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Ex-satanista: “Eu fazia rituais satânicos dentro de clínicas de aborto”
Testemunhos

Ex-satanista: “Eu fazia rituais
satânicos dentro de clínicas de aborto”

Ex-satanista: “Eu fazia rituais satânicos dentro de clínicas de aborto”

Garoto normal de um bairro americano, criado em um lar evangélico batista, Zachary começou a praticar magia aos 10 anos, juntou-se a uma seita satânica aos 13 e, com 15, já havia quebrado todos os Dez Mandamentos.

Lepanto InstituteTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Agosto de 2015Tempo de leitura: 13 minutos
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À luz dos recentes vídeos expondo o tráfico de órgãos e tecidos de bebês abortados mantido pela Planned Parenthood, o Lepanto Institute entrevistou o ex-satanista Zachary King.

Garoto normal de um bairro americano, criado em um lar evangélico batista, Zachary começou a praticar magia aos 10 anos, juntou-se a uma seita satânica aos 13 e, com 15, já havia quebrado todos os Dez Mandamentos. Dos seus anos de juventude até a idade adulta, ele trabalhou o seu caminho até se tornar "sumo sacerdote" da seita e praticou ativamente a agenda satânica, incluindo rituais de aborto. Atualmente, Zachary está escrevendo sobre suas experiências em um novo livro, intitulado Abortion is a Satanic Sacrifice ["Aborto é um Sacrifício Satânico"].

Zac, você tem uma longa história para contar. Poderia nos dar uma ideia geral de como você foi cair no satanismo?

Tudo começou com uma forte curiosidade, em que eu me perguntava se a magia era algo real. Isso veio depois que assisti a filmes sobre feiticeiros e bruxos, na década de 1970, quando eu cresci. Nós tínhamos um jogo na escola chamado Bloody Mary, ou I Hate You, Bloody Mary, no qual você ia ao banheiro e recitava essas frases um certo número de vezes com as luzes apagadas. Todas as vezes que o meu grupo fazia isso, sempre víamos um rosto demoníaco no espelho. Não fazíamos ideia do que era aquilo que estávamos encarando, apenas que, de repente, aparecia aquela coisa assustadora no espelho e todos corriam para fora do banheiro, morrendo de medo... exceto eu. Eu sempre achava aquilo bem legal. Então, na mesma época em que eu fazia isso, também jogava torneios de Dungeons and Dragons todo fim de semana, e eu sempre era o mago ou o feiticeiro do jogo. Eventualmente, eu me perguntava se podia fazer magia de verdade e tentei um par de feitiços para ganhar dinheiro. Ambos funcionaram, mas, como poderia ter sido apenas uma coincidência, eu tentei fazer uma terceira vez e, na terceira vez em que fiz isso, joguei o feitiço em frente ao demônio do banheiro e achei que pudesse aumentar um pouco o valor do lance para ver o que acontecia. Consegui 1.000 dólares no dia seguinte. A partir de então, fiquei convencido de que magia era real.

Quando eu tinha cerca de 12, um amigo me apresentou a um grupo que jogava Dungeons and Dragons e que também acreditava que magia era real. Aquele grupo acabou se revelando uma seita satânica. Muitas pessoas me perguntam: "Você não correu e se escondeu a essa altura?" Eu lembro a elas que cresci nos anos 70, quando seitas satânicas na TV eram realmente assustadoras, mas... eu adorava fliperama, video games, ficção científica, como Jornada nas Estrelas e Guerra nas Estrelas, e aqueles rapazes tinham quase todos os filmes de ficção científica e de fantasia que eu sempre quis assistir. Eles tinham fliperama, uma piscina, uma grande churrasqueira, e era como um clube de meninos e meninas, tudo muito divertido. Deixem-me colocar deste modo: eles sabiam como recrutar, sabiam tudo o que uma criança queria fazer. Então, foi assim que eu me envolvi com isso.

Aquele foi o meu primeiro grupo. Fiquei lá dentro até os meus 18 anos, quando me juntei à Igreja Mundial de Satanás, que é um grupo muito maior, internacional. A posição que eu atingi é chamada de high wizard (uma espécie de "sumo sacerdote"). Em uma seita satânica maior, eles são as pessoas que fazem a magia pelo grupo. Poderia haver somente um ou até dez deles, mas o número geral variava de 2 a 5, e o nosso trabalho era viajar ao redor do mundo fazendo quaisquer feitiços que as pessoas quisessem que fizéssemos. Quando eu digo "pessoas", falo de estrelas do rock, astros de filmes, personalidades políticas, pessoas ricas... Não há limites para quem quer um feitiço e para o valor que eles estão dispostos a pagar.

Então, você era um sumo sacerdote no satanismo... Bem rapidamente, como aconteceu de você se tornar um high wizard?

Dizem que high wizards são escolhidos a dedo por Satanás. Eu não sei qual o critério. Tinha feito magia desde a idade dos 10 e me tornei um deles quando tinha cerca de 21. Eu estava na Igreja Mundial de Satanás por uns 3 anos. Já tinha visto um high wizard quando era criança, mas ainda não sabia do que se tratava. A aparência é muito peculiar. Uma cartola, uma varinha ou um bastão, o rosto pintado como um cadáver e um velho smoking da sorte.

(...)

Satanás escolhe você e, para um culto grande como esse, há um chefe executivo e um quadro de diretores. Então, o chefe manda uma carta para você, você se encontra com ele e com o quadro de diretores, e eles dizem que você foi escolhido. Dão a você um livro que diz quais são os seus deveres de trabalho como sumo sacerdote e você decide se quer fazer aquilo ou não – embora eu nunca tivesse conhecido ninguém a recusar aquele convite.

Então, você foi chamado diante de um grande conselho de comuns, eles ofereceram a posição e você se tornou um high wizard naquele instante?

Isso, e eu trabalhei nisso por volta de 10 a 12 anos.

Qual o papel que tem o aborto nos rituais satânicos, e quando foi a primeira vez que você se envolveu com aborto dentro do satanismo?

Logo depois que completei 14 anos, os membros da seita vieram a mim e me disseram que eu me envolveria em um aborto em cerca de 9 meses. Houve uma orgia com todos os homens entre 12 e 15 anos e uma mulher com mais de 18, e o propósito dela era ficar grávida, para ter o aborto em 9 meses. Quando me contaram isso, eu disse bem alto: "Legal", mas não fazia ideia do que era um aborto. Em minha família, acho que ouvi meus pais sussurrarem uma vez a palavra aborto, enquanto falavam de outra pessoa. Então, eu pensava que aquela era uma palavra suja, porque eles cochicharam, e eu não tinha ouvido aquela palavra em nenhum outro lugar. Quando perguntei aos membros da seita o que era um aborto, eu disse que não sabia o que deveria fazer. Eles explicaram que haveria um bebê na barriga e que eu iria matá-lo; que haveria um médico aborteiro lá para me ajudar e uma enfermeira, porque seria um procedimento médico completo. Minha primeira pergunta foi: "Isso é legal?" A resposta foi: "Sim, desde que aconteça no ventre. Enquanto o bebê estiver dentro da mulher, você pode matá-lo."

Foi dessa forma que isso foi explicado para nós. Também foi explicado que eu estaria "matando um bebê". Eles não disseram que nós iríamos matar um feto ou algumas células em um corpo. Nada disso. Era um bebê.

Agora, eu não acho que eu teria concordado em matar uma criança fora do corpo da mulher, mas, sabendo que eu poderia matar o quanto quisesse se alguém estivesse dentro do corpo... No satanismo, matar alguém ou a morte de algo é a forma mais efetiva de ter o seu feitiço realizado. Quando se quer conseguir a aprovação de Satanás, para que ele lhe dê algo que você deseja, matar alguém é a melhor forma de conseguir. Matar algo é a oferta final para Satanás e, se você pode matar uma criança não nascida, essa é a sua meta final.

Conte-me sobre o primeiro aborto que você fez dentro de um ritual satânico.

