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A fórmula secreta de São João Bosco para ganhar na loteria

Quer saber como ganhar na loteria? São João Bosco revela os “números mágicos” que você deve jogar para sempre levar o prêmio.

Viveu, no século XIX, um homem muito famoso por seus milagres e profecias. Mesmo antes de morrer em odor de santidade, a fama de São João Bosco se espalhava por todos os lados. A uns, anunciava-lhes por quantos anos havia de viver; a outros, dizia-lhes a profissão que teriam no futuro; e, a muitos, adivinhava-lhes os pecados antes que os contassem no confessionário. Ao todo, Dom Bosco – como era chamado – realizou mais de oitocentos milagres.

Conta-se que um homem pobre, tendo ouvido falar das maravilhas que operava este humilde sacerdote, correu um dia à sua procura para perguntar-lhe algo muito importante: a fórmula para ganhar na loteria. O rapaz queria que o santo lhe dissesse que números deveria escolher na hora de comprar o bilhete.

São João Bosco pensou por um momento e logo lhe respondeu com plena segurança:

"Os 'números mágicos' para que você ganhe na loteria são estes: 10, 7 e 14. Jogue-os, em qualquer ordem, que você conseguirá."

O homem se encheu de alegria e já ia sair correndo para comprar o bilhete, quando o santo, tomando-o pelo braço, disse-lhe sorridente: "Um momento, porque não lhe expliquei bem os números, nem lhe disse de que tipo de loteria eu estava falando. Veja, estes números significam o seguinte:

O santo concluiu: "Se você cumprir estas três coisas: observar os Mandamentos, receber bem os Sacramentos e praticar as obras de misericórdia, ganhará na melhor e mais extraordinária de todas as loterias, que é a glória eterna do Céu."

O homem compreendeu e, ao invés de procurar a lotérica, foi ao asilo para oferecer uma esmola.

A esmola faz parte das 7 obras de misericórdia corporal, que são:

  1. Dar de comer a quem tem fome;
  2. Dar de beber a quem tem sede;
  3. Vestir os nus;
  4. Dar pousada aos peregrinos;
  5. Assistir aos enfermos;
  6. Visitar os presos;
  7. Enterrar os mortos.

Há ainda as obras de misericórdia espiritual, que são as seguintes:

  1. Dar bom conselho;
  2. Ensinar os ignorantes;
  3. Corrigir os que erram;
  4. Consolar os aflitos;
  5. Perdoar as injúrias;
  6. Sofrer com paciência as fraquezas do próximo;
  7. Rogar a Deus por vivos e defuntos.

Longe de ser uma invenção distante da realidade, a lista das obras de misericórdia constitui uma forma prática de viver o próprio mandamento do amor ao próximo, em atenção ao que Cristo ensinou e pediu que fizéssemos aos mais pequeninos dos nossos irmãos (cf. Mt 25, 40). Embora tenha sido negligenciada em alguns ambientes de catequese, essa relação continua sendo, junto com os Mandamentos e os Sacramentos, a escada segura para "ganhar na loteria" da vida eterna.

10, 7 e 14: invista todo o seu coração nestes números e você será verdadeiramente feliz aqui na terra e no Céu.

Fonte: Píldoras de Fé | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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- É pecado apostar na loteria? Assista a esse episódio do programa A Resposta Católica.

- Para conhecer mais sobre a vida de São João Bosco, não deixe de assistir à aula "Dom Bosco e as três alvuras da fé católica".

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Caminho livre para a canonização de Madre Teresa de Calcutá

Aprovado o segundo milagre atribuído à beata de Calcutá, está quase tudo pronto para que ela seja elevada à honra dos altares. O novo milagre dá testemunho da caridade de Madre Teresa, que, mesmo estando no Céu, não deixa de amparar os seus filhos.

O aval do Papa veio no dia do seu aniversário. Na tarde da quinta-feira, 17 de dezembro, Francisco ratificou o reconhecimento do milagre que levará a beata Madre Teresa de Calcutá à honra dos altares. Assim se concluiu o processo super miro ("sobre o milagre") da causa da "apóstola dos desvalidos". A data oficial da canonização será divulgada no próximo Consistório, mas estima-se que a cerimônia aconteça no dia 4 de setembro, ao longo do Ano Santo da Misericórdia.

O milagre tinha sido colocado sob a avaliação final dos bispos e cardeais reunidos na Congregação para a Causa dos Santos, no dia 15 de dezembro. Depois de escutarem a exposição de um proponente da causa, os prelados deram o seu parecer positivo e submeteram o caso à aprovação do Papa. Foi o último grau de julgamento na fase romana do processo sobre o milagre, iniciado em junho deste ano, na diocese brasileira de Santos, São Paulo.

A cura extraordinária, que aconteceu em 9 de dezembro de 2008, é relativa a um homem, hoje com 42 anos, que ficou às portas da morte por conta de "múltiplos abscessos cerebrais com hidrocefalia obstrutiva". De acordo com o diagnóstico, o paciente já tinha sido "submetido a um transplante renal e a terapia com imunossupressores", mas nada tinha adiantado. O caso clínico extremamente crítico e com um prognóstico quod vitam decididamente infausto se resolveu de repente, de modo total e duradouro, sem qualquer intervenção cirúrgica. No dia 10 de setembro deste ano, os membros da junta médica foram unânimes em considerar o tratamento da doença cientificamente inexplicável, com sete votos positivos, de sete.

Também unânime foi o voto sucessivo dos teólogos que, segundo o costume, são chamados a manifestar e redigir o próprio voto sobre a perfeita conexão de causa e efeito entre a invocação unívoca à beata Madre Teresa e a cura imprevista.

