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Como São José pode ajudar a salvar o nosso século

Oxalá abríssemos os nossos olhos e compreendêssemos, como São José entendeu, que sempre o mais urgente a fazer é orar!

Há algum tempo traduzimos uma matéria mostrando como São Bento de Núrsia podia ajudar a salvar o nosso século. Desta vez, aproveitando a proximidade da festa de São José, o maior de todos os santos depois da Virgem Maria [1], é hora de mostrar o que ele, pai nutrício de Jesus, tem a ensinar especialmente a tempos difíceis como os nossos.

Antes de qualquer coisa, é preciso admitir a gravidade das circunstâncias por que estamos passando, se fizermos uma análise objetiva das coisas sub specie aeternitatis, ou seja, com olhar sobrenatural. Os homens não querem saber de Deus, vivem tranquilamente na lama do pecado mortal e vão se afundando cada vez mais em vícios terríveis. Tudo com o silêncio trágico dos pastores, cuja conivência obriga até as pedras a gritarem, e com a chancela das autoridades civis, que dia após dia sancionam leis e mais leis contrárias ao direito natural.

E antes que alguém nos acuse de sermos "profetas da desgraça" ou aves de mau agouro, examinemos um pouco como começa um dos mais importantes documentos da Igreja sobre a figura de São José, a encíclica Quamquam Pluries, do Papa Leão XIII, escrita ainda em 1889 (ou seja, mais de 125 anos atrás):

"Ora, veneráveis irmãos, vós conheceis as adversidades do nosso tempo, que é bem mais prejudicial para a religião cristã do que aqueles que passaram. Vemos como num grandíssimo número de fiéis desaba a fé, fundamento de todas as virtudes cristãs; resfria-se a caridade; a juventude cresce na depravação dos costumes e das idéias; a Igreja de Cristo é assaltada por todo lado com a violência e a fraude; faz-se uma guerra feroz ao pontificado; com ousadia crescente correm-se os próprios fundamentos da religião. Não é preciso demonstrar, por ser demasiado conhecido, até que ponto se chegou a esta descida, nos ultimíssimos tempos, e o que se quer fazer de pior ainda."

"Numa situação tão triste e difícil só podemos pedir o remédio ao poder divino, pois os remédios humanos são inadequados aos males." [2]

Repitamos a data destas linhas, para que fique bem claro: Papa Leão XIII as escreveu em 15 de agosto de 1889. A sua denúncia é muitíssimo séria, une-se a um coro inumerável de manifestações magisteriais do mesmo gênero [3] e não pode passar em branco, principalmente agora, mais de um século depois, quando esse quadro pintado por Sua Santidade só parece ter piorado ainda mais.

Mas por que dar atenção a palavras como essas, aparentemente tão sombrias e "pessimistas"?

Bem, por uma razão bem simples: só enxergando com clareza a nossa situação péssima de miséria (que não é "exagero retórico", mas simplesmente a realidade) podemos entender a "boa notícia" — ou melhor, a excelente notícia — que é o Evangelho. A profecia de Isaías, que se proclama todos os anos no Natal, diz que "o povo que andava nas trevas viu uma grande luz" (Is 9, 2): essa luz que brilha é Cristo, mas ela brilha na escuridão. E isso para quê, senão "para iluminar a quantos jazem entre as trevas e na sombra da morte estão sentados" (Lc 1, 79)? Não é verdade que Jesus veio para nós, os pecadores?

É justamente isso o que indica o Papa Leão XIII quando diz que "numa situação tão triste e difícil só podemos pedir o remédio ao poder divino". Entender a verdade de nossa condição é importante, portanto, para que desesperemos de uma vez de encontrar soluções humanas para os nossos problemas. É só Deus quem pode nos salvar: foi por isso mesmo que Ele "se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 14), e é também por isso que, ao longo da história, Ele vem em nosso auxílio enviando-nos a sua graça, para continuarmos a Encarnação do Verbo em cada geração humana.

Mas onde entra a missão de São José nessa história toda?

Em primeiro lugar, no fato de que devemos contar, para isso, com a sua poderosa intercessão. O Papa Leão XIII menciona em sua encíclica, por exemplo, o importante título que São José possui de padroeiro da Igreja, assim como foi guardião da família de Nazaré [4]. É da pena de Santa Teresa d'Ávila, no entanto, que vem um dos mais preciosos motivos para recorrermos sempre às orações do pai adotivo de Jesus:

"Não me lembro de até hoje lhe ter pedido alguma coisa que não ma tenha concedido, nem posso pensar sem admiração nas graças que Deus me tem concedido por sua intercessão e nos perigos de que me tem livrado, tanto para a alma como para o corpo. Parece-me que Deus concede aos outros santos a graça de nos auxiliar nesta ou naquela necessidade, mas sei por experiência que São José nos socorre em todas, como se Nosso Senhor quisesse fazer-nos compreender que, assim como Ele lhe era submisso na terra, porque estava no lugar de pai e como tal era chamado, também no céu não pode recusar-lhe nada." [5]

Em segundo lugar, a importância de São José está no fato de que devemos imitar as suas virtudes. Dentre as inúmeras de que poderíamos falar nesta matéria — desde a sua pureza, tão necessária para os nossos tempos, até a sua diligência no trabalho —, queremos destacar uma só, por agora: a virtude da religião.

São José era justo, como nos diz o Evangelho (cf. Mt 1, 19), não só no trato com os homens, mas principal e primeiramente no relacionamento com Deus, prestando-lhe o culto devido. Em meio à conturbação de seus contemporâneos, ante a expectativa de se cumprirem as profecias e finalmente vir a Israel o Messias esperado, a sua justiça brilhava com ainda mais força, como nos relata Michel Gasnier:

"Em José, sobretudo, essa expectativa era ardente e fazia o seu coração palpitar com imensa esperança. Enquanto muitos se agitavam e se entregavam a uma efervescência político-religiosa na expectativa dessa misteriosa revelação, ele considerava que o mais urgente era orar. Com a alma repleta de fervor, implorava ao Senhor e fazia subir aos céus a sua oração, pedindo a Deus que fizesse enfim soar a hora e enviasse Aquele que havia de trazer ao mundo a luz e a salvação." [6]

Também em nossa época, é grande a "efervescência político-religiosa" que inquieta os corações dos homens — e não só dos que estão no mundo, mas de muitos que fazem parte da Igreja. É grande a preocupação com qual será o destino de nossos políticos corruptos, com qual será o próximo chefe de Estado brasileiro, com o que o atual disse ou deixou de dizer, com quais são as últimas notícias do meio eclesiástico etc. Mas e quantas são as orações? Rezamos na mesma medida em que nos preocupamos? Somos Maria com a mesma intensidade com que somos Marta? Estamos dispostos a colocar-nos aos pés do Senhor com a mesma assiduidade com que visitamos os canais de notícias, as páginas de Facebook e as conversas intermináveis de WhatsApp?

Esse é um exame de consciência necessário a todos nós. Oxalá abríssemos os nossos olhos e compreendêssemos, como São José entendeu, que sempre o mais urgente a fazer é orar! Se as primeiras horas do nosso dia (ou as outras, que sejam) forem gastas na presença de Deus, então todo o nosso dia terá valido a pena.

Se aprendermos isso com o pai de Jesus, já teremos adquirido grande coisa. E com certeza estaremos contribuindo do melhor modo para remediar os males do nosso tempo — os quais só se consertarão, como dizia Leão XIII, se pedirmos a salvação ao poder divino. E é nisso que consiste a oração cristã.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. Cf. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 149.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica Quamquam Pluries, 15 de agosto de 1889, n. 3-4. In: Documentos de Leão XIII, São Paulo, Paulus, 2005, pp. 373-374.
  3. Basta consultar os textos papais que perpassam praticamente todo o século XX. Nem os mais otimistas, como São João XXIII e o Beato Paulo VI, deixaram de manifestar a sua preocupação com o estado lastimável a que chegou a humanidade em nossos dias (cf., v.g., Papa João XXIII, Humanae Salutis, n. 3; Papa Paulo VI, Homilia de 29 de junho de 1972).
  4. Cf. Quamquam Pluries, n. 14.
  5. Livro da Vida, VI, 6.
  6. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 34.

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Ainda não falam e já proclamam Cristo

A glória do martírio, que outros mereceram por vontade própria, os Santos Inocentes a alcançaram pela graça de Deus.

Os Santos Inocentes, cuja festa litúrgica celebramos neste dia 28 de dezembro, "morrem pelo Cristo, sem saberem". Como explica o gênio teológico de Santo Tomás de Aquino, "a glória do martírio, que outros mártires mereceram por vontade própria, essas crianças a alcançaram pela graça de Deus" [1]. Embora não tivessem idade suficiente para crer na paixão de Cristo, esses infantes traziam consigo "a carne capaz de sofrer a mesma paixão que Ele haveria de sofrer", na expressão de Santo Agostinho.

Essas verdades vão todas repetidas no belo sermão proclamado pelo Ofício das Leituras de hoje. Seu autor é um bispo do século V, chamado Quodvultdeus (nome latino que quer dizer, literalmente, "querido por Deus" ou "aquele que Deus quis"). Prestemos atenção ao que ele nos ensina e seremos capazes de ouvir a voz daqueles bebês martirizados que "ainda não falam e já proclamam Cristo", "não podem ainda mover os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória".

Dos Sermões de São Quodvultdeus, bispo
(Sermo 2 de Symbolo: PL 40, 655)

Ainda não falam e já proclamam Cristo

Nasceu um pequenino que é o grande Rei. Os magos chegam de longe e vêm adorar, ainda deitado no presépio, aquele que reina no céu e na terra. Ao anunciarem os magos o nascimento de um Rei, Herodes se perturba e, para não perder o seu reino, quer matar o recém-nascido. No entanto, se tivesse acreditado nele, poderia reinar com segurança nesta terra e para sempre na outra vida.

Por que temes, Herodes, ao ouvir que nasceu um Rei? Ele não veio para te destronar, mas para vencer o demônio. Como não compreendes isso, tu te perturbas e te enfureces; e, para que não escape o único menino que procuras, tens a crueldade de matar tantos outros.

Nem as lágrimas das mães nem o lamento dos pais pela morte de seus filhos, nem os gritos e gemidos das crianças te comovem. Matas o corpo das crianças porque o medo matou o teu coração; e julgas que, se conseguires teu propósito, poderás viver muito tempo, quando precisamente é a própria Vida que queres matar.

Aquele que é a fonte da graça, pequenino e grande ao mesmo tempo, reclinado num presépio, apavora o teu trono. Por meio de ti, e sem que saibas, realiza os seus desígnios e liberta as almas do cativeiro do demônio. Recebe como filhos adotivos os filhos dos que eram seus inimigos.

Essas crianças morrem pelo Cristo, sem saberem, enquanto seus pais choram os mártires que morrem. Cristo faz suas legítimas testemunhas aqueles que ainda não falam. Eis como reina aquele que veio para reinar. Eis como já começa a conceder a liberdade aquele que veio para libertar, e a dar a salvação aquele que veio para salvar.

Tu, porém, Herodes, ignorando tudo isto, te perturbas e te enfureces; e enquanto te enfureces contra o Menino, já lhe prestas homenagem, sem o saberes. Ó imenso dom da graça! Que méritos tinham aquelas crianças para obterem tal vitória? Ainda não falam e já proclamam o Cristo. Não podem ainda mover os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 1, ad 1.

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O natal de Santo Estêvão

Saiba que relação guardam entre si o Natal de Jesus e o natal de Estêvão para a vida eterna, que acontece com o seu martírio.

Todos os anos a Igreja celebra, no dia 26 de dezembro, a festa de Santo Estêvão, protomártir. Mas o que significa fazer memória desse diácono justamente um dia depois que nasce o Senhor? Que relação guardam entre si o Natal de Jesus e o natal de Estêvão para a vida eterna?

É o que responde São Fulgêncio de Ruspe, bispo do século VI, no sermão do Ofício das Leituras de hoje. Sem a caridade sobrenatural com que Cristo veio inflamar os corações, seria de fato impossível que um ser humano, qualquer um, entregasse a sua vida por Ele, como fez Santo Estêvão, preferindo morrer apedrejado a renegar a sua fé. Sem o auxílio da graça, como rezam os sacerdotes na divina liturgia, "ninguém é forte, ninguém é santo". Aprendemos da memória de hoje, portanto, a ter sempre diante dos olhos o primado da graça divina, que nos vem através da santíssima humanidade do Verbo encarnado.


Não deixe de assistir também à homilia do Padre Paulo Ricardo para a memória de Santo Estêvão deste ano de 2016, durante a qual ele faz um comentário a esta bela meditação contida na Liturgia das Horas.


Muito bonita também é a associação que faz São Fulgêncio entre o testemunho de Estêvão e a conversão de Saulo. "Aonde Estêvão chegou primeiro, martirizado pelas pedras de Paulo", ele diz, "chegou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estevão". Trata-se da fé católica na comunhão dos santos, no fato de que Cristo, sendo "único mediador entre Deus e os homens" (1Tm 2, 5), não dispensa a mediação coadjuvante daqueles que santificou.

Dos sermões de São Fulgêncio de Ruspe, bispo
(Sermo 3,1-3.5-6:CCL 91 A, 905-909)

As armas da caridade

Ontem, celebrávamos o nascimento temporal de nosso Rei eterno; hoje celebramos o martírio triunfal do seu soldado.

Ontem o nosso Rei, revestido de nossa carne e saindo da morada de um seio virginal, dignou-se visitar o mundo; hoje o soldado, deixando a tenda de seu corpo, parte vitorioso para o céu.

O nosso Rei, o Altíssimo, veio por nós na humildade, mas não pôde vir de mãos vazias. Trouxe para seus soldados um grande dom, que não apenas os enriqueceu imensamente, mas deu-lhes uma força invencível no combate: trouxe o dom da caridade que leva os homens à comunhão com Deus.

Ao repartir tão liberalmente o que trouxera, nem por isso ficou mais pobre: enriquecendo do modo admirável a pobreza dos seus fiéis, ele conservou a plenitude dos seus tesouros inesgotáveis.
Assim, a caridade que fez Cristo descer do céu à terra, elevou Estevão da terra ao céu. A caridade de que o Rei dera o exemplo logo refulgiu no soldado.

Estêvão, para alcançar a coroa que seu nome significa, tinha por arma a caridade e com ela vencia em toda parte. Por amor a Deus não recuou perante a hostilidade dos judeus, por amor ao próximo intercedeu por aqueles que o apedrejavam. Por esta caridade, repreendia os que estavam no erro para que se emendassem, por caridade orava pelos que o apedrejavam para que não fossem punidos.

Fortificado pela caridade, venceu Saulo, enfurecido e cruel, e mereceu ter como companheiro no céu aquele que tivera como perseguidor na terra. Sua santa e incansável caridade queria conquistar pela oração, a quem não pudera converter pelas admoestações.

E agora Paulo se alegra com Estêvão, com Estêvão frui da glória de Cristo, com Estêvão exulta, com Estêvão reina. Aonde Estêvão chegou primeiro, martirizado pelas pedras de Paulo, chegou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estevão.

É esta a verdadeira vida, meus irmãos, em que Paulo não se envergonha mais da morte de Estêvão, mas Estevão se alegra pela companhia de Paulo, porque em ambos triunfa a caridade. Em Estêvão, a caridade venceu a crueldade dos perseguidores, em Paulo, cobriu uma multidão de pecados; em ambos, a caridade mereceu a posse do reino dos céus.

A caridade é a fonte e origem de todos os bens, é a mais poderosa defesa, o caminho que conduz ao céu. Quem caminha na caridade não pode errar nem temer. Ela dirige, protege, leva a bom termo.

Portanto, meus irmãos, já que o Cristo nos deu a escada da caridade pela qual todo cristão pode subir ao céu, conservai fielmente a caridade verdadeira, exercitai-a uns para com os outros e, subindo por ela, progredi sempre mais no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Por que o milagre de São Januário é tão importante?

O mundo inteiro está falando do sangue de São Januário. Mas você sabe, afinal, em que consiste o milagre da sua liquefação e o que ele realmente significa?

Não é a primeira vez que o milagre da liquefação do sangue de São Januário vira notícia recentemente. Em 21 de março de 2015, dia incomum para a ocorrência do fenômeno, os restos sanguíneos do padroeiro de Nápoles se dissolveram à vista do Papa Francisco, conforme também nós reportamos aqui. Agora, no último dia 16 de dezembro, o que causou estranheza mundo afora foi justamente a ausência do milagre, a qual, como já dito, "sempre esteve ligada a momentos nefastos da história da cidade" italiana.

Considerando toda a atenção que se vem dando a este acontecimento de caráter realmente sobrenatural, transcrevemos abaixo uma pequena matéria, publicada no blog português Senza Pagare, que descreve de modo bem resumido em que consiste este milagre e qual é, afinal, a sua importância.

No passado dia 16 de dezembro, ao contrário do habitual, não aconteceu o milagre da liquefação do sangue de S. Januário, em Nápoles.

Este milagre acontece 3 vezes por ano: 19 de setembro, dia de S. Januário; 16 de dezembro, porque nesse dia, em 1631, foi feita uma procissão com as relíquias de S. Januário que impediu a iminente erupção do vulcão Vesúvio; no sábado que antecede o primeiro domingo de maio, dia da primeira trasladação do corpo do santo.

As datas da liquefação do sangue de São Januário são celebradas com grande pompa e esplendor.

As relíquias são expostas ao público, e se a liquefação não se verifica imediatamente, iniciam-se preces coletivas. Se o milagre tarda, os fiéis convencem-se de que a demora se deve aos seus pecados. Rezam então orações penitenciais, como o salmo " Miserere".

Quando o milagre ocorre, o Clero entoa um solene Te Deum, a multidão irrompe em vivas, os sinos repicam e toda a cidade rejubila.

Entretanto, sempre que nas datas costumeiras o sangue não se liquefaz, isso significa o aviso de tristes acontecimentos vindouros, segundo uma antiga tradição nunca desmentida.

O sangue de São Januário está recolhido em duas ampolas de vidro, hermeticamente fechadas, protegido por duas lâminas de cristal transparente. A ampola maior possui 60 cm cúbicos de volume; a menor tem capacidade de 25 cm cúbicos. Em geral, o sangue endurecido ocupa até a metade da ampola maior; na menor, encontra-se disperso em fragmentos.

A liquefação do sangue produz-se espontaneamente, sob as mais variadas circunstâncias, independentemente da temperatura ou do movimento, o sangue passa do estado pastoso ao fluido e, até, fluidíssimo. A liquefação ocorre da periferia para o centro e vice-versa. Algumas vezes, o sangue liquefaz-se instantânea e inteiramente, ou, por vezes, permanece um denso coágulo em meio ao resto liquefeito. Varia o colorido: desde o vermelho mais escuro até o rubro mais vivo. Não poucas vezes surgem bolhas e sangue fresco e espumante sobe rapidamente até o topo da ampola maior.

Trata-se verdadeiramente de sangue humano, comprovado por análises espectroscópicas.

Há algumas peculiaridades, que constituem outros milagres dentro do milagre liquefação, há uma variação do volume: algumas vezes diminui e outras vezes aumenta até o dobro. Varia também quanto à massa e quanto ao peso. Em janeiro de 1991, o Professor G. Sperindeo fazendo uso, com o máximo cuidado, de aparelhos de alta precisão, encontrou uma variação de cerca de 25 gramas. O peso aumentava enquanto o volume diminuía. Esse acréscimo de peso contraria frontalmente o princípio da conservação da massa e é absolutamente inexplicável, pois as ampolas encontram-se hermeticamente fechadas, sem possibilidade de receber acréscimo de substâncias do exterior.

A notícia escrita mais antiga e segura do milagre consta de uma crônica do século XIV. Desde 1659, estão rigorosamente anotadas todas as liquefações, que já perfazem mais de dez mil!

Quanto à chave de interpretação com que devemos ler esse milagre (ou, no caso, a ausência dele), é a reação dos próprios fiéis napolitanos que nos ensina: " Se o milagre tarda, os fiéis convencem-se de que a demora se deve aos seus pecados". É a luta contra os nossos pecados, portanto, o que nos deve preocupar de modo especial ao sabermos que São Januário não quis operar o seu costumeiro milagre diante do povo de Nápoles.

Mais do que traçar conjecturas sobre o que acontecerá no mundo, mais do que perguntar que tipo de desgraça pode se abater sobre a humanidade, o momento presente pede oração e penitência. E essa é a mensagem não apenas do sangue de San Gennaro (como o chamam os italianos) ou da aparição de Nossa Senhora em Fátima, cujo centenário está às portas, mas de toda a revelação cristã. "Se não vos converterdes", afinal, diz o próprio Senhor, "perecereis todos do mesmo modo" (Lc 13, 3).

Essas palavras são muito sérias. O cristianismo é coisa muitíssimo séria. Mas, pelo visto, poucos de nós estão dispostos a emendar-se de vida e atender aos apelos que o próprio Céu nos tem feito com tanta insistência, especialmente nas últimas décadas. Nossos pecados se multiplicam indefinidamente, levando-nos para longe da presença de Deus, como mostrou a Virgem de Fátima aos três pastorinhos, e nós ficamos a pensar em que tipo de catástrofe se irá suceder aqui ou acolá, este ano ou ano que vem, preocupados com desastres físicos e materiais. Quando vamos acordar e perceber que a pior tragédia de todas se chama perdição das almas e já está acontecendo há muito tempo? Quando vamos abrir os olhos da fé, afinal, para enxergarmos o mundo sobrenatural à nossa volta e tomarmos então consciência verdadeira da situação em que nos encontramos?

Repitamos com o venerável bispo norte-americano Fulton Sheen uma verdade mais do que necessária para tempos conturbados como os nossos: " Se as almas não forem salvas, nada se salvará". As almas, as almas cuja salvação sempre foi a lei suprema da Igreja, as almas cujo preço foi o próprio sangue de Cristo derramado na Cruz: são elas a nossa meta, porque são elas a meta de Deus! Que eventos como o milagre de São Januário — ou o silêncio de São Januário — sirvam para lembrar-nos desta realidade e ressuscitem aqueles que estão na morte do pecado para a vida sobrenatural da graça.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O dia em que um herege apanhou de São Nicolau

Ao ouvir as heresias de Ário, “uma onda de indignação” sacudiu os bispos de Niceia... e o “bom velhinho”, que nada tinha de leniente, partiu às vias de fato!

Fonte: This is Christian Europe/Facebook

Neste dia 6 de dezembro, a Igreja celebra a memória de São Nicolau de Mira, bispo do Oriente que, célebre especialmente por sua generosidade, acabou dando origem à figura do "Papai Noel", hoje bastante difundida durante os festejos natalinos. Para conhecer um pouco mais a história deste santo bispo, remetemos todos os que nos visitam a uma breve homilia do Padre Paulo Ricardo, na qual ele traça algumas linhas de sua biografia.

Nesta matéria, porém, queremos dar ênfase a uma passagem relativamente conhecida da vida de São Nicolau, dada durante a sua participação no primeiro Concílio da Igreja, em Niceia, no ano 325. Foi essa assembleia ecumênica — palavra que quer dizer, em grego, "universal" — que condenou a heresia do arianismo e reafirmou a fé católica na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. O historiador católico Daniel-Rops, autor da famosa coleção História da Igreja de Cristo, relata que, quando os bispos ali reunidos ouviram "alguns fragmentos" dos escritos de Ário, "os erros mostraram-se tão patentes que uma onda de indignação sacudiu todos aqueles homens fervorosos" [1].

Um desses homens fervorosos foi justamente o "bom velhinho", São Nicolau, cuja bondade, ao contrário do que se pode pensar, nada tinha de leniente. Já cansado da insolência de Ário e de ver desonradas, por sua boca, a pessoa divina de Jesus Cristo e a maternidade divina de Nossa Senhora, conta-se que o corajoso bispo confrontou fisicamente o heresiarca, esbofeteando-lhe a boca. Os prelados ao redor se assustaram e, mesmo discordando de Ário, viram-se obrigados a punir o "zelo excessivo" de Nicolau, trancafiando o bispo na prisão e confiscando o seu pálio e a cópia que ele possuía dos Evangelhos.

A resposta do Céu à ira de São Nicolau, no entanto, foi bem outra. Alguns dias depois do ocorrido, os próprios Jesus e Maria visitaram o bispo em sua cela. "Por que estás aqui?", teria perguntado Nosso Senhor a Nicolau, ao que ele respondeu: "Porque vos amo, meu Deus e Senhor" [2]. Imediatamente, foram-lhe devolvidos os símbolos de sua dignidade episcopal. É por isso que, em muitos ícones do santo, é possível vê-lo ladeado de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, respectivamente com um livro e um pálio nas mãos. Destituído do ofício episcopal por seus irmãos, o bispo de Mira terminou o grande Concílio de Niceia readmitido diretamente pelo próprio Deus.

Essa história ensina para nós o valor da "santa ira", repetindo uma lição passada pelo próprio Senhor quando tentado no deserto. Ao ser incitado pelo demônio a transformar as pedras em pão, ou a demonstrar o seu poder, lançando-se de um despenhadeiro, Cristo não ficou perturbado nem repreendeu o diabo. Mas, quando este usurpou para si a honra devida a Deus, dizendo: "Tudo isto eu te darei se, prostrando-te, me adorares", Cristo exasperou-se e o repeliu: "Vai-te, Satanás" (Mt 4, 9-10). Por que agiu assim Aquele que é "manso e humilde" de coração? "Para que aprendamos com seu exemplo", responde Santo Tomás de Aquino, "a suportar com magnanimidade as ofensas dirigidas a nós, mas não tolerar sequer ouvir as injúrias feitas a Deus" [3].

São Nicolau de Mira,
rogai por nós!

Referências

  1. Henri Daniel-Rops, A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, São Paulo: Quadrante, 1988, p. 455.
  2. Taylor Marshall, Saint Nicholas Allegedly Punched This Heretic in the Face…Who was He?.
  3. Suma Teológica, III, q. 41, a. 4, ad 6.

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O primeiro corpo incorrupto da história da Igreja

Foi no século II que viveu a primeira santa a experimentar o fenômeno da incorruptibilidade. Conheça a história de Santa Cecília e saiba como seu corpo foi encontrado preservado ainda no século XVI.

Por Joan Carroll Cruz — A história indica que a primeira santa a experimentar o fenômeno da incorruptibilidade foi Santa Cecília, a padroeira dos músicos. O ano de seu nascimento é desconhecido, mas acredita-se que ela tenha morrido por volta do ano 177 depois de Cristo.

Cecília pertencia a uma rica e distinta família romana, que, apesar do desejo da menina de permanecer virgem, ofereceu a sua mão em casamento a um jovem nobre chamado Valeriano. Na noite de núpcias, Cecília conseguiu convencer o seu esposo a respeitar o seu voto de virgindade e, depois, converteu-o à fé, quando ele foi favorecido com uma visão do seu anjo da guarda. Valeriano e o seu irmão, Tibúrcio, também convertido por ela, foram perseguidos e instados a renunciarem à religião cristã. Como ambos heroicamente se recusassem a fazê-lo, foram decapitados e enterrados ao longo da Via Ápia. Cecília foi presa por ter sepultado os seus corpos e, por esse "crime", teve que escolher entre sacrificar aos deuses pagãos e enfrentar a morte. Ela prontamente afirmou a sua fé e preferiu o caminho do martírio.

Por causa de sua nobreza e juventude, os seus algozes decidiram executá-la em segredo, para evitarem as previsíveis críticas do povo. Cecília foi presa no banheiro de sua casa para morrer por asfixia pelos vapores d'água. Ela permaneceu um dia e uma noite inteiros nesse ambiente sufocante, sem que lhe acontecesse qualquer mal.

Um executor experiente, então, foi enviado para decepar-lhe a cabeça, mas, devido à falta de coragem em matar uma mulher tão jovem e bela, ele não conseguiu cortar a sua cabeça com os três golpes prescritos pela lei. O carrasco acabou fugindo, deixando a santa no pavimento de seu banheiro, viva e totalmente consciente, com a cabeça cortada pela metade. Deitada para o lado direito, com as mãos cruzadas em oração, ela voltou a sua cabeça para o chão e continuou rezando na mesma postura por três dias e três noites. A posição dos seus dedos, três estendidos na mão direita e um na esquerda, foram a sua última e silenciosa profissão de fé na Santíssima Trindade.

Os primeiros cristãos vestiram o corpo da mártir com uma rica túnica de seda e de ouro e colocaram-no em um caixão de cipreste na mesma posição em que ela expirou. Aos seus pés foram colocados os mantos e panos de linho usados para coletar o seu sangue. Ela foi sepultada nas Catacumbas de São Calisto por um bispo de nome Urbano, que também tinha batizado o seu marido e o seu cunhado.

No ano 822, durante o período de restauração da igreja dedicada à sua memória, o Papa Pascoal I quis transferir os restos da santa a um lugar de honra em sua catedral, mas não conseguia localizar o seu túmulo. A santa apareceu-lhe em uma visão extraordinária enquanto ele rezava e contou-lhe o lugar em que estava o seu corpo. A relíquia foi encontrada exatamente no lugar indicado. O Papa, então, colocou o corpo, junto com os ossos do seu marido, do seu cunhado e do mártir Máximo, logo abaixo do altar do templo.

Setecentos e setenta e sete anos depois, em 1599, ocorreu uma das mais documentadas exumações do corpo de um santo, quando o Cardeal Paolo Emilio Sfondrati, amigo de São Filipe Néri, ordenou a restauração de algumas partes da basílica. No dia 20 de outubro daquele ano, enquanto se trabalhava embaixo e perto do altar-mor, dois sarcófagos de mármore branco foram descobertos: eles correspondiam à descrição deixada por Pascoal I das urnas que continham as relíquias dos santos mártires. O Cardeal mandou que se abrisse o sarcófago na presença de testemunhas de inquestionável integridade. Depois que a cobertura de mármore foi removida, o caixão original de cipreste foi encontrado em ótimo estado de conservação. O prelado, com compreensível emoção, levantou a tampa, deixando à vista o tesouro que havia sido guardado pelos papas Urbano e Pascal. Os restos mortais foram encontrados na mesma posição em que a santa tinha morrido, quase 1500 anos antes. Através de um manto de seda que modestamente cobria o seu corpo, era possível ver o vestido dourado da santa, a ferida mortal no seu pescoço e as roupas manchadas de sangue. O Papa Clemente VIII foi imediatamente informado da descoberta e enviou o Cardeal Barônio para examinar o caso, juntamente com Antonio Bosio, explorador das catacumbas de Roma, que nos deixaram inestimáveis documentos descrevendo essa exumação.

Olhando através do velho manto que cobria o seu corpo, eles notaram que Cecília era de baixa estatura, e que a sua cabeça estava voltada para baixo, mas, devido a uma "santa reverência", não fizeram mais nenhuma examinação. Bosio registrou a sua opinião de que a santa foi encontrada na mesma posição em que havia expirado [1].

O Cardeal Sfondrato quis guardar como memorial desse tocante evento um pedaço do tecido coberto de sangue, e distribuiu pequenas relíquias a vários cardeais em Roma. Mas após inspecionar o último pedaço, que ele tinha reservado para si, o prelado descobriu grudado ao tecido um pequeno fragmento do osso da santa, que tinha sido deslocado pela espada e que um cristão primitivo tinha colhido sem perceber enquanto estancava a ferida da santa mártir. Sfondrato preservou essa relíquia como um querido e inestimável tesouro e colocou-a junto dos crânios de São Valeriano, São Tibúrcio e São Máximo, em relicários separados para exposição [2].

O Cardeal também quis reter um pequeno pedaço do vestido da santa e, enquanto o segurava, sentiu debaixo das roupas da virgem as cordas e nós de uma camisa que ela provavelmente usava como cilício [3].

A urna da santa foi colocada em uma sala situada na parte de cima da nave da basílica, onde podia ser vista através de uma janela com grades. A plataforma e a urna foram cobertas com cortinas de seda douradas, e a sala foi esplendidamente decorada com candelabros, belas lamparinas e flores de prata e ouro. Depois, o santuário foi inundado de um misterioso e agradável odor de rosas que procedia do caixão [4].

Por ordem do Papa Clemente VIII, a relíquia foi deixada exposta ali até a festa de Santa Cecília, no dia 22 de novembro, e tão grande era a multidão de fiéis romanos que acorreram à basílica que a Guarda Suíça foi chamada ao local para manter a ordem [5].

Após o período de um mês de exposição, a relíquia, ainda repousando no antigo caixão de cipreste, foi colocada em um novo caixão de prata, comissionado pelo próprio Papa como símbolo de sua veneração pela santa mártir. Na presença de 42 cardeais e representantes diplomáticos de vários países, o Papa celebrou uma Missa Solene durante a qual o corpo da santa foi novamente depositado sob o altar principal.

Um escultor de talento incomum, Stefano Maderno (1576-1636), que parecia empenhado em desempenhar o seu ofício durante a restauração da basílica, esculpiu uma imagem da santa, que é reputada como uma das mais celebradas e conhecidas obras de arte da Itália. Acredita-se que Maderno tenha representado a santa na exata posição em que permaneceu o seu corpo incorrupto. Essa estátua é encontrada imediatamente em frente ao altar-mor em um nicho de mármore preto, que foi designado pelo artista para dar a impressão de um sarcófago aberto. Fazendo isso, Maderno introduziu um novo design de altar, que foi frequentemente imitado depois [6].

Acredita-se que a Basílica de Santa Cecília tenha sido construída no local em que estava a mansão de sua família. A segunda capela, na nave lateral à direita, é chamada de caldário (caldarium, em latim) e é o quarto onde a santa foi condenada à morte. Aí são encontrados os restos de uma antiga banheira romana; os dutos, que continham a água aquecida, estão preservados. A peça de mármore sobre o altar é aquela em que se acredita que Cecília tenha sobrevivido ao primeiro martírio por asfixia, e pode muito bem ser a laje que marcou o lugar de sua morte.

Por Joan Carroll Cruz | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
CRUZ, Joan Carroll. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 1-4.

Referências

  1. Ludwig von Pastor, The History of the Popes — Drawn from the Secret Archives of the Vatican and other Original Sources, v. XXIV. Londres: Kegan, Paul, Trench, Trubner & Co., 1933, p. 521.
  2. Ibid., p. 522.
  3. Prosper Guéranger, Life of Saint Cecilia, Virgin and Martyr. Filadélfia: Peter F. Cunningham, 1866, p. 283.
  4. Ibid., p. 284.
  5. Pastor, op. cit., p. 523.
  6. Ibid., p. 525.

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De onde vêm as críticas a Madre Teresa de Calcutá?

De onde vêm as críticas à figura de Madre Teresa de Calcutá, canonizada há poucos dias no Vaticano? Por que uma freira que passou a vida inteira servindo aos mais pobres incomoda algumas pessoas?

Sim, talvez você não soubesse, mas há quem não goste de Madre Teresa de Calcutá, a freira que estava sempre sorridente, sempre servindo aos outros e sempre falando de Deus. Embora tenha falecido há quase 20 anos, a sua figura ainda é uma "pedra no sapato" de muitas pessoas.

Por ocasião de sua canonização, realizada neste domingo pelo Papa Francisco, alguns jornais ao redor do mundo fizeram questão de ressuscitar algumas antigas polêmicas, em uma tentativa patética de desacreditar seja a santidade de Teresa, seja a idoneidade da Igreja, acusada de propor ao culto de seus fiéis personagens controversas ou moralmente duvidosas.

Mas de onde vem, afinal, o burburinho de revolta contra a religiosa de Calcutá?

Ainda que as vozes dissonantes se tenham espalhado por toda a mídia ultimamente, o crítico mais famoso de Madre Teresa já morreu. Seu nome era Christopher Hitchens e ele se encontrava, não por acaso, nas fileiras do chamado "novo ateísmo". Em 1994, três anos antes da morte da religiosa albanesa, esse jornalista produziu um documentário atribuindo-lhe o infamante título de "Anjo do Inferno" (engraçado até, para quem não acredita nem em anjos, nem em inferno).

Quando ela foi beatificada pelo Papa São João Paulo II, ainda em 2003, Hitchens voltou a soltar seus cachorros: "Nós acabamos de presenciar a elevação e consagração do dogmatismo extremista, da fé cega e o culto de uma personalidade humana medíocre", ele dizia. "Ela era uma fanática, uma fundamentalista, e uma fraude, e uma igreja que oficialmente proteja aqueles que violam os inocentes (sic) acaba de nos dar outro claro sinal de onde ela realmente se situa em questões morais e éticas".

As palavras de Hitchens são pesadas, é verdade, mas seria possível, afinal, esperarmos algo diferente de alguém que não acreditava nem em Deus, nem em santidade, nem no conceito cristão de "caridade"? Como esperar que um ateu, descrente na vida eterna, compreendesse uma mulher que se gastou completamente por isso? Como esperar que um materialista, para o qual nada havia além deste mundo, compreendesse o discurso e a obra de uma pessoa que testemunhava diariamente o Céu?

Alguém poderá dizer que essas questões não contemplam a totalidade da crítica de Hitchens. Mas, para o teólogo e escritor americano Thomas D. Williams, que consultou toda a literatura "dedicada a manchar o legado de Madre Teresa":

"Todos os argumentos contra ela, na verdade, podem ser resumidos em duas coisas que, para a esquerda, são absolutamente imperdoáveis: sua firme e intransigente oposição ao aborto e sua espiritualidade abertamente cristã que a fazia entregar-se por seus irmãos. Todas as outras razões apresentadas — que ela prestava uma assistência médica precária, que ocasionalmente se irritava com suas ajudantes, que aceitava doações de personagens moralmente ambíguas — não passam de uma máscara para cobrir essas razões que levam a esquerda ao ponto da histeria."

Trocando em miúdos, a razão por que muitos não gostavam — e ainda não gostam de Madre Teresa — é o fato de ela ser profundamente católica.

Santa Teresa de Calcutá não tinha medo de dizer, por exemplo, que "o maior inimigo da paz hoje é o aborto, porque ele é uma guerra direta, um assassínio direto feito pela própria mãe". A religiosa disse-o uma vez, quando foi premiada com o Nobel da Paz, em 1979, e voltou a falar do assunto em 1994, nos Estados Unidos: "Se nós aceitamos que uma mãe pode matar até mesmo seu próprio filho, como vamos dizer às outras pessoas para que não se matem?", ela perguntava, com destemor, a uma plateia que incluía o casal Bill e Hillary Clinton. "Com o aborto, a mãe não ensina a amar, mas mata inclusive o próprio filho para resolver seus problemas. Qualquer país que aceite o aborto está ensinando seu povo não a amar, mas a usar de qualquer violência para chegar aonde quer."

As palavras incisivas dessa humilde freira sobre o aborto, é preciso dizer, não têm nada de religiosas. Madre Teresa não invoca nenhuma revelação divina ou dogma católico para condenar o aborto e a sua legalização. Para se opor a essa prática, basta o bom senso. Mas, quando boa parte da sociedade está cega e incapaz de compreender os elementos mais básicos da lei natural, denúncias como essa inevitavelmente fazem inimigos. O próprio Hitchens não conseguia disfarçar o seu horror a esse discurso.

Outra coisa que o inquietava a respeito de Madre Teresa era o modo como ela tratava os pobres. Hitchens afirma que ela "não era uma amiga dos pobres, mas da pobreza", porque "dizia que sofrer era um presente de Deus e passou a vida toda se opondo à única cura conhecida para a pobreza (sic), que é o empoderamento das mulheres e a sua emancipação de uma vida inteira de reprodução compulsória".

Nesse ponto, porém, as acusações provêm de outra confusão elementar: congregações religiosas e instituições cristãs de caridade não são ONGs ou entidades meramente seculares; não são o Ministério da Saúde, para sair às ruas distribuindo contraceptivos, muito menos alguma sucursal do Partido Comunista ou da Teologia da Prosperidade, para ficar prometendo riquezas e felicidade neste mundo. As Missionárias da Caridade são católicas e, como tal, são regidas pela lei suprema da Igreja, que é a salvação das almas. Por isso, as irmãs de Madre Teresa não só cuidam de aliviar o sofrimento dos pobres, mas também de ministrar-lhes os sacramentos e ensinar-lhes a se unirem a Cristo crucificado; não só empenham seus esforços em trabalhar, mas principal e soberanamente em rezar; não operam somente tendo em vista o pão terreno, mas buscando em primeiro lugar o Pão do Céu.

Aqui reside, enfim, a razão central de todas as críticas a Madre Teresa de Calcutá. O que incomodava particularmente em sua vida era justamente o seu olhar dirigido ao Céu, quando todos hoje em dia insistem em manter os olhos fixos nas ninharias deste mundo. "Ela aberta e destemidamente invocava o amor de Jesus Cristo como a razão por trás de tudo o que fazia, uma prática repugnante para um mundo completamente desprovido de qualquer piedade religiosa", observa Thomas Williams, em artigo publicado no site Breitbart.

Emblemática nesse sentido é a história do jornalista americano que, desconcertado ao ver Teresa lavando um homem coberto de chagas, disse a ela: "Eu não faria isto nem por um milhão de dólares", ao que ela lhe respondeu: "Nem eu".

Era, afinal, tão somente por amor de Deus que Santa Teresa de Calcutá fazia tudo o que fazia. Se já é difícil que muitos de nós, católicos, hipnotizados que estamos pelos amores das criaturas, compreendamos e aceitemos isso, quanto mais não deve ser difícil, então, para aqueles que andam a esmo e não acreditam em Deus! Como sempre há esperança, porém, para eles e também para nós é que Teresa está no Céu. Que, pela sua intercessão, os que não crêem passem a ter fé, porque "quem não crer será condenado" (Mc 16, 16), e os que já crêem, enfim, passem a amar, uma vez que "a fé sem obras é morta" (Tg 2, 26).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Recordações de martírio em uma era de terrorismo

Pode até não acontecer que venhamos a testemunhar Cristo com nosso sangue, como fizeram São Maximiliano Kolbe e os mártires de Otranto, mas todos, sem exceção, somos chamados a ser suas testemunhas.

Por Matthew B. Rose — A parte mais dramática de ser católico reside na vocação de estarmos sempre preparados para o martírio. Ainda que nem todos estejamos marcados para realmente morrer por ódio à Fé, manchetes anunciando a ação mortal do Estado Islâmico e de outros grupos que odeiam a Igreja lembram-nos que também nós podemos receber esse chamado. As quatro Missionárias da Caridade mortas no Iêmen e o padre Jacques Hamel, morto na França enquanto rezava Missa há menos de um mês, recordam-nos que martírios não são alguma história do passado distante da Igreja, mas uma parte verdadeiramente real de nossa história hoje — em todos os tempos, na verdade.

No último dia 14 de agosto, a Igreja celebrou duas diferentes expressões de martírio, separadas por mais de 450 anos: os mártires de Otranto, na Itália, e São Maximiliano Kolbe, na Polônia. Embora suas histórias façam parte de nosso passado, o exemplo deles pode iluminar nosso presente, ajudando-nos a ver o que podemos enfrentar em nossas próprias vidas e o que devemos fazer para cumprir nossa vocação cristã.

Os turcos do Império Otomano aterrorizaram durante muito tempo o mundo cristão. Eles pareciam imbatíveis. Saquearam a cidade de Constantinopla em 1453, penetrando os muros da famosa capital bizantina graças a um canhão pesado e capaz de atirar projéteis de até 540 quilos a mais de 1 milha de distância. Eram liderados pelo feroz sultão Maomé II, o Conquistador, que começou a varrer territórios com apenas 19 anos de idade. Sua meta era dominar todo o mundo cristão mediterrâneo, incluindo Roma, em cujas basílicas ele impiedosamente pretendia fazer entrar as suas cavalarias. Assim começou a conquista otomana da Europa. Maomé II conduziu bem os turcos, mas eles encontraram um exército equivalente na ilha de Rodes, em 1480, onde um pequeno exército liderado pelos Hospitalários (uma ordem cruzada de monges também conhecida como "Ordem de Malta") derrotou-os contra todas as previsões.

Furioso, Maomé mandou seu almirante Gedik Ahmed Paxá fazer um ataque surpresa no sul da Itália, começando com a cidade de Otranto, em 28 de julho. Tão repentino foi o ataque que não houve nenhuma resposta europeia organizada ao sítio, mesmo depois que a cidade havia sido tomada. Por mais de duas semanas os cidadãos de Otranto resistiram à entrada dos otomanos, rejeitando os seus termos de rendição. Como a cidade possuía uma frágil reserva de 50 soldados, os civis entraram na batalha. Suas defesas porém não durariam para sempre e, no dia 11 de agosto de 1480, os muros da cidade cederam.

No interior da cidade ingressaram cerca de 20 mil turcos e aqueles que permaneciam em seu caminho eram simplesmente degolados pelas espadas otomanas. Os invasores correram à catedral, onde encontraram o arcebispo Stefano Agricoli, velho e débil, vestido com paramentos litúrgicos, rezando a Missa, juntamente com todo o clero e o povo da cidade, pela salvação de Otranto. À vista dos invasores, o arcebispo instou seu rebanho a permanecer fiel à Fé, enquanto ele mesmo era capturado e morto no local (alguns relatos mantêm que ele foi cortado em dois, esquartejado, decapitado, e depois os muçulmanos fizeram desfiles com sua cabeça ao redor da cidade). Os padres do lugar, todos reunidos na catedral em torno de seu bispo, foram martirizados do mesmo modo. Foi a vez, então, do resto dos sobreviventes da cidade: todos os homens com mais de 50 anos foram mortos; mulheres e crianças abaixo de 15 anos foram levados como escravos.

Ao fim do massacre, restaram vivos ainda em torno de 800 homens. O almirante Paxá falou com eles, oferecendo-lhes a escolha de converterem-se ao Islã ou morrerem. Consigo o almirante trazia inclusive um padre apóstata, chamado João, usado para chamar os homens a unirem-se a eles, ao invés de morrerem na mão dos turcos. Antonio Primaldi, um velho alfaiate, manifestou-se rejeitando a oferta e encorajando seus companheiros a fazerem o mesmo, morrendo como mártires pela Fé. Todos os 800 homens concordaram e, no dia 14 de agosto, depois de receberem uma última chance de salvarem as suas vidas convertendo-se ao Islã (proposta novamente recusada por todos os 800), todos eles foram mortos, tendo seus corpos sido depositados em uma cova profunda.

Os turcos foram eventualmente expulsos de Otranto por uma coalizão de poderes da Europa reunidos pelo Papa e enviados por monarcas notáveis, como Isabel e Fernando da Espanha. Os turcos atacariam a Europa novamente, e mais uma vez seriam barrados. Os mártires de Otranto se tornariam heróis locais, seus restos mortais seriam encontrados e colocados na catedral da cidade, e eles terminariam venerados ao longo dos séculos. Beatificados em 1771, pouco mais de três anos atrás, eles foram canonizados pelo Papa Francisco.

Como os católicos de Otranto, os mártires cristãos de semanas recentes morreram na mão de militantes islâmicos. Como aqueles católicos assassinados no século 15, o mártir moderno enfrenta a escolha de abandonar a Fé para salvar a própria vida. Como aqueles bravos homens em Otranto, também o mártir de hoje permanece firme, diz não, e enfrenta a espada do inimigo da Fé com fortaleza e caridade.

Maximiliano Kolbe morreu muito mais recentemente que os mártires de Otranto. Sua história é bem conhecida. Nascido em uma humilde família na Polônia, o jovem Raimundo (Maximiliano foi o nome religioso que ele tomou depois) recebeu uma visão da Virgem Maria, oferecendo-lhe a escolha de duas coroas, uma branca, da pureza, e uma vermelha, do martírio. O garoto pediu pelas duas e as receberia. Como adulto, juntou-se aos Franciscanos e terminou fundando sua própria ordem, a Milícia da Imaculada. Ele e seus irmãos religiosos logo entraram em conflito com os nazistas, que tinham tomado a Polônia. Como os turcos otomanos, os nazistas tentaram tomar a Europa e eliminar o Cristianismo. Como os muçulmanos, os nazistas começaram perseguindo padres e religiosos. Kolbe e sua Milícia tomaram uma posição vigorosa contra os nazistas, que levou à prisão de Kolbe em fevereiro de 1941, quando ele foi levado a Auschwitz.

Ali, São Maximiliano servia os prisioneiros, enquanto sofria o abuso de seus sequestradores. Os oficiais em Auschwitz tinham um particular desprezo pelos sacerdotes católicos, motivo pelo qual Kolbe sofreu severamente. Veio então o dia fatal. Três prisioneiros haviam escapado, e o comandante nazista reuniu todos os prisioneiros do quarteirão, forçando-os a permanecerem a postos até que os fugitivos fossem encontrados. Como voltassem das buscas de mãos vazias, o comandante selecionou dez homens para serem executados no lugar dos fugitivos. Um dos selecionados desabou a soluçar, lamentando por sua mulher e filhos. Kolbe deu um passo à frente para tomar o seu lugar e oferecer a sua vida, a fim de que aquele homem sobrevivesse. O comandante aprovou, e Kolbe e outros nove homens foram levados a uma câmara de gás. O padre deixou o outro homem com cânticos e orações, e no dia 14 de agosto de 1941, cerca de duas semanas depois, os prisioneiros sobreviventes, incluindo Maximiliano Kolbe, foram mortos por injeção letal.

O homem que sobreviveu graças ao sacrifício de Kolbe viveu por muitos anos. Ele e muitos outros em Auschwitz testificaram a santidade de Kolbe e pedidos por sua canonização ecoaram quase que imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial. O religioso foi beatificado em 1971 e canonizado em 1982. Na canonização, o Papa São João Paulo II declarou-o mártir. Trata-se de um título apropriado, já que sua morte foi um sacrifício, de acordo com a doutrina do Salvador, de que "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos".

Essas duas histórias de martírio oferecem-nos exemplos do sacrifício a que somos chamados por causa de nosso batismo. Hoje, o mesmo mal que dilacerou a Cristandade pela espada dos turcos otomanos e pela bota dos nazistas ameaça destruir nossa Igreja e a Fé. Mesmo contra esse mal, a força de mártires como aqueles de Otranto ou como São Maximiliano Kolbe, dão-nos um modelo de apostolado. Pode até não acontecer que venhamos a testemunhar Cristo com nosso sangue, mas todos, sem exceção, somos chamados a ser suas testemunhas.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere