| Categoria: Sociedade

Quando o Natal era proibido na América Inglesa

Como o fundamentalismo protestante quase acabou, no mundo inglês, com uma das mais importantes celebrações da religião cristã.

Por Christine Niles | Tradução: Equipe CNP — Muitos podem ficar surpresos de saber que o Natal costumava ser ilegal na América — tudo graças aos protestantes.

A história começa na Inglaterra, logo depois que o líder Oliver Cromwell subiu ao poder. Após ter derrotado os levantes monarquistas ao longo da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia, na Guerra Civil inglesa, e supervisionando o julgamento e a execução do rei Carlos I, Cromwell autoproclamou-se Lorde Protetor do Reino em 1653. Ele governou por breves cinco anos; mas, durante esse tempo, fez o que pôde para acabar com os "papistas", implementando com zelo a sua reforma puritana.

Entre essas reformas estava incluso o banimento das festividades de Natal. Radicais calvinistas escoceses já haviam banido o Natal desde 1560 e, agora, com o rei deposto na vizinha Inglaterra e com o parlamento cheio de simpatizantes do puritanismo, o governo inglês também decidiu fazer o mesmo.

A guerra não era tanto contra o Natal, mas contra o catolicismo; uma das marcas mais características da fé católica é a celebração de dias festivos — dias marcados por celebrações especiais no calendário litúrgico. Solenidades, festas, oitavas — para os puritanos, todas essas coisas não faziam muito sentido, não passavam de celebrações "papistas" sem qualquer fundamento na Escritura. Uma máxima puritana diz: "Aqueles para quem todos os dias são santos não podem ter feriado".

O Natal em particular era especialmente "católico". A estação começava com o dia do Natal, um feriado público, quando lojas e empresas fechavam e os fiéis iam à Missa, seguida por festividades nos próximos doze dias. Em contraste com a penitência do tempo do Advento, o Natal era marcado por comidas e bebidas em grande quantidade, com alimentos especiais como peru, bife, tortas de ameixa e uma cerveja inglesa especialmente preparada. Danças, cantos, brincadeiras e jogos também aconteciam, bem como a troca de presentes.

Eram os ingleses não conformistas — católicos que aderiram obstinadamente à fé de outrora e se recusaram a curvar-se às novidades do anglicanismo imposto pelo Estado — que celebravam o Natal com gosto. Eles eram objetos de um ódio particular pelos puritanos, que exigiam uma observância mais estrita e austera do Dia do Senhor, não apenas no Natal, mas também na Páscoa e em outros dias de guarda. Com a sua sombria teologia, os puritanos também assumiram uma visão negativa da alegria, julgando-a excessiva e pecaminosa.

Em 1640, o Longo Parlamento começou a abolir o Natal. O banimento foi feito oficialmente em 1647, transformando em ofensa punível não só a celebração do Natal, mas também a da Páscoa e a do Domingo de Pentecostes. Danças, jogos e especialmente bebidas estavam proibidas, como também qualquer sinal de celebração especial, e lojas foram obrigadas a permanecer abertas durante o dia do Natal. A ascensão de Cromwell como Lorde Protetor apenas consolidou a lei. A Inglaterra teria de esperar até 1660, com a restauração da monarquia sob o rei Carlos II — que se converteu à fé católica no leito de morte — para o Natal ser restaurado como um feriado.

No Novo Mundo, colônias em Boston seguiram seus companheiros puritanos na Inglaterra, evitando a festa em honra da natividade de Nosso Senhor. Os peregrinos que vieram a bordo do Mayflower, o famoso navio inglês que trouxe os peregrinos para a América, trabalharam no campo durante o dia 25 de dezembro, e a cidade de Boston — um reduto puritano — baniu o Natal de 1659 a 1681.

Aqueles que eram apanhados tirando um tempo para comemorar o Natal eram forçados a pagar uma multa. Embora a festa tenha se tornado legal na Inglaterra em 1660, a Coroa não foi capaz de exercer influência sobre suas colônias americanas neste assunto até 1680, quando celebrações discretas foram outra vez permitidas em Boston.

A hostilidade ao Natal não cessaria inteiramente por séculos, queimando em vilarejos puritanos de colônias na América aqui e ali. Durante a Revolução Americana, o Natal veio a ser frequentemente associado com os simpatizantes da realeza (composta enormemente por anglicanos e católicos de renome). Mesmo depois da ratificação da Constituição dos Estados Unidos, o Senado e a Presidência continuaram a reunir-se no Natal, e até 1850, empresas e escolas na Nova Inglaterra trabalharam durante o dia 25 de dezembro.

