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O que acontecerá com a Europa?
Sociedade

O que acontecerá com a Europa?

O que acontecerá com a Europa?

A Europa vem tentando realizar uma experiência audaz: preservar a sua unidade política, à parte o fundamento histórico de sua unidade cultural e moral. É um projeto notável, mas que tem tudo para dar errado. E o Papa Ratzinger sabe por quê.

Carson HollowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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O que acontecerá com a Europa? Todas as pessoas atentas e informadas que acompanham os problemas mundiais certamente fazem a mesma pergunta. Uma das mais proeminentes nações europeias, o Reino Unido, abandonou a União Europeia [n.d.t.: a saída foi oficializada no dia 31 de janeiro de 2020]. Um Brexit bem-sucedido abre a possibilidade para que outras nações também deixem de fazer parte do bloco. De repente, é posta em xeque a viabilidade da Europa como um conjunto politicamente integrado, sonho e trabalho de vida de duas ou três gerações de estadistas europeus.

O tema do destino da Europa aponta para a questão mais profunda de sua identidade. Quando nos perguntamos “o que acontecerá com a Europa?” não podemos deixar de nos perguntar “o que é a Europa”. Em outras palavras, o que significa a Europa? O que ela aspira ser? Como observa Joseph Ratzinger, essas perguntas surgem porque a Europa é propriamente entendida não apenas como conceito geográfico, mas também como conceito cultural e histórico. A Europa, diz ele, sempre julgou ter alguma missão universal e algo precioso a oferecer ao mundo. Talvez, por isso, ela não possa permanecer unida politicamente, já que os vários povos que a compõem não estão mais de acordo sobre o que significa ser europeu.  

Tais questões — o que é a Europa e o que ela deveria ser — são analisadas por Ratzinger (hoje, Papa emérito Bento XVI) em Western Culture: Today and Tomorrow [“Cultura Ocidental: Hoje e Amanhã”, sem tradução para o português]. Dificilmente poderíamos desejar um guia mais criterioso para uma investigação como essa. O tratamento que Ratzinger dá a essas questões não é e não pretende ser sistemático. O livro se compõe de várias conferências dadas por ele ao longo dos anos como cardeal da Igreja Católica. Sem embargo, não podemos ler as suas meditações sem a consciência de estarmos na presença de uma mente sábia, incisiva, sóbria e séria. As avaliações ali apresentadas não são surpreendentes sob certos aspectos, mas o são sob outros, e todas são cuidadosas, provocativas (no melhor sentido da palavra) e dignas de um exame sério.

O Papa emérito, no aeroporto de Munique, no último dia 22 de junho. Ele regressava a Roma depois de visitar o irmão Georg, que faleceria em 1.º de julho. (Sven Hoppe/Pool, Reuters.)

Uma Europa à deriva. — Sem dúvida, não é nenhuma surpresa que, para Ratzinger, a Europa perdeu o rumo. Ela deseja obter respeito pelos direitos humanos, pela dignidade humana, pelo primado do direito a serviço do bem comum. De acordo com Ratzinger, esses compromissos morais dependem de uma crença na inteligibilidade do universo, que, por sua vez, depende da crença em Deus como causa inteligível e amorosa do universo — o Criador de uma ordem racional que seja ordenada ao bem do ser humano. A Europa, no entanto, perdeu a sua compreensão do cosmos, a qual sustentava outrora as suas aspirações éticas. Como observa Ratzinger com perspicácia, as elites europeias reconheceram o fracasso econômico do marxismo sem perceber os seus fracassos morais e filosóficos. Ninguém quer o retorno de uma economia planejada pelo Estado. Mas os atuais proponentes do (assim chamado) iluminismo europeu compartilham “com o marxismo a ideia evolucionista de um universo criado por um evento irracional” e, por essa razão, incapaz de fornecer qualquer “direção ética” para os seres humanos. Para muitos intelectuais europeus, o mundo do sentido e da justiça deve ser criado pelos seres humanos. Ratzinger, em contrapartida, argumenta que a ordem pública justa depende de uma moralidade que precede a política. Se a ordem é meramente criada por seres humanos, a maioria (ou quem for mais poderoso na sociedade) fica livre para impor aos fracos quaisquer políticas que desejarem. 

Esse diagnóstico é semelhante ao apresentado pelo grande predecessor de Ratzinger no papado, João Paulo II. Não é de se surpreender que seja sustentado também por seu mais confiável colaborador. No entanto, Ratzinger provavelmente surpreenderá ao menos alguns de seus leitores com o remédio que ele recomenda.

Influenciado por um jornalismo e uma análise cultural superficiais, o atual panorama intelectual do Ocidente é perseguido pela caricatura de um Ratzinger que encarna, de forma quase ideal, a figura do “prelado católico reacionário”. Seus argumentos sobre a cultura ocidental desmentem por completo essa paródia do homem e do pensador. Ratzinger não propõe um regresso à Idade Média. Não busca uma restauração do domínio da Igreja medieval sobre a vida política e social. Em vez disso, enfatiza o caráter secular e limitado do Estado, tal como é compreendido inclusive pelo cristianismo. Para Ratzinger, é possível dizer que o Estado tem um fundamento divino, no sentido de que Deus espera que os cristãos (e todas as pessoas) obedeçam às ordens justas das autoridades estabelecidas. Mas o Estado não tem uma missão sagrada. Seu objetivo não é a salvação das almas ou a imposição da fé cristã à sociedade, mas o estabelecimento da paz e de uma ordem moral justa. Ratzinger sustenta essa perspectiva por meio da referência às fontes cristãs mais antigas e confiáveis, como os Apóstolos e o próprio Cristo, que aconselhou os seus discípulos a obedecerem às autoridades políticas, ainda que o Estado existente naquele tempo, o Império Romano, certamente não fosse cristão.

Ratzinger pensa que a Europa moderna perdeu o rumo, mas ele não propõe um retorno à cristandade medieval. Portanto, para onde a Europa deveria retornar? Ratzinger retoma um estágio anterior (mas não muito distante) da história da Europa, uma época na qual o liberalismo europeu entendia a política principalmente em termos seculares, mas ainda assim entendia a si mesmo — entendia a Europa — como uma manifestação da cultura cristã. Segundo Ratzinger, os principais estadistas responsáveis pela reconstrução de uma justa paz depois da II Guerra Mundial — homens como Winston Churchill, Konrad Adenauer, Robert Schuman e Alcide De Gasperi — eram guiados pelas exigências morais que haviam aprendido da “fé cristã”. Procurando ir além da insanidade ideológica que havia devastado a Europa, eles buscaram estabelecer não um “Estado confessional” cristão, mas antes um “Estado permeado pelo pensamento ético” que a fé cristã sustenta — uma razão moral que vai além do mero cálculo de consequências e reconhece a dignidade e os direitos dos seres humanos como tais. Ratzinger recorda bem o que muitos leitores contemporâneos esqueceram ou jamais souberam: os principais estadistas ocidentais daquela época entendiam a II Guerra como uma luta para preservar a “civilização cristã”, e assim a chamavam publicamente. 

Quando analisamos o assunto desse ponto de vista, talvez não surpreenda o fato de Ratzinger — um homem de sensibilidades modernas, mas conservadoras — propor um retorno à organização política que prevaleceu em sua juventude. No entanto, não é razoável passar por cima do argumento dele como se fosse simples nostalgia. Afinal de contas, como Ratzinger mesmo afirma, e como qualquer um pode perceber, há sinais de que a Europa contemporânea está em apuros, sinais de que é insustentável a forma como o europeu de hoje compreende a si mesmo.

