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As pessoas mais difíceis de converter. Seria você uma delas?

Esta matéria é sobre um tipo difícil de converter, que acha que conhece a Cristo, que já vive o Evangelho e que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Seria você, por acaso, uma dessas pessoas?

As pessoas mais difíceis de converter não são os que estão no mundo, mas os próprios católicos.

Ninguém se escandalize com isso, porque essa situação já foi denunciada várias vezes por pregadores de outros séculos. O pe. António Vieira, por exemplo, dizia que, "antigamente, batizavam-se os que eram convertidos; hoje, é preciso converter os que são batizados". Se a situação era assim no seu tempo, o século XVII, quanto mais em nossa época, em que a TV, a Internet e os meios de comunicação de uma forma geral são os maiores responsáveis por "formar" (ou deformar) as mentes das pessoas! Nunca foi tão fácil ser mundano, render-se aos encantamentos do mundo e esquecer-se de Deus, de nossa alma e das verdades eternas!

No entanto, este que é um verdadeiro drama — o de perder a Deus pelo pecado e deixar escapar pelas mãos a própria salvação — só é vivido verdadeiramente por quem tem fé. Aqueles que não a têm já estão entregues, rendidos, derrotados. E é deles principalmente que falamos quando nos referimos às pessoas mais difíceis de converter. É a católicos sem fé que queremos atingir com estas linhas.

Cumpre dizer, antes de mais nada, que não queremos pintar um quadro horrendo para os outros, enquanto mascaramos a nossa própria condição. Nossa santificação, o trabalho de nossa conversão, não é, evidentemente, obra de um dia ou de uma semana. Nós, que caminhamos por este vale de lágrimas, devemos estar sempre conscientes de que a presença da Santíssima Trindade em nós, pela graça, vai encerrada "em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós" (2Cor 4, 7). Não é nossa pretensão criar uma "casta" de iluminados dentro da Igreja, nem instituir algum tipo de "alfândega" para limitar as pessoas que atravessam a soleira de nossos templos. Essa exortação é mais um "convite à penitência comum", pois é assim que deve ser a correção fraterna feita a pecadores por… pecadores [1]. Em outras palavras, Cristo veio ao mundo para salvar os delinquentes e nós somos os primeiros deles (cf. 1Tm 1, 15)!

Partamos, porém, sem mais delongas, a uma breve descrição de como vive a maior parte de nossos autodenominados católicos.

Crêem eles, porventura? Talvez nos artigos do Creio, se tomados de modo simples; desdobrado o conteúdo que ali se encontra, certamente encontraremos muitos negando, por exemplo, a existência dos demônios ou da condenação eterna. Eles certamente não se negarão a repetir os artigos do Creio, um por um, quando se levantarem no domingo, durante a Missa, para rezá-lo; mas é que eles vão à Missa com tanta irregularidade, que muitas vezes sequer se dão conta de que estão tropeçando em uma e outra parte da oração.

Mas o que acontece quando alguém lhe mostra que faltar à Missa aos domingos é pecado mortal? E que é preciso confessar-se, portanto, antes de aproximar-se novamente da Sagrada Comunhão? Neste momento, o tipo a que nos referimos imediatamente desconversa, dá de ombros, tenta dizer alguma coisa para se desculpar e leva a sua vida do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. No próximo domingo em que for à Missa, talvez daí a um mês — ou mesmo durante a semana, quando sentir vontade —, ele entrará tranquilamente na procissão para receber Jesus Eucarístico, sem nenhum escrúpulo ou remorso de consciência.

Esse exemplo é ainda muito simples, porque faz referência apenas ao preceito dominical. Se fosse tratado, no entanto, o problema do sexto mandamento, certamente a resistência seria ainda maior. Onde já se viu não poder comungar, por exemplo, quem usa anticoncepcionais? Ou quem dorme com o namorado ou a namorada? Ou quem assiste a vídeos pornográficos ou cai no pecado da masturbação? Ou até, e aqui se rasgam definitivamente as vestes, quem consente em maus pensamentos e já pratica o adultério com os outros no coração?

Esse tipo, porém, é empedernido, é teimoso. Quer participar das cerimônias católicas, mas sem levar muito a sério a Igreja da qual diz fazer parte. Quer ser ativo na liturgia, participar das pastorais e dos movimentos, mas isso é o bastante. Ele traça uma linha para demarcar o limite da sua entrega: até aqui eu vou, até aqui eu sou católico, até aqui eu obedeço à Igreja. Ir além — ele já estabeleceu, ex cathedra, em sua mente — é "moralismo", "radicalismo", "extremismo".

Por que é tão difícil mudar a cabeça de pessoas assim, é muitíssimo fácil de perceber. Diferentemente de quem vive no mundo, despreocupado de tudo e desligado de qualquer prática religiosa, esse tipo de católico acha que conhece a Cristo, acha que já vive o Evangelho, acha que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Se estivesse fora, assumisse a sua ignorância e entrasse na Igreja com a intenção de aprender e reformar as próprias opiniões, certamente produziria muito mais frutos do que no atual estado em que se acha.

