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O Matrimônio é bom, mas a vida religiosa é ainda melhor
Doutrina

O Matrimônio é bom, mas
a vida religiosa é ainda melhor

O Matrimônio é bom, mas a vida religiosa é ainda melhor

Quem se casa em Cristo e traz filhos ao mundo faz bem, mas quem renuncia a isso para seguir a Cristo mais de perto, faz ainda melhor. É o que dizem, em uníssono, Jesus Cristo, São Paulo, os Santos Padres e o Magistério da Igreja.

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Julho de 2018
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Como o celibato e a virgindade se encontram constantemente sob ataque não apenas no mundo secular, mas até mesmo dentro da Igreja e de sua própria hierarquia, vale a pena renovar nossa compreensão da imutável doutrina católica e nossa fidelidade à “fé que, uma vez para sempre, foi transmitida aos santos” (Jd 3).

Na Igreja antiga, Joviniano († ± 400 d.C.) era um herege que ensinava a igualdade entre o Matrimônio sacramental e o celibato pelo Reino de Deus. Suas visões foram severamente refutadas por São Jerônimo e Santo Agostinho, e a Igreja em seu Magistério tem constantemente ensinado o mesmo que eles: quem se casa em Cristo e traz filhos ao mundo faz bem, mas quem renuncia seja ao casamento, seja à própria família, para seguir a Cristo mais de perto, faz ainda melhor.

Não obstante, o jovinianismo tem marcado presença ao longo da história cristã. Os reformadores protestantes desafiaram a doutrina tradicional da Igreja, apesar de ela se basear nas próprias palavras de Cristo e de São Paulo (cf. Mt 19, 11s; 1Cor 7, 25s.38.40). Em tempos mais recentes, nós certamente vemos entre os católicos uma espécie de jovinianismo prático, que eu descobri em praticamente todos os estudantes a quem lecionei.

Talvez por terem encontrado em suas vidas tão poucos religiosos e religiosas autênticos, eles tendem a pensar que seja errado colocar o estado religioso acima do estado matrimonial como meio para alcançar a perfeição na caridade e a contemplação. Por isso, a maior parte fica surpresa ao descobrir que está em conflito com o ensinamento unânime dos Santos Padres, dos Doutores, dos Papas e dos Concílios [1].

Um estudante expôs o caso da seguinte forma em um exame final: “Se sou uma pessoa casada e faço tudo, inclusive trocar fraldas, ir ao trabalho, amar minha esposa, construir uma casa e um jardim, tudo por amor a Deus, como dizer que eu não estou fazendo de mim mesmo e de minha vida um ‘holocausto’, uma oferta total, tão agradável a Deus quanto a oferta de um religioso que renuncia à sua família, a suas propriedades e à própria vontade? De fato, o religioso ainda tem roupas, uma cama, uma casa onde morar, provavelmente um monte de livros, preocupações financeiras em sua comunidade, coisas práticas de que cuidar, os seus irmãos como uma família, e na maior parte das vezes ele faz o que quer dia após dia, mesmo que as grandes decisões pertençam (em parte) a um superior. Então, em que a vida dele é assim tão diferente da minha?”

“O Esponsório Místico de Santa Catarina de Alexandria”, por Anthony van Dyck.

Soa plausível, não? Com um vago apelo ao “chamado universal à santidade” e ao “primado da caridade”, alguém pode rapidamente deduzir que todos os estados de vida cristãos são iguais. Curiosamente, Santo Tomás de Aquino também ensina que a santidade é para todos e que a caridade ocupa um lugar de honra na tarefa de se tornar santo, mas ele não chega, nem de longe, à mesma conclusão igualitarista.

O estudante declara que “o Matrimônio também é um holocausto total”. Eu pergunto: em que sentido? O homem ou a mulher casado está realmente renunciando a cônjuge, filhos, campos ou à própria vontade? Em certo sentido sim — mas, em um sentido decisivo, não. Quando Jesus disse a seus discípulos que eles, que deixaram tudo para O seguir, receberiam o cêntuplo, Ele não estava falando metaforicamente, mas em sentido literal. Tampouco estava dizendo que aqueles que renunciaram a essas coisas “de frente” estavam autorizados a reintroduzi-las depois, pela porta dos fundos. A bem-aventurança do cêntuplo cabe tão-somente àqueles que permaneceram pobres, castos e obedientes, e só na medida em que eles verdadeiramente o foram.

A fim de entender melhor o ensinamento de Nosso Senhor, levemos em consideração que os conselhos evangélicos de pobreza, castidade (no sentido de continência perpétua) e obediência são meios de atingir a meta da perfeição na caridade, que é a santidade.

Os conselhos afastam aqueles bens materiais e temporais que tendem a distrair ou enfraquecer nosso foco em Deus, ou que nos fazem confiar nessas coisas mais do que nEle. Diferentemente dos Mandamentos, os conselhos não nos separam de coisas más que são incompatíveis com o amor de Deus. Ao contrário, eles nos separam de coisas que são em si mesmas boas, muito boas até, mas que não são o bem maior, e que podem impedir, portanto, um foco direto nos bens mais elevados, bem como no Doador de todos os bens, que é o próprio Deus.