Preservando a cultura europeia. — Deixando de lado a questão de se a Europa pode manter-se ou não como unidade legal e política, também nos podemos perguntar se ela ao menos é capaz de preservar e transmitir-se como cultura. Ratzinger observa que a Europa “parece ter-se esvaziado”, inclusive em seu “momento de maior êxito”. Os europeus já não querem ter filhos o suficiente para preservar a vida de suas nações ao longo do tempo. Essa relutância talvez seja resultado do declínio na crença em Deus e, portanto, na bondade da Criação. Em condições normais, é mais provável que um casal considere os filhos um dom de um Deus benevolente do que meros produtos do acaso e da necessidade. É mais provável que os pais tenham mais confiança em gerar novas vidas quando acreditam que elas entrarão no reino do ser e da bondade governado por um Deus benevolente, e não quando creem que o universo não é mais do que o produto de forças indiferentes à vida humana. Seja como for, não há dúvida de que uma cultura que reluta em gerar filhos não conseguirá sobreviver.

Sem dúvida, os defensores da Europa contemporânea responderão que a transmissão cultural não depende, necessariamente, da reprodução biológica. A Europa pode transmitir os seus valores a recém-chegados, a imigrantes que darão continuidade ao projeto europeu depois que os europeus de origem desaparecerem. Isso de fato é possível, mas é algo que parece exigir uma autoconfiança moral e cultural que os europeus de hoje não possuem. Ratzinger observa que os europeus rejeitaram a crença em Deus, porque passaram a enxergá-lo como um limite para a liberdade individual. A crença em Deus, no entanto, dominou boa parte da história da Europa. Portanto, os europeus de hoje devem considerar o seu próprio passado como um período de opressão. Daí vem o “o ódio a si mesmo no mundo ocidental, que é estranho e pode ser considerado patológico”. Trata-se de uma cultura que “já não ama a si mesma”, e sobre a qual poderíamos nos perguntar até mesmo se “deseja sobreviver”. Como uma tal cultura poderia transmitir a novas gentes uma herança que ela mesma despreza? 

Mais uma vez, o defensor da Europa contemporânea pode responder que tudo isso é irrelevante, pois ela não deseja preservar e transmitir a sua antiga herança moral e cultural. Quer apenas transmitir os seus valores modernos — isto é, uma concepção universal secular e racionalista dos direitos humanos, dissociada de qualquer herança religiosa específica. Ratzinger sugere que, neste ponto, os europeus contemporâneos estão se enganando a si mesmos. Ele observa que a racionalidade exclusivamente secular parece óbvia para os ocidentais porque foi desenvolvida no Ocidente. Ela está “ligada a contextos culturais específicos” e, “enquanto tal, não pode ser reproduzida na humanidade inteira”. Um racionalismo puramente secular — a razão não permeada por crenças religiosas — é estranho à maioria dos povos, e há poucos motivos para achar que eles o aceitarão apenas por começarem a viver na Europa. 

Os europeus de hoje parecem acreditar que esses problemas serão superados pelo progresso. A crença no progresso é, para o europeu contemporâneo, o substituto da crença em Deus. As meditações de Ratzinger, no entanto, revelam alguns motivos por que essa confiança no progresso está desconectada da realidade e é, inclusive, incoerente. Ratzinger recorda que ela está desconectada da realidade porque a natureza humana “começa de novo em cada ser humano”. A geração seguinte não adquire, necessariamente, crenças e hábitos mais justos e humanos do que a anterior. O tipo de progresso moral que os europeus presumem exige que as raízes históricas e cristãs da crença na dignidade humana no Ocidente sejam reconhecidas e transmitidas, um empreendimento ao qual o europeu de hoje é indiferente ou hostil. A crença do europeu no progresso é incoerente porque não há razão para pensar que um progresso confiável surgiria num universo que, fundamentalmente, não se encontra governado por nenhum princípio inteligente ou benevolente.  

Atualmente, a Europa vem tentando realizar uma experiência notável. Ela tenta preservar e até ampliar a sua unidade política, ao mesmo tempo que abandona e despreza o fundamento histórico de sua unidade cultural e moral. O Brexit pode ser apenas o primeiro exemplo dos problemas que essa experiência poderá gerar. Em tais circunstâncias duvidosas, seria razoável procurar o conselho de vozes que a Europa está acostumada a ignorar e até desprezar. Uma Europa conturbada faria bem em começar o seu exame de consciência ao escutar a voz de Joseph Ratzinger. Ele recorda aos leitores que isso não implicaria uma submissão à autoridade espiritual da Igreja Católica, mas somente um compromisso respeitoso e compreensivo com a história moral e religiosa que deu origem à Europa.

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Novena do Trabalho
Oração

Novena do Trabalho

Novena do Trabalho

Nestes tempos de desemprego e grave crise econômica, esta novena a São Josemaria Escrivá pode ser uma oração muito útil e proveitosa, tanto para quem está à procura de trabalho, quanto para quem deseja fazer bem o próprio ofício.

Pe. Francisco Faus21 de Abril de 2021Tempo de leitura: 13 minutos
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Nestes tempos de desemprego, grave crise econômica e diversas ameaças aos direitos dos trabalhadores, é muito recomendável que os homens e as famílias se dirijam a Deus em oração.

Composta pelo Pe. Francisco Faus, esta “Novena do Trabalho”, em honra a São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, consta de três partes: uma leitura meditada de excertos (entre dois e três) de obras de S. Josemaria; uma intenção, segundo as necessidades particulares de cada qual (na primeira, pede-se a graça de achar trabalho; na segunda, a de fazer bem o próprio trabalho); e uma oração final a S. Josemaria.

O fiel é livre, naturalmente, para adaptar a novena às próprias necessidades, acrescentando-lhe outras leituras e as orações a que tiver maior devoção (por exemplo, a São José Operário, cuja festa a Igreja celebra no próximo dia 1.º de maio). Os que, por questão de comodidade, preferirem o texto abaixo em outro formato, podem baixar a novena diretamente do site da Obra clicando aqui.


1.º dia — Trabalho, caminho de santidade

Reflexão: 1) “Viemos chamar de novo a atenção para o exemplo de Jesus que, durante trinta anos, permaneceu em Nazaré trabalhando, desempenhando um ofício. Nas mãos de Jesus, o trabalho, e um trabalho profissional semelhante àquele que desenvolvem milhões de homens no mundo, converte-se em tarefa divina, em trabalho redentor, em caminho de salvação” (Questões atuais do Cristianismo, n. 55). — 2) “Aí onde estão os nossos irmãos, os homens, aí onde estão as nossas aspirações, o nosso trabalho, os nossos amores, aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho” (Homilia: Amar o mundo apaixonadamente).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus Nosso Senhor me oriente no esforço de procurar trabalho, e me abençoe fazendo-me conseguir um emprego honesto, digno e estável; e que me ajude, depois, a olhar para a minha tarefa profissional como um caminho de santificação e de serviço aos outros, onde o meu Pai Deus me espera a toda a hora e me pede que imite Jesus quando trabalhava como carpinteiro em Nazaré.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus Nosso Senhor me ajude a olhar para a minha tarefa profissional como um caminho de santificação e de serviço aos outros, onde Ele me espera a toda a hora e me pede, em todas as circunstâncias, que imite Jesus quando trabalhava como carpinteiro em Nazaré.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

2.º dia — Trabalhar por amor a Deus

Reflexão: 1) “A dignidade do trabalho se baseia no Amor. O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efêmero e transitório” (É Cristo que passa, n. 48). — 2) “Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo” (Caminho, n. 813). — 3) “Na simplicidade do teu trabalho habitual, nos detalhes monótonos de cada dia, tens que descobrir o segredo – para tantos escondido – da grandeza e da novidade: o Amor” (Sulco, n. 489).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus me conceda a graça de conseguir logo um trabalho, que proporcione segurança à minha família. E para que, ao mesmo tempo, Ele me ajude a compreender que o que dá valor a qualquer trabalho honesto é o amor com que o fazemos: em primeiro lugar, amor a Deus, a quem oferecemos o trabalho; e amor ao próximo, a quem queremos servir e ser úteis.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a compreender que o que dá valor a qualquer trabalho honesto é o amor com que o fazemos: em primeiro lugar, amor a Deus, a quem oferecemos o trabalho; e amor ao próximo, a quem queremos servir e ser úteis.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

