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O que os hobbits têm a ensinar-nos
Espiritualidade

O que os hobbits têm a ensinar-nos

O que os hobbits têm a ensinar-nos

A julgar pelo processo de desmoralização por que passa a sociedade brasileira, em que o vício e a maldade se arvoram em grandes virtudes, a leitura de "O Hobbit" não é somente um entretenimento, mas um verdadeiro exorcismo.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Janeiro de 2014
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Há quem diga que o mundo está dividido entre aqueles que leram O Hobbit e O Senhor dos Anéis e aqueles que ainda não os leram. Além de seu inestimável valor literário, a obra-prima de J. R. R. Tolkien tem o mérito de nos colocar diante dos grandes mistérios e dramas do ser humano. O Hobbit e O Senhor dos Anéis nos fazem penetrar no âmago de nossa alma. 

Não é à toa que, desde o seu lançamento, em 1937, o livro tenha se tornado um best-seller instantâneo, cativando públicos desde a mais tenra idade. E com a volta dos hobbits para os cinemas, após quase 10 anos da estreia de O Senhor dos Anéis, temos mais uma vez a chance de refletirmos sobre a nossa existência e a vida interior.

O Hobbit é o primeiro livro da saga de elfos, anões, magos e outras criaturas estranhas inventados pelo escritor e filólogo Sir John Ronald Reuel Tolkien. A obra — que, assim como em O Senhor dos Anéis, se passa na Terra Média — mistura elementos da mitologia nórdica e greco-romana com a doutrina moral cristã. Apesar do título, o grande protagonista da história é a providência divina, que age silenciosamente em cada acontecimento. Embora não seja mencionado sequer uma vez, Deus está presente o tempo todo, como numa "brisa leve". 

E isso fica evidente desde os primeiros capítulos, em que o pequeno Bilbo Bolseiro se deixa persuadir pelo convite do mago cinzento Gandalf, partindo para uma aventura perigosa ao lado de anões e outros seres fantásticos. Como no chamado da vocação cristã, no início da jornada do hobbit Bilbo está "o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" [1].

Na mitologia de Tolkien, hobbits são criaturas pequenas muito parecidas com os seres humanos, embora "com cerca de metade de nossa altura, e menores que os anões barbados" [2]. Eles andam descalços, têm pés grandes e peludos, mas não possuem barba. Bilbo Bolseiro, o hobbit da história, é um tipo incrivelmente pacato e discreto, considerado pelos de sua vizinhança como alguém muito respeitável, sobretudo porque nunca havia se metido em aventuras ou, como nos conta o narrador, "feito qualquer coisa inesperada" [3]. A sua casa era uma toca bastante confortável, com adegas, quartos e cozinhas, onde Bilbo habitualmente se assentava para fumar seus cachimbos. 

Não existiam novidades na vida daquele hobbit. "Você podia saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer assunto sem ter o trabalho de perguntar a ele" [4]. Isso tudo só havia de mudar no momento em que Gandalf o convidasse para participar de uma jornada, a fim de libertar o ouro dos anões, aprisionado pelo terrível dragão Smaug.

Ao longo da narrativa, Tolkien traça um quadro de evolução do caráter do personagem, que culminará numa grande renúncia para Bilbo Bolseiro; uma renúncia que desencadeará uma série de acontecimentos inesperados, mas invisivelmente ordenados para o bem. O motor principal das forças do mal na história, que é nada mais que o orgulho e a avareza, acaba por ser vencido pela "humildade das menores criaturas desse mundo imaginário (os hobbits), cuja vida simples e marcada pela firmeza de caráter será o elemento explicativo da vitória do Bem contra o Mal" [5]. 

Nisso se desenvolve também, mesmo que de longe, a doutrina da comunhão dos santos. Os personagens que compõem a história são como que peças de uma grande engrenagem; há uma conexão entre seus atos, sejam eles vis ou bons, que influenciam de maneira decisiva no encaminhamento do mundo. Percebe-se, então, aquela providência divina mencionada anteriormente. Mesmo no momento mais trágico da história, ela consegue recolher aspectos bons de cada um, fazendo com que daquele grande mal saia um bem ainda maior.

