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O testamento de um Rei santo para seu filho

Confira a carta que São Luís IX da França deixou a seu filho e descubra a maior glória que um Rei pode possuir neste mundo: ser servo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

São Luís IX, Rei da França, que entre 1214 e 1270 governou generosamente um povo com extrema piedade e coração inflamado de amor a Deus, não poderia deixar que cada um de seus súditos ficassem sem sentir e entender quem era o verdadeiro Rei do Universo.

Sua dedicação no zelo para com os pobres e sua humildade pública comoviam os corações mais endurecidos.

Fazia questão de que todos tivessem acesso aos sacramentos e vivessem uma vida íntima de adoração ao Senhor. Para isso pagou uma quantia de 135 mil libras para que a Santa Coroa de espinhos de Nosso Senhor e um pedaço do Preciosíssimo Lenho fossem trazidos de Jerusalém.

Para abrigá-los dignamente, contruiu a grandiosa Catedral gótica de Sainte Chapelle.

Ao final de sua vida, padecendo mortalmente de tifo, que contraíra na última cruzada em Túnis na África, deixou um legado a seu filho, o futuro Rei Felipe III da França, de cujas palavras talvez somente o grande Patriarca São José seria capaz:

"Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todas as tuas forças; pois sem isto não há salvação.

Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal.

Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito e que talvez a tenhas merecido. Além disto, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo valendo-te dos seus dons.

Ouve com boa disposição e piedade o ofício da Igreja e enquanto estiveres no templo, cuides de não vagueares os olhos ao redor, de não falar sem necessidade; mas roga ao Senhor devotamente, quer pelos lábios, quer pela meditação do coração.

Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda; põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas.

Sê dedicado e obediente à nossa mãe, a Igreja Romana, e ao Sumo Pontífice como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e a heresia.

Ó filho muito amado, dou-te enfim toda a benção que um pai pode dar ao filho; e toda a Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém."

São Luís IX faleceu em 25 de agosto de 1270, após os últimos ímpetos em favor da Oitava Cruzada. Seu corpo foi colocado sobre um leito de cinzas, em sinal de humildade, e os braços em cruz, à imagem de Jesus Cristo.

Fonte: Bibliothèque de l'École des Chartes | Tradução: Equipe CNP

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A conversão de São Bernardo de Claraval

Para fugir do pecado da impureza, São Bernardo de Claraval se lançou sem hesitar em um lago gelado. A atitude do santo deixa evidente a natureza da batalha que trava todo aquele que se faz eunuco “por causa do Reino dos céus”.

Tendo recebido desde cedo uma sólida formação religiosa, Bernardo foi aluno notável em sua mocidade. Quando recebia alguma lição que contrariasse os mistérios da fé e a doutrina cristã, "recorria à oração e à meditação das Sagradas Escrituras para neutralizar o veneno inalado nas aulas" [1]. (Nenhum conselho pode ser tão útil para os nossos dias.) Mais tarde, o mesmo Bernardo será visto debatendo e debelando os erros dos professores de sua antiga escola.

Depois da morte de sua piedosa mãe, no entanto, o jovem rapaz foi atingido por uma tristeza acabrunhante. O luto se tinha apoderado totalmente de sua alma e ele não achava consolação em nada do que fazia, nem mesmo na oração, à qual já estava tão habituado, apesar da breve idade. Era final de agosto de 1110 e Bernardo contava cerca de 20 anos.

Instado por sua irmã Umbelina a distrair-se e passar tempo com os jovens que frequentavam o castelo, Bernardo começou a acercar-se de más companhias e brincar à beira do precipício dos maus costumes (cf. 1 Cor 15, 33). Como mais tarde escreveu ele ao Papa Eugênio III:

"No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis. Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão." [2]

Para acordar Bernardo e impedir que a sua alma se perdesse, Deus permitiu que lhe sobreviessem fortes tentações, das quais a última, relativa ao pecado da impureza, fê-lo mudar totalmente de vida:

"Esquecido de sua vigilância habitual, permitiu que os seus olhos pousassem por um momento em um objetivo perigoso. Pela primeira vez, experimentou a rebelião da carne. Alarmado, então, perante o espectro do mal e pleno de remorsos pela sua falta, implorou imediatamente o auxílio do céu e, afastando-se do local, foi mergulhar em um pequeno lago e ali se manteve, meio morto de frio, até que a perturbação interna desapareceu totalmente. Das palavras de seus primeiros biógrafos conclui-se que decidiu naquele momento permanecer perpetuamente casto." [3]

Esse episódio da vida de São Bernardo deve servir de inspiração a todos os cristãos na luta pela castidade, principalmente no mundo de hoje, tão avesso a essa virtude.