3.º dia — Trabalhar com ordem e constância

Reflexão: 1) “Como é breve a duração da nossa passagem pela terra!… Verdadeiramente é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos… Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós” (Amigos de Deus, n. 39). — 2) “Quando tiveres ordem, multiplicar-se-á o teu tempo e, portanto, poderás dar mais glória a Deus, trabalhando mais a seu serviço” (Caminho, n. 80).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que com o auxílio de Maria Santíssima, consiga um trabalho estável e apropriado. E que quando – por bondade de Deus – já estiver trabalhando, saiba aproveitar o tempo como um tesouro que é; e me esmere em aprimorar a virtude da ordem, de modo que consiga fazer tudo com pontualidade, intensidade e constância, sem confusões nem atrasos, seguindo um plano bem estruturado, que me permita dedicar de modo equilibrado, os horários convenientes a cada um dos meus deveres: vida espiritual, família, profissão e relações sociais.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que com o auxílio de Maria Santíssima, saiba aproveitar o tempo como um tesouro que é; e que me esmere em aprimorar a virtude da ordem de modo que consiga fazer tudo com pontualidade, intensidade e constância, sem confusões nem atrasos, seguindo um plano bem estruturado, que me permita dedicar, de modo equilibrado, os horários convenientes a cada um dos meus deveres: vida espiritual, família, profissão e relações sociais.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

4.º dia — Trabalho bem acabado

Reflexão: 1) “Não podemos oferecer ao Senhor uma coisa que, dentro das pobres limitações humanas, não seja perfeita, sem mancha, realizada com atenção até nos mínimos detalhes: Deus não aceita trabalhos ‘marretados’. Por isso o trabalho de cada qual – essa atividade que ocupa as nossas jornadas e energias – há de ser uma oferenda digna aos olhos do Criador; numa palavra, uma tarefa acabada, impecável” (Amigos de Deus, n. 55). — 2) “Antes de mais, devemos amar a Santa Missa, que tem que ser o centro do nosso dia. Se a vivermos bem, como não havemos de continuar depois com o pensamento no Senhor, para trabalhar como Ele trabalhava e amar como Ele amava?” (É Cristo que passa, n. 154).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que, com o auxílio de Nossa Senhora, não demore a resolver-se o problema do meu desemprego. E para que, ao iniciar o novo trabalho, Deus me ajude a colocar todo o empenho em realizá-lo com categoria, com a maior perfeição possível, sem fazer as tarefas de qualquer maneira – convencido de que um trabalho mal feito não pode ser santificado, porque lhe falta amor, que é a condição imprescindível para que qualquer atividade humana possa ser agradável a Deus.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a colocar todo o empenho em realizar o meu trabalho com categoria, com a maior perfeição possível, sem fazer as tarefas de qualquer maneira – convencido de que um trabalho mal feito não pode ser santificado, porque lhe falta amor, que é a condição imprescindível para que qualquer atividade humana possa ser agradável a Deus.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

5.º dia — Todos os trabalhos honestos são dignos

Reflexão: 1) “É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que as outras. O trabalho, todo trabalho, é testemunho da dignidade do homem” (É Cristo que passa, n. 47). — 2) “Diante de Deus, nenhuma ocupação é em si grande ou pequena. Tudo adquire o valor do Amor com que se realiza” (Sulco, n. 487).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus me conceda a alegria de conseguir trabalho, uma tarefa em que eu possa ser útil e desenvolver as minhas capacidades. E que se, no momento, esse trabalho estiver por baixo do meu preparo e das minhas legítimas aspirações, eu não o despreze, mas – enquanto não achar um trabalho mais apropriado – o realize com toda a responsabilidade, fazendo com que tenha a categoria do trabalho que Jesus realizou na oficina de Nazaré.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que se, atualmente, o meu trabalho está por baixo do meu preparo e das minhas legítimas aspirações, Deus me ajude a não desprezá-lo, mas – enquanto não achar um trabalho mais apropriado – a realizá-lo com toda a responsabilidade, fazendo com que tenha a categoria do trabalho que Jesus realizou na oficina de Nazaré.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

6.º dia — Trabalhar em companhia de Deus e com reta intenção 

Reflexão: 1) “Deves manter – ao longo do dia – uma constante conversa com o Senhor, que se alimente também das próprias incidências da tua tarefa profissional” (Forja, n. 745). — 2) “Como cristão, deverias trazer sempre contigo o teu Crucifixo, E colocá-lo sobre a tua mesa de trabalho. E beijá-lo antes de te entregares ao descanso e ao acordar” (Caminho, n. 302). — 3) “Coloca na tua mesa de trabalho, no teu quarto, na tua carteira…, uma imagem de Nossa Senhora, e dirige-lhe o olhar ao começares a tua tarefa, enquanto a realizas e ao terminá-la. Ela te alcançará – garanto! – a força necessária para fazeres, da tua ocupação, um diálogo amoroso com Deus” (Sulco, n. 531).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus me conceda um emprego honesto e digno, e me abra os olhos da alma para compreender que Ele está sempre ao meu lado. Que, para não perder de vista esta maravilhosa realidade, eu me esforce em ter presença de Deus durante o trabalho, servindo-me discretamente – como de um “lembrete” – de um pequeno crucifixo, de uma estampa de Nossa Senhora, da efígie de outro santo da minha devoção…; “lembretes” colocados onde eu os possa ver com frequência, sem exibicionismo nem alarde.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me faça compreender que Ele está sempre ao meu lado, enquanto estou trabalhando. E que, para não perder de vista esta maravilhosa realidade, eu me esforce em ter presença de Deus durante o trabalho, servindo-me discretamente – como de um “lembrete” – de um pequeno crucifixo, de uma estampa de Nossa Senhora, da efígie de outro santo da minha devoção…; “lembretes” colocados onde eu os possa ver com frequência, sem exibicionismo nem alarde.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

7.º dia — Amadurecer nas virtudes através do trabalho 

Reflexão: 1) “Tudo aquilo em que intervimos os pobrezinhos dos homens – mesmo a santidade – é um tecido de pequenas insignificâncias que, conforme a intenção com que se fazem, podem formar uma tapeçaria esplêndida de heroísmo ou de baixeza, de virtudes ou de pecados” (Caminho, n. 826). — 2) “É toda uma trama de virtudes que se põe em jogo quando exercemos o nosso ofício com o propósito de santificá-lo: a fortaleza, para perseverarmos no trabalho, apesar das naturais dificuldades; a temperança, para superarmos o comodismo e o egoísmo; a justiça, para cumprirmos os nossos deveres para com Deus, para com a sociedade, para com a família, para com os colegas; a prudência, para sabermos em cada caso o que convém fazer e nos lançarmos à obra sem dilações… E tudo por Amor…” (Amigos de Deus, n. 72).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que, com a ajuda de Nossa Senhora, ache o trabalho que venho procurando. E que, ao meter-me em cheio nesse novo trabalho, Deus me ajude a desenvolver por meio dele as virtudes cristãs e a amadurecer espiritualmente. Que eu procure ser paciente e compreensivo, tanto com os chefes como com os colegas e subordinados, que seja simples e humilde, fugindo da vaidade e do exibicionismo, que faça tudo, em suma, com pureza de coração.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a desenvolver por meio do trabalho as virtudes cristãs e a amadurecer espiritualmente. Que eu procure ser paciente e compreensivo, tanto com os chefes como com os colegas e subordinados, que seja simples e humilde, fugindo da vaidade e do exibicionismo, que faça tudo, em suma, com pureza de coração.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