O primeiro que fiz foi cerca de 3 meses antes de completar 15 anos. Aconteceu em uma casa de campo. Surpreendentemente, o lugar era mais higienizado que muitas das clínicas nas quais eu tinha feito abortos. Havia um médico e uma enfermeira, uma mulher nos estribos pronta para dar à luz, rodeada de 13 líderes da nossa seita, os quais eram todos sumo sacerdotes e sacerdotisas. Eu estava dentro do círculo com a mulher e o médico. Todos os membros adultos de minha seita estavam lá. Havia várias mulheres se ajoelhando no chão, balançando para frente e para trás cantando repetidamente: "Nosso corpo e nós mesmas". Do lado estavam vários membros masculinos de nossa seita, todos cantando e orando. O ritual começou às 23h45min, e o feitiço começou à meia-noite, que é a hora das bruxas, e a morte da criança aconteceu às 3h, que é a chamada hora do demônio.

Tudo o que eu tinha que fazer era colocar o bisturi. Eu não necessariamente precisava praticar o assassinato... o importante era que eu sujasse minhas mãos de sangue. Então, eu tive que sujar minhas mãos com o sangue de alguém, ou o da mulher ou o do bebê, e, depois, o médico terminou o procedimento. Naquele em particular – provavelmente um dos abortos mais hediondos que eu fiz –, o médico pegou, arrancou e jogou a criança no chão, onde essas mulheres estavam se remexendo. Elas pareciam estar possuídas, e quando o médico jogou-lhes o bebê, elas canibalizaram a criança.

Santo Deus! De quantos abortos rituais você participou?

Antes de me tornar um high wizard, eu fiz cinco. Depois, fiz 141 ou mais.

Você chegou a fazer algum ritual satânico nas instalações de clínicas de aborto?

Cheguei sim. Eu estimo ter feito cerca de 20 abortos rituais dentro dessas instalações, embora nunca tenha chegado a contar. Mas eu estive em muitas delas. Cerca de dois anos atrás, entrei em uma para fazer uma pesquisa para um novo CD em que estava trabalhando, e ela era bem limpa e as pessoas bem legais. Mas todas às que fui, fazendo aborto nelas, eram terrivelmente anti-higiênicas. Pareciam-se mais com uma casa de horrores, com sangue em todo o lugar, incluindo algumas salas com sangue no teto.

Como você foi convidado para fazer abortos satânicos nesses lugares? Alguém o chamou? Como isso aconteceu?

Zachary King.

Como sumo sacerdote, você é o membro mais ativo da seita satânica, então a maioria das pessoas liga para alguém que elas conhecem na seita (...) [e] você é convidado a participar. A Igreja Mundial de Satanás não é a única organização que faz sacrifícios satânicos nessas instalações. Há outras organizações de bruxaria, como as wiccanas, que estão realmente engajadas em praticar abortos dentro dessas clínicas. Às vezes, você é chamado para o aborto ritual por um diretor da clínica ou algum administrador, isso quando o próprio médico não é um satanista. Outras vezes, eles fazem uma cerimônia no final do dia.

Na verdade, todos os dias, à noite, grupos satânicos fazem como que uma Missa Negra, geralmente por volta da meia-noite, e acontece um culto estendido com duração de mais ou menos 2 ou 3 horas, no qual eles oferecem todos os bebês que foram mortos naquele dia para Satanás. Não importa o motivo pelo qual as mulheres procuraram o aborto, todos os bebês são oferecidos a Satanás no final do dia.

O que geralmente acontece durante esses abortos rituais?

Há crianças que vêm para esses eventos, mas elas geralmente não ficam na sala onde o aborto acontece, ficam em uma sala separada. Elas têm competições para ver qual delas fica acordada até às 3h da madrugada, e a criança que consegue ficar até tarde ganha um prêmio. Os homens que não fazem parte dos 13 cabeças do grupo ficam fazendo feitiços e cantando. Eles também jogam feitiços, seja para se protegerem de qualquer um que possa estar rezando contra eles, como um cristão, seja por quem quer que tenhamos no bolso para proteger – assim, se nós pagamos um xerife, um policial ou algo do tipo, ninguém nos investigará naquela ocasião. Há mulheres cantando e dançando. Os 13 membros ficam em volta da mulher prestes a ter o aborto e conduzem a bruxaria. Uma vez, quem conduziu o feitiço foi o prefeito da cidade. Ele nos procurou porque queria passar uma lei para a sua cidade, e tinha tentado duas ou três vezes, sem sucesso. Ele foi membro da seita por algum tempo. Havia tentado todos os caminhos legais para passar a lei, mas, como não funcionou, ele conseguiu alguém para fazer um aborto com a nossa seita, durante a noite e em um lugar em que pudéssemos fazer o procedimento e a bruxaria ao mesmo tempo. Geralmente, em uma seita de cidade pequena, que era o caso, todos apareciam para o evento. Em um lugar maior, como quando eu era membro da Igreja Mundial de Satanás, você chama o sumo sacerdote, as pessoas que querem fazer o feitiço, um médico e uma enfermeira. Várias vezes, nessas clínicas de aborto profissionalizadas, há um monte dessas pessoas, porque muitos que trabalham nesses lugares são bruxas ou satanistas. Então, você consegue um grande número de pessoas que queira participar do evento satânico.

Você diria que clínicas de aborto profissionalizadas atraem pessoas vindas do ocultismo por causa da oportunidade de realizar rituais de aborto?

Eu diria que sim, essa é uma afirmação absolutamente verdadeira. (...) Assim como os rapazes católicos aderem ao sacerdócio porque são atraídos pela santidade e pelo serviço a Deus, uma clínica de aborto atrai os satanistas para o ministério satânico.

Você já experimentou alguma dificuldade em concluir um aborto ritual, devido a pessoas rezando fora de uma clínica de aborto?

Mais de uma vez, tivemos bebês que, contra todas as possibilidades, sobreviveram ao aborto. Uma vez, cheguei à clínica de aborto e havia pessoas dos dois lados da rua. De um lado, havia pessoas rezando e clamando contra o aborto; do outro, no qual eu estava, havia pessoas que eram obviamente pelo aborto, e gritando todo tipo de obscenidades às pessoas do outro lado da rua. Quando nós entramos e olhamos para o lado de lá, vimos todas as pessoas do outro lado de joelhos. Naquele dia, o aborto que tínhamos agendado para um ritual não deu certo. Eu acho que isso aconteceu comigo umas três vezes, e todas as três... Engraçado, mas nunca tinha parado para pensar que todos os três abortos foram frustrados pelo que só pode ser atribuído às orações que estavam acontecendo fora da clínica.

Qual conselho você tem para as pessoas que rezam em frente às clínicas de aborto, especialmente se elas suspeitam que há algum tipo de ato ocultista acontecendo dentro dela?

Antes de tudo, não pare! Não há nada acontecendo nessa clínica de aborto que possa machucar você. Com certeza, haverá demônios em volta, mas você deve pensar em Satanás como um cachorro amarrado a uma coleira; se você não chegar perto da coleira, ele não o pode morder. Esteja em estado de graça quando você for. Leve uma garrafa de água benta consigo. Não a jogue nas pessoas que estão lá para se opor porque você pode ir parar na justiça. Você sabe, essas pessoas irão processar você por causa das coisas mais bobas. Mas, com certeza, aspirja-se quando chegar lá e quando sair. Aspirja todos os membros da sua família. Se puder receber a Sagrada Comunhão antes de chegar lá, seria o ideal. Se for à Missa nesse dia, permaneça alguns minutos depois da celebração para pedir a Nosso Senhor que mande a Sua Mãe com você. Leve um Rosário consigo e combata o demônio até a morte com ele. Há coisas de que o diabo tem medo, mas, acima de tudo, ele teme um católico bem formado, um católico que entende a sua fé e que sabe o que é uma guerra espiritual. Ele não quer lutar contra alguém que está com toda a sua armadura a postos.

A conversão

Em janeiro de 2008, enquanto trabalhava numa joalheria, Zachary teve um encontro com a bem-aventurada Mãe de Deus, encontro que mudou a sua vida. No meio do shopping, pelo poder da Medalha Milagrosa, Zachary experimentou uma paz que supera todo o entendimento. Aquela paz era Jesus Cristo, o Príncipe da Paz. O amor de Nossa Senhora resgatou Zachary do inferno e trouxe-o para perto do Coração do seu Filho, Jesus Cristo. Ele começou a frequentar a comunidade católica de São Francisco Xavier, em Vermont, e, em maio de 2008 (o mês de Maria), entrou na Igreja Católica! Depois de 26 anos de envolvimento com o ocultismo, Zachary tornou-se um guerreiro por Jesus Cristo e quer compartilhar o seu conhecimento para a proteção do povo de Deus. O testemunho de Zachary é uma inspiração que prova quão grandes são a misericórdia e o perdão do Senhor e, acima de tudo, mostra a profundidade do seu amor para conosco. Atualmente, Zachary vive na Flórida com sua esposa e é pregador internacional, espalhando a história de seu miraculoso resgate do satanismo onde quer que ele possa. O seu site é www.allsaintsministry.org.