A razão por que é útil nos separarmos das coisas boas para focar em bens mais elevados e na Fonte de todos eles é que todos nós somos seres finitos com capacidades finitas de atenção e de amor. Portanto, ao remover nossa atenção e nosso amor dos bens mundanos e temporais, os conselhos evangélicos nos ajudam a concentrá-los mais inteiramente nos bens espirituais e eternos, no que é divino. Santo Tomás o explica belamente da seguinte forma:

É manifesto que o coração humano é atraído a uma coisa tanto mais intensamente quanto mais se afasta de muitas. Assim, a mente do homem é atraída ao amor de Deus tanto mais perfeitamente quanto mais diminui nele o afeto pelas coisas temporais. […] Todos os conselhos evangélicos, portanto, pelos quais somos convidados à perfeição, têm como propósito que a mente do homem seja desviada do afeto pelas coisas temporais, a fim de que, deste modo, sua mente seja atraída mais livremente a Deus, contemplando-O, amando-O e cumprindo com a sua vontade. [2]

No clima presente, é importante enfatizar que os conselhos não são propostos como bons porque as coisas que se renunciam ao segui-los sejam más, mas porque existe um caminho melhor para crescer no amor do que pelo uso dessas coisas. A renúncia ao Matrimônio permite a uma pessoa crescer mais no amor de Deus e ao próximo simplesmente porque a dedicação direta do nosso coração e mente a Deus é um meio melhor para crescer no amor do que o Matrimônio, seja considerado em si mesmo, seja como um sacramento [3]. O Papa São João Paulo II ensinou isso com muita clareza:

A referência à união nupcial de Cristo e da Igreja confere ao casamento a sua máxima dignidade: em particular, o sacramento do Matrimônio faz os esposos entrarem no mistério da união de Cristo e da Igreja. Mas a profissão da virgindade ou do celibato faz os consagrados participarem no mistério dessas núpcias de uma maneira mais direta.

Enquanto o amor conjugal se dirige ao Cristo Esposo mediante uma união humana, o amor virginal vai diretamente à pessoa de Cristo através de uma união imediata com Ele, sem intermediários: um esponsório espiritual verdadeiramente completo e decisivo. Assim, nas pessoas daqueles que professam e vivem a castidade consagrada, a Igreja exprime no mais alto grau a sua união de Esposa com Cristo Esposo. [4]

Implicado nessas palavras está, no entanto, um alerta salutar. Uma pessoa que renuncia ao casamento — um monge ou religiosa, um padre, um bispo — não será melhor por isso se não usar a liberdade de seu coração para se devotar mais completamente a Deus e ao serviço da Igreja. De fato, ele será pior, visto que lhe faltará o grande bem do Matrimônio assim como o bem superior da virgindade ou do celibato “por causa do Reino” — justamente a orientação que torna essa escolha um bem tão elevado.

Além disso, a intensidade e a firmeza no propósito de perseguir a meta da santidade, seja qual for o meio que se escolha para tanto, são muito mais importantes que os meios enquanto tais. Para ser mais concreto, é melhor buscar a santidade no Matrimônio de todo o coração, do que procurá-la na vida religiosa com o coração dividido ao meio.

Nosso Senhor providenciou para nós dois nobres caminhos, um bom e um melhor, para entrarmos no mistério de sua união nupcial indissolúvel com a Igreja: através de uma imagem sacramental dessa união, no Matrimônio, e através de uma participação mística nessa mesma união, na vida consagrada.

Referências

  1. Cf. Concílio de Trento, 24.ª Sessão, Doutrina e cânones sobre o sacramento do Matrimônio, 11 nov. 1563, cân. 10 (DH 1810): “Se alguém disser que o estado conjugal deve ser preferido ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor e mais valioso permanecer na virgindade ou celibato do que unir-se em matrimônio: seja anátema”.
  2. Santo Tomás de Aquino, Liber de perfectione spiritualis vitae, c. 6.
  3. Cf. Papa Pio XII, Carta Encíclica Sacra Virginitas, 25 de março de 1954, nn. 37-39 (DH 3911-3912).
  4. Papa João Paulo II, Audiência Geral, 23 de novembro de 1994, n. 4.

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Um Cardeal contra a ditadura do relativismo
Testemunhos

Um Cardeal contra
a ditadura do relativismo

Um Cardeal contra a ditadura do relativismo

Muito antes de o Cardeal Ratzinger denunciar a “ditadura do relativismo”, um prelado inglês dedicara sua vida a lutar contra a mesma coisa. Mas na sua época o nome do inimigo era outro.

Hermann Geissler,  EWTNTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2018
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No Consistório de 15 de maio de 1879, John Henry Newman foi criado Cardeal da Santa Igreja Romana. Leão XIII, que há pouco fora eleito Papa, quis conferir pessoalmente a dignidade de Cardeal ao famoso convertido, a quem ele carinhosamente chamava na audiência “meu Cardeal”.

Ao receber o biglietto com a notícia de sua elevação ao cardinalato, três dias antes do Consistório acima mencionado, Newman falou às pessoas presentes na residência do Cardeal Howard, em Roma. Seu discurso se tornaria célebre.

Depois de agradecer ao Santo Padre por tão grande honra, ele disse humildemente que cometera “muitos erros” em sua vida e que não possuía nada “da elevada perfeição que caracteriza os escritos dos santos”. Acrescentou, no entanto, ter agido sempre com “uma intenção honesta, sem interesses pessoais, uma têmpera de obediência, uma disposição a ser corrigido, um horror ao erro, um desejo de servir a Santa Igreja e, por misericórdia de Deus, uma justa medida de sucesso”.