Muito apropriadas nesse sentido são as palavras do bem-aventurado John Henry Newman, durante um discurso a pessoas de várias religiões:

"Ninguém deveria entrar na Igreja sem o firme propósito de aceitar a sua palavra em todas as matérias de doutrina e moral, e isso por ela vir diretamente do Deus da Verdade. Tu deves enfrentar a matéria e calcular os gastos (cf. Lc 14, 28). Se não te aproximas com esse espírito, tu sequer deverias aproximar-te: grandes e pequenos, instruídos e ignorantes, todos devem vir para aprender. Se tens essa disposição, dificilmente algo dará errado, pois tens uma boa base; do contrário, se vens com qualquer outra intenção, é melhor que esperes até que te tenhas livrado dela. Tu deves vir à Igreja, eu te digo, para aprender; deves vir, não para trazeres a ela tuas próprias noções, mas com a intenção de ser sempre um aprendiz; deves vir com a intenção de tomá-la como parte de tua herança e de jamais apartar-te dela. Não venhas como para um experimento; não venhas como para arrumar assentos em uma capela, ou bilhetes para uma conferência; vem a ela como para tua casa, para a escola de tua alma, para a Mãe dos Santos e vestíbulo dos céus." [2]

A recomendação que o Cardeal Newman faz em seu discurso é importante porque lembra que existe, na Igreja Católica, uma identidade substancialmente diferente do protestantismo, religião muito comum na Inglaterra de sua época (e, agora, cada vez mais, também no Brasil). Enquanto entre os protestantes cada cristão é, por assim dizer, o seu próprio papa, a única e verdadeira Igreja de Cristo é una. Isso significa que um católico, quando crê, não é no que quer, mas no que recebeu de outrem; quando leva uma vida moral, não é com base em suas próprias ideias, mas nos ensinamentos de uma autoridade; quando reza, não é conforme a sua cabeça, mas de acordo com o modo como Deus mesmo manifestou que quer ser cultuado. Nós não inventamos a nossa própria religião; vivemos (ou melhor, esforçamo-nos por viver) a religião que Deus mesmo instituiu.

Ser católico exige, portanto, em primeiríssimo lugar, uma autêntica mudança de mentalidade. Sem isso, não estaremos seguindo a Igreja, mas tão somente o nosso próprio "eu", como diz Santo Tomás de Aquino:

"É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade." [3]

Se a Igreja lhe diz, por exemplo, com a sua autoridade dada pelo próprio Cristo (cf. Mt 16, 18), que tal coisa é pecado, e você, ao invés de acatar, desconversa, diz que "não é bem assim" e tenta se justificar, é muito triste dizê-lo, mas seu catolicismo é superficial, não passa de um verniz, de uma fachada. Você não acredita na Igreja, mas em você mesmo. Sua opinião conta muito mais que a religião a qual você diz seguir. Seria muito mais honesto abandonar de vez essa peça farsesca que você encena e procurar a igreja protestante mais próxima e que mais se adequa aos seus gostos e posições.

Abra os olhos de uma vez por todas, pare de tentar mentir para si mesmo e de ficar se defendendo com insultos. Não chame os outros de "moralistas" só porque não compartilham do "código moral" inventado por você; não chame os outros de "radicais" só porque não são superficiais como você; não chame os outros de "extremistas" só porque você se contenta com uma vida morna e levada de qualquer modo. Converta-se, mude de mentalidade e honre as águas do santo Batismo com que a Igreja o banhou! Foi a ela, afinal, não a você, que Cristo confiou as chaves do Reino dos céus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 33, a. 5.
  2. John Henry Newman, Faith and Doubt. In: Discourses to Mixed Congregations, p. 231.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 3.

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‘Maria é um atalho para o Caminho’

Conheça o testemunho de Kélvia, a jovem que descobriu a beleza da Igreja Católica depois que se consagrou a Nossa Senhora.

"Assim que me consagrei à Mãe, fui cada vez mais me aproximando de Nosso Senhor Jesus". O testemunho abaixo é de Kélvia Portela Ambrozi, do Maranhão. Em poucas linhas, ela conta como recuperou a fé que tinha recebido na infância, graças à consagração a Nossa Senhora e à formação do site. "Eu achava que era católica, mas não sabia praticamente nada da Santa Igreja", ela escreve. "Hoje, quanto mais eu estudo, mais eu amo a Santa Igreja Católica e não entendo como uma pessoa intelectualmente capaz pode ser de outra religião."

Salve Maria!

Bom dia, Padre Paulo Ricardo e equipe.

Muitos depoimentos são recebidos por vocês e eu gostaria de deixar o meu testemunho, no qual contarei um pouco da minha história.

Meu nome é Kélvia Portela Ambrozi, tenho 29 anos, nasci e moro no interior do Maranhão, sou casada há quase três anos, não temos filhos (ainda não fomos contemplados), sou dentista e venho de uma família católica muito tradicional, daquelas numerosas. Meus avós tiveram 17 filhos, dos quais duas mulheres se tornaram freiras. Minha irmã e eu fomos batizadas ainda bebês (meu irmão demorou um pouco mais, mas ainda na infância foi batizado), fizemos catequese desde crianças, primeira Comunhão, Comunhão solene etc. Não pudemos fazer a Crisma porque nos mudamos para São Luís para estudar. Lá fomos para uma escola Católica e concluímos o primeiro grau.

Com a ausência dos meus pais no dia-a-dia em São Luís, eu já não ia à Santa Missa com tanta frequência, deixei de confessar e fui me afastando cada vez mais da Igreja. Depois que concluí a faculdade voltei a morar na cidade dos meus pais, passei a ir mais à Missa (ainda não como antes), fiz a Crisma e, depois de oito anos de namoro, casei com meu esposo. Tudo estava muito bem na minha vida, mas eu sentia que faltava algo.

Um belo dia, vi no Facebook um aviso de que um grupo iria se reunir para a Consagração à Nossa Senhora. Aquele chamado foi tão forte que, graças a Deus, não deixei escapar. A cada semana em que nos reuníamos eu sentia que ali era o meu lugar. As coisas ditas sobre Nossa Senhora eram tão lindas que enchiam meu coração de amor. Durante as reuniões nos pediram que assistíssemos às suas aulas sobre a Consagração, e foi ali que eu tive o primeiro contato com o seu site.

Comecei a assistir às aulas e logo eu via outro vídeo interessante, depois outro, e depois outro. Às vezes, quando eu tinha tempo, passava literalmente o dia todo vendo suas aulas, e foi quando percebi que eu achava que era católica, mas não sabia praticamente nada da Santa Igreja. Estava tão longe que, até quando ia rezar o Credo na Missa, eu "pulava" a parte em que dizia "creio na Santa Igreja Católica", com medo de ofender a Deus, um pensamento absolutamente protestante que me envergonho de reconhecer, verdadeiramente influenciada pelas aulas de história que tive no ensino médio. Como eu disse anteriormente, apesar de vir de uma família católica, não conhecia a Santa Senhora e nem a Santíssima Igreja.

Impressionante como eu vejo um cuidado tão de perto de Nossa Senhora em vários aspectos e fases da minha vida. Assim que me consagrei à Mãe, fui cada vez mais me aproximando de Nosso Senhor Jesus. Lembro sempre do que Ela disse aos apóstolos em Jo 2, 5: "Fazei tudo o que Ele vos disser". Como ouvi na consagração, Maria é um atalho para o Caminho e como isso é claro pra mim hoje!

Se eu pudesse dizer quais foram os erros durante a minha caminhada espiritual, eu diria que foram dois: uma catequese fraca, onde não aprendi sequer o que é o milagre da Santa Missa (aprendi durante a Consagração), e a preguiça, falta de vontade de estudar e buscar Deus depois de adulta. Hoje, quanto mais eu estudo, mais eu amo a Santa Igreja Católica e não entendo como uma pessoa intelectualmente capaz pode ser de outra religião.

Com esse meu depoimento, eu gostaria apenas de lhe dizer OBRIGADA. Hoje tenho muita pressa em amar a Deus e esperança de vê-lo face a face. Voltei a ler a Bíblia (coisa que não fazia desde criança), a ir à Santa Missa aos domingos, rezo o terço diariamente e estou sempre com Nosso Senhor Jesus Cristo e com a Mãe Santíssima no pensamento e coração. Hoje busco uma conversão diária e que só terminará quando eu estiver ao lado do Pai.

Nunca desista de nós, seu site chega mais longe do que o senhor imagina.

Fiquem com Deus.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

| Categoria: Doutrina

Eis o Cordeiro de Deus

Pelo sangue dos cordeiros, os israelitas foram preservados da praga exterminadora. Pelo sangue do Cordeiro, a humanidade foi livre da morte.

Das famosas dez pragas do Egito, a mais importante de todas foi, sem dúvida, a última, não só porque representou o maior de todos os castigos infligidos aos egípcios (cf. Ex 11, 6), mas também porque foi o estopim para a libertação definitiva de todo o povo de Israel. Depois de rãs, mosquitos, tumores e gafanhotos, um anjo exterminador foi enviado às terras do Faraó para matar os primogênitos de todos os egípcios e de todos os seus animais.

Tudo isso foi realizado para que o povo de Deus, liderado por Moisés, fosse retirado da escravidão. De fato, o coração duro do Faraó só permitiu que os israelitas partissem do Egito depois que o seu próprio filho, o herdeiro de seu trono, teve a vida ceifada pelo anjo da morte. Naquele dia, instituiu-se a festa da páscoa: à "passagem" de Deus, o Egito ficou banhado de sangue, enquanto os judeus foram preservados do extermínio.

Na ocasião, o que salvou o povo hebreu? Ficou determinado que todas as famílias de Israel deviam, no décimo quarto dia daquele mês, imolar um cordeiro "sem defeito", tomar o seu sangue e untar os umbrais de suas portas. À vista disso, o anjo da morte não entraria em suas casas. "Quando o Senhor passar pelo Egito para castigá-lo, e reparar o sangue sobre a moldura das portas, passará por vossas portas e não permitirá que o Exterminador entre em vossas casas para causar dano" (Ex 12, 23). De fato, pelo sangue dos cordeiros, os israelitas foram preservados da morte.

Para entender plenamente essa história, é preciso recorrer ao juízo da Igreja, a quem Cristo deu o poder das chaves (cf. Mt 18, 18; Lc 10, 16) e o encargo de interpretar corretamente as Escrituras. Certos trechos da Bíblia, de fato – e a história contada acima é um exemplo –, aparentam não ter nada a ver com o que vivem os homens de hoje e parecem não ter nenhum ensinamento a oferecer à modernidade. O extermínio dos egípcios apontado pelo livro do Êxodo, então, poderia muito bem ser enquadrado naquela denominação de "páginas 'obscuras' da Bíblia", usada pelo Papa Bento XVI [1]. Como entender que Deus estenda a mão sobre o Egito e mate todos os seus primogênitos em uma só noite?

À pergunta provocadora, urge responder com a única chave interpretativa de toda a revelação divina: "o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo realizado no mistério pascal" [2]. Nas palavras de Hugo de São Vítor, "toda a Escritura divina constitui um único livro e este único livro é Cristo, fala de Cristo e encontra em Cristo a sua realização" [3]. As pragas do Egito e o sangue que quebrou os grilhões dos israelitas carregam o seu próprio significado [4], mas constituem, sobretudo, um sinal daquilo que estava por vir, uma figura que aponta para "o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo" (Jo 1, 29).

À páscoa judaica se segue, então, a Páscoa por excelência. O sangue dos cordeiros, incapaz de "eliminar os pecados" (Hb 10, 4), é substituído pelo verdadeiro Cordeiro, indefectível, que, "depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados (...), levou à perfeição definitiva os que são por ele santificados" (Hb 10, 12.14). A liberdade agora conquistada não é simplesmente o fim de uma escravidão física; é a destruição do pecado, que escraviza o espírito. A morte agora vencida não é mais a morte deste corpo terreno e passageiro, consequência inevitável de sermos filhos de Adão; é a morte definitiva, que precipita a alma na desgraça e na escravidão eternas. Foi para esta liberdade que Cristo nos libertou (cf. Gl 5, 1), derramando voluntariamente o Seu próprio sangue (cf. Jo 10, 18) e untando as portas da nossa alma com o sacramento do Batismo.

Para elevar ainda mais à perfeição a analogia do cordeiro, porém, Ele não só foi imolado verdadeiramente, mas deu-se como alimento para todos os que vivem a Sua vida. Os que comiam o cordeiro da antiga páscoa com os ázimos (cf. Ex 12, 8) estavam livres da praga exterminadora, mas presos ainda aos grilhões da morte. "Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. Aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer" (Jo 6, 49-50). Mas, como se dá isso? Como acontece que quem come e bebe do Corpo e Sangue do Senhor viva para sempre?

Santo Tomás de Aquino, comentando a passagem de Jo 6, 54: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós", explica que a realidade do sacramento da Eucaristia "é a unidade do corpo místico, sem a qual não pode haver salvação, porque ninguém tem acesso à salvação fora da Igreja, como tampouco no dilúvio houve salvação fora da arca de Noé" [4]. Ou seja, a Eucaristia nos salva porque nos incorpora à Igreja, que é o corpo místico de Cristo. O antigo povo de Deus estava limitado a uma raça, à comunidade dos judeus; o povo da Nova Aliança é a santa Igreja, a assembleia de homens e mulheres, de todas as raças, povos e nações, que têm em comum a comunhão no Corpo e Sangue do Cordeiro.

"Ecce Agnus Dei, ecce, qui tollit peccáta mundi – Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo", repetem os sacerdotes em todas as Missas. E a Igreja canta a Deus a sua ação de graças: porque "Cristo amou a Igreja e se entregou por ela"; porque "quis apresentá-la a si mesmo toda bela, sem mancha nem ruga ou qualquer reparo, mas santa e sem defeito" (Ef 5, 26-27); porque é ela, agora, unida à sua cabeça, que deve oferecer o seu sacrifício; porque somos nós, agora, que devemos completar em nossa carne o que falta à paixão de Nosso Senhor (cf. Cl 1, 24). "Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto" (Rm 12, 1).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Exortação Apostólica Verbum Domini (30 de setembro de 2010), 42.
  2. Idem.
  3. De arca Noe, 2, 8 (PL 176, 642 C-D).
  4. Cf. BETTENCOURT, Dom Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. Agir: Rio de Janeiro, 1956. pp. 205s
  5. Suma Teológica, III, q. 73, a. 3.

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Católicos Romanos

“Vamos em frente. Somos romanos”, exortou certa vez São João Paulo II, manifestando a força da cristandade ligada à Sé de Pedro.

Os cartazes que enfeitavam as ruas de Roma, em 2011, por ocasião da beatificação de João Paulo II, diziam, na sua maioria, as seguintes palavras: “ Damose da fa, semo romani". A frase fazia referência a uma alocução do falecido papa, na Sala Paulo VI, em que ele dizia aos fiéis presentes, em dialeto romano: “Vamos em frente. Somos romanos". De modo semelhante exprimia-se São Josemaria Escrivá no seu famoso livro Caminho: “Gosto de que sejas muito romano. E — assim prosseguia o santo do cotidiano — que tenhas desejos de fazer a tua 'romaria', 'videre Petrum', para ver Pedro." [1]

Historicamente, a cidade de Roma concentrou o poder temporal do maior império político já visto na terra. A sede de expansão e domínio fez com que os romanos chegassem até os confins do mundo, por assim dizer, levando consigo sua cultura, organização política e religião. Em meio a isso, emergia a figura imponente do imperador, a cuja pessoa os cidadãos e súditos deveriam prestar culto.

O anúncio de Jesus Cristo insere-se exatamente neste contexto. Deus, por razões misteriosas, quis que a encarnação de seu Filho — o Rei dos reis — coincidisse com o tempo em que outro homem arrogava para si o título de “Augusto". Cristo, por sua vez, encarna-se para anunciar o verdadeiro Evangelho; não aquele que pertencia à linguagem do imperador, mas o Evangelho da Alegria, capaz de encher “o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus" [2]. Dada essa realidade, não foi por acaso que o cristianismo logo se converteu no maior obstáculo para o imperador romano. Os cristãos agora possuíam outra medida, possuíam a glória da salvação eterna, um Deus em cuja face se manifestava o amor à criatura: o amor crucificado e ressuscitado. Com efeito, a ameaça de morte contra aqueles que não prestassem culto a César não mais poderia intimidá-los. Ao contrário, o martírio pelo Deus do amor havia se convertido no maior desejo de seus corações.

Na crucifixão de São Pedro, por conseguinte, Roma é lavada pelo sangue do apóstolo sobre o qual Jesus havia edificado seu Corpo Místico, isto é, a Igreja. Isso marca um ponto importante na história da Cidade Eterna. Ela não mais seria a sede do imperador, aquele que oprimia e subjugava, mas a Cátedra do “Servo dos Servos" de Cristo, o encarregado de “confirmar seus irmãos na fé" (cf. Lc 22, 32). Roma não seria mais o opróbrio das nações, submetendo-as às perversões mundanas, mas o símbolo da libertação, manifestada pelo canto alegre dos cristãos que, a exemplo de seu Senhor, iam para a cruz, entregando-se por amor a Deus. Não seria mais a capital do maior império político já visto nesta Terra, mas a casa dos cristãos, a casa universal, a casa dos filhos de Deus. Não seria mais a Roma de Nero, de Calígula, mas “dos mártires, dos santos" [3].

Assim se compreende a árdua luta empreendida por Santa Catarina de Siena, a fim de que o Santo Padre retornasse a Roma, quando o então papa Gregório XI encontrava-se num exílio em Avinhão. Para que a Igreja pusesse fim à crise que se insurgia entre os fiéis, convinha antes “pôr fim à longa ausência, a esse exílio em Avinhão que privava a Cristandade da sua autêntica capital, consagrada pelo sangue do Apóstolo" [4]. Por isso a santa não economizou palavras ao se dirigir ao seu “Doce Cristo na Terra": “Seja homem, volte para Roma".

Na teologia moderna, infelizmente, não é difícil encontrar a acusação de que a Igreja Católica teria sido fundada por Constantino. Além disso, não faltam aqueles que, dentro da Igreja, estabelecem como que um poder paralelo, a fim de dar início a uma “nova reestruturação e nova divisão eclesiástica do trabalho e do poder religioso", menosprezando a figura do papa ao mesmo tempo em que reduz o Corpo de Cristo à figura de empresa [5]. Ora, é preciso pouco esforço para enxergar o veneno por trás dessas teorias. Basta observar o esfacelamento do protestantismo, perdido em meio a tantas interpretações duvidosas da bíblia, como também o caos daquelas igrejas e Conferências Episcopais, que recusando a autoridade de Roma, acabaram subjugadas pela bota dos governos locais, numa nova espécie de Cesaropapismo. É o caso, por exemplo, da Igreja Ortodoxa, escrava do Kremlin, e de inúmeras igrejas da América Latina.

“A Igreja de Roma preside na caridade", afirmava Santo Inácio de Antioquia. Amemos, portanto, a capital da Cristandade, onde o sol não tem poente, onde se vence refulgente todo erro e todo mal!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Caminho, n. 520.
  2. Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (24 de novembro de 2013), n. 1.
  3. Hino Pontifício.
  4. DANIEL-ROPS. A Igreja da Renascença e da Reforma. São Paulo: Quadrante, 1996, pág. 22
  5. BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Petrópolis: Vozes, 1982, pág. 13. Ver também: O poder paralelo dentro da Igreja I e II.

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A luta de satanás contra o sacerdócio

O diabo sabe que a melhor maneira de destruir a Igreja é atacando o sacerdócio.

“Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis" [1]. Estas são palavras que os Santos Padres não se cansam de repetir ao orbe católico, desde que foram pronunciadas, pela primeira vez, pelo papa São Pio X. De fato, o testemunho de um bom sacerdote é capaz de arrastar centenas de fiéis à Igreja de Cristo, quer por meio da pregação, quer por meio da administração dos sacramentos, quer por meio da obediência às normas eclesiais, como o celibato.

A missão do sacerdote resume-se àquela regra máxima da Igreja, de que falam os santos: Salus animarum suprema Lex – a lei suprema é a salvação das almas. Por isso o Papa Bento XVI, na proclamação do Ano Sacerdotal, em 2009, exortou o clero católico a redescobrir a dimensão eclesial de seu ministério. Somente na comunhão com a Igreja o sacerdote pode atingir aquela santidade necessária “para fazer reinar Jesus Cristo no mundo". Explica-nos o Papa Emérito: “a missão é eclesial, porque ninguém se anuncia nem se leva a si mesmo, mas, dentro e através da própria humanidade, cada sacerdote deve estar bem consciente de levar Outro, o próprio Deus, ao mundo" [2].

Essa realidade não é desconhecida pelo diabo, tampouco por aqueles que fazem as suas vezes na terra, disseminando o joio no meio do trigo. Não é para admirar, por conseguinte, que, no combate à Igreja, o primeiro alvo seja o sacerdócio. “Quando se quer destruir a religião" – observava o santo Cura d'Ars –, “começa-se por atacar o padre" [3]. Com efeito, a primeira tentação demoníaca contra os sacerdotes é a de afastá-los da comunhão eclesial, incentivando-os à dissidência, aplaudindo hereges e ridicularizando aqueles que se submetem de bom grado à autoridade do Santo Padre. Trata-se do primeiro non serviam demoníaco: o não à Igreja.

Os argumentos – ou, no caso, as mentiras – são os mesmos de sempre: o celibato é transformado em símbolo de castração, que fere o direito à sexualidade e leva à pedofilia; o hábito eclesiástico é tachado de indumentária antiquada, que afasta o clero do povo; o padre passa a ser somente o “presidente" da celebração; a obediência a Roma é considerada clericalismo; as normas litúrgicas são suprimidas em nome de uma falsa criatividade; o padre, é dito, não pode ficar preso a “regras de orações medievais"; isto, outros reclamam, não está de acordo com o Concílio Vaticano II; o padre não é sacerdote, mas presbítero; ele tem uma mentalidade pré-conciliar etc. Repetidas ad nauseam pela mídia – e por uma porção de maus teólogos que agem em conluio com ela –, essas ideias perniciosas vão aos poucos minando a identidade do sacerdote, até ao ponto de levá-lo a proclamar o segundo non serviam do diabo: o não a Cristo.

Não é preciso gastar muita tinta, porém, para explicar os erros contidos nestes sofismas. Muito mais sabiamente responderam os santos padres – vivendo a sua vocação de maneira exemplar –, como também o Magistério da Igreja – seja nas encíclicas papais, sejo nos outros inúmeros documentos já publicados a esse respeito. O que é preciso ter em conta é que a luta que se trava contra o sacerdócio é, na verdade, uma luta contra a Pessoa de Jesus Cristo. O padre, não nos esqueçamos, é um Alter Christus (Outro Cristo), dado o caráter impresso em sua alma pelo sacramento da ordem. Por isso, é compreensível a raiva do diabo pela castidade dos sacerdotes – “o mais belo ornamento de nossa ordem", como elogiava São Pio X –, pois ela remete à virgindade de Cristo, que também foi guardada até a morte na cruz [4]. É compreensível o ódio do diabo à batina negra – a “heroica e santa companheira" de Dom Aquino Correa –, porque o luto recorda o sacrifício redentor da cruz, pelo qual a morte foi vencida [5].