A jornada do hobbit Bilbo Bolseiro pode ser devidamente interpretada como a jornada dos cristãos. Bilbo, um sujeito de hábitos previsíveis e calculados, de repente se lança a uma expedição duvidosa, acompanhado por um grupo de anões rabugentos e por um mago cheio de mistérios, sem garantias sólidas de que voltará vivo ou de que terá uma recompensa. Lança-se, porém, com uma certeza a princípio imatura, a qual poderíamos chamar de , que, vez ou outra, irá titubear frente aos desafios e às circunstâncias difíceis. Muitas vezes, o pequeno aventureiro se pegará lembrando de "sua terra, de coisas seguras e confortáveis, e a pequena toca de hobbit" [6]. Mas o impulso da amizade e a graça de uma ação silenciosa, por assim dizer, o levarão a renunciar a si mesmo, tomando para si a missão de lutar por seus amigos, mesmo que estes falhem e duvidem dele. 

Bilbo é tomado por uma firme decisão; uma decisão profunda que diz respeito a toda a estrutura da vida. Trata-se de uma história fascinante, na qual os limites da existência e as fraquezas dos companheiros — os pecados e defeitos da humanidade — são compensados pela confiança num bem maior — "ou seja, o Deus que está voltado para mim, uma certeza sobre a qual posso fundar minha vida, com a qual posso viver e morrer" [7].

Como foi dito pelo Padre Paulo Ricardo na aula sobre O Senhor dos Anéis, não importa tanto o que você fará com esses livros, mas o que esses livros farão com você. A bem da verdade, julgando pelo processo de desmoralização pelo qual a nossa sociedade passa, em que o vício e a maldade se arvoram em grandes virtudes, ao ponto de o público brasileiro fazer campanha por um "beijo gay" na novela, a leitura de O Hobbit não é somente um entretenimento; é um exorcismo

Tolkien, quando deu vida aos seres estranhos — mas não menos fantásticos — da Terra Média, talvez não pretendesse provocar o leitor em seus aspectos psicológicos e éticos, talvez não quisesse nos ensinar sobre pecado, paixão, morte e ressurreição — "Quis fazer isso para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho", escreveu Tolkien, certa vez [8] —, mas o fato é que o que vai em obras como O Hobbit, O Senhor dos Anéis e outros similares pode ser ainda mais evangélico que muita homilia. "E é justamente por ter assumido esses valores básicos, intrínsecos ao Cristianismo" — diz o especialista na literatura de Tolkien, Ives Gandra Martins Filho —, "que (J. R. R. Tolkien) conseguiu produzir uma obra de valor perene e de atrativo universal" [9].

Os mitos têm a função de nos ensinar valores universais, transmitindo também o gosto pelo maravilhamento que há no mistério do mundo. Não é de pouca monta que outro escritor inglês tenha dado a um dos seus livros mais famosos um capítulo dedicado à "Ética da elfolândia". Em Ortodoxia, G. K. Chesterton diz que os contos de fadas lhe deram duas convicções: "primeiro, de que o mundo é um lugar fantástico e surpreendente; segundo, de que diante dessa loucura e prazer nós deveríamos ser modestos e submetermo-nos às estranhas limitações de uma bondade tão estranha" [10]. 

De fato, a poesia dos elfos de Valfenda é um santo remédio contra o racionalismo dos romances modernos: "A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim" [11]. E é por isso que a leitura da obra de Tolkien constitui-se num elemento de razoabilidade e sanidade.

Em verdade, a história de um autêntico cristão é "a história de como um bolseiro teve uma aventura, e se viu fazendo e dizendo coisas totalmente inesperadas. Ele pode ter perdido o respeito dos seus vizinhos, mas ganhou — bem, vocês vão ver se ele ganhou alguma coisa no final" [12].

