| Categoria: Padre Paulo Ricardo

“Essa é a finalidade de tudo”

​Hoje, dia do 24.º aniversário sacerdotal do Padre Paulo Ricardo, o desejo de toda a nossa família é que ele seja santo e nos arraste consigo para o Céu.

Reverendíssimo Padre Paulo Ricardo,

Nas últimas semanas acompanhamos com entusiasmo as aulas que o senhor deu sobre as aparições e a mensagem de Nossa Senhora de Fátima. Em uma delas, foi sublinhada uma frase que poderia passar despercebida a quem folheasse desatentamente as Memórias da Irmã Lúcia, mas que condensa, na verdade, a essência da mensagem de Fátima: as palavras do Anjo de Portugal, diz a vidente, gravaram-se no espírito dos três "como uma luz", que os fazia compreender "quem era Deus, como nos amava e queria ser amado".

"Nos amava e queria ser amado", o senhor repetiu. "Essa é a finalidade de tudo."

Hoje, nós queremos elevar a Deus o nosso coração agradecido, porque, 100 anos depois das aparições do Anjo de Portugal, a Virgem Santíssima nos enviou um mensageiro para ensinar isto que a Igreja repete desde a sua fundação pela boca de seus santos: que Deus nos ama e quer ser amado! Este, de fato, não é o centro só da mensagem de Fátima, mas de toda a boa nova da salvação. "Que maior razão houve da vinda do Senhor do que mostrar seu amor por nós?", pergunta Santo Agostinho, concluindo com uma frase que o senhor não se cansa de repetir em suas pregações: "Si amare pigebat, saltem reamare non pigeatSe nos custava amá-Lo, ao menos não nos custe retribuir-Lhe o amor" [1].

Neste dia em que o senhor faz mais um aniversário de ordenação sacerdotal, queremos agradecer-lhe por estar sempre apontando o essencial de nossa fé e por tornar acessível a todos nós, seus alunos e filhos espirituais, o tesouro de dois mil anos de Igreja.

Muito obrigado, padre, especialmente pelos últimos cursos que o senhor tem gravado, ensinando-nos a oração por meio da grande mestra da vida espiritual que é Santa Teresa de Ávila, e a , através do grande mestre da teologia católica que é Santo Tomás de Aquino, bem como pelas centenas de Homilias Diárias e Testemunhos de Fé, que nos colocam em contato diário com a humanidade santíssima do Verbo encarnado.

Além da gratidão, o desejo de toda a equipe e família Christo Nihil Praeponere é que o senhor seja santo e nos arraste consigo para o Céu.

Referências

  1. De Catechizandis Rudibus, IV, 7 (PL 40, 314).

| Categoria: Santos & Mártires

O dia em que um feiticeiro apanhou de São Damião

Quando chegou ao Havaí, o padre Damião teve muitas dificuldades para acabar com as bruxarias e superstições daquele povo. Até o dia em que ele ficou face a face com um feiticeiro.

Hoje, a Igreja celebra a memória de São Damião de Veuster († 1889), o padre belga da Congregação dos Sagrados Corações, que saiu da Europa para evangelizar o arquipélago do Havaí. Esse sacerdote ficou conhecido por escolher passar o resto de seus dias na ilha de Molokai, uma porção de terra escolhida para isolar pessoas que tivessem contraído a doença da lepra. Ao partir para Molokai, Damião assinava, na verdade, a sua sentença de morte. Ele sabia que, uma vez na ilha dos leprosos, jamais tornaria a sair de lá. Mesmo assim, por amor às almas que aí estavam, passando no extremo sofrimento os seus derradeiros dias, ele foi.

A história a seguir, extraída de sua famosa biografia escrita por John Farrow, aconteceu antes mesmo que Damião partisse para Molokai, mas ilustra o fervor que já movia esse grande homem de Deus ainda enquanto jovem sacerdote.

As vicissitudes da natureza não eram o único obstáculo que o sacerdote tinha de enfrentar. Havia outros, menos evidentes, mas mais poderosos, e sem dúvida mais difíceis de vencer: continuavam a praticar-se na ilha os ritos pagãos e muitos dos fiéis de Damião se encontravam ainda sob a influência nefasta dos curandeiros nativos, que procuravam manter a sua identidade em segredo. Nos tempos antigos, esses feiticeiros, chamados kahunas, tinham constituído uma casta muito respeitada e temida, situada logo abaixo dos reis, a quem não se subordinavam.

Com efeito, apenas cerca de cinqüenta anos antes da chegada de Damião, o poder dos feiticeiros chegara a tal ponto que as ilhas estavam dominadas por uma infinidade de tabus [1], que seriam ridículos se não tivessem resultados trágicos. Um kahuna podia decidir da vida e morte de um homem e, como era crença geral que estava em constante comunicação com a sua divindade favorita, podia decretar um tabu por qualquer motivo. A única escapatória possível para quem transgredisse uma proibição dessas era fugir para uma cidade-refúgio, pois, tal como os antigos israelitas, também os havaianos possuíam redutos murados e cercados de templos, dentro de cujos limites podia abrigar-se qualquer pessoa, independentemente do crime que tivesse cometido.

Depois da morte de Kamehameha I [2], os reis passaram a opor-se ao poder dos kahunas e a casta dos feiticeiros entrou em decadência. Só nas regiões mais afastadas é que ainda aparecia ocasionalmente algum desses feiticeiros, formando ao seu redor um grupo de adeptos que praticava em segredo determinados ritos sinistros.

A certa altura, Damião percebeu indícios de que existia no seu distrito um desses grupos: chegaram-lhe rumores vagos acerca de feitiços, medos e exóticas e obscenas danças rituais, e à cabeceira dos moribundos começaram a aparecer amuletos e simpatias, sinais evidentes do trabalho de algum curandeiro. Embora se tivesse lançado numa vigorosa campanha, pregando contra a superstição e procurando descobrir a identidade dos sectários e os seus locais de reunião, não obteve resultado algum. Mesmo os seus paroquianos mais fiéis e dedicados assumiam um ar taciturno diante das suas perguntas, como se temessem alguma vingança sobrenatural, e o missionário teve de reconhecer, com grande tristeza, que o mal parecia estender-se, ao invés de diminuir. Rostos que antes se abriam num sorriso amistoso agora viravam-se de lado quando passava; muitos já não lhe respondiam aos cumprimentos; o número de assistentes à missa começou a decrescer e até nos funerais, quando encomendava o corpo, surpreendia às vezes uns olhares furtivos entre os presentes, como se se tivessem invocado outros poderes.