Ajudado pelo sucesso de Um conto de Natal, de Charles Dickens, publicado com grande aclamação em 1843, e em cuja história se apresenta um feliz conto do feriado, a percepção dos americanos sobre o Natal começou a mudar lentamente. Não seria antes de 1870 que Ulysses S. Grand declararia o Natal um feriado nacional, assegurando a legitimidade da celebração do nascimento de Nosso Senhor em qualquer estado. Desde aquele tempo, o feriado tem sido celebrado por muitos protestantes americanos como o tempo favorito do ano; a antiga hostilidade desapareceu da memória nacional — mas permanece o fato de que, uma vez na história, os antepassados protestantes dessa nação procuraram acabar com o Natal, ações que ultimamente encontram suas fontes em uma animosidade contra a fé católica.

Fonte: Church Militant | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Espiritualidade

O Natal de Cristo e o nosso natal

Embora cada cristão tenha sido chamado num momento diferente para fazer parte da Igreja, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal, também nasce com Cristo neste Natal.

"A geração de Cristo é a origem do povo cristão", diz São Leão Magno, no Ofício das Leituras deste dia 31 de dezembro, "o Natal da Cabeça é também o natal do Corpo". O Verbo eterno de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, nasceu uma segunda vez, na humanidade, para nos fazer nascer uma vez mais, na fonte batismal, para a vida divina. "Embora cada um tenha sido chamado num momento determinado para fazer parte do povo do Senhor, e todos os filhos da Igreja sejam diversos na sucessão dos tempos, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal", explica ainda o Papa Leão, "também nasceu com ele neste Natal".

Nasce nesta Oitava, portanto, não só o Cristo, mas cada cristão em particular. Celebrar essa solenidade não significa simplesmente recordar um acontecimento do passado, mas algo que toca concretamente a nossa própria história. Puer natus est nobis, "um menino nasceu" verdadeiramente, não para servir de enfeite nos presépios, não para trazer um feriado de fim de ano, não para entrar nas páginas frias dos livros de história; nasceu sim, mas "para nós", para nos salvar, para mudar e transformar por completo a nossa vida.

Ao passarmos em família ou em amigos as festividades deste fim de ano, não nos esqueçamos dessas verdades que dão sentido não só ao Natal e ao Ano-Novo, mas a toda a nossa existência.

Dos Sermões de São Leão Magno, papa
(Sermo 6 in Nativitate Domini, 2-3, 5: PL 54, 213-216)

O Natal do Senhor é o Natal da paz

O estado de infância, que o Filho de Deus assumiu sem considerá-la indigna de sua grandeza, foi-se desenvolvendo com a idade até chegar ao estado de homem perfeito e, tendo-se consumado o triunfo de sua paixão e ressurreição, todas as ações próprias do seu estado de aniquilamento que aceitou por nós tiveram o seu fim e pertencem ao passado. Contudo, a festa de hoje renova para nós os primeiros instantes da vida sagrada de Jesus, nascido da Virgem Maria. E enquanto adoramos o nascimento de nosso Salvador, celebramos também o nosso nascimento.

Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão; o Natal da Cabeça é também o natal do Corpo.

Embora cada um tenha sido chamado num momento determinado para fazer parte do povo do Senhor, e todos os filhos da Igreja sejam diversos na sucessão dos tempos, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal, crucificada com Cristo na sua Paixão, ressuscitada na sua Ressurreição e colocada à direita do Pai na sua Ascensão, também nasceu com ele neste Natal.

Todo homem que, em qualquer parte do mundo, acredita e é regenerado em Cristo, liberta-se do vínculo do pecado original e, renascendo, torna-se um homem novo. Já não pertence à descendência de seu pai segundo a carne, mas à linhagem do Salvador, que se fez Filho do homem para que nós pudéssemos ser filhos de Deus.

Se ele não tivesse descido até nós na humildade da natureza humana, ninguém poderia, por seus próprios méritos, chegar até ele.

Por isso, a grandeza desse dom exige de nós uma reverência digna de seu valor. Pois, como nos ensina o santo Apóstolo, "nós não recebemos o espírito do mundo, mas recebemos o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons da graça que Deus nos concedeu" ( 1Cor 2, 12). O único modo de honrar dignamente o Senhor é oferecer-lhe o que ele mesmo nos deu.

Ora, no tesouro das liberalidades de Deus, que podemos encontrar de mais próprio para celebrar esta festa do que a paz, que o canto dos anjos anunciou em primeiro lugar no nascimento do Senhor?

É a paz que gera os filhos de Deus e alimenta o amor; ela é a mãe da unidade, o repouso dos bem-aventurados e a morada da eternidade; sua função própria e seu benefício especial é unir a Deus os que ela separa do mundo.