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Uma defesa bíblica do dogma da Imaculada Conceição
Doutrina

Uma defesa bíblica
do dogma da Imaculada Conceição

Uma defesa bíblica do dogma da Imaculada Conceição

Por que a concepção da bem-aventurada Virgem Maria foi diferente de todas as outras? O que a Igreja crê a esse respeito e como as Sagradas Escrituras podem nos ajudar a compreender esse grande mistério?

Lucas R. PolliceTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Se perguntarmos às pessoas, inclusive a muitos católicos, o que é a Imaculada Conceição, há uma grande chance de eles responderem, de forma equivocada, que é a concepção de Jesus no ventre de Maria. Mas, na verdade, a Imaculada Conceição é a concepção de Maria. É um dogma que nos revela que Maria foi preservada da mancha do pecado original no momento de sua concepção, e permaneceu livre do pecado por toda a sua vida.

Era intrínseco ao plano salvífico de Deus que Maria fosse concebida sem o pecado original. Porque Adão e Eva, quando se afastaram de Deus, representavam toda a humanidade, todos os seres humanos afastaram-se de seu Criador. O pecado original foi transmitido a todas as gerações, ao longo de toda a história da humanidade, de modo que, quando somos concebidos, já nascemos num estado natural de separação de Deus, que os teólogos chamam de pecado original originado, e com uma inclinação para pecar, que é a concupiscência.

O plano salvífico de Deus era que seu Filho unigênito, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, assumisse a natureza humana, a fim de que tanto Deus como o homem Jesus pudessem realizar a redenção da raça humana. Mas havia um problema: Deus é sumamente santo. Portanto, Ele está em completa e total oposição ao pecado, razão pela qual os pecadores não podem estar em sua presença, sem antes serem purificados. 

Como, então, Deus, o Filho, poderia se unir intimamente a uma natureza humana decaída? É aqui que entra o plano de Deus para Maria. Deus a escolheu para ser concebida sem pecado original, a fim de que pudesse dar a Jesus uma natureza humana pura e sem pecado. Maria é o vaso puro e inoxidável através do qual Jesus recebe uma natureza humana imaculada e sem pecado, a fim de que possa entrar no mundo para completar o plano salvífico do Pai.

No livro do Gênesis, Deus anunciou pela primeira vez o seu plano de salvação realizado por meio de Cristo, ao afirmar à serpente: “Colocarei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15). Deus dirige-se à serpente para dizer que os filhos da mulher atingirão sua cabeça. Quem é que atacará a cabeça da serpente? Jesus é quem veio para atacar a cabeça de Satanás e destruir seu poder. Portanto, se o filho da mulher é Jesus, a mulher obviamente é Maria.

Deus fala de inimizade entre a serpente e a mulher, e entre os descendentes da serpente e os descendentes da mulher. A descendência de Satanás é, na verdade, o pecado, com o qual ele deseja se multiplicar e encher a terra. Portanto, existe inimizade entre Maria/Jesus e Satanás/pecado. Essa inimizade significa uma oposição total e completa. Assim, quando duas coisas estão em inimizade, elas não têm nada a ver uma com a outra; não há absolutamente nenhuma cooperação ou comunhão entre ambas. Isso significa que Jesus e Maria se opõem completamente a Satanás e ao pecado, não possuindo nenhuma cooperação ou comunhão com eles.

Era necessário que Maria não tivesse uma natureza decaída, pois qualquer participação no pecado original, ou mesmo no pecado pessoal, destruiria sua inimizade com Satanás e o pecado. Por conseguinte, nesse primeiro anúncio do plano salvífico de Deus, vemos sua intenção de manter Maria totalmente livre do pecado, a fim de que Jesus pudesse assumir uma natureza humana incorruptível.

Uma referência ainda mais explícita à Imaculada Conceição de Maria está presente no Evangelho de Lucas, na Anunciação do anjo a Nossa Senhora (cf. Lc 1, 26-38). Ao saudar Maria, o anjo Gabriel revela que ela é imaculada. A tradução mais adequada da sua saudação é “Salve, tu que és plena de graça” (Lc 1, 28). A palavra grega kekaritomene (κεχαριτωμένη) é um particípio perfeito, que significa “foi preenchido”. Em razão disso, afirmamos que Maria é aquela que “foi preenchida” com a graça de Deus, aquela que a recebeu em toda sua plenitude, uma vez que a graça já lhe foi concedida de forma plena no momento da sua concepção.

A saudação do anjo revela ainda outra verdade sobre Maria. Sempre que alguém peca — mesmo que cometa o menor dos pecados —, acaba por perder ao menos um pouco da graça de Deus. Essa é a natureza do pecado: uma decisão livre de rejeitar a graça que Deus oferece a nós, que é a vida de seu Filho dada em sacrifício de amor. Para Maria estar “plena de graça”, ela deveria estar completamente livre do pecado, porque o mais ínfimo pecado a privaria de pelo menos parte da graça que recebera.

Cabe agora compreendermos como exatamente Deus preservou Maria do pecado original. Em sua bula Ineffabilis Deus, o Papa Pio IX declarou que ela foi preservada do pecado “por singular graça e privilégio do Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo”.

Maria precisava, tanto quanto todos nós, que Cristo a redimisse. E ela foi, como todos nós, redimida por sua morte na Cruz. Mas, como ela pode ter sido redimida pela morte de Jesus na Cruz antes mesmo de Jesus ter nascido?

Deus é eterno e transcendente e, portanto, não está submetido às limitações de espaço e tempo. Ele vê todo o tempo — passado, presente e futuro — de uma só vez. É como se olhasse para um trem muito longo do alto de um helicóptero. Os motores são o momento da Criação e o último vagão é o fim do mundo, e nós estamos em algum lugar entre os dois. Deus opera fora do tempo. Portanto, Ele tomou as graças e os méritos da morte de Jesus na Cruz e os aplicou de volta no tempo ao momento da concepção de Maria. Desse modo, Maria Santíssima, como todos nós, foi redimida por Cristo, embora, “por singular graça e privilégio do Deus onipotente”, ela também tenha sido completamente preservada do pecado original. Nesse sentido, Maria não foi apenas redimida, mas também preservada do pecado. Ela nunca teve pecado, nem por um segundo. Desde o primeiro momento de sua existência, Maria foi completamente preservada do pecado, sem nunca conhecer ou cooperar com ele em toda sua vida.

Embora Maria tenha sido preservada do pecado original no momento de sua concepção, ela ainda poderia ter escolhido pecar, pois tinha livre-arbítrio. Ela ainda poderia ter rejeitado a graça de Deus e o seu plano, e caído no pecado. Ela poderia ter dito “não” ao Pai na Anunciação do anjo Gabriel. Ela poderia ter dito “não” ao Pai, aos pés da Cruz, onde entregou seu Filho. Ela poderia ter se desesperado e amaldiçoado a Deus. No entanto, Maria cooperou perfeitamente e se rendeu ao grande dom da graça que Deus lhe dera e viveu a mais extraordinária vida cristã. É por isso que Maria é nosso grande modelo de fé a ser vivido pela Igreja. Somos chamados a cooperar com todas as graças que Deus escolhe nos dar, a fim de que, com humildade e amor, andemos pelo caminho que Ele quer para nós.

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Como os americanos estão mudando o debate sobre o aborto
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Como os americanos estão
mudando o debate sobre o aborto

Como os americanos estão mudando o debate sobre o aborto

Um movimento que começou tímido agora é uma das principais forças políticas dos Estados Unidos. Entenda como a Marcha pela Vida mudou o rumo do debate sobre o aborto e o que temos a aprender com ela no Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Neste dia 24 de janeiro, milhares de pessoas estão nas ruas de Washington D.C., para participarem da Marcha pela Vida, um evento que acontece todos os anos na capital americana, desde 1973, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos lamentavelmente aprovou o aborto em todo o país, pelo julgamento “Roe vs. Wade”. A ocasião é propícia para refletirmos um pouco sobre o movimento pró-vida no Brasil e aprendermos de nossos irmãos americanos a como derrotar a “cultura da morte”.

