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Cristãos convertidos do Islã vivem às escondidas na Itália
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Cristãos convertidos do Islã
vivem às escondidas na Itália

Cristãos convertidos do Islã vivem às escondidas na Itália

Conheça a história dos “cristãos-fantasmas”, que saíram do Islã para seguir a Cristo na Itália. Para evitar ameaças e retaliações de muçulmanos fanáticos, eles são obrigados a viver escondidos, mesmo morando em um país ocidental e com liberdade religiosa.

Mauro Pianta,  La StampaTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Fevereiro de 2016
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Omar (vamos chamá-lo assim) afasta a fumaça do cigarro que acende no intervalo do trabalho, limpa a voz e diz, olhando diretamente nos seus olhos:

"Sim, agora eu sou feliz. Só me arrependo dos anos que passei sem conhecer a Cristo, mas, como se pode ver, tinha que ser assim. Agora eu renasci, a minha vida mudou. Não que não tivesse problemas, imagine... Mas sou mais paciente, sereno."

Engenheiro químico vindo do Egito, Omar, que tem 55 anos e trabalha como garçom em uma cidade do centro da Itália, era muçulmano – com uma forte tendência para o fanatismo. Depois de vir à Itália e enfrentar a crise pela morte da mãe, ele começou a ler a Bíblia (e particularmente o livro do Apocalipse). Depois, apaixonou-se pelas homilias de um pregador cristão egípcio pela televisão e, enfim, alguns cristãos se tornaram seus amigos e o acompanharam até o batismo. De lá para cá, já se passaram três anos. O elemento decisivo para a sua conversão? "Ter visto nessas pessoas – ele conta, ao Vatican Insider – uma humanidade mais completa que a minha e o fato de terem me ajudado sem me pedir que mudasse de religião".

Fica, contudo, para Omar, uma enorme e dramática preocupação:

"Não posso praticar abertamente a minha fé cristã: tenho medo que qualquer fanático islâmico possa fazer mal não só a mim, mas sobretudo aos meus parentes que permanecem no Egito. Por que os italianos que se convertem ao Islã podem andar tranquilamente e falar sobre isso na TV e eu, ao contrário, devo esconder-me para evitar retaliações?"

Passamos a pergunta de Omar ao padre jesuíta Samir Khalil Samir, autoridade internacional em islamismo:

"O Islã não é só religião, mas também política, cultura e sociedade. Isso penetra as mínimas coisas. Não existe uma separação entre fé e política, pelo que o seguidor de Alá tem dificuldades em separar o cristianismo do Ocidente. Isso porque um muçulmano que passa a uma outra religião comete uma traição em relação à sua comunidade: não trai só a própria fé, mas ainda o próprio povo, a nação. Em suma, no Islã se pode entrar, mas é vedado sair."

De fato, em nenhum país islâmico é possível converter-se a outro credo sem sofrer consequências. O crime de apostasia é punido com diversas gradações: da "morte civil" (perda do emprego, da guarda dos filhos e de alguns direitos, rompimento dos laços familiares), chegando ao cárcere e à pena de morte. Todas essas punições fazem parte da lei islâmica, na interpretação de sunitas e xiitas. Recentemente, em Uganda, um imã foi preso, acusado de assassinar um cristão de 28 anos, convertido do Islã. Quatro dias antes de ser decapitado em sua casa, Laurence Maiso teria ouvido do clérigo que Alá não tolerava os infiéis e que "estava para mandar-lhe o anjo da morte em sua casa."

Segundo o xeique Youssef Al-Qaradawi, autoridade no mundo islâmico, "os juristas muçulmanos são unânimes em dizer que os apóstatas devem ser punidos, ainda que divirjam quanto ao tipo de punição a ser infligido sobre eles". Em um famoso vídeo da Internet, ele chega a dizer que, "se tivessem se livrado da punição por apostasia, não haveria mais Islã hoje em dia, ele teria acabado logo depois da morte do profeta Maomé".

Para quem se converteu a Cristo e vive onde rege a lei da charia, nem sempre mudar de país resolve o problema. "Mesmo em terra de migração – diz o padre Samir Khalil –, o apóstata é objeto de reprovação, ameaça ou violência por parte da comunidade a que pertence ou da sua própria família. Daqui vem a necessidade de os convertidos viverem reservados". Exemplo disso é a família de Nissar Hussain, que já foi várias vezes ameaçada de morte na Inglaterra. "Apesar de tudo isso, o fenômeno dos muçulmanos que se tornam cristãos, graças à TV por satélite e à Internet, se difunde sempre mais", afirma o jesuíta.

Quem são esses "novos cristãos"

Qual a identidade do muçulmano que abraça o cristianismo na Itália? O perfil designado pelas associações católicas que se ocupam de imigrantes e por quem trabalha com o catecumenato é muito variado. Entre os "novos cristãos" há estudantes universitários, diplomatas, jovens trabalhadores sazonais, viúvas, filhos nascidos na Itália de ao menos um genitor muçulmano, migrantes que solicitam asilo etc.

Saber, todavia, qual o número de convertidos no país é praticamente impossível. De acordo com o direito canônico, os pedidos de batismo provenientes de pessoas com mais de 14 anos de idade devem ser submetidos ao bispo da diocese de competência, o qual autoriza a administração do sacramento ao fim de um percurso de catecumenato, que dura cerca de dois anos. "O ponto – explica o jornalista Giorgio Paolucci, autor do livro Cristiani venuti dall'Islam (sem tradução para o português) – é que os registros batismais compilados das paróquias e das dioceses (única fonte estatisticamente confiável) não assinalam a fé religiosa de que provêm os catecúmenos, mas só a sua nacionalidade."

Em 2014, foram batizados 1206 catecúmenos na Itália, dos quais 347 são italianos, 567 são estrangeiros e 292 têm proveniência não especificada. Nos últimos anos, a tendência constante é de que 50 a 60% dos batizados venham de fora. Por motivos de segurança, a Conferência Episcopal Italiana não assinala nem mesmo quantos desses batizados estrangeiros chegam de nações de tradição islâmica. Mas, a portas fechadas, uma fonte interna ao serviço nacional para o catecumenato fala de "pelo menos mil convertidos presentes no território italiano, considerando os que se tornaram protestantes e os que aderiram à igreja copta."

"A Igreja – observa o padre Jourdan Pinhero, responsável pelo serviço para o catecumenato – os acolhe na comunidade eclesial com grande respeito e prudência. É muito importante não tê-los como grupo à parte, separado da vida pastoral".

Em todo caso, por que essas pessoas batem às portas da Igreja Católica? Segundo o padre Pinhero:

"Os motivos são diversos: o desejo de integrar-se, a simpatia pelo estilo de vida dos cristãos que conheceram, o reconhecimento pelas associações que os acolheram e ajudaram, o pedido do batismo para o filho nascido em nosso país. Mas creio que o elemento decisivo seja o encontro com cristãos autênticos que vivem plena e alegremente a própria fé em uma comunidade viva e acolhedora, e que sabem testemunhar o Evangelho na simplicidade do dia a dia."

O caminho que conduz ao batismo pode passar inclusive pelo namoro com uma cristã. É o caso do paquistanês S. K., de 42 anos, que vive na Itália desde 2010:

"Conheci a minha futura esposa há muitos anos, no Paquistão. À época, era um muçulmano muito observante, provindo de uma família de talibãs. Apaixonei-me por ela quase que subitamente. Depois, compreendi que o fato de ela ser especial, assim diferente, também era por causa da sua fé em Jesus. Comecei a ler o Evangelho, a informar-me. Levei treze anos para convencer a sua família ao matrimônio. Em 2001, recebi o batismo e, dois anos depois, guardando segredo dos meus familiares, casamo-nos na Igreja. Alguns anos depois do nascimento dos dois filhos, porém, decidimos sair de nosso país. Lá, quem muda de religião é assassinado. Temíamos pelos nossos filhos: todos começavam a nos olhar de modo estranho porque éramos diferentes. Vivíamos isolados, no medo, mas conseguimos fugir."

Na sua terra, S. K. era um empresário, mas, agora, ele ganha a vida como caminhoneiro. "Paciência – ele diz –, estou muito mais contente. O medo? Existe, mas nos confiamos a Deus e a algumas famílias italianas que nos ajudam. Em todo caso, por maior prudência, evitamos contato com pessoas de religião islâmica".