Certa noite, sentado à porta da sua casa para desfrutar da paz do entardecer, observava tranqüilamente o céu estrelado quando ouviu à distância uns tambores que soavam com uma nota estranha: não era o habitual toque festivo, mas um tantã rápido e inquietante, que se interrompeu abruptamente. O agudo silêncio que se seguiu foi cortado por um grito lancinante e inumano, e novamente o silêncio. Damião pôs-se de pé num salto e olhou alarmado na direção de onde viera o barulho, mas já vivera nas ilhas tempo suficiente para saber que era melhor não tentar nada durante a noite.

Na manhã seguinte, explorou meticulosamente os arredores e efetivamente encontrou, escondido numa moita de xaxins, um ídolo de pedra toscamente esculpido. Examinou-o com cuidado, à luz esverdeada que se filtrava através das frondes: as feições eram grosseiras e a figura obesa e atarracada; tinha cerca de um metro e vinte de altura e estava colocado sobre uma laje achatada, evidentemente um altar, salpicada de manchas escuras e pegajosas de sangue coagulado, sinais claros de um recente sacrifício sangrento. Tomado de horror, Damião aplicou os ombros contra a imagem e derrubou-a sobre o altar, que se despedaçou. A seguir, cortou dois galhos de uma árvore próxima e amarrou-os com um cipó, formando uma cruz tosca que cravou triunfalmente no mesmo lugar onde se erguera o ídolo. E, para que ninguém tivesse dúvidas sobre o autor do feito, deixou o seu chapéu de clérigo ao lado, bem à vista.

Para conhecer melhor a vida do Pe. Damião, assista no YouTube ao filme Molokai, de 1999. O áudio é em inglês, mas o vídeo tem legendas em espanhol:


O dia seguinte era um domingo, e na homilia o sacerdote não mediu as palavras para denunciar os praticantes da idolatria. Era um desafio, e a reação não se fez esperar: na manhã seguinte, encontrou atado à sua porte um amuleto feito de uma concha retorcida de cinzas mal-cheirosas. Sabendo muito bem que o vilarejo inteiro estava pendente das suas menores ações, tomou a peça e, alardeando desprezo, amarrou-a ao rabo de um grande porco. Sem dar importância ao abracadabra que arrastava, o suíno fuçou e chafurdou por toda a aldeia naquele dia, à ruidosa maneira dos da sua espécie, mas durante a noite foi morto e deixado à porta de Damião, com a garganta aberta por um profundo corte serrilhado.

O missionário procurou levar o incidente para a brincadeira, mandando dizer que, apesar de o açougueiro não lhe ter parecido dos mais competentes, agradecia muito o presente anônimo da carne fresca. Mas os habitantes da aldeia não compartilhavam da sua tranqüilidade: ninguém ousou aproximar-se da carcaça e até o nativo que o ajudava nas tarefas da casa desapareceu quando Damião foi chamá-lo para esfolar o porco.

Tarde da noite, enquanto se remexia na cama, inquieto com o novo problema que minava e até ameaçava destruir todo o seu trabalho, o ruído distante dos tambores veio novamente interromper o fio dos seus pensamentos. Aguçou os ouvidos e percebeu um segundo som, como de alguém que arranhasse a sua janela. Do lado de fora estava uma mulher, uma criatura tímida e amedrontada, que conhecera tempos atrás por haver-lhe tratado o filho doente. Com a voz quase irreconhecível de pressa e de medo, ela sussurrou-lhe umas poucas palavras e depois, como que assustada com a sua própria ousadia, desapareceu de novo nas sombras antes de o sacerdote ter podido fazer-lhe qualquer pergunta. Mas tinha dito o bastante: numa caverna mortuária não longe dali, acabara de começar uma cerimônia de invocação dos espíritos malignos contra a vida do padre.

Damião vestiu-se e em poucos instantes estava a caminho do local, situado na base de um penhasco encravado no monte. Essa caminhada de cerca de uma hora pela mata fechada e no meio da mais absoluta solidão deve ter posto à prova os seus nervos indomáveis, mas em momento algum hesitou.

Ouvia-se o ritmo abafado dos tambores. A boca da caverna estava iluminada por um pálido clarão vermelho, que bruxuleava sobre as rochas vizinhas. Saindo das sombras da floresta, Damião aproximou-se da penha e, nesse momento, sobrepondo-se ao ruído dos tambores, ressoou um longo estertor agudo, como se algum animal estivesse sendo torturado. Os participantes da cerimônia deviam sentir-se seguros, pois não se viam sentinelas, e o sacerdote pôde chegar sem problemas à entrada da caverna e contemplar o espetáculo por detrás do enorme pedregulho.

No centro do recinto, fincadas no chão, erguiam-se quatro tochas altas e fumarentas. A sua luz vacilante permitia entrever um semicírculo formado por uns trinta homens de diversas idades, agachados ombro a ombro, o olhar voltado para as sombras do fundo da caverna, onde uma figura fantasmagórica, curvada como uma hiena, estava ocupada num trabalho que Damião a princípio não conseguiu distinguir. Em voz baixa, a criatura cantarolava monotonamente uma invocação. Por todos os lados, sobre pilhas de mortalha, viam-se restos humanos, ossos estranhamente brancos naquela obscuridade, espalhados numa confusão inextricável de caveiras, pernas e mãos desmembrados. O ar estava quase irrespirável e fedia a morte. À luz das tochas, as paredes negras brilhavam como carvões umedecidos.

A ladainha cresceu de tom e Damião, cujos olhos mais e mais se acostumavam à luz mortiça, reconheceu o feiticeiro, um certo Mauae, que gozava em toda aquela região da reputação de sábio e adivinho. Mirrado e de pele negra, sem nenhum dente e incrivelmente velho, não era uma figura grata de se ver, e muito menos naquelas circunstâncias. A certa altura, levantou-se e mostrou o corpo inerme de um cachorro cuja garganta tinha cortado. Segurando-lhe a cabeça em ângulo reto, deixou o sangue do animal escorrer para uma grande gamela e, depois de enchê-la, abandonou o cadáver e concentrou-se sobre a sua repugnante poção, balançando o corpo para frente e para trás ao som de uma cantilena, como se tentasse entrar em transe. Subitamente, a invocação cessou e o feiticeiro ergueu a mão, em sinal aos tamborileiros para que parassem.

