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O milagre eucarístico de Santa Clara de Assis

Por que Santa Clara costuma ser retratada, nas obras de arte, com uma custódia ou um cibório em suas mãos?

Santa Clara de Assis (1193-1253) escutou a voz de Cristo durante um momento dramático e turbulento da história da Itália — no período em que o ambicioso imperador germânico, Frederico II, estava empenhado em conquistar a Sicília e a Itália, além de Roma e dos Estados Pontifícios. Seus esforços, somados à ação de seu exército, foram a causa de um antagonismo radical entre o seu império e o papado, gerando uma grande confusão na Igreja da Itália.

Durante o ano de 1244, a armada de Frederico assolou o vale do Spoleto, que era parte do patrimônio da Santa Sé. Seus soldados avançaram então em direção a Assis, mas eles se aproximaram primeiro do convento de São Damião, que ficava a meio caminho. Quando os soldados escalaram os muros e estavam prestes a invadir o claustro, as irmãs do convento acorreram apressadas para junto de sua já debilitada fundadora, Santa Clara, a qual lhes assegurou que Nosso Senhor as salvaria.

Ajudada pelas irmãs, Santa Clara dirigiu-se para a entrada do convento, levando consigo uma pequena caixa de marfim em que estava guardado o sacratíssimo Corpo de Cristo. Prostrando-se diante dele, a santa clamou em alta voz: " É do vosso agrado, meu Deus, entregar às mãos destas feras as filhas indefesas que eu nutri no vosso amor? Suplico-vos que protejais estas a quem eu já não sou mais capaz de proteger". Da hóstia ouviu-se sair a voz como de uma criança, dizendo: "Ter-vos-ei sempre sob meus cuidados".

Assim que os soldados viram o Santíssimo Sacramento, um pânico tomou-os de súbito e imediatamente os fez correr em retirada. É por causa deste episódio que Santa Clara costuma ser retratada com uma custódia ou um cibório em mãos. Clara mandou que, enquanto estivesse viva, as irmãs nunca mencionassem com ninguém esse fato.

O imperador Frederico II, causa de todos estes tumultos, aparentemente se reconciliou com a Igreja, já que sua tumba pode ser vista na catedral de Palermo. Manfredo, um dos filhos do imperador, escreveu a seu meio-irmão que, "transido de arrependimento em seu leito de morte, nosso pai submeteu-se como bom católico à sua Mãe, a Sacrossanta Igreja de Roma".

Como São Francisco de Assis, Santa Clara foi muito solícita em providenciar belos adornos para as igrejas. Uma de suas irmãs, Francesca, disse que Clara confeccionou quase uma centena de corporais do mais fino material para várias igrejas. Esta mesma irmã relata ainda ter visto certa vez uma linda criança na hóstia que Clara estava prestes a comungar; ela viu esta mesma criança em outra ocasião repousando no coração de Clara e cobrindo-a com asas luminosas.


Trecho adaptado da obra Eucharistic Miracles, de Joan Carroll Cruz,
Carolina do Norte: TAN Books, 2010, pp. 271-272.

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Santa Clara, a virgem esposa de Cristo

Como experimentou Santa Clara, a união com o Corpo de Jesus alcança plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana.

Santa Clara é popularmente conhecida pela sua pobreza evangélica e fidelidade à Ordem fundada por seu amigo e pai espiritual, São Francisco de Assis. Também é costume invocá-la para trazer o Sol em dias muito chuvosos. Há um outro aspecto da religiosidade dessa santa, no entanto, que passa quase despercebido pelas pregações a seu respeito: o seu matrimônio espiritual com Cristo.

Clara tinha um jeito todo particular de se dirigir a Jesus. Em uma carta à sua amiga Santa Inês de Praga, por exemplo, pode-se notar com que amor e confiança a discípula de Francisco vivia sua vocação esponsal. " Amando-o, és casta, tocando-o, serás pura, deixando-te possuir por Ele, és virgem" [1]. São palavras mesmo espetaculares — possivelmente escandalosas para alguns —, que revelam, por um lado, a ternura própria das esposas a seus esposos e, por outro, o amor esponsal de Jesus, o noivo das almas, que, embora "possuindo" o corpo de sua amada, não o agride nem viola sua dignidade. Ao contrário, na união com o Corpo de Jesus alcança-se plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana, como pôde experimentar Santa Clara e inúmeros outros santos.

É preciso distinguir, é claro, o matrimônio espiritual do matrimônio comum entre um homem e uma mulher. Este, apesar da sacramentalidade, envolve certamente a relação carnal e consiste em algo terreno, que não terá continuidade no Céu. Aquele, por sua vez, diz respeito a uma realidade da vida de oração, em cujo grau máximo de união com Deus ocorre uma espécie de "matrimônio" espiritual pela comunhão total da alma do orante com a Pessoa de Nosso Senhor. É desse último que Santa Clara fala em suas cartas e outros escritos místicos e ao qual foi totalmente fiel até o termo de sua vida neste mundo.

O Papa Bento XVI, em uma de suas catequeses, recorda que, assim "como Clara e as suas companheiras, inúmeras mulheres ao longo da história ficaram fascinadas pelo amor a Cristo que, na beleza da sua Pessoa divina, enche o seu coração". Elas se apaixonaram por um homem que, de maneira especial, olhou-as em sua profundidade, sabendo acolhê-las e protegê-las das ciladas do mundo. O amor esponsal de Jesus tem a virtude de revelar às almas o seu conteúdo mais sagrado. Foi esse amor, aliás, o que redimiu Santa Maria Madalena de suas impurezas para torná-la um vaso puro e cristalino, como insistem alguns autores espirituais. Dela, São Francisco de Sales testemunha: "Não lhe é dado o nome de virgem, mas a verdade é que o merece pela perfeita pureza em que viveu depois da conversão" [2].

Note-se, por isso, que Clara não estava exagerando nem sendo audaciosa ao apresentar a pureza do amor esponsal de Jesus. De fato, Ele não só não agride como também restaura o que foi agredido pela violência do pecado.

A cultura contemporânea, na contramão do que propõe a espiritualidade cristã, dissemina exatamente o oposto do amor restaurador. Trata-se, ao contrário, de impor uma lascividade agressiva tanto às mulheres quanto aos homens, que os reduz a animais dominados pelos instintos e pelas paixões. Isso gera a insegurança afetiva, os desarranjos familiares, a opressão de um sexo sobre o outro, as ideologias de gênero e por aí vai. Na verdade, tanto as mulheres vão perdendo a sua natural feminilidade, para se adaptarem aos estereótipos da moda, quanto os homens se tornam menos viris, desorientados pela propaganda gay e antimasculina. As famílias não têm mais pai nem mãe, e por isso delegam suas responsabilidades ao Estado usurpador e autoritário.

Como seria bom se homens e mulheres, de acordo com a vocação específica de cada um, se espelhassem no amor esponsal entre Jesus e suas almas esposas. Tal esforço tornaria os namoros mais castos e os casamentos menos conflituosos, pois nem esposa nem esposo procurariam apenas um corpo para ser usado e descartado, mas uma pessoa com quem pudessem compartilhar toda a existência sem correr o risco de uma separação. A alegria de um matrimônio depende da maneira e da ordem em que a família ama a Deus e a si mesma.

Peçamos a intercessão de Santa Clara de Assis neste dia para que ela, amparada em seu Amado Esposo, limpe o céu nublado que turva a visão das famílias e as impede de ver a luz restauradora do amor de Cristo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santa Clara, Primeira Carta: FF, 2862.
  2. São Francisco de Sales, X, 86. Sermão no dia de Santa Maria Madalena.

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Famílias numerosas, viveiros de santidade

Dos nove filhos que tiveram São Luís e Santa Zélia Martin, quatro morreram e cinco mulheres entraram para a vida religiosa. Eis a recompensa que Deus concede às famílias numerosas, transformando os seus lares humildes em verdadeiros “viveiros de santos”.

" As famílias numerosas, longe de serem 'doença social', são a garantia da saúde física e moral de um povo."

Essas palavras foram proferidas por Pio XII durante uma audiência com dirigentes e membros de uma associação de famílias numerosas, no dia 20 de janeiro de 1958. O discurso chama atenção sobretudo pela ênfase com que o Sumo Pontífice sublinha a importância dos filhos não só para os pais, mas para o bem-estar de toda sociedade.

Não é novidade para ninguém a ojeriza com que a maternidade é pintada nos dias de hoje, principalmente se ela estiver relacionada a uma mentalidade aberta à vida. Os chamados "formadores" de opinião fazem campanha aberta pelo controle de natalidade, evocando, para isso, todo tipo de desculpas e argumentos pseudocientíficos: a pobreza, a política demográfica, os direitos reprodutivos e por aí vai. Todos aparentemente justos, mas, no fundo, motivados por aquele egoísmo que, como denunciou Pio XII, avilta a dignidade da família e da pessoa humana:

A superpopulação não é, pois, uma razão plausível para difundir os métodos ilícitos de controle de nascimentos, mas antes pretexto para legitimar a avareza e o egoísmo, seja das nações que temem a expansão de outras como perigo para a própria hegemonia política e um risco de rebaixamento do nível de vida, seja dos indivíduos — especialmente dos mais bem providos com os meios da fortuna — que preferem o gozo ilimitado dos bens da terra à honra e ao mérito de suscitar novas vidas.

A análise do Papa é de precisão cirúrgica. Com todos os avanços da ciência e da técnica, é certamente ridículo considerar o crescimento populacional uma ameaça apocalíptica. A razão da pobreza e de outros males sociais não se encontra nas pequenas crianças, cujas consciências são livres de qualquer culpa pessoal, mas na estreiteza ética com que os poderosos tratam os menos afortunados, roubando-lhes os direitos mais elementares. Se o Estado e as grandes fundações fossem guiadas pelos princípios morais da caridade e do amor ao próximo, não haveria grandes problemas de saúde, fome, emprego e moradia. Os pobres querem comida, não anticoncepcionais.

As famílias cujos filhos são numerosos aprendem desde muito cedo a importância da fraternidade e da consideração ao próximo, seja por meio dos irmãos que têm de dividir o mesmo quarto e tantas outras coisas, seja pelo empenho mútuo do casal na criação dos filhos. Essas famílias parecem viver uma juventude eterna, observa Pio XII, porque " dura no lar o perfume dos berços, enquanto nas paredes da casa ressoam as vozes meigas dos filhos e dos netos". Paternidade responsável está longe de ser a política dos "dois filhos e um cachorro", como se canta por aí. Trata-se, ao contrário, de uma entrega consciente e honesta à formação das futuras gerações, isto é, o desejo de tornar o gênero humano mais virtuoso e digno do Céu.

Pio XII aponta, ainda, para aquela que constitui a mais fulgurante glória das famílias numerosas: as vocações. Nesses casos, diz o Santo Padre, "aos dons comuns de providência, alegria e paz, Deus acrescenta muitas vezes, como a experiência o demonstra, os chamados de predileção", pelo que se salienta " a prerrogativa das famílias numerosas como verdadeiros viveiros de santos". Entre tantos casos que se poderia citar, sobressai neste dia 12 de julho o testemunho da família Martin, de cujo zelo cristão no cuidado dos filhos nasceu Santa Teresinha do Menino Jesus.

As belas linhas abaixo são da pena de Irmã Genoveva, também filha do casal Zélia e Luís Martin, que conta como sua mãe se dedicava piedosamente às crianças:

Fiel a seu princípio, nossa mãe não tinha mêdo da maternidade. Ao saber que uma senhora da região dera à luz a trigêmeos, disse ela: "Oh! feliz mãe! Se eu tivesse ao menos dois. Mas, não terei jamais essa felicidade!" — "Amo loucamente as crianças". — "É um trabalho tão doce ocupar-se das criancinhas!"

Sua correspondência está cheia dessas exclama­ções de alegria materna. Escrevia a seu irmão, o Sr. Guérin, no dia 23 de abril de 1865, após o nascimento de sua Helenazinha que deveria morrer em tenra idade:

"Há quinze dias fui ver aquela que está com a ama. Não me lembro de ter jamais experimentado um sentimento de tal felicidade como no momento em que a tomei nos braços e ela me sorriu tão graciosamente que acreditava ver um anjo. Numa palavra, é inexprimível para mim. Acho que nunca se viu nem se verá jamais uma criança tão encantadora. Minha Helenazinha! Quando enfim terei a felicidade de possuí-la inteiramente? Não posso pensar que tenho a honra de ser mãe de criatura tão deliciosa..."

Longe de medir fadigas, sua confiança sobrenatural levava-a a confessar mais tarde à sua cunhada, a Sra. Guérin, de saúde delicada e que esperava um filho:

"Nosso Senhor não pede nada acima da nossas forças. Vi muitas vezes meu marido preocupar-se comigo sobre esse ponto. E eu permanecia absolutamente tranquila. Dizia-lhe: "Não receies, Nosso Senhor está conosco". No entanto, eu estava acabrunhada de trabalhos e preocupações de toda sorte, mas tinha a firme confiança de ser sustentada pelo Alto".

O que não a impedia de fazer esta confidência a seus parentes de Lisieux:

"Se tiveres tantos filhos quanto eu, isso exigirá muita abnegação e o desejo de enriquecer o Céu com novos eleitos".

Após cada nascimento, fazia logo esta prece:

"Senhor, concedei-me a graça de vos ser consagrado este filho e que nada venha manchar a pureza de sua alma. Prefiro que o leveis imediatamente caso venha a perder-se para sempre".

Sua união com Deus e o fervor de suas orações quando esperava um filho eram tão grandes que se admirava de não ver disposições para a piedade desde o despertar da inteligência desses pequeninos. Maria, sua filha mais velha tinha apenas quatro anos e Paulinazinha contava somente dois quando ela confiava sua decepção à querida, Visitandina. Esta por sua vez escrevia a seu irmão, no dia 2 de fevereiro de 1864:

"Zélia já se atormenta por não ver sinais de piedade em suas filhas".

A criança devia ser batizada logo após o nascimento. Sempre se informava sobre esse ponto quando se tratava dos filhos de seus parentes.

Quanto ao batizado de Teresinha foi preciso ser adiado dois dias. Deixo aqui a palavra a Madre Inês de Jesus. Interrogada, nos Processos, sobre o motivo dessa demora, respondeu:

"Porque se esperava o padrinho. Durante esse intervalo nossa piedosa mãe estava em contínuos sobressaltos. Pelo temor de sobrevir algum mal à crian­ça imaginava constantemente que a pequena estava em perigo".

Mamãe teve nove filhos, dos quais quatro morreram ainda pequenos. De acordo com meu pai quis dar a todos o nome de "Maria" unido a outro nome, ao de José para os dois meninos.

No dia 8 de dezembro de 1860 pedira à Imaculada Conceição um segundo filho e nove meses depois chegava Paulina que se seguiu a Maria, a primogênita.

Escreverá mais tarde a Paulina este testemunho de seu amor e o de nosso pai pelos filhos:

" Vivíamos somente para eles. Eram nossa felicidade. Jamais a encontrávamos fora deles. Numa palavra, nada nos custava, o mundo não mais nos pesava. Era para mim a grande compensação, por isso eu desejava ter muitos filhos a fim de educá-los para o Céu" (4 de março de 1877).

Já mencionei a perfeita compreensão entre meus pais, ainda que, à primeira vista, suas opiniões divergissem um pouco sobre um ponto qualquer. Mamãe tinha por meu pai tanta admiração quanta afeição e deixava-o exercer plenamente uma autoridade deveras patriarcal. Minhas irmãs afirmaram diversas vezes que sua união foi sem nuvens e a correspondência de minha mãe prova-o. Mostra também que mamãe não podia viver longe dele, mesmo por alguns dias. As cartas que lhe escrevia terminam com frases como esta, eco fiel de seus sentimentos:

" Tua esposa que te ama mais do que a própria vida".

O Sr. Cônego Dumaine, Vigário Geral de Séez, que batizou Teresa quando vigário de Nossa Senhora de Alençon, e que conhecia bem nossa família, fez este elogio nos Processos:

"Era admirável a união nessa família, tanto entre os esposos como entre pais e filhos".

Eis aí. Santa Zélia é um exemplo contundente de como a maternidade, apesar de todas as suas inegáveis dificuldades, está arraigada na natureza da mulher. A sua dedicação aos filhos e ao esposo é, contra todas as sandices feministas, um verdadeiro testemunho de virtuosa feminilidade. De sua abnegação e amor à família, formou-se mesmo um "viveiro de santidade".

Leia-se que os Martin não eram nenhuma família abastada. Santa Zélia trabalhou muito para ajudar o marido na criação das filhas. Mas tudo, absolutamente tudo, era feito com generosidade sobrenatural. Os frutos estão hoje no Céu.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

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A Primeira Comunhão de Santa Maria Goretti

Preocupada tão somente com a presença do seu grande Senhor, Maria Goretti, com 10 anos, fez a sua Primeira Comunhão verdadeiramente como uma “santa”.

No dia 16 de julho do ano de 1901, Maria Goretti fazia a sua Primeira Comunhão.

Candura de um lírio que abre sua corola ao primeiro beijo do sol, dia de íntima união no amplexo divino, é assim que nos representamos o primeiro encontro de Maria com Jesus Sacramentado.

Sua Primeira Comunhão não foi, como para outras suas colegas, um rápido contato com Deus, que apenas de leve roça a superfície da alma. O luxo que pela única vez aparentava, as rendas e o vaporoso véu de pequenina esposa de Jesus não lhe tolhiam o recolhimento. Preocupada tão somente com a presença do seu grande Senhor, ela fez a sua Primeira Comunhão como uma " santa", afirma D. Assunta.

Nunca como naquele dia sentiu o vazio das riquezas, dos prazeres e das atrações terrenas. Nunca como naquele dia sentiu a imperiosa necessidade de só firmar-se em Deus, única realidade inabalável e imensa. E a resolução de repudiar todas as lisonjas do mundo com seus encantos sedutores nasceu, naquela alminha, espontânea e decisiva.

"A pureza acima de tudo e a fidelidade às três Ave Marias" diárias, constituíram os temas das exortações que precederam a grande solenidade; "e foi isso um desígnio do Céu, diz Mons. Signori, para que a menina progredisse e se firmasse ainda mais no exercício da virtude angélica, pela qual daria, dentro em breve, a vida".

O recolhimento de Marieta era visível. Quando, depois da Comunhão, as crianças se reuniram na sacristia para agradecer ao sacerdote celebrante, ela se conservou tranquila e silenciosa, isolada num canto, toda absorvida no seu Deus. Manteve-se assim o dia inteiro, completamente alheia aos brinquedos dos irmãozinhos, deixando transparecer do seu rosto um contentamento inigualável.

"Tão somente cinco vezes, diz Mons. Signori, a piedosa menina teve a ventura de receber no seu coração ao Deus de amor e de pureza: a primeira a 16 de junho de 1901; a segunda, pouco depois, no Santuário de N. Sra. das Graças, protetora de Nettuno; a terceira na Páscoa de 1902; a quarta na Igreja de Campomorto; a quinta na hora da morte."

A Primeira Comunhão vem marcar uma nova etapa na vida de Maria. "Verá que daqui em diante serei melhor", dissera à sua mãe; os fatos provariam com que seriedade fizera aquela promessa. Já tão amorosa e serviçal em casa, começou a prodigar sua dedicação também aos vizinhos, grandes ou pequenos. Sempre diligente em aliviar o trabalho e as fadigas do próximo, com graça e desembaraço, desfazia as brigas que nasciam entre irmãos e colegas na hora dos folguedos, ou amainava as tempestades que os vizinhos levantavam porque uma galinha andava ciscando nas sementeiras ou porque os pequenos pisavam na horta.

Dedicada até o sacrifício, tudo fazia sem alarde, aparentemente como a coisa mais natural, na realidade movida pela caridade sobrenatural. Discreta, sabia dissimular aquilo que a caridade exigia encoberto; jovial e amável nas horas de recreio, atendia a todos como a mãezinha daquele bando de crianças.

Era, porém, junto aos doentes que a sua dedica­ção revelava-se admirável. Visitava-os com frequência e tratava-os como a mais suave irmã, servindo-os até nas mais humildes tarefas. Quantas vezes lhe foi dado ver no olhar comovido dos pobres enfermos a gratidão sincera dos humildes! Se "a maior prova de amor é sacrificar-se por aquele que se ama", Maria dava essa prova.

Pela manhã levantava-se muito cedo, junto com a mãe, e, depois das orações costumeiras, arrumava a casa, despertava os irmãos, preparava-lhes roupas e comida. Em seguida, desempenhava-se nas obrigações diárias. Era notável o seu espírito de mortificação nas coisas naturais: não tinha olhos, ouvidos, gostos e desejos senão para os deveres de casa e para suas devoções de igreja. O tempo disponível empregava-o em trabalhos úteis, e, quando cansada do dia cheio, tomava o merecido repouso, ajoelhava-se com os irmãos aos pés da cama, para as orações da noite. Inú­til dizer que aí o querido papai era sempre relembrado.

Seus princípios de ascética não iam além dos mais simples e comuns da vida cristã. " É preciso fazer isto, porque é nosso dever: é vontade de Deus. Não devemos fazer aquilo, porque é pecado; desagrada a Jesus." Era esse o eixo de toda a sua vida sobrenatural em que fôra educada e em que educava também seus irmãos. "Agora que receberam a Jesus, costumava dizer-lhes, devem ser sempre muito bonzinhos."

Não lhe faltavam, de certo, defeitos naturais, próprios da sua idade: impulsos que era preciso reprimir, indolências para despertar, inclinações para orientar. Mas o que a caracterizava era o apego a seus deveres e à lei de Deus resumido neste heróico lema: antes a morte do que o pecado.

E não eram palavras vãs. Sabia que o demônio procura infiltrar-se nos corações através de coisas aparentemente sem importância, até chegar a dominar a alma e desviá-la de Deus. Vigiava, pois, para conservar aquela pureza, que repele com energia as menores culpas e os menores defeitos.

Acima de tudo, cultivava o amor pelo seu Jesus. Sentia-se cheia desse fogo sobrenatural, que o Senhor trouxe à terra. Não eram transportes místicos, quais encontramos nas vidas dos grandes santos, e, sim aquele amor simples e cândido de uma criança privilegiada, que sabia repetir, mais na prática do que com as palavras, a maravilhosa expressão de S. Pedro: "Mestre que tudo sabeis, vós sabeis também quanto eu vos amo!"

[...]

A assistência à Santa Missa aos Domingos e dias de guarda criava muitas vezes para a família Goretti um sério problema. Nem sempre havia Missa em Ferriere e era preciso ir a Campomorto, ou mesmo até Nettuno. O sol abrasador do verão, ou então, castigados pela gélida ventania dos meses de dezembro e janeiro, sem falar nas chuvas torrenciais da primavera e nas penetrantes garoas do outono, tornavam a viagem mais penosa e até mais longa.

Ainda assim, Maria nunca faltava, a todos edificando, não só pelo seu bom comportamento na igreja, senão também quando a caminho dela. É do Reverendo Pe. Miguel Faina, Passionista, o seguinte depoimento: "Indo à Missa dominical na capela de Campomorto, e passando diante de rapazes que costumavam atirar gracejos às moças que entravam na igreja, a menina corava ouvindo lisonjear sua beleza. Não lhes dava, porém, a menor atenção; caminhava rapidamente, sem imitar suas colegas, que tanto se agradavam com tais cumprimentos."

Levava, geralmente, pela mão um ou outro de seus irmãos, com quem rezava durante o tempo do Santo Sacrifício. " Sempre pontual, era a primeira a entrar e a última a sair." Mantinha tal recolhimento e fervor que as próprias comadres, sempre dispostas a comentar a vida alheia, admiravam-na, e, não a conhecendo, indagavam de onde vinha aquele anjo de menina.

Nem era só para ouvir Missa que procurava a igreja. Agradava-lhe também assistir às cerimônias litúrgicas e aos sermões do seu vigário que entendia à perfeição. Assim é que, numa Sexta-feira Santa, após o Sermão das "Três Horas de Agonia", repetiu­-o em seus pontos principais à mãe e aos irmãozinhos, não poupando lágrimas e suspiros.

Sentia-se principalmente atraída a visitar Jesus Sacramentado. A Primeira Comunhão deixara-lhe tais saudades que, por vezes, enfrentava uma viagem de duas horas a pé, tão somente para saciar sua sede de amor pelo Divino Prisioneiro.

Evitando toda distração, concentrava-se para ouvir a voz de Deus. Como quiséramos conhecer os suaves colóquios dessa pequenina esposa de Jesus, em lua de mel. Que propósitos de fidelidade teria ela confiado ao Coração adorável do seu Divino Esposo?


Do livro Santa Maria Goretti, mártir da pureza, do Pe. J. C. M. Colombo,
2. ed. Paulinas, 1949, pp. 47-54.

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“Nossa Senhora veio aqui porque queria curar o Padre Pio”

O Padre Pio esteve uma vez severamente doente, de cama, e Nossa Senhora de Fátima fez-lhe uma visita para curá-lo.

Quase todo o mundo conhece Nossa Senhora de Fátima. Quase todo o mundo já ouviu falar de São Padre Pio. Mas quantos sabem que o Padre Pio esteve uma vez severamente doente, de cama, e Nossa Senhora de Fátima fez-lhe uma visita para curá-lo?

O evento miraculoso aconteceu em 1959. Naquela primavera, a imagem de Nossa Senhora de Fátima tinha vindo de Portugal para visitar as capitais das províncias da Itália, em várias paradas. Viajando de helicóptero, a imagem de Nossa Senhora deveria seguir para Foggia, onde o bispo Paolo Carta tinha preparado uma recepção calorosa para a Santíssima Virgem. Mas houve um desvio na rota.

Mais tarde, em 1997, como bispo emérito, ele contaria essa história à fundação Voce di Padre Pio, falando um pouco sobre o amor de longa data que o Padre Pio sempre cultivou por Nossa Senhora de Fátima:

Acho que posso afirmar que na metade de século que se seguiu, ninguém dentro da Igreja deu a Fátima uma resposta mais completa do que o Padre Pio. A ansiedade maternal do Imaculado Coração de Maria pelas almas que se precipitavam no inferno, invadiu profunda e completamente o coração do Padre Pio, que fez da sua vida inteira um grande sacrifício para que Nosso Senhor livrasse as almas da condenação eterna.

O bispo sublinhou que, em Fátima, Nossa Senhora havia pedido especialmente pela oração do Rosário. "E quem poderia contar as horas que o Padre Pio passou a rezar pela conversão e salvação dos pecadores? E com que amorosa insistência ele não recomendava o Rosário a todos como meio de atingir a salvação?"

Além disso, o bispo também apontou para os incontáveis atos de mortificação, penitências e sofrimentos praticados pelo Padre Pio para salvar as almas do inferno, em resposta ao que Nossa Senhora havia pedido. "Esta resposta heroica do Padre Pio merecia um sinal de mimo materno de Nossa Senhora — e o sinal foi maravilhoso."

Para a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, vinda de Portugal, estava programada uma passagem pela grande cidade de Foggia, no começo de agosto. O mosteiro de San Giovanni Rotondo pertencia à diocese de Foggia, mas o Padre Pio estava severamente doente, acamado por conta de uma pleurite, desde o dia 5 de maio. Se estava impossibilitado até de celebrar a Santa Missa, quanto mais de peregrinar até Foggia!

"Mas poderia uma Mãe com um Imaculado Coração tão sensível e delicado não visitar seu filho mais querido, o Padre Pio?", conta o bispo Paolo Carta.

Por algum motivo, o itinerário mudou. A imagem não iria mais para Foggia, e sim para San Giovanni Rotondo. A alegria tomou conta dos ares enquanto as pessoas se reuniam em volta do mosteiro. Com a ajuda de um alto-falante, o Padre Pio foi capaz de prepará-los para a chegada de sua Mãe, no dia 6 de agosto.

Naquela manhã, o Padre Pio conseguiu descer até a igreja e alcançar a imagem de Nossa Senhora — "mas teve que se sentar pois estava exausto", observou o bispo, e depois "ele deu a ela um Rosário dourado". " A imagem foi rebaixada diante do seu rosto e ele lhe deu um beijo. Foi um gesto de muito carinho."

Naquele mesmo dia, entre as duas e três da tarde, Nossa Senhora de Fátima estava mais uma vez no helicóptero, pronta para partir rumo ao seu próximo destino. Decolando da Casa Sollievo della Sofferenza — construída por ideia e inspiração do Padre Pio e inaugurada a 5 de maio de 1956 —, o helicóptero deu três voltas em torno do mosteiro antes de voar em direção à sua próxima parada. (Nem o piloto da aeronave conseguiu explicar, depois, por que se deram aquelas voltas.)

O bispo Paolo Carta descreveu ainda como, "de uma janela, o Padre Pio viu o helicóptero voar para longe, com os olhos cheios de lágrimas. Para Nossa Senhora que estava no voo, o Padre Pio lamentou com uma confiança que era própria dele: 'Minha Senhora, minha Mãe, vieste à Itália e eu fiquei doente, agora te vais embora e me deixas doente ainda.'"

Mas, enquanto o helicóptero dava voltas no ar, ele sentiu um arrepio, uma "sacudida" em todo o seu corpo. O bispo repetiu, então, aquilo que o Padre Pio diria pelo resto de sua vida: " Naquele mesmo instante eu senti um tremor nos meus ossos que me curou imediatamente." O bispo acrescentou ainda as palavras do seu diretor espiritual, para confirmar o evento: "Num momento, o padre sentiu uma força misteriosa em seu corpo e disse aos seus confrades: 'Estou curado.' Ele estava forte e saudável como nunca antes na sua vida."

No livro Padre Pio, a Personal Portrait ("Padre Pio, um retrato pessoal", sem tradução para o português), publicado originalmente em 1978 e relançado recentemente, o frei Francesco Napolitano, que trabalhou com o santo de Pietrelcina, dá o seu próprio testemunho: "Eu estava presente no momento e posso atestar que o Padre Pio nunca se sentiu tão saudável como depois da partida da imagem de Nossa Senhora de Fátima."

Quando contaram ao santo frade que um artigo, no jornal de Foggia, perguntava o por que a imagem de Nossa Senhora de Fátima tinha ido a San Giovanni Rotondo, em vez de ir ao Santuário de São Miguel, no monte Sant'Angelo, também localizado em Foggia, o bispo Paolo Carta repete aquilo que o Padre Pio costumava responder, com muita simplicidade: " Nossa Senhora veio aqui para curar o Padre Pio."

Três dias após a visita da Virgem, ele estava de volta a celebrar a Santa Missa.

Sobre o porquê de Nossa Senhora de Fátima ter visitado o Padre Pio, o bispo Paolo Carta tinha a sua própria opinião:

Gosto de acrescentar que ela veio também por causa do exemplo de devoção ardente do Padre Pio. A sua recuperação prodigiosa iria despertar na Itália e no mundo um fervoroso aumento de amor e confiança no Imaculado Coração de Maria.

E a partir deste maravilhoso episódio nós devemos fazer uma santa resolução de sempre crescer nesta devoção, com uma resposta generosa à mensagem de Fátima, recitando fervorosamente o Rosário todos os dias, rezando e oferecendo os nossos sofrimentos pela conversão dos pecadores, e recebendo a Comunhão nos primeiros sábados de cada mês, na esperança de que estas palavras consoladoras se tornem verdade para nós: 'A quem abraçar esta devoção, prometo a salvação, e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono.'

A promessa da Virgem de Fátima é que as almas por ela queridas seriam como "flores". Pela resposta que deu às suas mensagens e pedidos, no entanto, o Padre Pio está mais para um ramalhete inteiro.

Por Joseph Pronechen | Fonte: N. C. Register | Tradução: Equipe CNP

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A oração de uma alma pela vinda do Senhor

“Aguardo-Vos, Senhor, com quietude e silêncio, com grande saudade em meu coração, com sede indomável.”

São os santos da Igreja Católica que possuem a verdadeira percepção da realidade das coisas. Quem olha para as religiosas de uma clausura, confinadas sem poderem sair, talvez tenha a impressão de que elas estão "presas", de que estão "alienadas" do mundo. A verdade, ao contrário, é que são elas umas das poucas pessoas da terra atentas para as coisas que realmente importam: a salvação da própria alma, o diálogo com Deus, a eternidade.

Elas são verdadeiramente livres! Presos estamos nós, do lado de fora, atados que estamos, muitas vezes, "às planícies desta vida". Alienados estamos nós, que quantas vezes nos esquecemos que a nossa Pátria verdadeira é o Céu…!

Santa Faustina Kowalska, apóstola da Divina Misericórdia, é uma dessas almas que compreenderam o sentido desta existência e passaram a vida esperando pela vinda do Senhor. Nesta oração, retirada de seu famoso Diário, nós nos unimos a todas essas almas que rezam no silêncio dos claustros, manifestando a Deus o desejo de vê-lO reinar também, e em primeiríssimo lugar, em nosso coração. — Vinde, Senhor Jesus!

Espera da alma pela vinda do Senhor

Não sei, Senhor, a hora em que vireis;
Portanto velo sem cessar e fico atenta
Como Vossa esposa eleita,
Porque sei que gostais de vir sem ser notado,
Mas o coração puro, de longe, Senhor, Vos perceberá.

Aguardo-Vos, Senhor, com quietude e silêncio,
Com grande saudade em meu coração,
Com sede indomável.
Sinto que meu amor para Convosco se transforma em fogo,
E como uma chama se elevará ao céu no final da vida,
E então serão satisfeitos todos os meus desejos.

Vinde logo — meu Senhor Dulcíssimo,
E levai o meu coração sedento
Lá, até Vós, a essas sublimes regiões celestes,
Onde perdura a Vossa vida eterna!

Porque a vida na Terra é contínua agonia,
Porque o meu coração sente que para as alturas foi criado.
E nada se importa com as planícies desta vida,
Porque a minha Pátria é o céu. — Creio nisto firmemente.


Diário de Santa Faustina Kowalska, n. 1589.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O corpo incorrupto de Santa Rita de Cássia

Conheça os milagres em torno do corpo incorrupto de Santa Rita de Cássia, um dos casos mais célebres de que se tem notícia em toda a história da Igreja.

O corpo incorrupto de Rita de Cássia é um dos casos mais célebres de que se tem notícia na história da Igreja Católica. Nascida Margherita Lotti, aquela que ficaria conhecida no mundo inteiro como a "santa das causas impossíveis" morreu ainda em 1457, mas, até hoje, quem quer que visite a pequena comuna de Cássia, no interior da Itália, ficará impressionado em encontrar os restos mortais dessa santa mulher ainda bem preservados no interior de uma urna dourada de cristal.

Numerosos são, além disso, os eventos miraculosos relacionados a essas relíquias, começando pelo que se relata ter acontecido no momento mesmo de sua morte, quando a cela em que ela se encontrava ficou repleta de um perfume extraordinário e uma luz espantosa emanou do estigma que ela tinha na testa.

Como se sabe da vida de Santa Rita de Cássia, o estigma que ela trazia em sua fronte, a princípio, nada tinha de glorioso: tratava-se de uma ferida supurante e malcheirosa, que fez com que ela vivesse seus últimos 15 anos sobre a terra em absoluto recolhimento. Curiosamente, porém, foi dessa mesmíssima chaga que emanou uma luz inexplicável após a sua morte. É como se Deus atestasse, com isso, a glória que existe por trás de todo sofrimento, quando vivido neste mundo por amor a Deus. Como escreve o Apóstolo, "a insignificância de uma tribulação momentânea acarreta para nós um volume incomensurável e eterno de glória" (2Cor 4, 17).

Ao redor do túmulo de Rita foram relatados ainda muitos fenômenos odoríferos, perfumes que eram exalados de seus restos mortais. O Papa Bento XIV, ao explicar esse milagre, em uma famosa obra sobre a beatificação dos servos de Deus, considerava com muita sabedoria o seguinte:

"Que o corpo humano possa naturalmente não cheirar mal, é muito possível; mas que cheire bem está acima de suas forças naturais, como ensina a experiência. Por conseguinte, se o corpo humano, corrompido ou incorrupto, em putrefação ou sem ela [...], exala um odor suave, persistente, que não incomoda a ninguém, mas que parece agradável a todos, deve-se atribuí-lo a uma causa superior e deve pensar-se em um milagre."

Todos esses acontecimentos extraordinários fizeram as autoridades civis e eclesiásticas instalarem o túmulo de Rita em um lugar acessível aos peregrinos, que não deixavam de visitar a santa. O seu corpo foi depositado, então, em um oratório interno, conservando-se debaixo de um altar, onde podia facilmente ser venerado pelas pessoas.

Antes de sua beatificação, em 16 de julho de 1627, por ato do Papa Urbano VIII, o corpo foi cuidadosamente examinado e achado perfeitamente como no dia de sua morte, com a pele apresentando ainda a sua cor natural — fato que salta aos olhos principalmente porque o seu corpo nunca tinha sido adequadamente sepultado, no correr de mais de 150 anos. Conservados nos arquivos da diocese de Spoleto, na Itália, estão ainda muitos outros relatos impressionantes que se deram ao longo destes séculos: os olhos da santa que se teriam aberto sozinhos, por exemplo, e o seu corpo inteiro que se teria movido, dentro do sarcófago, de um lado para o outro, chegando mesmo a levitar até o topo da urna, na presença de várias testemunhas.

Canonizada em 1900 pelo Papa Leão XIII, Santa Rita de Cássia teve o seu corpo transladado, em meados do século passado, para uma basílica construída em sua honra. No relicário de ouro abrigado no interior dessa igreja é onde se encontram os seus restos mortais até os dias de hoje, os quais continuam a receber, todos os anos, milhares de devotos, vindos do mundo inteiro.

Os leitores mais céticos poderão gracejar diante de todos os milagres acima mencionados, assim como fariam com os milagres de um Santo Antônio de Lisboa, de um São Francisco de Paula ou do próprio Jesus Cristo. Quando a ciência moderna, no entanto, vem respaldar os eventos inexplicáveis associados à vida de um Padre Pio, por exemplo, que viveu há tão pouco tempo, é preciso perguntar ao homem moderno: se um capuchinho podia, pelo poder de Deus, operar tantos prodígios, por que não os santos dos séculos passados? Por que não os santos da Idade Média, como Santa Rita de Cássia? Por que não Jesus Cristo, como consta em inúmeras passagens dos Evangelhos?

A verdade é que, infelizmente, nem um milhão de milagres pode demover um coração obstinado na incredulidade. Se diante do próprio Deus encarnado, o maior sinal a que poderiam ter acesso os seres humanos, inúmeros foram os que se recusaram a crer, a história de outras épocas não seria muito diferente.

A Deus, porém — nós cremos —, nada é impossível. Inspirados, pois, pela biografia de Santa Rita de Cássia, possamos também nós trilhar, na oração e no sacrifício, o caminho para a conversão dos homens do nosso tempo, assim como a "santa das causas impossíveis" conseguiu, do Céu, a salvação de seu marido, de seus filhos biológicos e de tantos outros filhos espirituais que hoje clamam, espalhados por todo o mundo, a sua intercessão. — Santa Rita de Cássia, rogai por nós!

Com informações de The Incorruptibles | Por Equipe CNP

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“Eu, Irmã Faustina, estive nos abismos do Inferno”

“Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe.”

Um dos argumentos de que mais se servem os inimigos da Igreja para pôr em questão a verdade do inferno diz respeito à misericórdia divina. "Se Deus é misericordioso", dizem, "não condenará ninguém a fogo nenhum, quanto mais eternamente."

O primeiro problema por trás dessa forma de pensamento é, sobretudo, a falta de fé. Se Jesus Cristo realmente é Deus, como crê e ensina desde o princípio a Igreja Católica, e se foi Ele próprio quem disse, conforme consignado inúmeras vezes no Evangelho, que existe o "inferno" (cf. Mt 11, 23; 23, 33; Lc 12, 5; 16, 23), o "fogo eterno" (cf. Mt 18, 8; 25, 41), a "geena" (cf. Mt 5, 22ss; 10, 28; Mc 9, 43ss), ou o "castigo eterno" (cf. Mt 25, 46), a única resposta possível do ser humano é crer em suas palavras. O próprio Deus falou; a segunda Pessoa da Santíssima Trindade se pronunciou, Ele que nec falli nec fallere potest, isto é, "não se engana nem nos pode enganar" [1]. Ou aceitamos por isso a verdade do inferno, ou então estamos brincando quando dizemos crer em Deus, em Jesus e na sua Igreja. Quem escolhe da doutrina que o próprio Senhor revelou somente aquilo que lhe agrada, pondo de lado o que lhe desagrada, não é em Deus que crê, mas em si mesmo; não é católico, mas herege.

É claro que a teologia pode explicar a doutrina do inferno e demonstrar, àqueles que já crêem, a razoabilidade desse ensinamento de Nosso Senhor. O Deus cristão, afinal de contas, é também λόγος ("logos"); o que Ele faz não nasce do puro arbítrio, como acreditam os voluntaristas, os fideístas ou os muçulmanos. Ao mesmo tempo, porém, àqueles que estão do lado de fora, nenhuma explicação será suficiente para que creiam. Se essas pessoas, resistindo, não derem seu assentimento de fé à autoridade de Deus revelante, aceitando em sua totalidade o depositum fidei que a Igreja custodia e anuncia, todo e qualquer esforço argumentativo será em vão.

Nesse sentido, a visão de Santa Faustina Kowalska, descrita a seguir, serve menos para convencer os descrentes que para confirmar, no coração dos católicos mornos ou vacilantes, a veracidade da doutrina católica de sempre sobre o inferno. Pode-se muito bem, é verdade, duvidar dessa revelação privada que recebeu a Apóstola da Misericórdia, assim como se pode duvidar da visão do inferno de Fátima e de outros tantos fenômenos místicos semelhantes por que passaram os santos da Igreja [2]. O que não pode questionar, ao menos quem foi batizado na fé da Igreja e enche a boca para se dizer "católico", é que o inferno existe e a condenação eterna é uma possibilidade real e terrível, confirmada pelos Evangelhos, pela Tradição e pelo Magistério — ainda que, na verdade, os teólogos avessos a essas revelações privadas (aprovadas pela Igreja!) sejam, na maioria das vezes, justamente os hereges que rechaçam essa parte, incômoda, da doutrina católica.

Quem tem fé, entretanto, na vida eterna (e talvez até seja devoto da Divina Misericórdia), atente-se bem às palavras dessa santa religiosa, que recebeu de Deus o privilégio de visitar o inferno: "Estou escrevendo isso por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há Inferno, ou que ninguém esteve lá e não sabe como é"; "Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe". O testemunho de Santa Faustina é dirigido a nós, homens céticos e incrédulos do século XXI!

Escutemos o apelo que a Misericórdia Divina nos faz e, temendo a principal pena do inferno, que é "a perda de Deus", aprendamos a evitar o pecado, que nos faz viver a amargura e a infelicidade ainda nesta vida.

Hoje conduzida por um Anjo, fui levada às profundezas do Inferno. É um lugar de grande castigo, e como é grande a sua extensão. Tipos de tormentos que vi: o primeiro tormento que constitui o Inferno é a perda de Deus; o segundo, o contínuo remorso de consciência; o terceiro, o de que esse destino já não mudará nunca; o quarto tormento, é o fogo, que atravessa a alma, mas não a destrói; é um tormento terrível, é um fogo puramente espiritual aceso pela ira de Deus; o quinto é a contínua escuridão, um horrível cheiro sufocante e, embora haja escuridão, os demônios e as almas condenadas vêem-se mutuamente e vêem todo o mal dos outros e o seu; o sexto é a continua companhia do demônio; o sétimo tormento, o terrível desespero, ódio a Deus, maldições, blasfêmias. São tormentos que todos os condenados sofrem juntos, mas não é o fim dos tormentos. Existem tormentos especiais para as almas, os tormentos dos sentidos. Cada alma é atormentada com o que pecou, de maneira horrível e indescritível. Existem terríveis prisões subterrâneas, abismos de castigo, onde um tormento se distingue do outro. Eu teria morrido vendo esses terríveis tormentos, se não me sustentasse a onipotência de Deus. Que o pecador saiba que será atormentado com o sentido com que pecou, por toda eternidade. Estou escrevendo isso por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há Inferno, ou que ninguém esteve lá e não sabe como é.

Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe. Sobre isso não posso falar agora, tenho ordem de Deus para deixar isso por escrito. Os demônios tinham grande ódio contra mim, mas, por ordem de Deus, tinham que me obedecer. O que eu escrevi dá apenas a pálida imagem das coisas que vi. Percebi, no entanto, uma coisa: o maior número das almas que lá estão, é justamente daqueles que não acreditavam que o Inferno existisse. Quando voltei a mim, não podia me refazer do terror de ver como as almas sofrem terrivelmente ali e, por isso, rezo com mais fervor ainda pela conversão dos pecadores; incessantemente, peço a misericórdia de Deus para eles. "Ó meu Jesus, prefiro agonizar até o fim do mundo nos maiores suplícios a ter que Vos ofender com o menor pecado que seja."

[...]

Hoje ouvi as palavras: No Antigo Testamento, Eu enviava Profetas ao Meu povo com ameaças. Hoje estou enviando-te a toda a humanidade com a Minha misericórdia. Não quero castigar a sofrida humanidade, mas desejo curá-la estreitando-a ao Meu misericordioso Coração. Utilizo os castigos, apenas quando eles mesmos Me obrigam a isso, e é com relutância que a Minha mão empunha a espada da justiça. Antes do dia da justiça estou enviando o dia da Misericórdia. Eu respondi: "Ó meu Jesus, falai Vós mesmo às almas, porque as minhas palavras são insignificantes. [3]

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius (24 de abril de 1870), III: DS 3008.
  2. A expressão "Pode-se muito bem", aqui, deve ser lida de acordo com as orientações do Catecismo da Igreja Católica a esse respeito: "No decurso dos séculos tem havido revelações ditas 'privadas', algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é 'aperfeiçoar' ou 'completar' a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja." (§ 67)
  3. Diário de Santa Faustina, n. 741 e 1588.