A legalização do aborto nos Estados Unidos foi toda baseada numa peça teatral com a “protagonista perfeita”. Norma McCorvey, a famosa Jane Roe do processo que foi parar na Suprema Corte, queria interromper a gravidez, mas esbarrava na legislação do Texas, que só permitia o aborto em situação de risco para a mãe. Com 22 anos apenas, ela inventou que havia sido violentada. Daí para frente, as suas duas advogadas, Sarah Weddington e Linda Coffe, que já militavam pelos chamados “direitos reprodutivos”, fizeram o trabalho de levar o caso até as últimas instâncias, obtendo dos ministros da Suprema Corte um parecer positivo, sob um questionável argumento de “privacidade” da mulher.

A partir disso, as clínicas de aborto logo se espalharam por todo o território americano, tornando-se uma indústria altamente lucrativa. Estima-se que, de 1973 até os dias atuais, os Estados Unidos já tenham assistido a mais de 60 milhões de abortos. A poderosa Planned Parenthood, fundada pela infame Margaret Sanger, é a principal clínica no ramo, destacando-se desde então pela barbaridade de seus métodos. Em 2015, a empresa se envolveu numa grande polêmica após o vazamento de vários vídeos em que seus funcionários delatavam a existência de uma rede de tráfico de órgãos dentro da própria Planned Parenthood.

Ao fim e ao cabo, a militância pró-aborto teve uma vitória incrível nos Estados Unidos, que surtiu um efeito cascata em todo o mundo. No Brasil, a estratégia tem sido praticamente idêntica, com os mesmos slogans e técnicas para ganhar do Supremo Tribunal Federal a tão desejada legalização. Eles já conseguiram a aprovação do uso de células-tronco embrionárias e o aborto em caso de anencefalia. Atualmente, outros dois casos se encontram nas mãos dos nossos ministros (um sobre o aborto em casos de Zika e outro que pede a legalização da prática até a 12.ª semana da gestação), aguardando a oportunidade de serem julgados. 

Como em “Roe vs. Wade”, os militantes daqui também encontraram alguém para lhes servir como “protagonista perfeito”. O precedente foi aberto pelo ministro Luís Roberto Barroso, que absolveu uma quadrilha de médicos aborteiros, a fim de introduzir um falso direito na Constituição.

“Nós somos a geração pró-vida”. Foto da Marcha pela Vida, dos EUA.

Mas enganar-se-ia quem pensasse que a situação é irreversível. A partir de 1973, o movimento pró-vida americano iniciou a Marcha pela Vida, na garagem da senhora Nellie Gray. Aos poucos, aquela tímida reação foi ganhando corpo e hoje é um dos principais agentes políticos dos Estados Unidos, determinando até as eleições federais. 

Em 2013, início do segundo mandato de Barack Obama, um ardente militante do direito ao aborto, a Marcha pela Vida colocou mais de 600 mil pessoas para marcharem até o Capitólio (na maior edição da história do evento), com uma mensagem clara ao presidente. Com efeito, a última pesquisa a respeito da intenção de voto dos americanos mostra que a maior parte deles está decidida a escolher candidatos contrários ao aborto. Não bastasse isso, o número de estados com legislações mais pró-vida vem aumentando todos os anos.

A invertida da causa pró-vida desperta, obviamente, o medo dos seus adversários. Naquele mesmo ano de 2013, a revista Time publicou toda uma edição dedicada a analisar como “o movimento pró-aborto (pro-choice) vem perdendo” após a farsa de “Roe vs. Wade”. “Conseguir um aborto é mais difícil hoje do que em qualquer época desde a década de 1970”, admitiu a revista. De fato, o número de médicos que se dispõe a fazer a operação diminuiu de lá para cá, porque a série de restrições impostas pelos estados mais pró-vida tem dificultado a permanência de clínicas abertas. E a situação deve piorar ainda mais para eles agora que o presidente Donald Trump colocou na Suprema Corte mais dois juízes conservadores, diminuindo a resistência dos progressistas. 

É uma questão de tempo até que a absurda decisão do caso “Roe vs. Wade” seja finalmente sepultada. Até porque, a própria senhora McCorvey passou para o movimento pró-vida, em 1995, e desde então até a sua morte, em 2017, ela lutou para reverter o desfecho do seu julgamento. McCorvey explicava assim a razão da sua nova postura:

Pura e simplesmente, eu fui usada. Eu não era ninguém para elas (as advogadas). Elas apenas precisavam de uma mulher grávida para usá-la no caso, e era só isso. Elas estavam preocupadas, não comigo, mas apenas com a legalização do aborto. Mesmo depois do caso, eu nunca fui respeitada — provavelmente porque eu não era nenhuma feminista liberal, educada nas universidades mais prestigiadas, como elas eram.

Todo esse sucesso do movimento pró-vida se deve, segundo a revista Time, a duas coisas: por um lado, uma organizada e bem-executada estratégia, que conseguiu formar uma geração de militantes jovens e dispostos a lutar pela causa; e por outro, o avanço da ciência em técnicas de pré-natal, que permitiu a identificação do feto como alguém verdadeiramente humano. “Graças ao ultrassom pré-natal”, diz a revista, “os americanos agora sabem com o que o feto se parece, e que um bebê nascido por volta da 24.ª semana pode sobreviver”. 

Essas informações foram decisivas para que grande parte dos americanos (principalmente jovens) migrasse para o lado oposto da “cultura da morte”, apesar de toda a campanha midiática e da pressão das grandes fundações internacionais. Enquanto isso, a malfadada Marcha das Mulheres, um dos braços do movimento pró-aborto, sofre para não minguar e desaparecer de vez.

A defesa da vida é uma questão de lei natural. Está no sangue de qualquer ser vivo o desejo de preservar a própria espécie, sobretudo a prole. Por isso, quando ficamos sabendo de pais que abandonaram o filho, ou mesmo de algum animal que se desfez da cria, isso nos causa bastante estranheza. Parece que há algo de errado, algo bastante contrário à natureza das coisas.

O trabalho do movimento pró-vida, nesse sentido, consiste em manter vivo esse sadio “senso comum”, acolhendo as mães em situação de risco, como fazem as várias casas de apoio, e promovendo formações permanentes sobre o valor da vida humana, desde a concepção até a morte natural. Com a ajuda da ciência, esse trabalho tem sido ainda mais fecundo, porque qualquer um pode identificar o ser humano em pleno desenvolvimento no ventre da mulher. Como dizia o doutor Jérôme Lejeune: “Não há diferença [substancial] entre a pessoa que você era no momento da fecundação do óvulo de sua mãe e a pessoa que você é hoje”. Trata-se de um fato que salta aos olhos.

O movimento pró-aborto, por outro lado, precisa remar contra a maré e fazer de tudo para cancelar do espírito humano a sua própria natureza. Na audiência pública para discutir a descriminalização do aborto no Brasil, a antropóloga Débora Diniz fez um discurso muito revelador. Em linhas gerais, a argumentação dela baseou-se em duas premissas: i) a de que não devemos ter “expectativas morais” sobre as mulheres, mas apenas respeitar o desejo delas de abortar; ii) a negação de qualquer aspecto de humanidade ao feto que, para ela, seria apenas uma “bola de sangue”, como já disse em outros momentos. É incrível que em 15 minutos de exposição ela não tenha mencionado o bebê uma única vez. Para o pensamento de Débora Diniz, “abortar ou não” é como a decisão sobre o fumo: usa quem quer.

Mas se concordássemos com esse argumento de que não devemos ter “expectativas morais” sobre as mulheres, mas apenas respeitar a vontade delas de interromper a gestação de uma “bola de sangue”, deveríamos então nos perguntar que tipo de expectativas podemos ter por parte dos homens. Afinal de contas, toda essa celeuma não se baseia na “igualdade de direitos”? Imaginem, portanto, a seguinte situação: o Supremo Tribunal Federal convoca uma audiência pública para discutir o problema do estupro no Brasil. Um renomado antropólogo resolve então defender a ideia do “estupro legal”, com base na premissa de que todo homem é um estuprador em potencial e vai acabar cometendo essa barbaridade mais cedo ou mais tarde.