O fato de que o santo se tenha lançado em um lago gelado para não pecar contra a castidade mostra a natureza da batalha que aqui se trava. Como diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 19, 12), "existem eunucos que nasceram assim do ventre materno" e "outros foram feitos eunucos por mão humana", isto é, alguns foram privados do sexo por natureza e outros por necessidade. Há, porém – e só assim se pode falar propriamente de "virtude" –, aqueles que se tornaram "eunucos por causa do Reino dos céus". Embora aqui Cristo esteja se referindo especificamente ao celibato, a sua consideração é válida para todos os cristãos, chamados que são a viver a santa pureza: porque o "ser eunuco" só é louvável e recompensado por Deus na medida em que é escolhido livremente pelo homem [4].

Os santos não eram "eunucos físicos", sem sensibilidade e sem paixões humanas, mas "homens de carne e osso", como quaisquer outros. A sua diferença é que, auxiliados pela graça divina, eles se fizeram "eunucos espirituais". Mas, isso (atenção!) por causa do Reino dos céus – e só por causa desse Reino (presente em suas almas pela graça santificante), eles estavam dispostos a tudo: a revolver-se na neve, como fez São Francisco de Assis; a jogar-se em um arbusto de espinhos, como fez São Bento; a mergulhar em um lago gelado, como São Bernardo [5]; ou mesmo a morrer, como fizeram tantos mártires ao longo da história da Igreja.

Pela vida dos santos, é possível concluir que a castidade não é um mero jogo de cálculos humanos: fosse assim, todas essas mortificações – recomendadas pelo próprio Evangelho (cf. Mt 5, 29-30) – não teriam sentido algum. Por que privar-se de algo prazeroso e, ao mesmo tempo, fazer arder o corpo no frio ou mesmo perder a própria vida? Por que tanto "radicalismo" com essa história de "castidade"? Porque, ontem, assim como hoje, os seguidores de Cristo não se fizeram eunucos "por mãos humanas": eles viveram (e vivem) a pureza por causa do Céu – e só a vida eterna pode explicar a sua abnegação e os seus sacrifícios, em que pese todo o desprezo do mundo.

Depois do episódio acima referido, como se sabe, Bernardo consagrou-se por inteiro a Deus e entrou na vida religiosa como monge cisterciense. Em 20 de agosto de 1153, partiu deste mundo, deixando na terra a sua notável fama de santidade, além de obras de incalculável valor espiritual.

No dia em que a Igreja celebra a memória deste grande doutor da Igreja, peçamos a sua intercessão. Que ele nos ajude a viver inteiramente para Deus, independentemente do estado de vida em que o Senhor nos colocou: na vida leiga ou consagrada, na vida sacerdotal ou matrimonial, todos são convocados à castidade, à entrega total do próprio ser e à santidade – porque, afinal, todos são chamados para amar.

São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendações

Referências

  1. A conversão de São Bernardo, II, 9.
  2. Da Consideração (trad. Ricardo da Costa), I, 2 (PL 182, 730).
  3. A conversão de São Bernardo, III, 6.
  4. Cf. Santo Hilário apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, XIX, 3.
  5. Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 143.

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Ser devoto de Santo Tomás More hoje

De Conselheiro do Rei a "traidor" da Coroa. Conheça a vida de Santo Tomás More, “o homem que não vendeu a sua alma”.

O que a história de um leigo que viveu há 480 anos tem a ensinar ao homem moderno? É a pergunta que devem fazer todos os católicos, ao celebrarem a memória de Santo Tomás More (22/06) – ao qual foi reservado o epíteto de "o homem que não vendeu a sua alma".