O profundo silêncio que se seguiu, quebrado apenas pela respiração ofegante do mago, parecia quase sobrenatural e estava carregado de expectativa. A um segundo sinal, apagaram-se três das tochas e os olhos de todos, esgazeados de terror, fixaram-se obsessivamente na sombria figura do feiticeiro, que agora estendia a mão para além da carcaça degolada do cachorro e extraía da escuridão outro objeto, um tosco boneco de madeira cujo rosto fora pintado de branco e que vestia algo de parecido com uma batina preta. Em volta do seu pescoço pendia uma pequena cruz de madeira, e em torno da cintura trazia um terço cuja falta Damião sentira havia algum tempo. Sem sombra de dúvida, o boneco pretendia ser uma efígie do sacerdote, e o feiticeiro fez-lhe umas caretas enquanto se voltava para a sua sangrenta gamela.

Damião entrou em ação. Sem uma única palavra, lançou-se no meio dos assistentes, e estes, atordoados pelo súbito aparecimento, ficaram momentaneamente paralisados. Mas logo um urro uníssono se ergueu de todas as gargantas e o grupo tentou avançar sobre ele. Enraivecido, o missionário fez sem querer a coisa mais conveniente de todas: arrancou o boneco das mãos de Mauae e, com um safanão, lançou o feiticeiro para longe, fazendo-o derrubar a gamela, cujo conteúdo se espalhou numa grande mancha escura. Ao verem o sangue derramado, os nativos detiveram-se imediatamente e caíram num silêncio pasmo, enquanto presenciavam um espetáculo que não esperavam: o sacerdote fazia em pedaços a efígie. Nos seus rostos, o ódio deu lugar ao medo e depois à perplexidade. Esperavam que uma terrível catástrofe se abatasse sobre o homem branco que se atrevia a destruir o boneco mágico, mas nada de grave aconteceu; em vez dos trovões dos espíritos irados, só se ouvia uma torrente de imprecações vindas da figura agachada do feiticeiro, que, tendo-se esgueirado para a escuridão do fundo, morria visivelmente de medo do padre.

Damião perscrutou os rostos escuros que o cercavam, lendo-lhes os pensamentos. Os pais desses homens haviam praticado os mais horrendos sacrifícios humanos sob as ordens dos seus kahunas, e nas suas aldeias ainda viviam anciãos que se vangloriavam de ter visto a carne do capitão Cook [3] queimada sobre os altares; se aqueles nativos continuassem a ter a menor ponta de fé no autor do estúpido ritual a que acabavam de assistir, era muito provável que dessem a Damião o mesmo fim que tivera o descobridor. Mauae tinha de ser completamente desacreditado.

Com um movimento de braços repentino e violento, que fez os kanakas recuarem alarmados, o sacerdote dispersou pelo chão com desprezo os restos do boneco. "Por acaso vocês são crianças, para terem medo de um boneco e do sangue de um cachorro?", perguntou-lhes com desdém. A seguir, calcando a cabeça do fetiche na lama, demonstrou-lhes de maneira irrefutável que nenhum mal lhe podia advir dos maus espíritos, por mais que os insultasse. Os rostos tensos assumiram um ar de dúvida e a seguir de vergonha, e ninguém tentou detê-lo quando se encaminhou para a saída, depois de lhes dizer que aquele lugar infecto não era próprio de homens de bem e que deviam retornar para as suas esposas e filhos. A passos largos, o sacerdote regressou a casa, feliz com a vitória alcançada.

Depois desse incidente, quase ninguém ousou opor-se à sua pessoa. Em breve, toda a paróquia fervilhava de atividade.

Extraído de: FARROW, John. Damião, o leproso (trad. de Antonio F. Amado). São Paulo: Quadrante, 1995, pp. 68-74.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas

  1. Atualmente, a palavra tabu significa simplesmente "algo que é proibido", mas a sua origem está ligada a proibições religiosas que acarretavam maldições para as pessoas que as descumprissem, como se pode depreender do próprio texto.
  2. Kamehameha I foi o primeiro monarca a governar o Reino do Havaí. Curiosamente, foi o seu nome que deu origem ao famoso golpe dos personagens do desenho Dragon Ball.
  3. O capitão James Cook foi o primeiro explorador e cartógrafo europeu a entrar em contato com o arquipélago do Havaí, em 1776. O navegador morreu três anos depois, vítima dos nativos havaianos.

| Categoria: Doutrina

O tributo de um sacerdote a seu pai falecido

Neste mês, os Estados Unidos deram adeus a Antonin Scalia, pai de família católico e juiz da Suprema Corte norte-americana. A Missa de Exéquias do magistrado foi celebrada por ninguém menos que seu filho, o padre Paul Scalia.

Os Estados Unidos perderam, no último dia 13 de fevereiro, um de seus juízes e servidores mais leais e importantes. Antonin Scalia era membro da Suprema Corte desde 1986, quando foi nomeado pelo então Presidente Ronald Reagan. Conhecido por suas posições conservadoras, também era um homem de profunda fé católica — pai de 9 filhos e avô de mais de 30 netos.

A Missa de Exéquias por sua alma foi celebrada no último dia 20, no Santuário Nacional da Imaculada Conceição, na capital Washington, e foi presidida por ninguém menos que seu filho sacerdote, o padre Paul Scalia. Durante a belíssima homilia que proferiu, ele não só recordou fatos ligados à vida de seu pai, como fez um verdadeiro compêndio da fé católica na vida eterna. Vale a pena assistir na íntegra à sua emocionante pregação (e também rezar pelo descanso eterno de Antonin Scalia):

Eminentíssimo Cardeal Wuerl,

Excelentíssimos Dom Viganò, Dom Loverde, Dom Higgins,

Meus irmãos no sacerdócio, diáconos, distintos convidados, queridos amigos e fiéis aqui reunidos,

Em nome de minha mãe e de toda a família Scalia, quero agradecer pela presença de todos aqui, pelas palavras de consolo e, mais ainda, pelas muitas orações e missas oferecidas pela morte de nosso pai, Antonin Scalia.

Agradeço em particular ao Cardeal Wuerl, primeiro por ter vindo tão rápida e amavelmente para consolar nossa mãe. Foi um consolo para ela e, portanto, também para nós. Agradeço também por permitir-nos celebrar essa Missa "paroquial" de Exéquias aqui nesta basílica dedicada a Nossa Senhora. Que grande privilégio e consolação para nós fazer o nosso pai atravessar essa Porta Santa e ganhar para ele a indulgência prometida aos que por elas entram com fé.

Agradeço a presença de Dom Loverde, bispo de nossa diocese em Arlington, um pastor pelo qual nosso pai nutria grande respeito e consideração. Obrigado pela visita imediata a nossa mãe, por suas palavras de consolo e por suas orações.

A família sairá para o enterro privado imediatamente após a Missa e não terá tempo para receber visitas. Por isso, quero expressar os nossos agradecimentos agora. A todos manifestamos o nosso mais profundo obrigado. Vocês verão no programa a menção de um memorial que acontecerá em 1.º de março. Esperamos por vocês nessa ocasião e rezamos para que o Senhor os recompense pela grande bondade que demonstraram para conosco.