Para esse antropólogo, o estupro é um caso de “saúde pública”, e o Estado não deveria discutir sobre a moralidade dos “direitos reprodutivos” de ninguém. O antropólogo propõe, então, a descriminalização do estupro para assegurar o direito ao “sexo legal”, a fim de que os homens não precisem recorrer a relações clandestinas, que lhes possam causar sérias doenças, nem corram o risco de terminar atrás das grades, simplesmente por satisfazerem suas necessidades sexuais. Do lado de fora do STF, militantes do coletivo “Marcha dos Vadios” discursam palavras de ordem do tipo “meu corpo, minhas regras” e “estupro legal e seguro”.

Algo assim seria um completo disparate e só a mínima hipótese deve nos causar asco. Todavia, se trocarmos os substantivos “homem” e “estupro” por “mulher” e “aborto”, nós teremos exatamente o discurso de Débora Diniz e de praticamente todo o movimento pró-aborto. A simples ideia de que não devemos criar “expectativas morais” sobre uma pessoa, qualquer que seja, mas apenas aceitar as suas escolhas, mesmo que isso implique um assassinato, é abrir as portas para a insanidade. 

Se só o que vale é a vontade, e sou eu que decido arbitrariamente que vida tem ou não mais valor e dignidade, ninguém deve se espantar com a barbárie; ninguém deve se espantar se uma mãe arranca o filho da barriga para ganhar o Globo de Ouro, como sugeriu a atriz Michelle Willians recentemente, ou se um diretor de cinema assedia as atrizes de seus filmes. Ambos foram igualmente acostumados a não ter “expectativas morais” sobre nada e a simplesmente olhar os outros como objetos descartáveis.

Sabiamente, o movimento pró-vida dos Estados Unidos tem conseguido desmascarar toda a estupidez dos argumentos pró-aborto, mostrando justamente as consequências nefastas que essa ideologia causa à mulher. Baseados na natureza das coisas, eles têm convencido até grandes figurões do lado oposto, como também foi o caso do doutor Bernard Nathanson, um dos fundadores da National Association for Repel of Abortion Laws (NARAL), que se arrependeu após ter assistido ao ultrassom que mostrava a agonia de uma criança durante a sucção. Depois disso, Nathanson veio a público denunciar como os números divulgados pelos defensores do aborto eram falsos, num documentário que ficou famoso no mundo todo: “O Grito Silencioso”.

O movimento pró-vida dos Estados Unidos está organizado em associações de leigos, casas de apoio e grupos de oração que trabalham conjuntamente para esclarecer a opinião pública e dar a ajuda que as gestantes precisam. Uma parte desse trabalho já foi apresentada em filmes como Blood Money, Em busca de um lar e, mais recentemente, no sucesso Unplanned, que devido à grande repercussão, acabou banido de algumas salas de cinema por medo da militância pró-aborto. Porque é só isso que esse grupo consegue fazer: mentir e calar seus oponentes. Mas a tática não está dando certo, como vimos.

O movimento pró-vida brasileiro deve, pois, seguir a mesma agenda, com militância tanto na política, quanto no dia a dia, auxiliando as gestantes e esclarecendo a população, sobretudo os mais jovens, acerca das mentiras do movimento pró-aborto. 

Trata-se de algo que já Bento XVI pedia, lembrando que, nesse campo, “a Igreja lutará pelas respostas que melhor correspondam à justa medida do ser humano”, devendo “fazer todo o possível por criar uma convicção que possa depois traduzir-se em ação política”. Tudo isso porque a defesa da vida não é simplesmente uma questão religiosa, mas também um direito natural, inscrito no coração de cada ser humano; um direito que deve ser promovido, tutelado e preservado a todo custo, desde a concepção até a morte natural, para todas as pessoas, sejam homens, mulheres ou crianças.

E assim também surgirá no Brasil uma geração que porá fim à “cultura da morte”.

Notas

  • A imagem acima é da Marcha pela Vida ocorrida em 22 de janeiro de 1995, na mesma capital americana, Washington.

Comentários

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Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo
Testemunhos

Guido Schäffer:
o médico surfista que decidiu ser santo

Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo

“Todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras de Chesterton se aplicam perfeitamente à vida de Guido Schäffer, cujo testemunho tem atraído muitíssimos jovens para a Igreja Católica.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Janeiro é o mês em que boa parte das universidades divulga a lista de aprovados no vestibular. Jovens de todo o país aguardam ansiosos a notícia de que finalmente poderão cursar o ensino superior. A rigor, a entrada na universidade representa, para muitos, uma espécie de redenção, que marca o início da maior idade, pois é nesse período que os filhos saem de casa, mudam-se para outras cidades e assumem algumas responsabilidades básicas que todo adulto deve ter.

Com todas essas mudanças, a universidade também é o lugar onde muitos abandonam a religião. E isso se deve à ideia absurda de que a fase universitária é o tempo das grandes experiências, não só no campo científico, mas especialmente no campo moral. Longe dos olhares dos pais — e consequentemente do que lhes freava os impulsos juvenis —,  quantos jovens se perdem por achar que agora, na universidade, têm toda chance de viver conforme lhes der na telha, sem qualquer “moralismo” ou “superstição”? É como se imaginassem que a vida acadêmica é um grande besteirol, como daqueles filmes hollywoodianos. Daí tantos “trotes”, “cervejadas” e outras recreações que costumam pautar os jornais todos os anos com as bizarrices dos nossos estudantes.

Mas o sistema universitário é, na verdade, uma grande ilusão. Trata-se, no mais das vezes, de um lugar onde o aluno não é incentivado a descobrir a substância das coisas, como na educação clássica, mas a mergulhar nas mais loucas abstrações, que o prendem num mundo absolutamente paralelo. Afinal de contas, a causa final de todo esse sistema é o título, a chancela, o diploma; ou seja, algo um tanto superficial. E a consequência disso não poderia ser outra senão a mesquinhez: a única preocupação dos estudantes é a de estarem na média no fim do semestre.

Há, porém, alguns jovens que não se iludem com o diploma e buscam manter-se acima da linha da mediocridade, preservando em seus corações aqueles valores inegociáveis da fé e da razão. É o caso de Guido Schäffer, cujo testemunho cristão no exercício da medicina atraiu muitas almas para a grei do Senhor. Atualmente, a Arquidiocese do Rio de Janeiro promove a causa de beatificação do jovem, que também foi seminarista e morreu em 2009, em odor de santidade.

Guido Schäffer nasceu em 22 de maio de 1974, no município de Volta Redonda (RJ). É da pena de G. K. Chesterton a afirmação muito sábia de que “todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras se aplicam perfeitamente à vida de Guido, que, como muitos santos da Igreja, teve também um passado miserável. De início, ele viveu boa parte de sua vida como aquele tipo de homem dado às paixões. Em suas memórias, ele confessa como precisou de muita oração e penitência para corrigir os erros de uma adolescência dissoluta: faltou à Missa, roubou, usou drogas [1], viu pornografia, teve relações sexuais... Era, afinal, apenas mais um rapaz “comum”, que gostava de surf e, vez ou outra, rendia-se aos impulsos do pecado.

Mas a graça de Deus tinha planos maiores. Aos seis anos, Guido havia sonhado com Nosso Senhor, que lhe dizia para ser obediente aos pais e participar da Missa todos os dias, porque, um dia, ele haveria de chamar muitos amigos para Jesus. E foi o que realmente aconteceu após a sua conversão. Guido começou a frequentar os encontros da Renovação Carismática e ali pôde fazer as primeiras experiências de oração, que despertaram nele a vontade de ser santo. Mais tarde, o jovem conheceu os exercícios espirituais de Santo Inácio, o desentortador de vidas, e entendeu que poderia ser amigo íntimo de Cristo, buscando a Deus em todas as circunstâncias e lugares, inclusive dentro da faculdade.

A vantagem de ser católico é que tudo pode ser convertido num caminho para Cristo. Foi a fé católica que fez Guido ver a medicina não como um fim, mas como um meio para a própria santificação. O estudo, em especial, era uma tarefa diária que ele teria de fazer com o coração aberto a Deus, em espírito de oração, para melhor servir o próximo. “A santidade”, explica o cardeal Saraiva, “não consiste certamente em fazer coisas extraordinárias, mas em fazer de maneira extraordinária as coisas de todos os dias”. Na oração, abrimos nossos olhos para a presença extraordinária de Deus nas coisas mais comuns. Guido Schäffer entendeu isso perfeitamente, de modo que procurou unir a vida ativa à contemplativa, fazendo tudo com atenção e diligência.