O recém-eleito Cardeal resumiu, então, o núcleo essencial de sua missão como pastor e teólogo:

Alegro-me em dizer que a um grande mal desde o princípio eu me opus. Resisti por 30, 40, 50 anos, com o melhor que estava ao meu alcance fazer, ao espírito de liberalismo em religião [1]. Nunca a Santa Igreja precisou tão intensamente como agora de defensores contra esse erro, quando infelizmente ele se espalhou como uma armadilha por todo o mundo; e, nessa grande ocasião, quando é natural para alguém em minha posição olhar para o mundo, para a Santa Igreja e para o seu futuro, eu espero que não seja fora de propósito renovar o protesto que eu tão frequentemente tenho feito contra ele.

Para celebrar a memória desse grande Cardeal, seria apropriado mencionar certos estágios de sua vida, com o propósito de ilustrar seu exemplar compromisso no serviço da Verdade.

Conversão: Deus e dogma

Newman, em foto mais jovem.

O Cardeal Newman nasceu em Londres, a 21 de fevereiro de 1801. Foi criado na tradição anglicana e, na juventude, tinha uma forte inclinação religiosa, que se expressava na leitura da Bíblia. Desde a mais tenra idade, a Sagrada Escritura forneceu-lhe altos padrões morais, mas seu potencial intelectual exigia algo mais preciso e mais claramente definido.

Bem cedo, quando contava apenas 14 anos, ele foi tentado pela descrença e pela autossuficiência. Queria ser um homem honrado, mas sem acreditar em Deus. “Lembro-me que queria ser virtuoso sem ser religioso”, escreve. “Eu não havia entendido o que significava amar a Deus.” Enquanto o jovem estudante lutava com essa tentação, Deus bateu-lhe à porta do coração.

Durante as férias de 1816, ele leu Force of Truth, de Thomas Scott, e o conteúdo do livro deixou-lhe uma profunda impressão. Experimentou em seguida sua “primeira conversão”, que ele mesmo considerava uma das graças mais significativas de sua vida. A experiência envolvia uma consciência aguçada da existência e da presença de Deus, bem como do mundo invisível.

Em sua Apologia pro vita sua, Newman confessou que essa experiência teve uma grande influência em sua personalidade,

isolando-me dos objetos que me rodeavam, confirmando-me na desconfiança da realidade dos fenômenos materiais e fazendo com que concentrasse todos os meus pensamentos em dois seres, dois únicos seres, de evidência luminosa e absoluta, eu e meu Criador. [2]

Ele também escolheu da obra de Scott duas frases que marcariam toda a sua vida: “É preferível a santidade à paz” e “O progresso é a única evidência da vida” [3].

Depois dessa primeira conversão, Newman procurou amar a Deus sobre todas as coisas e seguir a Verdade sem concessões:

Aos quinze anos (no outono de 1816), operou-se uma grande mudança nos meus pensamentos. Sofri o influxo de um credo bem definido, meu espírito ressentiu a impressão do que era um dogma, impressão que, graças a Deus, nunca mais me deixou, nem se ofuscou. [4]

Ele começou a perceber, então, a importância dos grandes dogmas cristãos: a Encarnação do Filho de Deus, a obra da Redenção de Cristo, o dom do Espírito que habita na alma da pessoa batizada, a fé que não pode permanecer como uma simples teoria, devendo exprimir-se em um programa de vida.

O Movimento de Oxford

Depois de seus estudos no Trinity College, em Oxford, Newman foi eleito fellow do Oriel College. Tornou-se ministro anglicano e, depois, vigário de Santa Maria, igreja da Universidade de Oxford. No Oriel College ele conheceu alguns representantes da Alta Igreja Anglicana e começou a se interessar pelos Padres da Igreja. Neles descobriu o frescor e a honestidade da Igreja primitiva, que tinha de lançar raízes em um mundo pagão.

O Cardeal Newman em Roma.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais insatisfeito com a situação espiritual de sua confissão religiosa e preocupado com a crescente influência do liberalismo em Oxford e por toda a Inglaterra. Para combater essas tendências, Newman, juntamente com alguns amigos, fundou o Movimento de Oxford em 1833. Seus defensores denunciavam o distanciamento da nação da prática da fé e lutavam por um retorno ao Cristianismo primitivo por meio de uma sadia reforma dogmática, espiritual e litúrgica.

Newman resume o princípio fundamental do Movimento de Oxford com as seguintes palavras:

Minha luta era contra o liberalismo. Por liberalismo entendia o princípio antidogmático e seus desenvolvimentos. […] Desde os quinze anos, o dogma tem sido o princípio fundamental da minha religião; não conheço outra; não posso conceber a ideia de nenhuma outra religião. Religião de puro sentimento é um sonho e um escárnio. Piedade que prescinde da existência de um Ser Supremo é o mesmo que amor filial sem pais. [5]

Fica claro, a partir disso, que a doutrina do liberalismo que Newman rejeitava é idêntica à concepção relativista da religião e da moral.

Publicando tracts (“panfletos”) fáceis de disseminar, o Movimento de Oxford se esforçava por penetrar as consciências dos eclesiásticos, bem como dos simples fiéis, que se encontravam entre os extremos do sentimentalismo e do racionalismo.

Newman percebeu que a polêmica contra o liberalismo religioso exigia uma doutrina fundamental sólida. Ele estava convencido de ter encontrado a base para tanto nos escritos dos Padres, que ele admirava como os verdadeiros arautos e mestres da fé cristã, representantes daquela religião antiga “que praticamente desaparecera desta terra e que devia ser ressuscitada”.