"Roguem a Madre Teresa que ela o cure"

À época dos fatos, o paciente, engenheiro de profissão, tinha 35 anos e estava casado há pouco tempo. Seu calvário tinha começado nos primeiros meses de 2008. Ao fim do ano, ele foi diagnosticado com oito abscessos cerebrais. Os cuidados médicos não surtiram nenhum efeito e o quadro clínico piorou depois, com o surgimento da hidrocefalia. Uma cirurgia deveria ser feita para afastar a possibilidade de morte, tida como iminente. No dia 9 de dezembro, já em coma, o paciente entrou na sala de operação. Por causa de problemas técnicos, todavia, a intervenção foi adiada. Enviado de volta à sala de cirurgia, depois de apenas uma meia hora de espera, o cirurgião encontrou o paciente surpreendemente sentado, acordado, sem quaisquer sintomas, perfeitamente consciente e perguntando: "O que eu estou fazendo aqui?".

"Eu nunca vi nada parecido", escreveu o médico em seu depoimento. "Dos outros casos semelhantes a esse, em 17 anos de profissão, todos estão mortos. Não posso dar uma explicação médica ou científica". Exames sucessivos confirmaram a cura definitiva da patologia cerebral e, em pouco tempo, sem nenhum sequela, o paciente pôde retornar ao seu trabalho e às suas atividades normais.

As provas documentais revelam que foram feitas muitas orações a Madre Teresa, especialmente durante a gravíssima crise de 9 de dezembro. Depois de perceber a gravidade da situação, a esposa do jovem profissional tinha pedido aos seus conhecidos que rezassem à beata de quem ela era devota: "Roguem a Madre Teresa que ela o cure". Exatamente naquela meia hora de espera da cirurgia, ela se achava com um sacerdote e outros familiares rezando a Madre Teresa na capela do hospital.

Invocada, a religiosa rapidamente interveio, vindo em auxílio de uma pessoa em condições extremas, como de resto sempre tinha feito em vida, dedicando-se ao cuidados dos moribundos e à assistência dos mais necessitados.

Uma mulher de profunda comunhão com Deus

O trabalho de Madre Teresa junto aos pobres é amplamente conhecido. O que permanece oculto para muitos é a sua profunda intimidade com o Santíssimo Sacramento, a qual constituía a força de toda a sua vida e apostolado. "A Missa é o alimento espiritual que me sustenta", ela dizia. "Sem ela, eu não conseguiria completar sequer um dia ou uma hora da minha vida."

Foi de diálogos com Jesus Eucarístico, por exemplo, que lhe vieram as inspirações para fundar a Congregação das Missionárias da Caridade, ainda em 1946. Ela era diretora de uma escola católica e sentiu forte o chamado de Deus para abandonar tudo e começar uma missão especial entre os pobres. Quando conseguiu a autorização de seu bispo, a única coisa que pedia para ela e suas irmãs era "ajuda espiritual". "Se tivermos nosso Senhor no meio de nós, com a Missa diária e a Santa Comunhão, não temo nada nem para minhas irmãs, nem para mim", escreveu ela ao prelado. "Ele cuidará de nós. Mas sem Ele, fraca que sou, eu não posso nada."

As suas palavras de amor à Eucaristia só confirmavam o lugar de destaque que Jesus tinha em todas as suas ações. Quem quer que visitasse o seu abrigo em Calcutá ficava surpreso ao ser levado, em primeiro lugar, à capela do Santíssimo. Jesus era "o Mestre da casa", como ela dizia, e era a Sua presença a grande motivação do seu trabalho. De fato, tanto na sua vida de oração quanto no seu apostolado de assistência aos mais necessitados, Teresa servia a uma só Pessoa: Jesus de Nazaré. "Na Missa – ela explicava –, nós temos Jesus sob a aparência do pão, enquanto, nas favelas, nós vemos o Cristo e O tocamos nos indigentes, nas crianças abandonadas."

As Missionárias da Caridade, portanto, não iam às ruas como agentes sociais e políticos, mas como servas indignas, chamadas a levar Jesus às casas e aos corações das pessoas. "Toda Santa Comunhão nos preenche de Jesus e nós devemos, com Nossa Senhora, ir depressa e dá-Lo aos outros", exclamava a beata Teresa.

Pouco a pouco, Cristo foi "tomando posse" da religiosa de Calcutá e transformando todo o seu ser, a ponto de ela poder exclamar, com São Paulo: "Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim" ( Gl 2, 20). Nesse processo de configuração a Cristo, Madre Teresa experimentou, a exemplo dos grandes místicos da Igreja, a chamada "noite escura", um processo de purificação por meio do qual a alma amante vai se desapegando das criaturas para encontrar o seu repouso em Deus.

Cartas escritas pela beata, divulgadas há alguns anos, fizeram referências a "dúvidas" e à sensação de um grande "vazio". Alguns jornais interpretaram tudo como o "ateísmo" de Madre Teresa. Quem conhece um pouco a vida dos santos, no entanto, sabe que esse caminho de "secura" e "escuridão" foi experimentado por todas as grandes almas de oração, desde o começo da Igreja até os dias de hoje. O Eclesiástico mesmo adverte, a quem quer que entre "para o serviço de Deus": "Prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus (...), a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça" (Eclo 2, 1-3). Fora da Cruz, verdadeiramente, não existe outra escada por onde subir ao Céu.

O corpo da bem-aventurada Madre Teresa está sepultado em Calcutá, junto à sede das Missionárias da Caridade. Sobre o seu túmulo branco despojado, está escrito um versículo do Evangelho de São João que se aplica perfeitamente a toda a sua vida – e deve aplicar-se à vida de todos quantos se dizem cristãos: "Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado" ( Jo 15, 12).

Com informações de Avvenire | Por Equipe CNP

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Mortos por não serem homossexuais

Conheça a história dos 22 mártires católicos de Uganda, que preferiram morrer a consentir nos desejos impuros do Rei Mwanga I. O seu testemunho atesta que “os prazeres mundanos e o poder terreno não dão alegria e paz duradouras”.

Papa Francisco durante visita a Uganda, 28 de novembro. Foto de L'Osservatore Romano.