Guido mesmo dava testemunho da importância da oração. Certa vez, escreve ele em seu diário, “senti uma desolação por conta dos inúmeros trabalhos e provas que terei essa semana. Fui tentado pela impaciência a terminar minha oração antes do tempo”. A constância, todavia, ajudou-o a passar por tudo isso com tranquilidade, unindo-se ao Coração de Jesus.

Depois de formado, Guido decidiu dar uma resposta mais generosa a Deus. Ele havia meditado sobre a história do jovem rico e notara que precisava entregar seu diploma —  a única riqueza que tinha — a serviço dos pobres, a exemplo de São Francisco de Assis. Assim, Guido iniciou um trabalho junto às Missionárias da Caridade, de Santa Teresa de Calcutá, assistindo os irmãos de rua, enquanto ainda atendia na Santa Casa de Misericórdia, onde ajudou na Pastoral da Saúde e acompanhou todo tipo de pacientes. Esse trabalho era tão extraordinário que, mesmo como seminarista, Guido pôde continuar nos hospitais, com a licença do arcebispo do Rio de Janeiro.

A esse respeito, a irmã Caritas, que o auxiliou em várias ocasiões, dá o seguinte testemunho: “Muitas vezes usava dos carismas com que o Senhor o agraciava. Presenciei várias vezes, sobretudo o carisma da Palavra de Ciência. A todos tratava com delicadeza, paciência e compreensão”. Para quem acompanhou nosso curso sobre a Engenharia da Santidade, sabe que um dos sinais mais notáveis da santidade é a virtude da paciência (hypomoné), que se conquista apenas nas quartas moradas, a custo de muita penitência e oração. Deus vê a generosidade da alma e faz a passagem dela para um estágio no qual a caridade cresce com todas as demais virtudes. Vemos isso em Guido Schäffer, e não deve demorar muito para que a Igreja também o chame venerável.

O título de venerável é dado a “todos aqueles que pelo singular exercício das virtudes cristãs e dos carismas divinos suscitaram a devoção e a imitação dos fiéis” (João Paulo II, Divinus Perfectionis Magister). Sem a pretensão de antecipar o juízo de nossos pastores, os inúmeros testemunhos a respeito de Guido Schäffer não deixam dúvidas de que ele foi mesmo um herói da fé, seja pelo trabalho como médico, seja pelo seu apostolado nos grupos de jovens. Só isso pode justificar as várias homenagens e memoriais que já lhe foram dedicados pela piedade popular. “Em todo o tempo, dava testemunho de sua fé, no seu proceder irrepreensível com os outros. Vivia conforme os valores cristãos da cordialidade, temperança, caridade e justiça”, disse o professor de Guido, Clementino Fraga, numa homenagem após a sua morte.

A entrada no seminário talvez tenha sido o ponto decisivo nesse progresso espiritual que talvez leve Guido à glória dos altares. Tudo aconteceu no ano 2000, quando ele, durante uma oração, ouviu a voz de Deus, que lhe dizia: “Levanta-te, e serás sacerdote da minha Igreja”. Sabiamente, Dom Karl Romer, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, matriculou-o no mosteiro dos beneditinos, para que Guido pudesse continuar o trabalho nos hospitais. Desse modo, ele teve a chance de dedicar-se tanto à formação sacerdotal como ao serviço caritativo. Estudava filosofia, atendia na Santa Casa, liderava grupos de oração e ainda levava os jovens para cuidar dos mendigos, juntos às Missionárias da Caridade. E o que o fortalecia era a certeza de que Deus estava sempre ao seu lado.

Alguns testemunhos sobre o trabalho de Guido nos hospitais são mesmo surpreendentes. Conta-se, por exemplo, o caso de um policial cadeirante que voltou a andar após ter recebido a oração de Guido, durante um grupo de oração na Santa Casa de Misericórdia. Outros relatam como apenas a sua presença trazia paz e esperança aos pacientes mais angustiados. Além disso, ele tinha a grande preocupação de levar os doentes para a recepção dos sacramentos como a Unção dos Enfermos, a Confissão e, especialmente, a Santíssima Eucaristia. Até porque, a principal responsabilidade de um verdadeiro médico de Deus é salvar a alma dos seus pacientes. Não foi por menos que Guido Schäffer recebeu a alcunha de apóstolo da palavra e da paz.

Guido Schäffer morreu em 2009 num acidente, quando surfava com uns amigos. Pouco antes, ele já havia recebido alguns “avisos” de Deus, que o chamava para avançar a águas mais profundas. Também já confessara que “se pudesse escolher, gostaria de morrer no mar, surfando”. A prancha que Guido usava naquele dia 1.º de maio era dividida por um versículo do Evangelho de São Mateus: “Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (7, 14). Não deixa de ser significativo porque, em sua vida, Guido preferiu esforçar-se para passar pelo mais difícil dos vestibulares, pela mais estreita das portas, que é a entrada do Céu. Após sua morte, não demorou muito para que as pessoas reconhecessem nele os sinais claros de uma grande santidade.

Certamente, Guido Schäffer deve ser proposto como modelo para todos os jovens que aguardam a entrada na universidade. Nesse ambiente onde a religião é tantas vezes ofendida e desprezada, ele soube seguir o caminho de Cristo, fugindo da tentação e dos convites à mediocridade, fugindo da ilusão do diploma, a fim de ser um médico de verdade, que servisse aos outros, mormente os mais pobres. E fez isso com tanta convicção e amor que muitos já não hesitam em chamá-lo santo. Porque, de verdade, o real diploma que devemos buscar é a “coroa da salvação”.

Notas

  1. A mãe de Guido explica, porém, que ao confessar, ele fez como fazem muitos santos, carregando nas tintas sobre os próprios pecados. Os roubos de que ele fala eram balas que furtava nas lojas quando criança. Depois, o relato das drogas se resume a dois cigarros de maconha que amigos surfistas lhe deram uma única vez. Em todo caso, ele precisou reparar tais ofensas a Nosso Senhor. Agradecemos à senhora Nazaré Schaffer pelos esclarecimentos.

Recomendações

  • As citações do diário de Guido estão contidas neste livro: D. Justino de Almeida Bueno. Guido Schaffer: apóstolo da palavra e da paz. 3.ª ed. Juiz de Fora: Subiaco, 2016.

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A teologia por trás do uso do véu na Igreja
Espiritualidade

A teologia por trás
do uso do véu na Igreja

A teologia por trás do uso do véu na Igreja

O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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A nobre língua latina, que alimentou a piedade durante séculos; a serenidade do canto gregoriano; o esplendor dos paramentos sacerdotais e a visível ênfase na natureza sacrificial da Missa, em que o Senhor da glória torna presente de novo sua oferenda na Cruz em benefício dos vivos e dos mortos — em maior ou menor grau, todas essas coisas e outras mais desapareceram rapidamente depois do Concílio Vaticano II, sob o ilusório pretexto de que o “homem moderno” precisava de algo mais imediatamente acessível do que solenidade, silêncio e sacralidade. Isso foi sem dúvida um grande erro, como leigos, sacerdotes e até bispos têm afirmado de modo cada vez mais franco nas últimas décadas. Em grande medida, o trabalho de restauração tem sido relegado ao nível das bases.

Em debates sobre as reformas pós-conciliares, católicos tradicionais muitas vezes insistem no banimento do latim, do canto gregoriano, da celebração ad orientem e da recepção da Comunhão de joelhos. Isso não surpreende, já que essas mudanças são as mais perceptíveis, e foi muito profundo seu crescente efeito sobre a natureza do culto católico. Porém, houve outras mudanças sutis que com o passar do tempo também afetaram nosso modo de compreender a Fé. Um exemplo é o abandono da genuflexão na seguinte passagem do Credo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine, et homo factus est. Da mesma forma, a maioria das pessoas já não curva a cabeça por reverência quando é pronunciado o santíssimo nome de Jesus.

Corte de uma pintura de José Gallegos y Arnosa.