O remédio às insinuações diabólicas, por conseguinte, não pode ser outro senão aquele prescrito por Bento XVI, durante o Ano Sacerdotal [6]:

É importante favorecer nos sacerdotes, sobretudo nas jovens gerações, uma correta recepção dos textos do Concílio Ecuménico Vaticano II, interpretados à luz de toda a bagagem doutrinal da Igreja. Parece urgente também a recuperação desta consciência que impele os sacerdotes a estar presentes e ser identificáveis e reconhecíveis quer pelo juízo de fé, quer pelas virtudes pessoais, quer também pelo hábito, nos âmbitos da cultura e da caridade, desde sempre no coração da missão da Igreja.

Enfim, não se há de esquecer a mediação de Nossa Senhora, mãe solícita dos sacerdotes e a inimiga de todas as heresias. Na sua viagem a Fátima, em 2010, o Santo Padre não perdeu a oportunidade de confiar à Virgem, “os filhos no Filho e seus sacerdotes", consagrando-os ao seu Coração Materno, para que cumprissem fielmente a Vontade do Pai [7]. Neste ato, o Papa Bento XVI ensinava ao clero do mundo inteiro que o melhor caminho de santidade e escudo contra o demônio é a intercessão de Nossa Senhora. É também o ensinamento dum outro padre que, não por acaso, muito se assemelha às palavras de São Pio X, ao início deste texto: “foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo" [8].

Por Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta La ristorazione: Acta Pii X, I, p. 257.
  2. Discurso do Papa Bento XVI durante a audiência concedida à Congregação para o clero (16 de março de 2009).
  3. João XXIII, Carta Enc. Sacerdotii Nostri Primordia (1° de agosto de 1959), n. 63.
  4. Ibidem, n. 16.
  5. A minha batina – poema de Dom Aquino Correa.
  6. Discurso do Papa Bento XVI durante a audiência concedida à Congregação para o clero (16 de março de 2009).
  7. Ato de confiança e consagração dos sacerdotes ao Imaculado Coração de Maria (12 de maio de 2010)
  8. São Luís de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

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O demônio odeia a Igreja

Se o mundo odeia a Igreja, é porque primeiro odiou a sua cabeça. Quem diz não à Igreja, diz não ao próprio Jesus Cristo.

O Papa Pio XII ensina que o inimigo, “que se tornou cada vez mais concreto", vociferou três gritos contra Deus. Ao destacar isso, ele lembra que, embora seja uma invenção angélica, o pecado também encontra seus servidores em meio aos homens. Muitos deles, com as suas ideias e atitudes, realmente se revestem de Satanás, semeando o erro e introduzindo a confusão entre as próprias ovelhas do redil de Cristo.

O primeiro grito de que fala o Papa – “Cristo sim, a Igreja não!" [1] – é uma rebeldia conhecida. Embora sua grande manifestação tenha acontecido no século XVI, com Martinho Lutero e os chamados “reformadores" protestantes, essa forma de pensar parece estar na moda hoje em dia. É frequente ler ou ouvir pessoas defendendo que se pregue “mais Jesus, menos religião", como se Nosso Senhor não tivesse verdadeiramente fundado uma só Igreja: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" [2] e não se tivesse vinculado a ela como a cabeça se vincula ao corpo humano: “Cristo, salvador do Corpo, é a cabeça da Igreja" [3].

O Papa Paulo VI recorda que não é possível amar Cristo sem a Igreja, chamando tal dicotomia de absurda: “Como se poderia querer amar Cristo sem amar a Igreja, uma vez que o mais belo testemunho dado de Cristo é o que São Paulo exarou nestes termos: 'Ele amou a Igreja e entregou-se a si mesmo por ela' (Ef 5, 25)?" [4]. Também o Papa Francisco, em seus discursos e meditações na Casa Santa Marta, tem repetido esse ensinamento. E ainda Pio XII, ao destacar que Jesus podia distribuir as graças “diretamente por si mesmo a todo o gênero humano", ensina que Ele:

“Quis, porém, comunicá-las por meio da Igreja visível, formada por homens, a fim de que por meio dela todos fossem, em certo modo, seus colaboradores na distribuição dos divinos frutos da Redenção. E assim como o Verbo de Deus, para remir os homens com suas dores e tormentos, quis servir-se da nossa natureza, assim, de modo semelhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para continuar perenemente a obra começada." [5]

O grande escândalo que as pessoas experimentam em relação à necessidade da Igreja diz respeito especialmente ao fato de ela, ainda que indefectivelmente santa, possuir em seu seio membros pecadores, que não raras vezes maculam a sua imagem e ação no mundo. Sobre isso, Pio XII explica que, “se às vezes na Igreja se vê algo em que se manifesta a fraqueza humana, isso não deve atribuir-se (...) [senão] àquela lamentável inclinação do homem para o mal". E remata dizendo que, “se alguns de seus membros estão espiritualmente enfermos, não é isso razão para diminuirmos nosso amor para com ela, mas antes para aumentarmos a nossa compaixão para com os seus membros" [6].

À luz disso, é possível entender o significado correto do adágio Ecclesia semper reformanda est. As reformas genuínas brotam dos corações que amam Nosso Senhor, dos espíritos apaixonados de homens e mulheres que não temem renunciar a seus desejos e suas ideias para se configurarem totalmente a Cristo, que é a cabeça da Igreja [7]. É por Ele que acontecem as verdadeiras reformas: se, pelos pecados dos homens, a Igreja está em constante renovação, é sempre por iniciativa divina que ela se renova; se, pelas faltas dos membros, o Corpo fica ferido, é sempre pela ação da graça que acontece a cura.

