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Conheça a história dos monges que cantam e rezam na terra de São Bento

​Depois de 200 anos, a identidade de Núrsia finalmente está completa, graças à presença dos monges que cantam e alegram a cidade com as suas cervejas e os seus conselhos. "É como se, com os monges aqui, tudo fosse dar certo."

No coração da Itália, em meio às montanhas da região da Úmbria, está a pacata cidade de Núrsia ( Norcia, no italiano), com suas estreitas ruas de pedra e paisagens extraordinárias. Famoso por suas linguiças suínas e trufas negras, o povoado de quase 5 mil habitantes é também a terra natal de São Bento, pai da vida monástica.

Por séculos, a comuna de Núrsia contou com a presença de monges beneditinos, que traziam segurança e conforto espiritual aos seus moradores. Mas, em 1810, com a promulgação do Código de Napoleão, os religiosos foram obrigados a deixar o local, sem que lhes fosse dado um prazo para retornar.

Espiritualmente órfãos, os nursini fizeram uma petição e recolheram entre si mais de 4 mil assinaturas, pedindo ao superior de São Bento que enviasse beneditinos de volta à terra do seu fundador. Finalmente, em 2000, o anseio dos moradores locais foi satisfeito e a vida monástica voltou a florescer em Núrsia: com mais dois religiosos, o padre norte-americano Cassian Folsom fundou na comuna o Mosteiro Beneditino Maria Sedes Sapientiae ("Maria, Sede da Sabedoria"), começando o apostolado de trabalho e oração ("Ora et labora") que resume a Regra de São Bento.

"A vida monástica é muito simples e ordinária", explica o prior da comunidade, padre Cassian. "Você levanta, reza, faz o seu trabalho, vai para a cama e, no dia seguinte, faz tudo de novo. São Bento, em certo sentido, é o padroeiro do ordinário, faz encontrar a presença de Deus no ordinário."

Um álbum de louvor a Deus

Há alguns meses, no entanto, a rotina comum dessa discreta casa religiosa ganhou os holofotes do mundo. É que as vozes desses monges foram reunidas no álbum Benedicta, uma excelente produção de canto gregoriano, que chegou a figurar entre os mais vendidos de música clássica.

O que explica tamanho sucesso, na opinião do premiado produtor Christopher Alder, é o transcendente embutido nas canções. ­"O canto que nós gravamos significa algo para eles, e você pode ouvir isso na sinceridade com que eles cantam", ele diz. "Há algo, no melhor sentido, hipnotizante ou meditativo. Quem ouve sente que entra em contato com o passado."

As faixas do CD reúnem orações e antífonas rezadas todos os dias pelos monges e dedicadas à Mãe de Deus. "Eu amo música, e a música, para a vida monástica, é uma parte essencial da nossa oração. O canto faz parte do ar que respiramos e, já que fazemos isso com tanta frequência, a coisa vem naturalmente depois de algumas décadas", ele garante. "Nós cantamos os louvores de Deus nove vezes por dia. Se você soma tudo, são cinco horas, mais ou menos, todos os dias, faça chuva ou faça sol, 365 dias por ano, o tempo todo."

Perguntado se as mesmas canções, interpretadas por artistas pop, obteriam o mesmo resultado, padre Cassian responde vigorosamente que não: "Você tem que acreditar no que está cantando", ele diz. "O canto é uma forma de expressarmos o nosso amor por Deus."

O padre Basil Nixen, regente de coro, aposta na beleza e na serenidade da música para chamar as pessoas a um encontro com Deus. "No fim, nós sempre tentamos agradar a Deus quando cantamos, então agradar às outras pessoas é mais fácil do que agradar à pessoa mais importante", ele afirma, em entrevista à CBS News.

"Para alegrar o coração"

Quando não estão rezando, uma das atividades dos monges é a produção de cervejas. A Birra Nursia, com o lema bíblico: "Ut laetificet cor – Para alegrar o coração" (Sl 103, 15), já é conhecida mundo afora e comercializada em Portugal, na Irlanda e nos Estados Unidos.

"Nós aprendemos a arte dos monges trapistas na Bélgica. Transformamos uma garagem embaixo do mosteiro em sala de fermentação e todos os monges ajudam a engarrafar as cervejas", conta o padre Cassian, em entrevista à Religion & Ethics. "A cerveja é muito boa e tem servido, de um modo extraordinário, como atração para a evangelização porque, mesmo se as pessoas não são de ir à igreja, quase todos gostam de tomar cerveja. Então, eles vêm ao mosteiro por causa da cerveja e logo começam a falar de outras coisas, coisas mais importantes."

"O povo da cidade recorre aos monges quando está com problemas, quando quer conversar com alguém sobre a sua vida familiar", ele diz. "Ter os monges de volta, depois de quase 200 anos, ajuda a completar a identidade da cidade. É como se, com os monges aqui, tudo fosse dar certo."

Introibo ad altare Dei

A música e a cerveja, no entanto, são aspectos apenas secundários do trabalho desses monges. O mosteiro de Núrsia faz parte de uma rede de comunidades tradicionais ao redor do mundo, preocupadas em zelar pela "sacralidade" do tesouro litúrgico da Igreja.

Para tanto, eles não têm problemas em celebrar a Missa nas duas formas do Rito Romano, intentando realizar aquele "enriquecimento mútuo" tão necessário e tão pedido pelo Papa Bento XVI. Verdadeiramente, "aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós".

"O Rito Antigo, ou a tradição litúrgica da Igreja, para nós, é um patrimônio, não uma peça de museu, mas algo vivo", diz o padre Cassian, em entrevista à EWTN. A iniciativa atrai principalmente os jovens, que constituem, hoje, a maioria de seus membros. A média de idade dos religiosos é de 33 anos.

O Amado às portas

O prior do mosteiro beneditino é também o membro mais velho da casa. Com 63 anos, a fama de Cassian Folsom, dentro e fora da cidade de Núrsia, é de santidade. Recentemente, a luta contra um câncer ajudou a catalisar esse processo de ascensão espiritual. Em 2006, ele já tinha vencido a doença, mas ela voltou uma segunda vez e, mesmo com o tumor na fase de remissão, o padre Cassian sabe que pode acontecer tudo de novo.

"Como qualquer um diagnosticado com câncer, isso muda a sua vida", ele declara. "Acho que a doença tem me dado uma paciência maior, uma tolerância maior, fazendo-me olhar para as coisas como se nem tudo importasse tanto quanto eu achava que importava."

A repórter do Religion & Ethics, Judy Valente, pergunta ao religioso se ele não esperava merecer "algo mais do que dois diagnósticos de câncer", já que tinha dedicado a sua vida para o serviço de Deus. A resposta dele é uma lição espiritual:

"Isso é apenas parte da vida, é tudo. Eu diria isto: nós podemos olhar para a morte como uma ladra ou como uma mensageira. Um ladrão vem e rouba o que temos de mais valioso e, por isso, nós temos medo. Um mensageiro que vem para dizer-nos que o nosso Amado está às portas, nós recebemos de modo bem diferente, não? Então, este é o tipo de escolha que devemos fazer: se a morte é uma ladra ou uma mensageira. Para mim, é uma mensageira."

É com essa mensageira em mente que o padre Cassian e os seus religiosos rezam, todas as noites, o cântico do velho Simeão: " Nunc dimittis servum tuum, Domini, in pace – Deixai agora, Senhor, vosso servo ir em paz" (Lc 2, 29). Por viverem em constante oração, todos os seus trabalhos vão se orientando, quase que de modo automático, à única coisa verdadeiramente necessária: a vontade divina.

Questionado se o sucesso de Benedicta afetará de alguma forma a personalidade e os hábitos do mosteiro de Núrsia, o padre Basil Nixen assegura que não. "Este é o ponto de nossas vidas: nós não viemos aqui para ter sucesso, mas para procurar a Deus".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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