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Pigmeus do mundo sobrenatural e eterno
EspiritualidadeSociedade

Pigmeus do mundo
sobrenatural e eterno

Pigmeus do mundo sobrenatural e eterno

Se são muitos os males que pesam sobre nossas cabeças, é porque são poucas as almas que procuram se conformar às verdades eternas.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Setembro de 2014
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Não é preciso muita perspicácia para identificar que a humanidade afunda em uma grave crise. Infelizmente, até o lugar que deveria ser o oásis no deserto de materialismo que se experimenta em nossos tempos se encontra muitas vezes devastado pelo pensamento mundano. Poucas vezes as palavras do profeta foram tão apropriadas: “Se eu saio para os campos, eis os mortos à espada; se eu entro na cidade, eis as vítimas da fome!" [1].

Evidentemente, está a se falar de uma crise de fundo espiritual. O homem contemporâneo é o anômalo que o Papa Pio XII descrevia como “gigante do mundo físico", mas “pigmeu do mundo sobrenatural e eterno" [2].

Várias imagens podem ser usadas para compor esta personagem estranha que é o homem do século XXI. Em outros tempos, por exemplo, era comum o fenômeno das “conversões tardias": pessoas que, após viver muito tempo afastadas de Deus e da Igreja, vendo a passagem dos anos e a proximidade da morte, caíam em si mesmas, tomavam fôlego e procuravam o caminho do Céu. Hoje, experimenta-se a triste realidade das “obstinações tardias": pessoas que, depois de viverem dissolutamente a vida inteira, recobram ânimo no fim da vida... para ofender ainda mais a Deus, dissipando os seus últimos dias no lamaçal do pecado e usando os seus fios de cabelo brancos para aconselhar os outros a fazer o mesmo – bem ao estilo “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos" [3].

No outro extremo da pirâmide etária, o quadro também não é muito alentador. O demônio aprendeu muito bem com Platão que “o começo, em todas as coisas, é sempre o mais importante, mormente para os jovens", já que “é sobretudo nessa época que os modelamos e que eles recebem a marca que pretendemos imprimir-lhes" [4]; por isso, destrói a família e aquilo que deveria ser a educação das crianças torna-se a razão de sua queda. Não é raro assistir, por exemplo, até mesmo em programas de televisão, a crianças cantando e dançando músicas indecentes.

Mas, os exemplos se multiplicam. Em um projeto chamado de “genial" por um site jornalístico, uma norte-americana criou um acampamento em que colocava meninos – de 5 a 12 anos – vestidos como meninas e vice-versa. O objetivo era “ajudar famílias e escolas a entenderem mais sobre o assunto relacionado ao universo LGBT". A iniciativa – mais uma das que integram a malfadada “ideologia de gênero" – “gerou uma série de fotos, que por sua vez se tornarão um livro" [5].

Menino desfila vestido de menina. A imagem faz parte de um álbum só para retratar "crianças que não se conformam com o próprio gênero".

O que dizer de uma época em que fotos como essas, com crianças sendo tratadas como cobaias de uma experiência ideológica, são apreciadas a ponto de produzirem um livro? Na ânsia de “agigantar-se" física e materialmente, o homem tem prescindido de sua dimensão espiritual e, como consequência, tem descido mais baixo que a própria natureza.

Investigar as causas da rápida e progressiva degeneração de nosso século é menos urgente que indicar os remédios para a sua salvação. Estes, na verdade, se resumem a um: a graça de Deus. Qualquer esforço humano, sem o auxílio sobrenatural, será em vão. Para isso, é preciso que recuperemos duas coisas sobre as quais pouco se fala ultimamente: oração e penitência.

Essas duas palavras, tão comuns no vocabulário dos antigos, designam, com efeito, as duas armas com as quais a Igreja, desde o começo e em todo o tempo, santifica os seus membros. Por meio da oração, pedem-se a Deus as graças necessárias para amá-Lo; pela mortificação, os nossos corações se alargam para amar mais perfeitamente a Ele.

Se são muitos os males que pesam sobre nossas cabeças, é porque são poucas as bocas que repetem e menos ainda as almas que se conformam às verdades eternas. Que sejamos santos: eis o grande desafio de toda a nossa existência.

