130. Pequei contra o céu!
A parábola do filho pródigo nos dá a ocasião para meditarmos sobre o verdadeiro arrependimento (contrição perfeita).
Depois de sua aventura no mundo do pecado, o filho mais novo cai em si e resolve voltar para a casa do pai, não como filho, mas como servo. Trata-se da atrição (contrição imperfeita): o arrependimento que nasce no momento em que o pecador vê o quanto ele mesmo saiu prejudicado com sua vida no desvario.
Ao ver o pai que corre ao seu encontro, o filho pode iniciar o processo de verdadeira e perfeita contrição: um arrependimento que brota da dor de ter ofendido a Deus, de ter ferido o seu coração de Pai.
Para o aprofundamento, colocamos abaixo os textos do Catecismo da Igreja Católica, do Concílio de Trento e alguns atos de contrição.
Aconselha-se também a leitura do belo livro do Padre J. de Driesch, A contrição perfeita: uma chave de ouro para o céu. Clique aqui para baixar.
Catecismo da Igreja Católica
A Contrição
1451 – Entre os atos do penitente, a contrição vem em primeiro lugar. Consiste "numa dor da alma e detestação do pecado cometido, com a resolução de não mais pecar no futuro" (Concílio de Trento, Sess. 14ª, Doctrina de sacramento Paenitentiae, c. 4: DS 1676).
1452 – Quando brota do amor de Deus, amado acima de tudo, contrição é "perfeita" (contrição de caridade). Esta contrição perdoa as faltas veniais e obtém também o perdão dos pecado mortais, se incluir a firme resolução de recorrer, quando possível, à confissão sacramental (cf. Concílio de Trento, Sess. 14ª, Doctrina de sacramento Paenitentiae, c. 4: DS 1677).
1453 – A contrição chamada "imperfeita" (ou "atrição") também é um dom de Deus, um impulso do Espírito Santo. Nasce da consideração do peso do pecado ou do temor da condenação eterna e de outras penas que ameaçam o pecador (contrição por temor). Este abalo da consciência pode ser o início de uma evolução interior que ser concluída sob a ação da graça, pela absolvição sacramental. Por si mesma, porém, a contrição imperfeita não obtém o perdão dos pecados graves, mas predispõe a obtê-lo no sacramento da penitência (cf. Concílio de Trento, Sess. 14ª. Doctrina de sacramento Paenitentiae, c. 4: DS 1678: ID., Sess. 14ª, Canones de sacramento Paenitentiae, can. 5: DS 1705).
Concílio de Trento
14a. sessão (penitência) Cap. 4 A Contrição
DS 1676 – A contrição, que tem o primeiro lugar entre os mencionados atos do penitente, é uma dor da alma e detestação do pecado cometido, com propósito de não tornar a pecar. Este movimento de contrição foi necessário em todo o tempo para se alcançar o perdão dos pecados. No momento que cai depois do batismo, ela é como que uma preparação para a remissão dos pecados, se estiver unida à confiança na divina misericórdia e ao propósito de executar tudo o mais que requer para receber devidamente este sacramento.
Declara, pois, o santo Sínodo que esta contrição encerra não só a cessação do pecado e o propósito e início de uma vida nova, mas também o ódio da vida passada, conforme as palavras: “Lançai longe de vós todas as vossas maldades em que prevaricastes e fazei-vos um coração novo e um espírito novo”(Ez 18, 31).
E, por certo, quem tiver considerado aqueles clamores dos Santos: “Só contra vós pequei e fiz o mal diante de ti” (Sl 51, 6); “Estou esgotado à força de tanto gemer, rego o meu leito com lágrimas todas as noites” (Sl 6,7); “Passarei em revista todos os meus anos em tua presença entre amarguras de minha alma”(Is 38, 15) e outros deste gênero, facilmente entenderá que eles procediam de um ódio veemente da vida passada e de grande detestação dos pecados.
DS 1677 – Ensina ainda que, embora algumas vezes suceda que esta contrição seja perfeita em virtude da caridade e reconcilie com Deus antes que seja realmente recebido este sacramento, contudo não se deve atribuir esta reconciliação à contrição somente, independente do desejo de receber o sacramento, que aliás está contido nela.
Quanto à contrição imperfeita (cân. 5), chamada atrição, porque nasce ordinariamente da consideração da torpeza do pecado ou do temor do inferno e dos castigos, se com esperança do perdão excluir a vontade de pecar, [o santo Sínodo] declara que ela não somente não torna o homem hipócrita e mais pecador [cf. *1456], mas também que é dom de Deus e moção do Espírito Santo, que na realidade ainda não habita em quem está arrependido, mas somente o move, de modo que, ajudado por ele, prepara para si o caminho da justiça. E, embora por si mesma seja incapaz de conduzir o pecador à justiça sem o sacramento da penitência, [ a atrição] dispõe-no para impetrar a graça de Deus no sacramento da penitência. Foi abalados por este temor salutar que os ninivitas fizeram penitência ante a aterradora pregação de Jonas e impetraram a misericórdia do Senhor ( cf. Jn 3).
Por isso, é falsamente que alguns caluniam os autores católicos como ensinassem que o sacramento da penitência confere a graça sem nenhum movimento bom por parte daqueles que o recebem: isso, a Igreja de Deus jamais ensinou nem creu. Mas também ensinam falsamente que a contrição é extorquida e forçada, não livre e voluntária (cân. 5).
Ato de contrição
Senhor meu Jesus Cristo,
Deus e homem verdadeiro,
Criador e Redentor meu,
por serdes Vós quem sois,
sumamente bom e digno de ser amado,
e porque Vos amo e estimo sobre todas as coisas:
pesa-me, Senhor, de todo o meu coração, de Vos ter ofendido;
pesa-me, também, por ter perdido o Céu e merecido o inferno;
e proponho firmemente,
ajudado com os auxílios de vossa divina graça,
emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender.
Espero alcançar o perdão de minhas culpas
pela vossa infinita misericórdia.
Amém.
Resumo do ato de Contrição que usava o Bem-aventurado Marcos de Aviano (1631-1699), religioso capuchinho, beatificado em 2003
Eu, ruim e indigna criatura, me lanço a vossos pés, Deus meu, e, com o coração contrito e aflito, reconheço e confesso diante de Vós, Redentor de minha alma, que, desde o instante em que nasci até agora, tenho cometido inumeráveis negligências e pecados.
Tenho-Vos ofendido, Deus meu! Pequei, Senhor! Porém, detesto os meus pecados e me arrependo do íntimo do coração. Por isso, prometo solenemente não mais pecar. Porém, se Vós, em vossa altíssima sabedoria, preveis que posso novamente ofender-Vos e cair outra vez no vosso desagrado, de todo o coração Vos peço que me leveis agora desta vida, em vossa graça.
Oxalá a minha dor fosse tão grande que o propósito de não mais Vos ofender permanecesse sempre imutável! Porque Vos devo infinito agradecimento pela vossa divina bondade e porque mereceis que Vos ame sobre todas as coisas, arrependo-me de meus pecados, não tanto para livrar- me dos tormentos eternos que por eles mereci, nem para gozar das delicias do Céu, que tão inconsideradamente desprezei, como porque vos desagradam a Vós, Deus meu, que, por vossa bondade e infinitas perfeições, sois digno de infinito amor.
Oxalá todas as criaturas vos mostrem sem interrupção, amor, reverência e agradecimento. Amém.
Soneto a Cristo Crucificado
Esta poesia é uma das joias da poesia mística espanhola. Composto por autor desconhecido do século XVI, expressa de forma lapidar a atitude de perfeita contrição. Publicamos abaixo a tradução portuguesa de Manuel Bandeira (Alguns poemas traduzidos, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 2007).
No me mueve, mi Dios, para quererte,
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.
Tú me mueves, Señor; muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido;
muéveme ver tu cuerpo tan herido;
muéveme tus ofrentas y tu muerte.
Muéveme, al fin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.
No me tienes que dar porque te quiera;
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.
Tradução de Manuel Bandeira:
Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido:
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.
Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.
Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu ainda te amara
E a não haver inferno te temera.
Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.