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Na noite de 18 de julho de 2020, faleceu Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares, vítima do coronavírus. Por essa circunstância excepcional, refletiremos neste domingo sobre a vida de Dom Henrique, enfocando-a do ponto de vista do mistério que é a missão de um bispo dentro da Santa Igreja de Deus.

Dom Henrique, desde o tempo de seminário, em Roma, foi para mim um grande irmão na fé. Aqui no Brasil, mesmo distantes por milhares de quilômetros, mantínhamos uma amizade fundada na certeza de que amávamos as mesmas coisas. Uma verdadeira e profunda amizade, na qual dois corações amam as mesmas realidades: desde a nossa juventude, amamos a Cristo e o sacerdócio e sonhamos com o dia em que, no altar, poderíamos oferecer a Deus o sacrifício redentor pelo qual Nosso Senhor salvou a humanidade. Hoje, estou oferecendo o sacrifício da Santa Missa justamente pela alma de Dom Henrique, confiando em Deus e na intercessão de Nossa Senhora, para que ele esteja o quanto antes celebrando a Eucaristia definitiva no céu.

Dom Henrique foi internado no dia 4 de julho, já numa situação preocupante, com 75% de seus pulmões comprometidos. Estava lúcido e consciente, rezando e se entregando a Deus. Então, no dia 16 de julho, dia de Nossa Senhora do Carmo, ele e os médicos decidiram pelo entubamento, transmitindo-nos através de um irmão a seguinte mensagem do bispo: “Minha vida pertence a Deus, minha vida está nas mãos de Deus”. No sábado, dia dedicado à Virgem Santíssima, morreu Dom Henrique.

Devoto de Nossa Senhora do Carmo e muito ligado à espiritualidade carmelita (principalmente à S. Teresinha), cremos que Dom Henrique, graças às indulgências anexas às suas devoções, esteja agora junto de Deus. Cabe a nós, em todo o caso, a obrigação de rezar por sua alma, para que seja admitido o mais breve possível à glória do paraíso celeste.

Morto com apenas 57 anos de idade, pensávamos tê-lo por ainda mais 20 anos no episcopado, dando continuidade ao seu grande apostolado. Mal sabíamos que Deus lhe reservara uma missão maior, confiando-lhe uma “catedral no céu”.

Desde ontem, muitas pessoas no Brasil inteiro se sentiram órfãs porque lhes foi arrancado um pai espiritual, um pai que, através da internet, com seus vídeos e artigos, atingiu corações e fez muitos voltarem para Cristo.

Dom Henrique, enquanto bispo, foi uma das “colunas da Igreja” no Brasil, dedicando-se profundamente à oração e à Palavra de Deus (cf. At 6, 4). Assim seguiu o chamado de Cristo, que disse “Vinde”, para que os discípulos permanecessem com Ele, e o “Ide”, para que pregassem o seu Evangelho.

Esse transitar entre o “Vinde” e do “Ide” foi uma constante na vida de Dom Henrique. Ingressou no seminário de Maceió; mas, posteriormente, se viu chamado à vida monástica, decidindo entrar no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro. Ainda noviço, sentiu a necessidade de entregar-se a Deus com maior radicalidade na observância da Regra de São Bento. Pediu licença, prontamente concedida, aos superiores para ingressar na Ordem Trapista. Por uma série de dificuldades de saúde, no entanto, não pôde permanecer na vida austera da Trapa. Mesmo contrariado, retornou com profunda humildade ao seminário da Arquidiocese de Maceió, donde foi enviado, já feito diácono, para Roma, a fim de dar continuidade aos estudos.

A chegada a Roma do então diácono Henrique foi para mim um bálsamo espiritual, pois encontrei nele um irmão de aspirações comuns, sobretudo no amor a Cristo. As partilhas espirituais e teológicas que tivemos geraram em mim um profundo amor à Palavra de Deus, aos Padres da Igreja e à teologia do então Cardeal Joseph Ratzinger. Certamente, o convívio no seminário com esse irmão trouxe, para minha vida, profundos frutos espirituais.

Fomos ordenados sacerdotes praticamente na mesma época: eu primeiro, em Roma, depois ele, na Arquidiocese de Maceió. Lembra-me que, após a ordenação, de volta ao Colégio Pio Brasileiro em Roma, o Pe. Henrique ia uma vez por semana à sala de televisão para assistir à gravação em VHS de sua ordenação sacerdotal. Perguntei-lhe o porquê daquela insistência, ao que ele respondeu: “Eu preciso meditar o mistério que aconteceu em mim”.

Foi com essas disposições interiores, típicas de um homem todo entregue a Deus, que Dom Henrique pôde realizar um fecundo ministério sacerdotal, despertando inúmeras vocações e evangelizando incontáveis pessoas com os artigos preciosos que, de tempos em tempos, conforme lhe permitia a atarefada vida de padre, ia publicando em seu blog na internet.

Em 2009, foi nomeado pelo Papa Bento XVI bispo auxiliar de Aracaju. É interessante destacar que ele começou o episcopado já vertendo sangue. No mesmo dia em que o núncio apostólico o informou da nomeação, seu carro foi abordado por assaltantes. Foi espancando sem clemência, ficando com o rosto configurado ao de Cristo padecente. Enquanto apanhava, o então cônego Henrique pronunciou aos bandidos uma frase cujo significado só ele sabia, visto que sua nomeação só seria publicada dez dias depois. Disse ele: “Não façam isso! Eu tenho uma missão!” Na mesma hora, os assaltantes deixaram de agredi-lo.

Durante todo o seu ministério, Dom Henrique Soares afirmava (e testemunhava!) que nós, sacerdotes, temos de ser “homens de Deus”: primeiro homens, portando-nos com casta virilidade, e de Deus, porque padre não pode ter vida dupla nem vergonha de identificar-se, nos modos e no traje, como padre, como homem morto para o mundo, mas vivo para Deus.

Nesta sua Páscoa definitiva, Dom Henrique Soares, vendo o nosso sofrimento e o nosso desejo de tê-lo ainda conosco, há de estar repetindo a mesma frase dita outrora: “Eu tenho uma missão”! Da glória do céu, com certeza, ele fará um bem ainda maior do que todo o bem que fez neste mundo. Rezemos pelo descanso eterno de sua alma e pela consolação de sua família, e peçamos a Deus todo-poderoso que nos dê força para seguirmos com a nossa missão terrena, enquanto Dom Henrique inicia a sua, que já não conhecerá ocaso, na eternidade.

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