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Agostinho, o filho das lágrimas
Santos & Mártires

Agostinho, o filho das lágrimas

Agostinho, o filho das lágrimas

Como Santa Mônica renunciou ao seu filho para entregá-lo nas mãos da Santa Mãe Igreja

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Agosto de 2014
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As Confissões de Santo Agostinho não são apenas o retrato extraordinário dessa alma tão grande cuja sombra cobriu não só a Idade Média, como toda a história da humanidade. Por trás do gênio de Agostinho estão as súplicas e o fervor incansável de uma mãe. A autobiografia deste doutor da Igreja inclui, em suas páginas, a incrível história de Santa Mônica, que orou dia e noite para que seu filho pagão se encontrasse com a Igreja e se fizesse seu filho.

A primeira grande lição da vida de Mônica está no valor do sofrimento escondido. De fato, são inúmeras as vezes que Santo Agostinho interrompe a narrativa de sua vida para falar das devotadas lágrimas de sua mãe: “Minha mãe, tua fiel serva, chorava-me diante de ti muito mais do que as outras mães costumam chorar sobre o cadáver dos filhos, pois via a morte de minha alma com a fé e o espírito que havia recebido de ti" [1]; “Tuas mãos, meu Deus, no segredo de tua providência, não abandonavam minha alma; e minha mãe, dia e noite, não deixava de te oferecer em sacrifício por mim o sangue de seu coração, na forma de suas lágrimas" [2].

“Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa" [3]. Aquele pranto, que engendrou a conversão e a santidade de um dos santos e escritores mais aclamados do mundo, ficou oculto; enquanto as grandes obras de Agostinho ainda hoje gritam ao mundo as verdades eternas, as lágrimas e os cuidados de Santa Mônica, silenciosos, não queriam ganhar um livro, mas tão somente a alma de seu filho: preciosas lágrimas, que tão grande valor tiveram diante de Deus; notáveis cuidados, que, conta Agostinho, “para me gerar em espírito eram piores que os que [ela] suportava quando me concebeu pela carne" [4].

Certa vez, preocupada com a adesão de seu filho à heresia maniqueísta, Mônica procurou a ajuda de um bispo, instando-o para que conversasse com Agostinho e o convencesse do erro dessa doutrina. O bispo se negava a fazê-lo, dizendo que o rapaz descobriria por si mesmo o engano em que se encontrava. Mas, Mônica não se contentava e continuava suplicando ao bispo que fizesse alguma coisa. “Já com certo enfado de sua insistência", ele respondeu à santa: “Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, que não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas" [5].

O segundo ensinamento de Santa Mônica está em seu testemunho valoroso de mãe, que transformou a sua afeição natural pelo filho em amor verdadeiramente virtuoso, de caridade. De fato, antes de partir para Roma, Agostinho escreve que ela, “como todas as mães, e ainda mais que a maioria delas, desejava manter-me junto de si, (...) buscando em lágrimas ao que com gemidos havia dado à luz" [6].

Auxiliada pela graça de Deus, no entanto, Mônica supera o apego por Agostinho para amá-lo em Deus. Com efeito, tendo presenciado a conversão do filho à fé católica, esta santa mulher deixa o seguinte testamento:

“Filho, quanto a mim, já nada me atrai nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem por que ainda estou aqui, se já se desvaneceram pra mim todas as esperanças do mundo. Uma só coisa me fazia desejar viver um pouco mais, e era ver-te católico antes de morrer. Deus me concedeu esta graça superabundantemente, pois te vejo desprezar a felicidade terrena para servi-lo. Que faço, pois, aqui?" [7]

Impossível não lembrar os suspiros apaixonados que Santa Teresa de Jesus dirigia a Nosso Senhor, quase que morrendo por não poder morrer. É o que anseiam as almas que amam ordenadamente este mundo: nada mais querem nele senão a glória de Deus e a salvação das almas.