Assim, aqueles que "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo" ( Jo 1, 13), ofereçam ao Pai a concórdia dos filhos que amam a paz, e todos os membros da família adotiva de Deus se encontrem naquele que é o Primogênito da nova criação, que não veio para fazer a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou. Pois a graça do Pai não adotou como herdeiros pessoas que vivem separadas pela discórdia ou oposição, mas unidas nos mesmos sentimentos e no mesmo amor. É preciso que tenham um coração unânime os que foram recriados segundo a mesma imagem.

O Natal do Senhor é o natal da paz. Como diz o Apóstolo, Cristo é a nossa paz, ele que de dois povos fez um só (cf. Ef 2, 14); judeus ou gentios, "em um só Espírito, temos acesso junto ao Pai" (Ef 2, 18).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Virgem Maria

Quem é esta mulher, a Virgem Maria?

Nem verdadeira, nem interessante. Assim é a Virgem Maria apresentada pela revista “Superinteressante”, em sua última edição.

Uma capa sensacionalista e nada mais. Assim pode ser resumida a reportagem sobre a Virgem Maria, publicada pela revista cujo nome não faz jus ao seu conteúdo. Na primeira edição de 2017, Superinteressante resolveu revelar ao público brasileiro aquela que seria a "verdadeira" Maria. Ocorre que a revista não traz nada de novo nem de interessante. Apenas repete a velha cantilena de que Nossa Senhora teve outros filhos, que era uma mulher qualquer, rica e independente.

Desde as primeiras formulações da fé, a Igreja "encontrou viva oposição, troça ou incompreensão por parte dos não-crentes, judeus e pagãos" a respeito da concepção virginal de Jesus [1]. Por isso, não é espantoso que, mesmo após tantos séculos, essa oposição ainda se encontre viva no contexto social, sobretudo agora quando a virgindade já não é vista como um dom a ser preservado. Ora, o próprio Catecismo da Igreja Católica esclarece que o "sentido deste acontecimento", isto é, da concepção virginal de Jesus, "só é acessível à fé, que o vê no 'nexo que liga os mistérios entre si', no conjunto dos mistérios de Cristo, da Encarnação até à Páscoa" [2].

É claro, portanto, que uma mente fechada à graça de Deus não compreenderá o porquê das glórias de Maria, concedidas a Ela pelo próprio Deus, e buscará qualquer pedaço de pau para espancar a doutrina católica. Mais: a virgindade perpétua da Virgem Santíssima é um testemunho contra uma mentalidade secularizada e pagã, que defende o sexo como passatempo e diversão promíscua. Neste sentido, é preferível acreditar em uma Maria "poderosa e atrevida", do que reconhecer suas virtudes heroicas, sua virgindade e sua santidade. Uma Maria "dona de si", "independente" e "rica" não exige de ninguém uma conversão interior.

Não é coincidência, a propósito, que na mesma capa em que Nossa Senhora é retratada dessa maneira espúria, Superinteressante também apresente um perfil muito semelhante das mulheres que abortam. A armadilha é sutil: se Maria fosse uma mulher do século XXI, sugere maliciosamente a revista, ela também abortaria. Na sua famosa trilogia sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI analisa os perfis de Cristo defendidos pelos teólogos modernos e percebe como são parecidos com as opções ideológicas de cada autor. "Quem lê várias destas reconstruções, umas ao lado das outras, pode rapidamente verificar que elas são muito mais fotografias dos autores e dos seus ideais do que reposição de um ícone", escreve [3]. Aqui se verifica o mesmo problema. A "verdadeira" Maria de Superinteressante nada mais é que uma fotografia do ideal de mulher para os tempos modernos.

Mas quem é, afinal, a Virgem Maria?

É preciso reconhecer, antes de tudo, que o "que a fé católica crê, a respeito de Maria, funda-se no que crê a respeito de Cristo", e que "o que a mesma fé ensina sobre Maria esclarece, por sua vez, a sua fé em Cristo" [4]. Jesus e Maria estão intimamente ligados na economia da salvação. Por isso, não se pode fazer silêncio quando as verdades de fé sobre Nossa Senhora são negadas, uma vez que elas estão na base de outras verdades fundamentais da cristologia, como a doutrina sobre as naturezas divina e humana de Jesus. Quem nega aquelas, ipso facto, também nega estas. Como recorda o Catecismo, já no primeiro século os cristãos reconheciam o nexo existente entre Maria e Jesus, tal qual se pode ler neste escrito de Santo Inácio de Antioquia: "O príncipe deste mundo não teve conhecimento da virgindade de Maria e do seu parto, tal como da morte do Senhor: três mistérios extraordinários, que se efetuaram no silêncio de Deus" [5].

