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O dia em que um herege apanhou de São Nicolau

Ao ouvir as heresias de Ário, “uma onda de indignação” sacudiu os bispos de Niceia... e o “bom velhinho”, que nada tinha de leniente, partiu às vias de fato!

Fonte: This is Christian Europe/Facebook

Neste dia 6 de dezembro, a Igreja celebra a memória de São Nicolau de Mira, bispo do Oriente que, célebre especialmente por sua generosidade, acabou dando origem à figura do "Papai Noel", hoje bastante difundida durante os festejos natalinos. Para conhecer um pouco mais a história deste santo bispo, remetemos todos os que nos visitam a uma breve homilia do Padre Paulo Ricardo, na qual ele traça algumas linhas de sua biografia.

Nesta matéria, porém, queremos dar ênfase a uma passagem relativamente conhecida da vida de São Nicolau, dada durante a sua participação no primeiro Concílio da Igreja, em Niceia, no ano 325. Foi essa assembleia ecumênica — palavra que quer dizer, em grego, "universal" — que condenou a heresia do arianismo e reafirmou a fé católica na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. O historiador católico Daniel-Rops, autor da famosa coleção História da Igreja de Cristo, relata que, quando os bispos ali reunidos ouviram "alguns fragmentos" dos escritos de Ário, "os erros mostraram-se tão patentes que uma onda de indignação sacudiu todos aqueles homens fervorosos" [1].

Um desses homens fervorosos foi justamente o "bom velhinho", São Nicolau, cuja bondade, ao contrário do que se pode pensar, nada tinha de leniente. Já cansado da insolência de Ário e de ver desonradas, por sua boca, a pessoa divina de Jesus Cristo e a maternidade divina de Nossa Senhora, conta-se que o corajoso bispo confrontou fisicamente o heresiarca, esbofeteando-lhe a boca. Os prelados ao redor se assustaram e, mesmo discordando de Ário, viram-se obrigados a punir o "zelo excessivo" de Nicolau, trancafiando o bispo na prisão e confiscando o seu pálio e a cópia que ele possuía dos Evangelhos.

A resposta do Céu à ira de São Nicolau, no entanto, foi bem outra. Alguns dias depois do ocorrido, os próprios Jesus e Maria visitaram o bispo em sua cela. "Por que estás aqui?", teria perguntado Nosso Senhor a Nicolau, ao que ele respondeu: "Porque vos amo, meu Deus e Senhor" [2]. Imediatamente, foram-lhe devolvidos os símbolos de sua dignidade episcopal. É por isso que, em muitos ícones do santo, é possível vê-lo ladeado de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, respectivamente com um livro e um pálio nas mãos. Destituído do ofício episcopal por seus irmãos, o bispo de Mira terminou o grande Concílio de Niceia readmitido diretamente pelo próprio Deus.

Essa história ensina para nós o valor da "santa ira", repetindo uma lição passada pelo próprio Senhor quando tentado no deserto. Ao ser incitado pelo demônio a transformar as pedras em pão, ou a demonstrar o seu poder, lançando-se de um despenhadeiro, Cristo não ficou perturbado nem repreendeu o diabo. Mas, quando este usurpou para si a honra devida a Deus, dizendo: "Tudo isto eu te darei se, prostrando-te, me adorares", Cristo exasperou-se e o repeliu: "Vai-te, Satanás" (Mt 4, 9-10). Por que agiu assim Aquele que é "manso e humilde" de coração? "Para que aprendamos com seu exemplo", responde Santo Tomás de Aquino, "a suportar com magnanimidade as ofensas dirigidas a nós, mas não tolerar sequer ouvir as injúrias feitas a Deus" [3].

São Nicolau de Mira,
rogai por nós!

Referências

  1. Henri Daniel-Rops, A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, São Paulo: Quadrante, 1988, p. 455.
  2. Taylor Marshall, Saint Nicholas Allegedly Punched This Heretic in the Face…Who was He?.
  3. Suma Teológica, III, q. 41, a. 4, ad 6.

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O primeiro corpo incorrupto da história da Igreja

Foi no século II que viveu a primeira santa a experimentar o fenômeno da incorruptibilidade. Conheça a história de Santa Cecília e saiba como seu corpo foi encontrado preservado ainda no século XVI.

Por Joan Carroll Cruz — A história indica que a primeira santa a experimentar o fenômeno da incorruptibilidade foi Santa Cecília, a padroeira dos músicos. O ano de seu nascimento é desconhecido, mas acredita-se que ela tenha morrido por volta do ano 177 depois de Cristo.

Cecília pertencia a uma rica e distinta família romana, que, apesar do desejo da menina de permanecer virgem, ofereceu a sua mão em casamento a um jovem nobre chamado Valeriano. Na noite de núpcias, Cecília conseguiu convencer o seu esposo a respeitar o seu voto de virgindade e, depois, converteu-o à fé, quando ele foi favorecido com uma visão do seu anjo da guarda. Valeriano e o seu irmão, Tibúrcio, também convertido por ela, foram perseguidos e instados a renunciarem à religião cristã. Como ambos heroicamente se recusassem a fazê-lo, foram decapitados e enterrados ao longo da Via Ápia. Cecília foi presa por ter sepultado os seus corpos e, por esse "crime", teve que escolher entre sacrificar aos deuses pagãos e enfrentar a morte. Ela prontamente afirmou a sua fé e preferiu o caminho do martírio.

Por causa de sua nobreza e juventude, os seus algozes decidiram executá-la em segredo, para evitarem as previsíveis críticas do povo. Cecília foi presa no banheiro de sua casa para morrer por asfixia pelos vapores d'água. Ela permaneceu um dia e uma noite inteiros nesse ambiente sufocante, sem que lhe acontecesse qualquer mal.

Um executor experiente, então, foi enviado para decepar-lhe a cabeça, mas, devido à falta de coragem em matar uma mulher tão jovem e bela, ele não conseguiu cortar a sua cabeça com os três golpes prescritos pela lei. O carrasco acabou fugindo, deixando a santa no pavimento de seu banheiro, viva e totalmente consciente, com a cabeça cortada pela metade. Deitada para o lado direito, com as mãos cruzadas em oração, ela voltou a sua cabeça para o chão e continuou rezando na mesma postura por três dias e três noites. A posição dos seus dedos, três estendidos na mão direita e um na esquerda, foram a sua última e silenciosa profissão de fé na Santíssima Trindade.