Os primeiros missionários cristãos a pisarem no atual território de Uganda eram protestantes. Em 1877, eles foram acolhidos por Mutesa, o monarca de "Buganda" – como então era chamado o reino –, ficando livres para expandir a fé cristã em meio à população. A tolerância do Rei era tanta, que os missionários podiam pregar Jesus Cristo entre os próprios membros da sua corte. Mutesa mesmo, no entanto, não estava disposto a abandonar a poligamia – nem a circuncidar-se, como pedia o Islã. Apesar de aberto à pregação de todas as religiões, ele ficaria sem escolher nenhuma.

Dois anos mais tarde, em 1879, era a vez dos católicos serem acolhidos em seu reino: os Missionários da África – ou "Padres Brancos", como eram denominados – também passaram a evangelizar Uganda.

Em suas bocas, estava o discurso inflamado contra as práticas pagãs e supersticiosas dos nativos africanos. Os missionários da época não sacrificavam a fé no altar do "politicamente correto". Aderir a Cristo significava uma ruptura total com o antigo modo de vida, uma completa mudança de mentalidade e de comportamento. Ao aderir àquela "religião estrangeira", os abasomi – como eram chamados os convertidos à fé cristã – não só abandonavam as velhas tradições de suas tribos, como eram considerados "rebeldes" por seus compatriotas.

O martírio de José Mukasa

Um desses conversos, o seminarista católico José Mukasa, era particularmente importante para a evangelização em Buganda. Amigo pessoal tanto de Mutesa quanto de seu filho Mwanga, Mukasa tinha levado a fé a muitos dos jovens pajens que trabalhavam na corte real. A sua posição de influência junto do Rei confirmava ainda mais a sua liderança e eram muitos os que se faziam católicos graças à sua pregação.

No entanto, aproximava-se o dia em que o mordomo real teria de escolher entre Deus e César, entre o amor à Igreja e a lealdade ao Rei.

De fato, tão logo assumiu o trono em lugar de seu pai, Mwanga I demonstrou-se um verdadeiro inimigo da religião cristã. Os seus motivos eram manifestos. Influenciado por más amizades, Mwanga começou a praticar a homossexualidade e, não podendo suportar as críticas da moral cristã a esse comportamento, passou a perseguir sistematicamente os cristãos de Buganda – tanto anglicanos, quanto católicos. Também não lhe agradava a rejeição dos cristãos ao tráfico de escravos, o qual constituía uma importante fonte de recursos para o reino. Para que pudesse agir como bem entendesse, Mwanga tinha tomado uma firme decisão: teria que riscar o cristianismo do mapa de seu reino.

No dia 31 de janeiro de 1885, os jovens anglicanos Makko Kakumba, Yusuf Rugarama e Nuwa Sserwanga foram as primeiras vítimas do Rei. Eles foram desmembrados e queimados no povoado de Busega, ao sul do país. Não contente com a execução, em outubro do mesmo ano, Mwanga ordenou o assassinato do bispo anglicano James Hannington, alegando "más intenções" por parte do prelado, só por ele ter entrado no reino por uma rota mais curta que a tradicional.

Tamanha barbaridade suscitou a indignação de José Mukasa, que – a exemplo de Natã diante do rei Davi – reprimiu severamente Mwanga, por matar Hannington sem ao menos dar-lhe a oportunidade de defender-se. Outra crítica, todavia, fez acender de vez a cólera real: avesso à homossexualidade do monarca, Mukasa pediu a Mwanga que parasse de compelir os membros da corte às suas imoralidades. De fato, a promiscuidade do Rei era insaciável e ele não hesitava em transformar os seus súditos em "parceiros sexuais". Como reação a isso, José não apenas tinha ensinado os rapazes a resistirem, como fez questão de deixá-los longe do alcance do Rei.

Perturbado com as críticas de Mukasa, Mwanga jogou-o na prisão e, no dia 15 de novembro, mandou queimá-lo publicamente, para que servisse de exemplo a todo o povo de Uganda. Antes de morrer, disse ao seu executor: "Um cristão que dá a sua vida a Deus não tem razão para temer a morte. Diga a Mwanga que ele me condenou injustamente, mas eu o perdoo de todo o meu coração." O carrasco ficou tão impressionado que decapitou-o antes de amarrá-lo e queimar o seu corpo.

O massacre de Namugongo

Muitos outros cristãos caíram nas mãos de Mwanga, totalizando um número de 45 mártires (22 deles católicos). A perseguição da Coroa à fé cristã duraria até o dia 27 de janeiro de 1887, com a morte do católico Jean-Marie Muzeeyi. De todas as atrocidades cometidas por Mwanga, porém, a pior de todas foi o massacre de Namugongo, quando 26 cristãos, sob a liderança de São Carlos Lwanga, foram mortos de uma só vez.

Apontado pelo Rei como novo mordomo da corte, Lwanga não demoraria a causar novos problemas à Coroa. Assim como Mukasa, de fato, Carlos sabia ser "necessário antes obedecer a Deus que aos homens" ( At 5, 29). Uma de suas primeiras preocupações à frente do palácio foi justamente proteger os jovens cristãos dos desejos luxuriosos do monarca. Certa vez, um dos pajens se recusou a manter relações sexuais com o soberano. Perguntado qual era o seu motivo, ele respondeu que estava recebendo catequese de um católico. Tomado pela ira, Mwanga chamou o responsável à sua presença, tomou sua lança e decepou a sua cabeça, sem piedade. 26 de maio de 1886, Daniel Ssebuggwawo é a vítima da vez.

Ainda insatisfeito, o Rei convocou toda a corte para o dia seguinte. Carlos Lwanga, prevendo o que haveria de acontecer, deu o sacramento aos quatro catecúmenos que ainda não tinham recebido o Batismo – entre eles, uma criança de 14 anos, chamada Kizito. No outro dia, logo de manhã, Mwanga separou de sua corte todos os cristãos e, depois de pedir inutilmente que abandonassem a sua fé, condenou-os todos à morte.