Em 1927, foi descoberto, no Egito, um fragmento de papiro datado do século III, no qual se podia ler a seguinte prece: "À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita". Trata-se da mais antiga oração cristã à Virgem Maria de que se tem notícia, depois, é claro, do louvor do anjo Gabriel e de Isabel (cf. Lc 1, 28; 42-45). Como se pode notar, os cristãos já se reportavam à sempre Virgem Maria como Mãe de Deus muito antes da definição do dogma, no Concílio de Éfeso. Não faz nenhum sentido, destarte, dizer que os dogmas católicos são adaptações à mentalidade pagã. De fato, a doutrina sobre a Virgem Maria é, sim, de origem apostólica.

Santo Irineu de Lião, cuja doutrina remonta diretamente ao apóstolo São João, escreve que, "assim como Eva, desobedecendo, se tornou causa de morte para si mesma e para todo o gênero humano, assim também Maria se tornou, pela sua obediência, causa de salvação para si mesma e para todo o gênero humano" [6]. Com essa sentença, Santo Irineu já explicava aquilo que seria definido séculos mais tarde no Concílio Vaticano II, sobre a mediação de Maria na obra da salvação. Notem: Santo Irineu é um autor do século II, que bebeu diretamente da fonte dos Apóstolos. Como não confiar no testemunho fidedigno desses santos, que derramaram o próprio sangue pela fé cristã?

A própria Sagrada Escritura dá testemunho de que Maria é mãe apenas de Jesus. Como já explicamos em outra oportunidade, "Tiago, irmão do Senhor", tinha outro pai e outra mãe: Maria, irmã de Nossa Senhora, e Alfeu, ou Cléofas em outras traduções. Além disso, as Sagradas Escrituras nunca dizem que esses "irmãos de Jesus" são filhos de Maria. Também Jesus não a teria confiado a João, na hora derradeira, se ela tivesse outros filhos (cf. Jo 19, 25-27).

Se mesmo os anjos se espantam e dizem "Quem é essa?" e os santos confirmam unanimemente: De Maria nunquam satis, "Sobre Maria jamais se dirá o bastante", parece muito pretensioso por parte de Superinteressante querer apresentar aos seus leitores a "verdadeira" Virgem Maria. É bom que deixem esse trabalho a quem, ao longo dos séculos, foi mais enaltecido pela obediência e humildade dessa mulher; Àquele que, pela boca de Isabel, proclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre" (Lc 1, 42); Àquele que é, enfim, seu esposo e nosso vivificador, o Espírito Santo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, n. 498.
  2. Ibidem.
  3. Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré (trad. de José Jacinto Ferreira de Farias). São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 10.
  4. Catecismo da Igreja Católica, n. 487.
  5. Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, 19, 1.
  6. Santo Irineu de Lião, Contra as Heresias, III, 22.

| Categoria: Santos & Mártires

Ainda não falam e já proclamam Cristo

A glória do martírio, que outros mereceram por vontade própria, os Santos Inocentes a alcançaram pela graça de Deus.

Os Santos Inocentes, cuja festa litúrgica celebramos neste dia 28 de dezembro, "morrem pelo Cristo, sem saberem". Como explica o gênio teológico de Santo Tomás de Aquino, "a glória do martírio, que outros mártires mereceram por vontade própria, essas crianças a alcançaram pela graça de Deus" [1]. Embora não tivessem idade suficiente para crer na paixão de Cristo, esses infantes traziam consigo "a carne capaz de sofrer a mesma paixão que Ele haveria de sofrer", na expressão de Santo Agostinho.

Essas verdades vão todas repetidas no belo sermão proclamado pelo Ofício das Leituras de hoje. Seu autor é um bispo do século V, chamado Quodvultdeus (nome latino que quer dizer, literalmente, "querido por Deus" ou "aquele que Deus quis"). Prestemos atenção ao que ele nos ensina e seremos capazes de ouvir a voz daqueles bebês martirizados que "ainda não falam e já proclamam Cristo", "não podem ainda mover os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória".

Dos Sermões de São Quodvultdeus, bispo
(Sermo 2 de Symbolo: PL 40, 655)

Ainda não falam e já proclamam Cristo

Nasceu um pequenino que é o grande Rei. Os magos chegam de longe e vêm adorar, ainda deitado no presépio, aquele que reina no céu e na terra. Ao anunciarem os magos o nascimento de um Rei, Herodes se perturba e, para não perder o seu reino, quer matar o recém-nascido. No entanto, se tivesse acreditado nele, poderia reinar com segurança nesta terra e para sempre na outra vida.