Estamos reunidos aqui por causa de um homem. Um homem que muitos de nós conhecemos pessoalmente, e que outros tantos conheceram pelo menos por reputação; um homem amado por muitos, desprezado por outros; um homem conhecido por grande controvérsia, e por grande compaixão. Este homem, é claro, é Jesus de Nazaré.

É Ele quem nós proclamamos: Jesus Cristo, Filho do Pai, nascido da Virgem Maria, crucificado, sepultado, ressuscitado, sentado à direita do Pai. É por causa d'Ele, por Sua vida, morte e ressurreição, que nosso luto não é como o daqueles sem esperança, mas, confiantes, nós encomendamos Antonin Scalia à misericórdia de Deus.

Dizem as Escrituras que "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre". E isso define um bom caminho para as nossas meditações e orações aqui hoje. Olhamos, com efeito, em três direções: para o ontem, em ação de graças; para o hoje, em petição; e para a eternidade, com esperança.

Olhamos para Jesus Cristo ontem — isto é, para o passado — em ação de graças pelas bênçãos de que cumulou o nosso pai. Na última semana, muitos contaram coisas que o nosso pai fez por elas, mas aqui hoje, nós contamos o que Deus fez pelo nosso pai, como Ele o abençoou. Damos graças, antes de tudo, pela morte redentora e pela ressurreição vivificante de Jesus Cristo. Nosso Senhor morreu e ressuscitou não apenas por todos nós, mas também por cada um de nós. E nesse momento nós olhamos para o ontem de Sua morte e Sua ressurreição, e damos graças porque Ele morreu e ressuscitou pelo nosso pai. Nós também damos graças porque Jesus lhe deu vida nova pelo Batismo, o alimentou com a Eucaristia e o curou por meio da Confissão. Damos graças porque Jesus o abençoou com 55 anos de matrimônio com a mulher que ele amava — uma mulher capaz de segui-lo em cada passo e até mesmo mantê-lo responsável.

Deus abençoou o nosso pai com uma profunda fé católica — a convicção de que a presença e o poder de Cristo continuam no mundo hoje através do Seu Corpo, a Igreja. Ele amou a clareza e a coerência da doutrina da Igreja, teve em grande consideração as suas cerimônias, e especialmente a beleza de sua antiga liturgia. Acreditou no poder dos Sacramentos como meios de salvação — como Cristo que operava nele para a sua própria salvação.

Contudo, certa vez, numa tarde de sábado, ele me repreendeu por ouvir confissões durante a tarde daquele mesmo dia. E eu espero que seja alguma fonte de consolação (se houver algum advogado presente) o fato de que nem o colarinho romano podia poupar alguém de suas críticas. O problema, naquela noite, não era eu estar ouvindo confissões, mas ele ter entrado justamente na fila do meu confessionário. E ele rapidamente saiu dela. Ele disse depois: "De jeito nenhum eu me confessar com você!" O sentimento era mútuo.

Deus abençoou o nosso pai, como se sabe, com um amor pelo seu país. Ele conhecia bem as dificuldades com que foi fundada a nossa nação. E viu nessa fundação, assim como os seus próprios fundadores a viram, uma bênção. Uma bênção que rapidamente se perde quando a fé é banida da esfera pública, ou quando nos recusamos a levá-la a público. Ele entendeu que não há nenhum conflito entre o amor a Deus e o amor à própria pátria, entre a fé de alguém e o seu serviço público. Nosso pai entendeu que, quanto mais se aprofundava em sua fé católica, melhor cidadão e servidor público ele se tornava. Deus o abençoou com um desejo de ser um bom servidor da pátria, porque primeiro ele o era de Deus.

Entretanto, nós da família Scalia damos graças a Deus por uma bênção particular que Ele lhe concedeu. Deus abençou o nosso pai com um amor por sua família. Nós ficamos muito felizes em ler e ouvir as várias palavras de louvor e admiração por ele, por seu intelecto, por seus escritos, por seus discursos, por sua influência etc. Mas o mais importante para nós — e para ele — é que ele foi pai. Ele foi o pai que Deus nos deu para a grande aventura que é a vida em família. É claro que às vezes ele esqueceu ou misturou os nossos nomes; mas nós, seus filhos, somos em nove. Ele nos amou, e procurou mostrar esse amor, e procurou compartilhar o dom da fé que ele estimava. E ele nos deu um ao outro, para que tivéssemos apoio mútuo. Essa é a maior riqueza que os pais podem acumular e, neste momento, nós somos particularmente gratos por isso.

Antonin Scalia, a mulher e os nove filhos, em foto de 1986 (Bob Daugherty/Associated Press)

Nós olhamos, então, para o passado, para Jesus Cristo ontem, e fazemos memória de todas essas bênçãos, honrando e glorificando Nosso Senhor, porque é tudo obra d'Ele.

Olhamos para Jesus hoje, em petição — para o momento presente, aqui e agora, em que estamos de luto por este que amamos e admiramos, e cuja falta sentimos. Hoje nós rezamos por ele. Rezamos pelo descanso da sua alma. Damos graças a Deus por sua bondade para com nosso pai, como é digno e justo. Mas também sabemos que, mesmo crendo, a sua fé foi muito imperfeita, como é também a nossa. Ele tentou amar a Deus no próximo, mas, assim como nós, fê-lo de modo muito imperfeito. Ele era um católico praticante — praticante no sentido de que ainda não tinha chegado à perfeição. Ou, melhor dizendo, Cristo ainda não o tinha levado à perfeição. E só aqueles que Cristo leva à perfeição podem entrar no Céu. Estamos aqui, portanto, para oferecer as nossas orações por esse aperfeiçoamento, por essa obra final da graça de Deus, de libertar o nosso pai de toda carga de pecado.

Mas não precisam levar em conta a minha palavra. O nosso próprio pai — não surpreendentemente — tinha algo a dizer sobre o assunto. Escrevendo anos atrás a um ministro presbiteriano com cujo funeral ele ficou admirado, ele resumiu com uma certa gentileza as armadilhas dos funerais (e por que ele não gostava dos elogios fúnebres). Ele escrevia que "mesmo quando o falecido foi uma pessoa admirável — na verdade, especialmente quando o falecido foi uma pessoa admirável — louvar as suas virtudes pode nos levar a esquecer que nós estamos rezando e agradecendo a Deus por Sua inexplicável misericórdia com um pecador." Mesmo agora, ele não teria se poupado disso. Estamos aqui, pois, como ele gostaria, para implorar a inexplicável misericórdia de Deus para com um pecador — este pecador, Antonin Scalia. Não mostremos um falso amor para com ele, nem deixemos que a nossa admiração o prive de nossas preces. Continuaremos a demonstrar a nossa afeição e fazer bem a ele se rezarmos por ele: para que toda mancha do pecado seja lavada, para que todas as feridas sejam curadas, para que ele seja purificado de tudo o que não seja Cristo. Para que ele descanse em paz.