Referências

  1. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18: AAS 98 (2006), n. 1
  2. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. 2
  3. Ibidem, p. 2
  4. Ibidem, p. 2
  5. MARTINS FILHO, Ives Gandra. O Mundo do Sr. dos Anéis: Vida e Obra de J.R.R. Tolkien. Portugal: Publicações Europa-América, 2003, p. 19
  6. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012
  7. RATZINGER, Joseph. O Sal da Terra: o cristianismo e a Igreja Católica no século XXI: um diálogo com Peter Seewald. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005
  8. TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis. 6ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. XIII
  9. MARTINS FILHO, Ives Gandra. O Mundo do Sr. dos Anéis: Vida e Obra de J.R.R. Tolkien. Portugal: Publicações Europa-América, 2003, p. 20
  10. CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 97
  11. Ibidem, p. 30
  12. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. 2

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Muitas as comunhões, poucos os comungantes!
Doutrina

Muitas as comunhões,
poucos os comungantes!

Muitas as comunhões, poucos os comungantes!

Comungar pouco ou muito não é a questão. Comungar bem, eis o que verdadeiramente importa, seja para acabar com as comunhões sacrílegas, seja para crescer na intimidade com Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Setembro de 2018
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Nem sempre se viu, na história da Igreja, tantas pessoas entrando na fila da Comunhão como hoje. Fazendo uma retrospectiva histórica da recepção deste sacramento, Santo Tomás explica em sua Suma Teológica que:

As leis da Igreja variaram nesse ponto, segundo as diversas situações. Com efeito, na Igreja primitiva, quando vigorava uma maior devoção da fé cristã, o costume era a comunhão diária dos fiéis. Por isso, o Papa Anacleto diz: “Terminada a consagração, todos comunguem, se não quiserem pôr-se fora dos limites da Igreja, pois assim prescreveram os Apóstolos e a Santa Igreja romana mantém como uso”.

Em momento ulterior, o fervor da fé arrefeceu, e o Papa Fabiano concedeu que “se todos não comungam frequentemente, que o façam pelo menos três vezes no ano”, a saber, “na Páscoa, Pentecostes e Natal do Senhor”. O Papa Sotero disse que também se devia comungar na Quinta-feira Santa, como consta nos decretos.

Mais tarde, “devido à crescente iniquidade, tendo arrefecido o amor na maioria”, o Papa Inocêncio III decidiu que os fiéis comungassem “ao menos uma vez por ano”, a saber, “por ocasião da Páscoa”. [1]

A relação que se verifica no comentário do Aquinate é bem clara: quanto mais devotos forem os cristãos, mais frequentes serão as suas comunhões. Para medir, portanto, se é bom ou ruim que haja tantas pessoas comungando, o que importa analisar não é tanto o tamanho das procissões que se formam nas igrejas, mas sim o estado de alma em que se comunga.

Nessa matéria, nunca insistiremos o suficiente no grande mal que são as comunhões sacrílegas. Se é verdade que, nas palavras de Santo Ambrósio, a Hóstia consagrada é verdadeira “medicina espiritual” [2] e vigor para os fracos, igualmente verdadeiro é que “quem come e bebe indignamente o Corpo e o Sangue do Senhor, come e bebe a própria condenação” (1Cor 11, 29). Santo Tomás explica que “nem todas as medicinas são boas para todas as enfermidades” [3]. Assim como um paciente na UTI não tem condições de comer um prato de feijoada, não são todas as pessoas que devem tomar o remédio eucarístico.

Expliquemos melhor: não se trata de “impor barreiras” à ação da graça de Deus, ou de excluir arbitrariamente as pessoas do contato com Ele. A Comunhão foi instituída por Nosso Senhor para todos; em seu discurso sobre o pão da vida, não resta dúvida de que era à totalidade dos discípulos que se dirigiam os seus desejos de união.

Não pode participar do banquete de núpcias, no entanto, quem não está em trajes de festa (cf. Mt 22, 1-14). A união que acontece em toda Comunhão, entre Cristo e a nossa alma, pressupõe uma comunhão anterior, a que a Igreja sempre chamou “estado de graça”. Sem essa realidade — infundida em nós pelo sacramento do Batismo e devolvida a nós, quando pecamos mortalmente, pelo sacramento da Penitência —, não importa quantas vezes toquemos e comunguemos o Corpo do Senhor, nossa união com Deus jamais acontecerá efetivamente. Ao contrário, só tornaremos pior a nossa situação, assim como uma pessoa que come todo tipo de alimentos sem que esteja, no entanto, com o organismo preparado para isso.