Uma dessas mudanças foi a extinção quase completa do uso do véu pelas mulheres nas igrejas, quando estão em momento de oração. Antes do Concílio, quando alguém entrava numa igreja para assistir à Missa, via todas as mulheres com a cabeça coberta, fosse por boinas, gorros, véus ou toalhas de renda. Embora ocasionalmente possamos ver hoje mulheres de véu ou chapéu numa Missa Novus Ordo (esse número é maior em países não ocidentais que ainda não foram tomados pelo espírito moderno), em geral, o costume desapareceu fora de locais em que a Missa tradicional em latim sobreviveu ou retornou. E mesmo nestes locais o costume não é de modo algum praticado universalmente. Mulheres que adotam uma postura defensiva podem afirmar que o direito canônico não exige o uso do véu, que o bispo não o autoriza e que o pároco não o menciona. Na verdade, aqueles que olham para o uso do véu como sinal de uma era em que (creem eles) as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe alegram-se com o fato de o véu ter sido marginalizado.  

Porém, antes de descartarmos a mudança como exemplo de algo ultrapassado que foi deixado de lado por não ser mais relevante, temos de analisar o que significava o costume em si e se ele simboliza uma verdade importante, tão válida para nós como para nossos predecessores. Os costumes de piedade popular muitas vezes carregam consigo raízes religiosas e humanas mais profundas do que podemos pensar inicialmente. Neste mundo agitado, coisas boas do passado são muitas vezes abandonadas porque as pessoas se esqueceram de uma verdade fundamental que precisa, mais do que nunca, ser escutada e seguida.

O ensinamento do Apóstolo

A tradição do uso do véu pelas mulheres nas igrejas tem como fundamento as palavras de São Paulo: 

Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. Com efeito, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos (1Cor 11, 7-10). 

A palavra costumeiramente traduzida por “véu” é exousia, que significa “poder” ou “autoridade” [1]. Uma tradução bem literal da passagem ficaria assim: “a mulher deve ter um poder [ou autoridade] sobre sua cabeça”. Ocasionalmente, vemos o texto transformado numa paráfrase: “um poder sobre sua cabeça, simbolizado por um véu”. Isso está mais claro, mas ainda podemos nos perguntar: por que um véu? Temos de voltar à tradição da Igreja para encontrar a resposta.

De acordo com alguns Padres e Doutores da Igreja, essa passagem se refere aos anjos que encobrem seu rosto quando estão na presença de Deus adorando-o diante de seu trono [2]:

Eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!” (Is 6, 1-3).

Os anjos cobrem ou vendam seu rosto como sinal de reverência perante o poder e a majestade gloriosos de Deus; estão sob sua autoridade. São Paulo estaria dizendo, então, que assim como os anjos cobrem seu rosto diante do trono de Deus, também as mulheres deveriam cobrir sua cabeça para adorar. Mas por que apenas as mulheres? Os homens não estão também na presença de Deus? A resposta pode ser encontrada numa série de analogias que São Paulo realiza numa passagem anterior do mesmo capítulo. “Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, senhor de Cristo é Deus” (1Cor 11, 3). Isto é, Cristo está para o Pai como o marido está para Cristo, e o marido está para Cristo assim como a mulher está para o marido — numa sequência de autoridade decrescente. Observemos como é notável a última parte dessa analogia: em seu relacionamento com o marido, a mulher cristã é comparada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em sua relação com o Pai. Portanto, o sentido último da vocação de uma mulher como esposa e mãe é participar, imitar e manifestar o mistério da missão de Cristo: sua entrega é um reflexo do sacrifício de Cristo. 

Uma imitação específica de Cristo e da Igreja

Para esclarecer ainda mais o sentido dessa passagem, temos de levar em conta o que São Paulo diz aos Efésios ao acrescentar outra dimensão ao simbolismo. “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (Ef 5, 22-24). O marido está para a mulher assim como Cristo está para a Igreja. A partir disso, vemos que do mesmo modo uma esposa é chamada a imitar e participar do trabalho da Igreja, que segue Cristo e este segue o Pai. Um grande mistério sobrenatural é prefigurado nas coisas terrenas: a obediência das esposas está enraizada na obediência de Cristo ao Pai e na submissão da Igreja ao Senhor, e brota delas.

A obediência a que uma mulher se submete no matrimônio é uma escolha, uma resposta do seu coração a um dom do Senhor; assim como uma religiosa promete obediência a seus superiores como parte da vocação de servir a um só Senhor. A obediência da esposa está inserida no contexto de um sacramento; não é uma questão de dependência natural ou de inferioridade. Uma esposa se submete ao seu marido principalmente por amor a Deus e em obediência ao chamado dele. O sacrifício de si, mantido pela graça de Deus e corretamente entendido pela esposa, não ameaça sua condição de igualdade em relação ao marido [3].

O Filho é igual ao Pai (como afirmou Orígenes e foi posteriormente definido); no entanto, o Filho é obediente ao Pai. Uma coisa tão suavemente conhecida em muitas relações de amor humano está, além da imaginação, presente nos segredos centrais do céu. Pois o Filho em seu eterno agora deseja a subordinação, e ela lhe pertence. Ele quer que sejam assim; com obediência e de modo filial Ele é inseparável do Pai, assim como o Pai é, com autoridade e modo paternal, inseparável dele. E todas as três Pessoas são eternamente inseparáveis — e iguais [4].

No interior da Santíssima Trindade, a distinção de Pessoas não põe em perigo a unidade da Divindade, compartilhada igual e essencialmente por Pai, Filho e Espírito Santo. Na Trindade, essa hierarquia-na-igualdade é refletida na ordem da salvação ocasionada pelo envio de Cristo pelo Pai, na relação esponsal entre Cristo e a Igreja e, novamente, na ordem do matrimônio.

“A Virgem da Anunciação”, por Antonello de Saliba.

A ferida da rebelião pecaminosa foi curada pela morte de Cristo e a salvação da homem foi obtida precisamente por meio da obediência à vontade de Deus, que teve início com o fiat da Virgem Maria (“Faça-se em mim segundo a vossa palavra”). De modo semelhante, visto como uma participação no mistério de Cristo e de sua Igreja, o relacionamento da esposa com seu marido é salvífico; para ser mais preciso, é um sacrifício livremente consagrado ao único sacrifício de Cristo e inserido nele. Todos os cristãos são chamados a imitar a Virgem, a se unirem a Cristo e mutuamente nele, mas essa vocação tem naturezas distintas para homens e mulheres. Embora Maria seja o arquétipo para todos os cristãos, a vida dela como modelo da verdadeira feminilidade apresenta certas verdades aplicáveis particularmente às mulheres. O véu e qualquer outro símbolo associado às mulheres deve ser considerado à luz do fiat da Virgem, seu abandono à vontade de Deus, o ato por meio do qual ela esmagou a cabeça da serpente — assim como a submissão de Cristo à vontade do Pai “até a morte” significou a derrota de Satanás. “Eis aqui a escrava do Senhor.” “Não a minha, mas a vossa vontade seja feita.” Ao se oferecer, a Virgem se tornou a “ajudante” necessária para que o novo Adão, o grande Sumo Sacerdote, oferecesse o único sacrifício por todos: seu Corpo e Sangue. 

A corresponsabilidade do marido

Para obtermos um quadro completo, temos de nos lembrar do referido ensinamento que São Paulo transmite aos maridos no capítulo 5 da Carta aos Efésios. O Apóstolo diz que os maridos devem representar Cristo; devem servir como cabeça da igreja doméstica. O que isso significa? A verdadeira autoridade vinda dos sacramentos vivificantes tem pouco a ver com a compreensão que o homem caído tem do poder e do governo sobre outros em benefício próprio. 

Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir (Mt 20, 25-28). 

Os maridos devem agir como Cristo Rei — o Rei entronizado na Cruz: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). A autoridade do marido é legítima quando exercida segundo a imitação de Cristo. Santo Tomás de Aquino apreende bem esse ponto: “A esposa sujeita-se a Deus submetendo-se ao seu marido sob Deus” [subiicitur viro sub Deo], ou seja, ela é submissa ao marido na medida em que ele mesmo está “sob Deus”, isto é, governando de acordo com os mandamentos de Deus [5].

Portanto, em todo matrimônio marido e mulher são chamados a imitar e manifestar um ao outro e ao mundo o amor de Cristo e da Igreja, ele mesmo moldado pelo mistério de amor que existe no interior da Santíssima Trindade. Essa imitação e manifestação só pode ocorrer pela graça de Deus, o Deus que é Amor; ela requer oração constante, além de discernimento, paciência e perseverança. O equilíbrio entre hierarquia-na-igualdade e igualdade-na-hierarquia só pode ser mantido pela consciência permanente de nossa vocação para amar — governar e servir mediante o amor e pelo amor. O relacionamento adequado entre marido e mulher e o precioso dom da procriação foram afetados pela Queda (cf. Gn 3, 16), como podemos ver nos homens que abusam de sua autoridade como maridos e em homens que são muito tímidos ou efeminados para assumir suas responsabilidades. Podemos ver todo tipo de problema: homens que governam para satisfazer seu egoísmo; homens que se recusam a governar pelo bem de qualquer pessoa; mulheres que se recusam taxativamente a ser governadas; mulheres que agem como capachas e não questionam abusos de autoridade. Creio que esse é o motivo pelo qual achamos tão estimulante e encorajador o exemplo de um bom casamento no qual os cônjuges vivem em paz e alegria. Ele mostra que isso pode realmente ser feito por meio do esforço humano determinado e a graça de Deus resultante de nossas súplicas.

Deste modo, na teologia de São Paulo o véu é um símbolo de consagração e autossacrifício. Assim como a Igreja se submete a Cristo e Cristo Filho obedece ao Pai, uma esposa está “sob” o poder e a proteção de seu marido. Do ponto de vista litúrgico, faz sentido que a mulher porte um sinal exterior dessa verdade interior, um símbolo público e visível de sua vocação como esposa, especialmente quando está perante o Senhor em adoração. O véu dá testemunho silencioso da dignidade e poder dela em sua submissão ao marido. Em sentido lato, ele é sacramental: um simples objeto que simboliza uma profunda realidade espiritual. Assim como as religiosas dão testemunho ao mundo por meio de seu hábito (incluindo o véu), da mesma forma as esposas dão testemunho da natureza especial do matrimônio cristão ao cobrirem sua própria cabeça na Missa. Esse belo símbolo dá à esposa uma oportunidade de viver sua vocação de modo mais pleno por fazer com que ela e outras pessoas, inclusive suas filhas, recordem seu traço de humildade mariana. Podemos ir mais longe: esse delicado símbolo daquilo que é exemplo perfeito da “pequenez” teresiana pode ser um meio poderoso de reparação para aqueles que se rebelam contra sua identidade ou são infiéis ao seu chamado.

Tradição codificada em símbolos

Considerando o que vimos, é possível explicar outro detalhe de 1Cor 11 que pode passar despercebido. No início do capítulo, o Apóstolo insiste em que os cristãos de Corinto devem preservar as instruções que ele lhes transmitira. “Eu vos felicito, porque em tudo vos lem­brais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti. Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, e o senhor de Cristo é Deus.”

Parte da sagrada tradição que ele transmitiu a eles é o ensino sobre as esposas e a submissão delas aos maridos, e é nesse contexto que o “poder” simbolizado pelo véu entra em sua exortação. Em outras palavras, São Paulo exorta todos a se esforçarem para “imitar Cristo” (1Cor 11, 1) a fim de preservar as tradições que contêm e confirmam a boa doutrina e uma vida santa. “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Ts 2, 15). Esse é com certeza um ensinamento ao qual devemos nos aferrar no mundo moderno. A atual desintegração da vida familiar ocorre, até certo ponto, porque a tradição apostólica da hierarquia familiar não tem sido preservada nem pela família nem pela própria hierarquia eclesiástica.

O ensinamento de São Paulo parece deixar claro que o uso de algo que sirva para cobrir a cabeça só possui sentido “sacramental” pleno para mulheres casadas ou comprometidas  (incluindo religiosas que são casadas com Cristo e noviças que estão se preparando para esse casamento místico). Quando a estudamos de modo contextualizado, vemos que a recomendação segundo a qual “a mulher deve ter um véu sobre sua cabeça”, entendida  como símbolo do poder do homem (exousia), refere-se não ao homem e à mulher enquanto tais, mas às mulheres casadas relativamente aos seus maridos. (Também notamos, porém, que o mesmo capítulo dá instruções aplicáveis a todas as mulheres; São Paulo alterna entre as mulheres em geral e as casadas, dizendo coisas diferentes apropriadas a cada grupo.) Por essa razão, o costume tradicional de todas as mulheres usarem véu na igreja parece se justificar no chamado natural e sobrenatural de cada mulher a ser esposa — seja de Cristo, na vida religiosa, seja de um marido em um casamento cristão. Mesmo antes de esse chamado ser atualizado, e ainda que isso jamais ocorra, trata-se de uma realidade ontológica e espiritual que precisa ser reconhecida, honrada e inserida no grande mysterium fidei celebrado na Santa Missa.

Razões práticas

Também há razões práticas para o uso do véu, e como elas se aplicam tanto às mulheres casadas como às solteiras, corroboram a antiga convenção que prescrevia o uso do véu por todas as mulheres na igreja.

Antes de mais nada, o uso do véu pode evitar a distração tanto para quem o usa como para outras pessoas. Quantas vezes não nos pegamos olhando para outras pessoas na igreja, em vez de nos concentrarmos na oração? O véu pode ser útil às mulheres. Aquelas que estão protegidas e cobertas por ele podem se concentrar melhor [6], recordando-se qual é a principal razão pela qual estão na igreja: trata-se de um momento sagrado, e estou aqui para adorar a Deus.

Outra razão para o uso do véu na igreja é certa “privacidade”, uma necessidade de estar a sós com Deus, em vez de manter uma postura de intimidade e sociabilidade com outras pessoas. Na Missa, o divino Esposo visita a alma cristã esponsal; deveríamos estar preparados para a visita dele. A moderna ênfase desmedida na dimensão social do culto frequentemente leva a uma perda de contato com a única realidade que torna todo o resto real: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que deveria ser recebido com plena e absoluta atenção da alma. O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Uma mulher que usa véu diz ao seu próximo: estamos aqui reunidos para adorar a Deus. Assim, ela presta um serviço aos outros, ajudando-os a se lembrarem o que é realmente a Missa. No final das contas, outras mulheres podem seguir-lhe o exemplo.

Portanto, há muitas razões que mostram a conveniência do uso do véu. Para as esposas, sobretudo, tem a mesma natureza que o hábito tem para as religiosas: é um sinal de seu chamado à consagração ao Senhor, com e por meio de seu marido. Em vez de ser um sinal de opressão das mulheres, é sinal de um amor genuíno e comprometido, assim como a Cruz é o maior sinal de amor já dado à humanidade.

Até esse modesto costume de nossos ancestrais é, então, parte de uma renovação litúrgica mais ampla e bem-sucedida que incorpora o passado adequadamente, compreende as verdadeiras necessidades do presente e preserva a beleza e o simbolismo do culto católico para os séculos vindouros. 

Notas

  1. Segundo Ronald Knox, alguns comentadores afirmam que Paulo está tentando, por meio dessa palavra grega, cunhar uma palavra hebraica que signifique o véu usado tradicionalmente por uma mulher judia.
  2. Esses anjos, usualmente identificados como querubins, são descritos dessa forma por Isaías, Ezequiel e o Apocalipse de São João, e sistematicamente em toda a tradição rabínica judaica. Para referências bíblicas, ver Cornélio a Lápide, Commentaria in Scripturam Sacram (Paris: Vives, 1868), 18: 355-56.
  3. A doutrina segundo a qual as mulheres não são iguais aos homens é herética e análoga à heresia do subordinacionismo, que nega a igualdade entre o Filho e o Pai. Isso está claro na encíclica Casti Connubii, do Papa Pio XI, que ensina que homens e mulheres possuem “igualdade na diferença” e “igualdade em chefia e subordinação”.
  4. Charles Williams, citado em Mary McDermott Shideler, The Theology of Romantic Love, Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Co., 1962, 81-82.
  5. Cf. Lectura super primam epistolam ad Corinthios, c. XI, l. 3, n. 612.
  6. Obviamente, estou falando de um véu mais longo, e não da versão estilo “toalhinha” que vemos às vezes. Não precisa ser feito de renda (embora esse tecido tenha a conveniência de poder ser afixado ao cabelo), mas pode ter o comprimento de um lenço comum de um material leve. Há também a questão dos chapéus. Embora seja verdade que chapéus possam cumprir a função de cobrir a cabeça (e de fato já cumpriram), pertencem mais ao mundo da moda do que à esfera da vida sacramental e litúrgica. Eles não possuem o peso simbólico pleno do véu.

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