Antes de qualquer coisa, cabe fazer uma breve narrativa de sua vida, contando como a sua cabeça foi parar na bandeja por ordem do então príncipe da Inglaterra, o Rei Henrique VIII.

Homem erudito, esposo fiel e pai de quatro filhos, More foi nomeado Conselheiro do Rei (Lord Chancellor, em inglês) no ano de 1529, em meio a uma crise moral na Coroa. Henrique VIII era casado com Catarina de Aragão, mas tentava junto ao Papa conseguir a dissolução de seu casamento. A desculpa para a sanha adúltera do príncipe era o argumento de que Catarina não lhe dava um herdeiro homem. Como o Papa não lhe concedia o rompimento de seu matrimônio – fiel à palavra de Cristo, segundo a qual não se pode separar o que Deus uniu (cf. Mt 19, 6) –, ele mesmo fez questão de casar-se com Ana Bolena, então dama de companhia de sua legítima consorte. Sem autoridade espiritual que confirmasse as suas novas núpcias, Henrique VIII – o qual anos antes defendera a Igreja Católica das heresias do protestantismo – se autoproclamou líder da Igreja da Inglaterra.

Quando tudo isso aconteceu, Tomás More, tendo previsto o desastre que se anunciava, já havia renunciado às suas funções públicas junto à Coroa, em 1532. Não querendo entrar em imbróglios, ele saiu da política, silenciosamente. Sendo um homem justo, decidiu abandonar o Rei em segredo. O seu silêncio, porém, a sua recusa em aprovar o adultério de Henrique, falavam alto demais. Mesmo não pertencendo mais ao governo inglês, More foi perseguido pelo Rei e, negando-se a obedecer às suas arbitrariedades, foi condenado por alta traição à Coroa. No dia 6 de julho de 1535, aprisionado na Torre de Londres, More acabou decapitado, simplesmente por não se prostrar às determinações tirânicas do Rei. (Um ano mais tarde, incapaz de dar um herdeiro aos Tudors, também Ana Bolena seria executada por Henrique, que ainda se casaria com outras 4 mulheres antes de morrer.)

A história de Tomás lembra, mutatis mutandis, o martírio de São João Batista. A criminosa em questão era Herodíades, que, não suportando ouvir de João a reprovação de sua vida de adultério, pediu ao Rei Herodes a sua cabeça em uma bandeja (cf. Mt 14, 1-12). Por defender a verdade até o fim, entregando com isso a sua própria vida, João Batista não é venerado apenas como profeta, mas principalmente como mártir.

Importa reconhecer, porém, que as vidas desses dois grandes santos, separadas por aproximados 15 séculos, está unida por um martírio diferente dos martírios comuns. Quem ouve as glórias dos primeiros cristãos, mortos nas arenas do Coliseu por não prestarem culto a César, pode ser tentado a ter em pouca conta a decapitação de João e Tomás porque, afinal, nem Herodes nem Henrique pediram a eles que os adorassem, no sentido próprio do termo. Contudo, "o cristão sofre – lembra Santo Tomás – não apenas sofrendo por uma confissão de fé em palavras, mas também cada vez que sofre para realizar um bem qualquer, ou para evitar um pecado qualquer por causa de Cristo". Por isso, "as obras de todas as virtudes, enquanto se referem a Deus (...) podem ser causa de martírio" [1].

Eis, portanto, a primeira grande lição que se pode extrair da vida de Santo Tomás More e de São João Fisher, seu companheiro mártir. Por amor à verdade do Evangelho, eles não temeram sacrificar as suas próprias existências neste mundo. Em um século dominado pelo relativismo e por uma aguda decadência moral, que ameaça a própria família, os exemplos desses homens desafiam o nosso tempo a preservar com coragem e destemor todas as verdades da nossa fé, sem adaptações, nem conveniências. A mensagem da família não é palavra humana ou "opinião", para que possa ser modificada ou "reinventada" ao bel prazer. É, ao contrário, palavra divina – palavra veraz, fora da qual não pode haver verdadeira caridade, como indica o Papa Bento XVI: "Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida" [2].