Essas considerações, é claro, estão longe de abarcar a totalidade do mistério de nossa comunhão com Deus. Assim como não se ama alguém simplesmente evitando esta ou aquela conduta específica, o principal em nosso relacionamento com Deus é pensar no que devemos fazer para amá-lO, comungando cada vez melhor.

Para tanto, muito pode nos ajudar o famoso episódio da mulher hemorroíssa (cf. Mc 5, 25-34), a qual, no meio duma multidão que acotovelava Jesus e O movia de lá para cá, foi a única a receber do contato com Ele força divina para curar a sua enfermidade. O segredo daquela mulher simples era sobretudo a sua e, também hoje, para que nossas comunhões sejam verdadeira união com Deus, é essa fé que devemos pedir a Ele.

Do contrário, apesar das muitas comunhões em nossas igrejas, poucos serão os verdadeiros “comungantes”; apesar das muitas pessoas que se acotovelam para receber Jesus na Eucaristia, poucos serão os verdadeiramente beneficiados por esse sacramento. Mais do que comungar muito ou pouco, portanto, o que importa de fato é comungar bem: comungar estando na graça de Deus, comungar com fé, comungar consciente da grandeza do Criador e da baixeza da criatura, comungar temendo ofendê-lO e, ao mesmo tempo, querendo amá-lO.

Peçamos, pois, a Jesus sacramentado, antes de toda Comunhão, que o seu Corpo e o seu Sangue non proveniant in iudicium et condemnationem, “não se tornem causa de juízo e condenação”, sed prosint ad tutamentum mentis et corporis, et ad medelam percipiendam, mas “sejam sustento e remédio” para nossa vida.

Não nos esqueçamos, também, de uma última coisa: sempre seremos indignos de receber Deus presente no Santíssimo Sacramento. Por isso mesmo rezamos em todas as Missas: Domine, non sum dignus ut intres sub tectum meum, sed tantum dic verbo et sanabitur anima mea, “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e minh’alma será salva”. Sempre que nos aproximarmos dEle, não será por mérito nosso, mas por pura gratuidade e misericórdia da parte de Deus.

Esse pensamento, longe de nos afastar da Eucaristia, só deve fazer crescer ainda mais a nossa confiança, porque é através deste alimento que seremos elevados mais rapidamente à santidade que Deus tanto espera de nós. “Por isso, a Pedro que diz a Jesus: ‘Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador’, o Senhor responde: ‘Não temas’” [4].

Referências

  1. Suma Teológica, III, q. 80, a. 10, ad 5.
  2. “Devo recebê-lo sempre, para que sempre perdoe os meus pecados. Se peco continuamente, devo ter sempre um remédio” (Santo Ambrósio, De Sacramentis, IV, 6, 28: PL 16, 464). “Aquele que comeu o maná, morreu; aquele que come deste corpo, obterá o perdão dos seus pecados” (Ibid., IV, 5, 24: op. cit., 463).
  3. Suma Teológica, III, q. 80, a. 4, ad 2.
  4. Suma Teológica, III, q. 80, a. 10, ad 3.

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A santa que escreveu um tratado sobre o Purgatório
Espiritualidade

A santa que escreveu
um tratado sobre o Purgatório

A santa que escreveu um tratado sobre o Purgatório

Para narrar os tormentos do Purgatório, Santa Catarina de Gênova partiu não de uma revelação particular, mas de sua própria experiência de conversão. Conheça nesta catequese um pouco de sua vida e obra.

Papa Bento XVI25 de Setembro de 2018
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Prezados irmãos e irmãs!