Em 387, na cidade de Óstia, poucos dias depois de uma memorável experiência mística com seu filho, partiu Mônica para o Céu, deixando como último desejo que rezassem por ela “diante do altar do Senhor" [8]. Hoje, nos altares do mundo inteiro, todos os cristãos celebram a memória de seu filho e cantam agradecidos a Deus pela vida desta santa mulher, mãe e esposa, que, com suas orações e súplicas, deu à humanidade um grande exemplo de amor e um santo bispo e doutor da Igreja.

Santo Agostinho e Santa Mônica, rogai por nós!

Referências

  1. Confissões, III, 11
  2. Ibidem, V, 7
  3. Mt 6, 6
  4. Confissões, V, 9
  5. Ibidem, III, 12
  6. Ibidem, V, 8
  7. Ibidem, IX, 10
  8. Ibidem, IX, 11

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As pequenas raposas que destroem a vinha
Espiritualidade

As pequenas raposas
que destroem a vinha

As pequenas raposas que destroem a vinha

Na luta pela santidade, é preciso tomar cuidado com os pecados veniais, que entravam a união da alma com Deus e dispõem a alma para os pecados mais graves.

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Agosto de 2014
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O apóstolo João escreve que “omnis iniustitia peccatum est, et est peccatum non ad mortem – toda injustiça é pecado, mas existe pecado que não conduz à morte" [1]. Trata-se da conveniente distinção dos pecados quanto à sua gravidade. Não é verdade, como insinuam alguns intérpretes desautorizados das Escrituras, que todos os pecados são iguais. Algumas faltas extinguem imediatamente a chama da caridade, fazendo perder a bem-aventurança eterna; outras, no entanto, embora desordenadas, “conservam a ordenação para o último fim" [2]: assim, um pecado de adultério – está claro – é muito mais grave que uma palavra suja.

É preciso, no entanto, refrear o perigo de ter em pouca conta os pecados veniais, já que eles não só atrasam o nosso progresso na vida de santidade, como são sumas ofensas contra Deus.

Antes de explicar como o pecado venial não só impede nossa união como Deus, como dispõe nossa alma para a prática das faltas mais graves [3], é preciso lembrar a altíssima vocação para a qual fomos chamados e à qual, infelizmente, poucas vezes correspondemos devidamente: Nosso Senhor comprou-nos com o Seu sangue para que, pelo auxílio de Sua graça, nos tornássemos santos. A meta de muitos cristãos, levados pela onda de relaxamento de nossa época, tem beirado a mediocridade. Ao invés de buscarem a cada dia mais a presença de Deus, vivendo conforme a Sua vontade, muitos têm se conformado com a ideia de “reservar um lugar no purgatório", esquecendo que o trabalho da salvação deve ser feito “ cum metu et tremore – com temor e com tremor" [4] e que Nosso Senhor pede de nós nada menos que a perfeição de vida: “Estote ergo vos perfecti, sicut Pater vester caelestis perfectus est – Sede, portanto, perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito" [5].

No caminho para a perfeição, não se chega ao cume do “Monte Carmelo" enquanto não se elimina o afeto às criaturas. É o que ensina São João da Cruz, quando diz que, “enquanto houver apego a alguma coisa, por mínima que seja, é escusado poder progredir a alma na perfeição. Pouco importa estar o pássaro amarrado por um fio grosso ou fino; desde que não se liberte, tão preso estará por um como por outro" [6].

Além disso, o apego aos pecados veniais não só entrava a subida da alma para Deus, como a prepara para os grandes pecados. É o que diz o Espírito Santo no livro do Eclesiástico: “ Qui spernit minima, paulatim defluit – Quem despreza as coisas pequenas, aos poucos cairá" [7], e o que Nosso Senhor indica quando afirma: “Qui fidelis est in minimo, et in maiori fidelis est; et, qui in modico iniquus est, et in maiori iniquus est – Quem é fiel nas pequenas coisas será fiel também nas grandes, e quem é injusto nas pequenas será injusto nas grandes" [8]. O livro dos Juízes narra o castigo que Deus aplicou aos filhos de Israel porque, ao invés de exterminarem os seus inimigos, fizeram aliança com alguns deles [9]. São João da Cruz, comentando essa passagem, preleciona que:

“Deus procede justamente assim com muitas almas. Tirou-as do mundo, matou os gigantes dos seus pecados, exterminou a multidão dos seus inimigos que são as ocasiões perigosas encontradas neste mundo, a fim de lhes facilitar o acesso à terra da Promissão da união divina. Mas, ao invés de responderem a tantos favores do Senhor, elas fazem amizade e aliança com a plebe das imperfeições, em lugar de exterminá-la sem piedade. À vista de tal ingratidão, Nosso Senhor se enfada, deixando-as cair nos seus apetites de mal a pior." [10]

Chega a ser injurioso referir-se aos pecados veniais como “leves", quando se tratam de ofensas a Deus. Interroga Santo Anselmo: “Quem terá a ousadia de dizer: isto é só um pecado venial, e, portanto, não é um grande mal? Se Deus é ofendido, como se poderá afirmar que isso é um pequeno mal?" [11]. Por isso, São Domingos Sávio repetia incessantemente: “Antes morrer do que pecar", decretando guerra também contra os pecados veniais.

Capite vulpes parvulas, quae demoliuntur vineas – Caçai as pequenas raposas que destroem a vinha" [12], diz o autor sagrado. “Estes pecados, que chamamos leves, não os tenhas por insignificantes", exorta Santo Agostinho. “Se os tens por insignificantes quando os pesas, treme quando os contas. Muitos objetos leves fazem uma massa pesada; muitas gotas de água enchem um rio; muitos grãos fazem um monte" [13].

Referências

  1. 1 Jo 5, 17
  2. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 88, a. 1
  3. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1863
  4. Fl 2, 12
  5. Mt 5, 48
  6. Subida do Monte Carmelo, I, 11, 4
  7. Eclo 19, 1
  8. Lc 16, 10
  9. Cf. Jz 2, 1-3
  10. Subida do Monte Carmelo, I, 11, 7
  11. Apud Santo Afonso de Ligório, Escola da Perfeição Cristã, p. 61
  12. Ct 2, 15
  13. In epistulam Iohannis Parthos tractatus, 1, 6: PL 35, 1982

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Há cem anos morria um Papa santo
Igreja CatólicaSantos & Mártires

Há cem anos morria um Papa santo

Há cem anos morria um Papa santo

Há cem anos, os grandes sinos da Basílica de São Pedro tocavam "pro pontifice agonizante", anunciando ao mundo a morte de um Papa santo. O semblante sereno de Pio X no leito de morte já manifestava a sua entrada no Céu.

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2014
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Há cem anos, os grandes sinos da Basílica de São Pedro tocavam pro pontifice agonizante, anunciando ao mundo a morte de um papa santo. Pio X, que durante 11 anos havia governado a Igreja com bondade e sabedoria, partia para a casa do Pai, enquanto o Santíssimo Sacramento era exposto em todas as Basílicas patriarcais de Roma. À Praça de São Pedro logo acorreram milhares de fiéis, dispostos a dar o seu último adeus àquele distinto pontífice. Diante da serenidade com que se apresentava no leito de morte, o médico apenas pôde exprimir estas palavras: “Olhai-o, não está realmente admirável?" [1]

Pio X foi um papa singular sob muitos aspectos. Quando a 20 de julho de 1903 faleceu Leão XIII, as expectativas de que o então patriarca de Veneza, cardeal Giuseppe Melchiorre Sarto, fosse escolhido sucessor de São Pedro eram mínimas. O próprio prelado não cogitava a eleição. Há quem diga que, para a viagem ao conclave do qual sairia papa, tenha comprado passagens de ida e de volta. Além disso, Sarto não almejava o pontificado, sobretudo, por se considerar incapaz de exercer “essa tarefa urgente e dificílima" [2]. Outro fator que pesava contra a sua candidatura era a marca de seu predecessor. Leão XIII era um gênio político, de grande envergadura intelectual. Sarto era apenas um “pároco de aldeia", como gostava de se definir. Mas a providência divina tinha outros planos.

