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Ser devoto de Santo Tomás More hoje

De Conselheiro do Rei a "traidor" da Coroa. Conheça a vida de Santo Tomás More, “o homem que não vendeu a sua alma”.

O que a história de um leigo que viveu há 480 anos tem a ensinar ao homem moderno? É a pergunta que devem fazer todos os católicos, ao celebrarem a memória de Santo Tomás More (22/06) – ao qual foi reservado o epíteto de "o homem que não vendeu a sua alma".

Antes de qualquer coisa, cabe fazer uma breve narrativa de sua vida, contando como a sua cabeça foi parar na bandeja por ordem do então príncipe da Inglaterra, o Rei Henrique VIII.

Homem erudito, esposo fiel e pai de quatro filhos, More foi nomeado Conselheiro do Rei (Lord Chancellor, em inglês) no ano de 1529, em meio a uma crise moral na Coroa. Henrique VIII era casado com Catarina de Aragão, mas tentava junto ao Papa conseguir a dissolução de seu casamento. A desculpa para a sanha adúltera do príncipe era o argumento de que Catarina não lhe dava um herdeiro homem. Como o Papa não lhe concedia o rompimento de seu matrimônio – fiel à palavra de Cristo, segundo a qual não se pode separar o que Deus uniu (cf. Mt 19, 6) –, ele mesmo fez questão de casar-se com Ana Bolena, então dama de companhia de sua legítima consorte. Sem autoridade espiritual que confirmasse as suas novas núpcias, Henrique VIII – o qual anos antes defendera a Igreja Católica das heresias do protestantismo – se autoproclamou líder da Igreja da Inglaterra.

Quando tudo isso aconteceu, Tomás More, tendo previsto o desastre que se anunciava, já havia renunciado às suas funções públicas junto à Coroa, em 1532. Não querendo entrar em imbróglios, ele saiu da política, silenciosamente. Sendo um homem justo, decidiu abandonar o Rei em segredo. O seu silêncio, porém, a sua recusa em aprovar o adultério de Henrique, falavam alto demais. Mesmo não pertencendo mais ao governo inglês, More foi perseguido pelo Rei e, negando-se a obedecer às suas arbitrariedades, foi condenado por alta traição à Coroa. No dia 6 de julho de 1535, aprisionado na Torre de Londres, More acabou decapitado, simplesmente por não se prostrar às determinações tirânicas do Rei. (Um ano mais tarde, incapaz de dar um herdeiro aos Tudors, também Ana Bolena seria executada por Henrique, que ainda se casaria com outras 4 mulheres antes de morrer.)

A história de Tomás lembra, mutatis mutandis, o martírio de São João Batista. A criminosa em questão era Herodíades, que, não suportando ouvir de João a reprovação de sua vida de adultério, pediu ao Rei Herodes a sua cabeça em uma bandeja (cf. Mt 14, 1-12). Por defender a verdade até o fim, entregando com isso a sua própria vida, João Batista não é venerado apenas como profeta, mas principalmente como mártir.

Importa reconhecer, porém, que as vidas desses dois grandes santos, separadas por aproximados 15 séculos, está unida por um martírio diferente dos martírios comuns. Quem ouve as glórias dos primeiros cristãos, mortos nas arenas do Coliseu por não prestarem culto a César, pode ser tentado a ter em pouca conta a decapitação de João e Tomás porque, afinal, nem Herodes nem Henrique pediram a eles que os adorassem, no sentido próprio do termo. Contudo, "o cristão sofre – lembra Santo Tomás – não apenas sofrendo por uma confissão de fé em palavras, mas também cada vez que sofre para realizar um bem qualquer, ou para evitar um pecado qualquer por causa de Cristo". Por isso, "as obras de todas as virtudes, enquanto se referem a Deus (...) podem ser causa de martírio" [1].

Eis, portanto, a primeira grande lição que se pode extrair da vida de Santo Tomás More e de São João Fisher, seu companheiro mártir. Por amor à verdade do Evangelho, eles não temeram sacrificar as suas próprias existências neste mundo. Em um século dominado pelo relativismo e por uma aguda decadência moral, que ameaça a própria família, os exemplos desses homens desafiam o nosso tempo a preservar com coragem e destemor todas as verdades da nossa fé, sem adaptações, nem conveniências. A mensagem da família não é palavra humana ou "opinião", para que possa ser modificada ou "reinventada" ao bel prazer. É, ao contrário, palavra divina – palavra veraz, fora da qual não pode haver verdadeira caridade, como indica o Papa Bento XVI: "Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida" [2].

A segunda importante lição da vida de More é ensinar aos cristãos quais são os limites do poder das autoridades civis. "Precisamente por causa do testemunho que Santo Tomás More deu, até ao derramamento do sangue, do primado da verdade sobre o poder, é que ele é venerado como exemplo imperecível de coerência moral" [3]. A respeito disso, as Escrituras já oferecem conselhos preciosos: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mt 22, 21), diz Jesus; e, exortam os Apóstolos, "importa obedecer antes a Deus do que aos homens" (At 5, 29). Diante de ditaduras que tentam sufocar a própria verdade; face a César, Herodes, Henrique ou Stálin, é preciso reafirmar, sempre e categoricamente, o primado de Deus – primado este que, no fim das contas, redunda em benefício do próprio homem.

Afinal, quando todo o poder é colocado nas mãos do Estado, quando este se torna "a medida de todas as coisas", não demora muito para que se cortem as cabeças e os seres humanos sejam executados no paredón ou jogados em campos de concentração. Foi assim na Inglaterra de Henrique VIII, foi assim na Cuba de Fidel Castro e na Alemanha de Hitler. Será sempre assim, quando César pretender tomar para si o poder que cabe somente a Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 5.
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate (29 de junho de 2009), n. 3.
  3. Papa João Paulo II, Carta Apostólica E Sancti Thomae Mori (31 de outubro de 2000), n. 1.

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Milagre de São Januário acontece nas mãos do Papa Francisco

O sangue do mártir, normalmente sólido, se dissolveu parcialmente à vista dos fiéis, depois que o Papa beijou o seu relicário

O sangue de São Januário se dissolveu em presença do Papa Francisco, no último dia 21 de março, durante visita de Sua Santidade à diocese de Nápoles, na Itália. Os restos sanguíneos do mártir padroeiro de Nápoles, geralmente sólidos, tornaram-se parcialmente líquidos depois que o Papa beijou o seu relicário.

O Cardeal e Arcebispo da cidade, Crescenzio Sepe, exibiu a ampola com o sangue do santo aos fiéis que lotaram a catedral napolitana, dizendo: "Sinal de que São Januário ama o Papa, que é napolitano como nós: o sangue já se dissolveu pela metade".

O Papa, então, comentou, com humor: "O Arcebispo disse que metade do sangue se dissolveu: vê-se que o santo nos ama pela metade. Devemos converter-nos mais para que nos ame mais."

São Januário, nascido em Nápoles, foi um bispo de Benevento, na Itália, martirizado durante a perseguição do imperador Diocleciano. Instado diante do tribunal romano a oferecer incenso aos deuses, Januário se negou, com as seguintes palavras: " Não posso imolar aos demônios, pois tenho a honra de sacrificar todos os dias ao verdadeiro Deus". Mandado à fogueira, as chamas nada fizeram ao servo de Deus. Mandado à arena, para ser devorado pelos leões, estes, ao contrário, se prostraram diante do bispo e começaram a lamber-lhe os pés. Por fim, no dia 19 de setembro de 305, Januário foi decapitado.

De acordo com alguns relatos, durante um dos vários traslados de seu corpo entre Benevento e a sua cidade natal, o seu sangue foi recolhido por uma piedosa mulher e colocado em duas ampolas. Venerado desde o século V, o milagre da liquefação de seu sangue é documentado desde os anos 1400, acontecendo, desde então, periodicamente. Três datas são especiais para o fenômeno: 19 de setembro, festa de São Januário, 16 de dezembro, dia em que Nápoles foi preservada de um desastre por intermédio do santo, e o sábado anterior ao primeiro domingo de maio, que é o aniversário da primeira transladação de seu corpo.

Desta vez, porém, de modo extraordinário, o milagre ocorreu nas mãos do sucessor de São Pedro. A última vez a acontecer isto com um Sumo Pontífice foi em 1848, com o Beato Pio IX, o Papa da Imaculada Conceição e do Concílio Vaticano I.

Antes de abençoar o povo com o relicário de São Januário, o Papa Francisco fez um discurso ressaltando a centralidade de Jesus na vida da Igreja e recomendando fortemente a devoção a Nossa Senhora: "Como posso estar certo de ir sempre com Jesus? É a sua Mãe que o acompanha. Um sacerdote, um religioso, uma religiosa que não ama Nossa Senhora, que não reza a Nossa Senhora, diria também que não recita o Terço... se não quiser a Mãe, a Mãe não lhe concederá o Filho."

É certo que, como todas as graças chegam aos homens pelas mãos de Maria Santíssima, também este impressionante milagre foi obra de sua mediação maternal. Que ela, pois, conserve o Santo Padre, lhe dê vida longa, o faça santo na Terra e não o entregue à vontade de seus inimigos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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A oração de Tomás

A vida de Santo Tomás de Aquino é a prova: não se pode ser sábio sem estar na presença de Deus.

O que explica o gênio extraordinário de Santo Tomás de Aquino? Livros? Disciplina? Dedicação aos estudos? Muitas respostas podem ser dadas a esta pergunta, mas nenhuma será completa, se ignorar a principal ferramenta de trabalho do Doutor Angélico: a oração. Todas as obras de Tomás – desde os seus comentários às Escrituras, até a grande Summa contra Gentiles e a incompleta Summa Theologiae – só são o que são, porque nasceram de uma profunda amizade de seu autor com a própria Verdade, que é Deus.

À sua época, de fato, ainda não tinha acontecido a cisão – tão danosa à modernidade – entre a fé e as ciências, entre a vida interior e a vida intelectual. Quando surgiram as universidades, o conceito que se tinha de um erudito era que fosse também uma pessoa de intensa oração e busca de santidade pessoal. Não sem razão, os bons pensadores e filósofos do passado eram profundamente religiosos – como foi Santo Alberto Magno, São Boaventura ou Santo Tomás de Aquino. Para o homem medieval, esta unidade era bastante lógica: quem procurava a verdade por meio dos estudos, devia também viver de acordo com ela, com retidão e integridade.

Hoje, no entanto, os assim chamados "cientistas" ousam fazer suas pesquisas e trabalhos acadêmicos prescindindo de Deus. Em alguns ambientes, o ateísmo chega a ser obrigatório para integrar um currículo ou alavancar uma carreira de prestígio. As universidades, que, fundadas pela Igreja e envolvidas por um resplendor sobrenatural, engendravam verdadeiros santos, infelizmente se tornaram fábricas de deformação moral em série, às quais as pessoas vão, não mais para aprender a verdade, senão para montar os seus próprios sistemas e ideias – perfeitamente lógicos... e completamente falsos.

Neste sentido, a vida de Tomás de Aquino lança um grande ponto de interrogação sobre todo o pensamento contemporâneo, em cuja base está tão somente o homem – artífice do universo e de si mesmo. É realmente intrigante que queiramos investigar e compreender as criaturas sem nos dirigirmos – ou sequer lançarmos o olhar – Àquele que as projetou e criou.

Era isto o que fazia assiduamente o Aquinate, como atesta o seu biógrafo e discípulo, Guillelmus de Tocco:

"Durante o tempo da noite dedicado pelos homens ao repouso, Tomás, após um breve sono, permanecia em seu quarto ou na igreja imerso em oração, para que orando merecesse aprender aquilo que deveria após a oração escrever ou ditar. (...) Todas as vezes em que queria estudar, disputar, ler, escrever, ditar, antes se entregava ao segredo da oração, para que encontrasse as coisas de Deus no segredo da verdade; pelo mérito de sua oração, assim como se aproximava com as questões de que tinha dúvida, do mesmo modo saía dela ensinado" [1].

Mesmo com tantos momentos de oração pessoal, a devoção de Tomás alcançava seu cume na celebração diária da Santa Missa, quando o monge comungava da própria Sabedoria que o iluminava. Importa apresentar, como corolário desta verdade, o que se passou durante os seus últimos meses de vida:

"No convento de Nápoles frei Domingos de Caserta repara que Tomás desce de seu quarto antes das matinas e vai até à igreja. Apenas o sino toca e supõe os companheiros prestes a despertar, volta para cima, como se não quisesse ser descoberto.

Frei Domingos resolve um dia saber o que se passa. Levanta-se mais cedo e, ao ver o Doutor Angélico sair da cela, segue-o, oculto, à capela de São Nicolau. Aí surpreende o mestre dominicano imerso em profunda oração. E, com grande espanto, observa que seu corpo se levanta no ar, dois palmos acima do nível do solo. Dentro de alguns momentos, na penumbra silenciosa da capela, soa uma voz misteriosa, que vem do crucifixo erguido no altar: 'Tomás, escreveste bem sobre mim. Que receberás de mim como recompensa pelo teu trabalho?'

De joelhos, transportado de fé, Tomás exprime na resposta a plenitude de seu ardor místico: ' Senhor, nada senão Vós!'" [2]

Pouco depois disto, no dia 6 de dezembro de 1273, após rezar o Santo Sacrifício da Missa, acontece em Tomás "uma grande mudança, que impressiona a todos os assistentes". Depois daquele dia, de fato, o santo não mais colocará as mãos em sua Suma Teológica, a qual ele passa a considerar como unicamente palha, em comparação com aquilo que viu e lhe foi revelado [3].

O que viu Tomás? O que lhe foi revelado? Tais perguntas só podem ser respondidas com propriedade pelos santos, que associam o fenômeno místico experimentado pelo Doutor Angélico à promessa de Nosso Senhor: "Aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a mim mesmo a ele" (Jo 24, 20). Assim, Cristo dava ao Aquinate aquilo por que tanto aspirava, desde a sua juventude: Ele próprio.

" Quaerere Deum – procurar Deus": o que viviam os primeiros monges cristãos, foi o que viveu Santo Tomás de Aquino. Que, do Céu, ele nos alcance a graça de buscar perseverante e incessantemente o Senhor, sem o qual qualquer Summa é "palha" e qualquer vida não tem, absolutamente, nenhum sentido.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Vita Sancti Thomae Aquinatis, XXIX. XXX in A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 5, Santo Tomás e a Vida Contemplativa
  2. A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 6, A morte de Tomás de Aquino
  3. Ameal, João: São Tomás de Aquino; Porto, Livraria Tavares Martins, 1956; pgs. 143-5 in A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 6, A morte de Tomás de Aquino

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O primeiro presépio

"Eis para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada numa manjedoura."

Como os pastores, apressemos nossos passos para adorar Aquele que está no presépio, envolto em faixas. Adoremos Aquele que se fez pobre e agora dorme, inerme, sobre as palhas da manjedoura.

O cartunista João Spacca traduz neste HQ a alegria e a devoção de São Francisco de Assis ao contemplar o nascimento de Cristo: "Vinde, adoremos o Menino de Belém!"

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Quarenta Homens de Fé

O martírio do Beato Inácio de Azevedo e seus companheiros mártires recorda que o Brasil nasceu sob a sombra da cruz de Cristo.

O Brasil nasceu sob a sombra da cruz de Cristo. Não sem razão os portugueses, tão logo fincaram bandeira em nosso território, trataram-no com o belo nome de “Terra de Santa Cruz". Com os colonizadores, de fato, veio para o Novo Mundo um incontável número de sacerdotes e religiosos católicos que, sem prata, nem ouro, deixava a Europa tão somente para semear a semente do Evangelho no coração dos povos indígenas (cf. At 3, 6). Hoje, pode-se dizer que praticamente todos os lugares de nosso país rendem homenagem a esses “homens de fé". Igrejas, cidades, ruas e monumentos são apenas alguns exemplos de como os nomes dos santos de Deus não estão escritos somente nos céus (cf. Lc 10, 20), mas também nas obras e construções humanas.

Uma bela composição musical, de autoria da cantora e compositora Kay Lyra, evoca justamente a história do corajoso Beato Inácio de Azevedo e de seus trinta e nove companheiros, que, não contentes em pregar o Evangelho com os lábios, testemunharam-no com o martírio, enquanto tentavam entrar no Brasil. Em poesia, a canção “Quarenta Homens de Fé" conta como os quarenta jesuítas, após aportarem “na Ilha da Madeira" e entrarem na nau chamada de “Santiago", foram atacados e mortos por piratas protestantes, quando passavam perto das Ilhas Canárias:

“Quarenta Homens de Fé" (Kay Lyra)
Aportaram na Ilha da Madeira
Quarenta homens de fé
Prosseguiram na nau de Santiago
Quarenta homens de fé

Missionários guiados pelo vento
Com o intento do espírito da luz
Que conduz com firmeza e com clareza
Do cruzeiro de pedra Monte da Cruz

E a nau prosseguia bem tranqüila
Sobre a água o sol refletia paz
Mas a prece de Santa Tereza D'Ávila
Foi visão do martírio de um rapaz

Dom Inácio de Azevedo vinha
Com um sorriso e na mão sua santinha
E desejava seguir o seu irmão
João sobrinho do capitão

Uma prece eu peço, pra esses homens de fé
Que não sejam esquecidos, esses homens de fé
De repente uma nuvem pressentia
O clamor da maldade de um irmão

Onde o amor é de pouca serventia
Onde a noite chegou no coração
Surpreendidos com enorme alarido
Ameaçados com armas no convés

Dom Inácio caído e atingido
Sem saber a razão desse revés
Praguejando e ferindo com a espada
Era a ira de Jacques Sourie

Mais potente é a arma que o homem guarda
Com a fé sua morte não temer
Foram todos os homens então lançados
Uns já mortos, uns vivos, condenados

E agarrado à Santinha foi Dom Inácio
Para o fundo do mar…pra você ver
Uma prece eu peço, pra esses homens de Fé
Que não sejam esquecidos, esses homens de Fé

Prosseguiram então sua viagem
Para além desse céu e desse mar
Com as armas que vestem fé e coragem
Prosseguiram pro eterno bem morar

Ave Maria Gratia Plena…

Escute a canção abaixo:

Para conhecer mais a história desses homens, recomenda-se a leitura da obra "Novas Páginas da História do Brasil" (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965), do Padre Serafim Leite, que conta, em detalhes, como morreram pela fé esses valentes missionários portugueses. Embora não tenham conseguido concluir a sua viagem ao Brasil, Inácio e seus companheiros mártires evangelizaram, do Céu, essa Terra de Santa Cruz: “Prosseguiram então sua viagem / Para além desse céu e desse mar / Com as armas que vestem fé e coragem / Prosseguiram pro eterno bem morar".

Para esta civilização cada vez mais esquecida de sua identidade cristã, que seja atendido, como prece, o estribilho dessa bela música de Kay Lyra: “Que não sejam esquecidos, esses homens de fé".

Beato Inácio de Azevedo e companheiros mártires, rogai por nós!

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O homem que perdeu a cabeça por amor a Jesus

São Dionísio de Paris, depois de ter sua cabeça decepada, caminhou ainda seis quilômetros com ela nas mãos, pregando o Evangelho

Dos muitos mártires que a fé em Cristo já gerou ao longo dos séculos, em todos os cantos da terra, a Igreja celebra, hoje, a memória de São Dinis de Paris, bispo e padroeiro da França.

São Dinis – que também se pode chamar de “Dionísio" – foi morto em meados do século III, durante o curto reinado do imperador romano Décio. Os dois anos em que ficou à frente do Império foram suficientes para que sua crueldade fosse comparada à do terrível Nero. Em pouco tempo, ele fez incontáveis vítimas no meio do clero e entre os próprios fiéis, elevando à honra dos altares nomes como Santa Ágata, São Saturnino e o próprio Papa Fabiano.

Como morreu São Dinis? Durante o seu pontificado, São Fabiano enviou à então província da Gália sete missionários cristãos, dentre eles Saturnino, mandado a Toulouse, e o próprio Dinis, que se fixou na Lutécia, onde atualmente fica a cidade de Paris. A eloquência de Dionísio logo colocou em polvorosa os sacerdotes pagãos do local, que ficaram alarmados pelas várias conversões que ele, por obra de Deus, conseguia. Um edito do imperador Décio, exigindo que todos prestassem o culto a César, tornou fácil a captura de Dinis, que se destacava por sua coragem e fidelidade. Um dia, levaram-no ao alto de um monte e cortaram a sua cabeça e as de seus fiéis companheiros, Rústico e Eleutério.

O mais incrível é que, segundo a tradição, o bispo Dionísio ainda saiu do Montmartre – “monte do mártir", como ficou conhecido o lugar – e caminhou seis quilômetros, carregando a sua cabeça e pregando um sermão sobre o arrependimento, até chegar ao lugar onde foi enterrado. A iconografia cristã geralmente o retrata segurando a sua cabeça, ainda com a mitra. Hoje, o “apóstolo da Gália" é invocado pelo povo cristão contra dores de cabeça e possessões demoníacas, além de ser homenageado como um dos primeiros pais da França.

O seu impressionante testemunho ilustra como nem depois de mortos os santos se calam. Se, nesta terra, com a sua pregação e vida, Dionísio glorificou sumamente a Deus, chegando ao heroísmo do martírio, após a sua morte, ele mesmo encorajou muitos outros homens a darem a vida por Cristo, cumprindo a profecia de Tertuliano, para quem o sangue dos mártires era semente de novos cristãos.

É importante lembrar que as ofertas dos perseguidores para que os cristãos “livrassem a sua pele" eram coisas aparentemente simples. Daniel-Rops conta que os suspeitos de seguirem a Cristo eram “conduzidos ao templo e convidados a sacrificar aos deuses ou, pelo menos, a queimar incenso na frente do altar". Depois, caso persistisse “a acusação de cristianismo, o acusado era convidado a pronunciar uma fórmula blasfema, na qual renegava Cristo". Por fim, celebrava-se uma refeição, “uma espécie de comunhão pagã, em que os suspeitos deviam comer carne das vítimas imoladas e beber vinho consagrado aos ídolos" [1]. Se fizessem qualquer uma dessas coisas, os cristãos se safavam e não eram mortos.

Diante de uma perseguição como a impetrada por Décio, pode-se imaginar como era grande a tentação de jogar um pouquinho de incenso diante dos ídolos... Afinal, um punhado de incenso, que mal poderia haver? Mas, os santos não se improvisam. “Quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará" (Mt 16, 25). Os carrascos que olhavam para os mártires certamente pensavam em seus corações que se tratavam de loucos, assim como a modernidade comumente pinta as imagens dos primeiros mártires como “suicidas", como se fossem homens desgostosos da vida, à procura da morte. À luz do Evangelho, no entanto, a entrega dessas pessoas não era simplesmente a renúncia da vida, mas a adesão à verdadeira Vida, por amor. O “não" de Dionísio, Rústico e Eleutério à idolatria, à blasfêmia e às carnes sacrificadas pelos ídolos foi, ao mesmo tempo, um belo e glorioso “sim" a Deus, ao Seu nome e à Sua vontade.

Hoje, talvez não nos seja pedida a entrega física dos primeiros mártires, que tiveram suas cabeças, braços e pernas decepados por causa de Cristo. Mas, sem dúvida, é-nos pedida a fidelidade de cada dia, pela qual todo cristão é sempre um mártir:

“Sendo muitas as perseguições, também são numerosos os martírios. Todos os dias és testemunha de Cristo. Foste tentado pelo espírito de fornicação; mas, por temor do futuro juízo de Cristo, julgaste que não devias manchar a pureza da alma e do corpo: és mártir de Cristo. Foste tentado pelo espírito de avareza para assaltar a propriedade do teu inferior ou para violar os direitos da viúva indefesa; todavia, meditando nos preceitos divinos, preferiste prestar ajuda a praticar injustiças: és testemunha de Cristo. (...) Foste tentado pelo espírito de soberba; mas, ao ver o pobre e o necessitado, compadeceste-te piedosamente e preferiste a humildade à arrogância: és testemunha de Cristo."
“Como são numerosos todos os dias os mártires ocultos de Cristo, os que confessam o Senhor Jesus! O Apóstolo conheceu este martírio e este fiel testemunho, ao dizer: É esta a nossa glória e o testemunho da nossa consciência." [2]

Com os santos, aprendemos que “quem começa a servir verdadeiramente o Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a própria vida", como ensinava Santa Teresa de Ávila. Peçamos a intercessão de São Dionísio, para que nos ajude a sermos testemunhas de Cristo onde for: senão no alto dos montes, nas arenas dos leões ou no madeiro das cruzes, em nossas casas, em nossas escolas e em nossos trabalhos.

São Dionísio, mártir, rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Henri Daniel-Rops. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014.p. 360
  2. Santo Ambrósio, Sermo 20, 47-50: CSEL 62, 467-469

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A fidelidade de Álvaro del Portillo

Como Dom Álvaro del Portillo, seguindo as pegadas de São Josemaría Escrivá, chegou “à estatura do Cristo em sua plenitude”

A Álvaro del Portillo, o servo de Deus que será beatificado amanhã, 27 de setembro, em Madri, a Igreja aplica as palavras do Autor Sagrado: “ Vir fidelis multum laudabitur - O homem fiel será muito louvado" [1].

A beatificação deste apóstolo, que partiu para o Céu em 1994, é mais um daqueles processos rápidos, fruto da abundância e unanimidade de testemunhos em favor de sua santidade. Foi assim com São João Paulo II, foi assim com São Josemaría Escrivá… e foi assim com Monsenhor Álvaro, que, nas pegadas desses dois grandes homens, chegou “à estatura do Cristo em sua plenitude" [2].

Mas, afinal, qual o grande segredo de Álvaro para chegar ao heroísmo de uma vida santa? É impossível compreender o seu caminho sem se referir à espiritualidade do Opus Dei, uma fundação hierárquica da Igreja em que ele não só tomou parte, como colaborou ativamente, sendo eleito o sucessor de Josemaría Escrivá à frente da instituição. O carisma dessa “obra de Deus" consiste, resumidamente, em amar a Deus através dos deveres ordinários do dia a dia. “Meus filhos", insistia São Josemaría Escrivá, “aí onde estão nossos irmãos, os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores - aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo" [3]. Não é preciso retirar-se para o claustro ou ir ao deserto para encontrar a Deus - alguns, é verdade, são chamados a esse belo modelo de vida, mas não todos -, basta que se cumpra os deveres da própria vocação com o espírito de Cristo.

Com essa mensagem - cujo cerne não é nada mais que o anúncio do Evangelho -, o Opus Dei ganhou, literalmente, o mundo. Hoje, a instituição, que está em todos os continentes, conta com cerca de 90 mil membros, entre homens e mulheres, casados e celibatários.

Na árdua tarefa de abrir rotas de evangelização ao redor do mundo, Álvaro del Portillo foi um missionário verdadeiramente incansável. Começou por transformar em realidade o grande sonho de seu pai e amigo, que era achar uma configuração jurídica adequada para o Opus Dei dentro da Igreja: em 1982, a obra foi erigida em prelazia pessoal pelo Papa João Paulo II. Depois de fazer um grande trabalho em várias cidades da Itália, viajou para outros vinte países, dentre os quais Bolívia, Suécia, Congo, Nova Zelândia, Índia, Finlândia e Camarões.

Por onde passou, deixou a marca de sua profunda humildade. “Ao advertir a sua presença amável e discreta ao lado da dinâmica figura de Mons. Escrivá, vinha ao meu pensamento a modéstia de São José", nota o padre John O'Connor, agostiniano. Para Dom Álvaro, permanecer “à sombra" de São Josemaría significou, ao invés de uma posição subalterna, como muitos poderiam supor, uma ocasião para emular as suas virtudes e viver a obediência. O antigo porta-voz da Santa Sé, Joaquín Navarro-Valls, declara que ele “era um protagonista, mas tinha a imensa virtude de não aparecer como protagonista".

O atual prelado do Opus Dei, Javier Echevarría, dá atenção ao fato de que o seu antecessor “não desejou para si (...) êxitos pessoais ou ocasiões de poder brilhar". Em vida, ele “teve uma única ambição: ser um bom filho de Deus e um servidor fiel da Igreja, de acordo com o espírito recebido de São Josemaría e seguindo o seu exemplo". Ele também refere uma história interessante, que ilustra como Dom Álvaro se configurou ao carisma do fundador do Opus Dei:

“Em 1950, D. Álvaro sofreu um ataque de apendicite aguda com dores muito fortes e risco de vida, pelo que foi necessária uma operação cirúrgica urgente. Era o dia 26 de fevereiro. Tanto pela técnica então usada, como pela duração da cirurgia - que se complicou mais que o previsto -, os médicos decidiram aumentar a dose de anestesia; e, por este motivo, o despertar pós-operatório foi mais lento que o habitual. (...)"
“Quando já D. Álvaro estava no quarto, aproximou-se um dos médicos para controlar a evolução do pós-operatório. Ficou surpreendido quando viu que ninguém conseguia despertá-lo e começou a preocupar-se, porque se estavam a utilizar todos os meios possíveis, sem êxito. Estando nesta situação, o Fundador do Opus Dei chegou à Clínica e referiram-lhe o estado de D. Álvaro eventualmente crítico. S. Josemaría aproximou-se da cabeceira da cama e, com grande calma, sussurrou-lhe afetuosamente: 'Álvaro!' A resposta do doente foi imediata: 'Padre!' E assim começou o despertar que até àquele momento não parecia iminente. S. Josemaría concluiu com naturalidade, como se se tratasse de coisa habitual, com este comentário: 'Este filho até a dormir me obedece'." [4]

Se Josemaría apontou o “Caminho", Álvaro nada mais fez senão segui-lo e, hoje, a bem-aventurança dos dois sacerdotes confirma a grandeza das lições de Escrivá, que cumpriram o fim a que foram escritas: engendrar santos. “Qual é o segredo da perseverança? O Amor", respondia São Josemaría Escrivá. “Enamora-te, e não O deixarás" [5]. Monsenhor Álvaro - amanhã, beato - invertia a frase e acrescentava: “ Sê leal e acabarás louco de amor a Deus".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

A cerimônia de beatificação de Dom Álvaro del Portillo será transmitida, a partir das 7h da manhã (horário de Brasília), pela TV Canção Nova. Também será possível assistir à cerimônia pela Internet, através do link: www.youtube.com/opusdei

Referências

  1. Pr 28, 20
  2. Ef 4, 13
  3. Questões atuais do cristianismo, 113
  4. Dom Javier Echevarría, Discurso inaugural no Congresso realizado por ocasião do centenário do nascimento de D. Álvaro del Portillo, 12 de março de 2014
  5. Caminho, 999

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As febres extraordinárias de São Pio de Pietrelcina

À semelhança de Cristo, que declarou ter vindo lançar fogo sobre a terra, também os santos vieram incendiar a humanidade com a chama do divino amor.

Das muitas histórias contadas em torno da figura do Padre Pio de Pietrelcina, aquelas relacionadas às suas febres ocupam páginas particularmente impressionantes. No período em que era forçado a abandonar o convento para cuidar de sua saúde em casa, o frade italiano experimentava febres altíssimas, sem registros em toda a história médica, de modo que, não fossem os relatos e as observações de profissionais, se pensaria que os testemunhos a este respeito tinham sido inventados.

O corpo de Pio chegava a temperaturas tão elevadas que os termômetros normais chegavam a arrebentar. Em carta enviada a uma de suas filhas espirituais, a 9 de Fevereiro de 1917, ele contava: “Sinto que melhorei. A febre tão alta, que não havia termômetro capaz de medi-la, deixou-me há já alguns dias". Em outra de suas cartas, ele acrescentava: “O calor da febre era tão excessivo, que fazia rebentar o termômetro".

O Padre Paolino de Casacalenda, guardião do convento de San Giovanni Rotondo, conta que, na primeira vez em que se encontrou com o Padre Pio, este estava de cama. Vendo-o “com o rosto afogueado e a respiração um pouco difícil", decidiu tirar-lhe a febre: “Qual não foi o meu espanto quando, ao retirar o termômetro, me apercebi que o mercúrio, chegado aos 42 graus e meio, ou seja, ao ponto extremo dos termômetros vulgares, tinha feito pressão e, não podendo sair, tinha quebrado o reservatório onde estava encerrado". Curioso para saber até onde ia a febre de Pio, Paolino pegou um termômetro de banho e ficou ainda mais assombrado quando viu “na coluna que o mercúrio tinha atingido os 52 graus". Naquele momento, o frade ficou convencido de que se encontrava “frente a um indivíduo fora do vulgar".

O Padre Raffaele de Sant'Elia de Pianisi, que viveu muitos anos com o Padre Pio, conta que, em 1934, quando Dom Bosco foi canonizado, o seu termômetro subiu a 53 graus de febre. “Vi-o com os meus próprios olhos. O Padre, na sua cama, parecia autêntico fogo, devido ao calor. Para lhe tirar a febre, tínhamos utilizado um termômetro de banho". Algumas pessoas que assistiram à canonização de São João Bosco contam ter visto o Padre Pio em Roma, durante a cerimônia. “Eu sei muito bem que naquele dia o Padre Pio estava de cama, e não posso dizer até que ponto tais afirmações eram verdadeiras", diz o Padre Raffaele. “De resto, tudo era possível ao Padre Pio, de quem se contavam tantos casos de bilocação".

O doutor Giorgio Festa, que cuidou por muito tempo da saúde do frade de Pietrelcina, examinou regularmente a sua temperatura, duas vezes por dia, no decorrer de várias semanas. Para tanto, levou consigo “um termômetro especial, que serve para as experiências científicas e que é de uma precisão absoluta". Os registros variavam de 36,2 graus a impressionantes 48,5 graus. “Quando era atingido por temperaturas tão elevadas," escreveu o médico, “o Padre Pio parecia sofrer muito, sendo tomado por grande agitação na cama, mas sem delirar e sem as perturbações comuns que habitualmente acompanham alterações febris significativas. Ao fim de um ou dois dias, tudo regressava ao seu estado normal."

Interessado pelo caso do Padre Pio, o doutor Festa correu atrás de investigações específicas e descobriu que, das temperaturas mais altas até então registradas pelos médicos, nenhuma passava dos 44 graus, tendo tais ocorrências recebido o nome de “agônicas" ou “pré-agônicas", pois eram fatalmente seguidas de morte.

Tantos episódios, respaldados não só pelos relatos de quem convivia com São Pio de Pietrelcina, como pela própria ciência médica, são verdadeiramente milagres. Aliás, é impossível compreender a vida deste santo sacerdote sem recorrer ao auxílio sobrenatural. Toda a sua existência nesta terra foi inteiramente devotada a uma contínua e cada vez mais profunda manifestação de Deus, pela qual o santo assumiu para si as palavras do Apóstolo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20).

De fato, a vida dos santos está repleta de histórias como essas, cheias de fatos extraordinários e comoventes, capazes de mexer com o coração até do cético mais obstinado. A caridade cristã realmente supera todas as medidas humanas e, à semelhança de Cristo, que declarou ter vindo lançar fogo sobre a terra (cf. Lc 12, 49), também os santos vieram incendiar a humanidade com a chama do divino amor.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Renzo Allegri. Padre Pio – um santo entre nós. Paulinas, Lisboa, 1999. p. 94-97