Hoje gostaria de vos falar de Catarina de Gênova, conhecida sobretudo pela sua visão sobre o Purgatório. O texto que descreve a sua vida e o seu pensamento foi publicado na região italiana da Ligúria, em 1551, e é dividido em três partes: a Vida propriamente dita, a Demonstração e declaração do Purgatório — mais conhecida como Tratado — e o Diálogo entre a alma e o corpo [1]. O redator final foi o confessor de Catarina, o sacerdote Cattaneo Marabotto.

Catarina nasceu em Gênova, em 1447; última de cinco filhos, ficou órfã do pai, Giacomo Fieschi, ainda em tenra idade. A mãe, Francesca di Negro, dispensou uma válida educação cristã, a tal ponto que a maior das duas filhas se tornou religiosa. Com 16 anos, Catarina foi concedida como esposa a Giuliano Adorno, um homem que, depois de várias experiências comerciais e militares no Oriente Médio, tinha regressado a Gênova para casar.

Primeira conversão

A vida matrimonial não foi fácil, também devido à índole do marido, apaixonado pelo jogo de azar. Inicialmente, a própria Catarina foi induzida a levar um tipo de vida mundana em que, contudo, não conseguia encontrar a serenidade. Depois de dez anos, no seu coração havia um profundo sentido de vazio e de amargura.

Gravura retratando Santa Catarina de Gênova.

A conversão teve início em 20 de março de 1473, graças a uma experiência singular. Tendo ido à igreja de São Bento e ao mosteiro de Nossa Senhora das Graças para se confessar, ajoelhou-se diante do sacerdote e “recebeu — como ela mesma escreve — uma chaga no coração, de um imenso amor de Deus”, com uma visão tão clarividente das suas misérias e dos seus defeitos e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus, que quase desmaiou. Foi tocada no coração por este conhecimento de si mesma, da vida vazia que ela levava e da bondade de Deus. Desta experiência derivou a decisão que orientou toda a sua vida, expressa com estas palavras: “Basta com o mundo e com os pecados” [2].

Então Catarina fugiu, suspendendo a Confissão. Voltou para casa, entrou no quarto mais escondido e chorou prolongadamente. Naquele momento, foi instruída interiormente sobre a oração e adquiriu a consciência do imenso amor de Deus por ela, pecadora, uma experiência espiritual que não conseguia expressar com palavras [3]. Foi nessa ocasião que lhe apareceu Jesus sofredor que carregava a cruz, como é frequentemente representado na iconografia da santa. Poucos dias depois, foi ter com o sacerdote para finalmente realizar uma boa Confissão. Aqui teve início aquela “vida de purificação” que, durante muito tempo, lhe fez sentir uma dor constante pelos pecados cometidos e que a impeliu a impor-se penitências e sacrifícios para demonstrar o seu amor a Deus.

Neste caminho, Catarina foi-se aproximando cada vez mais do Senhor, até entrar naquela que é denominada “vida unitiva”, ou seja, uma relação de profunda união com Deus. Na Vida está escrito que a sua alma era orientada e ensinada interiormente só pelo dócil amor de Deus, que lhe concedia tudo aquilo que ela precisava. Catarina abandonou-se de modo tão total nas mãos do Senhor que chegou a viver, durante cerca de vinte e cinco anos — como ela escreve — “sem o intermédio de qualquer criatura, instruída e governada unicamente por Deus” [4], alimentada sobretudo pela oração constante e pela Sagrada Comunhão recebida todos os dias, o que não era comum na sua época. Só muitos anos mais tarde o Senhor lhe concedeu um sacerdote que cuidasse da sua alma.

Uma vida de apostolado

Catarina hesitava sempre em confiar e manifestar a sua experiência de comunhão mística com Deus, sobretudo pela profunda humildade que sentia diante das graças do Senhor. Foi só a perspectiva de dar glória a Ele e de poder favorecer o caminho espiritual de outros que a levou a narrar aquilo que se verificava nela, a partir do momento da sua conversão, que é a sua experiência originária e fundamental.