Os primeiros cristãos vestiram o corpo da mártir com uma rica túnica de seda e de ouro e colocaram-no em um caixão de cipreste na mesma posição em que ela expirou. Aos seus pés foram colocados os mantos e panos de linho usados para coletar o seu sangue. Ela foi sepultada nas Catacumbas de São Calisto por um bispo de nome Urbano, que também tinha batizado o seu marido e o seu cunhado.

No ano 822, durante o período de restauração da igreja dedicada à sua memória, o Papa Pascoal I quis transferir os restos da santa a um lugar de honra em sua catedral, mas não conseguia localizar o seu túmulo. A santa apareceu-lhe em uma visão extraordinária enquanto ele rezava e contou-lhe o lugar em que estava o seu corpo. A relíquia foi encontrada exatamente no lugar indicado. O Papa, então, colocou o corpo, junto com os ossos do seu marido, do seu cunhado e do mártir Máximo, logo abaixo do altar do templo.

Setecentos e setenta e sete anos depois, em 1599, ocorreu uma das mais documentadas exumações do corpo de um santo, quando o Cardeal Paolo Emilio Sfondrati, amigo de São Filipe Néri, ordenou a restauração de algumas partes da basílica. No dia 20 de outubro daquele ano, enquanto se trabalhava embaixo e perto do altar-mor, dois sarcófagos de mármore branco foram descobertos: eles correspondiam à descrição deixada por Pascoal I das urnas que continham as relíquias dos santos mártires. O Cardeal mandou que se abrisse o sarcófago na presença de testemunhas de inquestionável integridade. Depois que a cobertura de mármore foi removida, o caixão original de cipreste foi encontrado em ótimo estado de conservação. O prelado, com compreensível emoção, levantou a tampa, deixando à vista o tesouro que havia sido guardado pelos papas Urbano e Pascal. Os restos mortais foram encontrados na mesma posição em que a santa tinha morrido, quase 1500 anos antes. Através de um manto de seda que modestamente cobria o seu corpo, era possível ver o vestido dourado da santa, a ferida mortal no seu pescoço e as roupas manchadas de sangue. O Papa Clemente VIII foi imediatamente informado da descoberta e enviou o Cardeal Barônio para examinar o caso, juntamente com Antonio Bosio, explorador das catacumbas de Roma, que nos deixaram inestimáveis documentos descrevendo essa exumação.

Olhando através do velho manto que cobria o seu corpo, eles notaram que Cecília era de baixa estatura, e que a sua cabeça estava voltada para baixo, mas, devido a uma "santa reverência", não fizeram mais nenhuma examinação. Bosio registrou a sua opinião de que a santa foi encontrada na mesma posição em que havia expirado [1].

O Cardeal Sfondrato quis guardar como memorial desse tocante evento um pedaço do tecido coberto de sangue, e distribuiu pequenas relíquias a vários cardeais em Roma. Mas após inspecionar o último pedaço, que ele tinha reservado para si, o prelado descobriu grudado ao tecido um pequeno fragmento do osso da santa, que tinha sido deslocado pela espada e que um cristão primitivo tinha colhido sem perceber enquanto estancava a ferida da santa mártir. Sfondrato preservou essa relíquia como um querido e inestimável tesouro e colocou-a junto dos crânios de São Valeriano, São Tibúrcio e São Máximo, em relicários separados para exposição [2].

O Cardeal também quis reter um pequeno pedaço do vestido da santa e, enquanto o segurava, sentiu debaixo das roupas da virgem as cordas e nós de uma camisa que ela provavelmente usava como cilício [3].

A urna da santa foi colocada em uma sala situada na parte de cima da nave da basílica, onde podia ser vista através de uma janela com grades. A plataforma e a urna foram cobertas com cortinas de seda douradas, e a sala foi esplendidamente decorada com candelabros, belas lamparinas e flores de prata e ouro. Depois, o santuário foi inundado de um misterioso e agradável odor de rosas que procedia do caixão [4].

Por ordem do Papa Clemente VIII, a relíquia foi deixada exposta ali até a festa de Santa Cecília, no dia 22 de novembro, e tão grande era a multidão de fiéis romanos que acorreram à basílica que a Guarda Suíça foi chamada ao local para manter a ordem [5].

Após o período de um mês de exposição, a relíquia, ainda repousando no antigo caixão de cipreste, foi colocada em um novo caixão de prata, comissionado pelo próprio Papa como símbolo de sua veneração pela santa mártir. Na presença de 42 cardeais e representantes diplomáticos de vários países, o Papa celebrou uma Missa Solene durante a qual o corpo da santa foi novamente depositado sob o altar principal.

Um escultor de talento incomum, Stefano Maderno (1576-1636), que parecia empenhado em desempenhar o seu ofício durante a restauração da basílica, esculpiu uma imagem da santa, que é reputada como uma das mais celebradas e conhecidas obras de arte da Itália. Acredita-se que Maderno tenha representado a santa na exata posição em que permaneceu o seu corpo incorrupto. Essa estátua é encontrada imediatamente em frente ao altar-mor em um nicho de mármore preto, que foi designado pelo artista para dar a impressão de um sarcófago aberto. Fazendo isso, Maderno introduziu um novo design de altar, que foi frequentemente imitado depois [6].

Acredita-se que a Basílica de Santa Cecília tenha sido construída no local em que estava a mansão de sua família. A segunda capela, na nave lateral à direita, é chamada de caldário (caldarium, em latim) e é o quarto onde a santa foi condenada à morte. Aí são encontrados os restos de uma antiga banheira romana; os dutos, que continham a água aquecida, estão preservados. A peça de mármore sobre o altar é aquela em que se acredita que Cecília tenha sobrevivido ao primeiro martírio por asfixia, e pode muito bem ser a laje que marcou o lugar de sua morte.

Por Joan Carroll Cruz | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere
CRUZ, Joan Carroll. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 1-4.