Enquanto o Movimento de Oxford se expandia, Newman desenvolveu a teoria da Via Media. Com isso ele pretendia demonstrar que a Comunhão Anglicana era a legítima herdeira do Cristianismo primitivo e a verdadeira Igreja de Cristo, já que não possuía nenhum sinal nem dos erros doutrinais dos protestantes nem da corrupção e dos abusos que ele acreditava existir na Igreja de Roma.

Em direção à Igreja Católica

O Cardeal Newman, em pintura de John Everett Millais.

A Via Media de Newman estava calcada no dogma, no sistema sacramental e no antirromanismo. Entretanto, estudando a história da Igreja no século IV, Newman fez uma grande descoberta: percebeu o Cristianismo do seu próprio século refletido em três grupos religiosos daquele período: nos arianos, os protestantes; nos ortodoxos, a Igreja de Roma; nos semiarianos, os anglicanos [6]. Essa constatação suscitou-lhe as primeiras dúvidas a respeito da Comunhão Anglicana.

Pouco tempo depois, ele leu um artigo no qual a posição dos donatistas africanos à época de Agostinho era comparada à dos anglicanos. Newman não conseguia esquecer a frase: Securus judicat orbis terrarum, citada por Santo Agostinho [7]: “A Igreja universal, em seus juízos, está segura da Verdade”, na tradução do próprio Newman.

Ele percebeu que os conflitos doutrinários na Igreja antiga eram resolvidos não só com base no princípio da antiguidade, mas também no da catolicidade: a opinião da Igreja como um todo é um decreto infalível. Consequentemente, “a teoria da Via Media ficava absolutamente pulverizada”.

Fiel ao princípio de respeitar a Verdade, Newman decidiu retirar-se em Littlemore, um pequeno vilarejo próximo de Oxford, para alguns anos de oração e estudo. Ele começou a juntar as peças de uma reflexão que há anos o ocupava: se a Igreja Católica Romana faz parte da sucessão apostólica, como justificar aquelas doutrinas suas que não pareciam fazer parte do patrimônio de fé legado pelo Cristianismo primitivo?

O princípio do desenvolvimento autêntico que ele formulou habilitava-o a justificar vários novos ensinamentos na vida da Igreja: os dogmas tardios eram desenvolvimentos autênticos da Revelação original. Ele ilustrou esse argumento, crucial para o seu futuro, em um ensaio intitulado An Essay on the Development of Christian Doctrine.

Nesta obra-prima teológica, há uma passagem em que, rejeitando a ideia de que verdade e erro em matéria religiosa seriam supostamente uma questão de opinião e de que a salvação não dependeria de uma profissão correta da fé, Newman reafirma o que costumava chamar de princípio dogmático:

De que há, portanto, uma verdade; de que há uma só verdade; de que o erro religioso é, em si mesmo, de natureza imoral; de que seus defensores, a menos que o façam involuntariamente, são culpados em defendê-lo; de que ele é de se temer; de que a busca pela Verdade não é a gratificação da curiosidade; de que sua obtenção não tem nada do entusiasmo de uma descoberta; de que a mente está sujeita à verdade e, portanto, não lhe é superior, estando aquela obrigada não a dissertar sobre esta, mas a venerá-la; de que a verdade e a falsidade são colocadas diante de nós para provar os nossos corações; de que nossa escolha é um terrível desenho do destino no qual está inscrita ou a nossa salvação ou a nossa condenação; de que “quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica”; de que “quem quiser salvar-se deve pensar assim a respeito da Trindade” (cf. Símbolo Atanasiano), e não de outro modo; de que, “se tu apelares à penetração, se invocares a inteligência, buscando-a como se procura a prata, se a pesquisares como um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor, e descobrirás o conhecimento de Deus” (Pr 2, 3-5). Esse é o princípio dogmático, que tem força.

Enquanto Newman assim procedia com seus estudos sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, ele percebeu que a Igreja de Roma era a Igreja dos Padres, a verdadeira Igreja de Cristo.

Em sua Apologia ele escreveu:

Tudo isso levou-me a examinar mais atentamente o que não duvido fosse de muito objeto das minhas considerações, isto é, o encadeamento de argumentos por meio do qual o espírito progride das suas primeiras ideias religiosas até às últimas; cheguei à conclusão de que em verdadeira filosofia não há meio termo entre ateísmo e catolicismo, e de que um espírito consequente consigo mesmo, nas circunstâncias em que se acha neste mundo, deve abraçar um ou outro. [8]

Em 9 de outubro de 1845, Newman abraçou a fé católica e foi recebido na Igreja — “no único redil de Cristo” [9], como ele escreveu — pelo beato Dominic Barberi, um passionista italiano.

“Testes” pela Verdade

O Cardeal Newman, já em idade avançada.

Depois de ordenar-se padre católico, Newman fundou o Oratório de São Filipe Néri em Birmingham. Em suas muitas atividades pastorais e teológicas, trabalhou sobretudo para formar intelectual e espiritualmente os fiéis católicos, seus confrades e novos convertidos. De fato, ele estava convencido de que os grandes desenvolvimentos culturais e sociais da época exigiam uma fé que fosse capaz de demonstrar as razões para se ter esperança.