O lugar da sua ascensão aos vértices místicos foi o hospital de Pammatone, a maior estrutura hospitalar genovesa, da qual foi diretora e animadora. Portanto, não obstante esta profundidade da sua vida interior, Catarina vive uma existência totalmente ativa. Em Pammatone foi-se formando ao seu redor um grupo de seguidores, discípulos e colaboradores, fascinados pela sua vida de fé e pela sua caridade. O próprio marido, Giuliano Adorno, foi conquistado por ela, a ponto de abandonar a sua vida desregrada, de se tornar terciário franciscano e de se transferir para o hospital, para oferecer a sua ajuda à esposa. O compromisso de Catarina no cuidado dos doentes continuou até ao fim do seu caminho terreno, em 15 de setembro de 1510.

Desde a conversão até à morte, não houve acontecimentos extraordinários, mas dois elementos caracterizaram toda a sua existência: por um lado a experiência mística, ou seja, a profunda união com Deus, sentida como uma união esponsal e, por outro, a assistência aos enfermos, a organização do hospital e o serviço ao próximo, especialmente aos mais necessitados e abandonados. Estes dois pólos — Deus e o próximo — preencheram totalmente a sua vida, transcorrida praticamente entre as paredes do hospital.

Estimados amigos, nunca devemos esquecer que quanto mais amarmos a Deus e formos constantes na oração, tanto mais conseguiremos amar verdadeiramente quantos estão ao nosso redor, quem está perto de nós, porque seremos capazes de ver em cada pessoa o Rosto do Senhor, que ama sem limites nem distinções. A mística não cria distâncias em relação ao outro, não cria uma vida abstrata, mas sobretudo aproxima do outro, porque se começa a ver e a agir com os olhos, com o Coração de Deus.

Seu pensamento sobre o Purgatório

O pensamento de Catarina sobre o Purgatório, pelo qual ela é particularmente conhecida, está condensado nas últimas duas partes do livro citado no início: o Tratado sobre o Purgatório e o Diálogo entre a alma e o corpo.

É importante observar que, na sua experiência mística, Catarina jamais tem revelações específicas sobre o Purgatório ou sobre as almas que ali estão a purificar-se. Todavia, nos escritos inspirados pela nossa santa, é um elemento central, e o modo de o descrever tem características originais em relação à sua época.

O primeiro traço original diz respeito ao “lugar” da purificação das almas. No seu tempo, ele era representado principalmente com o recurso a imagens ligadas ao espaço: pensava-se num certo espaço, onde se encontraria o Purgatório. Em Catarina, ao contrário, o Purgatório não é apresentado como um elemento da paisagem das vísceras da terra: é um fogo não exterior, mas interior. Este é o Purgatório, um fogo interior.

A santa fala do caminho de purificação da alma, rumo à plena comunhão com Deus, a partir da própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em relação ao amor infinito de Deus [5]. Ouvimos sobre o momento da conversão, quando Catarina sente repentinamente a bondade de Deus, a distância infinita da própria vida desta bondade e um fogo ardente no interior de si mesma. E este é o fogo que purifica, é o fogo interior do Purgatório.

Também aqui há um traço original em relação ao pensamento do tempo. Com efeito, não se começa a partir do além para narrar os tormentos do Purgatório — como era habitual naquela época e talvez ainda hoje — e depois indicar o caminho para a purificação ou a conversão, mas a nossa santa começa a partir da própria experiência interior da sua vida a caminho da eternidade. A alma — diz Catarina — apresenta-se a Deus ainda vinculada aos desejos e à pena que derivam do pecado, e isto torna-lhe impossível regozijar com a visão beatífica de Deus.

Catarina afirma que Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina [6]. E também nós sentimos como estamos distantes, como estamos repletos de tantas coisas, a ponto de não podermos ver Deus. A alma está consciente do imenso amor e da justiça perfeita de Deus e, por conseguinte, sofre por não ter correspondido de modo correto e perfeito a tal amor, e precisamente o amor a Deus torna-se chama, é o próprio amor que a purifica das suas escórias de pecado.