"Quem dentre vocês não tiver a intenção de rezar, pode ficar aqui ao lado do trono; aqueles, porém, que quiserem rezar, reúnam-se contra aquele muro", teria dito o Rei, na ocasião. Lwanga foi o primeiro a dirigir-se ao muro, seguido por outros tantos. Mwanga, então, perguntou-lhes: "Mas vocês rezam de verdade?", ao que Carlos respondeu: "Sim, meu senhor, nós rezamos e queremos continuar até a morte".

Alguns deles foram mortos ainda naquele mês, como o católico Nowa Mawaggali, que padeceu estraçalhado por cães selvagens. A maioria, porém, estava destinada a morrer em Namugongo, no dia 3 de junho de 1886.

Era uma quinta-feira da Ascensão do Senhor e os prisioneiros, sentenciados à fogueira, estavam tranquilos e alegres diante de seu veredito. A fila de condenados partia ao lugar da execução, rezando bem alto e recitando o Catecismo pelo caminho. O pequeno Kizito simplesmente sorria, como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira. Testemunhas oculares relatavam a alegria e a confiança dos mártires, encorajando uns aos outros, enquanto eram amontoados em uma grande fogueira por seus carrascos.

"Invoque o seu Deus, e veja se ele pode salvá-lo", disse um deles. "Pobre louco", replicou São Carlos Lwanga. "Você está me queimando, mas é como se estivesse derramando água sobre o meu corpo."

Os outros prisioneiros estavam igualmente calmos. Das chamas ardentes, só se ouviam as suas orações e canções, que ressoavam cada vez mais alto. Quem assistiu à execução atesta nunca ter visto ninguém morrendo daquela forma.

"Semente de novos cristãos"

São Carlos Lwanga e os outros 21 mártires católicos de Uganda foram beatificados pelo Papa Bento XV, em 6 de junho de 1920, e canonizados por Paulo VI, em 18 de outubro de 1964.

Recentemente, durante viagem apostólica à África, o Papa Francisco visitou o Santuário dos Mártires de Namugongo e celebrou uma Missa em sua honra. "O testemunho dos mártires mostra a quantos, ontem e hoje, ouviram a sua história que os prazeres mundanos e o poder terreno não dão alegria e paz duradouras", disse o Santo Padre. "São a fidelidade a Deus, a honestidade e integridade da vida e uma autêntica preocupação pelo bem dos outros que nos trazem aquela paz que o mundo não pode oferecer."

Assim como em outros tempos da Igreja, o sangue desses homens valorosos foi um incentivo para a conversão de muitos outros. O reino de terror instaurado por Mwanga não teve o efeito pretendido: ao invés de diminuir, o número de cristãos só aumentou cada vez mais. Realmente, como escreve Tertuliano, "sanguis martyrum semen christianorum – o sangue dos mártires é semente de novos cristãos".

Hoje, Uganda é um país majoritariamente cristão, graças ao exemplo desses jovens mártires, que resistiram a um governo ímpio para guardar a sua fé e a sua castidade. Notoriamente, trata-se do país africano que mais avanços obteve no combate à AIDS, graças a um programa de saúde que envolve principalmente – mais do que a simples distribuição de preservativos – a abstinência e a fidelidade no casamento. O programa já foi elogiado por especialistas e apontado como o mais eficaz na contenção do vírus HIV.

A primeira-dama do país, Janet Museveni, fala abertamente aos universitários sobre a castidade. "Honrem seus corpos como templo de Deus", ela diz. "Não tomem atalhos nem ponham em perigo suas vidas, utilizando meios inventados pelo homem, como os preservativos, e indo contra o plano de Deus para suas vidas."

Para quem teve Mwanga no passado, é alentador ter uma posição tão contundente defendendo a castidade do alto dos telhados. Que São Carlos Lwanga e seus 21 companheiros mártires sigam intercedendo pela África e por todo o mundo, a fim de que a castidade que os conduziu ao martírio arda no coração dos nossos jovens e também os leve a um testemunho irrepreensível de amor a Cristo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Pai de família morto por se opor a ‘magia negra’ é beatificado na África do Sul

Foi o martírio o que levou Benedict Daswa à honra dos altares. Ele morreu porque se negou a cooperar com as práticas pagãs e supersticiosas de seus conterrâneos.

Beatificações e canonizações são momentos muito importantes na vida da Igreja e, apesar disso, são muitos os católicos que não ficam a par desses eventos, a menos que a pessoa em questão seja famosa – como um São João Paulo II ou uma Beata Teresa de Calcutá – ou venha de sua própria terra natal.

No último dia 13 de setembro, a Igreja do mundo inteiro se uniu ao povo da África do Sul em ação de graças pela vida e pelo testemunho de Benedict Daswa.

O bispo da diocese de Tzaneen, Joao Noe Rodriguez, vê a beatificação como uma evento verdadeiramente significativo não só para a comunidade sul-africana, como para toda a Igreja universal.

"Não estamos celebrando a memória de Benedict Daswa por nacionalismo, mas porque ele era um homem de muita fé. E isso é o que é bonito: ele era um de nós e, ao mesmo tempo, profundamente comprometido na vida da sua família, do seu trabalho e da sua comunidade. Um homem que estava servindo, ajudando e educando: uma completa inspiração de fé para todos."

Esposo, pai e professor

Nascido no vilarejo de Mbahe, província de Limpopo, a 16 de junho de 1946, Tshimangadzo Samuel Daswa foi criado em meio à tribo dos lemba, um grupo étnico e religioso que observa leis e rituais judaicos tradicionais.

Na juventude, trabalhou como pastor de rebanhos, antes de começar sua educação formal, em 1957. Após a morte inesperada de seu pai, assumiu a responsabilidade financeira por sua família, trabalhando para sustentar seus três irmãos e sua irmã, a fim de que continuassem estudando.

Durante as férias escolares, viajando para Johannesburgo à procura de emprego, Samuel se aproxima de um jovem cristão e começa a frequentar círculos de amigos católicos.