8.º dia — Trabalhar é servir, ajudar os outros

Reflexão: 1) “Pensai que através dos vossos afazeres profissionais, realizados com responsabilidade, além de vos sustentardes economicamente, prestais um serviço diretíssimo ao desenvolvimento da sociedade, aliviais também as cargas dos outros e mantendes muitas obras assistenciais – em nível local e universal – em prol dos indivíduos e dos povos menos favorecidos” (Amigos de Deus, n. 120). — 2) “Quando tiveres terminado o teu trabalho, faz o do teu irmão, ajudando-o, por Cristo, com tal delicadeza e naturalidade, que nem mesmo o favorecido repare que estás fazendo mais do que em justiça deves. – Isto, sim, é fina virtude de filho de Deus!” (Caminho, n. 440).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus Nosso Senhor me conceda o trabalho que lhe peço com tanta fé. E para que infunda na minha alma o desejo de fazer do meu trabalho, não uma atividade egoísta, fechada nos meus interesses, mas um serviço aberto ao bem e à utilidade de muitos, realizado com a certeza de que esse ideal de serviço aos outros dará um novo sentido, mais elevado e alegre, à minha vida.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus infunda na minha alma o desejo de fazer do meu trabalho, não uma atividade egoísta, fechada nos meus interesses, mas um serviço aberto ao bem e à utilidade de muitos, realizado com a certeza de que esse ideal de serviço aos outros dará um novo sentido, mais elevado e alegre, à minha vida.

Rezar a oração a São Josemaria (final).

9.º dia — Fazer apostolado com o nosso trabalho 

São Josemaria Escrivá.

Reflexão: 1) “O trabalho profissional é também apostolado, ocasião de entrega aos outros homens; o momento de lhes revelar Cristo e levá-los a Deus Pai” (É Cristo que passa, n. 49). — 2) “Faze a tua vida normal; trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado, acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superando-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado. E, sem saberes por quê, dada a tua pobre miséria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples – à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dar um passeio em qualquer parte –, falareis de inquietações que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão entendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério” (Amigos de Deus, n. 273).

Intenções: A) Para encontrar trabalho. — Para que Deus, por mediação de Nossa Senhora, me faça encontrar um bom trabalho, no qual possa crescer profissionalmente e dar o melhor de mim mesmo. E que me ajude a ver, no meu ambiente profissional, um campo aberto para a realização da missão apostólica que Deus confia a todos os batizados, aproveitando as oportunidades que Ele me dá para ajudar colegas, amigos, colaboradores, clientes…, a descobrirem as maravilhas da fé cristã.

B) Para fazer um bom trabalho. — Para que Deus me ajude a ver, no meu ambiente de trabalho, um campo aberto para a realização da missão apostólica que Deus confia a todos os batizados, aproveitando as oportunidades que Ele me dá para ajudar colegas, amigos, colaboradores, clientes…, a descobrirem as maravilhas da fé cristã.

Rezar a oração a São Josemaria (abaixo).


Oração a São Josemaria (no fim de cada dia). — Ó Deus, que por mediação da Santíssima Virgem Maria, concedestes inumeráveis graças a São Josemaria, sacerdote, escolhendo-o como instrumento fidelíssimo para fundar o Opus Dei, caminho de santificação no trabalho profissional e no cumprimento dos deveres cotidianos do cristão, fazei que eu saiba também converter todos os momentos e circunstâncias da minha vida em ocasião de vos amar, e de servir com alegria e com simplicidade a Igreja, o Romano Pontífice e as almas, iluminando os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor. Concedei-me por intercessão de São Josemaria o favor que vos peço… (peça-se) Amém. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

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A Páscoa falsificada
Espiritualidade

A Páscoa falsificada

A Páscoa falsificada

A Páscoa é o maior triunfo de Deus porque é a vitória da Cruz. Aí reside a alegria crescente do Terceiro Dia, e ela ressoará pelos corredores da eternidade. Não há separação possível: o Crucificado é o Ressuscitado. O resto são falsificações.

Fr. John A. PerriconeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Para celebrar devidamente a Páscoa, talvez tenhamos de recordar A pregação e as ações do Anticristo, obra-prima de Luca Signorelli, de 1499. Hoje ela se encontra na capela de São Brício, na cidade italiana de Orvieto. À primeira vista, Cristo parece estar em primeiro plano. Até que o observador percebe que aquele não é Cristo de jeito nenhum, mas um impostor. Mais do que isso: trata-se do Anticristo; Satanás, na verdade. Mas como se pode constatar isso? Só um olhar católico instruído poderia sabê-lo. 

O diabo aponta para o seu coração. Mas não seria esse um gesto comum do Salvador desde as admiráveis revelações do Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque? Sim, mas algo está visivelmente faltando: não há chagas no corpo de Cristo. Nos muitos simulacros de Cristo ao longo dos séculos, a pele lisa desprovida das feridas do Gólgota entrega que se trata de um falso Salvador. Só aquelas chagas distinguem a presença do verdadeiro Redentor; os outros são falsificados.

O cristianismo falsificado sempre se compraz em mostrar o coração de Cristo, mas não o seu coração trespassado. Deste simbolismo aparentemente inofensivo provém o credo invertido do cristianismo falsificado. Ele está centrado não no amor sacrificial, mas no “amô” sentimental, uma tentação perene para todos os filhos decaídos de Adão e Eva. Mesmo Albert Camus, um existencialista por completo, ecoou essa verdade quando escreveu: “As gerações futuras serão capazes de sintetizar a nossa cultura em duas proposições: eles fornicavam e liam os jornais”. Esse falso cristianismo vira a verdade do Evangelho do avesso, ditando a bonomia como seu imperativo de ferro.

Essa inversão cômica da grandeza da cruz deixava desgostoso o jornalista Graham Greene e fazia-o dizer, com impaciência e delicioso desprezo: “Quando ouço o apelo ao amor fraternal, penso em Caim e Abel”. Ao invés de Cristo crucificado, eles pregam sentenciosamente os jargões de sua cultura decadente misturados com clichês que sufocam ao invés de corrigir. O vazio deles é captado por T. S. Eliot em A canção de amor de J. Alfred Prufrock, com escárnio perfeito: “Medi minha vida em colheres de café”. O destino final dos que se casam com esse cristianismo falsificado é afundar com cada vez mais segurança no pântano da autossatisfação.

Detalhe de “A pregação e as ações do Anticristo”, de Luca Signorelli.

Estamos diante de uma traição grosseira da Páscoa. Esta é o maior triunfo de Deus porque é a vitória da Cruz. Aí reside a alegria crescente do Terceiro Dia, e ela ressoará pelos corredores da eternidade. Não há separação possível: o Crucificado é o Ressuscitado.

Durante a época do Grande Terror, aquele resultado imediato do encerramento do Concílio Vaticano II, armou-se um grande esforço para apagar boa parte do cristianismo histórico. Frases de efeito estéreis tomaram o lugar da doutrina imemorial. Uma das mais insípidas foi uma recém-cunhada atribuição dada aos católicos: um povo pascal. Tão vaga quanto juvenil, ela apreendia o todo do cristianismo falsificado: uma identidade “religiosa” sem o Calvário. A frase estéril felizmente desapareceu, mas seu espírito não. Ele paira sobre muitas igrejas e liturgias como alcatrão gotejante. Infelizmente, ele entra na alma de forma lenta mas efetiva, corrompendo-a.

Página após página, os santos Evangelhos desmentem essa fraude. Quando Cristo se senta sobre o túmulo vazio, Ele o faz ostentando as chagas de sua crucificação como troféus. Pois seu corpo ressuscitado é seu corpo crucificado; a vitória da Ressurreição é a proclamação do triunfo do Gólgota. No cenáculo, Nosso Senhor encontra o hesitante Tomé como um general vitorioso que retorna da batalha. Recorde o que faz o Salvador: Ele coloca as mãos do apóstolo nos buracos onde a lança perfurou e os pregos trespassaram. Note que, assim que o Salvador oferece “paz” aos Apóstolos, Ele lhes mostra suas chagas. Tal gesto é um golpe retumbante naqueles que desejam efeminar Cristo e neutralizar seu apelo revigorante a que tomemos a nossa cruz e o sigamos.