Em Catarina entrevê-se a presença de fontes teológicas e místicas das quais era normal haurir na sua época. Em particular, encontra-se uma imagem típica de Dionísio, o Areopagita, ou seja, aquela do fio de ouro que liga o coração humano ao próprio Deus. Quando Deus purifica o homem, liga-o com um fio de ouro extremamente fino, que é o seu amor, e atrai-o a si com um afeto tão forte, que o homem permanece como que “superado, vencido e totalmente fora de si”. Assim, o coração do homem é invadido pelo amor de Deus, que se torna o único guia, o único motor da sua existência [7]. Esta situação de elevação a Deus e de abandono à sua vontade, expressa na imagem do fio, é utilizada por Catarina para manifestar a obra da luz divina nas almas do Purgatório, luz que as purifica e eleva aos esplendores dos raios fúlgidos de Deus [8].

Queridos amigos, na sua experiência de união com Deus os santos alcançam um “saber” tão profundo dos mistérios divinos, no qual o amor e o conhecimento se compenetram, a ponto de ajudarem os próprios teólogos no seu compromisso de estudo, de intelligentia fidei, de intelligentia dos mistérios da fé, de aprofundamento real dos mistérios, por exemplo daquilo que é o Purgatório.

Com a sua vida, Santa Catarina ensina-nos que quanto mais amamos a Deus e entramos em intimidade com Ele na oração, tanto mais Ele se faz conhecer e acende o nosso coração com o seu amor. Escrevendo acerca do Purgatório, a santa recorda-nos uma verdade fundamental da fé, que se torna para nós um convite a rezar pelos defuntos, a fim de que eles possam chegar à visão beatífica de Deus na comunhão dos santos [9].

Além disso, o serviço humilde, fiel e generoso, que a santa prestou durante toda a sua vida no hospital de Pammatone, é um exemplo luminoso de caridade para todos e um encorajamento especialmente para as mulheres que oferecem uma contribuição fundamental para a sociedade e a Igreja com a sua obra preciosa, enriquecida pela sua sensibilidade e pela atenção aos mais pobres e necessitados. Obrigado!

Notas

  • Audiência Geral do Papa Bento XVI, de 12 de janeiro de 2011, extraída e levemente adaptada do site da Santa Sé.

Recomendações

  1. Cf. Livro da Vida admirável e da doutrina santa, da beata Catarina de Gênova, que contém uma útil e católica demonstração e declaração do purgatório, Gênova, 1551.
  2. Cf. Vida admirável, 3rv.
  3. Cf. Vida admirável, 4r.
  4. Vida, 117r-118r.
  5. Cf. Vida admirável, 171v.
  6. Cf. Vida admirável, 177r.
  7. Cf. Vida admirável, 246rv.
  8. Cf. Vida admirável, 179r.
  9. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1032.

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Namorar assim não é “radical demais”?
Testemunhos

Namorar assim não é “radical demais”?

Namorar assim não é “radical demais”?

Este casal, hoje unido em santo Matrimônio, decidiu ser radical e cortar de vez os “beijos longos e exagerados” de seu relacionamento. O que eles descobriram, ao final de tudo, foi o verdadeiro amor.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2018
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E.C., aluno de nosso site, escreveu e enviou-nos a mensagem abaixo em 2015, quando ainda não estava casado. De qualquer modo, seu testemunho da época de namoro com certeza será um grande incentivo aos casais de namorados católicos, especialmente nestes tempos em que a doutrina moral da Igreja é muitas vezes vista como um mero “ideal”, distante e quase inatingível para as pessoas, ou “radical demais” para ser seguida fielmente, em todas as suas exigências.

Leiam todos os casais este brevíssimo testemunho e inspirem-se. Um namoro casto é sim possível, com a graça de Deus!


Olá! Eu e minha namorada escrevemos um texto para dar nosso testemunho de como o vídeo “Quais são as carícias permitidas no namoro?”, do programa A Resposta Católica, melhorou o nosso namoro. O narrador do texto sou eu, o rapaz da relação.

Quando comecei a namorar não entendia o que era castidade e pensava que era casto quem casava sem antes ter tido uma relação sexual. Comecei meu namoro com um pensamento mais ou menos assim: farei tudo, menos sexo.

