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Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
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Texto do episódio
1882

É pecado deixar de corrigir o próximo, especialmente quando se sabe que ele está em pecado grave ou está prestes a cometer um? A pergunta é importante; e a resposta necessita de algumas explicações e distinções.

Na própria Missa, confessamos ter pecado muitas vezes por pensamentos e palavras, por atos e omissões. Logo, existem atos que não devem ser omitidos. Mas em que situações, concretamente, é falta grave omitir a correção do próximo?

Correção paterna e correção fraterna

A primeira situação é quando se é superior hierárquico da pessoa a ser corrigida, caso em que a correção se denomina paterna. O bispo e o padre, o pai e a mãe, por exemplo, são responsáveis pela alma dos filhos, espirituais ou biológicos, e o dever que eles têm de educar implica o de corrigir quando necessário. São pastores de alma, cada um ao seu modo. Ora, quem cumpre essa condição está obrigado a corrigir o inferior ou subordinado, mesmo que isso lhe cause incômodo ou dano.

Mas, na maioria das vezes, o próximo não é inferior, mas um igual, caso em que a correção se denomina fraterna. Não é a que o superior faz a um súdito ou inferior que errou, mas a de um irmão a outro, ou seja, entre pessoas de igual condição.

De modo geral, a correção fraterna deve dar-se privadamente, ou seja, procurar o irmão privadamente, e não em público, e corrigi-lo com mansidão e reverência. A correção em público é necessária quando o silêncio de quem deveria corrigir é causa de escândalo. Assim, pode configurar grave omissão o silêncio do católico, sobretudo se for um padre, que, num grupo de pessoas cientes de sua condição, consente com injúrias contra a Igreja e a fé católicas.

É preciso, claro, ter cuidado, pois nem sempre é fácil discernir tais situações. Um professor, por exemplo, lança palavras escandalosas em sala de aula à espera de que o aluno católico reaja, a fim de se aproveitar da resposta, geralmente despreparada, para confundir ainda mais a turma. Então, cuidado e prudência. Às vezes, ficar em silêncio é o mais prudente. Mais tarde, o aluno pode falar aos colegas em privado, corrigir o erro do professor e assim esclarecê-los.

E no dia a dia, como deve ser a correção fraterna? Por exemplo, na sua família há alguém que você sabe que está em pecado mortal e que você vê ir comungar normalmente na Missa, sem ter-se confessado. O que fazer nessa situação?

Pois bem, a correção fraterna, para ser obrigatória, deve satisfazer a três condições. Na falta de qualquer uma delas, já não há perigo de pecado mortal por omissão, embora possa haver falta venial. São estas as três condições:

  1. Em primeiro lugar, deve-se estar seguro de que o próximo é culpado do pecado a ser corrigido. Se, ao contrário, trata-se de mera suspeita, ou mesmo de fofoca, então não há obrigação, sob pena grave, de corrigir. Isso não quer dizer que, havendo suspeita razoável, não se possa aconselhá-lo em privado. Mas repitamos: só há obrigação clara quando se tem certeza certa e clara de que o próximo é realmente culpado.
  2. Em segundo lugar, é preciso que haja fundada esperança de fruto positivo. Há pessoas mais fechadas que, ao serem corrigidas, ficam ainda mais obstinadas no pecado. São pessoas que já vivem escandalosamente no pecado, e todas as vezes que foram corrigidas — um critério para saber se haverá fruto ou não é o histórico de tentativas passadas —, o resultado foi nulo, quando não negativo: fecharam-se ainda mais, se é que não passaram a ter raiva da Igreja e do catolicismo. Por isso, quando se vê que a correção não vai ter fruto, não há obrigação moral, sob pena de pecado grave, de corrigir o outro.
  3. Em terceiro lugar, é necessário que, da correção, não sobrevenha grave dano a quem corrige. Se o próximo não é alguém por quem haja responsabilidade, tampouco há a obrigação própria do superior. Este é obrigado a corrigir, mesmo com dano; mas se a pessoa é igual ao outro ou inferior a ele hierarquicamente, e a correção for causar-lhe grande transtorno, ela não está obrigada a corrigir.

São esses os três critérios para que haja a obrigação da correção fraterna. Se faltar um deles, não existe a obrigação de corrigir sob pena de pecado grave. O que não quer dizer que não se deva fazer nada. Não há obrigação sob pecado grave; mas ainda é possível rezar, falar a outras pessoas, recorrer a um terceiro que seja mais próximo da pessoa a ser corrigida. É a arte de pescar almas para Deus.

E os escrupulosos? Não estão obrigados a corrigir ninguém. O escrupuloso vê pecado em tudo, a todo momento, e imagina-se em pecado mortal por não corrigir tudo e a todos. Ora, o escrúpulo é uma enfermidade espiritual. Por isso, quem sofre dela não está obrigado à correção. Basta-lhe rezar pelo próximo. 