Alguns chamam esses novos cristãos de "cristãos-fantasmas", mas eles só fazem parte da tradicional Igreja dos mártires, que não deixa de crescer no mundo inteiro, muito mais do que no tempo das catacumbas.

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Cristãos encurralados na Bolívia
Comunismo

Cristãos encurralados na Bolívia

Cristãos encurralados na Bolívia

Denúncia: com o novo Código Penal boliviano, pregadores cristãos serão proibidos de evangelizar nos país de Evo Morales. Mas na mídia, dentro e fora do Brasil, nada se fala.

Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Janeiro de 2018
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Os cristãos estão encurralados na Bolívia. O novo Código Penal do país criminaliza com penas de 7 a 12 anos de prisão o recrutamento de pessoas para organizações religiosas ou de culto. Um verdadeiro atentado à liberdade religiosa. O que deveria constar das manchetes jornalísticas e chamadas televisivas, no entanto, só foi abordado até o momento pelo jornal Gazeta do Povo.

A íntegra da nova lei, promulgada no último mês de dezembro, encontra-se disponível na internet. O artigo em questão é o 88, inc. I, que criminaliza a trata de pessoas (em português, “tráfico”):

Será sancionada, com prisão de sete (7) a doze (12) anos e reparação econômica, a pessoa que, por si mesma ou através de terceiros, sequestrar, transportar, trasladar, privar de liberdade, acolher ou receber pessoas com alguns dos seguintes fins:

[...]

11. Recrutamento de pessoas para sua participação em conflitos armados ou em organizações religiosas ou de culto.

A advogada e professora Janaína Paschoal foi entrevistada pelo jornal Gazeta do Povo e qualificou esse dispositivo do novo Código Penal boliviano como “assustador” e “inaceitável”:

Ainda que não se utilize expressamente a terminologia da criminalização da religião, é óbvio que é isso o que o dispositivo está fazendo, porque inclusive equipara o exercício da religião à luta armada [...].

Uma vez entrando em vigor este Código, os líderes religiosos de quaisquer confissões — é importante que isso seja dito — passarão a ser presos. E as pessoas que professem as fés (sic), sejam elas quais forem, também passarão a ser presas, porque o dispositivo é extremamente aberto e fica evidente que está havendo uma criminalização. Isso é inaceitável, não só à luz das Constituições nacionais, mas à luz de todos os tratados internacionais. É o caso de denunciar, sim, aos tribunais internacionais. Ainda não tem uma lesão efetiva aos direitos fundamentais desses indivíduos, mas a própria edição dessa lei já constitui uma lesão.

É importante destacar que, embora o artigo em questão não especifique credo nenhum, em um país com maioria esmagadora de cristãos — um censo recente feito na Bolívia fala de 78% de católicos e 19% de protestantes —, não há dúvida de que o alvo pretendido por esta lei iníqua não é outro senão o cristianismo.

Os cristãos, por sua vez, captaram bem a mensagem do texto legal, como se pode ver nos vídeos abaixo:

Será talvez necessário explicitar qual a ideologia por trás desse atentado à liberdade religiosa? Por que Evo Morales pretende mandar à cadeia bispos, sacerdotes e pastores simplesmente por pregarem o Evangelho?

Uma comparação feita pelo sítio católico espanhol Actuall talvez nos ajude a entender melhor a natureza do problema. O que está acontecendo hoje na Bolívia se parece muito com atitudes tomadas por ditadores como Mao Tsé-Tung e Stálin, ambos comunistas. Não sem razão Evo Morales pertence a um partido denominado Movimiento al Socialismo e, à semelhança de outra ditadura da América Latina, pretende prolongar-se indefinidamente no poder. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Regimes comunistas nunca conseguiram conviver bem com a liberdade religiosa, muito menos com a religião cristã.

Esse mesmo Código Penal contém muitos outros absurdos — que estão levando inúmeros jovens bolivianos às ruas —, mas isso talvez fosse oportunidade para uma outra matéria. O que interessa saber, por ora, é que a perseguição ao cristianismo, já fortíssima em determinadas partes do mundo, agora começa a se expandir também para a América Latina, em países que fazem fronteiras com o nosso.

É evidente que ninguém está falando de decapitações e crucificações, como acontece em países islâmicos, mas o que se passa aqui, ao nosso lado, já é aterrorizante o suficiente e, como sabemos, é assim que as perseguições escancaradas e as grandes matanças começam.

Os cristãos estão sendo encurralados na Bolívia. Mas, curiosamente — alguns diriam —, tragicamente — dizemos nós —, nos meios de comunicação ninguém fala absolutamente nada.

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O caminho para a verdadeira felicidade começa em Nossa Senhora
Virgem Maria

O caminho para a verdadeira
felicidade começa em Nossa Senhora

O caminho para a verdadeira felicidade começa em Nossa Senhora

A devoção à Virgem Maria está no coração do cristianismo. Isso se deve ao fato de que o próprio Deus quis ter uma mãe para si, tornando a maternidade um conceito profundamente relacionado à cristandade.

Francis Phillips,  Catholic HeraldTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Janeiro de 2018
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Diz um antigo provérbio francês que “Deus amou tanto as mães que desejou ter uma também”. Há nisto um sentido tão sublime quanto humano. Quando penso em Nossa Senhora, não penso em seus títulos gloriosos ou nos impecáveis argumentos teológicos que os baseiam; vejo simplesmente uma Mãe. Enquanto Mãe de Deus e, portanto, Mãe da Igreja, Maria confere à fé cristã uma dimensão materna muito atraente, já que ela mesma foi total e belamente humana.

Nenhuma outra religião possui um ícone mais carinhoso do que ela. Anos atrás, em visita a uma exposição de arte asteca, fui surpreendido por sua violência latente e pelo fato de que o conceito “mãe e filho” não pertencia ao universo de referência dos astecas. Isso me fez lembrar o quanto esse conceito está profundamente relacionado à nossa civilização cristã. Prova disso são as grandes catedrais góticas a Maria, além das várias pinturas que a retratam.

Vislumbres da misteriosa força exercida pela personalidade de Nossa Senhora podem ser encontrados em “Regina Coeli: Artes e Artigos sobre a Virgem Maria”, do Pe. Michael Morris, um livro que reúne alguns de seus comentários mensais para a revista Magnificat. De acordo com ele, durante os séculos em que a arte religiosa dominou e floresceu no Ocidente, Nossa Senhora parece ter sido pintada tanto ou até mais mais do que seu divino Filho. Sua beleza espiritual, sua ternura maternal, sua nobreza de estado e conduta têm inspirado artistas a dar o máximo de si.

A Imaculada Conceição de Velázquez.

Não só isso. Nossa Senhora inspirou também devoções populares. De fato, a Arte com maiúscula não teria sentido sem o amor dos fiéis comuns à Virgem Santíssima. Em um de seus artigos, Pe. Morris descreve a Imaculada Conceição do pintor espanhol Velázquez. Morris afirma que, durante a Contra-Reforma na Espanha, havia um grande entusiasmo popular por esse privilégio mariano. Quando o Papa Pio V alinhou-se à defesa scotista da Imaculada Conceição, declarando como “menos piedosa” a opinião tomista segundo a qual Maria não teria sido concebida sem pecado, mas santificada no ventre, dispararam-se fogos de artifícios, dançaram-se carnavais, jogaram-se torneios e touradas por todo o país.

Na última noite do ano (ou nas vésperas da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, como dizemos os católicos), o som dos fogos reverberou por todo o meu bairro. É incrível que na sociedade de hoje os fogos ainda sejam usados para celebrar uma obscura, ao menos em aparência, crença católica; o espírito de fé que animou os espanhóis do século XVII, afinal, já acabou.

Em seu livro, Pe. Morris menciona ainda a presença de S. Bárbara na Madona Sistina, de Rafael. Acredita-se que S. Bárbara, aprisionada em uma torre pelo pai, um pagão, tenha dado origem à fábula de Rapunzel. J. R. R. Tolkien, citado no livro do Pe. Morris, disse certa vez: “Toda minha percepção de beleza, tanto em majestade quanto em simplicidade, é fundada em Nossa Senhora”. A boa notícia é que, graças ao consentimento dela para se tornar Mãe de Deus, todos podemos, como na história de Rapunzel, “viver felizes para sempre”.

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Os livros de fantasia podem nos fazer mal?
Doutrina

Os livros de fantasia
podem nos fazer mal?

Os livros de fantasia podem nos fazer mal?

“A fantasia pode, é claro, ser levada ao excesso”, e é o próprio Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, quem o reconhece. “Mas de que coisa humana neste mundo caído isso não é verdade?”

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2018
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O curso ao qual Padre Paulo Ricardo está dando andamento sobre “O Senhor dos Anéis dá ocasião de respondermos a alguns questionamentos importantes. Em nossa primeira transmissão ao vivo, uma dúvida anônima, que é certamente a de muitas pessoas, versava o seguinte:

Para aquelas pessoas que não perceberam e não sabem desta chave de leitura cristã de “O Senhor dos Anéis”, até que ponto mergulhar nesse mundo fictício contribuiria para seu desenvolvimento espiritual cristão? E como um mundo mágico desta natureza e que encanta, poderia não abrir os corações dos jovens para uma nova filosofia de vida mágica, de mistérios e poderes ocultos, nesta sociedade do “tudo, menos Deus”?

A preocupação deste aluno podia muito bem ser a de um pai ou de um educador. Existe por parte de muitos formadores o receio de que essa imersão na literatura fantástica acabe conduzindo crianças e adolescentes ao mundo do ocultismo.

A preocupação, reconheçamos, tem sua razão de ser. Tolkien iniciou, de fato, todo um gênero literário, que ficou bastante famoso e que se tornou uma verdadeira indústria de livros, mas isso não significa que tudo quanto saia da pena de escritores de fantasia seja belo, bom e justo.

A esta indagação, no entanto, o próprio J. R. R. Tolkien respondeu, certa vez, do seguinte modo:

A Fantasia pode, é claro, ser levada ao excesso. Pode ser malfeita. Pode ser posta a serviço de fins maus. Pode mesmo iludir as mentes das quais veio. Mas de que coisa humana neste mundo caído isso não é verdade? Os homens conceberam não apenas elfos, mas imaginaram deuses, e os adoraram, adoraram mesmo aqueles mais deformados pelo próprio mal de seus autores. Mas eles fizeram falsos deuses com outros materiais: suas idéias, suas bandeiras, seus dinheiros; até suas ciências e suas teorias sociais e econômicas exigiram sacrifício humano. Abusus non tollit usum. A Fantasia permanece um direito humano; criamos na nossa medida e ao nosso modo derivativo, porque fomos criados: e não apenas criados, mas criados à imagem e semelhança de um Criador. [1]

Esperamos que essa resposta esclarecedora, vinda do próprio “senhor da fantasia”, ajude nossos alunos e visitantes a entenderem que histórias de ficção não são más em si mesmas, assim como não é mau o facão que um açougueiro pode usar tanto para cortar carne quanto para matar alguém, assim como não é mau o álcool do vinho que Cristo deu aos convidados das bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-11).

Não, o abuso que muitos fazem de determinadas coisas não as torna ruins. Continuamos devendo usar de modo sensato os bens que Deus colocou à nossa disposição. Sem os endeusarmos. Sem os demonizarmos indevidamente. “Idolatria se comete”, afinal, “não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia” [2].

Referências

  1. J. R. R. Tolkien. Sobre histórias de fadas (trad. de Ronald Kyrmse). São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2006, p. 63.
  2. G. K. Chesterton. In: Illustrated London News, 11 set. 1909.

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Tolkien e os católicos inteligentes
Igreja Católica

Tolkien e os católicos inteligentes

Tolkien e os católicos inteligentes

O catolicismo é o pai da alta cultura e não há religião no mundo que tenha entre os seus adeptos mentes tão brilhantes, que souberam converter estudo em oração, como a Igreja Católica.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2018
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Quando C. S. Lewis conheceu J. R. R. Tolkien durante uma reunião na Universidade de Oxford, a 11 de maio de 1926, o autor de As Crônicas de Nárnia ainda era agnóstico e não considerava o cristianismo puro e simples. Ao contrário, Lewis desprezava a religião e, para ele, parecia absurdo que Tolkien fosse um homem tão inteligente e, ao mesmo tempo, um católico devoto.

O preconceito de Lewis contra o cristianismo — e particularmente contra a Igreja Católica — era algo bastante comum naquela época, sobretudo entre intelectuais ingleses. Famosos foram os debates entre H. G. Wells e G. K. Chesterton acerca da razoabilidade do credo cristão e de como a ortodoxia católica está na vanguarda das ciências e da filosofia. Embora o Iluminismo tenha espalhado uma visão obscurantista da cristandade, o fato é que a Igreja Católica fundou a civilização ocidental e lançou as bases do progresso científico atual.

C. S. Lewis, o autor de “As Crônicas de Nárnia”.

A versão iluminista da história prevaleceu, entretanto, fazendo com que o cristianismo fosse visto como uma tolice. Para Lewis, esse preconceito só desapareceu pela proximidade com Tolkien, que jamais se envergonhou da própria fé nem tentou se adequar a discursos laicistas para manter-se na universidade. Tolkien falava abertamente da Igreja em suas conferências, demonstrando, com argumentos e eloquência, por que a doutrina de Jesus Cristo é a verdadeira religião.

A vida intelectual de J. R. R. Tolkien é uma pedra de tropeço para quem não acredita em fé e razão. Desde muito cedo, o autor de O Senhor dos Anéis demonstrou habilidades para a carreira acadêmica, e sua mãe, Mabel, fez o possível para assegurar-lhe uma educação decente, que o capacitasse para a entrada na universidade. Quando, mais tarde, Tolkien teve de escolher entre a paixão e os estudos, aceitou o sacrifício de ficar três anos longe da namorada, Edith Bratt, para conseguir dedicar-se à faculdade.

Na academia, Tolkien logo se destacou pela qualidade de suas aulas e pela simplicidade com que tratava os demais professores e estudantes. “Havia um senso de civilização, uma lucidez cativante e uma sofisticação”, disse um de seus alunos, o escritor Desmond Albrow, sobre as lições do professor. Na verdade, Tolkien encarnava as suas leituras de maneira exuberante, como se estivesse em um teatro, levando a plateia a viver os dramas dos personagens. Era algo memorável.

É claro que toda essa vivacidade não passaria despercebida aos olhos de Lewis, que, diante daquele “estranho paradoxo” — um católico inteligente?! —, acabou obrigado a questionar-se sobre os fundamentos do cristianismo. Tolkien, aliás, sentiu-se particularmente responsável pela conversão do amigo, motivo pelo qual se reuniram várias vezes em pubs, para longas tertúlias sobre a autenticidade da vida de Cristo. Lewis, enfim, descobriu que Jesus não era apenas uma lenda do passado, mas uma Pessoa viva que transformou as verdades dos mitos em carne e História.

O caso de J. R. R. Tolkien não é um ponto fora da curva na história da Igreja, mas apenas um entre tantos na longa tradição cristã, que vai de Agostinho e Tomás de Aquino a nomes mais recentes como G. K. Chesterton, Edith Stein, Léon Bloy e Dietrich von Hildebrand. No Brasil do século XX, por exemplo, merecem destaque padre Leonel Franca e Gustavo Corção, que produziram obras de grande proveito intelectual e religioso.

Todos levaram a sério o que São Josemaria Escrivá ensinava acerca do estudo: “Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave” (Caminho, n. 336). Ademais, os católicos estão obrigados ao estudo porque por ele, diz Santo Tomás, “o homem aproxima-se o mais possível da semelhança de Deus, o qual fez todas as coisas sabiamente” (Suma Contra os Gentios, II, 1).

Não é surpresa alguma, portanto, que entre os intelectuais mais importantes da sociedade estejam católicos piedosos. C. S. Lewis teve a chance de descobrir isso de uma maneira excepcional. De fato, o catolicismo é o pai da alta cultura e não há religião no mundo que tenha entre os seus adeptos mentes tão brilhantes, que souberam converter estudo em oração, como a Igreja Católica.

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