Na volta para Mbahe, ele começa a receber formações de um catequista leigo, Benedict Risimati, que lhe oferece aulas semanais e uma celebração dominical debaixo de uma figueira do vilarejo (a Missa era celebrada apenas uma vez por mês). Risimati exerce forte influência sobre o jovem Daswa, que, depois de receber catequese por dois anos, é batizado, no dia 21 de abril de 1963, com o nome cristão de "Benedict". Até o fim de sua vida, ele será inspirado pelo lema de São Bento: "Ora et labora – Reza e trabalha".

Benedict consegue obter sua graduação e passa a dar aulas na escola primária de uma vila próxima. Serve aos seus alunos e a toda a comunidade como professor e catequista, além de desenvolver um trabalho de caridade com as famílias mais pobres. Por sua honestidade e dedicação como professor, pouco a pouco conquista o respeito e a estima de todos no vilarejo.

Ele ajuda a construir a primeira igreja da vila de Nweli e, em 1º de janeiro de 1979, torna-se diretor da escola da região. Em seu novo posto, ele trabalha dando apoio a seus professores e proteção a seus estudantes. Quando estes faltam às aulas, ele procura as famílias para ver se precisam de ajuda. Conta-se que ele chegou a convencer um pai a permitir que sua filha terminasse os seus estudos, evitando que ela se casasse com um homem mais velho. Alunos impossibilitados de pagar as taxas da escola recebem dinheiro trabalhando em sua horta e na colheita de alimentos, os quais são distribuídos a famílias carentes do vilarejo.

Em 1980, Benedict casa-se com Shadi Eveline Monyai. O jovem e fecundo casal será abençoado com oito filhos. Ele ficou conhecido por quebrar a tradição dos venda, ajudando a sua esposa nas tarefas domésticas. Seu comportamento era tão chocante que alguns no vilarejo acreditavam que ele estava enfeitiçado.

Um mártir pela fé

Em novembro de 1989, chuvas carregadas e temporais relampejantes causam danos severos à região. Em janeiro de 1990, os líderes do vilarejo começam a dizer que as tempestades se devem à ação de "magia negra". Eles exigem que os moradores da vila paguem uma taxa, a fim de contratar um curandeiro e identificar o bruxo responsável pela maldição.

Benedict, que não participou nem da discussão nem da decisão, recusa-se a pagar, observando que tudo aquilo não passava de um fenômeno natural. Ele estava particularmente preocupado por aquela repentina adesão a superstições antigas e à crença de que um bruxo poderia ter causado os relâmpagos. Sua atitude era explicada, sobretudo, por sua fé católica, que o proibia de participar em qualquer coisa ligada à feitiçaria ou a atos de violência.

Muitos no vilarejo, porém, viram a sua resistência em cooperar como um ataque às crenças tradicionais da comunidade. O veredito final? Benedict deveria ser morto.

No dia 2 de fevereiro de 1990, voltando de carro para casa, Benedict encontra a estrada bloqueada por uma árvore caída. Enquanto tenta limpar o caminho, é atacado por um grupo de jovens rapazes que começam a atirar-lhe pedras. Sangrando e machucado, ele deixa seu carro e sai à procura de ajuda em uma cabana próxima. Quando os criminosos chegam à cabana, ameaçam matar as donas da casa, caso elas não revelem onde Benedict está escondido. Ouvindo as ameaças, Benedict sai de seu esconderijo e pergunta-lhes por que, afinal, eles queriam matá-lo. Sem responder, eles atacam Benedict e espancam-no até a morte. – Senhor, em tuas mãos recebe o meu espírito – são as últimas palavras de Daswa.

O caminho para a beatificação

A Missa de funeral foi celebrada no dia 10 de fevereiro. A procissão com o seu corpo saiu da casa onde ele morava até a igreja que ele tinha ajudado a construir, em Nweli. Durante a cerimônia, todos os padres trajaram paramentos vermelhos, demonstrando a firme convicção de que Benedict tinha morrido como mártir.

A causa de beatificação de Benedict Daswa foi aberta em 10 de junho de 2008. No último dia 22 de janeiro, o Papa Francisco reconheceu o seu martírio, abrindo o caminho para a sua beatificação.

Seguindo uma tradição antiquíssima da Igreja, os restos mortais de Benedict foram removidos de seu túmulo em 24 de agosto, em preparação para a sua beatificação. Durante a exumação, estiveram presentes todos os seus filhos. A pedido deles, o seu caixão foi primeiramente transportado para junto do túmulo de sua amada esposa (que morreu em 2008). Ali, seus restos físicos foram examinados e pequenas partículas de seus ossos e pedaços de sua roupa foram removidos, para serem venerados como relíquias. Por fim, o caixão foi lacrado e coberto com um tradicional tecido claro dos venda. Depois, foi levado por seus filhos a uma urna recém construída na igreja paroquial de Mbahe.

Uma companhia no caminho para o Céu

São Jerônimo escreveu certa vez que "o martírio não consiste apenas em morrer pela fé, mas também em servir a Deus com amor e pureza de coração todos os dias da nossa vida". O bem-aventurado Benedict Daswa é uma dessas almas agraciadas que viveram esse mistério de maneira particularmente efetiva em sua própria vida. Foi o que disse o Papa Francisco, no dia 13 de setembro, durante a tradicional oração do Angelus, na Praça de São Pedro:

"Na sua vida, [Benedict] demonstrou sempre muita coerência, assumindo corajosamente atitudes cristãs e rejeitando hábitos mundanos e pagãos. O seu testemunho ajude especialmente as famílias a difundir a verdade e a caridade de Cristo. E o seu testemunho junta-se ao de tantos nossos irmãos e irmãs, jovens, idosos, adolescentes, crianças, perseguidos, expulsos, assassinados por confessarem Jesus Cristo."