Em meio a numerosas dificuldades e desentendimentos de vários lados, ele trabalhou incansavelmente para incutir cultura nos leigos, “pessoas do mundo para o mundo”, mas que fossem iluminados por uma fé radiante, que eles mesmos seriam capazes de defender.

Veio à luz em 1870 uma obra sua intitulada An Essay in Aid of a Grammar of Assent. Neste outro clássico, Newman analisa filosoficamente o ato de assentimento da mente humana às verdades reveladas, procurando defender o direito das pessoas comuns à segurança nessa matéria, ainda que elas não sejam capazes de justificar e formular a fé por si mesmas. Nesse ensaio, o autor mostra de modo convincente e oportuno como a mente pode alcançar segurança, tanto em geral quanto na área da fé.

Na seção que conclui o livro, Newman nos dá como legado uma bonita passagem na qual resume o difícil teste pela Verdade, comparando-a com a religião natural, as promessas feitas aos ao povo de Israel e as várias religiões que havia espalhadas pelo Império Romano. Esta passagem, particularmente importante no mundo de hoje, onde o Cristianismo é chamado a se afirmar e espalhar em uma sociedade pluralista e multirreligiosa, diz o seguinte:

A religião natural é baseada no sentido de pecado; ela reconhece a doença, mas não é capaz de encontrar, só o que ela faz é procurar, o remédio. Esse remédio, tanto para a culpa quanto para a impotência moral, encontra-se na doutrina central da Revelação, a Mediação de Cristo.

É assim que o Cristianismo é o cumprimento da promessa feita a Abraão e das revelações mosaicas. Foi deste modo que, desde o começo, ele foi capaz de ocupar o mundo e dominar cada classe social que seus pregadores alcançavam; foi por isso que o poder romano, bem como as inúmeras religiões por ele abraçadas, não lhe puderam resistir; foi esse o segredo de sua energia perene e de seus martírios intermináveis; é por isso que, no presente, ele é tão misteriosamente poderoso, apesar dos novos e temíveis adversários que lhe obstruem o caminho.

O Cristianismo traz consigo aquele dom de estancar e curar a chaga profunda da natureza humana, fato que conta mais para o seu sucesso do que uma enciclopédia repleta de conhecimento científico e uma livraria inteira de controvérsias, e por essa razão ele deve durar enquanto durar a natureza humana. Trata-se de uma verdade vital que não envelhecerá jamais.

Algumas pessoas falam do Cristianismo como se fosse uma coisa da história, com influências apenas indiretas sobre os tempos modernos, mas eu não posso consentir em que ele seja uma religião meramente histórica. Suas fundações certamente se encontram em gloriosas memórias passadas, mas seu poder está no presente. Não se trata de “saudosismo”; nós não o contemplamos em conclusões retiradas de documentos mudos e eventos mortos, mas através da fé exercida sobre objetos eternos, da posse e do uso de dons sempre recorrentes.

Nossa comunhão com o Cristianismo está no invisível, não no obsoleto. Até os dias de hoje seus ritos e cerimônias estão continuamente revelando a intervenção ativa daquela Onipotência em que há muito tempo começou a religião. Primeiramente e acima de tudo está a Santa Missa, na qual Ele, que morreu uma vez por nós sobre a Cruz, traz de volta e perpetua, através de sua presença literal nela, aquele único e mesmo sacrifício que não se pode repetir.

Depois, há a verdadeira entrada dEle, em corpo, alma e divindade, no corpo e na alma de cada adorador que dEle se aproxima para receber esse dom — um privilégio mais íntimo do que se convivêssemos com Ele durante sua estadia temporária e de longa data sobre a terra.

Há então, além disso, a sua permanência pessoal em nossas igrejas, elevando toda liturgia terrena a um antegozo do céu.

Tal é o modo como se professa o Cristianismo e, eu repito, o próprio fato de ele “adivinhar” as nossas necessidades constitui, em si mesmo, uma prova de que ele é realmente o suprimento delas.

Contra o liberalismo religioso

Concluímos retornando ao discurso de Newman, feito quando de sua elevação ao Colégio de Cardeais. Naquela ocasião, ele renovou seu protesto contra o liberalismo religioso, dando uma descrição precisa daquilo em que ele consiste — uma descrição cujo caráter profético é óbvio em nossa época:

Liberalismo em religião é a doutrina de que não existe nenhuma verdade positiva em religião, mas de que um credo é tão bom quanto qualquer outro, e é esse o ensinamento que está ganhando força e substância dia após dia. É inconsistente com qualquer reconhecimento de uma religião como verdadeira. Ensina que todas devem ser toleradas, pois todas são uma questão de opinião.

A religião revelada não é uma verdade, mas um sentimento e um “gosto”; não se trata de um fato objetivo, milagroso; e é direito de cada indivíduo fazê-la dizer apenas o que lhe manda a fantasia.

A devoção não necessariamente se funda sobre a fé. Os homens podem ir a igrejas protestantes e a católicas, podem se alimentar das duas e pertencer a nenhuma delas. Podem confraternizar juntos em pensamentos e sentimentos espirituais, sem ter quaisquer visões de doutrina em comum, nem ver a necessidade disso.

Visto que, então, a religião é uma peculiaridade tão pessoal e privada, nós devemos necessariamente ignorá-la nas relações humanas. Se uma pessoa “veste” uma nova religião a cada manhã, ninguém tem nada a ver com isso. Pensar sobre a religião de uma pessoa é tão impertinente quanto pensar em suas fontes de renda ou na gestão de sua família. A religião em nenhum sentido é o vínculo da sociedade.