Por fim, olhamos para Jesus sempre, para a eternidade. Ou, melhor, consideramos o nosso próprio lugar na eternidade, e se ela será com o Senhor. Mesmo quando rezamos por nosso pai, para que entre depressa na eterna glória, devemos lembrar de nós mesmos. Todo funeral nos lembra quão tênue é o véu que separa este e o outro mundo, o tempo e a eternidade, a oportunidade de conversão e o momento do juízo. Por isso, não podemos sair os mesmos daqui. Não tem sentido algum celebrar a bondade e a misericórdia de Deus para com o nosso pai se não estamos atentos e não respondemos a essas realidades em nossas próprias vidas. Devemos deixar que esse encontro com a eternidade nos mude, nos tire do pecado e nos converta para o Senhor. O dominicano inglês Pe. Bede Jarrett o disse de forma muito bela quando rezou, "Ó, poderoso Filho de Deus... enquanto preparas um lugar para nós, prepara-nos também para aquele lugar bem-aventurado, para que possamos estar contigo e com aqueles que amamos por toda a eternidade."

"Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre." Meus caros amigos, essa é também a estrutura da Missa — a melhor oração que podemos oferecer por nosso pai, porque não é nossa, mas do Senhor. A Missa lança o olhar a Jesus ontem, volta para o passado — a Última Ceia, a crucificação, a ressurreição — e faz esses mistérios e o seu poder presentes aqui, sobre esse altar. O próprio Jesus se torna presente aqui hoje, sob as espécies do pão e do vinho, a fim de que possamos unir todas as nossas orações de ação de graças, de luto e de petição com o próprio Cristo, como uma oferta ao Pai. E tudo isso, com o olhar na eternidade, que se estende até o Céu, onde esperamos gozar da perfeita união com o próprio Deus e ver novamente o nosso pai, e com ele regozijar na comunhão dos santos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Doutrina

Por que tenho que contar os meus pecados a um padre?

Muitas vezes, a recusa em buscar o sacramento da Confissão nasce de um escândalo tipicamente protestante: certas pessoas não se conformam com o fato de que Deus usa instrumentos humanos para redimir a humanidade.

Algumas das objeções que são feitas para não recorrer ao sacramento da Penitência consistem em dizer que "não é necessário contar nossos defeitos para outro pecador" ou que "basta confessar os próprios pecados diretamente para Deus".

Essa recusa em buscar a Confissão nasce de um escândalo tipicamente protestante. Certas pessoas não se conformam com o fato de que Deus usa instrumentos humanos para redimir a humanidade: usou Maria para trazer o Seu Filho ao mundo; usou os Apóstolos para transmitir Seus ensinamentos às nações; e, ainda hoje, usa as mãos dos bispos e sacerdotes – que são os sucessores dos Doze – para trazer a Sua presença e o Seu perdão aos fiéis. Impossível não recordar as passagens dos Evangelhos em que Jesus perdoava os pecados às pessoas, e os escribas, desconfiados, pensavam que Ele blasfemava. Formados na ciência das Escrituras, estes sabiam bem que só Deus podia perdoar os pecados. Ao mesmo tempo, porém, ignoravam não só a divindade de Jesus, como não aceitavam que Ele pudesse conceder o poder do perdão também aos seres humanos (cf. Mt 9, 8).

Foi justamente o que fez Nosso Senhor quando, depois da ressurreição, reunidos os Doze, disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos" ( Jo 20, 23). Com isso, Ele confirmava o poder das chaves, dado aos Apóstolos (cf. Mt 28, 16-20), deixando bem claro que "a reconciliação com a Igreja é inseparável da reconciliação com Deus" [1].

É o que diz um belo sermão, que consta num recente Ofício das Leituras, de autoria do bem-aventurado Isaac, abade do mosteiro de Stela [2]. Na Liturgia das Horas, o texto do século XI leva um título sugestivo: Cristo não quer perdoar nada sem a Igreja. O raciocínio desse escritor eclesiástico é bem simples: "Pertence somente a Deus perdoar os pecados", ele escreve. "Mas, tendo desposado o onipotente a fraqueza, o excelso, a humildade, da escrava fez uma rainha; aquela que estava atrás, a seus pés, colocou-a a seu lado".

Tratando Cristo e a Igreja sob a perspectiva da união que existe entre eles – e que São Paulo denomina como um "grande mistério" ( Ef 5, 32) –, o abade Isaac aplica a este "matrimônio" as palavras de Cristo: "O que Deus uniu o homem não separe" (Mt 19, 6), e conclui:

"Portanto, sem Cristo nada pode a Igreja perdoar; nada quer Cristo perdoar sem a Igreja. A Igreja não pode perdoar a não ser ao penitente, isto é, àquele a quem Cristo tocou. Cristo não quer ter por perdoado aquele que despreza a Igreja. (...) Não queiras, pois, tirar do corpo a cabeça, de forma que em parte alguma haja o Cristo total: nem em parte alguma, o Cristo total sem a Igreja nem a Igreja toda sem Cristo em parte alguma. Pois Cristo completo e íntegro, entende-se cabeça e corpo, por isto diz: Ninguém subiu ao céu a não ser o Filho do homem que está no céu (Jo 3, 13). É este o único homem que perdoa os pecados."

Note-se a precisão das palavras: a Igreja não pode ( nihil potest) perdoar sem Cristo; Jesus, ao contrário, sendo Deus, até pode perdoar sem a Igreja, mas não quer (nihil vult) fazer isso. Ninguém põe em discussão que Deus tem potestade para salvar como quer; nenhum católico questiona o fato de que Ele pode perdoar os pecados como bem entende. Porém, quando mandou o Seu Filho ao mundo desposando a miserável carne humana, Ele a escolheu como instrumento de redenção; quando concedeu aos Seus discípulos o "ministério da reconciliação" (2 Cor 5, 18), quis que a remissão dos pecados fosse concedida aos homens pelas mãos frágeis e humanas dos padres da Igreja.