Comprometido com sua família e com sua vocação de pai e professor, Benedict realmente fez da fé católica o primeiro ponto de referência em todos os aspectos de sua vida.

Em entrevista concedida antes da beatificação, o arcebispo William Slattery, de Pretória, capital da África do Sul, afirmou que o bem-aventurado Benedict Daswa é honrado como mártir e exemplo não só para o povo sul-africano, como para o mundo inteiro: "O Papa está dizendo: Povos do mundo, eis um antepassado espiritual, um exemplo para o mundo inteiro, e, também, uma companhia em nosso caminho rumo a Deus. Porque todos nós somos uma família: vivos e mortos, todos nos movemos na direção d'Ele."

O arcebispo concluiu dizendo que "os santos e os beatos são presentes de Deus para nós, um exemplo da graça de Deus operando em Seu povo".

Fonte: Aleteia | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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O testamento de um Rei santo para seu filho

Confira a carta que São Luís IX da França deixou a seu filho e descubra a maior glória que um Rei pode possuir neste mundo: ser servo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

São Luís IX, Rei da França, que entre 1214 e 1270 governou generosamente um povo com extrema piedade e coração inflamado de amor a Deus, não poderia deixar que cada um de seus súditos ficassem sem sentir e entender quem era o verdadeiro Rei do Universo.

Sua dedicação no zelo para com os pobres e sua humildade pública comoviam os corações mais endurecidos.

Fazia questão de que todos tivessem acesso aos sacramentos e vivessem uma vida íntima de adoração ao Senhor. Para isso pagou uma quantia de 135 mil libras para que a Santa Coroa de espinhos de Nosso Senhor e um pedaço do Preciosíssimo Lenho fossem trazidos de Jerusalém.

Para abrigá-los dignamente, contruiu a grandiosa Catedral gótica de Sainte Chapelle.

Ao final de sua vida, padecendo mortalmente de tifo, que contraíra na última cruzada em Túnis na África, deixou um legado a seu filho, o futuro Rei Felipe III da França, de cujas palavras talvez somente o grande Patriarca São José seria capaz:

"Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todas as tuas forças; pois sem isto não há salvação.

Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal.

Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito e que talvez a tenhas merecido. Além disto, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo valendo-te dos seus dons.

Ouve com boa disposição e piedade o ofício da Igreja e enquanto estiveres no templo, cuides de não vagueares os olhos ao redor, de não falar sem necessidade; mas roga ao Senhor devotamente, quer pelos lábios, quer pela meditação do coração.

Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda; põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas.

Sê dedicado e obediente à nossa mãe, a Igreja Romana, e ao Sumo Pontífice como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e a heresia.

Ó filho muito amado, dou-te enfim toda a benção que um pai pode dar ao filho; e toda a Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém."

São Luís IX faleceu em 25 de agosto de 1270, após os últimos ímpetos em favor da Oitava Cruzada. Seu corpo foi colocado sobre um leito de cinzas, em sinal de humildade, e os braços em cruz, à imagem de Jesus Cristo.

Fonte: Bibliothèque de l'École des Chartes | Tradução: Equipe CNP

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A conversão de São Bernardo de Claraval

Para fugir do pecado da impureza, São Bernardo de Claraval se lançou sem hesitar em um lago gelado. A atitude do santo deixa evidente a natureza da batalha que trava todo aquele que se faz eunuco “por causa do Reino dos céus”.

Tendo recebido desde cedo uma sólida formação religiosa, Bernardo foi aluno notável em sua mocidade. Quando recebia alguma lição que contrariasse os mistérios da fé e a doutrina cristã, "recorria à oração e à meditação das Sagradas Escrituras para neutralizar o veneno inalado nas aulas" [1]. (Nenhum conselho pode ser tão útil para os nossos dias.) Mais tarde, o mesmo Bernardo será visto debatendo e debelando os erros dos professores de sua antiga escola.

Depois da morte de sua piedosa mãe, no entanto, o jovem rapaz foi atingido por uma tristeza acabrunhante. O luto se tinha apoderado totalmente de sua alma e ele não achava consolação em nada do que fazia, nem mesmo na oração, à qual já estava tão habituado, apesar da breve idade. Era final de agosto de 1110 e Bernardo contava cerca de 20 anos.

Instado por sua irmã Umbelina a distrair-se e passar tempo com os jovens que frequentavam o castelo, Bernardo começou a acercar-se de más companhias e brincar à beira do precipício dos maus costumes (cf. 1 Cor 15, 33). Como mais tarde escreveu ele ao Papa Eugênio III:

"No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis. Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão." [2]

Para acordar Bernardo e impedir que a sua alma se perdesse, Deus permitiu que lhe sobreviessem fortes tentações, das quais a última, relativa ao pecado da impureza, fê-lo mudar totalmente de vida:

"Esquecido de sua vigilância habitual, permitiu que os seus olhos pousassem por um momento em um objetivo perigoso. Pela primeira vez, experimentou a rebelião da carne. Alarmado, então, perante o espectro do mal e pleno de remorsos pela sua falta, implorou imediatamente o auxílio do céu e, afastando-se do local, foi mergulhar em um pequeno lago e ali se manteve, meio morto de frio, até que a perturbação interna desapareceu totalmente. Das palavras de seus primeiros biógrafos conclui-se que decidiu naquele momento permanecer perpetuamente casto." [3]

Esse episódio da vida de São Bernardo deve servir de inspiração a todos os cristãos na luta pela castidade, principalmente no mundo de hoje, tão avesso a essa virtude.

O fato de que o santo se tenha lançado em um lago gelado para não pecar contra a castidade mostra a natureza da batalha que aqui se trava. Como diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 19, 12), "existem eunucos que nasceram assim do ventre materno" e "outros foram feitos eunucos por mão humana", isto é, alguns foram privados do sexo por natureza e outros por necessidade. Há, porém – e só assim se pode falar propriamente de "virtude" –, aqueles que se tornaram "eunucos por causa do Reino dos céus". Embora aqui Cristo esteja se referindo especificamente ao celibato, a sua consideração é válida para todos os cristãos, chamados que são a viver a santa pureza: porque o "ser eunuco" só é louvável e recompensado por Deus na medida em que é escolhido livremente pelo homem [4].