Hoje nós somos testemunhas de uma mentalidade, difundida em muitos ambientes, que sustenta precisamente essas ideias, denunciadas por Newman, com consequências muito graves para a causa da Verdade, para o diálogo ecumênico e interreligioso, para a liturgia e a espiritualidade, bem como para a dimensão social e cultural da fé.

O Beato Cardeal Newman pode lembrar a todos, pastores e fiéis leigos, que a Verdade é um tesouro muito precioso a ser aceito com fé, proclamado com honestidade e defendido com força. “Normalmente a Igreja nada tem a fazer”, assim conclui o Cardeal Newman o seu discurso, “a não ser cumprir com seus próprios deveres, com confiança e em paz, esperando ver a salvação de Deus”.

Referências

  1. “Desde o fim do século XVIII a palavra [Liberalismo] tem sido aplicada mais e mais a certas tendências na vida intelectual, religiosa, política e econômica, que implicam uma emancipação parcial ou total do homem em relação à ordem divina, sobrenatural e moral. […] [O Liberalismo Católico], em geral, advoga largueza na interpretação do dogma, descuido ou desconsideração com os decretos disciplinares e doutrinais das congregações romanas, simpatia pelo Estado mesmo em suas ações contra a liberdade da Igreja, e uma disposição em considerar como clericalismo os esforços da Igreja em proteger os direitos da família e dos indivíduos ao livre exercício da religião.” (Gruber, H. [1910]. Liberalismo. Em: The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company)
  2. John Henry Newman. Apologia pro vita sua, ou História das minhas Opiniões Religiosas (trad. port. de F. Machado da Fonseca). São Paulo: Paulinas, 1963, p. 32.
  3. Ibid., p. 33.
  4. Ibid., p. 31.
  5. Ibid., p. 91.
  6. Cf. Ibid., pp. 167s; 197s.
  7. Cf. Ibid., p. 170.
  8. Ibid., p. 266.
  9. Ibid., p. 307.

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A relíquia do cinto de Nossa Senhora
Virgem Maria

A relíquia do cinto de Nossa Senhora

A relíquia do cinto de Nossa Senhora

Depois de ser elevada aos céus de corpo e alma, reza uma piedosa e antiga tradição que a Virgem Maria teria deixado um presente ao apóstolo São Tomé.

Mariana Arráiz de Morazzani,  Arautos do Evangelho3 de Julho de 2018
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Quem, saindo de Florença, percorre vin­te quilômetros em direção ao noroeste, encontra às margens do rio Bisenzio uma cidade industrial cu­jas fábricas lhe valeram a alcunha de “Manchester da Itá­lia”. Trata-se de Prato. Essa cida­de, apesar da feiúra de suas indústrias e da simplicidade de seu nome, além de ter sido um pólo ar­tístico mui­to afamado da his­tó­ria da Tos­ca­na, abriga, em seu cen­tro velho, uma das relíquias mais tocantes da Mãe de Deus.

É bem conhecida a história de São Tomé, um dos doze Apóstolos, que por estar ausente quando da aparição do Senhor após a Res­surreição, não quis nela acreditar, apesar do testemunho de seus com­panheiros. Só oito dias mais tarde, quando Jesus lhes apa­receu novamente, Tomé pôde constatar a verdade, colocando seus dedos na chaga do Salvador. Aí, sim, acreditou.

Passaram-se os anos e Tomé tor­nou-se um dos Apóstolos mais intrépidos, levando o Evangelho até os confins da Pérsia e da Índia. Segundo a bela tradição que chegou até nós [1], encontrava-se ele numa dessas longínquas regiões quando recebeu um recado de São Pedro, de que retornasse sem demora a Jerusalém, pois Maria, a Mãe do Senhor, iria deixá-los e desejava antes despedir-se de todos. Empreendeu Tomé a sua volta e mais uma vez chegou atrasado. A Mãe de Deus já havia su­bi­do aos céus [2].

São Tomé, mais uma vez levado pelo ceticismo, relutou em acreditar na Assunção da Santíssima Vir­gem e pediu a São Pedro que abris­se o sepulcro, para poder comprovar com os seus próprios olhos o ocorrido. Atendido o seu pedido, constatou que no túmulo vazio en­contravam-se apenas muitos lírios e rosas. Nesse mesmo momento, ao levantar suas vistas aos céus, Tomé viu Nossa Senhora na Glória, que, sorridente, desatou o cinto e lançou-o em suas mãos, co­mo símbolo de maternal bênção e proteção.

“O Sagrado Cinto”, representado na Catedral de Prato.

Este cinto é a relíquia que se ve­nera na Catedral de Prato. Chegou de Jerusalém no ano de 1141, trazido por Michele Dagomari, ha­bitante da cidade que estivera na Terra Santa. No começo, nin­guém deu muita importância àque­la re­lí­quia de autenticidade não comprovada. Mas em 1173 a Providência valeu-se de um fato extraor­di­nário para que todos a reconhe­ces­sem como verdadeira.

No dia de Santo Estêvão, o pa­droeiro da cidade, era costume co­locarem-se todas as relíquias em ci­ma do altar para com elas aben­çoar os doentes e endemoniados. Na ocasião, foi exposta também a caixa contendo o cinto de Nossa Senhora. Aproximaram então uma possessa que, no momento em que tocou a caixa começou a afirmar com insistência que esse cinto era da Santíssima Virgem, e no mesmo instante viu-se liberada de seu mal.

