, como o Tiranossaurus Rex em “Jurassic Park”. Depois de dizer através de sinais: “Eu amo você, eu sempre amei você” a sua filha, emocionada através da janela do carro, o pai dá um grito, trazendo o monstro para si mesmo.

Esse ato de amor que se esvazia de si próprio, e que serve para livrar seus filhos do perigo, é uma bela alusão às especulações dos Padres da Igreja a respeito da morte de Jesus, o qual, em seu ato de auto-sacrifício na cruz, atraiu os poderes das trevas para o campo aberto, afastando-os da humanidade, que permanecia sob seu domínio. Em linhas semelhantes, em um trabalho ímpar de enredo (ou Providência) comparável à eficácia do sacrifício de Cristo, fica claro, após a morte do pai, que ele havia deixado para sua família os meios através dos quais os monstros podiam ser derrotados.

Eu realmente não faço ideia se todas ou algumas dessas ideias estavam na mente do diretor, mas sei, pela página de John Krasinski no Wikipédia, que ele é filho de pais católicos, um polonês e uma irlandesa, e que foi criado como praticante devoto de sua fé. Por isso, até que se demonstre definitivamente o contrário, eu mantenho que “Um lugar silencioso” é o filme religioso mais inesperado de 2018.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.