O agir de Deus, no entanto, se faz necessitado da liberdade humana. Assim como Ele fez depender do fiat de uma Virgem a sua entrada no mundo, faz depender do “sim"de cada um de nós a Sua ação providente. Se destemida e generosamente nos lançamos a esta misteriosa aventura que é a vontade de Deus, santificamo-nos e edificamos a Cidade de Deus; se, ao contrário, mesquinha e covardemente nos fechamos no comodismo de nossos caprichos e veleidades – apegando-nos ciosamente a nós mesmos, para usar a expressão do Apóstolo [8] –, destruímo-nos e regressamos à perecível cidade dos homens, na qual só reinam o erro e a confusão.

Não desanimemos se o demônio odeia a Igreja. Lembremo-nos, antes, da advertência de Nosso Senhor aos Apóstolos: “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como ama o que é seu; mas, porque não sois do mundo, (...) o mundo vos odeia" [9].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica, 12 ottobre 1952
  2. Mt 16, 18
  3. Ef 5, 23
  4. Evangelii nuntiandi, 16
  5. Mystici Corporis, 12
  6. Ibidem, 64
  7. Cf. Papa Bento XVI, Homilia na Santa Missa Crismal, 5 de abril de 2012
  8. Cf. Fl 2, 6
  9. Jo 15, 18-19

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Guardar como um tesouro

A doutrina cristã não pode ser alterada porque é por meio da fé em Jesus Cristo que o homem chega à salvação

O dever de guardar e ensinar a doutrina cristã tal qual a recebemos dos apóstolos constitui uma tarefa fundamental para a Igreja, porque é por meio da fé em Jesus Cristo que o homem pode chegar à salvação. Esse ministério, por sua vez, encontra sua justificativa nas próprias palavras do Evangelho: foi Cristo quem primeiro prometeu o repouso para as almas de todos aqueles que tomassem seu jugo e recebessem sua doutrina [1]. É por isso que, desde o princípio de sua missão, a Igreja procurou defender o conteúdo da fé de todo e qualquer possível desvio. A tutela do depositum fidei corresponde àquela parábola do Evangelho que compara o Reino dos Céus a um tesouro [2]. Assim como o homem que o encontra e o mantém escondido, também a Igreja guarda a fé, a fim de que ela chegue aos ouvidos dos fiéis com toda a sua integridade.

Ao longo de sua história, a Igreja foi inúmeras vezes instada a professar “a razão de sua esperança" [3], sobretudo quando se punha em risco a verdade sobre Nosso Senhor Jesus Cristo. Fala-nos mais alto o testemunho de tantos mártires que, postos à prova pelos poderes seculares, preferiram o derramamento do próprio sangue a negar um artigo sequer das disciplinas sagradas: Beato José Sanchez del Río que, negando-se a blasfemar contra Deus, morreu pelas mãos de seus algozes com o grito de “Viva Cristo Rei" nos lábios; Edith Stein, a santa filósofa, morta pelos sequazes de Hitler, como forma de vingança pelas condenações dos bispos holandeses aos crimes do nazismo; São Thomas More, o “maior de todos os ingleses", que, diante do sanguinário Henrique VIII, não hesitou a expor os erros do soberano da Inglaterra – “ a Igreja é una e indivisível, e vós não tendes autoridade alguma para fazer uma lei que quebre a unidade cristã" –, antes que sua cabeça rolasse sobre o cepo [4]. De fato, no trabalho apostólico exercido pela Igreja, frequentemente atormentada pelas tentações do mundo, irrompe-se o alerta de São Josemaría Escrivá aos seus filhos espirituais:

Assim também é a Igreja, não toca em nada, em nenhuma coisa essencial, de forma nenhuma; os sacramentos são os mesmos, os mandamentos são os mesmos, o sacrifício do altar é o mesmo.

Essa santa intransigência vista nos santos deve-se à consciência de que a religião católica não é uma invenção humana, manipulável ao sabor das modas, mas uma revelação divina confiada à Igreja. Trata-se de um caminho designado por Deus; Ele é o único autor da fé. Não por menos o Papa João XXIII, ao início do Concílio Vaticano II, declarou que a tarefa mais importante daquele evento era guardar e ensinar o depósito sagrado da doutrina cristã de forma mais eficaz [5]. João XXIII vislumbrava, neste discurso, o apelo de seu predecessor, Pio XII, na Encíclica Summi Pontificatus [6]:

Quem quer que pertença à milícia de Cristo – eclesiástico ou leigo – não deveria acaso sentir-se estimulado e incitado a maior vigilância, a mais decidida defesa, ao ver que as fileiras dos inimigos de Cristo cada vez aumentam mais, ao perceber que os porta-vozes dessas tendências, renegando ou praticamente descurando as verdades vivificadoras e os valores contidos na fé em Deus e em Cristo, partem sacrilegamente as tábuas dos mandamentos de Deus para substituí-las com tábuas e normas que excluem a substância ética da revelação do Sinai, o espírito do Sermão da montanha e da cruz?

Não obstante o aviso dos dois grandes pontífices, não faltou à Igreja quem, em nome de um suposto “espírito do Concílio", ousasse partir as tábuas dos mandamentos de Deus, como condenava Pio XII, para substituí-las por falsos conceitos modernos [7]. Tamanha foi a crise que se desenvolveu entre os fiéis, que o próprio Papa Paulo VI, na missa de quinze anos de seu pontificado, se viu obrigado a admoestar tais teólogos a que deixassem de perturbar a Igreja: “chegou o momento da verdade e é necessário que cada um reconheça as suas responsabilidades perante as decisões que devem concorrer para a salvaguarda da fé" [8]. E ainda hoje esse pedido se faz ressoar. Se a fé se torna um canteiro de obras, onde qualquer um pode retirar ou acrescentar o que lhe aprouver, ela deixa de constituir um caminho de salvação. Torna-se, ao contrário, uma celebração vazia e autorreferencial.