Iniciou-se então o culto público à sagrada relíquia. O próprio São Francisco de Assis, em 1212, este­ve com seus primeiros frades em Prato para venerá-la. Porém, se esse culto já conta com mais de oito séculos de história, a devoção ao santo cinto de Nossa Senhora é ainda muito mais antiga: foi instituída por Santo Agostinho, que de­terminou a constituição de uma Confraria do Santo Cinto, até hoje existente entre os agostinianos.

A relíquia é exposta à venera­ção pública cinco vezes ao ano: na Páscoa, nos dias 1.º de maio, 15 de agosto, 8 de dezembro e no Natal. Nessas ocasiões, ela é colocada no púlpito externo, à direita da Catedral, defronte à bonita pra­ça medieval da cidade.

Essa devoção faz com que Prato seja até hoje um dos lugares de peregrinação mariana mais frequentados da Itália.

Se você, leitor, algum dia passar por Prato, não deixe de entrar na Catedral — aliás, uma linda rea­lização do estilo gótico toscano — e procure do lado esquerdo a Capella del Sacro Cingolo, onde poderá venerar tão extraordinária relíquia. Peça à Santíssima Vir­gem as graças de que necessita e não deixe de admirar os maravi­lhosos afrescos onde estão retra­tados, além da entrega do cinto a São Tomé, outros episódios da vida de Nossa Senhora.

Maria, mãe das misericórdias ini­magináveis, quis mostrar a São Tomé e a todos nós que, mesmo sendo teimosos em acreditar, e ainda que estejamos imersos em nossas misérias, Ela sempre esta­rá dis­posta a fazer milagres portentosos para nos confirmar na Fé e atar-nos a Ela com seu Cinto, protegendo-nos com sua maternal ter­nura.

Referências

  • Texto publicado originalmente na Revista Arautos do Evangelho, Junho/2002, n. 6, pp. 15-17.

Notas

  1. A história da ausência de São Tomé à Assunção de Maria, bem como do milagre que se seguiu à sua “segunda incredulidade”, é uma tradição cuja veracidade é contestada, por exemplo, por São Jerônimo (cf. Tiago de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos, São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 663). Não é nem necessário lembrar, portanto, que o conteúdo dessa revelação não pertence ao depósito da fé. Os católicos, nessas circunstâncias, são chamados a prestar atenção aos sinais de confiabilidade dessa devoção, livres para aceitá-la ou não. O culto litúrgico de longa data a essa relíquia, no entanto, constitui sem sombra de dúvidas um fortíssimo argumento em sua defesa (Nota da Equipe CNP).
  2. Por outro lado, como se sabe, a Assunção de Nossa Senhora aos céus é de fé católica, como confirmado pelo Venerável Papa Pio XII na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1950 (Nota da Equipe CNP).

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O nosso sangue e o Sangue de Cristo
Espiritualidade

O nosso sangue e o Sangue de Cristo

O nosso sangue e o Sangue de Cristo

Cristo remiu-nos “não com sangue dos bodes ou bezerros, mas com o seu próprio sangue”: grandiosa realidade que, se fosse deveras compreendida, seria mais que suficiente para fazer de nós autênticos santos.

Pe. Gabriel de S. M.ª Madalena2 de Julho de 2018
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Ó Jesus que me remistes com o Vosso Sangue, fazei que o Vosso Sangue produza em mim todo o Seu fruto.

Na liturgia de hoje [1] sobressai a majestosa figura de Jesus, como a de um rei que se apresenta ao povo no esplendor do seu manto real: “Quem é este — canta o Ofício do dia — que vem… com vestidos tingidos, esplendoroso na sua túnica?” (Breviário Romano). Mas o manto envergado por Cristo não é resplandecente pelo bisso ou pela púrpura, mas pelo sangue, pelo Seu Sangue, derramado pelos nossos pecados: “Está vestido com uma veste manchada de Sangue, e chama-se o Verbo de Deus” (ib.).

Aquele Sangue que o Verbo, ao incarnar, tomou da nossa natureza humana, todo no-lo devolveu como preço do nosso resgate. Não o fez obrigado por ninguém, mas livremente, porque quis, porque nos amou: “Cristo amou-nos e lavou-nos dos nossos pecados no seu sangue” (Ap 1, 5). Todos os mistérios da nossa redenção são mistérios de amor e todos, por isso, nos incitam ao amor; mas aquele que hoje meditamos tem uma nota particularmente comovedora, porquanto nos leva a considerar a Redenção sob o seu aspecto mais cruento: a efusão do Sangue de Jesus, que corre do Calvário tingindo de púrpura o mundo inteiro, rociando todas as almas.

Cristo remiu-nos “não com sangue dos bodes ou bezerros — exclama S. Paulo na Epístola (Hb 9, 11-15) — mas com o seu próprio sangue”: grandiosa realidade, realidade que se fosse deveras compreendida, seria mais que suficiente para fazer de nós autênticos santos. Devemos ter o “sentido” do Sangue de Cristo, do Sangue que Ele derramou por nós até à última gota, Sangue que, por meio dos sacramentos — da confissão, em particular — jorra continuamente para rociar as nossas almas, para as lavar, purificar e enriquecer com os méritos infinitos do Redentor. “Banhai-vos no Sangue, mergulhai no Sangue, revesti-vos do Sangue de Cristo”, era o grito incessante de Santa Catarina de Sena.

No Ofício do dia, S. Paulo convida-nos com ardor a correspondermos ao dom de Cristo: “Jesus, para santificar o povo com o seu sangue padeceu fora da porta [de Jerusalém]. Saiamos pois ao seu encontro… levando o seu opróbrio”. Se queremos que o Sangue de Cristo produza em nós todo o seu fruto, devemos unir-lhe o nosso. Somente o Seu é preciosíssimo, tão precioso que uma só gota era suficiente para salvar todo o mundo. Todavia Jesus quer, como sempre, que lhe juntemos a nossa parte, o nosso contributo de sofrimento, de sacrifício, “levando o seu opróbrio”.

Se formos sinceros temos de reconhecer que procuramos fugir quanto podemos aos opróbrios de Cristo; se às vezes uma falta de delicadeza, uma pequena ofensa ou uma palavrita mordaz basta para nos irritar, como poderemos dizer que somos capazes de partilhar as humilhações do Mestre divino? Ei-lO tratado como um malfeitor, arrastado pela soldadesca, entre escárnios grosseiros, para fora da porta de Jerusalém e aí crucificado no meio de dois ladrões. E nós, que parte tomamos na Sua Paixão? De que modo partilhamos os Seus opróbrios?

Foi para nos redimir que “Jesus sofreu a cruz sem fazer caso da ignomínia… E vós — censura S. Paulo — ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado” (Hb 12, 2 e 4). Poderemos dizer que somos capazes de lutar “até ao sangue” para vencer os nossos defeitos, o nosso orgulho, o nosso amor próprio? Oh! quão fracos e covardes somos na luta, quão indulgentes e compassivos para conosco, sobretudo para com o nosso orgulho! Jesus, inocentíssimo, castigou em Si mesmo os nossos pecados, a ponto de padecer uma morte sangrenta e ignominiosa; e nós, que somos culpados, não sabemos puni-los em nós mesmos, não digo até ao sangue, mas nem sequer até ao sacrifício do nosso amor próprio.

Eis o sangue que Jesus nos pede para juntar ao Seu: o sangue que brota da negação plena e sincera do nosso eu, da aceitação humilde e generosa de tudo o que mortifica, quebra e destrói o nosso orgulho. O Sangue preciosíssimo de Jesus dar-nos-á para isso a força “porque a alma que se inebria e se submerge no Sangue de Cristo, veste-se de verdadeiras e reais virtudes” (Santa Catarina de Sena).

Colóquio — “Ó Jesus, dulcíssimo amor, para fortalecerdes a minha alma e a libertardes da fraqueza em que havia caído pelo pecado, cercaste-a com um muro tendo amassado a cal com a abundância do Vosso Sangue, deste Sangue que une e confirma a alma na doce vontade e caridade de Deus! E como para unir as pedras se põe cal amassada com água, assim Vós, meu Deus, pusestes, entre Vós e as criaturas o Sangue do Vosso Unigênito Filho, amassado com a cal viva do fogo duma ardentíssima caridade; por isso não há Sangue sem fogo nem fogo sem Sangue. O Vosso Sangue, ó Cristo, foi derramado com o fogo do amor” (Sta. Catarina de Sena).

“Eu vos adoro, ó Sangue preciosíssimo de Jesus, flor da criação, fruto da virgindade, instrumento inefável do Espírito Santo, e exulto pensando que, provindo das gotas do sangue virginal, ao qual imprimiu movimento o eterno amor, fostes assumido pelo Verbo e deificado na Sua pessoa. Enterneço-me profundamente pensando que do Coração da Virgem passastes ao Coração do Verbo, e animado pelo sopro da divindade, vos tornastes digno de adoração por serdes Sangue de um Deus.

Eu vos adoro encerrado nas veias de Jesus, conservado na Sua Humanidade como o maná na arca de ouro, memorial da Redenção eterna, por Ele operada nos dias da Sua vida mortal. Adoro-vos, Sangue do Novo e eterno Testamento, irrompendo das veias de Jesus no Getsêmani, das Suas carnes flageladas no Pretório, das mãos e pés trespassados e do lado aberto no Gólgota. Adoro-vos nos sacramentos; adoro-vos na Eucaristia, onde sei que estais substancialmente contido…

Em vós deposito a minha confiança, ó adorável Sangue, nosso preço e nosso banho. Caí gota a gota, suavemente, nos corações transviados e abrandai a sua dureza. Limpai, ó Sangue adorável de Jesus, limpai as nossas manchas, salvai-nos da ira do anjo exterminador. Regai a Igreja: fecundai-a de taumaturgos e de apóstolos, enriquecei-a de almas santas, puras e radiantes de beleza divina” (S. Alberto Magno).

Referências

  • Extraído e levemente adaptado de “Intimidade Divina: Meditações sobre a Vida Interior para Todos os Dias do Ano”, 2.ª ed., Porto: Edições Carmelitanas, 1967, pp. 1456-1459.

Notas

  1. No calendário litúrgico antigo, a Igreja reservava para o dia 1.º de julho uma festa especial em honra do Preciosíssimo Sangue de Cristo. Infelizmente, no Novus Ordo, essa festa não existe mais, mas resta ainda aos sacerdotes, à medida que o permitirem as rubricas, a possibilidade de rezar Missas votivas em honra ao Preciosíssimo Sangue.

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