Referências

  1. Ludwig von Pastor, The History of the Popes — Drawn from the Secret Archives of the Vatican and other Original Sources, v. XXIV. Londres: Kegan, Paul, Trench, Trubner & Co., 1933, p. 521.
  2. Ibid., p. 522.
  3. Prosper Guéranger, Life of Saint Cecilia, Virgin and Martyr. Filadélfia: Peter F. Cunningham, 1866, p. 283.
  4. Ibid., p. 284.
  5. Pastor, op. cit., p. 523.
  6. Ibid., p. 525.

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De onde vêm as críticas a Madre Teresa de Calcutá?

De onde vêm as críticas à figura de Madre Teresa de Calcutá, canonizada há poucos dias no Vaticano? Por que uma freira que passou a vida inteira servindo aos mais pobres incomoda algumas pessoas?

Sim, talvez você não soubesse, mas há quem não goste de Madre Teresa de Calcutá, a freira que estava sempre sorridente, sempre servindo aos outros e sempre falando de Deus. Embora tenha falecido há quase 20 anos, a sua figura ainda é uma "pedra no sapato" de muitas pessoas.

Por ocasião de sua canonização, realizada neste domingo pelo Papa Francisco, alguns jornais ao redor do mundo fizeram questão de ressuscitar algumas antigas polêmicas, em uma tentativa patética de desacreditar seja a santidade de Teresa, seja a idoneidade da Igreja, acusada de propor ao culto de seus fiéis personagens controversas ou moralmente duvidosas.

Mas de onde vem, afinal, o burburinho de revolta contra a religiosa de Calcutá?

Ainda que as vozes dissonantes se tenham espalhado por toda a mídia ultimamente, o crítico mais famoso de Madre Teresa já morreu. Seu nome era Christopher Hitchens e ele se encontrava, não por acaso, nas fileiras do chamado "novo ateísmo". Em 1994, três anos antes da morte da religiosa albanesa, esse jornalista produziu um documentário atribuindo-lhe o infamante título de "Anjo do Inferno" (engraçado até, para quem não acredita nem em anjos, nem em inferno).

Quando ela foi beatificada pelo Papa São João Paulo II, ainda em 2003, Hitchens voltou a soltar seus cachorros: "Nós acabamos de presenciar a elevação e consagração do dogmatismo extremista, da fé cega e o culto de uma personalidade humana medíocre", ele dizia. "Ela era uma fanática, uma fundamentalista, e uma fraude, e uma igreja que oficialmente proteja aqueles que violam os inocentes (sic) acaba de nos dar outro claro sinal de onde ela realmente se situa em questões morais e éticas".

As palavras de Hitchens são pesadas, é verdade, mas seria possível, afinal, esperarmos algo diferente de alguém que não acreditava nem em Deus, nem em santidade, nem no conceito cristão de "caridade"? Como esperar que um ateu, descrente na vida eterna, compreendesse uma mulher que se gastou completamente por isso? Como esperar que um materialista, para o qual nada havia além deste mundo, compreendesse o discurso e a obra de uma pessoa que testemunhava diariamente o Céu?

Alguém poderá dizer que essas questões não contemplam a totalidade da crítica de Hitchens. Mas, para o teólogo e escritor americano Thomas D. Williams, que consultou toda a literatura "dedicada a manchar o legado de Madre Teresa":

"Todos os argumentos contra ela, na verdade, podem ser resumidos em duas coisas que, para a esquerda, são absolutamente imperdoáveis: sua firme e intransigente oposição ao aborto e sua espiritualidade abertamente cristã que a fazia entregar-se por seus irmãos. Todas as outras razões apresentadas — que ela prestava uma assistência médica precária, que ocasionalmente se irritava com suas ajudantes, que aceitava doações de personagens moralmente ambíguas — não passam de uma máscara para cobrir essas razões que levam a esquerda ao ponto da histeria."

Trocando em miúdos, a razão por que muitos não gostavam — e ainda não gostam de Madre Teresa — é o fato de ela ser profundamente católica.

Santa Teresa de Calcutá não tinha medo de dizer, por exemplo, que "o maior inimigo da paz hoje é o aborto, porque ele é uma guerra direta, um assassínio direto feito pela própria mãe". A religiosa disse-o uma vez, quando foi premiada com o Nobel da Paz, em 1979, e voltou a falar do assunto em 1994, nos Estados Unidos: "Se nós aceitamos que uma mãe pode matar até mesmo seu próprio filho, como vamos dizer às outras pessoas para que não se matem?", ela perguntava, com destemor, a uma plateia que incluía o casal Bill e Hillary Clinton. "Com o aborto, a mãe não ensina a amar, mas mata inclusive o próprio filho para resolver seus problemas. Qualquer país que aceite o aborto está ensinando seu povo não a amar, mas a usar de qualquer violência para chegar aonde quer."

As palavras incisivas dessa humilde freira sobre o aborto, é preciso dizer, não têm nada de religiosas. Madre Teresa não invoca nenhuma revelação divina ou dogma católico para condenar o aborto e a sua legalização. Para se opor a essa prática, basta o bom senso. Mas, quando boa parte da sociedade está cega e incapaz de compreender os elementos mais básicos da lei natural, denúncias como essa inevitavelmente fazem inimigos. O próprio Hitchens não conseguia disfarçar o seu horror a esse discurso.

Outra coisa que o inquietava a respeito de Madre Teresa era o modo como ela tratava os pobres. Hitchens afirma que ela "não era uma amiga dos pobres, mas da pobreza", porque "dizia que sofrer era um presente de Deus e passou a vida toda se opondo à única cura conhecida para a pobreza (sic), que é o empoderamento das mulheres e a sua emancipação de uma vida inteira de reprodução compulsória".

Nesse ponto, porém, as acusações provêm de outra confusão elementar: congregações religiosas e instituições cristãs de caridade não são ONGs ou entidades meramente seculares; não são o Ministério da Saúde, para sair às ruas distribuindo contraceptivos, muito menos alguma sucursal do Partido Comunista ou da Teologia da Prosperidade, para ficar prometendo riquezas e felicidade neste mundo. As Missionárias da Caridade são católicas e, como tal, são regidas pela lei suprema da Igreja, que é a salvação das almas. Por isso, as irmãs de Madre Teresa não só cuidam de aliviar o sofrimento dos pobres, mas também de ministrar-lhes os sacramentos e ensinar-lhes a se unirem a Cristo crucificado; não só empenham seus esforços em trabalhar, mas principal e soberanamente em rezar; não operam somente tendo em vista o pão terreno, mas buscando em primeiro lugar o Pão do Céu.

Aqui reside, enfim, a razão central de todas as críticas a Madre Teresa de Calcutá. O que incomodava particularmente em sua vida era justamente o seu olhar dirigido ao Céu, quando todos hoje em dia insistem em manter os olhos fixos nas ninharias deste mundo. "Ela aberta e destemidamente invocava o amor de Jesus Cristo como a razão por trás de tudo o que fazia, uma prática repugnante para um mundo completamente desprovido de qualquer piedade religiosa", observa Thomas Williams, em artigo publicado no site Breitbart.

Emblemática nesse sentido é a história do jornalista americano que, desconcertado ao ver Teresa lavando um homem coberto de chagas, disse a ela: "Eu não faria isto nem por um milhão de dólares", ao que ela lhe respondeu: "Nem eu".

Era, afinal, tão somente por amor de Deus que Santa Teresa de Calcutá fazia tudo o que fazia. Se já é difícil que muitos de nós, católicos, hipnotizados que estamos pelos amores das criaturas, compreendamos e aceitemos isso, quanto mais não deve ser difícil, então, para aqueles que andam a esmo e não acreditam em Deus! Como sempre há esperança, porém, para eles e também para nós é que Teresa está no Céu. Que, pela sua intercessão, os que não crêem passem a ter fé, porque "quem não crer será condenado" (Mc 16, 16), e os que já crêem, enfim, passem a amar, uma vez que "a fé sem obras é morta" (Tg 2, 26).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Recordações de martírio em uma era de terrorismo

Pode até não acontecer que venhamos a testemunhar Cristo com nosso sangue, como fizeram São Maximiliano Kolbe e os mártires de Otranto, mas todos, sem exceção, somos chamados a ser suas testemunhas.

Por Matthew B. Rose — A parte mais dramática de ser católico reside na vocação de estarmos sempre preparados para o martírio. Ainda que nem todos estejamos marcados para realmente morrer por ódio à Fé, manchetes anunciando a ação mortal do Estado Islâmico e de outros grupos que odeiam a Igreja lembram-nos que também nós podemos receber esse chamado. As quatro Missionárias da Caridade mortas no Iêmen e o padre Jacques Hamel, morto na França enquanto rezava Missa há menos de um mês, recordam-nos que martírios não são alguma história do passado distante da Igreja, mas uma parte verdadeiramente real de nossa história hoje — em todos os tempos, na verdade.

No último dia 14 de agosto, a Igreja celebrou duas diferentes expressões de martírio, separadas por mais de 450 anos: os mártires de Otranto, na Itália, e São Maximiliano Kolbe, na Polônia. Embora suas histórias façam parte de nosso passado, o exemplo deles pode iluminar nosso presente, ajudando-nos a ver o que podemos enfrentar em nossas próprias vidas e o que devemos fazer para cumprir nossa vocação cristã.

Os turcos do Império Otomano aterrorizaram durante muito tempo o mundo cristão. Eles pareciam imbatíveis. Saquearam a cidade de Constantinopla em 1453, penetrando os muros da famosa capital bizantina graças a um canhão pesado e capaz de atirar projéteis de até 540 quilos a mais de 1 milha de distância. Eram liderados pelo feroz sultão Maomé II, o Conquistador, que começou a varrer territórios com apenas 19 anos de idade. Sua meta era dominar todo o mundo cristão mediterrâneo, incluindo Roma, em cujas basílicas ele impiedosamente pretendia fazer entrar as suas cavalarias. Assim começou a conquista otomana da Europa. Maomé II conduziu bem os turcos, mas eles encontraram um exército equivalente na ilha de Rodes, em 1480, onde um pequeno exército liderado pelos Hospitalários (uma ordem cruzada de monges também conhecida como "Ordem de Malta") derrotou-os contra todas as previsões.

Furioso, Maomé mandou seu almirante Gedik Ahmed Paxá fazer um ataque surpresa no sul da Itália, começando com a cidade de Otranto, em 28 de julho. Tão repentino foi o ataque que não houve nenhuma resposta europeia organizada ao sítio, mesmo depois que a cidade havia sido tomada. Por mais de duas semanas os cidadãos de Otranto resistiram à entrada dos otomanos, rejeitando os seus termos de rendição. Como a cidade possuía uma frágil reserva de 50 soldados, os civis entraram na batalha. Suas defesas porém não durariam para sempre e, no dia 11 de agosto de 1480, os muros da cidade cederam.

No interior da cidade ingressaram cerca de 20 mil turcos e aqueles que permaneciam em seu caminho eram simplesmente degolados pelas espadas otomanas. Os invasores correram à catedral, onde encontraram o arcebispo Stefano Agricoli, velho e débil, vestido com paramentos litúrgicos, rezando a Missa, juntamente com todo o clero e o povo da cidade, pela salvação de Otranto. À vista dos invasores, o arcebispo instou seu rebanho a permanecer fiel à Fé, enquanto ele mesmo era capturado e morto no local (alguns relatos mantêm que ele foi cortado em dois, esquartejado, decapitado, e depois os muçulmanos fizeram desfiles com sua cabeça ao redor da cidade). Os padres do lugar, todos reunidos na catedral em torno de seu bispo, foram martirizados do mesmo modo. Foi a vez, então, do resto dos sobreviventes da cidade: todos os homens com mais de 50 anos foram mortos; mulheres e crianças abaixo de 15 anos foram levados como escravos.

Ao fim do massacre, restaram vivos ainda em torno de 800 homens. O almirante Paxá falou com eles, oferecendo-lhes a escolha de converterem-se ao Islã ou morrerem. Consigo o almirante trazia inclusive um padre apóstata, chamado João, usado para chamar os homens a unirem-se a eles, ao invés de morrerem na mão dos turcos. Antonio Primaldi, um velho alfaiate, manifestou-se rejeitando a oferta e encorajando seus companheiros a fazerem o mesmo, morrendo como mártires pela Fé. Todos os 800 homens concordaram e, no dia 14 de agosto, depois de receberem uma última chance de salvarem as suas vidas convertendo-se ao Islã (proposta novamente recusada por todos os 800), todos eles foram mortos, tendo seus corpos sido depositados em uma cova profunda.

Os turcos foram eventualmente expulsos de Otranto por uma coalizão de poderes da Europa reunidos pelo Papa e enviados por monarcas notáveis, como Isabel e Fernando da Espanha. Os turcos atacariam a Europa novamente, e mais uma vez seriam barrados. Os mártires de Otranto se tornariam heróis locais, seus restos mortais seriam encontrados e colocados na catedral da cidade, e eles terminariam venerados ao longo dos séculos. Beatificados em 1771, pouco mais de três anos atrás, eles foram canonizados pelo Papa Francisco.

Como os católicos de Otranto, os mártires cristãos de semanas recentes morreram na mão de militantes islâmicos. Como aqueles católicos assassinados no século 15, o mártir moderno enfrenta a escolha de abandonar a Fé para salvar a própria vida. Como aqueles bravos homens em Otranto, também o mártir de hoje permanece firme, diz não, e enfrenta a espada do inimigo da Fé com fortaleza e caridade.

Maximiliano Kolbe morreu muito mais recentemente que os mártires de Otranto. Sua história é bem conhecida. Nascido em uma humilde família na Polônia, o jovem Raimundo (Maximiliano foi o nome religioso que ele tomou depois) recebeu uma visão da Virgem Maria, oferecendo-lhe a escolha de duas coroas, uma branca, da pureza, e uma vermelha, do martírio. O garoto pediu pelas duas e as receberia. Como adulto, juntou-se aos Franciscanos e terminou fundando sua própria ordem, a Milícia da Imaculada. Ele e seus irmãos religiosos logo entraram em conflito com os nazistas, que tinham tomado a Polônia. Como os turcos otomanos, os nazistas tentaram tomar a Europa e eliminar o Cristianismo. Como os muçulmanos, os nazistas começaram perseguindo padres e religiosos. Kolbe e sua Milícia tomaram uma posição vigorosa contra os nazistas, que levou à prisão de Kolbe em fevereiro de 1941, quando ele foi levado a Auschwitz.

Ali, São Maximiliano servia os prisioneiros, enquanto sofria o abuso de seus sequestradores. Os oficiais em Auschwitz tinham um particular desprezo pelos sacerdotes católicos, motivo pelo qual Kolbe sofreu severamente. Veio então o dia fatal. Três prisioneiros haviam escapado, e o comandante nazista reuniu todos os prisioneiros do quarteirão, forçando-os a permanecerem a postos até que os fugitivos fossem encontrados. Como voltassem das buscas de mãos vazias, o comandante selecionou dez homens para serem executados no lugar dos fugitivos. Um dos selecionados desabou a soluçar, lamentando por sua mulher e filhos. Kolbe deu um passo à frente para tomar o seu lugar e oferecer a sua vida, a fim de que aquele homem sobrevivesse. O comandante aprovou, e Kolbe e outros nove homens foram levados a uma câmara de gás. O padre deixou o outro homem com cânticos e orações, e no dia 14 de agosto de 1941, cerca de duas semanas depois, os prisioneiros sobreviventes, incluindo Maximiliano Kolbe, foram mortos por injeção letal.

O homem que sobreviveu graças ao sacrifício de Kolbe viveu por muitos anos. Ele e muitos outros em Auschwitz testificaram a santidade de Kolbe e pedidos por sua canonização ecoaram quase que imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial. O religioso foi beatificado em 1971 e canonizado em 1982. Na canonização, o Papa São João Paulo II declarou-o mártir. Trata-se de um título apropriado, já que sua morte foi um sacrifício, de acordo com a doutrina do Salvador, de que "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos".

Essas duas histórias de martírio oferecem-nos exemplos do sacrifício a que somos chamados por causa de nosso batismo. Hoje, o mesmo mal que dilacerou a Cristandade pela espada dos turcos otomanos e pela bota dos nazistas ameaça destruir nossa Igreja e a Fé. Mesmo contra esse mal, a força de mártires como aqueles de Otranto ou como São Maximiliano Kolbe, dão-nos um modelo de apostolado. Pode até não acontecer que venhamos a testemunhar Cristo com nosso sangue, mas todos, sem exceção, somos chamados a ser suas testemunhas.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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O corpo incorrupto do Santo Cura d'Ars

Em 1904, quarenta e cinco anos após a sua morte, o corpo de São João Maria Vianney foi exumado e encontrado perfeitamente incorrupto.

O humilde padre francês do século 19, que se tornou tão querido aos católicos ao redor do mundo, começou a vida em 1786, como filho de um pobre camponês, no vilarejo de Dardilly, na França. Durante a sua infância, São João Vianney trabalhou como pastor e ajudante no campo e não começou sua educação senão a partir dos 20 anos de idade. Enquanto estudava para o sacerdócio, foi convocado para o serviço militar e tornou-se um recruta desertor, sendo obrigado por um tempo a esconder-se para escapar da polícia de Napoleão.

Sem saber nada de filosofia e tendo dificuldades de aprender o latim, ele por duas vezes foi recusado nos exames requeridos antes da ordenação. Eventualmente, foi ordenado padre com 30 anos, mas se julgava que seria tão incompetente, que ele foi colocado sob a direção do Padre Balley, um santo sacerdote na vila vizinha de Ecully, para ser melhor instruído. Após a morte desse bom padre, ele foi transferido para a pequena vila de Ars, onde passou o resto de seus anos sobre a terra.

O santo levou uma vida austera, comendo as mais simples das comidas, usando roupas velhas e dormindo em uma cama dura. Era fato conhecido que as duas horas de sono a que ele se permitia todas as noites eram frequentemente interrompidas pelo demônio, que o tomava de assalto com sons ensurdecedores, conversas insultantes e abusos físicos. Essas visitas diabólicas eram ocasionalmente testemunhadas com apreensão pelos homens da paróquia, mas o piedoso Cura encarava os ataques como rotina e, às vezes, até fazia troça deles.

O santo padre possuía muito dons extraordinários, como o da cura e a habilidade de ler as mentes e os corações de seus penitentes. Foi esse dom em particular que fez espalhar-se sua fama em toda a França, conduzindo multidões de almas perturbadas a procurar a guia e a assistência do humilde padre que conhecia seus pecados secretos e seu passado escondido.

O frágil Cura começava a ouvir confissões a partir da 1 hora da madrugada, e conta-se que ele passava de 13 a 17 sofridas horas por dia confinado no abafado confessionário.

Completamente exausto pelos labores apostólicos e pelas penitências adicionais que infligia ao seu corpo macilento, o santo morreu em paz no dia 4 de agosto de 1859, depois de receber as consolações finais da religião católica. Quarenta e cinco anos depois, em 17 de junho de 1904, seu corpo foi exumado com vistas à sua beatificação e foi encontrado seco e enegrecido, mas absolutamente incorrupto. Apenas o seu rosto, que ainda era possível reconhecer perfeitamente, sofrera um pouco os efeitos da morte. Após removerem os seus órgãos internos,

Os sagrados despojos foram envoltos em faixas e depois revestidos com ricos ornamentos: uma túnica de seda branca, uma batina de seda preta, um roquete de ricos bordados e uma estola com flores de lis e rosas bordadas a ouro. Nos dedos enegrecidos foi entrelaçado um rosário de jaspe e o rosto coberto com uma máscara de cera, reproduzindo as feições do servo de Deus. A 2 de abril de 1905, ao ser apresentada aos anciãos de Ars que haviam conhecido o Pe. Vianney, a relíquia do seu corpo tal como hoje aparece aos olhos dos peregrinos, todos exclamaram com lágrimas: "É ele mesmo!" [1]

Durante o ano de sua beatificação, seu coração preservado foi removido e abrigado em um bonito relicário à parte do principal.

O magnífico relicário que contém o corpo do santo foi doado por padres de todo o mundo e está situado em cima de um altar da basílica que foi anexado à velha igreja paroquial. Diante do relicário de ouro, que expõe as relíquias à vista dos fiéis, o santo sacrifício da Missa é continuamente oferecido durante os meses de verão por padres peregrinos.

Em Ars, estão preservados os cômodos em que o santo viveu, mantidos exatamente como estavam no dia de sua morte, em cujas paredes podem ser vistas imagens penduradas pelo próprio Cura. Também estão mantidos ali os seus artigos pessoais, o seu breviário, o rosário que ele usava com frequência, uma disciplina tingida de sangue e a cama em que ele ateou fogo durante uma das frequentes visitas que recebeu do diabo.

São João Maria Vianney, que, enquanto seminarista, tanta dificuldade teve em ser admitido ao sacerdócio, mas que exerceu de modo tão edificante a sua vocação, foi canonizado em 1925 e nomeado depois "Padroeiro dos Párocos" de todo o mundo.

Por Joan Carroll Cruz | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. TROCHU, Francis. O Cura d'Ars (rev. por Luiz Márcio Beletto Sansani). São Paulo: Cultor de Livros, 2015, p. 647.
  2. Esse texto foi levemente adaptado da obra The Incorruptibles (Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 257s), da autora norte-americana Joan Carroll Cruz. Seu livro pode ser adquirido em inglês pela Internet.

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Padre é degolado enquanto rezava Missa na França

O martírio do padre Jacques Hamel, de 84 anos, aconteceu esta manhã, em uma igreja da região da Normandia, norte da França. O Estado Islâmico já assumiu a autoria do ataque.

Aconteceu esta manhã, em uma igreja da cidade de Saint-Etienne-du-Rouvray, no norte da França:

Dois homens armados com facas fizeram reféns um padre, duas freiras e dois fiéis em uma igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na região da Normandia, no norte da França, na manhã desta terça-feira (26). O padre de 84 anos foi morto. Outros três reféns ficaram feridos - um em estado grave.

O Estado Islâmico reivindicou a autoria do atentado, que terminou após a polícia matar os dois terroristas. "Eles responderam aos chamados para atacar os países da coalizão internacional [luta contra o EI no Iraque e na Síria]", segundo a Amaq.

Poucos minutos antes, o presidente francês, François Hollande, já tinha declarado que os criminosos disseram pertencer ao grupo terrorista. Hollande, que foi até o local do crime, qualificou o ato como "um ignóbil atentado".

De acordo com o jornal francês "Le Figaro", os dois homens armados entraram na igreja durante uma missa. Fontes policiais informaram que pelo menos um deles usava barba e espécie de gorro de lã utilizado por muçulmanos.

[...]

O primeiro-ministro, Manuel Valls, expressou seu horror por este "ataque bárbaro contra uma Igreja". "Toda a França e todos os católicos estão feridos. Permaneceremos juntos", escreveu no Twitter.

Pouco menos de duas semanas depois do atentado que vitimou mais de 80 pessoas em Nice, no sul da França, o continente europeu conhece um novo mártir: o padre Jacques Hamel. Ele estava celebrando a Santa Missa no momento em que dois homens armados, cooptados pelo Estado Islâmico, invadiram a igreja e derramaram o seu sangue com uma lâmina.

Mal sabia esse sacerdote que, na manhã de hoje, ao levantar-se para oferecer o sacrifício do corpo e sangue do Senhor, ele acabaria entregando a própria vida em sacrifício e se configurando perfeitamente ao Crucificado. Quantos santos não aspiraram a vida inteira por esse ato de heroísmo! Que alegria tremenda não deve ser morrer por causa de nosso Senhor! Rezemos para que Cristo receba este sacerdote na glória do Céu, dê a ele o descanso eterno e nos conceda a graça de sua intercessão.

Rezemos também, neste dia trágico, por todos os franceses, para que redescubram depressa a alegria de serem católicos, unindo-se à Igreja dos mártires que sofre em todo o Oriente Médio. Seja o sangue desse sacerdote mártir a semente de novos cristãos.

Aproveitemos esta oportunidade, de nossa parte, para fazermos uma verdadeira meditação.

Não deixem de ler e assistir ao belíssimo testemunho da irmã Maria de Guadalupe Rodrigo, missionária no Oriente Médio, que pinta um retrato impressionante da guerra na Síria e nos convida a levarmos a sério a nossa fé, porque, no fim das contas, ela é a única coisa que não nos pode ser tirada.

Hoje, mais do que em outros dias, que essa verdade se grave particularmente em nosso coração, devolvendo-nos aquilo que nunca deveríamos perder: a têmpera dos mártires.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O santo que soube o que fazer da vida

São Boaventura entendeu cedo que esta vida não serve para outra coisa senão para preparar nossa morada definitiva no Céu.

Após o tempestuoso "século obscuro", no qual tantas almas se perderam pela impiedade e mau exemplo de muitos sacerdotes, a reforma impulsionada pelos monges de Cluny deu novo fôlego à espiritualidade cristã, suscitando numerosas e santas vocações no seio da Igreja — vocações que mudaram não somente a história do cristianismo, mas também a própria história da humanidade.

O século XIII, filho inconteste desse movimento de renovação espiritual, viu nascer uma geração profundamente enraizada na fé cristã, como jamais se viu desde os primórdios da Igreja. É nesse período que surgem São Domingos de Gusmão e São Francisco de Assis, fundando duas das maiores e mais importantes famílias espirituais do mundo: a Ordem dos Pregadores e a Ordem dos Frades Menores. Com o apelo à missão apostólica e a fidelidade aos três conselhos evangélicos — obediência, pobreza e castidade —, dominicanos e franciscanos construíram a grande civilização cristã da Idade Média sobre o desejo e a busca da santidade.

Dentre os filhos de São Francisco, um nome que não pode passar despercebido é o de São Boaventura, que, com seu trabalho espiritual e teológico, ajudou Santo Tomás de Aquino, herdeiro de São Domingos, a defender e ensinar a verdade católica em sua época.

São Boaventura nasceu em Bagnoregio, na província italiana de Viterbo, no ano de 1217. Pouco se sabe sobre sua infância, a não ser o episódio marcante que teria influenciado a escolha de seu nome religioso. Tendo caído numa forte doença, sua mãe pediu a intercessão de São Francisco, há pouco canonizado, para que o salvasse. Foi haurindo do santo a "boa ventura" que começou a simpatia do até então João Fidanza pelo impressionante testemunho do Poverello, como conta o Papa Bento XVI:

"A figura do Pobrezinho de Assis tornou-se-lhe ainda mais familiar alguns anos mais tarde, quando se encontrava em Paris, aonde tinha ido para estudar. Obtivera o diploma de Mestre de Artes, que poderíamos comparar com o de um Liceu prestigioso dos nossos tempos. Nesta altura, como muitos jovens de ontem e também de hoje, João formulou uma pergunta crucial: 'O que devo fazer da minha vida?'" [1]

São Boaventura, por sua vez, entendeu cedo que a verdadeira vida não é aquela dedicada à obtenção de um diploma, à conquista de uma namorada "bonitinha" ou à persecução de um cargo importante. A vida não pode ser decidida por escolhas apenas temporais. Neste sentido, o filho de São Francisco decidiu-se pelo cumprimento fiel de sua vocação à santidade, abraçando a cruz que teria de carregar até o dia da redenção e tomando, em 1243, o hábito franciscano: "Confesso diante de Deus que a razão que me fez amar mais a vida do Beato Francisco é que ela se assemelha aos inícios e ao crescimento da Igreja. A Igreja começou com simples pescadores e em seguida enriqueceu-se de doutores muito ilustres e sábios" [2]. Trata-se de um exemplo valioso para a geração atual, que, infelizmente, quase não entende mais o valor do sacrifício e das escolhas definitivas.

Terminados os estudos na Universidade de Paris, São Boaventura ganhou uma cátedra na mesma instituição para ensinar teologia, ofício que cumpriu com heroica dedicação, apesar das dificuldades. Havia, naquela época, uma antipatia dos padres seculares pelas ordens mendicantes, de modo que muito se contestou a presença de seus membros dentro do ambiente acadêmico. Questionava-se quase tudo: o seu estilo de vida, a fidelidade à doutrina e até a própria vocação deles. Para responder aos críticos e defender os seus, Boaventura redigiu um texto exemplar que, dada a sua profundidade, ainda hoje pode ser lido com proveito por todos os cristãos. No livro A perfeição evangélica, o santo mostra que a Igreja é mais bela e luminosa quando seus filhos e filhas são fieis à vocação para a qual Deus os chamou e, vivendo-a exemplarmente, tornam-se "testemunho de que o Evangelho é nascente de alegria e de perfeição" [3].

A missão de São Boaventura, porém, não se resumiu aos debates teológicos da academia. Logo teve de assumir também o governo dos franciscanos, o que o obrigou a afastar-se definitivamente da universidade para que pudesse entregar-se aos cuidados da fundação de seu pai espiritual. Tal foi a sua dedicação que alguns chegam a atribuir-lhe o título de segundo fundador dos Frades Menores.

Quando São Boaventura tornou-se ministro-geral da Ordem, os franciscanos viviam uma tensão por causa da influência de um frade cisterciense chamado Joaquim de Fiore. Morto em 1202, este frade defendia uma teologia da história que se dividia trinitariamente. Haveria, nesse sentido, uma época do Pai (o Antigo Testamento), uma época do Filho (o Novo Testamento) e uma época do Espírito, consolidada pelo fim das instituições e pelo surgimento de "uma comunidade carismática de homens livres guiados interiormente pelo Espírito" [4]. A corrente dos chamados "franciscanos espirituais" acreditava ser São Francisco o fundador dessa "comunidade carismática". Vendo o risco de que a mensagem do Poverello degenerasse em anarquia, São Boaventura apressou-se em estudar os escritos de Joaquim de Fiore e toda a documentação possível acerca de São Francisco de Assis.

Apesar de exaustivo e, muitas vezes, constrangedor, o trabalho de São Boaventura para purificar sua Ordem rendeu uma obra teológica inigualável, a começar pela sua biografia de São Francisco, em que demonstra toda a fidelidade dele à mensagem de Cristo e da Igreja. São Francisco não foi um hippie amante de Gaia, como sugerem algumas malfadadas interpretações, mas um "alter Christus, um homem que procurou Cristo apaixonadamente, que se conformou totalmente a Ele". Com isso, Boaventura provou que "a Ordem franciscana (...) pertence à Igreja de Jesus Cristo, à Igreja Apostólica, e não pode construir-se num espiritualismo utópico". Ao contrário, a sua missão é a de "estar presente em toda a parte para anunciar o Evangelho" — essa é a verdadeira novidade em relação ao monaquismo comum que, "a favor de uma nova flexibilidade, restituiu à Igreja o dinamismo missionário" [5].

Vale ainda um comentário breve sobre a visão espiritual de São Boaventura acerca do relacionamento de Deus com o homem. Com uma linguagem semelhante à que Santa Teresa d'Ávila usaria alguns séculos mais tarde, São Boaventura fala de um "itinerário", uma peregrinação que todos devem percorrer até chegarem ao fim definitivo que é Deus. Nesta peregrinação, haveria nove graus ou estágios de perfeição — assim como nove são as ordens angélicas —, que, com a graça de Deus, o homem iria galgando pouco a pouco. Para São Boaventura, os santos mais generosos, como São Francisco de Assis, pertenceriam à ordem seráfica, na qual o homem se converte em "puro fogo de amor".

Boaventura, porém, não deixa de lembrar que a santidade é dom de Deus e que, portanto, ninguém pode alcançá-la somente com forças humanas. Ela é sobretudo fruto da comunhão com o amor divino, comunhão que se desenvolve na oração. O que se pode tirar da teologia de São Boaventura é uma firme confiança no amor de Deus, no amor que se manifesta precisamente naquela noite escura da razão, "onde a razão já não vê", mas o amor: "Se agora desejas saber como isto acontece (ou seja, a escalada para Deus), interroga a graça, não a doutrina; o desejo, não o intelecto; não a luz, mas o fogo, que tudo inflama e transporta em Deus" [6].

Antes de partir para a casa do Pai, onde teria o encontro definitivo com esse amor de que tanto falava, São Boaventura prestou um último serviço à Igreja aqui na terra, participando do II Concílio Ecumênico de Lião. Morreu em 1274 como bispo e cardeal. Os testemunhos de sua época diziam que Deus lhe havia concedido tal graça "que todos aqueles que o viam permaneciam imbuídos de um amor que o coração não podia ocultar" [7]. De fato, Boaventura entrou na pátria celeste para, como gostava de repetir, entrar na alegria de Deus. E assim encontrou a vida eterna que havia arduamente buscado e preparado já aqui nesta nossa pousada. Hoje somos favorecidos pela sua intercessão.

Oxalá todos os jovens sigam o exemplo de São Boaventura e façam de suas vidas um itinerário seguro para a casa do Pai, onde há muitas moradas (cf. Jo 14, 2).

São Boaventura de Bagnoregio,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e referências

  1. Papa Bento XVI, Audiência Geral (3 de março de 2010).
  2. São Boaventura, Epistula de tribus quaestionibus ad magistrum innominatum, in: Opere di San Bonaventura. Introduzione generale, Roma, 1990, p. 29.
  3. Papa Bento XVI, Audiência Geral (3 de março de 2010).
  4. Id., Audiência Geral (10 de março de 2010).
  5. Papa Bento XVI, Audiência Geral (3 de março de 2010). Cf., também, Papa Francisco condena "caricatura" de São Francisco de Assis.
  6. São Boaventura, Itinerário da mente a Deus, VII, 6.
  7. J. G. Bougerol, Bonaventura, in: A. Vauchez (org.), Storia dei Santi e della Santità Cristiana, vol. 6. "L'epoca del rinnovamento evangelico". Milão, 1991, p. 91.

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O dia em que uma mula se prostrou diante do Santíssimo Sacramento

Para converter o coração de um herege, Santo Antônio de Lisboa chegou a fazer uma mula se prostrar diante do Santíssimo Sacramento. Conheça essa história.

Na região de Toulouse, na França, Santo Antônio disputava com um herege que não acreditava no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Apesar de vencido, o infiel não se convertia à Fé.

Depois de muito discutir, então, ele propôs:

— Deixemo-nos de palavras e vamos a obras. Se tu fores capaz de mostrar com milagres, na presença de toda a gente, que no Sacramento está de fato o Corpo de Jesus Cristo, eu prometo deixar a heresia e submeter-me à Fé católica.

E Santo Antônio, cheio de confiança, respondeu que assim faria.

— Pois então vou fechar em casa um animal. Vou atormentá-lo com a fome durante três dias, e ao fim vou trazê-lo perante todos os que quiserem assistir, dando-lhe algo de comer. Neste intervalo, vens tu com o Sacramento que dizes ser o Corpo de Jesus Cristo. Se o animal esfomeado parar de comer e correr para o Deus que, segundo afirmas, toda a criatura tem obrigação de adorar, podes ficar certo que imediatamente abraçarei a Fé da Igreja.

O santo varão de Deus sem demora em tudo consentiu. E no dia combinado ajuntou-se o povo na praça grande, e veio o dito herege na má companhia de outros hereges, e trouxe a mula que tinha atormentado com a fome, e também, para ela, provisão saborosa de comida. Santo Antônio celebrou a missa na capela que havia no lugar, e ao fim, à vista do povo, trouxe o Santíssimo Corpo de Jesus Cristo. Mandando a todos que se calassem, disse para a mula:

— Ó animal, em virtude e em nome do teu Criador que eu, embora indigno, tenho aqui presente em minhas mãos, ordeno e mando que venhas já sem demora até Ele e humildemente lhe prestes reverência, para que desse modo veja a maldade dos hereges que toda a criatura é sujeita ao Criador a quem a dignidade do sacerdote trata cada dia nos altares.

Enquanto isso, o herege punha de comer à mula esfomeada.

Eis, então, que coisa maravilhosa aconteceu! O animal, mesmo atormentado de tanta fome, quando ouviu as palavras de Santo Antônio, logo parou de comer e abaixou a cabeça, caindo de joelhos diante do Sacramento.

Diante deste fato, muito se alegraram os fiéis católicos, e merecidamente saíram confundidos os hereges. E aquele dito herege se converteu ali mesmo, conforme havia prometido, e começou a obedecer aos mandamentos da Igreja.

Adaptado por Equipe Christo Nihil Praeponere

Fonte