Por que temes, Herodes, ao ouvir que nasceu um Rei? Ele não veio para te destronar, mas para vencer o demônio. Como não compreendes isso, tu te perturbas e te enfureces; e, para que não escape o único menino que procuras, tens a crueldade de matar tantos outros.

Nem as lágrimas das mães nem o lamento dos pais pela morte de seus filhos, nem os gritos e gemidos das crianças te comovem. Matas o corpo das crianças porque o medo matou o teu coração; e julgas que, se conseguires teu propósito, poderás viver muito tempo, quando precisamente é a própria Vida que queres matar.

Aquele que é a fonte da graça, pequenino e grande ao mesmo tempo, reclinado num presépio, apavora o teu trono. Por meio de ti, e sem que saibas, realiza os seus desígnios e liberta as almas do cativeiro do demônio. Recebe como filhos adotivos os filhos dos que eram seus inimigos.

Essas crianças morrem pelo Cristo, sem saberem, enquanto seus pais choram os mártires que morrem. Cristo faz suas legítimas testemunhas aqueles que ainda não falam. Eis como reina aquele que veio para reinar. Eis como já começa a conceder a liberdade aquele que veio para libertar, e a dar a salvação aquele que veio para salvar.

Tu, porém, Herodes, ignorando tudo isto, te perturbas e te enfureces; e enquanto te enfureces contra o Menino, já lhe prestas homenagem, sem o saberes. Ó imenso dom da graça! Que méritos tinham aquelas crianças para obterem tal vitória? Ainda não falam e já proclamam o Cristo. Não podem ainda mover os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 1, ad 1.

| Categoria: Pró-Vida

Após decisão do STF, brasileiros dizem “não” ao aborto

Em recente pesquisa, maioria dos brasileiros se mostrou contrária à legalização do aborto. Número é ainda maior entre as mulheres.

Não adianta. O povo brasileiro é majoritariamente contra o aborto, gostem as feministas ou não. É o que revela uma nova pesquisa, divulgada recentemente pelo Instituto Paraná Pesquisas, na qual 73% dos brasileiros se dizem contrários à interrupção voluntária da gravidez. Mais: entre as mulheres, a rejeição chega a um número ainda maior: 78%. A pesquisa foi realizada entre os dias 6 e 8 de dezembro de 2016, abrangendo um número de 2.016 eleitores de todo o Brasil.

O que esses dados representam?

Em primeiro lugar, trata-se de mais um banho de água fria nas pretensões das grandes fundações internacionais que, ano após ano, tentam implantar a "cultura da morte" no Brasil. Como se sabe, desde os anos 1960, várias fundações internacionais trabalham para mudar as leis brasileiras a fim de adequá-las ao seu projeto de controle populacional. E, embora muitos prefiram fechar os olhos para esse imperialismo contra a soberania nacional, o fato é que bilhões de dólares já foram investidos nesse projeto megalomaníaco. Vejam: a própria Fundação Ford, reconhecida no mundo todo por sua militância pela descriminalização do aborto, afirma ter gasto na América Latina, entre os anos de 1962, quando começou a trabalhar aqui, e 2012, mais de US$ 1 bilhão. No seu relatório para os anos de 1990, ela confessa: "[...] o Quadro de Conselheiros aprovou recentemente um orçamento de U$ 125 milhões para um período de dez anos com a finalidade de reorganizar um programa que fará dos direitos reprodutivos sua peça central" [1].

A afirmação é categórica. Não existe teoria da conspiração. Não existe má vontade. Não existe preconceito cristão. O que existe, e os documentos estão aí para provar, é um grupo de globalistas, obcecados por uma agenda ideológica e totalitária, tentando impor à população brasileira algo profundamente contrário à sua natureza, cultura e religiosidade.

Não se enganem, caros leitores. Essas pessoas não estão minimamente comprometidas com a causa das mulheres, com os direitos humanos dos brasileiros. Se assim fosse, a Constituição brasileira, a qual tutela os verdadeiros direitos dos cidadãos deste país, não seria solenemente rasgada por arautos do ativismo judicial. A população brasileira não seria insultada publicamente por seus juízes, aos quais, como declarou o ministro Luiz Fux, não se deve pedir nem mesmo satisfações.