Assim como no tempo de Cristo, nenhum homem tem poder para perdoar os pecados. Quando os sacerdotes católicos repetem, em toda Confissão: "Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo", eles agem " in persona ipsius Christi – na pessoa do próprio Cristo". Nas mãos sacerdotais que traçam sobre nós o sinal da cruz, estão as próprias mãos chagadas do Redentor, apagando os nossos pecados e ressuscitando as nossas almas.

Cristo está vivo e atuante na Sua Igreja. Não queiramos separar o que Ele uniu. Aproximemo-nos com confiança do sacramento da Confissão – atendendo ao pedido do Papa Francisco – e recebamos a alegria do perdão e a paz da consciência!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, § 1445.
  2. Cf. Sermo 11 (PL 194, 1728-1729).

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O amor do Coração de Jesus

No dia solene do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja convida todos os seus filhos a rezarem pela santificação dos sacerdotes

"É o sacerdote quem continua a obra da redenção na terra", afirmava São João Maria Vianney. Quão grande deve ser nosso maravilhamento diante de tão profundo mistério! De fato, acrescentava o Santo Cura d'Ars: "[...] Se bem se compreendesse o que o sacerdote é na terra, morrer-se-ia, não de medo, mas de amor. [...] O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus".

No dia solene do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja convida todos os seus filhos a contemplar n'Aquele que traspassaram (Jo 19, 37) o Amor de Deus, de forma particular no dom do sacerdócio, e a rezar pela santificação destes homens que, com seu sim, dão as mãos, a voz e os lábios a Cristo, Sumo Sacerdote, fazendo-nos contemplar o Coração que tanto amou os homens.

Por isso, com os olhos fitos no Sagrado Coração de Jesus, elevemos a Deus nossas orações pela santificação do clero, renovando nossa fé no Amor de Deus e no sacerdócio de Cristo em seus eleitos.

Oração pelos sacerdotes (Indulgenciada por S. Pio X em 03/03/1905)

Ó Jesus, Pontífice Eterno, Divino Sacrificador, Vós que, no Vosso incomparável amor, deixastes sair do Vosso Sagrado Coração o sacerdócio cristão, dignai-Vos derramar, nos Vossos sacerdotes, as ondas vivificantes do Amor infinito.

Vivei neles, transformai-os em Vós, tornai-os, pela Vossa graça, instrumentos de Vossas Misericórdias.

Atuai neles e por eles, e fazei que, revestidos inteiramente de Vós pela fiel imitação de Vossas adoráveis virtudes, operem, em Vosso nome e pela força de Vosso espírito, as obras que Vós mesmo realizastes para a salvação do mundo.

Divino Redentor das almas, vede como é grande a multidão dos que dormem ainda nas trevas do erro; contai o número dessas ovelhas infiéis que ladeiam os precipícios; considerai a multidão dos pobres, dos famintos, dos ignorantes e dos fracos que gemem ao abandono.

Voltai para nós por intermédio dos Vossos sacerdotes. Revivei neles; atuai por eles, e passai de novo através do mundo, ensinando, perdoando, consolando, sacrificando, e reatando os laços sagrados do amor entre o Coração de Deus e o coração humano.

Amém. [1]

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Do livro «O Sagrado Coração e o Sacerdócio», de Madre Luísa Margarida Claret de La Touche. Fonte: presbiteros.com.br

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O valor da vocação

A fidelidade à própria vocação é o único caminho seguro para alcançar a verdadeira felicidade

Nos campos de concentração nazistas, onde o ser humano era reduzido a uma existência deplorável, Viktor Frankl descobriu algo importante: o homem, quando possui uma razão para sua vida, é capaz de suportar as piores dores e humilhações. Isso explica o porquê de tantas pessoas, mesmo sob difíceis condições, entregarem-se a uma vocação, cujos resultados nem sempre são o dinheiro ou o prazer, mas a chacota e a incompreensão da sociedade.

Quem se dedica a uma vocação — seja ao sacerdócio ou à vida religiosa, seja ao matrimônio ou ao celibato laical —, dedica-se a um chamado interior. Não se trata de uma escolha arbitrária, pautada em interesses econômicos ou sentimentais. É, antes, uma entrega total, uma resposta ao projeto de Deus para aquele indivíduo. Por isso, no exercício de sua vocação, ele não procurará tanto o sucesso pessoal — embora isso também possa existir —, mas a perfeita realização de seu chamado.

O mundo moderno, marcado por uma mentalidade particularmente materialista, já não crê na vocação e, por esse motivo, escandaliza-se quando um jovem recém-formado ou uma bela moça decidem abandonar tudo (família, emprego, namoro etc.) para viverem o sacerdócio ou a vida religiosa. Inúmeros seminaristas, ao revelarem sua vocação para outras pessoas, tiveram de ouvir estas perguntas: "Você é assexuado?", "vai apenas estudar e depois sair, né?", "não gosta de trabalhar?". Na verdade, o que se esconde por detrás dessas questões é a indignação de quem não consegue buscar outra coisa, a não ser dinheiro e prazer. Não se concebe que alguém, sobretudo um jovem, possa renunciar ao sexo e ao bem-estar econômico por um projeto que, na concepção neopagã, já não tem espaço dentro da civilização. É justamente o que Bento XVI explicava aos sacerdotes, durante o Ano-Sacerdotal: "O celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade" [1].

O mesmo vale para o matrimônio quando vivenciado segundo o projeto originário de Deus, isto é, homem, mulher e filhos. Notem: quantos casais desejam, hoje, gerar muitos filhos, ter relações abertas à vida, lutar contra o fim da lei do divórcio e outras distorções perniciosas do casamento? Uma família numerosa gera tanto escândalo quanto um jovem celibatário, porque apesar de viverem suas vocações em diferentes estados, expressam uma única e verdadeira adesão vocacional. Ambos deram um "sim" definitivo, entregando-se de todo coração ao projeto de Deus. O casal, na fidelidade e vivência indissolúvel do matrimônio; o seminarista, no amor casto e, ao mesmo tempo, fecundo pela Igreja e Nosso Senhor Jesus Cristo. Por esta razão, ensina o Catecismo da Igreja Católica, matrimônio e ordem são dois sacramentos de missão [2]. Importa, em primeiro lugar, salvar as almas dos que estão ao nosso lado do que alcançar a própria satisfação.

E é nesta doação incondicional de si mesmo que se revela e se experimenta a graça vocacional. "Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á" ( Mt 16, 25). Dinheiro e prazer, os dois grandes bezerros de ouro de todas as épocas, são incapazes de trazer a felicidade plena. Ao contrário, aquele que se deixa levar por suas seduções, torna-se um escravo. Escravo das dívidas, das trapaças, da prostituição, escravo do pecado e da corrupção. É como naquele diálogo entre Jesus e a samaritana sobre a água do poço: "Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede" (Jo 4, 13). A pessoa que vive sua vocação, porém, encontra a face de Cristo em todas as circunstâncias, mesmo que venha a padecer sofrimentos, "dores de cabeças", perseguições e desprezo — "Mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede".

O Concílio Vaticano II, meditando sobre "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem" [3], foi firme ao afirmar que "todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade" [4]. Trata-se de um chamado universal. A santidade é, prestem atenção, o horizonte para o qual todos devemos caminhar. É a nossa verdadeira vocação. Neste sentido, é urgente uma redescoberta do valor vocacional, a fim de que todos experimentem dessa água que o próprio Cristo tem a oferecer-nos: "Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna" ( Jo 4, 14). Maria é o melhor modelo de confiança no projeto divino, dizendo o seu fiat.

Diante das provações do mundo, é preciso coragem para assumir o chamado de Deus. Meditemos sempre nesta exortação de um santo que muito pregou sobre vocação: "Por que não te entregas a Deus de uma vez..., de verdade..., agora!?" [5].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Bento XVI, Vigília por ocasião do Encontro Internacional de Sacerdotes (10 de junho de 2010).
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 1534.
  3. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), n. 1.
  4. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 39.
  5. São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 902.

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A luta de satanás contra o sacerdócio

O diabo sabe que a melhor maneira de destruir a Igreja é atacando o sacerdócio.

“Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis" [1]. Estas são palavras que os Santos Padres não se cansam de repetir ao orbe católico, desde que foram pronunciadas, pela primeira vez, pelo papa São Pio X. De fato, o testemunho de um bom sacerdote é capaz de arrastar centenas de fiéis à Igreja de Cristo, quer por meio da pregação, quer por meio da administração dos sacramentos, quer por meio da obediência às normas eclesiais, como o celibato.

A missão do sacerdote resume-se àquela regra máxima da Igreja, de que falam os santos: Salus animarum suprema Lex – a lei suprema é a salvação das almas. Por isso o Papa Bento XVI, na proclamação do Ano Sacerdotal, em 2009, exortou o clero católico a redescobrir a dimensão eclesial de seu ministério. Somente na comunhão com a Igreja o sacerdote pode atingir aquela santidade necessária “para fazer reinar Jesus Cristo no mundo". Explica-nos o Papa Emérito: “a missão é eclesial, porque ninguém se anuncia nem se leva a si mesmo, mas, dentro e através da própria humanidade, cada sacerdote deve estar bem consciente de levar Outro, o próprio Deus, ao mundo" [2].

Essa realidade não é desconhecida pelo diabo, tampouco por aqueles que fazem as suas vezes na terra, disseminando o joio no meio do trigo. Não é para admirar, por conseguinte, que, no combate à Igreja, o primeiro alvo seja o sacerdócio. “Quando se quer destruir a religião" – observava o santo Cura d'Ars –, “começa-se por atacar o padre" [3]. Com efeito, a primeira tentação demoníaca contra os sacerdotes é a de afastá-los da comunhão eclesial, incentivando-os à dissidência, aplaudindo hereges e ridicularizando aqueles que se submetem de bom grado à autoridade do Santo Padre. Trata-se do primeiro non serviam demoníaco: o não à Igreja.

Os argumentos – ou, no caso, as mentiras – são os mesmos de sempre: o celibato é transformado em símbolo de castração, que fere o direito à sexualidade e leva à pedofilia; o hábito eclesiástico é tachado de indumentária antiquada, que afasta o clero do povo; o padre passa a ser somente o “presidente" da celebração; a obediência a Roma é considerada clericalismo; as normas litúrgicas são suprimidas em nome de uma falsa criatividade; o padre, é dito, não pode ficar preso a “regras de orações medievais"; isto, outros reclamam, não está de acordo com o Concílio Vaticano II; o padre não é sacerdote, mas presbítero; ele tem uma mentalidade pré-conciliar etc. Repetidas ad nauseam pela mídia – e por uma porção de maus teólogos que agem em conluio com ela –, essas ideias perniciosas vão aos poucos minando a identidade do sacerdote, até ao ponto de levá-lo a proclamar o segundo non serviam do diabo: o não a Cristo.

Não é preciso gastar muita tinta, porém, para explicar os erros contidos nestes sofismas. Muito mais sabiamente responderam os santos padres – vivendo a sua vocação de maneira exemplar –, como também o Magistério da Igreja – seja nas encíclicas papais, sejo nos outros inúmeros documentos já publicados a esse respeito. O que é preciso ter em conta é que a luta que se trava contra o sacerdócio é, na verdade, uma luta contra a Pessoa de Jesus Cristo. O padre, não nos esqueçamos, é um Alter Christus (Outro Cristo), dado o caráter impresso em sua alma pelo sacramento da ordem. Por isso, é compreensível a raiva do diabo pela castidade dos sacerdotes – “o mais belo ornamento de nossa ordem", como elogiava São Pio X –, pois ela remete à virgindade de Cristo, que também foi guardada até a morte na cruz [4]. É compreensível o ódio do diabo à batina negra – a “heroica e santa companheira" de Dom Aquino Correa –, porque o luto recorda o sacrifício redentor da cruz, pelo qual a morte foi vencida [5].

O remédio às insinuações diabólicas, por conseguinte, não pode ser outro senão aquele prescrito por Bento XVI, durante o Ano Sacerdotal [6]:

É importante favorecer nos sacerdotes, sobretudo nas jovens gerações, uma correta recepção dos textos do Concílio Ecuménico Vaticano II, interpretados à luz de toda a bagagem doutrinal da Igreja. Parece urgente também a recuperação desta consciência que impele os sacerdotes a estar presentes e ser identificáveis e reconhecíveis quer pelo juízo de fé, quer pelas virtudes pessoais, quer também pelo hábito, nos âmbitos da cultura e da caridade, desde sempre no coração da missão da Igreja.

Enfim, não se há de esquecer a mediação de Nossa Senhora, mãe solícita dos sacerdotes e a inimiga de todas as heresias. Na sua viagem a Fátima, em 2010, o Santo Padre não perdeu a oportunidade de confiar à Virgem, “os filhos no Filho e seus sacerdotes", consagrando-os ao seu Coração Materno, para que cumprissem fielmente a Vontade do Pai [7]. Neste ato, o Papa Bento XVI ensinava ao clero do mundo inteiro que o melhor caminho de santidade e escudo contra o demônio é a intercessão de Nossa Senhora. É também o ensinamento dum outro padre que, não por acaso, muito se assemelha às palavras de São Pio X, ao início deste texto: “foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo" [8].