Sorrisos melosos, linguagem inclusiva e canções alegres simplesmente não são o bastante. Eles desaparecem como ciscos de poeira em um incêndio. Mesmo agora, Cristo está sentado à direita de seu Pai, no Céu, com corpo glorificado, ainda mais belo graças às insígnias do Calvário — as santas chagas que, no ensinamento de Santo Tomás, “iluminam os recintos do céu como rubis e safiras”.

O Venerável Fulton Sheen escreveu certa vez que a Via Pacis é a Via Crucis, “o caminho da paz é o da cruz”. Esta é a sua versão da antiga jaculatória: Ave crux, spes unica, “Salve cruz, única esperança”. Sem a cruz, a vida carece de alegria, esperança e paz. Aqui o paradoxo do cristianismo atinge o homem moderno como um cometa veloz, deixando-o atordoado. O grande bispo continua com palavras que facilmente desmascaram o cristianismo falsificado: “Deus odeia a paz naqueles que foram destinados para a guerra”. Os católicos secularizados veem nisso um grande exagero. Eles guincham: “Somos uma religião de paz”. Mas, para manter esse tipo de inanidade, eles precisam confrontar o próprio Deus: “Pensais que vim trazer a paz ao mundo? Vim para trazer não a paz, mas a espada” (Mt 10, 34). Que guerra? Que espada? A única verdadeira: a guerra contra o pecado; contra o erro e as mentiras do mundo; contra nossa fraquezas e transigências; nossas complacências e indulgências. Essas são as únicas guerras dignas de ser travadas. É a vitória nessas guerras que traz a paz.

Que os bons católicos se deleitem nas alegrias de Cristo ressuscitado. Não nos cansemos de repetir a antífona antiga: Christus resurrexit! Vere resurrexit! — “Cristo ressuscitou! Ressuscitou realmente!” Deleitemo-nos no mistério do sepulcro vazio. Mas não nos esqueçamos de onde vem essa perfeita vitória divina — apenas da derrota retumbante de Satanás e de seu reino infernal. E isto pela arma da Cruz invencível de Cristo. Cuidado com o Cristo falsificado. Ele irá cortejar os desavisados com mensagens que repousam confortavelmente sobre a natureza decaída do homem. Ele irá usar uma linguagem de reaproximação com o espírito do mundo. E ela soará, oh! tão razoável, oh! tão doce

Fiquem apenas com o verdadeiro Cristo ressuscitado, aquele que nos convida a descansar sobre as suas chagas. Insistam apenas em Deus.

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Uma homilia de Pio XII para uma Páscoa especial
Espiritualidade

Uma homilia de Pio XII
para uma Páscoa especial

Uma homilia de Pio XII para uma Páscoa especial

“Reconheçam todos que não pode haver serena tranquilidade para as almas, os povos e as nações, a não ser que todas as coisas se componham segundo aquela reta ordem que nasce dos preceitos evangélicos e é confirmada e sustentada pela graça divina.”

Papa Pio XIITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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No solene dia da Páscoa, em pleno Jubileu de 1950, durante a Missa de Ressurreição na Basílica de São Pedro, o Papa Pio XII leu em latim uma breve mas tocante homilia para os fiéis ali presentes. Recordando a doutrina do Corpo místico, o Pontífice ensinava que é impossível haver uma ordem civil justa e serena se não reina na alma dos cidadãos a justiça e a paz que só a graça influencia, só a obediência a uma Lei mais alta sustenta.

Eis a íntegra desta homilia, proferida em 11 de abril de 1950. Seu texto original, em latim, encontra-se disponível no site do Vaticano (cf., também, AAS 42 (1950) 279-282). A tradução para a língua portuguesa foi feita por nossa equipe.


Homilia do Papa Pio XII para o solene dia da Páscoa,
proferida durante a Missa na Basílica Vaticana aos 11 de abril de 1950

Veneráveis Irmãos, diletos filhos,

Enquanto hoje comemoramos cheios de veneração o divino Redentor, que ressurge triunfante da morte, vem à Nossa mente aquela palavra plena de suma sabedoria do Apóstolo dos gentios, ao escrever sobre Cristo: “Foi entregue pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4, 25). Ele, com efeito, pelos suplícios que livremente suportou e derramando até a morte seu preciosíssimo sangue, expiou os nossos pecados e restituiu-nos, redimidos da escravidão do demônio, à liberdade dos filhos de Deus.

Quando, porém, se ergueu vitorioso do sepulcro, não só alimentou e confirmou a fé dos Apóstolos e a nossa, não só, por seu exemplo, nos convidou a caminhar consigo até o Céu e, refulgindo em corpo glorioso, nos mostrou algo da futura bem-aventurança eterna, mas derramou também a mancheias seus divinos carismas e ordenou à Igreja por si constituída que nutrisse com a graça superna e conduzisse à vida nova todos os homens que de bom grado obedecessem aos seus preceitos. Por esta razão, como aguda e lucidamente nota o Doutor Angélico, “quanto […] à eficiência, que é pela virtude divina, tanto a paixão de Cristo quanto a ressurreição são causa da justificação […], mas, quanto à exemplaridade, propriamente a paixão e morte de Cristo é causa da remissão da culpa, pela qual morremos ao pecado; a ressurreição de Cristo, porém, é causa da vida nova, que é pela graça, ou justificação” (STh III 56, 2 ad 4).

Todos nós, pois, que ao longo dos últimos dias, especialmente durante a Semana Santa, recordando piedosamente as dores e angústias de Jesus Cristo, éramos incitados de modo particular a purificar a alma de suas manchas e a dar morte a nossos pecados — os quais, aliás, foram a causa da divina Redenção —, hoje, nesta superna luz da Páscoa e com efusiva alegria, somos chamados àquela restauração e renovação de vida a que os próprios mistérios celebrados suavissimamente nos impelem. Somos o Corpo místico de Jesus Cristo; aonde pois se dirigiu a glória da Cabeça, para lá é chamada a esperança também do Corpo. “Assim como Cristo ressuscitou dos mortos […], assim nós vivamos uma vida nova” (Rm 6, 4). E do mesmo modo que “Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais, nem a morte terá sobre ele mais domínio” (Rm 6, 9), assim também nós, movidos por seu exemplo e fortalecidos por sua graça, não só nos despojemos “do homem velho, o qual se corrompe pelas paixões enganadoras” (Ef 4, 22), mas também “nos renovemos no nosso espírito e nos nossos pensamentos, e revistamo-nos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeiras” (Ef 4, 24).

Estas belíssimas palavras e exortações do Apóstolo dos gentios parecem, de modo particularíssimo, oportunas às solenidades pascais deste Ano Sacro, enquanto os cristãos do mundo inteiro — abertos os tesouros espirituais da Igreja —, são chamados não só a expiar seus pecados, não só a uma forma de vida mais perfeita, mas também a se esforçar com empenho para que todos, purificados de suas culpas e depondo seus erros e preconceitos, se aproximem de bom grado e de boa vontade do único que é o caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 14, 6). Reconheçam todos que não pode haver serena tranquilidade para as almas, os povos e as nações, a não ser que todas as coisas se componham segundo aquela reta ordem que nasce dos preceitos evangélicos e é confirmada e sustentada pela graça divina.

Meditem no que Cristo diz aos Apóstolos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; não vo-la dou, como a dá o mundo” (Jo 14, 27).

Quantos crimes, quantas discórdias, quantas mortes e guerras — como temos experimentado com enorme tristeza — provêm de terem os homens abandonado aquele reto caminho que o divino Redentor indicou com o fulgor de sua luz e consagrou com seu sangue derramado! A ele pois há que se voltar privada e publicamente. E com mente atenta se deve considerar que não pode uma sólida paz governar as cidades sem antes moderar e dirigir primeiro as almas dos cidadãos. É necessário, por conseguinte, coibir com firmeza os apetites túrbidos e desordenados, fazê-los obedientes à razão e esta, enfim, a Deus e à lei divina. A este propósito nos ensina com acerto, embora fosse pagão, o maior orador romano: “A estas perturbações, que a insensatez arroja à vida dos homens e incita qual certas Fúrias, há que resistir com todas as forças e recursos, se queremos isto: viver o que foi dado à vida tranquila e placidamente” (Cícero, Tusc. III 11). Ora, destes “males a cura está posta somente na virtude” (Id., IV 15). Viva pois nas almas, floresça no ambiente doméstico, triunfe na sociedade civil a virtude cristã, a única da qual é lícito esperar aquela renovação dos costumes e a reta e ordenada restauração das coisas públicas que é desejo de todos os bons. Cristo, como bem sabeis, não apenas — o que os filósofos fazem — nos ensina a virtude, senão que também nos exorta com seu exemplo a trabalhar por adquiri-la; excita-nos a vontade, fortalecendo-a com sua graça superna; e, proposto o prêmio da felicidade celeste, nos atrai e impele. Se todos o seguirem, poderão gozar aquela serenidade interna que é a perfeição da alegria (cf. S. Tomás, STh I-II 70, 3), ainda que devam tolerar angústias, perseguições e a injustiça dos homens, porque lhes sucederá o mesmo que sucedeu outrora aos Apóstolos, que “saíam da presença do Sinédrio, contentes por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5, 41).

E, além disso, se de fato todos possuírem esta paz interna e verdadeira, que se funda na lei divina e é alimentada pela divina graça, então não há dúvida de que também a “ordenada concórdia” (S. Agostinho, De civ. Dei XIX, 13) — extintos os ódios, sedados os maus desejos e feita, segundo os imperativos da justiça e da caridade, uma melhor distribuição das riquezas — poderá felizmente nascer para as ordens civis, os povos e as nações. 

É o que Nós, com preces suplicantes, imploramos ao divino Redentor, a quem hoje celebramos ressuscitado e vencedor da morte, enquanto a vós, Veneráveis Irmãos e diletos filhos, repetimos aquelas belíssimas palavras do Apóstolo dos gentios, tão apropriadas para este dia solene: “Alegrai-vos, procurai ser perfeitos, encorajai-vos, tende o mesmo sentir, vivei em paz, e o Deus da caridade e da paz será convosco” (2Cor 13, 11). Amém.

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O corpo incorrupto de Santa Bernadete de Lourdes
Santos & Mártires

O corpo incorrupto de
Santa Bernadete de Lourdes

O corpo incorrupto de Santa Bernadete de Lourdes

Basta observar o corpo intacto de Bernadete Soubirous, em seu relicário, para ter diante de si todos os eventos extraordinários de Lourdes. Aí, de alguma forma, essa vidente de Nossa Senhora está viva. E suas mensagens ressoam com a mesma clareza daqueles dias...

Pe. Andre RavierTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2021Tempo de leitura: 16 minutos
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Em 1925, camadas muito finas de cera foram colocadas sobre o rosto e as mãos do corpo de Santa Bernadete, a fim de disfarçar-lhe os olhos e o nariz fundos, bem como o tom enegrecido do rosto e das mãos [1]. Mas durante a primeira exumação do corpo, em 1909, o rosto de Bernadete era de um “branco opaco”, não era ainda possível ver profundidade em seus olhos e ela tinha as mãos “perfeitamente intactas”. Só o nariz se encontrava já “dilatado e cheio de rugas”. Bernadete — ou Irmã Marie-Bernard, como era conhecida dentro de seu convento — morrera a 16 de abril de 1879, com 35 anos, na Enfermaria Santa Cruz do Convento de São Gildard, sem que seu corpo fosse embalsamado ou tratado de forma especial.

Nascida em uma família humilde que pouco a pouco caiu na extrema miséria, Bernadete sempre foi uma criança frágil. Desde a mais tenra idade sofria com problemas digestivos e, em 1855, depois de escapar de uma epidemia de cólera, passou a sofrer dolorosos ataques de asma. A má saúde quase lhe custou, de maneira definitiva, o ingresso na vida religiosa. Instada por monsenhor Forcade a aceitar Bernadete, a madre Louise Ferrand, superiora das Irmãs de Nevers, respondeu: “Monsenhor, ela será um pilar de nossa enfermaria.”

Santa Bernadete, em fotografia de 1861 ou 1862.

Por pelo menos três vezes ao longo de sua curta existência Bernadete recebeu os últimos sacramentos. Além da asma, ela foi gradualmente acometida por outras doenças, entre as quais uma tuberculose nos pulmões e um tumor tuberculoso no joelho direito. Na manhã de quarta-feira, dia 16 de abril de 1879, sua dor piorou muito. Pouco depois das 11h, sentindo-se quase asfixiada, Bernadete foi levada para uma poltrona, onde se sentou com os pés sobre um escabelo, em frente a uma lareira ardente. Ela morreu por volta das 15h15min. 

As autoridades civis permitiram que seu corpo ficasse exposto para veneração pública até o sábado, 19 de abril, quando ele foi finalmente “depositado em uma urna funerária de chumbo e de carvalho, selada na presença de testemunhas que assinaram um registro dos eventos”. Entre as testemunhas se encontrava “o juiz de paz Devraine e os agentes policiais Saget e Moyen”. 

As Irmãs de São Gildard, com o apoio do bispo de Nevers, solicitaram permissão às autoridades para sepultar o corpo de Bernadete em uma pequena capela dedicada a São José, no interior do convento em que viviam. A permissão foi concedida em 25 de abril de 1879 e, no dia 30 seguinte, a prefeitura local aprovou a escolha do lugar para o enterro. Imediatamente eles começaram a preparar o túmulo e, em 30 de maio de 1879, com uma cerimônia bastante simples, a urna de Bernadete foi finalmente transferida para a cripta da capela.

Primeira exumação, 22 de setembro de 1909. — No outono de 1909, estava completo o trabalho da comissão episcopal de investigar a reputação de Bernadete quanto à santidade, virtudes e milagres com vistas à canonização. O próximo passo era a primeira “identificação do corpo”, como era chamada, que envolvia tanto a identificação de acordo com a lei civil e canônica quanto a verificação do estado do cadáver.

O corpo foi exumado pela primeira vez numa quarta-feira, 22 de setembro de 1909. Os registros oficiais, que se mantêm nos arquivos de Saint Gildard, tornam possível acompanhar quase que passo a passo os procedimentos de identificação. 

O monsenhor Gauthey, bispo de Nevers, e o tribunal eclesiástico adentraram a capela principal do convento às 8h30min da manhã. Uma mesa foi posta na entrada do santuário, e sobre ela os santos Evangelhos. Uma por uma, as três testemunhas (o Abade Perreau, a madre superiora da Ordem, Marie-Josephine Forestier, e sua representante), os médicos (drs. Jourdan e David), os pedreiros Gavillon e Boue e os carpinteiros Cognet e Mary juraram dizer a verdade. 

O grupo se dirigiu então para o interior da capela. O prefeito e o vice-prefeito fizeram questão de cumprir eles mesmos as formalidades legais da ocasião. Assim que a pedra foi levantada do jazigo, o caixão ficou imediatamente visível. Ele foi carregado para uma sala devidamente preparada para isso e colocado sobre dois cavaletes cobertos por um tecido. A um lado se encontrava uma mesa coberta com um pano branco. O corpo — ou, se fosse o caso, os ossos — de Bernadete devia ser colocado sobre ela. 