Conselho espiritual

Antes de concluir, é oportuno um conselho. Corrige com perfeição quem sabe e aprecia ser corrigido. A correção fraterna, afinal, é obra de caridade e de misericórdia.

Todos sabemos quais são as obras de misericórdia corporal: vestir o nu, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sedento etc. Quem deixaria de prestar algum desses atos a uma pessoa necessitada? Se víssemos alguém morrer de sede ao nosso lado, e tivéssemos uma garrafinha d’água, acaso deixaríamos de dar-lhe de beber? Às necessidades físicas costumamos ter mais sensibilidade, por isso vemos com clareza quando há pecado de omissão.

No entanto, as pessoas não dão o peso devido à omissão das obras de misericórdia espiritual; e corrigir quem está no erro é um ato de caridade para com o próximo. No Céu, veremos como certas correções livraram alguns da condenação eterna. Pensamos, às vezes, que corrigir não surte efeito; mas não é bem assim: uma correção pode levar a verdadeiras conversões.

Por isso, não tenhamos medo nem pequemos por omissão ou negligência. Busquemos ter o coração de quem aprecia ser corrigido. Falemos com a família, com os amigos, com as pessoas do nosso convívio e peçamos-lhe que tenham a caridade de nos corrigir, de apontar os defeitos e os maus hábitos dos quais não temos consciência. Afinal, todo o mundo tem um “ponto cego” que só os outros enxergam.

Ter quem nos corrija é uma graça, é uma grande caridade de Deus para conosco. Nesse sentido, há até um ditado popular que diz: “Se não tens um amigo que te corrija, pede a um inimigo que te preste esse serviço”. Porque esse é um verdadeiro serviço ao nosso crescimento espiritual.

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MC
Maria Corrêa
9 Out 2024

Mais padre e se for minha amiga?

Eu quero ir pro céu com ela, ela é católica vai nas missas quase todos domingos só q ela tem uma vida de um adolescente q vai nas festas etc.. (já rezo pra ela e cada vez q tem retiro ou acampamento eu convido ela eu creio q se ela for ela vai mudar o pensamento dela ela só precisa entender mais sobre eu acho)

1
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SM
Silvana Medeiros
5 Out 2024

Grata a Deus por tamanho ensinamento . Deus ,nossa Senhora e São José te abençoe padre.

Responder
DP
Deuzélia Pires
1 Set 2024

Muito obrigada Padre Paulo 🙏 

Responder
CQ
Célia Queiroz
10 Jun 2024

muito bom 

obrigada 

Responder
MP
Maria P.Simmer
12 Mai 2024

Boa Noite Padre Paulo Ricardo. E qdo. a pessoa está prejudicando a saúde de outra menor  por preguiça  e não  aceita qualquer correção  por orgulho? O que fazer?

Responder
MI
Márcia Inácio
11 Mai 2024

É muito bom 

Responder
JS
João Santos
26 Abr 2024

Estamos sempre assistindo a resposta católica por que é um guia para o dia a dia! 

Responder
RC
Robson Cola
25 Abr 2024

Profundidade e clareza! Como sempre! Temos a obrigação de corrigirmos as pessoas em pecado, e também de corrigirmos nossos próprios pecados!

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HM
Henrique Medola
24 Abr 2024

Excelente! Obrigado, padre!

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PR
Patriolino Ribeiro
24 Abr 2024

Fiquei ainda em dúvida em relação a filhos e pais. Se o filho ver que o pai está pecando, ele comete pecado em não corrigir o pai? Ou não há obrigação de filho para pai?

1
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RD
Rui Duarte
24 Abr 2024

Abril para mim a forma que devo conviver com nossos irmãos. Saber corrigir é correto e uma missão muito dificil. Não ser omisso sempre para mim foi dificil de entender.

Responder
TV
Teresa Vieira
20 Abr 2024

Muito obrigada, por este esclarecimentos sobre um tema muito importante.

Responder
PP
Patrick Pietralonga
20 Abr 2024

Graças sejam dadas a Deus por este post, sempre tinha dúvida sobre a omissão.. e na internet nunca achei algo bem explicado. Deus seja louvado pela sua vida Padre Paulo Ricardo 

Responder
ER
Edilene Ribeiro
18 Abr 2024

Maravilhoso

Obrigada

Responder
DM
Dannielle Mantovani
18 Abr 2024

Muito bom, instrutivo. Obrigada. 

Responder
IJ
Igor Jacob
18 Abr 2024

Muito bom esse conselho. Corrigir sabendo que podes ser corrigido também. Fazer para os outros sabendo o que pode vir na volta.

Responder
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