Os santos não eram "eunucos físicos", sem sensibilidade e sem paixões humanas, mas "homens de carne e osso", como quaisquer outros. A sua diferença é que, auxiliados pela graça divina, eles se fizeram "eunucos espirituais". Mas, isso (atenção!) por causa do Reino dos céus – e só por causa desse Reino (presente em suas almas pela graça santificante), eles estavam dispostos a tudo: a revolver-se na neve, como fez São Francisco de Assis; a jogar-se em um arbusto de espinhos, como fez São Bento; a mergulhar em um lago gelado, como São Bernardo [5]; ou mesmo a morrer, como fizeram tantos mártires ao longo da história da Igreja.

Pela vida dos santos, é possível concluir que a castidade não é um mero jogo de cálculos humanos: fosse assim, todas essas mortificações – recomendadas pelo próprio Evangelho (cf. Mt 5, 29-30) – não teriam sentido algum. Por que privar-se de algo prazeroso e, ao mesmo tempo, fazer arder o corpo no frio ou mesmo perder a própria vida? Por que tanto "radicalismo" com essa história de "castidade"? Porque, ontem, assim como hoje, os seguidores de Cristo não se fizeram eunucos "por mãos humanas": eles viveram (e vivem) a pureza por causa do Céu – e só a vida eterna pode explicar a sua abnegação e os seus sacrifícios, em que pese todo o desprezo do mundo.

Depois do episódio acima referido, como se sabe, Bernardo consagrou-se por inteiro a Deus e entrou na vida religiosa como monge cisterciense. Em 20 de agosto de 1153, partiu deste mundo, deixando na terra a sua notável fama de santidade, além de obras de incalculável valor espiritual.

No dia em que a Igreja celebra a memória deste grande doutor da Igreja, peçamos a sua intercessão. Que ele nos ajude a viver inteiramente para Deus, independentemente do estado de vida em que o Senhor nos colocou: na vida leiga ou consagrada, na vida sacerdotal ou matrimonial, todos são convocados à castidade, à entrega total do próprio ser e à santidade – porque, afinal, todos são chamados para amar.

São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendações

Referências

  1. A conversão de São Bernardo, II, 9.
  2. Da Consideração (trad. Ricardo da Costa), I, 2 (PL 182, 730).
  3. A conversão de São Bernardo, III, 6.
  4. Cf. Santo Hilário apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, XIX, 3.
  5. Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 143.

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Ser devoto de Santo Tomás More hoje

De Conselheiro do Rei a "traidor" da Coroa. Conheça a vida de Santo Tomás More, “o homem que não vendeu a sua alma”.

O que a história de um leigo que viveu há 480 anos tem a ensinar ao homem moderno? É a pergunta que devem fazer todos os católicos, ao celebrarem a memória de Santo Tomás More (22/06) – ao qual foi reservado o epíteto de "o homem que não vendeu a sua alma".

Antes de qualquer coisa, cabe fazer uma breve narrativa de sua vida, contando como a sua cabeça foi parar na bandeja por ordem do então príncipe da Inglaterra, o Rei Henrique VIII.

Homem erudito, esposo fiel e pai de quatro filhos, More foi nomeado Conselheiro do Rei (Lord Chancellor, em inglês) no ano de 1529, em meio a uma crise moral na Coroa. Henrique VIII era casado com Catarina de Aragão, mas tentava junto ao Papa conseguir a dissolução de seu casamento. A desculpa para a sanha adúltera do príncipe era o argumento de que Catarina não lhe dava um herdeiro homem. Como o Papa não lhe concedia o rompimento de seu matrimônio – fiel à palavra de Cristo, segundo a qual não se pode separar o que Deus uniu (cf. Mt 19, 6) –, ele mesmo fez questão de casar-se com Ana Bolena, então dama de companhia de sua legítima consorte. Sem autoridade espiritual que confirmasse as suas novas núpcias, Henrique VIII – o qual anos antes defendera a Igreja Católica das heresias do protestantismo – se autoproclamou líder da Igreja da Inglaterra.

Quando tudo isso aconteceu, Tomás More, tendo previsto o desastre que se anunciava, já havia renunciado às suas funções públicas junto à Coroa, em 1532. Não querendo entrar em imbróglios, ele saiu da política, silenciosamente. Sendo um homem justo, decidiu abandonar o Rei em segredo. O seu silêncio, porém, a sua recusa em aprovar o adultério de Henrique, falavam alto demais. Mesmo não pertencendo mais ao governo inglês, More foi perseguido pelo Rei e, negando-se a obedecer às suas arbitrariedades, foi condenado por alta traição à Coroa. No dia 6 de julho de 1535, aprisionado na Torre de Londres, More acabou decapitado, simplesmente por não se prostrar às determinações tirânicas do Rei. (Um ano mais tarde, incapaz de dar um herdeiro aos Tudors, também Ana Bolena seria executada por Henrique, que ainda se casaria com outras 4 mulheres antes de morrer.)

A história de Tomás lembra, mutatis mutandis, o martírio de São João Batista. A criminosa em questão era Herodíades, que, não suportando ouvir de João a reprovação de sua vida de adultério, pediu ao Rei Herodes a sua cabeça em uma bandeja (cf. Mt 14, 1-12). Por defender a verdade até o fim, entregando com isso a sua própria vida, João Batista não é venerado apenas como profeta, mas principalmente como mártir.