A urna de madeira foi desparafusada e a de chumbo aberta, revelando o corpo de Bernadete em estado de perfeita conservação. Não havia sequer traço de mau cheiro. As irmãs que a haviam enterrado trinta anos antes notaram apenas que suas mãos haviam caído levemente para a esquerda. Mas as palavras do cirurgião e do médico, pronunciadas sob juramento, falam por si mesmas: 

O caixão foi aberto na presença do bispo de Nevers, do prefeito da cidade, de seu principal sucessor, de vários canonistas, bem como de nós mesmos. Não notamos nenhum mau cheiro. O corpo se encontrava vestido com o hábito da Ordem à qual pertencia Bernadete. O hábito estava úmido. Apenas o rosto, as mãos e os antebraços estavam descobertos.

A cabeça estava inclinada para a esquerda. O rosto era de um branco opaco. A pele estava grudada nos músculos e estes aderiram aos ossos. As órbitas oculares estavam cobertas pelas pálpebras. As sobrancelhas estavam retas na pele e grudadas às arcadas acima dos olhos. Os cílios da pálpebra direita estavam presos à pele. O nariz estava dilatado e enrugado. A boca se encontrava levemente aberta e era possível ver os dentes ainda no lugar. As mãos, cruzadas sobre o seu peito, estavam perfeitamente preservadas, bem como as unhas. As mãos ainda seguravam um rosário enferrujado. Chamavam atenção as veias nos antebraços.

Como as mãos, os pés estavam enrugados e as unhas dos pés ainda estavam intactas (uma delas foi arrancada quando o cadáver foi lavado). Quando os hábitos foram removidos e o véu foi levantado da cabeça, era possível ver o todo do corpo emurchecido, rígido e esticado em cada membro.

Verificou-se que o cabelo, que havia sido cortado curto, estava preso à cabeça e ainda ligado ao crânio; que as orelhas estavam em um estado de perfeita conservação; e que o lado esquerdo do corpo achava-se levemente mais alto que o direito do quadril para cima.

O estômago cedeu e estava esticado, como o resto do corpo. Ele parecia um papelão quando atingido.

O joelho esquerdo não era tão grande quanto o esquerdo. Sobressaíam-se as costelas, bem como os músculos nos membros.

Achava-se tão rígido o corpo, a ponto de ser possível virá-lo e revirá-lo para ser lavado.

As partes inferiores do corpo haviam se tornado levemente enegrecidas. Isso parece ter sido resultado do carbono, do qual grandes quantidades foram encontradas no caixão.

Como prova de tudo isso, redigimos devidamente a presente declaração, na qual tudo está registrado com veracidade.

Nevers, 22 de setembro de 1909.

Drs. Ch. David, A. Jourdan.

As religiosas procederam à lavagem do corpo e depositaram-no em um novo caixão forrado com zinco e acolchoado com seda branca. Nas poucas horas em que ficou exposto ao ar, o corpo havia começado a enegrecer. O duplo caixão foi fechado, soldado, parafusado e lacrado com sete selos. 

Os trabalhadores mais uma vez colocaram o corpo de Bernadete na sepultura. Eram 17h30min quando todo o processo havia terminado. 

O fato de o corpo de Bernadete ter-se encontrado em estado de perfeita conservação não necessariamente é milagroso. Sabe-se que cadáveres se decompõem menos em certos tipos de solo e gradualmente se mumificam. Deve-se notar, no entanto, que no caso de Bernadete esse estado de mumificação é bastante surpreendente. Suas enfermidades e o estado de seu corpo quando morreu, a umidade na sepultura da capela de São José (seu hábito estava úmido, o rosário oxidado e o crucifixo esverdeado), tudo aparentemente devia conduzir à desintegração de sua carne. Deveríamos alegrar-nos, portanto, de que Bernadete se tenha beneficiado de um fenômeno biológico tão raro. Mas não se trata de um “milagre” no sentido estrito da palavra.

Segunda exumação, 3 de abril de 1919. — Em 13 de agosto de 1913, o Papa Pio X, em consequência de uma decisão da Congregação dos Ritos, autorizou a introdução da causa de beatificação e canonização de Bernadete Soubirous e assinou o decreto de venerabilidade. A guerra estourou e tornou-se impossível retomar o caso novamente de maneira imediata, o que só se deu em 1918, quando já era bispo de Nevers o monsenhor Chatelus. Isso tornou necessária outra identificação do corpo da agora Venerável Bernadete. Pediu-se aos drs. Talon e Comte que procedessem ao exame, que se deu em 3 de abril de 1919, na presença do bispo de Nevers, do comissário de polícia, dos representantes municipais e dos membros do tribunal eclesiástico. 

Tudo se encontrava do mesmo modo quando da primeira exumação. Fizeram-se os devidos juramentos, abriu-se a sepultura, o corpo foi transferido para um novo caixão e enterrado novamente, tudo em atenção à lei canônica e à lei civil. Depois de examinarem o corpo, os médicos se retiraram sozinhos para salas separadas a fim de escreverem seus registros pessoais, sem que pudessem consultar os relatórios um do outro. 

Os dois relatórios coincidiam perfeitamente entre si e também com o relatório de 1909 dos doutores Jourdan e David. Só havia um novo elemento relativo ao estado do corpo: a presença de “manchas de mofo e de uma camada de sal, que parecia ser de cálcio”, e que provavelmente fora resultado da primeira lavagem do corpo, quando da primeira exumação. Citamos a seguir apenas as primeiras linhas do relatório do dr. Comte: 

Quando o caixão foi aberto, o corpo aparentava estar absolutamente intacto e desprovido de mau odor. (Dr. Talon foi mais específico: “Não havia cheiro algum de putrefação e nenhum dos presentes experimentou qualquer desconforto.”) O corpo está praticamente mumificado, coberto com manchas de mofo e notáveis camadas salinas, que parecem ser de cálcio. O esqueleto está completo e seria possível transportá-lo para uma mesa sem qualquer dificuldade. A pele desapareceu em alguns lugares, mas ainda está presente na maior parte do corpo. Algumas das veias ainda estão visíveis.

Às 17h daquele dia o corpo foi enterrado de novo na capela de São José, na presença do bispo, da madre Forestier e do comissário de polícia. 

Terceira exumação, 18 de abril de 1925. — Em 18 de novembro de 1923, o Papa reconheceu a autenticidade das virtudes de Bernadete e estava aberto o caminho para sua beatificação.

Uma terceira e última identificação do corpo era requerida para a sua declaração como beata. As relíquias, que teriam como destino Roma, Lourdes e casas da Ordem, seriam retiradas durante essa exumação.

Os drs. Talon e Comte foram novamente requisitados para examinar o corpo, e seria o dr. Comte, cirurgião, a remover-lhe as relíquias.

A cerimônia se deu em 18 de abril de 1925, quarenta e seis anos e dois dias após a morte de Bernadete. Realizou-se privadamente, como a lei canônica exige que aconteça quando a beatificação ainda não foi declarada. Estavam presentes as religiosas da comunidade, o bispo, os vigários gerais, o tribunal eclesiástico, duas testemunhas “instrumentais”, os dois médicos, o comissário de polícia Mabille e, representando as autoridades municipais, Leon Bruneton.

Às 8h30min, na capela do convento, os dois médicos, cujo trabalho era examinar o corpo para a identificação oficial, e os pedreiros e carpinteiros que deveriam abrir o jazigo e tirar o caixão fizeram os juramentos de rotina sobre os Evangelhos.

“Eu juro e prometo fielmente desempenhar o encargo que me foi designado”, declararam os médicos, “e dizer a verdade nas respostas que der às questões que me forem colocadas e nas declarações escritas sobre o exame do corpo da Venerável Serva de Deus, Irmã Marie-Bernard Soubirous, e na retirada de suas relíquias. Isto prometo e faço voto de cumprir. Ajudem-me Deus e os santos Evangelhos.” Cada um dos operários também fez um juramento: “Com minha mão sobre os Evangelhos de Deus eu juro e prometo fielmente desempenhar o encargo que me foi designado. Ajudem-me Deus e os santos Evangelhos.”

O grupo, então, buscou o caixão de Bernadete na capela de São José em procissão e conduziu-o à capela de Santa Helena.

A seguir algumas passagens do relatório do dr. Comte: 

A pedido do bispo de Nevers, separei e removi a seção posterior da quinta e sexta costelas direitas como relíquias; notei que havia uma massa resistente e dura no tórax, que era o fígado coberto pelo diafragma. Também retirei um pedaço do diafragma e do fígado embaixo dele como relíquias, e posso afirmar que esse órgão estava em um estado notável de preservação. Também removi os dois ossos da patela aos quais a pele estava ligada e os quais estavam cobertos com mais matéria de cálcio aderente.

Por fim, removi os fragmentos musculares direitos e esquerdos da parte externa das coxas. Também esses músculos se encontravam em ótimo estado de preservação e não pareciam estar minimamente putrefeitos

A partir dessa verificação concluí que o corpo da Venerável Bernadete está intacto; o esqueleto, completo; os músculos, apesar de atrofiados, estão bem preservados; só a pele, que murchou, parece ter sofrido os efeitos da umidade no caixão. Ela assumiu uma cor cinzenta e está coberta com manchas de mofo e um número considerável de cristais e sais de cálcio; mas o corpo não parece ter-se putrefeito, nem se verificou qualquer decomposição do cadáver, ainda que isso fosse o normal a se esperar depois de um período tão longo dentro de uma vala escavada na terra.

Três anos depois, em 1928, o dr. Comte publicou um “relatório sobre a exumação da Beata Bernadete” na segunda edição do Bulletin de l’Association medical de Notre-Dame de Lourdes, onde escreveu: 

Eu gostaria de ter aberto o lado esquerdo do tórax para retirar as costelas como relíquias e, então, remover o coração, cuja preservação estou certo de que aconteceu. No entanto, o tronco estava levemente apoiado sobre o braço esquerdo, e teria sido bastante difícil tentar chegar ao coração sem causar muitos danos perceptíveis ao corpo. Como a madre superiora exprimiu o desejo de que o coração da santa fosse mantido com o restante do corpo, e o bispo não insistiu, desisti da ideia de abrir o lado esquerdo do tórax e contentei-me em remover as duas costelas direitas, que estavam mais acessíveis.

O cirurgião ficou particularmente impressionado com o estado de preservação do fígado:

O que me impressionou durante a verificação, é claro, foi o estado de perfeita preservação do esqueleto, dos tecidos fibrosos dos músculos (ainda firmes e flexíveis), dos ligamentos e da pele e, sobretudo, a condição totalmente inesperada do fígado depois de 46 anos. O normal seria que esse órgão, basicamente macio e com tendência a se desintegrar, tivesse se decomposto bem rapidamente ou se enrijecesse e assumisse uma consistência calcária. Apesar disso, quando cortado, ele se encontrava macio e com a consistência praticamente normal. Ressaltei isso a todos que estavam presentes, observando que aquele não parecia ser um fenômeno natural

Concluída a fase cirúrgica, o dr. Comte envolveu o corpo com ataduras, deixando livres apenas o rosto e as mãos. O corpo de Bernadete foi então colocado de volta no esquife, mas descoberto. A essa altura, uma impressão precisa da face foi moldada, a fim de que a empresa Pierre Imans, de Paris, confeccionasse uma máscara de cera clara para ela, tomando como base as impressões e algumas fotos genuínas. O temor era de que, por mais que o corpo se encontrasse mumificado, a coloração enegrecida do rosto e os olhos e o nariz encovados causassem ao público uma impressão desagradável.

Também se fizeram impressões das mãos, pelos mesmos motivos, tomando-se cuidado para não alterar de modo algum a posição delas no caixão.

O corpo foi deixado na capela de Santa Helena, mas as portas de acesso a ela foram fechadas e seladas, a fim de que ninguém entrasse. As religiosas que quisessem rezar perto do corpo de Bernadete só podiam vê-la através de uma divisória de vidro. 

Em 14 de junho de 1925, o Papa Pio XI oficialmente beatificou Bernadete. Mas, como não estivesse pronta a urna para o corpo — a qual estava sendo feita no ateliê da empresa de Armand Caillat Cateland, em Lion —, até o dia 18 de julho não foi possível colocar Bernadete em seu relicário. A cerimônia, ao chegar a data, foi bem simples. Uma vez que as autoridades eclesiásticas se certificaram de que tudo na capela de Santa Helena fora deixado como no dia 18 de abril, as religiosas vestiram o corpo de Bernadete com um novo hábito. O escultor tomou as máscaras de cera, feitas com base nas impressões, e colocou-as sobre o rosto e as mãos. Então o corpo foi trasladado numa maca branca até a sala das noviças. Cantou-se por fim o Ofício das Virgens, e o corpo foi depositado em seu relicário.

Na noite de 3 de agosto, a urna foi cerimonialmente transferida da sala das noviças até a capela do convento de São Gildard. Nos três dias subsequentes, 4, 5 e 6, rezaram-se Missas solenes em honra de Bernadete.

Foi em agosto de 1925 que se iniciaram as longas peregrinações dos amigos de Santa Bernadete. Entre eles sempre houve muitos turistas, movidos por pura curiosidade, e até céticos se unindo à multidão que reza.

O corpo de Santa Bernadete, repousando em seu relicário.

“Mas é esse realmente o corpo de Bernadete?”, eles perguntam. “Se é realmente o corpo dela, então ele não foi embalsamado?”

Respostas suficientes a essas questões encontram-se nos relatórios médicos das três exumações, todas elas realizadas sob o rigor do direito canônico e na presença de autoridades civis e eclesiásticas. Sim, é o corpo de Bernadete — intacto — que se encontra no relicário. “É como se estivesse mumificado”, para citar os médicos. Apenas algumas relíquias foram retiradas. Excelentes máscaras de cera foram colocadas sobre a face e as mãos, moldadas a partir de impressões tiradas diretamente do corpo e respaldadas por documentos fotográficos autênticos. Quem quer que viesse a contestar o estado desse corpo, por mais surpreendente que ele possa parecer, estaria questionando a sinceridade de pessoas cujo testemunho é normalmente considerado de autoridade: médicos, policiais, testemunhas juramentadas e membros do tribunal da Igreja.

Sim, esse é o corpo de Bernadete, na mesma atitude de meditação e oração em que ela viveu. É esse o rosto que se levantou dezoito vezes para avistar a “Senhora de Massabielle”; são essas as mãos que manusearam o rosário antes e durante as aparições; são esses os dedos que, ao arranhar a terra, fizeram aparecer uma milagrosa primavera; são esses os ouvidos que escutaram a mensagem e os lábios que repetiram o nome da Senhora ao padre Peyramale: “Eu sou a Imaculada Conceição”. É esse, também, o coração que carregou tão grande amor a Jesus Cristo, à Virgem Maria e aos pecadores. Basta observar esse corpo no relicário para ter diante de si todos os eventos extraordinários de Lourdes: algo da graça de Massabielle toca a alma de quem quer que o visite.

No metal ao redor do relicário encontram-se gravadas estas palavras: “A Virgem”.

Mas era necessário? Uma voz silenciosa alcança o mais profundo do nosso ser através deste corpo frágil, que parece estar absorto em Deus. Aqui Bernadete está presente. Aqui ela está rezando. Aqui está dando o seu testemunho. Ousamos dizer até: aqui, de alguma forma, Bernadete está viva. E as suas mensagens ressoam com a mesma clareza do primeiro dia: aqui Bernadete está cumprindo, dia após dia, diante de cada peregrino que a visita, a missão que a “Imaculada Conceição” lhe deu em nome de Deus. Bernadete nos lembra que Ele é Amor e não se cansa jamais de chamar-nos, a fim de que saiamos das trevas de nosso pecado para a sua Luz maravilhosa.

Notas

  1. Este texto foi baseado nos documentos presentes nos arquivos do convento de Saint Gildard, da diocese e da cidade francesa de Nevers (N.A.).

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