A princípio, tudo parecia convergir para o cardeal Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII, não fosse o veto imposto por políticos austríacos ao seu nome. O Imperador da Áustria tinha esse “direito" segundo um antigo privilégio. Mas embora a Cúria tenha rechaçado a intervenção, dando ainda mais votos ao antigo braço direito do falecido papa, o fato é que Rampolla não foi capaz de obter o número necessário para a eleição. Fez-se verdade o antigo adágio sobre os conclaves: sai cardeal quem entra papa. O prelado começou a cair escrutínio após escrutínio. Em contrapartida, ganhava força o nome de Sarto.

Quando percebeu que seria eleito Sumo Pontífice, o cardeal não pôde esconder seu assombro e angústia diante da vontade de Deus. A sua primeira atitude, por conseguinte, foi de renúncia. O futuro papa considerava o ministério petrino como uma cruz extremamente pesada para os seus ombros. Recolheu-se para rezar numa capela. Banhado em lágrimas, já sabendo que seria inevitável, aceitou a eleição, tomando para si o nome de Pio X, “em memória dos santos pontífices que, no século passado, lutaram corajosamente contra os erros que pululavam" [3].

E tão logo assumiu o trono de São Pedro, o novo papa fez valer a herança de seus pios predecessores, lançando mãos à obra de recristianização das sociedades. A palavra de ordem era esta: “Restaurar todas as coisas em Cristo" [4]. Com efeito, tudo o que concorria para o bem espiritual da Igreja ganhou prioridade em seu pontificado: a defesa da fé, a atenção aos humildes, a piedade popular, os direitos da Igreja etc. Interessava-lhe, sobretudo, o Sacrifício Eucarístico, o que lhe renderia posteriormente a alcunha de “Papa da Eucaristia". 

Assim, incentivou fortemente a comunhão diária além de permiti-la também a crianças com sete anos de idade. Isso porque, tendo a visão espiritual de um santo, Pio X já previa a tragédia na qual a humanidade cairia anos mais tarde. A respeito da guerra, o papa advertiu: “O desejo da paz certamente está bem presente em cada um e não há ninguém que não a invoque com ardor. Mas querer paz sem Deus é absurdo. Onde não há Deus, não há justiça. Onde não há justiça, em vão nutre-se esperança de paz" [5].

Por conseguinte, à medida que Pio X expunha sua figura à sociedade, quer por meio de suas encíclicas e exortações, quer por meio de seus gestos de bondade, crescia a veneração dos fiéis em torno do pontífice. O historiador Daniel-Rops assim descreve [6]:

“Os católicos admiraram Leão XIII e Pio XI; mas amaram Pio X, o seu sorriso de luz, a sua bondade sem reserva, a sua inesgotável caridade. Já em vida se construíra à volta da sua pessoa uma 'legenda áurea', abundante em pormenores comovedores, palavras exemplares e até narrativas de milagres (...) Mesmo que alguns traços tenham sido embelezados, ainda ficam outros, indiscutíveis, para que a sua figura nos apareça fora de série".

Dada a santidade de Pio X, é possível, então, compreender o seu combate severo às heresias, mormente ao modernismo — “a síntese de todos os erros" [7]. É dever do pastor usar o cajado contra os lobos que atacam o rebanho, pois “não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. E também não se trata de amor, se se deixa proliferar a heresia, a deturpação e o descalabro da fé, como se tivéssemos nós autonomamente inventado a fé" [8]. Era com base nesta consciência que o santo papa não economizava palavras contra os modernistas: “Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja." [9]

A 20 de agosto de 1914, Deus chamava para o sono eterno o “Papa da Eucaristia", que tanto tempo lutara para estabelecer a cruz de Cristo sobre todo o mundo. Pio X não suportara a notícia da guerra que então começava a arrasar dezenas de nações. 40 anos depois ele seria elevado às glórias dos altares pelas mãos de outro Pio: “A santidade, inspiradora e guia de Pio X em todos os seus empreendimentos, brilhou ainda mais fulgurante em suas ações quotidianas. A meta que almejava, unir e restaurar todas as coisas em Cristo, é algo que ele fez se tornar realidade em si mesmo antes de levá-la aos outros" [10].

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