O que distingue o cristianismo das demais religiões é justamente a encarnação do Verbo Divino. Reza o credo Niceno-Constantinopolitano sobre Jesus: “ Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, consubstancial ao Pai" [9]. Esse mesmo Verbo Encarnado confiou à sua Igreja a tarefa de ensinar a todos os povos a doutrina imutável de Deus, que conduz o gênero humano à salvação. “Daí ser necessária uma santa astúcia para guardar a fé", conclui o Papa Francisco [10]. Eis, portanto, o que deve fazer todo católico com sua fé: guardá-la como um tesouro.

Por Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Mt 11, 29.
  2. Mt 13, 44.
  3. I Pd 3, 15.
  4. Daniel-Rops, A Igreja da Renascença e da Reforma I - Coleção: História da Igreja. Vol. IV. São Paulo: Quadrante, 2013, pág. 451.
  5. João XXIII, Discurso de abertura do Concílio Vaticano II (11 de outubro de 1962), n. 5.
  6. Pio XII, Carta Enc. Summi Pontificatus (20 de outubro de 1939), n. 5.
  7. O verdadeiro “espírito" do Concílio Vaticano II.
  8. Paulo VI, Homilia de Sua Santidade na Missa de aniversário pelo XV ano de coroação pontifícia, Solenidade de São Pedro e São Paulo (29 de junho de 1978).
  9. Catecismo da Igreja Católica, n. 184.
  10. Francisco, Meditações matutinas na Casa Santa Marta (6 de janeiro de 2014).

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A lei suprema da Igreja é a salvação das almas

A presença da Igreja no mundo foi a forma querida por Deus para conter o avanço do inferno na Terra

A parusia, dia em que se aguarda a segunda vinda de Jesus à Terra, marca o fim do tempo para o príncipe deste mundo. É a época da história na qual Cristo faz a colheita do trigo, lançando ao fogo as sementes do joio. Deus une-se à humanidade por meio de Seu Corpo Místico, que habita na Igreja Católica[1], “coluna e sustentáculo da verdade" (Cf. Tm 3, 15). Neste dia, céus e terras serão testemunhas da glória do Senhor, entoando cânticos de louvor e adoração até os confins do universo.

Porém, antes que isso aconteça, o homem deve passar ainda pelo tempo da economia sacramental, cuja fonte não se encontra em outro lugar, senão na Igreja [2]. É dela que podemos haurir as graças necessárias para uma vida conforme os planos de Deus. Cristo age em nossa história – perdoando pecados e expulsando demônios – por meio de Sua Esposa. Naturalmente, como nos dias do ministério público de Jesus, a ação de “perdoar e exorcizar", ao mesmo tempo em que motiva os homens a crer, também impele os “incrédulos" a grasnar contra a Palavra de Deus. Com efeito, do mesmo modo que a multidão se reuniu para suplicar a Cristo que “deixasse aquela região" (Cfr. Mt 8, 34) também nos dias de hoje há quem se reúna para pedir o banimento da Igreja.

Para algumas mentes incautas – e outras não tão incautas assim –, a existência de uma instituição fiel à promessa de Cristo significa o “atraso" da sociedade, um resquício de épocas passadas, das quais deveríamos nos envergonhar. Isso explica o porquê de muitos rasgarem as vestes todas as vezes em que alguma pessoa ousa repetir o que está no Magistério da Igreja, sobretudo em questões controversas, não importando se o que se disse é verdade ou mentira. Para todos os efeitos, o que vem da boca de um católico – no linguajar mundano – é sempre “medieval" ou “obscurantista". Quando a Organização das Nações Unidas, por exemplo, aproveita-se da chaga da pedofilia para exigir do Papa que ele mude a posição católica quanto ao aborto e ao homossexualismo, ela não está a pregar a defesa das crianças. Muito pelo contrário, seu intuito é precisamente a destruição de tudo o que lembre a presença de Deus, posto que a família – formada necessariamente por um homem, uma mulher e a prole – é o reflexo da Santíssima Trindade. Que isto fique claro: para os arautos do pecado, a existência da Igreja é uma profecia insuportável!

Todavia, a Igreja não é o carrinho de doces da esquina nem o povo é o bicho de estimação, para receber somente afagos e carícias na cabeça. Salus animarum suprema Lexa salvação das almas é a lei suprema da Igreja, dizem os santos padres. Sendo a mãe dos filhos de Deus, é seu dever avivar a consciência dos homens, para que, cientes da necessidade de uma vida santa, vivam conforme as máximas do Evangelho. Quando muitos querem fazer desta vida uma eterna quaresma sem páscoa, faz-se imperioso que os cristãos anunciem a alegria da Boa-Nova, mostrando aos homens deste século que nenhum avanço técnico ou descoberta científica é capaz de trazer a felicidade eterna, tal qual a que nos é ofertada por Deus em Seu Filho Jesus. A alegria, conta-nos G.K. Chesterton, sempre foi a marca registrada do cristão, porque se vive na certeza de um Deus íntimo e pessoal, que se revela a si mesmo e torna “conhecido o mistério de sua vontade, pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina"[3].

A presença da Igreja no mundo, portanto, foi a forma querida por Deus para conter o avanço do inferno na Terra. E é por isso que, quer se queira quer não, ela continuará a “perdoar e exorcizar" as almas dos filhos de Adão.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Dominus Iesus, n. 16
  2. Padre Paulo Ricardo, A Economia Sacramental, Catecismo da Igreja Católica, aula 1
  3. Catecismo da Igreja Católica, n. 35