Posso dizer que foi quase isso que aconteceu, porém, fui percebendo que algo não estava certo. Lembro-me de ter a consciência pesada depois dos encontros que tínhamos. Com o tempo percebi que as carícias que aconteciam durante esses encontros não eram certas e que estavam nos prejudicando. Mais: desagradavam a Deus. Resolvemos parar com elas e continuar apenas com os beijos, contudo os beijos que aconteciam eram longos e exagerados.

Durante esse tempo vi um vídeo do padre Paulo, não me lembro ao certo qual era, e nele entendi que um pecado sexual não está, necessariamente, no ato físico que acontece entre os parceiros, mas sim no que os dois estão realmente querendo, na intenção que move o ato; se a intenção tem como centro o prazer, há um problema, há um pecado, porque de uma forma ou de outra você acaba utilizando a outra pessoa como um objeto para conseguir o prazer desejado.

Surgiram, então, alguns questionamentos na minha cabeça, por exemplo: “Qual a intenção que há em mim quando beijo minha namorada? É por afeto? É para demonstrar carinho? É por prazer? Esses beijos nos fazem bem?” Eu não podia negar que, nos beijos longos que aconteciam, o afeto cedo ou tarde perdia significado e o que restava era a busca do prazer. Pensei várias vezes em parar com este tipo de beijo por entender que estavam errados, minha consciência me incomodava, não sabia o que fazer, porém eu pensava que seria radical demais parar com eles.

No meio disto eu vi o vídeo “Quais são as carícias permitidas no namoro?”. Relacionei o que o padre falou com as experiências que eu tive e percebi que eu estava utilizando minha namorada como um objeto de prazer. Eu não podia negar isso, essa era a verdade e ponto final. Assim, eu e ela conversamos sobre essa questão, decidimos parar com os beijos longos e fazer o que o padre disse.

O resultado da mudança foi esplêndido. O amor, a vontade de ver o outro crescer, a admiração entre nós, tudo isso aumentou muito, passamos a ficar muito mais felizes. O tempo, antes utilizado para algo impróprio ao namoro, agora é utilizado para conversas francas, filmes sadios e troca de conhecimentos. O carinho e afeto, demonstrados nos pequenos detalhes, são mais significativos e importantes.

Hoje, temos a certeza de que queremos o melhor um para o outro, que nosso relacionamento se traduz em companheirismo, em crescimento, em querer o melhor para o outro independentemente da satisfação pessoal. O sorriso em nosso rosto demonstra a felicidade e gratidão que sentimos. Podemos afirmar que, se pudéssemos, não hesitaríamos em voltar no tempo e namorar assim, regidos por um amor verdadeiro.

Muito obrigado, Padre Paulo Ricardo!

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E se fosse hoje o dia da sua morte?
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E se fosse hoje o dia da sua morte?

E se fosse hoje o dia da sua morte?

Um destino eterno aguarda todo homem que vem a este mundo: ou a glória do céu ou a amargura sem termo do inferno. Cabe a nós, no curso da vida presente, decidir para onde queremos ir.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Setembro de 2018
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Os católicos de hoje sofrem de um mal quase desconhecido das gerações passadas: uma total indisposição para pensar na morte e nas realidades que, queiramos ou não, nos aguardam a todos depois dela — os novíssimos.

Derivado do adjetivo latino novum, o termo é um aportuguesamento do superlativo novissimum, que significa o mesmo que “último” ou “final” em alguma ordem de coisas. No sentido em que aqui nos interessa, a expressão “novíssimos” refere-se às realidades últimas que, a partir da morte, estão à espera de todo ser humano: “Em tudo o que fizeres”, diz o Eclesiástico, “lembra-te dos teus novíssimos”, isto é, do teu fim, “e jamais pecarás” (Eclo 7, 40).

Neste derradeiro capítulo de nosso curso “Catequese para Adultos”, Padre Paulo Ricardo faz um estudo sobre a escatologia cristã e explica, de acordo com o que sempre ensinou a Igreja, o que é a morte e o juízo particular que a ela se segue, qual o destino eterno de toda alma e o que acontecerá no fim dos tempos com toda a humanidade.

O teaser acima contém trechos da aula 32, intitulada “Depois da morte vem o juízo”.

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