A segunda importante lição da vida de More é ensinar aos cristãos quais são os limites do poder das autoridades civis. "Precisamente por causa do testemunho que Santo Tomás More deu, até ao derramamento do sangue, do primado da verdade sobre o poder, é que ele é venerado como exemplo imperecível de coerência moral" [3]. A respeito disso, as Escrituras já oferecem conselhos preciosos: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mt 22, 21), diz Jesus; e, exortam os Apóstolos, "importa obedecer antes a Deus do que aos homens" (At 5, 29). Diante de ditaduras que tentam sufocar a própria verdade; face a César, Herodes, Henrique ou Stálin, é preciso reafirmar, sempre e categoricamente, o primado de Deus – primado este que, no fim das contas, redunda em benefício do próprio homem.

Afinal, quando todo o poder é colocado nas mãos do Estado, quando este se torna "a medida de todas as coisas", não demora muito para que se cortem as cabeças e os seres humanos sejam executados no paredón ou jogados em campos de concentração. Foi assim na Inglaterra de Henrique VIII, foi assim na Cuba de Fidel Castro e na Alemanha de Hitler. Será sempre assim, quando César pretender tomar para si o poder que cabe somente a Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 5.
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate (29 de junho de 2009), n. 3.
  3. Papa João Paulo II, Carta Apostólica E Sancti Thomae Mori (31 de outubro de 2000), n. 1.

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Milagre de São Januário acontece nas mãos do Papa Francisco

O sangue do mártir, normalmente sólido, se dissolveu parcialmente à vista dos fiéis, depois que o Papa beijou o seu relicário

O sangue de São Januário se dissolveu em presença do Papa Francisco, no último dia 21 de março, durante visita de Sua Santidade à diocese de Nápoles, na Itália. Os restos sanguíneos do mártir padroeiro de Nápoles, geralmente sólidos, tornaram-se parcialmente líquidos depois que o Papa beijou o seu relicário.

O Cardeal e Arcebispo da cidade, Crescenzio Sepe, exibiu a ampola com o sangue do santo aos fiéis que lotaram a catedral napolitana, dizendo: "Sinal de que São Januário ama o Papa, que é napolitano como nós: o sangue já se dissolveu pela metade".

O Papa, então, comentou, com humor: "O Arcebispo disse que metade do sangue se dissolveu: vê-se que o santo nos ama pela metade. Devemos converter-nos mais para que nos ame mais."

São Januário, nascido em Nápoles, foi um bispo de Benevento, na Itália, martirizado durante a perseguição do imperador Diocleciano. Instado diante do tribunal romano a oferecer incenso aos deuses, Januário se negou, com as seguintes palavras: " Não posso imolar aos demônios, pois tenho a honra de sacrificar todos os dias ao verdadeiro Deus". Mandado à fogueira, as chamas nada fizeram ao servo de Deus. Mandado à arena, para ser devorado pelos leões, estes, ao contrário, se prostraram diante do bispo e começaram a lamber-lhe os pés. Por fim, no dia 19 de setembro de 305, Januário foi decapitado.

De acordo com alguns relatos, durante um dos vários traslados de seu corpo entre Benevento e a sua cidade natal, o seu sangue foi recolhido por uma piedosa mulher e colocado em duas ampolas. Venerado desde o século V, o milagre da liquefação de seu sangue é documentado desde os anos 1400, acontecendo, desde então, periodicamente. Três datas são especiais para o fenômeno: 19 de setembro, festa de São Januário, 16 de dezembro, dia em que Nápoles foi preservada de um desastre por intermédio do santo, e o sábado anterior ao primeiro domingo de maio, que é o aniversário da primeira transladação de seu corpo.

Desta vez, porém, de modo extraordinário, o milagre ocorreu nas mãos do sucessor de São Pedro. A última vez a acontecer isto com um Sumo Pontífice foi em 1848, com o Beato Pio IX, o Papa da Imaculada Conceição e do Concílio Vaticano I.

Antes de abençoar o povo com o relicário de São Januário, o Papa Francisco fez um discurso ressaltando a centralidade de Jesus na vida da Igreja e recomendando fortemente a devoção a Nossa Senhora: "Como posso estar certo de ir sempre com Jesus? É a sua Mãe que o acompanha. Um sacerdote, um religioso, uma religiosa que não ama Nossa Senhora, que não reza a Nossa Senhora, diria também que não recita o Terço... se não quiser a Mãe, a Mãe não lhe concederá o Filho."

É certo que, como todas as graças chegam aos homens pelas mãos de Maria Santíssima, também este impressionante milagre foi obra de sua mediação maternal. Que ela, pois, conserve o Santo Padre, lhe dê vida longa, o faça santo na Terra e não o entregue à vontade de seus inimigos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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A oração de Tomás

A vida de Santo Tomás de Aquino é a prova: não se pode ser sábio sem estar na presença de Deus.

O que explica o gênio extraordinário de Santo Tomás de Aquino? Livros? Disciplina? Dedicação aos estudos? Muitas respostas podem ser dadas a esta pergunta, mas nenhuma será completa, se ignorar a principal ferramenta de trabalho do Doutor Angélico: a oração. Todas as obras de Tomás – desde os seus comentários às Escrituras, até a grande Summa contra Gentiles e a incompleta Summa Theologiae – só são o que são, porque nasceram de uma profunda amizade de seu autor com a própria Verdade, que é Deus.

À sua época, de fato, ainda não tinha acontecido a cisão – tão danosa à modernidade – entre a fé e as ciências, entre a vida interior e a vida intelectual. Quando surgiram as universidades, o conceito que se tinha de um erudito era que fosse também uma pessoa de intensa oração e busca de santidade pessoal. Não sem razão, os bons pensadores e filósofos do passado eram profundamente religiosos – como foi Santo Alberto Magno, São Boaventura ou Santo Tomás de Aquino. Para o homem medieval, esta unidade era bastante lógica: quem procurava a verdade por meio dos estudos, devia também viver de acordo com ela, com retidão e integridade.

Hoje, no entanto, os assim chamados "cientistas" ousam fazer suas pesquisas e trabalhos acadêmicos prescindindo de Deus. Em alguns ambientes, o ateísmo chega a ser obrigatório para integrar um currículo ou alavancar uma carreira de prestígio. As universidades, que, fundadas pela Igreja e envolvidas por um resplendor sobrenatural, engendravam verdadeiros santos, infelizmente se tornaram fábricas de deformação moral em série, às quais as pessoas vão, não mais para aprender a verdade, senão para montar os seus próprios sistemas e ideias – perfeitamente lógicos... e completamente falsos.

Neste sentido, a vida de Tomás de Aquino lança um grande ponto de interrogação sobre todo o pensamento contemporâneo, em cuja base está tão somente o homem – artífice do universo e de si mesmo. É realmente intrigante que queiramos investigar e compreender as criaturas sem nos dirigirmos – ou sequer lançarmos o olhar – Àquele que as projetou e criou.

Era isto o que fazia assiduamente o Aquinate, como atesta o seu biógrafo e discípulo, Guillelmus de Tocco:

"Durante o tempo da noite dedicado pelos homens ao repouso, Tomás, após um breve sono, permanecia em seu quarto ou na igreja imerso em oração, para que orando merecesse aprender aquilo que deveria após a oração escrever ou ditar. (...) Todas as vezes em que queria estudar, disputar, ler, escrever, ditar, antes se entregava ao segredo da oração, para que encontrasse as coisas de Deus no segredo da verdade; pelo mérito de sua oração, assim como se aproximava com as questões de que tinha dúvida, do mesmo modo saía dela ensinado" [1].

Mesmo com tantos momentos de oração pessoal, a devoção de Tomás alcançava seu cume na celebração diária da Santa Missa, quando o monge comungava da própria Sabedoria que o iluminava. Importa apresentar, como corolário desta verdade, o que se passou durante os seus últimos meses de vida:

"No convento de Nápoles frei Domingos de Caserta repara que Tomás desce de seu quarto antes das matinas e vai até à igreja. Apenas o sino toca e supõe os companheiros prestes a despertar, volta para cima, como se não quisesse ser descoberto.

Frei Domingos resolve um dia saber o que se passa. Levanta-se mais cedo e, ao ver o Doutor Angélico sair da cela, segue-o, oculto, à capela de São Nicolau. Aí surpreende o mestre dominicano imerso em profunda oração. E, com grande espanto, observa que seu corpo se levanta no ar, dois palmos acima do nível do solo. Dentro de alguns momentos, na penumbra silenciosa da capela, soa uma voz misteriosa, que vem do crucifixo erguido no altar: 'Tomás, escreveste bem sobre mim. Que receberás de mim como recompensa pelo teu trabalho?'

De joelhos, transportado de fé, Tomás exprime na resposta a plenitude de seu ardor místico: ' Senhor, nada senão Vós!'" [2]

Pouco depois disto, no dia 6 de dezembro de 1273, após rezar o Santo Sacrifício da Missa, acontece em Tomás "uma grande mudança, que impressiona a todos os assistentes". Depois daquele dia, de fato, o santo não mais colocará as mãos em sua Suma Teológica, a qual ele passa a considerar como unicamente palha, em comparação com aquilo que viu e lhe foi revelado [3].

O que viu Tomás? O que lhe foi revelado? Tais perguntas só podem ser respondidas com propriedade pelos santos, que associam o fenômeno místico experimentado pelo Doutor Angélico à promessa de Nosso Senhor: "Aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a mim mesmo a ele" (Jo 24, 20). Assim, Cristo dava ao Aquinate aquilo por que tanto aspirava, desde a sua juventude: Ele próprio.

" Quaerere Deum – procurar Deus": o que viviam os primeiros monges cristãos, foi o que viveu Santo Tomás de Aquino. Que, do Céu, ele nos alcance a graça de buscar perseverante e incessantemente o Senhor, sem o qual qualquer Summa é "palha" e qualquer vida não tem, absolutamente, nenhum sentido.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Vita Sancti Thomae Aquinatis, XXIX. XXX in A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 5, Santo Tomás e a Vida Contemplativa
  2. A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 6, A morte de Tomás de Aquino
  3. Ameal, João: São Tomás de Aquino; Porto, Livraria Tavares Martins, 1956; pgs. 143-5 in A Educação segundo a Filosofia Perene,I, 6, A morte de Tomás de Aquino

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O primeiro presépio

"Eis para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada numa manjedoura."

Como os pastores, apressemos nossos passos para adorar Aquele que está no presépio, envolto em faixas. Adoremos Aquele que se fez pobre e agora dorme, inerme, sobre as palhas da manjedoura.

O cartunista João Spacca traduz neste HQ a alegria e a devoção de São Francisco de Assis ao contemplar o nascimento de Cristo: "Vinde, adoremos o Menino de Belém!"

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Quarenta Homens de Fé

O martírio do Beato Inácio de Azevedo e seus companheiros mártires recorda que o Brasil nasceu sob a sombra da cruz de Cristo.

O Brasil nasceu sob a sombra da cruz de Cristo. Não sem razão os portugueses, tão logo fincaram bandeira em nosso território, trataram-no com o belo nome de “Terra de Santa Cruz". Com os colonizadores, de fato, veio para o Novo Mundo um incontável número de sacerdotes e religiosos católicos que, sem prata, nem ouro, deixava a Europa tão somente para semear a semente do Evangelho no coração dos povos indígenas (cf. At 3, 6). Hoje, pode-se dizer que praticamente todos os lugares de nosso país rendem homenagem a esses “homens de fé". Igrejas, cidades, ruas e monumentos são apenas alguns exemplos de como os nomes dos santos de Deus não estão escritos somente nos céus (cf. Lc 10, 20), mas também nas obras e construções humanas.

Uma bela composição musical, de autoria da cantora e compositora Kay Lyra, evoca justamente a história do corajoso Beato Inácio de Azevedo e de seus trinta e nove companheiros, que, não contentes em pregar o Evangelho com os lábios, testemunharam-no com o martírio, enquanto tentavam entrar no Brasil. Em poesia, a canção “Quarenta Homens de Fé" conta como os quarenta jesuítas, após aportarem “na Ilha da Madeira" e entrarem na nau chamada de “Santiago", foram atacados e mortos por piratas protestantes, quando passavam perto das Ilhas Canárias:

“Quarenta Homens de Fé" (Kay Lyra)
Aportaram na Ilha da Madeira
Quarenta homens de fé
Prosseguiram na nau de Santiago
Quarenta homens de fé

Missionários guiados pelo vento
Com o intento do espírito da luz
Que conduz com firmeza e com clareza
Do cruzeiro de pedra Monte da Cruz

E a nau prosseguia bem tranqüila
Sobre a água o sol refletia paz
Mas a prece de Santa Tereza D'Ávila
Foi visão do martírio de um rapaz

Dom Inácio de Azevedo vinha
Com um sorriso e na mão sua santinha
E desejava seguir o seu irmão
João sobrinho do capitão

Uma prece eu peço, pra esses homens de fé
Que não sejam esquecidos, esses homens de fé
De repente uma nuvem pressentia
O clamor da maldade de um irmão

Onde o amor é de pouca serventia
Onde a noite chegou no coração
Surpreendidos com enorme alarido
Ameaçados com armas no convés

Dom Inácio caído e atingido
Sem saber a razão desse revés
Praguejando e ferindo com a espada
Era a ira de Jacques Sourie

Mais potente é a arma que o homem guarda
Com a fé sua morte não temer
Foram todos os homens então lançados
Uns já mortos, uns vivos, condenados

E agarrado à Santinha foi Dom Inácio
Para o fundo do mar…pra você ver
Uma prece eu peço, pra esses homens de Fé
Que não sejam esquecidos, esses homens de Fé

Prosseguiram então sua viagem
Para além desse céu e desse mar
Com as armas que vestem fé e coragem
Prosseguiram pro eterno bem morar

Ave Maria Gratia Plena…

Escute a canção abaixo:

Para conhecer mais a história desses homens, recomenda-se a leitura da obra "Novas Páginas da História do Brasil" (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965), do Padre Serafim Leite, que conta, em detalhes, como morreram pela fé esses valentes missionários portugueses. Embora não tenham conseguido concluir a sua viagem ao Brasil, Inácio e seus companheiros mártires evangelizaram, do Céu, essa Terra de Santa Cruz: “Prosseguiram então sua viagem / Para além desse céu e desse mar / Com as armas que vestem fé e coragem / Prosseguiram pro eterno bem morar".

Para esta civilização cada vez mais esquecida de sua identidade cristã, que seja atendido, como prece, o estribilho dessa bela música de Kay Lyra: “Que não sejam esquecidos, esses homens de fé".

Beato Inácio de Azevedo e companheiros mártires, rogai por nós!

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O homem que perdeu a cabeça por amor a Jesus

São Dionísio de Paris, depois de ter sua cabeça decepada, caminhou ainda seis quilômetros com ela nas mãos, pregando o Evangelho

Dos muitos mártires que a fé em Cristo já gerou ao longo dos séculos, em todos os cantos da terra, a Igreja celebra, hoje, a memória de São Dinis de Paris, bispo e padroeiro da França.

São Dinis – que também se pode chamar de “Dionísio" – foi morto em meados do século III, durante o curto reinado do imperador romano Décio. Os dois anos em que ficou à frente do Império foram suficientes para que sua crueldade fosse comparada à do terrível Nero. Em pouco tempo, ele fez incontáveis vítimas no meio do clero e entre os próprios fiéis, elevando à honra dos altares nomes como Santa Ágata, São Saturnino e o próprio Papa Fabiano.

Como morreu São Dinis? Durante o seu pontificado, São Fabiano enviou à então província da Gália sete missionários cristãos, dentre eles Saturnino, mandado a Toulouse, e o próprio Dinis, que se fixou na Lutécia, onde atualmente fica a cidade de Paris. A eloquência de Dionísio logo colocou em polvorosa os sacerdotes pagãos do local, que ficaram alarmados pelas várias conversões que ele, por obra de Deus, conseguia. Um edito do imperador Décio, exigindo que todos prestassem o culto a César, tornou fácil a captura de Dinis, que se destacava por sua coragem e fidelidade. Um dia, levaram-no ao alto de um monte e cortaram a sua cabeça e as de seus fiéis companheiros, Rústico e Eleutério.

O mais incrível é que, segundo a tradição, o bispo Dionísio ainda saiu do Montmartre – “monte do mártir", como ficou conhecido o lugar – e caminhou seis quilômetros, carregando a sua cabeça e pregando um sermão sobre o arrependimento, até chegar ao lugar onde foi enterrado. A iconografia cristã geralmente o retrata segurando a sua cabeça, ainda com a mitra. Hoje, o “apóstolo da Gália" é invocado pelo povo cristão contra dores de cabeça e possessões demoníacas, além de ser homenageado como um dos primeiros pais da França.