Em segundo lugar, a pesquisa apenas traduz uma convicção enraizada no íntimo do povo brasileiro, convicção esta que nem mesmo os meios de comunicação podem arrancar. Mesmo depois de uma decisão absurda da 1ª Turma do STF e de uma reportagem alarmista no Fantástico, a convicção natural e óbvia de que a vida humana começa na fecundação persiste no coração dos brasileiros. Não foi por menos que a Advocacia-Geral do Senado enviou ao mesmo Supremo Tribunal Federal um parecer contrário à legalização do aborto em caso de Zika, baseado na "repulsa ao aborto" que "está profundamente arraigada na cultura brasileira". Os senadores — que, diferentemente dos ministros, devem satisfações à nação — conhecem seus eleitores e sabem que eles não aceitarão passivamente tamanho atentado ao mais importante dos direitos humanos: o direito à vida.

O parecer dos senhores senadores ainda ressalta algo muito importante:

"A legislação que regula a matéria foi outorgada pelo Presidente da República em um período de fechamento do Congresso Nacional, pela via do Decreto-Lei, sob a égide de uma Constituição também outorgada. A partir dessa constatação, poder-se-ia suscitar a possibilidade de questionamento sobre a legitimidade de esta Advocacia do Senado defender os seus termos, ainda nos dias atuais.

Observa-se, no entanto, e para além de qualquer dúvida razoável, que os parlamentares desejosos de promover mudanças na legislação sobre o tema jamais contaram com força persuasiva suficiente para convencer em número suficiente os seus pares. Portanto, as disposições do Código Penal relativas ao ponto em discussão ainda vigem, passados mais de setenta e cinco anos de sua edição, não por mera omissão ou distração, mas pela vontade da maioria do Congresso Nacional." (grifos nossos).

Eis aí. Não existe nenhuma omissão ou negligência do Congresso Nacional com relação às disposições do Código Penal referentes ao crime de aborto. O que há, sim, é um compromisso da população brasileira com a vida, que se reflete na vontade da maioria dos congressistas. O Supremo Tribunal Federal, portanto, não tem justificativa nenhuma para legislar a favor de uma minoria que, atenção, não está comprometida com a verdade e a soberania nacional, mas com uma agenda política internacional e antinatalista.

Um esclarecimento necessário

Um esclarecimento é necessário, porém. Ainda que essa pesquisa trouxesse um resultado diferente e, para espanto geral, revelasse que o povo brasileiro, depois de tantas "campanhas de conscientização", é agora favorável ao aborto, o aborto continuaria a ser crime contra a vida, contra um indefeso ser humano dentro do útero de sua mãe. Isso porque o início da vida humana, ao contrário do que postula o ministro Luiz Barroso, não é "uma escolha religiosa ou filosófica", mas uma verdade evidente. E não é preciso ser cristão para reconhecer isso. Não é preciso provar o que é evidente. Um ser que possui DNA humano não pode ser outra coisa senão um ser humano; ou seja, "é já um homem aquele que o será" [2].

Na vigília pela vida nascente, em 2010, o papa emérito Bento XVI já denunciava certas "tendências culturais que buscam anestesiar as consciências com motivações espúrias", motivações que muitas vezes se camuflam de falsos direitos e necessidades. Contra isso, o papa lembrava que todo ser humano "é um sujeito capaz de entender e desejar, autoconsciente e livre, irrepetível e insubstituível, vértice de todas as realidades terrenas, que exige ser reconhecido como valor em si mesmo e merece ser acolhido sempre com respeito e amor". Não importa se ele já está na chamada "melhor idade" ou ainda está no terceiro mês de gestação. "Com relação ao embrião no ventre materno", explicava o Santo Padre, "a própria ciência coloca em evidência a autonomia capaz de interação com a mãe, a coordenação dos processos biológicos, a continuidade do desenvolvimento, a crescente complexidade do organismo". De fato, o embrião não é "[...] um acúmulo de material biológico, mas [...] um novo ser vivente, dinâmico e maravilhosamente ordenado, um novo indivíduo da espécie humana". E isso não é questão de opinião pública.

O povo brasileiro sabe que se trata disso, sabe que se trata de algo não opinável, mas de uma questão que merece nossa defesa intransigente. Isso explica por que após tantos ataques dissimulados e vergonhosos à sua constituição, o Brasil continua resoluto na sua posição pró-vida. E assim deverá permanecer para horror daqueles que advogam o contrário. No pasarán!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Ford Foudation, Saúde Reprodutiva: uma estratégia para os anos 90.
  2. Tertuliano, Apologeticum, IX, 8.

| Categoria: Santos & Mártires

O natal de Santo Estêvão

Saiba que relação guardam entre si o Natal de Jesus e o natal de Estêvão para a vida eterna, que acontece com o seu martírio.

Todos os anos a Igreja celebra, no dia 26 de dezembro, a festa de Santo Estêvão, protomártir. Mas o que significa fazer memória desse diácono justamente um dia depois que nasce o Senhor? Que relação guardam entre si o Natal de Jesus e o natal de Estêvão para a vida eterna?

É o que responde São Fulgêncio de Ruspe, bispo do século VI, no sermão do Ofício das Leituras de hoje. Sem a caridade sobrenatural com que Cristo veio inflamar os corações, seria de fato impossível que um ser humano, qualquer um, entregasse a sua vida por Ele, como fez Santo Estêvão, preferindo morrer apedrejado a renegar a sua fé. Sem o auxílio da graça, como rezam os sacerdotes na divina liturgia, "ninguém é forte, ninguém é santo". Aprendemos da memória de hoje, portanto, a ter sempre diante dos olhos o primado da graça divina, que nos vem através da santíssima humanidade do Verbo encarnado.


Não deixe de assistir também à homilia do Padre Paulo Ricardo para a memória de Santo Estêvão deste ano de 2016, durante a qual ele faz um comentário a esta bela meditação contida na Liturgia das Horas.


Muito bonita também é a associação que faz São Fulgêncio entre o testemunho de Estêvão e a conversão de Saulo. "Aonde Estêvão chegou primeiro, martirizado pelas pedras de Paulo", ele diz, "chegou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estevão". Trata-se da fé católica na comunhão dos santos, no fato de que Cristo, sendo "único mediador entre Deus e os homens" (1Tm 2, 5), não dispensa a mediação coadjuvante daqueles que santificou.

Dos sermões de São Fulgêncio de Ruspe, bispo
(Sermo 3,1-3.5-6:CCL 91 A, 905-909)

As armas da caridade

Ontem, celebrávamos o nascimento temporal de nosso Rei eterno; hoje celebramos o martírio triunfal do seu soldado.

Ontem o nosso Rei, revestido de nossa carne e saindo da morada de um seio virginal, dignou-se visitar o mundo; hoje o soldado, deixando a tenda de seu corpo, parte vitorioso para o céu.

O nosso Rei, o Altíssimo, veio por nós na humildade, mas não pôde vir de mãos vazias. Trouxe para seus soldados um grande dom, que não apenas os enriqueceu imensamente, mas deu-lhes uma força invencível no combate: trouxe o dom da caridade que leva os homens à comunhão com Deus.

Ao repartir tão liberalmente o que trouxera, nem por isso ficou mais pobre: enriquecendo do modo admirável a pobreza dos seus fiéis, ele conservou a plenitude dos seus tesouros inesgotáveis.
Assim, a caridade que fez Cristo descer do céu à terra, elevou Estevão da terra ao céu. A caridade de que o Rei dera o exemplo logo refulgiu no soldado.

Estêvão, para alcançar a coroa que seu nome significa, tinha por arma a caridade e com ela vencia em toda parte. Por amor a Deus não recuou perante a hostilidade dos judeus, por amor ao próximo intercedeu por aqueles que o apedrejavam. Por esta caridade, repreendia os que estavam no erro para que se emendassem, por caridade orava pelos que o apedrejavam para que não fossem punidos.

Fortificado pela caridade, venceu Saulo, enfurecido e cruel, e mereceu ter como companheiro no céu aquele que tivera como perseguidor na terra. Sua santa e incansável caridade queria conquistar pela oração, a quem não pudera converter pelas admoestações.

E agora Paulo se alegra com Estêvão, com Estêvão frui da glória de Cristo, com Estêvão exulta, com Estêvão reina. Aonde Estêvão chegou primeiro, martirizado pelas pedras de Paulo, chegou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estevão.

É esta a verdadeira vida, meus irmãos, em que Paulo não se envergonha mais da morte de Estêvão, mas Estevão se alegra pela companhia de Paulo, porque em ambos triunfa a caridade. Em Estêvão, a caridade venceu a crueldade dos perseguidores, em Paulo, cobriu uma multidão de pecados; em ambos, a caridade mereceu a posse do reino dos céus.

A caridade é a fonte e origem de todos os bens, é a mais poderosa defesa, o caminho que conduz ao céu. Quem caminha na caridade não pode errar nem temer. Ela dirige, protege, leva a bom termo.

Portanto, meus irmãos, já que o Cristo nos deu a escada da caridade pela qual todo cristão pode subir ao céu, conservai fielmente a caridade verdadeira, exercitai-a uns para com os outros e, subindo por ela, progredi sempre mais no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Padre Paulo Ricardo

Mensagem para o Natal de 2016

Mais uma vez nos é dado celebrar o Natal, o dom de Deus que se fez homem e nasceu da Virgem Maria.

"Se conhecesses o dom de Deus…" (Jo 4, 9). É com essas palavras cheias de ternura que Jesus, dirigindo-se àquela samaritana pecadora, manifesta a todos e a cada um de nós o seu desejo ardentíssimo de que O conheçamos e amemos de todo coração. Ora, esse desejo do Senhor encontra sua plena realização no Coração Imaculado da Virgem Maria, que, mais do que qualquer outra criatura, conhece e ama entranhadamente o dom que o Pai celestial entrega hoje, envolto em panos numa pobre manjedoura, a Ela, sempre unida ao Filho, e à família humana, dispersa pelo pecado.

O Natal deste ano de 2016, com efeito, se reveste de especial alegria devido ao Ano Mariano que vimos celebrando desde meados de outubro, em comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A Igreja nos concede, assim, a oportunidade de vivermos com mais intensidade e consciência essa presença efetiva de Maria Santíssima, que, gloriosa, reina em corpo e alma ao lado dAquele que a quis por Mãe sua, segundo a carne, e Mãe nossa, segundo a graça [1].

Por isso, a exemplo de São João, o discípulo amado que a acolheu em sua casa (cf. Jo 19, 27), recebamos a Maria em nossa vida e intimidade, aprendamos dela a amar Jesus e a honremos com piedade filial, com um culto de amor sincero e humilde gratidão, de invocação confiante e perseverante imitação, de escravidão voluntária e cotidiana devoção. Ao longo deste próximo ano, façamos da Ave-Maria e da Salve Rainha, do Angelus e do Rosário, das ladainhas e da Medalha Milagrosa nossas principais armas na luta contra o pecado e o egoísmo que parasita nossa alma.

Aprendamos também a refugiar-nos em Maria nos momentos de dor e sofrimento, pois Ela, a Estrela do Mar que nos ilumina e indicia o Caminho (cf. Jo 14, 6), não pensando e querendo senão o que Deus mesmo pensa e quer, ama todas as coisas e não odeia nada do que por Ele foi feito (cf. Sb 11, 24).

O Natal é festa de luz, e essa luz, que é o Cristo que nasce, é também a luz da que brilha no Coração maternalmente misericordioso de Maria [2], a quem devemos acudir e recorrer com tanto mais pressa e confiança quanto mais espessas forem as trevas ao nosso redor. Que a luz da fé, durante todo este Ano Mariano, nos ilumine e aqueça nosso coração, para que, pela intercessão da bem-aventurada e sempre virgem Maria, Nossa Mãe e Senhora, nos saibamos sempre amparados por Aquele que, descendo hoje dos Céus, não abandonará jamais os que adotou (cf. Mt 28, 20) [3].

Um feliz e santo Natal do Senhor!

São os votos do Padre Paulo Ricardo e de toda a equipe Christo Nihil Praeponere.

Referências

  1. Cf. Gabriel M. Roschini, La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, p. 541.
  2. Cf. Id., p. 407.
  3. Cf. Leão Magno, De Resurrectione Domini II, c. 3 (PL 54, 392A).

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O mundo inteiro espera a resposta de Maria

O Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

O mistério da natividade do Senhor, que estamos prestes a celebrar, está indissociavelmente ligado à maternidade divina de Maria, como Padre Paulo Ricardo explicou na homilia do último domingo.

Os santos da Igreja bem o sabiam e, por isso, sempre que se dirigiam a Deus em agradecimento pela Encarnação do Verbo, cantavam ação de graças igualmente pelas maravilhas que o Todo-Poderoso operou em Maria. Foi por meio de seu "sim", afinal, que Ele escolheu vir ao mundo e salvar o gênero humano; o Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

Às vésperas do Natal, nada mais útil para nossa vida interior que meditar sobre essas verdades da nossa fé. A seguir, deixamos a você uma preciosa reflexão, da boca de São Bernardo de Claraval, em que ele descreve com belos detalhes a espera do mundo inteiro pela resposta de Maria, durante o episódio da Anunciação. Para um estudo teológico mais profundo a esse respeito, recomendamos a todos os nossos alunos e internautas que consultem a questão 30 da terceira parte da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, que é também de grande riqueza.

Essa meditação de São Bernardo faz parte do Ofício das Leituras de ontem, dia 20 de dezembro.

Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, de São Bernardo, abade
(Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4, [1966], 53-54)

O mundo inteiro espera a resposta de Maria

Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem — tu ouviste — mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia.

Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.

Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.

E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça.

Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar tua piedade pela palavra.

Abre, ó Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! se tardas e ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere