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Uma visita ilustre a um corpo incorrupto

Dentre os muitos fiéis que já visitaram o corpo de Santa Madalena de Pazzi, um nome especial ficou registrado nos anais do carmelo de Florença.

Santa Maria Madalena de Pazzi, cuja memória a Igreja universal celebra neste 25 de maio, viveu na passagem do século 16 para o século 17.

Enfrentando a resistência de uma família abastada, Madalena se fez carmelita com apenas 16 anos, em Florença. Passou em sua vida religiosa por inúmeros sofrimentos de ordem física e espiritual, pelos quais foi recompensada com experiências místicas e visões extraordinárias de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem e de muitos outros santos.

Era uma mulher de muita oração e intimidade com a Palavra de Deus. Uma testemunha de seu processo de canonização conta que via Madalena passar horas meditando os Evangelhos:

"Eu me lembro, em particular, de que todos os sábados, tomando o livro dos evangelhos, ela pegava dois ou três pontos do evangelho do domingo seguinte, a sua escolha, e meditava sobre eles a semana inteira, gastando cerca de duas horas pela manhã e uma, à noite, nessa meditação." [1]

Depois de sua morte, no ano de 1607, o seu corpo foi um dos muitos na história da Igreja a experimentar o fenômeno da incorrupção:

"O corpo da santa foi cuidadosamente examinado durante as exumações de 1612 e 1625, e de novo em 1663 para o processo de canonização. A cada vez era atestado por todas as testemunhas que a preservação de seu corpo era de natureza miraculosa, 'já que ele não estava em nenhuma parte aberto ou embalsamado, nem nenhum artifício havia sido usado nele'." [2]

No momento de sua morte, as suas irmãs no convento afirmavam que seu corpo "não inspirava terror como os cadáveres geralmente fazem, mas, ao contrário, à morte daquela santa alma, seu rosto permaneceu alegre e todos os seus membros ficaram tão brancos quanto o marfim". Hoje, mais de 400 anos depois de sua morte, o "marfim" tomou uma cor amarelada, mas o seu rosto ainda sorri. Uma descrição recente de sua relíquia diz que Madalena "parece gentilmente dormir à espera da ressurreição" [3].

Visitante ilustre de seu corpo incorrupto foi a pequena Teresa de Lisieux, em 1887.

O encontro entre essas duas santas mulheres se deu durante uma peregrinação da família Martin à Itália. Santa Teresinha, sua irmã Celina e seu pai Luís (também ele santo canonizado) voltavam de Roma, depois de uma tentativa frustrada de obter do Papa Leão XIII o ingresso prematuro de Teresa no carmelo. O breve episódio é relatado em seu famoso livro História de uma alma:

"Em Florença, fiquei contente de contemplar Santa Madalena de Pazzi no meio do coro das Carmelitas que nos abriram a grande grade. Não sabíamos deste privilégio, e como muitas pessoas queriam tocar seus terços no túmulo da Santa, só eu pude passar a mão pela grade que nos separava dele. Assim, todos me traziam os terços e eu estava toda orgulhosa com meu ofício... Achava sempre o meio de tocar em tudo." [4]

O primeiro dado notável desse encontro são as suas protagonistas: duas mulheres, veneradas como santas e mestras da vida interior pela Igreja Católica — a mesma que o feminismo moderno acusa de misoginia e de patriarcalismo. Ditas acusações se devem, em grande medida, a uma tremenda ignorância histórica. Desde o seu início, de fato, a religião cristã deu um tratamento especial às mulheres [5], a começar por Maria, escolhida por Deus para ser a própria mãe do Verbo encarnado:

"A mulher em si mesma [...] nunca foi tão exaltada como no cristianismo. Dir-se-ia até que o foi mais do que o homem, não só porque Jesus a encontrara mais aviltada, e a tomou de mais baixo, como também porque, pela apoteose incomparável de Maria Santíssima, colocou uma simples mulher em culminâncias inatingíveis a nenhuma outra criatura humana." [6]

A própria Santa Teresinha do Menino Jesus escreve que "elas [as mulheres] amam a Deus em número bem maior do que os homens, e durante a Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem do que os Apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos soldados e ousaram enxugar a Face adorável de Jesus" [7].

Assim, o sexo que acabou muitas vezes, após a queda do gênero humano, sucumbindo a uma dominação destruidora do sexo masculino (cf. Gn 3, 16), agora se encontra cumulado de inúmeros benefícios, a ponto de o Apóstolo dizer que, "em Cristo, não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher" (Gl 3, 28): independentemente do sexo com que nascem as pessoas, todas são chamadas à perfeição na caridade.

No encontro entre essas duas grandes almas, transparece, ao mesmo tempo, uma grande humanidade: Santa Teresinha não só contemplava Madalena, mas "achava sempre o meio de tocar em tudo". Olhando o modo como esta piedosa jovem tratou as relíquias de Santa Madalena de Pazzi, também nós aprendemos a venerar os restos mortais dos santos de Deus: embora não sejam "deuses", as suas almas já participam definitivamente da natureza divina (cf. 2 Pd 1, 4) no Céu.

Por isso, enquanto seus corpos parecem "gentilmente dormir à espera da ressurreição", nós, a exemplo de Santa Teresinha, achemos sempre o meio de tocar em suas santas relíquias, na esperança de que o mesmo repouso celestial de que eles gozam, nós também experimentemos um dia, por toda a eternidade.

Santa Maria Madalena de Pazzi,
rogai por nós!

Santa Teresinha do Menino Jesus,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. VASCIAVEO, Chiara. Maria Madalena de Pazzi, o tesouro escondido na Igreja. 30 Dias, n. 11 (2007).
  2. CRUZ, Joan Carroll Cruz. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, p. 195.
  3. Ibid., p. 196.
  4. Manuscrito A, 66r. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 137.
  5. Cf. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006.
  6. CORRÊA, Dom Aquino. Elevação da mulher (9 de dezembro de 1934). Discursos, v. 2, t. 2. Brasília, 1985, pp. 135-137.
  7. Manuscrito A, 66v. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 138.

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Rita de Cássia, uma história de amor através do sofrimento

A história da famosa Santa Rita de Cássia mostra que, realmente, “fora da Cruz, não existe outra escada por onde subir ao Céu”.

O corpo incorrupto de Santa Rita de Cássia é um dos casos mais célebres da história da Igreja. Ela morreu em 1457, mas até hoje, quem quer que visite a pequena comuna de Cássia, no interior da Itália, ficará impressionado em encontrar os restos mortais dessa santa mulher, ainda bem preservados no interior de uma urna dourada de cristal.

Numerosos eventos aconteceram ligados a essas relíquias. Só "no momento de sua entrada no Céu, a cela em que ela se encontrava ficou repleta de um perfume extraordinário, uma luz espantosa emanou do estigma que ela tinha na testa e conta-se que os sinos da cidade foram tocados alegremente pelos anjos". Os fenômenos odoríferos e muitos outros milagres fizeram as autoridades civis e eclesiásticas "instalarem as suas relíquias em um lugar acessível aos peregrinos que visitavam continuamente o seu túmulo". Antes de sua canonização, em 1627, "o corpo foi cuidadosamente examinado e achado perfeitamente como no dia de sua morte, com a pele apresentando ainda a sua cor natural" [1], fato que salta aos olhos principalmente porque o seu corpo nunca tinha sido adequadamente sepultado, no correr de mais de 150 anos.

O reconhecimento de sua santidade, no entanto, não provém necessariamente da incorrupção de seu corpo. Há inúmeros homens e mulheres canonizados pela Igreja cujos restos mortais passaram por um processo natural de decomposição, sem que houvesse quaisquer acontecimentos extraordinários. Por isso, é preciso dizer que, ainda que o corpo de Santa Rita de Cássia não fosse encontrado incorrupto, ela seria canonizada por sua vida e pelo grande amor com que serviu a Deus.

De fato, Santa Rita é conhecida no mundo inteiro como "a santa das causas impossíveis" — e sua história não deixa de atestar a verdade do título que recebeu de seus devotos. Tendo casado muito cedo e meio que a contragosto, Rita sofreu muito com o temperamento violento e tempestuoso do marido, mas, graças ao fervor de suas orações e penitências, viu a graça divina agir sobre Paolo Ferdinando, pouco antes de seu assassinato, motivado por razões políticas. Os seus dois filhos juraram vingar a morte do pai, mas a mãe se prostrou novamente diante de Deus, dizendo que preferia ver os dois filhos mortos antes que que chegassem a cometer esse crime.

Sem dúvida, essas são palavras difíceis de serem pronunciadas por uma mãe, mas não para uma mulher convicta da eternidade e do valor da alma de seus filhos. Rita sabia que este mundo não era a "última palavra": sabia que, para além desta vida terrena, existia uma vida eterna futura, ou de glória ou de perdição, e que seria muito melhor para os seus filhos uma existência curta nesta terra que uma vida eterna sem Deus no inferno.

A exemplo de Santa Mônica, Rita foi atendida em suas preces e viu os seus filhos morrerem não só livres da culpa do homicídio, mas também do ódio e do rancor que eles nutriam em relação aos assassinos de Paolo Ferdinando. Os dois morreram perdoando os inimigos de seu pai. O que parecia humanamente impossível, Rita o alcançou pela força de suas orações.

Só por essa história belíssima — que muitos gostariam de ter repetida em suas famílias, vendo-as convertidas a Deus — a sua vida já mereceria um filme.

Rita, porém, depois de viver em plenitude o sacramento do Matrimônio, não deixando que se perdesse nenhum dos que lhe tinham sido confiados (cf. Jo 18, 9), decide entrar para a vida religiosa, a fim de celebrar aquele casamento definitivo com o Esposo de todas as almas que vivem neste mundo: Jesus Cristo. Aí, mesmo neste caminho tão belo de entrega a Deus, não é menor o sofrimento que a espera: primeiro, para conseguir entrar no Convento das Irmãs Agostinianas de Cássia, cuja regra impedia o ingresso de mulheres viúvas (outro impossível que ela superou com o auxílio de Deus); depois, para lidar com uma ferida supurante e malcheirosa, que fê-la viver os últimos 15 anos de sua vida em absoluto recolhimento (após a sua morte, foi dessa mesma ferida que emanou aquela luz gloriosa de que falamos).

A história de Santa Rita de Cássia é, em suma, uma história de amor a Deus através do sofrimento. Todos aqueles que querem ser verdadeiros devotos desta santa mulher devem trilhar a mesma via que ela: uns na vida matrimonial e outros na vida celibatária, mas todos no mesmo caminho do Calvário, porque, como dizia outra piedosa mulher, Santa Rosa de Lima, "fora da Cruz, não existe outra escada por onde subir ao Céu" [2].

Que o Espírito Santo nos ajude a transformar todos os nossos sofrimentos em atos de caridade; a converter toda a nossa dor em verdadeiro amor.

Santa Rita de Cássia,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Sugestões

Referências

  1. CRUZ, Joan Carroll. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, p. 102.
  2. HANSEN, P. Vita mirabilis (...) venerabilis sororis Rosae de sancta Maria Limensis. Roma, 1664, p. 137.

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Os milagres do corpo incorrupto de São Pascoal

Ele foi para o Céu, mas o seu corpo ficou e Deus realizou inúmeros milagres através de suas relíquias.

Estátua que abriga o corpo de São Pascoal, na cidade espanhola de Villarreal.

Por Joan Carroll Cruz | Tradução: Equipe CNP — Nascido em Torre Hermosa, no então Reino de Aragão, de uma humilde família de agricultores, Pascoal trabalhou como pastor de ovelhas dos 7 aos 24 anos. Conta-se que ele recebeu uma visão de São Francisco e de Santa Clara ordenando a ele que entrasse para a Ordem Franciscana. Em uma data futura, ele acabou sendo admitido ao mosteiro dos Franciscanos Alcantarinos de Monteforte. Como irmão religioso, ele serviu em várias funções nos mosteiros da Ordem, mas sua atividade predileta era cuidar dos pobres e doentes, pelos quais ele frequentemente derramava lágrimas de compaixão e realizava milagres de cura.

A devoção à Santa Eucaristia era o tema dominante de sua vida. Seu primeiro biógrafo, Padre João Gimenez, que era amigo pessoal do santo, registra que Pascoal passava todo o seu tempo livre diante do tabernáculo, ajoelhado no próprio assoalho, com as mãos apertadas e firmes acima do rosto. Ele também conta que o santo se deleitava em servir a várias Missas sucessivas e que várias vezes passava a noite em oração diante do sacrário.

Durante uma viagem à França em missão, ele foi chamado várias vezes para defender sua fé na Santa Eucaristia. Para um frade, usar o hábito durante aquele tempo de guerras religiosas era um convite ao desastre, e ele foi muitas vezes preso, interrogado e maltratado pelos calvinistas huguenotes. Em uma das cidades, ele chegou a ser apedrejado e sofreu um ferimento no ombro que o afligiu pelo resto da vida.

Por uma coincidência, o exato "momento da partida desse santo homem para o Céu coincidiu com o de sua entrada no mundo. Ele tinha 52 anos naquele dia, Domingo de Pentecostes, ao amanhecer" de 15 de maio de 1592 [1].

Conheça o quadro Visión de San Pascual Bailón, de Giambattista Tiepolo, que retrata uma aparição do Santíssimo Sacramento ao santo espanhol.

Devido à grande quantidade de pessoas que desejava ver os restos mortais, o seu corpo foi transportado da humilde cela em que ele morreu para uma das capelas na igreja de Nossa Senhora do Rosário. Os fiéis que passavam em fila pelo caixão ficavam impressionados com a irradiação celeste de seu semblante e com o líquido perfumado que se acumulava em sua testa desde o momento de sua morte. Durante os três dias de exposição, "o óleo milagroso que destilava dos membros do santo fluía copiosa e continuamente" [2]. Conta-se que foram necessários guardas armados para controlar as pessoas, muitas das quais foram autorizadas a coletar o dito líquido em pequenos tecidos, que depois curaram várias doenças até então sem esperança de cura.

Também se conta que muitos dos que participaram do velório puderam testar a flexibilidade do corpo e abrir as pálpebras para ver os seus olhos, que eram de um brilho e de uma claridade incomuns.

Dos grandes prodígios e milagres que aconteceram em todos os cantos, talvez o incidente mais extraordinário que ocorreu durante esse período solene foi a miraculosa abertura dos olhos do corpo, um milagre visto por muitas das pessoas que lotaram a igreja.

Eleonora Jorda y Miedes, uma testemunha ocular desse fato, que até então sentia repulsa por cadáveres, relatou em seu testemunho:

"Dirigi-me ao Irmão Pascoal como se ele estivesse vivo, beijei as suas mãos e seus pés e vi as milagrosas gotas de suor em sua fronte. No fim, estava me sentindo tão bem ao lado daquele santo homem que, a fim de permanecer o maior tempo possível com a sua bendita companhia, resolvi não deixar a capela antes do fim da Missa Solene. Devo confessar, para minha vergonha, que dava mais atenção ao que estava acontecendo ao redor do santo homem que à celebração do Santo Sacrifício. Quando o vi abrindo os olhos no momento da elevação da Hóstia, fiquei tão estarrecida que soltei um grito. 'Mamãe, mamãe! — exclamei para minha mãe, que tinha vindo comigo — Veja, veja! Irmão Pascoal está com os olhos abertos!' Ela olhou e também viu os olhos do santo abertos.

Todos os que fomos testemunhas desse milagre tínhamos em mente uma só coisa: que, com aquilo, Nosso Senhor queria recompensar a extraordinária devoção de Pascoal à Santa Eucaristia, dando a ele uma vida nova, a fim de que, mesmo do outro lado do túmulo, ele ainda tivesse a consolação de adorar Jesus no Santíssimo Sacramento do altar." [3]

Na noite do terceiro dia seguinte à sua morte, enquanto era preparado um lugar para o corpo sob o altar da Imaculada Conceição, Pascoal foi revestido de um novo hábito, já que o antigo havia sido despedaçado pelos fiéis. Antes do enterro, o vigilante cobriu o corpo com uma grossa camada de cal virgem para consumir rapidamente a carne e para produzir um material lustroso, que ele achou que poderia parecer bonito em um relicário. Ele também agiu pressupondo que a cal destruiria rapidamente a carne, impedindo assim que ela emitisse qualquer odor desagradável — um fato que chocaria as pessoas e "mancharia" a reputação adquirida pelo corpo depois de tantas maravilhas.

O corpo permaneceu imperturbável nesse agente cáustico por oito meses, até que o provincial da Ordem, Padre João Gimenez, que ficara impossibilitado de assistir ao funeral devido a uma doença, visitou a urna do santo com o propósito de exumar secretamente o corpo. Quanto a esse incidente, ele relata que, em companhia de vários frades:

"A tampa foi levantada e, quando nos aproximamos do relicário, atestamos a presença da crosta de cal que escondia o santo de nossa vista. Eu não permitiria que ninguém mais tivesse a honra de remover essa crosta. Por isso, fui retirando-a, pouco a pouco, começando com a porção que cobria o seu rosto.

Ó alegria celestial! À medida que eu tirava a máscara, as feições de nosso bem-aventurado irmão eram reveladas, cheias de ânimo e de vivacidade. Era de fato ele mesmo, milagrosamente preservado na carne, intacto da cabeça aos pés, até na ponta do nariz, que é normalmente a primeira parte a dar sinais de decomposição.

Quando levantei as pálpebras, parecia que os olhos se fixavam em nós e sorriam. Os membros estavam tão flexíveis que respondiam a cada movimento que fazíamos com eles. Nada lembrava morte, nem a presença de um cadáver: ao contrário, tudo respirava vida e trazia consolação e alegria para a alma. A linguagem humana é incapaz de retratar tal espetáculo.

De joelhos diante do relicário nós derramamos as mais doces lágrimas de nossas vidas. Tomei a mão do santo sobre a minha e, trazendo-a para perto de meus lábios, beijei-a ternamente. Um líquido cristalino como bálsamo destilou de seu rosto e de suas mãos. Quando todos os religiosos tinham satisfeito sua devoção, uma camada fresca de cal se espalhou sobre o corpo e, então, eu me dirigi ao santo nos seguintes termos:

'Aquele que por oito meses preservou-te tão milagrosamente sob esta cal, é poderoso o bastante para te preservar ainda, pelos muitos anos que hão de vir, e dar assim maior fulgor ao milagre, até chegar o tempo oportuno de transladar as tuas gloriosas relíquias a um sepulcro menos indigno de ti.'

Tendo restabelecido a urna em seu nicho, e reconstruído a pequena parede de tijolos, retiramo-nos em silêncio para preparar um registro desse primeiro reconhecimento do corpo." [4]

A segunda exumação foi realizada em 22 de julho de 1594. Os religiosos da comunidade encontraram apenas alguns pedaços de sua mortalha. O corpo, com exceção da extremidade das narinas e de alguns fragmentos de pele, continuava resistindo à corrupção, e descobriu-se que o pedaço de um ouvido e um dedo tinham sido anteriormente levados como relíquias. Também se descobriu que o corpo permaneceu sem apoio quando colocado em posição vertical.

A data da terceira exumação privada não é conhecida, mas um incidente ocorrido nessa ocasião é digno de nota. Um dos religiosos, em segredo e sem autorização, amputou ambos os pés do santo e levou-os consigo. Ao descobrirem o sacrilégio, os superiores ordenaram que os pés fossem devolvidos, sob pena de excomunhão, e eles foram imediatamente recolocados no caixão algumas horas depois. A mutilação acabou sendo vantajosa, no entanto, pois de seus pés foram retiradas numerosas relíquias.

Dezenove anos após a morte do santo, uma exumação oficial foi feita para o processo de beatificação. Na presença do bispo de Segorbe, do provincial, do postulante da causa, de alguns eminentes dignatários do país, de médicos, de cirurgiões e de um escrivão, os três cadeados do caixão foram abertos e as formalidades de costume foram observadas antes que o seu interior fosse revelado.

"Assim que a tampa foi aberta, uma fragrância agradável, parecida com um aroma de flores, emergiu do sepulcro. Com uma tesoura, o bispo começou a abrir o hábito do santo até a cintura, a fim de dar aos médicos a oportunidade de fazer uma avaliação do corpo, que já estava por dezenove anos fechado dentro do caixão. Os médicos e cirurgiões empreenderam aquele delicado procedimento com o cuidado e a reverência que eram esperados de cristãos sinceros. A tampa foi recolocada assim que eles terminaram, satisfeitos, as suas investigações. No dia seguinte, a comissão se reuniu mais uma vez para ouvir a leitura do relatório médico. A conclusão a que chegaram, baseada nos princípios da ciência médica, confirmava o estado milagroso do corpo:

'Nós, os médicos e cirurgiões abaixo assinados, afirmamos sob juramento diante de Deus e de acordo com a nossa consciência, que o corpo do irmão Pascoal Bailão é incorrupto, e que a forma de sua preservação é sobrenatural e milagrosa.'" [5]

Aos prodígios e milagres mencionados acima deve ser acrescentado outro: o dos curiosos "golpes" que procediam de seu túmulo e de suas imagens. As batidas eram interpretadas instintivamente de acordo com a sua intensidade e frequência, e eram normalmente aceitas como um aviso amigável. É desnecessário dizer que os barulhos incomuns instilavam nos corações dos agraciados uma intensa alegria religiosa e uma grande consciência da presença do santo.

Os estranhos barulhos foram escutados pela primeira vez quando um filho espiritual do santo, Antônio Pascal, começou a usar em seu pescoço um relicário contendo um pequeno fragmento de osso tirado de um dos seus pés. Primeiro, o menino sentia leves toques em seu peito, como se as relíquias estivessem vivas, e essas vibrações foram se tornando habituais. A quem quer que desconfiasse do milagre, era só o menino tirar o relicário e dizer devotamente: "Adorado seja o Santíssimo Sacramento do altar", e as batidas imediatamente se faziam ouvir.

A devoção ao Santíssimo Sacramento que Pascoal Bailão exibia tão devotamente durante a sua vida refletiu nos fenômenos e milagres realizados por ele depois de sua morte, os quais contribuíram em grande medida para um avivamento da fé e um aumento da devoção nos corações de muitos. Portanto, nada seria mais apropriado que Pascoal Bailão, canonizado em 1690, fosse declarado pelo Papa Leão XIII em 1897 padroeiro dos Congressos Eucarísticos e de todas as organizações dedicadas ao aumento do amor e da devoção à Santa Eucaristia.

Por Joan Carroll Cruz | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
CRUZ, Joan Carroll. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 180-186.

Sugestões

Referências

  1. PORRENTRUY, Louis-Antoine de. The Saint of the Eucharist (trad. de Oswald Staniforth). Londres, 1908, p. 161.
  2. Ibid., p. 168.
  3. Ibid, p. 172.
  4. Ibid., p. 183.
  5. Ibid., p. 187.

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O dia em que um feiticeiro apanhou de São Damião

Quando chegou ao Havaí, o padre Damião teve muitas dificuldades para acabar com as bruxarias e superstições daquele povo. Até o dia em que ele ficou face a face com um feiticeiro.

Hoje, a Igreja celebra a memória de São Damião de Veuster († 1889), o padre belga da Congregação dos Sagrados Corações, que saiu da Europa para evangelizar o arquipélago do Havaí. Esse sacerdote ficou conhecido por escolher passar o resto de seus dias na ilha de Molokai, uma porção de terra escolhida para isolar pessoas que tivessem contraído a doença da lepra. Ao partir para Molokai, Damião assinava, na verdade, a sua sentença de morte. Ele sabia que, uma vez na ilha dos leprosos, jamais tornaria a sair de lá. Mesmo assim, por amor às almas que aí estavam, passando no extremo sofrimento os seus derradeiros dias, ele foi.

A história a seguir, extraída de sua famosa biografia escrita por John Farrow, aconteceu antes mesmo que Damião partisse para Molokai, mas ilustra o fervor que já movia esse grande homem de Deus ainda enquanto jovem sacerdote.

As vicissitudes da natureza não eram o único obstáculo que o sacerdote tinha de enfrentar. Havia outros, menos evidentes, mas mais poderosos, e sem dúvida mais difíceis de vencer: continuavam a praticar-se na ilha os ritos pagãos e muitos dos fiéis de Damião se encontravam ainda sob a influência nefasta dos curandeiros nativos, que procuravam manter a sua identidade em segredo. Nos tempos antigos, esses feiticeiros, chamados kahunas, tinham constituído uma casta muito respeitada e temida, situada logo abaixo dos reis, a quem não se subordinavam.

Com efeito, apenas cerca de cinqüenta anos antes da chegada de Damião, o poder dos feiticeiros chegara a tal ponto que as ilhas estavam dominadas por uma infinidade de tabus [1], que seriam ridículos se não tivessem resultados trágicos. Um kahuna podia decidir da vida e morte de um homem e, como era crença geral que estava em constante comunicação com a sua divindade favorita, podia decretar um tabu por qualquer motivo. A única escapatória possível para quem transgredisse uma proibição dessas era fugir para uma cidade-refúgio, pois, tal como os antigos israelitas, também os havaianos possuíam redutos murados e cercados de templos, dentro de cujos limites podia abrigar-se qualquer pessoa, independentemente do crime que tivesse cometido.

Depois da morte de Kamehameha I [2], os reis passaram a opor-se ao poder dos kahunas e a casta dos feiticeiros entrou em decadência. Só nas regiões mais afastadas é que ainda aparecia ocasionalmente algum desses feiticeiros, formando ao seu redor um grupo de adeptos que praticava em segredo determinados ritos sinistros.

A certa altura, Damião percebeu indícios de que existia no seu distrito um desses grupos: chegaram-lhe rumores vagos acerca de feitiços, medos e exóticas e obscenas danças rituais, e à cabeceira dos moribundos começaram a aparecer amuletos e simpatias, sinais evidentes do trabalho de algum curandeiro. Embora se tivesse lançado numa vigorosa campanha, pregando contra a superstição e procurando descobrir a identidade dos sectários e os seus locais de reunião, não obteve resultado algum. Mesmo os seus paroquianos mais fiéis e dedicados assumiam um ar taciturno diante das suas perguntas, como se temessem alguma vingança sobrenatural, e o missionário teve de reconhecer, com grande tristeza, que o mal parecia estender-se, ao invés de diminuir. Rostos que antes se abriam num sorriso amistoso agora viravam-se de lado quando passava; muitos já não lhe respondiam aos cumprimentos; o número de assistentes à missa começou a decrescer e até nos funerais, quando encomendava o corpo, surpreendia às vezes uns olhares furtivos entre os presentes, como se se tivessem invocado outros poderes.

Certa noite, sentado à porta da sua casa para desfrutar da paz do entardecer, observava tranqüilamente o céu estrelado quando ouviu à distância uns tambores que soavam com uma nota estranha: não era o habitual toque festivo, mas um tantã rápido e inquietante, que se interrompeu abruptamente. O agudo silêncio que se seguiu foi cortado por um grito lancinante e inumano, e novamente o silêncio. Damião pôs-se de pé num salto e olhou alarmado na direção de onde viera o barulho, mas já vivera nas ilhas tempo suficiente para saber que era melhor não tentar nada durante a noite.

Na manhã seguinte, explorou meticulosamente os arredores e efetivamente encontrou, escondido numa moita de xaxins, um ídolo de pedra toscamente esculpido. Examinou-o com cuidado, à luz esverdeada que se filtrava através das frondes: as feições eram grosseiras e a figura obesa e atarracada; tinha cerca de um metro e vinte de altura e estava colocado sobre uma laje achatada, evidentemente um altar, salpicada de manchas escuras e pegajosas de sangue coagulado, sinais claros de um recente sacrifício sangrento. Tomado de horror, Damião aplicou os ombros contra a imagem e derrubou-a sobre o altar, que se despedaçou. A seguir, cortou dois galhos de uma árvore próxima e amarrou-os com um cipó, formando uma cruz tosca que cravou triunfalmente no mesmo lugar onde se erguera o ídolo. E, para que ninguém tivesse dúvidas sobre o autor do feito, deixou o seu chapéu de clérigo ao lado, bem à vista.

Para conhecer melhor a vida do Pe. Damião, assista no YouTube ao filme Molokai, de 1999. O áudio é em inglês, mas o vídeo tem legendas em espanhol:


O dia seguinte era um domingo, e na homilia o sacerdote não mediu as palavras para denunciar os praticantes da idolatria. Era um desafio, e a reação não se fez esperar: na manhã seguinte, encontrou atado à sua porte um amuleto feito de uma concha retorcida de cinzas mal-cheirosas. Sabendo muito bem que o vilarejo inteiro estava pendente das suas menores ações, tomou a peça e, alardeando desprezo, amarrou-a ao rabo de um grande porco. Sem dar importância ao abracadabra que arrastava, o suíno fuçou e chafurdou por toda a aldeia naquele dia, à ruidosa maneira dos da sua espécie, mas durante a noite foi morto e deixado à porta de Damião, com a garganta aberta por um profundo corte serrilhado.

O missionário procurou levar o incidente para a brincadeira, mandando dizer que, apesar de o açougueiro não lhe ter parecido dos mais competentes, agradecia muito o presente anônimo da carne fresca. Mas os habitantes da aldeia não compartilhavam da sua tranqüilidade: ninguém ousou aproximar-se da carcaça e até o nativo que o ajudava nas tarefas da casa desapareceu quando Damião foi chamá-lo para esfolar o porco.

Tarde da noite, enquanto se remexia na cama, inquieto com o novo problema que minava e até ameaçava destruir todo o seu trabalho, o ruído distante dos tambores veio novamente interromper o fio dos seus pensamentos. Aguçou os ouvidos e percebeu um segundo som, como de alguém que arranhasse a sua janela. Do lado de fora estava uma mulher, uma criatura tímida e amedrontada, que conhecera tempos atrás por haver-lhe tratado o filho doente. Com a voz quase irreconhecível de pressa e de medo, ela sussurrou-lhe umas poucas palavras e depois, como que assustada com a sua própria ousadia, desapareceu de novo nas sombras antes de o sacerdote ter podido fazer-lhe qualquer pergunta. Mas tinha dito o bastante: numa caverna mortuária não longe dali, acabara de começar uma cerimônia de invocação dos espíritos malignos contra a vida do padre.

Damião vestiu-se e em poucos instantes estava a caminho do local, situado na base de um penhasco encravado no monte. Essa caminhada de cerca de uma hora pela mata fechada e no meio da mais absoluta solidão deve ter posto à prova os seus nervos indomáveis, mas em momento algum hesitou.

Ouvia-se o ritmo abafado dos tambores. A boca da caverna estava iluminada por um pálido clarão vermelho, que bruxuleava sobre as rochas vizinhas. Saindo das sombras da floresta, Damião aproximou-se da penha e, nesse momento, sobrepondo-se ao ruído dos tambores, ressoou um longo estertor agudo, como se algum animal estivesse sendo torturado. Os participantes da cerimônia deviam sentir-se seguros, pois não se viam sentinelas, e o sacerdote pôde chegar sem problemas à entrada da caverna e contemplar o espetáculo por detrás do enorme pedregulho.

No centro do recinto, fincadas no chão, erguiam-se quatro tochas altas e fumarentas. A sua luz vacilante permitia entrever um semicírculo formado por uns trinta homens de diversas idades, agachados ombro a ombro, o olhar voltado para as sombras do fundo da caverna, onde uma figura fantasmagórica, curvada como uma hiena, estava ocupada num trabalho que Damião a princípio não conseguiu distinguir. Em voz baixa, a criatura cantarolava monotonamente uma invocação. Por todos os lados, sobre pilhas de mortalha, viam-se restos humanos, ossos estranhamente brancos naquela obscuridade, espalhados numa confusão inextricável de caveiras, pernas e mãos desmembrados. O ar estava quase irrespirável e fedia a morte. À luz das tochas, as paredes negras brilhavam como carvões umedecidos.

A ladainha cresceu de tom e Damião, cujos olhos mais e mais se acostumavam à luz mortiça, reconheceu o feiticeiro, um certo Mauae, que gozava em toda aquela região da reputação de sábio e adivinho. Mirrado e de pele negra, sem nenhum dente e incrivelmente velho, não era uma figura grata de se ver, e muito menos naquelas circunstâncias. A certa altura, levantou-se e mostrou o corpo inerme de um cachorro cuja garganta tinha cortado. Segurando-lhe a cabeça em ângulo reto, deixou o sangue do animal escorrer para uma grande gamela e, depois de enchê-la, abandonou o cadáver e concentrou-se sobre a sua repugnante poção, balançando o corpo para frente e para trás ao som de uma cantilena, como se tentasse entrar em transe. Subitamente, a invocação cessou e o feiticeiro ergueu a mão, em sinal aos tamborileiros para que parassem.

O profundo silêncio que se seguiu, quebrado apenas pela respiração ofegante do mago, parecia quase sobrenatural e estava carregado de expectativa. A um segundo sinal, apagaram-se três das tochas e os olhos de todos, esgazeados de terror, fixaram-se obsessivamente na sombria figura do feiticeiro, que agora estendia a mão para além da carcaça degolada do cachorro e extraía da escuridão outro objeto, um tosco boneco de madeira cujo rosto fora pintado de branco e que vestia algo de parecido com uma batina preta. Em volta do seu pescoço pendia uma pequena cruz de madeira, e em torno da cintura trazia um terço cuja falta Damião sentira havia algum tempo. Sem sombra de dúvida, o boneco pretendia ser uma efígie do sacerdote, e o feiticeiro fez-lhe umas caretas enquanto se voltava para a sua sangrenta gamela.

Damião entrou em ação. Sem uma única palavra, lançou-se no meio dos assistentes, e estes, atordoados pelo súbito aparecimento, ficaram momentaneamente paralisados. Mas logo um urro uníssono se ergueu de todas as gargantas e o grupo tentou avançar sobre ele. Enraivecido, o missionário fez sem querer a coisa mais conveniente de todas: arrancou o boneco das mãos de Mauae e, com um safanão, lançou o feiticeiro para longe, fazendo-o derrubar a gamela, cujo conteúdo se espalhou numa grande mancha escura. Ao verem o sangue derramado, os nativos detiveram-se imediatamente e caíram num silêncio pasmo, enquanto presenciavam um espetáculo que não esperavam: o sacerdote fazia em pedaços a efígie. Nos seus rostos, o ódio deu lugar ao medo e depois à perplexidade. Esperavam que uma terrível catástrofe se abatasse sobre o homem branco que se atrevia a destruir o boneco mágico, mas nada de grave aconteceu; em vez dos trovões dos espíritos irados, só se ouvia uma torrente de imprecações vindas da figura agachada do feiticeiro, que, tendo-se esgueirado para a escuridão do fundo, morria visivelmente de medo do padre.

Damião perscrutou os rostos escuros que o cercavam, lendo-lhes os pensamentos. Os pais desses homens haviam praticado os mais horrendos sacrifícios humanos sob as ordens dos seus kahunas, e nas suas aldeias ainda viviam anciãos que se vangloriavam de ter visto a carne do capitão Cook [3] queimada sobre os altares; se aqueles nativos continuassem a ter a menor ponta de fé no autor do estúpido ritual a que acabavam de assistir, era muito provável que dessem a Damião o mesmo fim que tivera o descobridor. Mauae tinha de ser completamente desacreditado.

Com um movimento de braços repentino e violento, que fez os kanakas recuarem alarmados, o sacerdote dispersou pelo chão com desprezo os restos do boneco. "Por acaso vocês são crianças, para terem medo de um boneco e do sangue de um cachorro?", perguntou-lhes com desdém. A seguir, calcando a cabeça do fetiche na lama, demonstrou-lhes de maneira irrefutável que nenhum mal lhe podia advir dos maus espíritos, por mais que os insultasse. Os rostos tensos assumiram um ar de dúvida e a seguir de vergonha, e ninguém tentou detê-lo quando se encaminhou para a saída, depois de lhes dizer que aquele lugar infecto não era próprio de homens de bem e que deviam retornar para as suas esposas e filhos. A passos largos, o sacerdote regressou a casa, feliz com a vitória alcançada.

Depois desse incidente, quase ninguém ousou opor-se à sua pessoa. Em breve, toda a paróquia fervilhava de atividade.

Extraído de: FARROW, John. Damião, o leproso (trad. de Antonio F. Amado). São Paulo: Quadrante, 1995, pp. 68-74.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas

  1. Atualmente, a palavra tabu significa simplesmente "algo que é proibido", mas a sua origem está ligada a proibições religiosas que acarretavam maldições para as pessoas que as descumprissem, como se pode depreender do próprio texto.
  2. Kamehameha I foi o primeiro monarca a governar o Reino do Havaí. Curiosamente, foi o seu nome que deu origem ao famoso golpe dos personagens do desenho Dragon Ball.
  3. O capitão James Cook foi o primeiro explorador e cartógrafo europeu a entrar em contato com o arquipélago do Havaí, em 1776. O navegador morreu três anos depois, vítima dos nativos havaianos.

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O dia em que o padre negou a Comunhão a uma santa

Certa vez, um sacerdote negou a Eucaristia a Santa Catarina de Sena. A santa, é claro, se conformou com a vontade de Deus, mas algo extraordinário aconteceu depois.

Inúmeros episódios de recepção incomum da Eucaristia são relatados na vida de Santa Catarina de Sena, a mística dominicana do século 14.

Uma dessas comunhões aconteceu durante a Festa da Conversão de São Paulo, em 25 de janeiro.

Estando fraca por conta de tribulações espirituais, Santa Catarina entrou na igreja de São Domingos, mas, ao invés de juntar-se às suas irmãs, ficou em um canto próximo à porta, do lado de um altar inutilizado. Uma das irmãs, notando a sua presença, saiu ao seu encontro e levou-a para junto do resto da comunidade, a fim de receber a Santa Comunhão. Chegada a sua vez, o padre simplesmente passou adiante, sem dar a Catarina a hóstia consagrada. Quando o mesmo se repetiu em duas outras Missas, a santa enxergou nisso um sinal de sua indignidade e se dobrou à vontade de Deus.

O que se passava, na verdade, era o seguinte: o prior do mosteiro havia dado ordens para os sacerdotes não ministrarem a Comunhão à santa, a fim de evitar que manifestações místicas de Catarina distraíssem o povo que vinha participar das celebrações.

Depois da segunda Missa, no entanto, quando a santa já se tinha resignado a toda a situação, uma luz brilhante circundou o altar e, no meio dela, apareceu uma visão da Santíssima Trindade: o Pai e o Filho sentados em tronos e o Espírito Santo sobre eles em forma de pomba. De repente, uma mão de fogo segurando o Santíssimo Sacramento surgiu da visão e a hóstia consagrada foi colocada sobre a língua de Santa Catarina, já arrebatada em êxtase.

O bem-aventurando Raimundo de Cápua, confessor de Catarina, conta que não era raro essas coisas acontecerem com sua filha espiritual:

"Várias pessoas dignas de crédito me asseguraram que, quando assistiam a Missas em que Catarina recebia a Santa Comunhão, eles viam manifestamente a hóstia consagrada escapando das mãos do sacerdote e voando para a sua boca. Eles me diziam que esse prodígio acontecia até mesmo quando eu lhe dava a hóstia consagrada. Devo confessar que nunca percebi isso mui claramente, só notava um certo tremor na hóstia, quando eu a apresentava aos seus lábios. Então, a hóstia entrava em sua boca como uma pedrinha lançada de longe com força. Outro frei também me disse que, quando dava a Catarina a Sagrada Comunhão, ele sentia a hóstia consagrada fugindo, não obstante os seus esforços para segurá-la."

O mesmo Raimundo de Cápua dá testemunho de outra ocasião, quando ele celebrava a Santa Missa sem a presença de Catarina. No momento apropriado após a Consagração, ele partiu a hóstia, mas, ao invés de se dividir ao meio, ela foi separada em três partes, duas grandes e uma pequena. Essa pequena parte, "enquanto eu atentamente observava, me parecia ter caído no corporal, do lado do cálice acima do qual eu tinha feito a fração. Eu a vi claramente cair sobre o altar, mas não conseguia distingui-la no corporal". Depois de procurar em vão, Raimundo continuou com a Missa. Depois, ele cobriu cuidadosamente o altar e pediu ao sacristão para vigiar as proximidades.

Correndo para encontrar Catarina, o sacerdote relatou o incidente da partícula perdida e deu voz à sua suspeita de que talvez ela a tivesse recebido misticamente. Catarina disse-lhe, então: "Padre, não fique mais preocupado com a partícula da hóstia consagrada. Eu verdadeiramente lhe digo, como meu confessor e pai espiritual, que o próprio Esposo Celeste a trouxe para mim e eu a recebi de Sua divina mão".

Fonte: Eucharistic Miracles | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

[*] O quadro acima é A Comunhão Milagrosa de Santa Catarina de Sena, e foi pintado por Domenico di Pace Beccafumi.

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Luterana convertida à Igreja será declarada santa pelo Papa Francisco

Ela nasceu na Suécia protestante para morrer em odor de santidade na Roma católica. Conheça um pouco da história da Beata Maria Isabel Hesselblad, que será canonizada em junho pelo Papa Francisco.

O Papa Francisco vai canonizar, no próximo dia 5 de junho, a religiosa sueca Maria Isabel Hesselblad. Trata-se de um destino pouco comum para quem nasce na região da Escandinávia, dominada pelo protestantismo desde o século XVI.

De fato, Isabel foi criada em um lar protestante. Nasceu no vilarejo de Faglavik, sudoeste da Suécia, no dia 4 de junho de 1870. Ela era a quinta de 13 irmãos e foi batizada na comunidade luterana da Suécia, que seus pais frequentavam todos os domingos.

Com 16 anos, para ajudar nas necessidades materiais de casa, Isabel começa a trabalhar como doméstica. Dois anos depois, em 1888, a jovem decide mudar-se para os Estados Unidos, onde passa a trabalhar como enfermeira em um hospital de Nova Iorque. Aí ela entra em contato com diferentes culturas e religiões, descobrindo um mundo cristão totalmente diverso daquele a que estava acostumada na Suécia: a Igreja Católica.

Enquanto atendia a um trabalhador irlandês que se havia ferido na construção da futura Catedral de São Patrício, Isabel ouviu-o clamando o auxílio de Nossa Senhora: "Maria, Mãe de Deus, rogai por nós!". Assustada com a invocação, a jovem Isabel escreveria que "não era cristão" falar daquele modo. "Os católicos usam umas fórmulas curiosas", pensou ela na ocasião.

Outra noite, depois de enfrentar uma terrível tempestade buscando um sacerdote para um católico moribundo, ela receberia uma bênção profética. "Que Deus te abençoe, querida irmã, pelo teu cuidado e dedicação", disse-lhe o religioso. "Tu ainda não és capaz de entender o maravilhoso serviço que prestas a tanta gente, mas um dia o entenderás e encontrarás o caminho."

A jovem Isabel perambulava com suas amigas por várias igrejas cristãs de distintas denominações e se perguntava qual seria o único rebanho a que se referia o Evangelho de São João. Muito lhe agradava o silêncio das igrejas católicas, ainda que não conseguisse entender o porquê de tantos gestos físicos, como o sinal da cruz e as genuflexões.

Foi durante uma viagem a Bruxelas, enquanto acompanhava suas amigas católicas em um procissão do Santíssimo na Catedral de São Miguel e Santa Gudula, que Isabel teve um encontro pessoal com Jesus na Eucaristia:

"Ao ver as minhas duas amigas e muitos outros se ajoelhando, retirei-me atrás das portas para não ofender os que me rodeavam ficando de pé. Pensei comigo: 'Só me ajoelho diante de ti, Senhor, não aqui'. Naquele momento, o bispo chegou à porta carregando a custódia. Minha alma atormentada se encheu de repente de doçura e escutei uma voz, que parecia proceder ao mesmo tempo do exterior e do fundo do meu coração, que me dizia: 'Eu sou aquele que tu buscas'. Caí de joelhos, então, e ali, atrás da porta da igreja, realizei a minha primeira adoração a nosso divino Senhor presente no Santíssimo Sacramento."

Essa experiência mística abriu a alma de Isabel à fé católica. Depois, a oração, o estudo e os conselhos de um sábio padre jesuíta terminariam dissipando as suas dúvidas em relação a Nossa Senhora. Em 15 de agosto de 1902, já com 32 anos, Isabel finalmente recebe o Batismo "sob condição", no Convento da Visitação, em Washington. "Por um momento o amor de Deus foi derramado sobre mim", ela escreve, relembrando esse evento tão importante em sua caminhada de fé. "Entendi, então, que só poderia responder àquele amor por meio do sacrifício e de um amor disposto a sofrer por Sua glória e pela Igreja. Sem hesitar ofereci a Ele a minha vida e a minha vontade de segui-Lo no caminho da Cruz."

Durante uma peregrinação à Cidade Eterna, Isabel recebeu o sacramento da Confirmação e descobriu que devia dedicar toda a sua vida a rezar pela unidade dos cristãos. Ao visitar o templo e a casa de sua conterrânea, Santa Brígida, ela ficou profundamente impressionada e sentiu que Deus lhe chamava para a vida consagrada: "É neste lugar que desejo que Me sirvas".

Em 1906, ela recebe a permissão do Papa São Pio X para tomar o hábito da Ordem do Santíssimo Salvador, fundada por Santa Brígida. Cinco anos depois, passados inúmeros percalços, ela consegue estabelecer em Roma uma casa das brigidinas, dando início a um novo ramo da comunidade.

Desde o começo de sua fundação, Isabel se dedicou com muito cuidado à formação e direção de suas filhas espirituais. Ela implorava a elas que vivessem unidas a Deus, que tivessem um desejo fervoroso de se conformarem a nosso Divino Salvador, que possuíssem um grande amor pela Igreja e pelo Romano Pontífice e, por fim, que rezassem continuamente pela unidade de todos os cristãos. "Essa é a primeira meta da nossa vocação", ela repetia. "Nossas casas religiosas devem ser formadas pelo exemplo de Nazaré: oração, trabalho e sacrifício. O coração humano não pode aspirar a nada maior."

Contemplando o infinito amor do Filho de Deus, que Se sacrificou pela nossa salvação, ela alimentava a chama do amor em seu coração e lutava por transmitir a mesma caridade a suas filhas. "Nós devemos nutrir um grande amor por Deus e pelo próximo", ela dizia. "Um amor forte, um amor ardente, um amor que elimine as imperfeições, um amor que gentilmente suporte um ato de impaciência ou uma palavra amarga, um amor que se preste prontamente a um ato de caridade."

Durante a Segunda Guerra Mundial, o convento das brigidinas em Roma escondeu inúmeros refugiados, vindos de todos os lados, o que fez o Estado de Israel reconhecê-la com o título de "justa entre as nações".

A bem-aventurada Maria Isabel Hesselblad morreu em 24 de abril de 1957, em odor de santidade. Já em 2000 ela foi beatificada pelo Papa São João Paulo II.

Ao aproximar-se a sua morte, Isabel rezava continuamente o Rosário. "A Virgem está mais próxima de mim que o meu próprio corpo", ela escrevia. "Sinto que seria mais fácil cortar-me um braço, uma perna ou a cabeça que afastar de mim a Virgem. É como se a minha alma estivesse acorrentada a ela."

Com informações de ReL e Vaticano | Por Equipe CNP

Sugestão

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Cinco razões para acreditar nos santos incorruptos da Igreja Católica

Esses santos morreram e suas almas foram ao encontro de Deus, mas os seus corpos estão intactos e desafiam a ciência até os dias de hoje.

Hoje em dia, a humanidade conhece muitas técnicas de preservação de corpos, mas a mais famosa de todas começou a ser empregada ainda no Egito Antigo, mais de 5 mil anos atrás. No método chamado de mumificação, os órgãos internos dos faraós eram cuidadosamente removidos, as cavidades do corpo preenchidas com ervas e outros materiais naturais e, depois, os corpos eram banhados em óleos e envoltos em faixas. Tutancâmon, a mais famosa múmia do Egito, por exemplo, foi encontrada por arqueologistas em 1922 e já contava com mais de 3 mil anos de história.

Trata-se, sem dúvida, de um fato impressionante, mas muito distante de um milagre, pelo menos no sentido sobrenatural do termo. Santo Tomás de Aquino, ao explicar o que são milagres ( miracula), lembra a sua semelhança com a palavra mirabilis, de onde vem o nosso adjetivo "admirável" [1]. Assim, qualquer coisa que cause espanto e admiração entre as pessoas pode ser considerada, genericamente, um milagre.

As múmias egípcias, no entanto, eram preservadas intencionalmente. O processo de embalsamamento era complexo e levava em torno de dois meses. Os sacerdotes politeístas e reencarnacionistas procediam assim para manter a identidade dos cadáveres em sua "jornada para o outro mundo". Nesses casos, há uma explicação natural bem clara para o fenômeno. Não se pode falar de intervenção divina nos sarcófagos antigos.

Muito menos se pode chamar de sobrenaturais os episódios de preservação acidental que a literatura moderna reporta acontecer aos montes, em diferentes lugares do mundo. Também esses casos têm uma explicação natural muito simples: ou foram (parcial ou integralmente) isolados de seus agentes decompositores, ou receberam substâncias químicas que os preservaram da decomposição. Em 1865, por exemplo, os habitantes da cidade de Guanajuato, no México, ficaram assustados quando exumaram os corpos de seus conterrâneos e descobriram que eles ainda não tinham sido totalmente consumidos pela terra! A explicação, porém, não se encontrava em nenhum poder mágico, mas simplesmente no solo salgado e seco do cemitério em que os defuntos tinham sido enterrados.

Coisa bem diferente, todavia, é o que acontece com os chamados "santos incorruptos" da Igreja Católica: são santos, porque amaram a Deus de modo extraordinário durante suas vidas; incorruptos, porque seus corpos foram achados espantosamente preservados, sem a intervenção de quaisquer agentes naturais; e diz-se que são especificamente da Igreja Católica, porque em nenhuma outra religião do mundo são achados de modo tão numeroso e constante quanto na Igreja fundada por Cristo. Por isso, esse fenômeno pode muito bem ser considerado como que um "selo" divino da autenticidade da fé católica — ainda que nenhum fiel batizado deva fazer depender desses milagres a sua fé na Revelação cristã.

De qualquer modo, se são autênticos e vieram realmente de Deus, não há por que desprezar essas manifestações sobrenaturais. O problema é que, muitas vezes, as pessoas simplesmente não sabem o que significa esse fenômeno, nem entendem por que eles são um milagre. Por isso, resumimos aqui para você pelo menos cinco motivos para acreditar nos corpos incorruptos dos santos da Igreja:

1. Eles tinham tudo para se decomporem

Cadáveres preservados de modo natural são rapidamente isolados do contato com a umidade, com o calor ou com outros agentes externos.

Com os santos incorruptos, porém, não foi assim.

Só para começar a conversa, muitos deles levaram vários dias para serem enterrados, devido à resistência dos fiéis em se separarem do objeto de sua veneração. Tome-se como exemplo São Bernardino de Siena, que ficou exposto para o culto dos fiéis por 26 dias, ou Santa Ângela Merici, cujo corpo ficou exposto para veneração pelo período de um mês.

Outros tantos foram preservados mesmo em condições extremamente adversas de umidade. Santa Catarina de Gênova permaneceu no túmulo por 18 meses, mas foi achada intacta apesar de sua mortalha estar úmida e deteriorada. Santa Maria Madalena de Pazzi foi desenterrada um ano depois de sua morte e, embora seu hábito estivesse encharcado, seu corpo permaneceu exatamente o mesmo. Nove meses após a sua morte, Santa Teresa de Ávila foi encontrada coberta de terra devido ao rompimento da tampa de seu caixão e, mesmo vestida com pedaços de tecido sujos e decompostos, o seu corpo não se encontrava apenas fresco, mas perfeitamente intacto e ainda exalando uma curiosa fragrância. A mesma resistência à umidade pôde ser verificada nos corpos de São Carlos Borromeu, Santa Catarina de Bolonha, Santa Catarina Labouré e São Charbel Makhlouf.

Outros corpos ainda, como os de São Colmano e São Josafá, resistiram ao ar e à água: o primeiro ficou suspenso por tanto tempo na árvore em que foi enforcado, que todos os habitantes da região se maravilharam com a sua preservação; o segundo, por sua vez, foi lançado em um rio, onde permaneceu por cerca de uma semana, sem sofrer nenhum dano.

São Francisco Xavier, São João da Cruz e São Pascoal Bailão resistiram de modo ainda mais impressionante a substâncias corrosivas que foram lançadas sobre eles. Também eles tinham tudo para se decomporem, mas resistiram milagrosamente.

2. Eles exalam perfumes extraordinários

Esse fenômeno é tão antigo entre os santos da Igreja que a literatura eclesiástica já consagrou a expressão "morrer em odor de santidade". Embora seja usada normalmente em sentido figurado, indicando as boas virtudes com que morreram os homens e mulheres de Deus, essa frase está fundada em um fato: o de que muitos santos realmente exalaram perfumes extraordinários depois de mortos.

Os casos históricos mais notáveis desse fenômeno são os de Santa Liduína, Santa Catarina de Ricci, São Felipe Néri, São Geraldo Majella, São João da Cruz, São Francisco de Paula, Santa Rosa de Viterbo, Santa Gema Galgani e São José de Cupertino.

As testemunhas desse fato extraordinário sempre evitaram quaisquer analogias e semelhanças para descrever a suavidade e a fragrância do odor que perceberam com o olfato. Um especialista foi enviado, certa vez, ao convento da beata e mártir Maria dos Anjos (Espanha, † 1936) para tentar identificar a natureza do perfume que exalava o corpo dessa serva de Deus. Ele teve que confessar que não se parecia com nenhum dos perfumes desta terra. As religiosas, suas companheiras, costumavam chamá-lo "odor de paraíso ou de santidade".

Dos muitos eventos ligados à incorrupção dos corpos, este é sem dúvida um dos mais impressionantes e inexplicáveis. É conhecido o parecer do Papa Bento XIV, na famosa obra que ele escreveu sobre a beatificação dos servos de Deus:

"Que o corpo humano possa naturalmente não cheirar mal, é muito possível; mas que cheire bem está acima de suas forças naturais, como ensina a experiência. Por conseguinte, se o corpo humano, corrompido ou incorrupto, em putrefação ou sem ela [...], exala um odor suave, persistente, que não incomoda a ninguém, mas que parece agradável a todos, deve-se atribui-lo a uma causa superior e deve pensar-se em um milagre." [2]

3. Eles permanecem macios e flexíveis por longos anos

Corpo incorrupto de Santa Bernadette Soubirous, em Nevers, na França.

Múmias preservadas naturalmente trazem consigo um aspecto duro e rígido, comumente chamado de rigor mortis. A maioria dos santos incorruptos, ao contrário, nunca experimentou rigidez cadavérica — muitos permaneceram flexíveis anos após a sua morte, alguns atravessando séculos. Santa Catarina de Bolonha, por exemplo, tinha o corpo tão maleável 12 anos após a sua morte que foi colocado na posição em que se encontra até o dia presente: sentado.

Quem olha para as urnas de alguns santos, principalmente os mais antigos, pode ser tentado a duvidar da sua incorrupção. Na Índia, por exemplo, depois de quase 500 anos, restam praticamente apenas os ossos de São Francisco Xavier. No caso de Santa Bernadette Soubirous, embora o seu corpo esteja intacto desde 1879, já foi aplicada uma camada de cera ao seu rosto. Outros tantos exemplos poderiam evocar dúvidas a respeito da confiabilidade desses milagres. Afinal, a Igreja estaria tentando "maquiar" os seus santos?

Na verdade, o fenômeno da incorrupção não significa incorruptibilidade. A demora de algumas santas relíquias em se corromperem não significa que elas nunca se decomporão — e a Igreja nunca ensinou isso. Um corpo incorrupto não é um corpo indestrutível! Incorruptíveis e gloriosos, só os corpos ressuscitados de Jesus e Maria, que estão no Céu. Os outros — dos santos e servos de Deus — só o serão na ressurreição dos mortos, no fim dos tempos.

Essas observações também são importantes para lembrar o fim com que Deus realiza esses prodígios: conduzir as pessoas à fé em Jesus Ressuscitado. Os santos cujos corpos experimentaram o fenômeno da incorrupção não são "deuses". Eles são membros do Corpo Místico de Cristo e recordam que, assim como Ele não se corrompeu e vive para sempre, aqueles que levam uma existência pura e livre dos vícios nesta terra estão destinados para uma herança eterna e incorruptível no Céu.

4. Eles transpiram sangue e óleos preciosos

Além dos perfumes misteriosos sobre os quais já falamos, outro fenômeno muito comum entre os santos incorruptos é a transpiração de líquidos especiais.

Consta que esse milagre tenha acontecido — para mencionar apenas alguns nomes — com Santa Maria Madalena de Pazzi, Santa Júlia Billiart, Santo Hugo de Avalon, Santa Inês de Montepulciano, Santa Teresa d'Ávila, São Camilo de Lelis e São Pascoal Bailão. O óleo que fluiu várias vezes do corpo da beata clarissa Mattia Nazzarei, que morreu em 1320, continua jorrando sem parar de suas mãos e de seus pés, até os dias de hoje.

Outro caso impressionante é o do religioso libanês Charbel Makhlouf, cujo corpo foi depositado em um túmulo sem caixão, como previa a regra maronita. Exumado quatro meses depois de sua morte, tempo suficiente para a destruição parcial do corpo, São Charbel estava coberto de lama, mas seu aspecto permaneceu natural e flexível por longos anos, emitindo constantemente sangue e água, à semelhança do lado aberto do Redentor. Mais admirável que o fluxo, porém, é a quantidade de líquido que o seu corpo já exsudou, número que supera (e muito) a quantidade normal de qualquer ser humano vivo.

5. Eles foram visitados por luzes sobrenaturais

Ainda que não contribuam em nada para preservar essas relíquias, a aparição de luzes sobre os corpos e as tumbas de alguns desses santos atestam, de certo modo, a sua vocação divina.

A santidade de São Guthlac, por exemplo, foi confirmada por muitas testemunhas, que viram a casa onde ele morreu ser coberta por uma luz brilhante, que saía de lá em direção ao Céu. O perfume que provinha da boca de São Luís Beltrão em seu leito de morte era acompanhado de uma luz intensa que clareou a sua humilde cela por muitos minutos. Vários outros santos foram favorecidos com essa iluminação, incluindo São João da Cruz, Santo Antônio de Stroncone e Santa Joana de Lestonnac.

Mas talvez a mais impressionante manifestação tenha ocorrido, novamente, na tumba de São Charbel Makhlouf. A luz que brilhou intensamente por 45 noites em seu túmulo foi testemunhada por vários habitantes do vilarejo e eventualmente resultou na exumação do seu corpo, revelando os fenômenos que se observam até hoje.

Evidentemente, a Igreja não dá crédito a todo e qualquer caso de incorrupção que é alegado pelas pessoas. As autoridades eclesiásticas preferem trilhar o caminho da prudência, emitindo um parecer definitivo só depois que os fatos apresentados ao seu juízo se mostrem inexplicáveis à ciência humana.

A mesma posição de cautela deve ser recomendada a todos os fiéis. Sem se deixarem contaminar pelo ceticismo doentio do mundo, lembrem-se sempre do fim com que Deus opera essas grandes maravilhas: levar as pessoas à fé em Seu divino Filho e em Sua Santa Igreja. É para Ele, Jesus Cristo, que apontam todos os santos e santas da Igreja, principalmente os que, por um dom de Deus, receberam em seus corpos mortais a dádiva da incorrupção.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendações

Referências

  1. Suma contra os gentios, III, 101.
  2. De servorum Dei beatificatione, XXXI, 24.

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O mugido do “Boi Mudo” que sacudiu a Igreja

Como todo santo, Tomás de Aquino também precisou ser moldado na escola das virtudes e dos sacramentos antes de tornar-se o maior Doutor da Igreja

Os santos nunca nascem prontos. Nas Sagradas Escrituras, lemos que mesmo Jesus, apesar de Sua natureza divina, precisou crescer "em estatura, sabedoria e graça" (Lc 2, 52), segundo Sua natureza humana, antes de iniciar seu fecundo ministério público. No nosso caso, porém, esse crescimento exige um grau de purificação adequado à nossa realidade decaída, uma vez que — à exceção da Virgem Santíssima e do próprio Cristo, que nasceram imaculados — todos estamos marcados pelo pecado original e, portanto, privados dos "dons preternaturais", dependemos da economia sacramental, caso queiramos subir os degraus da escada da santidade. É assim e assim será até a parusía.

Chesterton tinha uma expressão muito feliz sobre a perfeição cristã: "Todo santo é um homem antes de ser santo; e um santo pode ser feito de todo tipo de homem" [1]. Quem está acostumado a contemplar a singela imagem de Santa Teresinha do Menino no Jesus, com aquele crucifixo, rodeado por flores, nos braços, não imagina o quão mimada foi a pequena carmelita, durante sua infância e pré-adolescência. Do mesmo modo, ninguém acreditaria no passado devasso de Santo Agostinho não fosse ele mesmo a revelá-lo, entre lágrimas e murmúrios, nas suas Confissões. Que dizer, então, do pacífico São Paulo que, antes da conversão no caminho para Damasco, era perseguidor de cristãos e depois, já como apóstolo, teve de viver um longo período em retiro, a fim de livrar-se de sua fúria explosiva? Até São Pedro, o primeiro papa, passou por uma noite escura da fé para que pudesse ser levado aonde não queria ir.

"O que é estulto no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes" (1 Cor 1, 27). Esse é o plano de Deus segundo as palavras de São Paulo aos coríntios. É que, com esse modo de proceder, Ele não só coíbe nossa tendência à vanglória, como também manifesta seu apreço e amor por todos os seus filhos, ainda que sejam frágeis criaturas de barro, habitualmente ignoradas pelos grandes e poderosos do mundo.

A história de Santo Tomás de Aquino, neste sentido, é um forte testemunho para nós. Após pouco mais de 740 anos de sua morte, é comum pensar nele como o grande Doutor da Igreja, louvado pelos Santos Padres "não só pelo conteúdo da sua doutrina, mas também pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do seu tempo" [2]. Com a famosa encíclica Aeterni Patris, Leão XIII declarou-o "guia e mestre" de toda a teologia escolástica (n. 5). A respeito de sua filosofia, o Papa Pio XII falou: "O desejo sincero... em procurar e propagar a verdade, não é suprimido pela recomendação da doutrina de S. Tomás, mas é antes estimulado e orientado com mais segurança" [3]. Ainda mais contundente foi o Beato Paulo VI, por ocasião do VI Congresso Internacional Tomístico, em 1965. Estas são suas palavras:

(Os Mestres)... ouçam com reverência a voz dos Doutores da Igreja, entre os quais merece o primeiro lugar S. Tomás; é tão grande o engenho do Doutor Angélico, tão sincero o seu amor à verdade e tão grande a sabedoria em investigar, explicar e dar admirável unidade às verdades mais sublimes, que a sua doutrina é o instrumento mais eficaz, não só para fundamentar solidamente a fé, mas também para colher com utilidade e segurança os frutos dum são progresso.

Mas, até que o Concílio Vaticano II, inspirado nos ensinamentos desses três pontífices, fizesse a mais expressiva declaração conciliar já dirigida a Santo Tomás de Aquino na história da Igreja, muita coisa precisou acontecer dentro e fora dos muros da Santa Sé.

Tomás de Aquino nasceu por volta de 1226, no pequeno vilarejo de Roccasecca, uma província italiana da região de Lácio. O mundo, naquela época, vivia fortes conflitos políticos e religiosos, e o pai de Tomás, Conde Landolfo de Aquino, estava profundamente ligado a eles. Como militar, acabou envolvendo-se na destruição de um dos monastérios mais prestigiosos do período, a famosa abadia beneditina de Monte Cassino. Com efeito, era de se esperar que, para desculpar-se com a Igreja, o conde voltasse-se para seu sétimo filho, "um menino grande, pesado e quieto, e fenomenalmente silencioso", procurando nele o "bode expiatório" perfeito [4]. Tudo foi providenciado para que Tomás se tornasse um monge.

Ocorre que nem sempre os planos dos pais da terra são os planos do Pai do Céu. E Santo Tomás de Aquino deixou isso bem claro quando, num dia qualquer, anunciou à sua família que tomaria o hábito dos dominicanos, para ser um frade mendicante. A notícia caiu como uma bomba. Não demorou muito para que os irmãos de Tomás, juntamente com seu pai, lhe armassem uma emboscada. Trancaram-no em uma masmorra, e lá puseram uma cortesã bela e sedutora. Para surpresa dos algozes, porém, o jovem estava resoluto em seu propósito, e, com a valentia de um cruzado, lançou-se contra a moça, portando um tição ardente em chamas que pegara na lareira, à guisa de um espadachim. Ela, logicamente, saiu gritando e desesperada. Foi a primeira das muitas vitórias de Santo Tomás contra os inimigos da santidade.

Mais penosas, contudo, foram as provações dentro da universidade. A figura de Tomás de Aquino era mesmo embaraçosa. O jovem estudante possuía um corpo gordo e alto, nunca abria a boca para nada, e ainda aparentava certa lerdeza no raciocínio. Os demais colegas de classe logo começaram a caçoar dele, dirigindo-lhe toda sorte de gracejos e apelidos infamantes. "Boi Mudo" era como o chamavam entre os corredores da Universidade de Paris. Para piorar a situação, o próprio Tomás resistia a ajudar-se, não participando dos debates das disciplinas. Coube a outro santo — um grande também — a missão de trazer para fora o gênio que estava escondido na lâmpada da timidez. Santo Alberto Magno, como professor de Tomás de Aquino, rapidamente notou a verdadeira grandeza do jovem que se escondia por de trás daquele notável corpo humano. Quando finalmente conseguiu encorajá-lo a falar, o mestre rompeu o silêncio sobre o discípulo: "Vocês o chamam de Boi Mudo; eu lhes digo que esse Boi Mudo mugirá tão alto que seus mugidos preencherão o mundo".

E foi exatamente o que aconteceu. Santo Tomás de Aquino, no seu esforço contra as errôneas interpretações de Aristóteles, não só reconciliou o filósofo pagão com o pensamento católico, mas tornou possível e clara a distinção entre o campo próprio da razão e o campo próprio da fé, para depois também uni-los como "duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade" [5]. Há quem diga que, se a Igreja tivesse sido mais tomista durante a Renascença, o "caso Galileu" nunca teria existido. Entre incompreensões e calúnias, demorou certo tempo para que o mundo — e os teólogos — desse ouvidos ao mugido do Boi Mudo. Mas, uma vez entendido, este mesmo mugido tornou-se a nota principal da grande orquestra teológica da Igreja.

Na base dessa sabedoria, que produziu obras monumentais como a Suma contra os gentios e a Suma Teológica, estava uma vida de profunda humildade, oração e amor à Eucaristia. Como afirma Chesterton, o testemunho de toda a vida do Doutor Angélico mostra "que ele era suprema e diretamente devocional; e que amava apaixonadamente a devoção católica muito antes de ter de lutar por ela" [6]. Por isso, não era raro vê-lo chorando durante a celebração da Santa Missa.

Infelizmente, muitas vozes atuais tendem a querer abafar o mugido do Boi Mudo com suas novidades teológicas e interpretações desconcertantes do Evangelho de Cristo. Contra essas vozes, no entanto, sempre se erguerá a exortação clamorosa do Concílio Vaticano II: "(...) para aclarar, quanto for possível, os mistérios da salvação de forma perfeita, aprendam a penetrá-los mais profundamente pela especulação, tendo por guia Santo Tomás" [7]. Quem tiver ouvidos para ouvir…

Santo Tomás de Aquino,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Referências

  1. CHESTERTON, Gilbert Keith. Santo Tomás de Aquino. Trad. Antônio Emílio Angueth de Araújo. 3. ed. Campinas: Ecclesiae, 2015, p. 22.
  2. São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 43.
  3. Papa Pio XII, Discurso aos Seminaristas (24 de junho de 1939).
  4. CHESTERTON, op. cit., p. 53.
  5. São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 1.
  6. CHESTERTON, op. cit., pp. 32-33.
  7. Concílio Vaticano II, Declaração Optatam Totius (28 de outubro de 1965), n. 16.