O seu impressionante testemunho ilustra como nem depois de mortos os santos se calam. Se, nesta terra, com a sua pregação e vida, Dionísio glorificou sumamente a Deus, chegando ao heroísmo do martírio, após a sua morte, ele mesmo encorajou muitos outros homens a darem a vida por Cristo, cumprindo a profecia de Tertuliano, para quem o sangue dos mártires era semente de novos cristãos.

É importante lembrar que as ofertas dos perseguidores para que os cristãos “livrassem a sua pele" eram coisas aparentemente simples. Daniel-Rops conta que os suspeitos de seguirem a Cristo eram “conduzidos ao templo e convidados a sacrificar aos deuses ou, pelo menos, a queimar incenso na frente do altar". Depois, caso persistisse “a acusação de cristianismo, o acusado era convidado a pronunciar uma fórmula blasfema, na qual renegava Cristo". Por fim, celebrava-se uma refeição, “uma espécie de comunhão pagã, em que os suspeitos deviam comer carne das vítimas imoladas e beber vinho consagrado aos ídolos" [1]. Se fizessem qualquer uma dessas coisas, os cristãos se safavam e não eram mortos.

Diante de uma perseguição como a impetrada por Décio, pode-se imaginar como era grande a tentação de jogar um pouquinho de incenso diante dos ídolos... Afinal, um punhado de incenso, que mal poderia haver? Mas, os santos não se improvisam. “Quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará" (Mt 16, 25). Os carrascos que olhavam para os mártires certamente pensavam em seus corações que se tratavam de loucos, assim como a modernidade comumente pinta as imagens dos primeiros mártires como “suicidas", como se fossem homens desgostosos da vida, à procura da morte. À luz do Evangelho, no entanto, a entrega dessas pessoas não era simplesmente a renúncia da vida, mas a adesão à verdadeira Vida, por amor. O “não" de Dionísio, Rústico e Eleutério à idolatria, à blasfêmia e às carnes sacrificadas pelos ídolos foi, ao mesmo tempo, um belo e glorioso “sim" a Deus, ao Seu nome e à Sua vontade.

Hoje, talvez não nos seja pedida a entrega física dos primeiros mártires, que tiveram suas cabeças, braços e pernas decepados por causa de Cristo. Mas, sem dúvida, é-nos pedida a fidelidade de cada dia, pela qual todo cristão é sempre um mártir:

“Sendo muitas as perseguições, também são numerosos os martírios. Todos os dias és testemunha de Cristo. Foste tentado pelo espírito de fornicação; mas, por temor do futuro juízo de Cristo, julgaste que não devias manchar a pureza da alma e do corpo: és mártir de Cristo. Foste tentado pelo espírito de avareza para assaltar a propriedade do teu inferior ou para violar os direitos da viúva indefesa; todavia, meditando nos preceitos divinos, preferiste prestar ajuda a praticar injustiças: és testemunha de Cristo. (...) Foste tentado pelo espírito de soberba; mas, ao ver o pobre e o necessitado, compadeceste-te piedosamente e preferiste a humildade à arrogância: és testemunha de Cristo."
“Como são numerosos todos os dias os mártires ocultos de Cristo, os que confessam o Senhor Jesus! O Apóstolo conheceu este martírio e este fiel testemunho, ao dizer: É esta a nossa glória e o testemunho da nossa consciência." [2]

Com os santos, aprendemos que “quem começa a servir verdadeiramente o Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a própria vida", como ensinava Santa Teresa de Ávila. Peçamos a intercessão de São Dionísio, para que nos ajude a sermos testemunhas de Cristo onde for: senão no alto dos montes, nas arenas dos leões ou no madeiro das cruzes, em nossas casas, em nossas escolas e em nossos trabalhos.

São Dionísio, mártir, rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Henri Daniel-Rops. A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 2014.p. 360
  2. Santo Ambrósio, Sermo 20, 47-50: CSEL 62, 467-469