Por Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta La ristorazione: Acta Pii X, I, p. 257.
  2. Discurso do Papa Bento XVI durante a audiência concedida à Congregação para o clero (16 de março de 2009).
  3. João XXIII, Carta Enc. Sacerdotii Nostri Primordia (1° de agosto de 1959), n. 63.
  4. Ibidem, n. 16.
  5. A minha batina – poema de Dom Aquino Correa.
  6. Discurso do Papa Bento XVI durante a audiência concedida à Congregação para o clero (16 de março de 2009).
  7. Ato de confiança e consagração dos sacerdotes ao Imaculado Coração de Maria (12 de maio de 2010)
  8. São Luís de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

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Um clero santo para que Cristo reine sobre a Terra

Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis.

São João Maria Vianney, cuja memória litúrgica celebra-se neste dia 4 de agosto, costumava se referir ao sacerdócio como “o amor do coração de Jesus". Dizia o santo pároco: “um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina" [1]. Com essas palavras, o Cura d'Ars exprimia aos seus fiéis a importância da existência de sacerdotes para o mundo.

O ministério sacerdotal existe para realizar a mediação entre o Céu e a Terra. Trata-se de uma necessidade sobrenatural, dada a fragilidade do gênero humano, causada pelo pecado. A culpa original fez com que os homens se voltassem contra Deus, por medo de sua presença [2]. Ele, por sua vez, não os abandonou à própria sorte; ao contrário, alentou-os a esperar a salvação eterna, estabeleceu com eles uma aliança e escolheu homens dentre o povo de Israel para oferecer “dons e sacrifícios" pelos pecados. Esse modelo de sacerdócio ministerial duraria até à vinda do Sumo Pontífice, na Nova Aliança, que seria capaz de oferecer o seu sacrifício uma vez por todas, a saber: Jesus Cristo. A superioridade desse Sumo Sacerdote é manifestada nas palavras de São Paulo aos hebreus [3]:

“Tal é, com efeito, o pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado (...) que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro pelos pecados próprios, depois pelos do povo; pois isto o fez de uma só vez para sempre, oferecendo-se a si mesmo"

Na noite de sua paixão, Jesus instituiu a um só tempo os sacramentos da ordem e da Eucaristia; fez a oferta definitiva para a remissão dos pecados da humanidade. Daí procede a relação intrínseca entre sacerdócio e Santa Missa. O sacerdote da Nova Aliança é também vítima e altar. Ele não só oferece o sacrifício como também se entrega em holocausto pela salvação do rebanho. Assim, diferentemente do que ocorria na Antiga Aliança – na qual o sacerdote deveria oferecer sacrifícios todos os dias, “primeiro pelos pecados próprios, depois pelos do povo" –, Ele se oferece a si mesmo, como vítima de expiação, no altar da cruz. E somente um sacerdote “santo e imaculado", como descrevem as Sagradas Escrituras, pode fazer isso uma vez por todas.

Com efeito, o sacramento da ordem, que nasce diretamente da vontade de Cristo – “fazei isto em memória de mim" [4] – perpetua a ação salvífica de Jesus na história. Todo padre é um Outro Cristo. Na administração dos sacramentos, não é a pessoa do padre quem realiza a ação, mas é o próprio Jesus a operar o milagre da transubstanciação – em que o pão e o vinho se convertem em Corpo e Sangue – a perdoar os pecados, a conceder o viático aos enfermos etc. A Igreja ensina que o bispo ou o presbítero preside na pessoa de Cristo Cabeça ( in persona Christi capitis).

Isso explica o porquê de o sacerdócio sempre ter ocupado um lugar privilegiado no imaginário popular. O padre – seja pelas suas vestes, seja pela sua piedade – transmite ao mundo a misericórdia de Deus pelos seus filhos, sobretudo quando procura configurar-se cada dia mais à pessoa de seu Senhor. Dá testemunho disso uma centena de santos sacerdotes, que, ao longo de seu ministério, reconduziram muitos transviados de volta à religião cristã, por meio de suas práticas devocionais e atividades caritativas: São João Bosco, no apostolado com os jovens; Santo Afonso Maria de Ligório, na prática das virtudes morais e evangélicas; São Josemaria Escrivá, na santificação do trabalho; São Pio X, na condução da Igreja à Eucaristia. Desse último, aliás, colhemos estas pias palavras, que dizem muito sobre a importância do ministério sacerdotal: “para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis" [5].

Exige-se do sacerdote, portanto, uma maior dedicação à sua vocação, ainda mais nestes tempos em que a figura sacerdotal encontra-se tão atacada, seja por uma opinião pública tendenciosa e anticlerical, seja pelos próprios pecados de alguns padres. Se na ação litúrgica, a presença de Cristo é garantida ao sacerdote, de tal forma que mesmo o seu pecado não pode impedir os frutos da graça, “há muitos outros atos em que a conduta humana do ministro deixa traços que nem sempre são sinal de fidelidade ao Evangelho e que podem, por conseguinte, prejudicar a fecundidade apostólica da Igreja" [6]. Neste sentido, faz-se imperioso o apelo de Pio XII [7]:

O caráter sacramental da ordem chancela da parte de Deus num pacto eterno o seu amor de predileção, que exige em troca, da criatura escolhida, a santificação... O clérigo deve ser tido como um eleito entre o povo, cumulado dos dons sobrenaturais e participante do poder divino, numa palavra, um 'outro Cristo'... Já não pertence a si, nem aos parentes e amigos, nem mesmo à sua pátria. Deve consumi-lo um amor universal. Mais ainda, a caridade universal será o seu respiro, os seus pensamentos, a vontade, os sentimentos deixam de ser seus, para serem de Cristo, que é a sua vida.

Da santidade dos padres, depende a salvação das almas. Da santidade dos padres, depende o anúncio da misericórdia cristã. É neste sentido que o Cura d'Ars alertava: “deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas" [8]. Este século é a maior prova disso.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Bento XVI, Carta para a proclamação de um ano sacerdotal por ocasião do 150º aniversário do Dies Natalis do Santo Cura d'Ars (16 de junho de 2009).
  2. Gn 3, 8.
  3. Hb 7, 26.
  4. Lc 22, 19.
  5. Carta La ristorazione: Acta Pii X, I, p. 257
  6. Catecismo da Igreja Católica, n. 1550
  7. AAS 50 (1958), pp. 966-967; L'Osservatore Romano, 17 outubro 1958.
  8. Bento XVI, Carta para a proclamação de um ano sacerdotal por ocasião do 150º aniversário do Dies Natalis do Santo Cura d'Ars (16 de junho de 2009).