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Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
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Texto do episódio
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É pecado deixar de corrigir o próximo, especialmente quando se sabe que ele está em pecado grave ou está prestes a cometer um? A pergunta é importante; e a resposta necessita de algumas explicações e distinções.

Na própria Missa, confessamos ter pecado muitas vezes por pensamentos e palavras, por atos e omissões. Logo, existem atos que não devem ser omitidos. Mas em que situações, concretamente, é falta grave omitir a correção do próximo?

Correção paterna e correção fraterna

A primeira situação é quando se é superior hierárquico da pessoa a ser corrigida, caso em que a correção se denomina paterna. O bispo e o padre, o pai e a mãe, por exemplo, são responsáveis pela alma dos filhos, espirituais ou biológicos, e o dever que eles têm de educar implica o de corrigir quando necessário. São pastores de alma, cada um ao seu modo. Ora, quem cumpre essa condição está obrigado a corrigir o inferior ou subordinado, mesmo que isso lhe cause incômodo ou dano.

Mas, na maioria das vezes, o próximo não é inferior, mas um igual, caso em que a correção se denomina fraterna. Não é a que o superior faz a um súdito ou inferior que errou, mas a de um irmão a outro, ou seja, entre pessoas de igual condição.

De modo geral, a correção fraterna deve dar-se privadamente, ou seja, procurar o irmão privadamente, e não em público, e corrigi-lo com mansidão e reverência. A correção em público é necessária quando o silêncio de quem deveria corrigir é causa de escândalo. Assim, pode configurar grave omissão o silêncio do católico, sobretudo se for um padre, que, num grupo de pessoas cientes de sua condição, consente com injúrias contra a Igreja e a fé católicas.

É preciso, claro, ter cuidado, pois nem sempre é fácil discernir tais situações. Um professor, por exemplo, lança palavras escandalosas em sala de aula à espera de que o aluno católico reaja, a fim de se aproveitar da resposta, geralmente despreparada, para confundir ainda mais a turma. Então, cuidado e prudência. Às vezes, ficar em silêncio é o mais prudente. Mais tarde, o aluno pode falar aos colegas em privado, corrigir o erro do professor e assim esclarecê-los.

E no dia a dia, como deve ser a correção fraterna? Por exemplo, na sua família há alguém que você sabe que está em pecado mortal e que você vê ir comungar normalmente na Missa, sem ter-se confessado. O que fazer nessa situação?

Pois bem, a correção fraterna, para ser obrigatória, deve satisfazer a três condições. Na falta de qualquer uma delas, já não há perigo de pecado mortal por omissão, embora possa haver falta venial. São estas as três condições:

  1. Em primeiro lugar, deve-se estar seguro de que o próximo é culpado do pecado a ser corrigido. Se, ao contrário, trata-se de mera suspeita, ou mesmo de fofoca, então não há obrigação, sob pena grave, de corrigir. Isso não quer dizer que, havendo suspeita razoável, não se possa aconselhá-lo em privado. Mas repitamos: só há obrigação clara quando se tem certeza certa e clara de que o próximo é realmente culpado.
  2. Em segundo lugar, é preciso que haja fundada esperança de fruto positivo. Há pessoas mais fechadas que, ao serem corrigidas, ficam ainda mais obstinadas no pecado. São pessoas que já vivem escandalosamente no pecado, e todas as vezes que foram corrigidas — um critério para saber se haverá fruto ou não é o histórico de tentativas passadas —, o resultado foi nulo, quando não negativo: fecharam-se ainda mais, se é que não passaram a ter raiva da Igreja e do catolicismo. Por isso, quando se vê que a correção não vai ter fruto, não há obrigação moral, sob pena de pecado grave, de corrigir o outro.
  3. Em terceiro lugar, é necessário que, da correção, não sobrevenha grave dano a quem corrige. Se o próximo não é alguém por quem haja responsabilidade, tampouco há a obrigação própria do superior. Este é obrigado a corrigir, mesmo com dano; mas se a pessoa é igual ao outro ou inferior a ele hierarquicamente, e a correção for causar-lhe grande transtorno, ela não está obrigada a corrigir.

São esses os três critérios para que haja a obrigação da correção fraterna. Se faltar um deles, não existe a obrigação de corrigir sob pena de pecado grave. O que não quer dizer que não se deva fazer nada. Não há obrigação sob pecado grave; mas ainda é possível rezar, falar a outras pessoas, recorrer a um terceiro que seja mais próximo da pessoa a ser corrigida. É a arte de pescar almas para Deus.

E os escrupulosos? Não estão obrigados a corrigir ninguém. O escrupuloso vê pecado em tudo, a todo momento, e imagina-se em pecado mortal por não corrigir tudo e a todos. Ora, o escrúpulo é uma enfermidade espiritual. Por isso, quem sofre dela não está obrigado à correção. Basta-lhe rezar pelo próximo. 

Conselho espiritual

Antes de concluir, é oportuno um conselho. Corrige com perfeição quem sabe e aprecia ser corrigido. A correção fraterna, afinal, é obra de caridade e de misericórdia.

Todos sabemos quais são as obras de misericórdia corporal: vestir o nu, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sedento etc. Quem deixaria de prestar algum desses atos a uma pessoa necessitada? Se víssemos alguém morrer de sede ao nosso lado, e tivéssemos uma garrafinha d’água, acaso deixaríamos de dar-lhe de beber? Às necessidades físicas costumamos ter mais sensibilidade, por isso vemos com clareza quando há pecado de omissão.

No entanto, as pessoas não dão o peso devido à omissão das obras de misericórdia espiritual; e corrigir quem está no erro é um ato de caridade para com o próximo. No Céu, veremos como certas correções livraram alguns da condenação eterna. Pensamos, às vezes, que corrigir não surte efeito; mas não é bem assim: uma correção pode levar a verdadeiras conversões.

Por isso, não tenhamos medo nem pequemos por omissão ou negligência. Busquemos ter o coração de quem aprecia ser corrigido. Falemos com a família, com os amigos, com as pessoas do nosso convívio e peçamos-lhe que tenham a caridade de nos corrigir, de apontar os defeitos e os maus hábitos dos quais não temos consciência. Afinal, todo o mundo tem um “ponto cego” que só os outros enxergam.

Ter quem nos corrija é uma graça, é uma grande caridade de Deus para conosco. Nesse sentido, há até um ditado popular que diz: “Se não tens um amigo que te corrija, pede a um inimigo que te preste esse serviço”. Porque esse é um verdadeiro serviço ao nosso crescimento espiritual.

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