Importa reconhecer, porém, que as vidas desses dois grandes santos, separadas por aproximados 15 séculos, está unida por um martírio diferente dos martírios comuns. Quem ouve as glórias dos primeiros cristãos, mortos nas arenas do Coliseu por não prestarem culto a César, pode ser tentado a ter em pouca conta a decapitação de João e Tomás porque, afinal, nem Herodes nem Henrique pediram a eles que os adorassem, no sentido próprio do termo. Contudo, "o cristão sofre – lembra Santo Tomás – não apenas sofrendo por uma confissão de fé em palavras, mas também cada vez que sofre para realizar um bem qualquer, ou para evitar um pecado qualquer por causa de Cristo". Por isso, "as obras de todas as virtudes, enquanto se referem a Deus (...) podem ser causa de martírio" [1].

Eis, portanto, a primeira grande lição que se pode extrair da vida de Santo Tomás More e de São João Fisher, seu companheiro mártir. Por amor à verdade do Evangelho, eles não temeram sacrificar as suas próprias existências neste mundo. Em um século dominado pelo relativismo e por uma aguda decadência moral, que ameaça a própria família, os exemplos desses homens desafiam o nosso tempo a preservar com coragem e destemor todas as verdades da nossa fé, sem adaptações, nem conveniências. A mensagem da família não é palavra humana ou "opinião", para que possa ser modificada ou "reinventada" ao bel prazer. É, ao contrário, palavra divina – palavra veraz, fora da qual não pode haver verdadeira caridade, como indica o Papa Bento XVI: "Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida" [2].

A segunda importante lição da vida de More é ensinar aos cristãos quais são os limites do poder das autoridades civis. "Precisamente por causa do testemunho que Santo Tomás More deu, até ao derramamento do sangue, do primado da verdade sobre o poder, é que ele é venerado como exemplo imperecível de coerência moral" [3]. A respeito disso, as Escrituras já oferecem conselhos preciosos: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mt 22, 21), diz Jesus; e, exortam os Apóstolos, "importa obedecer antes a Deus do que aos homens" (At 5, 29). Diante de ditaduras que tentam sufocar a própria verdade; face a César, Herodes, Henrique ou Stálin, é preciso reafirmar, sempre e categoricamente, o primado de Deus – primado este que, no fim das contas, redunda em benefício do próprio homem.

Afinal, quando todo o poder é colocado nas mãos do Estado, quando este se torna "a medida de todas as coisas", não demora muito para que se cortem as cabeças e os seres humanos sejam executados no paredón ou jogados em campos de concentração. Foi assim na Inglaterra de Henrique VIII, foi assim na Cuba de Fidel Castro e na Alemanha de Hitler. Será sempre assim, quando César pretender tomar para si o poder que cabe somente a Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 5.
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate (29 de junho de 2009), n. 3.
  3. Papa João Paulo II, Carta Apostólica E Sancti Thomae Mori (31 de outubro de 2000), n. 1.

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Milagre de São Januário acontece nas mãos do Papa Francisco

O sangue do mártir, normalmente sólido, se dissolveu parcialmente à vista dos fiéis, depois que o Papa beijou o seu relicário

O sangue de São Januário se dissolveu em presença do Papa Francisco, no último dia 21 de março, durante visita de Sua Santidade à diocese de Nápoles, na Itália. Os restos sanguíneos do mártir padroeiro de Nápoles, geralmente sólidos, tornaram-se parcialmente líquidos depois que o Papa beijou o seu relicário.

O Cardeal e Arcebispo da cidade, Crescenzio Sepe, exibiu a ampola com o sangue do santo aos fiéis que lotaram a catedral napolitana, dizendo: "Sinal de que São Januário ama o Papa, que é napolitano como nós: o sangue já se dissolveu pela metade".

O Papa, então, comentou, com humor: "O Arcebispo disse que metade do sangue se dissolveu: vê-se que o santo nos ama pela metade. Devemos converter-nos mais para que nos ame mais."

São Januário, nascido em Nápoles, foi um bispo de Benevento, na Itália, martirizado durante a perseguição do imperador Diocleciano. Instado diante do tribunal romano a oferecer incenso aos deuses, Januário se negou, com as seguintes palavras: " Não posso imolar aos demônios, pois tenho a honra de sacrificar todos os dias ao verdadeiro Deus". Mandado à fogueira, as chamas nada fizeram ao servo de Deus. Mandado à arena, para ser devorado pelos leões, estes, ao contrário, se prostraram diante do bispo e começaram a lamber-lhe os pés. Por fim, no dia 19 de setembro de 305, Januário foi decapitado.

De acordo com alguns relatos, durante um dos vários traslados de seu corpo entre Benevento e a sua cidade natal, o seu sangue foi recolhido por uma piedosa mulher e colocado em duas ampolas. Venerado desde o século V, o milagre da liquefação de seu sangue é documentado desde os anos 1400, acontecendo, desde então, periodicamente. Três datas são especiais para o fenômeno: 19 de setembro, festa de São Januário, 16 de dezembro, dia em que Nápoles foi preservada de um desastre por intermédio do santo, e o sábado anterior ao primeiro domingo de maio, que é o aniversário da primeira transladação de seu corpo.

Desta vez, porém, de modo extraordinário, o milagre ocorreu nas mãos do sucessor de São Pedro. A última vez a acontecer isto com um Sumo Pontífice foi em 1848, com o Beato Pio IX, o Papa da Imaculada Conceição e do Concílio Vaticano I.

Antes de abençoar o povo com o relicário de São Januário, o Papa Francisco fez um discurso ressaltando a centralidade de Jesus na vida da Igreja e recomendando fortemente a devoção a Nossa Senhora: "Como posso estar certo de ir sempre com Jesus? É a sua Mãe que o acompanha. Um sacerdote, um religioso, uma religiosa que não ama Nossa Senhora, que não reza a Nossa Senhora, diria também que não recita o Terço... se não quiser a Mãe, a Mãe não lhe concederá o Filho."

É certo que, como todas as graças chegam aos homens pelas mãos de Maria Santíssima, também este impressionante milagre foi obra de sua mediação maternal. Que ela, pois, conserve o Santo Padre, lhe dê vida longa, o faça santo na Terra e não o entregue à vontade de seus inimigos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere