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O que acontecerá com a Europa?
Sociedade

O que acontecerá com a Europa?

O que acontecerá com a Europa?

A Europa vem tentando realizar uma experiência audaz: preservar a sua unidade política, à parte o fundamento histórico de sua unidade cultural e moral. É um projeto notável, mas que tem tudo para dar errado. E o Papa Ratzinger sabe por quê.

Carson HollowayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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O que acontecerá com a Europa? Todas as pessoas atentas e informadas que acompanham os problemas mundiais certamente fazem a mesma pergunta. Uma das mais proeminentes nações europeias, o Reino Unido, abandonou a União Europeia [n.d.t.: a saída foi oficializada no dia 31 de janeiro de 2020]. Um Brexit bem-sucedido abre a possibilidade para que outras nações também deixem de fazer parte do bloco. De repente, é posta em xeque a viabilidade da Europa como um conjunto politicamente integrado, sonho e trabalho de vida de duas ou três gerações de estadistas europeus.

O tema do destino da Europa aponta para a questão mais profunda de sua identidade. Quando nos perguntamos “o que acontecerá com a Europa?” não podemos deixar de nos perguntar “o que é a Europa”. Em outras palavras, o que significa a Europa? O que ela aspira ser? Como observa Joseph Ratzinger, essas perguntas surgem porque a Europa é propriamente entendida não apenas como conceito geográfico, mas também como conceito cultural e histórico. A Europa, diz ele, sempre julgou ter alguma missão universal e algo precioso a oferecer ao mundo. Talvez, por isso, ela não possa permanecer unida politicamente, já que os vários povos que a compõem não estão mais de acordo sobre o que significa ser europeu.  

Tais questões — o que é a Europa e o que ela deveria ser — são analisadas por Ratzinger (hoje, Papa emérito Bento XVI) em Western Culture: Today and Tomorrow [“Cultura Ocidental: Hoje e Amanhã”, sem tradução para o português]. Dificilmente poderíamos desejar um guia mais criterioso para uma investigação como essa. O tratamento que Ratzinger dá a essas questões não é e não pretende ser sistemático. O livro se compõe de várias conferências dadas por ele ao longo dos anos como cardeal da Igreja Católica. Sem embargo, não podemos ler as suas meditações sem a consciência de estarmos na presença de uma mente sábia, incisiva, sóbria e séria. As avaliações ali apresentadas não são surpreendentes sob certos aspectos, mas o são sob outros, e todas são cuidadosas, provocativas (no melhor sentido da palavra) e dignas de um exame sério.

O Papa emérito, no aeroporto de Munique, no último dia 22 de junho. Ele regressava a Roma depois de visitar o irmão Georg, que faleceria em 1.º de julho. (Sven Hoppe/Pool, Reuters.)

Uma Europa à deriva. — Sem dúvida, não é nenhuma surpresa que, para Ratzinger, a Europa perdeu o rumo. Ela deseja obter respeito pelos direitos humanos, pela dignidade humana, pelo primado do direito a serviço do bem comum. De acordo com Ratzinger, esses compromissos morais dependem de uma crença na inteligibilidade do universo, que, por sua vez, depende da crença em Deus como causa inteligível e amorosa do universo — o Criador de uma ordem racional que seja ordenada ao bem do ser humano. A Europa, no entanto, perdeu a sua compreensão do cosmos, a qual sustentava outrora as suas aspirações éticas. Como observa Ratzinger com perspicácia, as elites europeias reconheceram o fracasso econômico do marxismo sem perceber os seus fracassos morais e filosóficos. Ninguém quer o retorno de uma economia planejada pelo Estado. Mas os atuais proponentes do (assim chamado) iluminismo europeu compartilham “com o marxismo a ideia evolucionista de um universo criado por um evento irracional” e, por essa razão, incapaz de fornecer qualquer “direção ética” para os seres humanos. Para muitos intelectuais europeus, o mundo do sentido e da justiça deve ser criado pelos seres humanos. Ratzinger, em contrapartida, argumenta que a ordem pública justa depende de uma moralidade que precede a política. Se a ordem é meramente criada por seres humanos, a maioria (ou quem for mais poderoso na sociedade) fica livre para impor aos fracos quaisquer políticas que desejarem. 

Esse diagnóstico é semelhante ao apresentado pelo grande predecessor de Ratzinger no papado, João Paulo II. Não é de se surpreender que seja sustentado também por seu mais confiável colaborador. No entanto, Ratzinger provavelmente surpreenderá ao menos alguns de seus leitores com o remédio que ele recomenda.

Influenciado por um jornalismo e uma análise cultural superficiais, o atual panorama intelectual do Ocidente é perseguido pela caricatura de um Ratzinger que encarna, de forma quase ideal, a figura do “prelado católico reacionário”. Seus argumentos sobre a cultura ocidental desmentem por completo essa paródia do homem e do pensador. Ratzinger não propõe um regresso à Idade Média. Não busca uma restauração do domínio da Igreja medieval sobre a vida política e social. Em vez disso, enfatiza o caráter secular e limitado do Estado, tal como é compreendido inclusive pelo cristianismo. Para Ratzinger, é possível dizer que o Estado tem um fundamento divino, no sentido de que Deus espera que os cristãos (e todas as pessoas) obedeçam às ordens justas das autoridades estabelecidas. Mas o Estado não tem uma missão sagrada. Seu objetivo não é a salvação das almas ou a imposição da fé cristã à sociedade, mas o estabelecimento da paz e de uma ordem moral justa. Ratzinger sustenta essa perspectiva por meio da referência às fontes cristãs mais antigas e confiáveis, como os Apóstolos e o próprio Cristo, que aconselhou os seus discípulos a obedecerem às autoridades políticas, ainda que o Estado existente naquele tempo, o Império Romano, certamente não fosse cristão.

Ratzinger pensa que a Europa moderna perdeu o rumo, mas ele não propõe um retorno à cristandade medieval. Portanto, para onde a Europa deveria retornar? Ratzinger retoma um estágio anterior (mas não muito distante) da história da Europa, uma época na qual o liberalismo europeu entendia a política principalmente em termos seculares, mas ainda assim entendia a si mesmo — entendia a Europa — como uma manifestação da cultura cristã. Segundo Ratzinger, os principais estadistas responsáveis pela reconstrução de uma justa paz depois da II Guerra Mundial — homens como Winston Churchill, Konrad Adenauer, Robert Schuman e Alcide De Gasperi — eram guiados pelas exigências morais que haviam aprendido da “fé cristã”. Procurando ir além da insanidade ideológica que havia devastado a Europa, eles buscaram estabelecer não um “Estado confessional” cristão, mas antes um “Estado permeado pelo pensamento ético” que a fé cristã sustenta — uma razão moral que vai além do mero cálculo de consequências e reconhece a dignidade e os direitos dos seres humanos como tais. Ratzinger recorda bem o que muitos leitores contemporâneos esqueceram ou jamais souberam: os principais estadistas ocidentais daquela época entendiam a II Guerra como uma luta para preservar a “civilização cristã”, e assim a chamavam publicamente. 

Quando analisamos o assunto desse ponto de vista, talvez não surpreenda o fato de Ratzinger — um homem de sensibilidades modernas, mas conservadoras — propor um retorno à organização política que prevaleceu em sua juventude. No entanto, não é razoável passar por cima do argumento dele como se fosse simples nostalgia. Afinal de contas, como Ratzinger mesmo afirma, e como qualquer um pode perceber, há sinais de que a Europa contemporânea está em apuros, sinais de que é insustentável a forma como o europeu de hoje compreende a si mesmo.

Preservando a cultura europeia. — Deixando de lado a questão de se a Europa pode manter-se ou não como unidade legal e política, também nos podemos perguntar se ela ao menos é capaz de preservar e transmitir-se como cultura. Ratzinger observa que a Europa “parece ter-se esvaziado”, inclusive em seu “momento de maior êxito”. Os europeus já não querem ter filhos o suficiente para preservar a vida de suas nações ao longo do tempo. Essa relutância talvez seja resultado do declínio na crença em Deus e, portanto, na bondade da Criação. Em condições normais, é mais provável que um casal considere os filhos um dom de um Deus benevolente do que meros produtos do acaso e da necessidade. É mais provável que os pais tenham mais confiança em gerar novas vidas quando acreditam que elas entrarão no reino do ser e da bondade governado por um Deus benevolente, e não quando creem que o universo não é mais do que o produto de forças indiferentes à vida humana. Seja como for, não há dúvida de que uma cultura que reluta em gerar filhos não conseguirá sobreviver.

Sem dúvida, os defensores da Europa contemporânea responderão que a transmissão cultural não depende, necessariamente, da reprodução biológica. A Europa pode transmitir os seus valores a recém-chegados, a imigrantes que darão continuidade ao projeto europeu depois que os europeus de origem desaparecerem. Isso de fato é possível, mas é algo que parece exigir uma autoconfiança moral e cultural que os europeus de hoje não possuem. Ratzinger observa que os europeus rejeitaram a crença em Deus, porque passaram a enxergá-lo como um limite para a liberdade individual. A crença em Deus, no entanto, dominou boa parte da história da Europa. Portanto, os europeus de hoje devem considerar o seu próprio passado como um período de opressão. Daí vem o “o ódio a si mesmo no mundo ocidental, que é estranho e pode ser considerado patológico”. Trata-se de uma cultura que “já não ama a si mesma”, e sobre a qual poderíamos nos perguntar até mesmo se “deseja sobreviver”. Como uma tal cultura poderia transmitir a novas gentes uma herança que ela mesma despreza? 

Mais uma vez, o defensor da Europa contemporânea pode responder que tudo isso é irrelevante, pois ela não deseja preservar e transmitir a sua antiga herança moral e cultural. Quer apenas transmitir os seus valores modernos — isto é, uma concepção universal secular e racionalista dos direitos humanos, dissociada de qualquer herança religiosa específica. Ratzinger sugere que, neste ponto, os europeus contemporâneos estão se enganando a si mesmos. Ele observa que a racionalidade exclusivamente secular parece óbvia para os ocidentais porque foi desenvolvida no Ocidente. Ela está “ligada a contextos culturais específicos” e, “enquanto tal, não pode ser reproduzida na humanidade inteira”. Um racionalismo puramente secular — a razão não permeada por crenças religiosas — é estranho à maioria dos povos, e há poucos motivos para achar que eles o aceitarão apenas por começarem a viver na Europa. 

Os europeus de hoje parecem acreditar que esses problemas serão superados pelo progresso. A crença no progresso é, para o europeu contemporâneo, o substituto da crença em Deus. As meditações de Ratzinger, no entanto, revelam alguns motivos por que essa confiança no progresso está desconectada da realidade e é, inclusive, incoerente. Ratzinger recorda que ela está desconectada da realidade porque a natureza humana “começa de novo em cada ser humano”. A geração seguinte não adquire, necessariamente, crenças e hábitos mais justos e humanos do que a anterior. O tipo de progresso moral que os europeus presumem exige que as raízes históricas e cristãs da crença na dignidade humana no Ocidente sejam reconhecidas e transmitidas, um empreendimento ao qual o europeu de hoje é indiferente ou hostil. A crença do europeu no progresso é incoerente porque não há razão para pensar que um progresso confiável surgiria num universo que, fundamentalmente, não se encontra governado por nenhum princípio inteligente ou benevolente.  

Atualmente, a Europa vem tentando realizar uma experiência notável. Ela tenta preservar e até ampliar a sua unidade política, ao mesmo tempo que abandona e despreza o fundamento histórico de sua unidade cultural e moral. O Brexit pode ser apenas o primeiro exemplo dos problemas que essa experiência poderá gerar. Em tais circunstâncias duvidosas, seria razoável procurar o conselho de vozes que a Europa está acostumada a ignorar e até desprezar. Uma Europa conturbada faria bem em começar o seu exame de consciência ao escutar a voz de Joseph Ratzinger. Ele recorda aos leitores que isso não implicaria uma submissão à autoridade espiritual da Igreja Católica, mas somente um compromisso respeitoso e compreensivo com a história moral e religiosa que deu origem à Europa.

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Vida e martírio de São Mateus
Santos & Mártires

Vida e martírio de São Mateus

Vida e martírio de São Mateus

Quem foi o Apóstolo e evangelista São Mateus, antes e depois de conhecer Nosso Senhor? Onde Ele pregou após a Ressurreição e Ascensão de Jesus aos céus? E como foi o seu martírio? É o que nos contam estas piedosas páginas da tradicional “Legenda Áurea”.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe CNP21 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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1. Nome. — Mateus teve dois nomes, Mateus e Levi. Mateus quer dizer “dom precoce” ou “conselheiro”. Ou Mateus vem de magnus, “grande”, e θεός, “Deus”, como se se dissesse “grande para Deus”, ou então vem de manus, “mão”, e de θεός, significando “mão de Deus” [1]. Com efeito, a) ele foi um dom precoce por sua rápida conversão, b) foi conselheiro por sua salutar pregação, c) foi grande diante de Deus pela perfeição de sua vida e d) foi a mão de que Deus se serviu para escrever o seu Evangelho. — Levi quer dizer “retirado”, “colocado”, “acrescentado”, “incorporado”. Ele foi a) retirado de seu posto de cobrança de impostos, b) colocado entre os Apóstolos, c) acrescentado à comunidade dos evangelistas e d) incorporados ao catálogo dos mártires.

2. Gestas. — O Apóstolo, ao pregar na Etiópia, em uma cidade chamada Nadaber, encontrou dois magos, Zaroés e Arfaxat, que entusiasmavam os homens com seus truques, parecendo ter o poder de os privar da saúde e do uso de seus membros. Cheios de soberba, faziam-se adorar como deuses pelos homens. Tendo chegado a essa cidade e sido hospedado pelo eunuco da rainha Candaces, batizado com o nome de Filipe, o Apóstolo Mateus notou como o prestígio daqueles magos era pernicioso aos homens e, por isso, os quis converter.

O evangelista S. Mateus, pintado por Francisco Bayeu y Subías.

Quando o eunuco perguntou a S. Mateus como era possível que ele falasse e compreendesse tantas línguas, o Apóstolo explicou que, depois da vinda do Espírito Santo, recebera o conhecimento de todos os idiomas. Porque, assim como, por soberba, alguns quiseram edificar uma torre que chegasse ao Céu, mas viram-se forçados a interromper a construção por causa da confusão das línguas, os Apóstolos construiriam, não com pedras, mas com virtudes, pelo conhecimento de todos os idiomas, uma Torre para todos os que crerem subirem até o Céu.

Então, alguém veio anunciar a chegada dos dois magos, acompanhados de dragões que vomitavam fogo sulfúrico pela boca e pelas narinas, matando a todos os homens [2]. O Apóstolo, munindo-se com o sinal da cruz, foi com segurança em direção a eles. Mal o viram, foram os dragões deitar-se aos seus pés. Mateus disse então aos magos: “Onde está vossa arte? Despertai-os, se puderdes. De minha parte, se eu não me houvera encomendado ao Senhor, ter-vos-ia feito a vós o que pensáveis fazer comigo”. Como o povo se reunisse, Mateus ordenou que os dragões fossem embora em nome de Jesus, e eles partiram no mesmo instante sem fazer mal a ninguém. Ele começou então a fazer um grande sermão ao povo sobre a glória do Paraíso terrestre, afirmando ser mais alto do que todas as montanhas, estar próximo do Céu; que lá não há espinhos, os lírios e as rosas não fenecem, a velhice não existe, os homens permanecem sempre jovens, os coros dos anjos cantam; quando se chamam as aves, elas obedecem imediatamente. Acrescentou ainda que o homem fora expulso do Paraíso terrestre, mas que, pelo nascimento de Cristo, fora chamado ao Paraíso celeste.

Enquanto falava ao povo, ouviu-se de repente um alarido: eram choros pela morte do filho do rei. Ora, como os mágicos não o pudessem ressuscitar, convenceram o rei de que o menino fora levado na companhia dos deuses; por isso, era necessário erguer-lhe uma estátua e um templo. O eunuco mandou vigiar os mágicos e convocou o Apóstolo, o qual, depois de ter rezado, ressuscitou no mesmo instante o jovem. Por causa disso, o rei, chamado Egipo, mandou que se divulgasse por todas as suas províncias: “Vinde ver um deus oculto sob a aparência de homem!”

Muitos vieram com coroas de ouro e diferentes tipos de sacrifícios a serem oferecidos ao Apóstolo; mas Mateus os impediu, dizendo: “Homens, que fazeis? Não sou um deus; apenas um escravo do Senhor Jesus Cristo”. Então, com a prata e ouro que tinham levado, as turbas construíram em trinta dias uma grande igreja, na qual o Apóstolo permaneceu por trinta e três anos e converteu o Egito inteiro. O rei, sua mulher e todo o povo fizeram-se batizar; Ifigênia, a filha do rei, consagrou-se a Deus e foi posta à frente de duzentas virgens.

Depois disso, Hírtaco sucedeu ao rei, enamorou-se de Ifigênia e prometeu ao Apóstolo metade do reino, se ele a fizesse aceitá-lo em casamento. O Apóstolo lhe disse que fosse no domingo à igreja, segundo costume de seu predecessor, e, na presença de Ifigênia e das outras virgens, ouvisse sobre os benefícios do casamento. O rei se apressou em ir, alegre por supor que o Apóstolo pretendesse aconselhar o casamento a Ifigênia.

Quando as virgens e todo povo estavam reunidos, Mateus falou longamente sobre as vantagens de se casar, sendo muito elogiado pelo rei, crente que o Apóstolo dissera tudo aquilo para animar Ifigênia e convencê-la a se casar. Depois de pedir que se fizesse silêncio, o Apóstolo retomou o sermão, dizendo: 

É coisa boa o matrimônio, quando nele se guarda a fidelidade. Sabei, pois, os presentes que, se um escravo se atrevesse a raptar a esposa do rei, não somente ofenderia o rei como também mereceria a morte, não por ter-se casado, mas porque convecera a esposa de seu senhor a violar o matrimônio. E o mesmo aconteceria contigo, ó rei: saibas que Ifigênia tornou-se esposa do Rei eterno e está a Ele consagrada por um véu sagrado. Assim, pois, como poderias tu tomar a esposa de outrem mais poderoso e unir-se a ela pelo casamento?

Quando o rei ouviu isso, retirou-se da igreja, louco de raiva. O intrépido e firme Apóstolo exortou todos à paciência e à constância; em seguida, abençoou Ifigênia, que, trêmula de medo, prostrara-se diante dele com as outras virgens. Terminada a Missa solene, o rei enviou um carrasco, que com a espada atingiu Mateus, que se encontrava de pé, orando diante do altar com os braços estendidos para o Céu. E assim fez dele um mártir. 

Ao saber disso, o povo acudiu ao palácio do rei para o incendiar, e só com muita dificuldade os padres e diáconos puderam contê-lo. Depois, celebrou-se com alegria o martírio do Apóstolo.

Como o rei não conseguisse por nenhum meio fazer Ifigênia mudar de resolução — apesar da insistência dos magos e das mulheres que para isso lhe enviava —, mandou atear fogo em volta da casa da jovem, a fim de queimá-la junto com as outras virgens. No entanto, o Apóstolo apareceu e afastou o fogo, que acabou atingindo e consumindo o palácio inteiro do rei. Só conseguiram escapar o rei e seu filho único, o qual, porém, foi imediatamente possuído pelo demônio e correu ao sepulcro do Apóstolo, confessando os crimes de seu pai. O rei foi atacado por uma lepra terrível, que não podia ser curada, e ele se matou com a própria espada. O povo pôs no trono o irmão de Ifigênia, que fora batizado pelo Apóstolo. Ele reinou por setenta anos e foi substituído por seu filho, que ampliou enormemente o culto cristão e encheu toda a Etiópia de igrejas em honra de Cristo. Quanto a Zaroés e Arfaxat, desde o dia em que o Apóstolo ressuscitou o filho do rei, fugiram para a Pérsia, mas foram ali vencidos por Simão e Judas [3].

3. As virtudes. — Sobre o bem-aventurado Mateus se devem notar quatro coisas.

a) Primeira: a prontidão de sua obediência, pois no mesmo instante em que Cristo o chamou, ele abandonou seu ofício de publicano e, sem temer seus senhores, deixou inacabadas as listas de impostos para juntar-se a Cristo. Essa prontidão na obediência induziu alguns ao erro, como relata Jerônimo em seu comentário a essa passagem do Evangelho: 

Porfírio e o imperador Juliano acusam-no, enquanto historiador, de mentira e inabilidade, e chamam de loucura a conduta dele e de outros que se puseram sem demora a seguir o Salvador, como teriam, sem motivo algum, seguido qualquer outro homem. Ora, Jesus dera antes tantos sinais de suas virtudes, que sem dúvida os Apóstolos já O tinham visto antes de crer. Com efeito, o brilho e a majestade divinos reluziam em sua face humana e podia, à primeira vista, atrair os que O viam. Se se atribui ao ímã a força de atrair anéis e varetas, com muito mais razão o Senhor de todas as criaturas podia atrair a si aqueles que queria.

Assim falou Jerônimo.

b) Segunda: sua generosidade ou liberalidade, pois logo serviu ao Salvador um grande banquete em sua casa, banquete que foi grande não apenas porque foi lauto, mas por quatro outras razões. Primeira, pela decisão de receber a Cristo com grande amor e afeto. Segunda, pelo mistério contido naquela acolhida e assim explicado pela Glosa sobre Lucas: “Aquele que recebe a Cristo em sua casa é tomado por uma torrente de delícias e prazeres”. Terceira, pelos grandes ensinamentos que Ele deu ali, como: “Quero misericórdia, e não sacrifício”, e: “Os sãos não precisam de médico”. Quarta, pela importância dos convidados que estavam à mesa, a saber: Cristo e seus discípulos.

“A inspiração de S. Mateus”, por Caravaggio.

c) Terceira: sua humildade, que se manifestou em duas ocasiões. Primeira, quando confessou ser um publicano. Os outros evangelistas — diz a Glosa —, por um sentimento de pudor e respeito, não lhe dão nome; mas como todo justo é seu próprio promotor, ele se chama a si mesmo de Mateus e publicano, para mostrar que ninguém deve desesperar da salvação, pois ele, de publicano, foi transformado em Apóstolo e evangelista. Segunda, quando suportou com paciência as injúrias de que era alvo. Com efeito, quando os fariseus murmuravam de Cristo por ter-se alojado na casa de um pecador, Mateus poderia com razão responder: “Sois vós os miseráveis e pecadores, pois recusais o socorro do médico pensando que sois justos, enquanto eu não posso mais ser chamado de pecador, porque recorro ao Médico da salvação e lhe mostro minhas feridas”.

d) Quarta: a honra que seu evangelho recebe na Igreja, lido com mais frequência do que o dos outros evangelistas e considerado, junto com os Salmos de Davi e as Epístolas de Paulo, entre os livros da Escritura que mais são lidos na Igreja. A razão disso é que, segundo Tiago, há três gêneros de pecado: a saber: o de orgulho, o de luxúria e o de avareza. Paulo, que antes se chamava Saulo (nome derivado do soberbíssimo rei Saul), cometeu o pecado de orgulho quando perseguiu desenfreadamente a Igreja. Davi entregou-se ao pecado de luxúria, cometendo adultério e, em consequência desse primeiro pecado e crime, mandando matar a Urias, o mais fiel de seus soldados. Mateus cometeu o pecado de avareza, pois era publicano e atraído por lucros desonestos. O posto de cobranças (o τελώνῐον, de τέλος, que, segundo Beda, quer dizer “imposto”), diz Isidoro, é um lugar em um porto marítimo onde são recebidas as mercadorias do navios e pagos os ordenados dos marinheiros.

Ainda que se possa dizer que os três foram pecadores, a penitência deles foi tão agradável ao Senhor, que Ele não apenas lhes perdoou as faltas como os cumulou de múltiplos benefícios. Do mais cruel perseguidor fez o mais fiel pregador; de um adúltero e homicida fez um profeta e salmista; de um homem ávido por riquezas e avarento fez um Apóstolo e evangelista. É por isso que as palavras desses três são tão frequentemente lidas: que ninguém que deseje converter-se perca a esperança, ao ver em que transformou a graça aqueles que tão grandes foram na culpa.

4. Sua conversão. — Note-se que, segundo o beato Ambrósio, na conversão do bem-aventurado Mateus há certas particularidades a considerar a) do lado do médico, b) do lado do enfermo curado e c) do lado da maneira de curar.

“A vocação de S. Mateus”, por Caravaggio.

a) No médico houve três qualidades: a sabedoria que conheceu o mal em sua raiz, a bondade que empregou e o poder dos remédios, que puderam transformar tão subitamente. Ambrósio fala dessas três qualidades como se falasse em nome do próprio Mateus. Quanto à primeira: “Aquele que conhece o que está oculto pode tirar a dor de meu coração e a palidez de minha alma”. Quanto à segunda: “Encontrei o Médico que habita nos Céus e semeia os remédios na Terra”. Quanto à terceira: “Só aquele que não as experimentou pode curar minhas feridas”.

b) No enfermo que é curado, isto é, em Mateus, há três ponderações a serem feitas, segundo Ambrósio. Ele se livrou perfeitamente da doença, permaneceu grato àquele que o curara e, depois que recuperou a saúde, conservou-se sempre limpo. Por isso disse: “Já não sou mais aquele publicano: não sou mais Levi. Despojei-me de Levi quando me revesti de Cristo”, que é a primeira ponderação; “Odeio minha raça, fujo de minha vida, sigo apenas a ti, Senhor Jesus, que curaste minhas feridas”, que é a segunda; “Quem me separará do amor de Deus, que reside em mim? Será a tribulação, a miséria, a fome?”, que é a terceira.

c) Segundo o bem-aventurado Ambrósio, o modo de cura foi tríplice. Primeiro, Cristo o acorrentou; depois, cauterizou-o; por fim, livrou-o de todas as podridões. Daí dizer Ambrósio, como se fora o próprio Mateus: “Fui atado com os cravos da fé e os laços da caridade. Enquanto estou preso pelos vínculos do amor, tira, Jesus, a podridão de meus pecados; corta tudo o que encontrares de vicioso”. É o primeiro modo. “Teu mandamento será para mim um cautério, e se o cautério do teu mandamento queima, queima apenas a carne podre, o vírus do contágio. De modo que, se o medicamento atordoa, é para extrair a úlcera do vício”. É o segundo modo. “Vem rápido, Senhor! Corta as paixões ocultas e profundas. Abre depressa a ferida, para o mal não se agravar. Purifica tudo o que é fétido em um banho salutar”. É o terceiro modo.

O evangelho de Mateus escrito por sua mão foi achado no ano do Senhor de 500, junto com os ossos do beato Barnabé. Este Apóstolo levava consigo o evangelho e o punha sobre os enfermos, que eram todos curados tanto pela fé de Barnabé quanto pelos méritos de Mateus.

Referências

  1. Trata-se de etimologias populares. Na verdade, Matthæus (gr. Μαθθαῖος ou Ματθαῖος) é, provavelmente, a transcrição da forma hebraica Mattai, que significa “presente” ou “dádiva” de Deus (= donatus a Deo), à semelhança de Theodorus, Adeodatus (cf. “Matanias”, em 1Cr 9, 15). Alguns autores, de posição minoritária, derivam o nome do termo hebraico emeth (= fé), sob a forma Amittai (= “Fiel”, cf. Jn 1, 1, vulg. Amathi), tendo a letra Aleph se perdido por influência do aramaico.
  2. Sobre os “dragões” e outras coisas fantásticas de que falam muitas histórias da Legenda Áurea, verificar as considerações que fizemos em um texto sobre São Jorge e em outro sobre São Cristóvão.
  3. Para saber mais sobre os fatos da vida de S. Mateus após Pentecostes, leia-se a breve exposição sobre o seu evangelho na aula n. 5 do nosso curso exclusivo Evangelhos Sinóticos.

Notas

  • Este texto foi publicado a partir da tradução brasileira da Legenda Áurea (trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 778ss), mas não sem ser cotejado, antes, com o original latino e adaptado passim.

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O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!
Sociedade

O que é hedonismo?
Muito mais do que você pensa!

O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!

O hedonismo infectou profundamente a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, mas totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Alguns dias atrás, no Evangelho, Jesus expôs a necessidade de aceitar as cruzes da nossa vida e carregá-las (cf. Mt 16, 24). Ora, as cruzes não são apenas os grandes sofrimentos da vida, como doenças, a morte de um ente querido, a perda de um emprego e assim por diante. Existem também as cruzes diárias de autodisciplina, trabalho árduo, obediência, contratempos, consequências das nossas decisões, limites para o que podemos fazer e a cruz de resistir à tentação.

Em oposição a esse ensino do Senhor está o hedonismo. A maioria das pessoas hoje associa o hedonismo ao excesso sexual e talvez à bebida. Mas o hedonismo é uma noção muito mais ampla, e é por isso que S. Paulo disse: “Mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo (pedra de tropeço) para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1, 23). Para os judeus, Jesus crucificado era uma pedra de tropeço, pois eles acreditavam que qualquer pessoa pendurada em uma árvore era amaldiçoada por Deus (cf. Dt 21, 22s). Mas, para os gregos e romanos, a cruz era um absurdo, devido à filosofia hedonista difundida entre eles. Então, o que é hedonismo?

“Uma Festa Romana”, de Roberto Bompiani.

Hedonismo é a doutrina segundo a qual o prazer ou a felicidade são o único ou o principal bem da vida. Vem da palavra grega hēdonē, que significa “prazer”, e é semelhante à palavra grega hēdys, que significa “doce”.

É claro que o prazer pode ser desejado e, até certo ponto, procurado, mas não é o único bem da vida. Na verdade, alguns de nossos maiores bens e realizações exigem sacrifício: anos de estudo e preparação para uma carreira; sangue, suor e lágrimas para criar filhos.

O hedonismo busca evitar sacrifícios e sofrimentos a todo custo. É diretamente oposto à teologia da cruz. S. Paulo falou em seus dias dos inimigos da cruz de Cristo. Seu fim é a destruição; seu deus, o estômago; e eles se gloriam da própria desonra, com a mente voltada para os prazeres terrenos (cf. Fl 3, 18s). Como dissemos, ele também ensinou que a cruz era um absurdo para os gentios (cf. 1Cor 1, 23).

As coisas não mudaram, meus amigos. O mundo reage com grande indignação sempre que a cruz ou o sofrimento estão implícitos. Portanto, o mundo clamará, exasperado e perplexo, e perguntará, incrédulo, à Igreja: estais dizendo que uma mulher que foi estuprada deve levar a gestação até o fim, sem poder abortar? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa gay deve viver o celibato, sem nunca poder “casar” com seu amante do mesmo sexo? Sim, estamos. Estais dizendo que uma criança deficiente no útero deve ser “condenada” a viver no mundo, sem poder ser abortada e expulsa de sua (ou, mais precisamente, nossa) “miséria”? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa que sofre não pode ser sacrificada para evitar a dor? Sim, estamos.

A expressão de choque ante esse tipo de pergunta mostra o quão profundamente o hedonismo infectou a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, é totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro. Para o hedonista, uma vida sem prazer suficiente é uma vida que não vale a pena ser vivida, e qualquer um que busque estabelecer limites para os prazeres legítimos (e, às vezes, ilegais) dos outros é mesquinho, odioso, absurdo, obtuso, intolerante e simplesmente mau.

Quando o prazer é o único objetivo ou bem da vida, você, a Igreja ou qualquer pessoa não pode ousar estabelecer limites, muito menos sugerir que o caminho da cruz seja melhor ou obrigatório! Se você o fizer, será banido, silenciado, destruído.

Muitos católicos fiéis, nos bancos de nossas igrejas, estão profundamente infectados com a ilusão do hedonismo. Por isso, assumem uma postura de perplexidade, raiva e zombaria sempre que a Igreja aponta para a cruz e insiste na abnegação, no sacrifício e em fazer a coisa certa, mesmo quando o custo a ser pago é alto. Nas igrejas, em geral, o balançar negativo das cabeças é visível quando um padre ousa pregar que o aborto, a eutanásia, a fertilização in vitro e a contracepção são errados, independentemente do preço a pagar, ou quando se fala sobre a realidade da cruz. Os fiéis que nadam nas águas de uma cultura hedonista geralmente ficam chocados com qualquer coisa que possa limitar o prazer que desejam.

O hedonismo faz os mistérios cristãos centrais, da cruz e do sofrimento redentor, parecerem coisa de um planeta distante ou de um universo paralelo e estranho. A palavra que sai da boca de Jesus: “Arrependei-vos”, soa estranha ao mundo hedonista. Tanto, que este chegou até mesmo a “reconstruir” Jesus como alguém que quer que “sejamos felizes e contentes”. As vozes se elevam, mesmo entre os fiéis: “Deus não quer que eu seja feliz?” Ora, com base nisso, qualquer tipo de comportamento pecaminoso deveria ser tolerado, já que insistir no contrário é “difícil” e pode parecer “mau” falar da cruz ou de autodisciplina em uma cultura hedonista.

Trazer as pessoas de volta para o verdadeiro Jesus e a verdadeira mensagem do Evangelho, que apresenta a cruz como o caminho para a glória, exige muito trabalho e longas conversas. Devemos estar preparados para ter uma longa conversa com as pessoas.

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As quinze orações de Santa Brígida
Oração

As quinze orações de Santa Brígida

As quinze orações de Santa Brígida

Estas famosas orações em honra à Paixão de Cristo muito provavelmente não foram escritas por Santa Brígida. Mas a espiritualidade de sua Ordem está aqui, e o valor catequético e penitencial desta devoção permanece em nossos dias.

Preces LatinaeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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As quinze orações a seguir, atribuídas a S. Brígida da Suécia (1303-1373), muito provavelmente foram escritas por místicos da sua Ordem, no século XV. Foram publicadas inúmeras vezes ao longo dos séculos, com variação considerável nos textos e até mesmo na ordem das invocações.

Constituem, em si mesmas, uma meditação piedosa sobre os mistérios da Paixão e Morte de Cristo. Eram bastante populares durante a Baixa Idade Média, sendo item frequente nos manuais de oração da época. Cumprem um duplo propósito: catequético, instruindo as pessoas nos episódios mais importantes da vida de Nosso Senhor, e penitencial, excitando-lhes o amor a Deus e o arrependimento dos próprios pecados.

Em muitos lugares estas preces estão associadas a uma lista de promessas supostamente reveladas a S. Brígida quando de sua visita à Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma. As tais promessas listam uma série de incríveis benefícios, que seriam concedidos a quem recitasse estas orações todos os dias ao longo de um ano, e incluem a libertação de 15 almas dos entes queridos do Purgatório e a conversão de 15 pecadores da própria família. A verdade, porém, é que essas promessas jamais foram feitas a S. Brígida e tampouco têm qualquer aprovação eclesiástica que seja.

É muito de se lamentar que essas promessas ainda constem em livros de oração nos nossos dias, pois a própria Congregação do Santo Ofício proibiu, em 1954, a sua publicação [1]. Mas, ainda que não houvesse uma censura a essas promessas vinda de Roma, o conteúdo delas é, de fato, arbitrário e fantástico demais para ser credível. Não temos dúvidas de que abundantes frutos espirituais podem ser colhidos da leitura e meditação das linhas abaixo, mas promessas como as que circulam, associadas a estas orações, terminam transformando em superstição o que deveria ser antes um convite ao fervor na oração, à conversão interior e ao apostolado com as pessoas mais próximas de nós.

A tradução abaixo foi feita por nossa Equipe a partir do texto em latim encontrado na edição de 1670 do livro Paradisus Animæ Christianæ, de Jacob Merlo Horst, e que também pode ser acessado no site Preces Latinæ.


“A Oração no Horto”, de Giandomenico Tiepolo.

Oração I. — Ó Jesus Cristo, eterna doçura dos que vos amam, júbilo que excede toda alegria e todo desejo, salvação e amante dos pecadores, que achais vossas delícias em estar com os filhos dos homens e pelo homem vos fizestes homem na plenitude dos tempos: lembrai-vos de tudo o que previstes e da íntima tristeza que, em vosso Corpo humano, suportastes ao aproximar-se o tempo de vossa salubérrima Paixão, preordenado em vosso divino Coração.

Lembrai-vos da tristeza e da amargura que, pelo vosso testemunho, tivestes em vossa Alma, quando, na Última Ceia, entregastes aos vossos discípulos o vosso Corpo e Sangue, lavastes-lhes os pés e, consolando-os docemente, predissestes vossa iminente Paixão. 

Lembrai-vos de todo o tremor, da angústia e da dor que em vosso delicado Corpo, antes da Paixão de vossa Cruz, suportastes quando, após vossa tríplice oração e o suor de Sangue, fostes traído por Judas, vosso discípulo; preso pela gente escolhida; acusado por falsas testemunhas; injustamente julgado por três juízes; condenado, embora inocente, na cidade eleita, no tempo pascal, na florida juventude de vosso Corpo; despido da vossa própria veste e coberto de vestes alheias; esbofeteado; tivestes vossos olhos e rosto cobertos e fostes espancado, preso à coluna, flagelado, coroado de espinhos, com uma cana ferido na cabeça e lacerado com inumeráveis outras calúnias.

Dai-me, Senhor Deus, eu vo-lo peço, pela memória dessas paixões antes de vossa Cruz, uma verdadeira contrição antes de minha morte, uma pura Confissão, uma digna satisfação e a remissão de todos os pecados. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração II. — Ó Jesus, criador do mundo, a quem nenhuma dimensão pode compreender, que abarcais a Terra com um palmo: recordai-vos de vossa amaríssima dor, que suportastes quando os judeus pregaram vossas santíssimas mãos à Cruz com pregos embotados e, a fim de perfurar vossos delicadíssimos pés, como não lhes fosse o bastante, acrescentaram dor sobre dor às vossas chagas, e assim cruelmente vos distenderam e estenderam pelos braços de vossa Cruz, para que se dissolvessem os vínculos dos vossos membros.

Eu vos imploro, pela memória desta sacratíssima e amaríssima dor na Cruz, que me deis o vosso temor e amor. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

“Cristo na Cruz”, de Eugène Delacroix.

Oração III. — Ó Jesus, médico celeste, recordai-vos do langor, do livor e da dor que, elevado no alto patíbulo da Cruz, padecestes em todos os vossos membros dilacerados, dos quais nenhum permaneceu em bom estado, de modo que não se achasse dor nenhuma semelhante à vossa, pois desde a planta dos pés até o alto da cabeça não havia em vós coisa sã, e no entanto, esquecido de todas as dores, rogastes piedosamente ao Pai pelos vossos inimigos, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Por esta misericórdia e pela memória daquela dor, concedei-me que esta memória de vossa amaríssima Paixão me alcance a plena remissão de todos os meus pecados. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração IV. — Ó Jesus, verdadeira liberdade dos anjos, paraíso de delícias, lembrai-vos da tristeza e do horror que suportastes, quando todos os vossos inimigos, quais leões ferocíssimos, puseram-se ao vosso redor e, com bofetadas, cusparadas, lacerações e outras penas inauditas, vos maltrataram.

Por estas penas e por todas as palavras contumeliosas e os duríssimos tormentos com que vos afligiram, Senhor Jesus Cristo, todos os vossos inimigos, eu vos imploro que me livreis de todos os meus inimigos, visíveis e invisíveis, e me deis chegar, à sombra de vossas asas, à perfeição da salvação eterna. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração V. — Ó Jesus, espelho da claridade eterna, lembrai-vos daquela tristeza que tivestes quando, no espelho de vossa sereníssima majestade, vistes a predestinação dos eleitos, que se haviam de salvar pelos méritos de vossa Paixão, e a reprovação dos maus, que pelos seus deméritos se haviam de condenar, e pelo abismo de vossa piedade, com que vos compadecestes de nós, pecadores e desesperados, e que manifestastes ao ladrão na Cruz, dizendo: “Hoje estarás comigo no paraíso”, rogo-vos, piedoso Jesus, que tenhais misericórdia de mim na hora de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração VI. — Ó Rei amável e amigo todo desejável, lembrai-vos daquela tristeza que tivestes quando, nu e miserável, pendestes na Cruz, e todos os vossos amigos e conhecidos se voltaram contra vós, e não encontrastes ninguém que vos consolasse, além de vossa dileta Mãe, de pé na amargura de sua alma fidelíssima a vós, que confiastes ao vosso discípulo, dizendo: “Mulher, eis aí o teu filho”.

Rogo-vos, piíssimo Jesus, pela espada de dor que transpassou a alma dela, que vos compadeçais de mim em todas as minhas tribulações e aflições, corporais e espirituais, e dai-me a consolação no tempo da tribulação e na hora de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

“Queda no Caminho do Calvário”, de Rafael.

Oração VII. — Ó Jesus, fonte de inexaurível piedade, que por um íntimo afeto de amor dissestes na Cruz: “Tenho sede”, isto é, da salvação do gênero humano, acendei, vo-lo peço, em nossos corações o desejo de perfeição, e abrandai e extingui de todo em nós a sede da concupiscência e o ardor dos prazeres mundanos. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração VIII. — Ó Jesus, doçura dos corações e poderosa suavidade das mentes, pelo azedume do vinagre e do fel que por nós provastes, concedei-nos, na hora de nossa morte, receber dignamente o vosso Corpo e Sangue, como remédio e consolação para nossas almas. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração IX. — Ó Jesus, virtude régia, júbilo espiritual, lembrai-vos da angústia e da dor que padecestes quando, pelo amargor da morte e os insultos dos judeus, com alta voz clamastes, abandonado por Deus Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” Por esta angústia vos peço que nas nossas angústias não nos abandoneis, Senhor Deus nosso. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração X. — Ó Jesus, Alfa e Ômega, vida e poder em todo tempo, recordai-vos que desde o alto da cabeça até a planta do pé vos mergulhastes por nós na água da Paixão.

Pela largura e extensão de vossas chagas, ensinai-me a mim, afundado em muitos pecados, a guardar por verdadeira caridade a Lei que promulgastes. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XI. — Ó Jesus, abismo profundíssimo de misericórdia, rogo-vos, pela profundidade de vossas chagas, que atravessaram a medula de vossos ossos e vísceras, que me tireis da água de pecado em que estou submerso e me escondais, no interior de vossas chagas, do rosto de vossa ira, até que passe o vosso furor, Senhor. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Detalhe de um quadro da Crucifixão, por Francesco Hayez.

Oração XII. — Ó Jesus, espelho da verdade, sinal de unidade e vínculo de caridade, lembrai-vos da multidão de vossas chagas, com que, da cabeça aos pés, fostes vulnerado e rubricado com vosso santíssimo Sangue, multidão de dores que suportastes em vossa carne virginal por nós! Piedoso Jesus, que mais deveríeis fazer e não fizestes?

Gravai, vo-lo peço, ó piedoso Jesus, todas as vossas chagas no meu coração com o vosso preciosíssimo Sangue, para que nelas eu leia sempre a vossa dor e morte e persevere constante até o fim em ação de graças. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XIII. — Ó Jesus, leão fortíssimo, Rei imortal e invencível, lembrai-vos da dor que padecestes quando todas as forças do vosso Coração e Corpo de todo se acabaram e, reclinando a cabeça, dissestes: “Tudo está consumado”. 

Por esta angústia e dor, tende misericórdia de mim, quando minha alma, no momento do último suspiro, estiver vexada e conturbada. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XIV. — Ó Jesus, unigênito do altíssimo Pai, esplendor e figura de sua substância, lembrai-vos da esforçada entrega com que entregastes o espírito ao Pai, dizendo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” e, de Corpo lacerado, de Coração alquebrado, com grande clamor, abertas as vísceras de vossa misericórdia para nos redimir, expirastes.

Por esta preciosíssima morte vos imploro, Rei dos santos, que me fortaleçais para resistir ao diabo, ao mundo, à carne e ao sangue, a fim de que, morto(a) para o mundo, eu viva para vós, e na hora suprema de minha partida acolhei-me o espírito degredado e peregrino a retornar para vós. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XV. — Ó Jesus, videira verdadeira e fecunda, lembrai-vos da abundante efusão do vosso Sangue, que vós, qual sumo arrancado ao cacho, copiosamente derramastes quando, na cruz, calcastes sozinho o lagar, e do vosso lado aberto pela lança do soldado nos propinastes Sangue e água, de modo que nem uma só gota permanecesse em vós; e quando, enfim, fostes suspenso no alto, qual um feixe de mirra, e vossa carne delicada se desfez, e o licor de vossas vísceras se secou, e a medula de vossos ossos murchou. 

Por esta vossa amaríssima Paixão e pela efusão do precioso Sangue, piedoso Jesus, imploro-vos que recebais minha alma na agonia de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Conclusão. — Ó Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, acolhei esta oração com aquele amor excelentíssimo com que suportastes todas as chagas do vosso santíssimo Corpo e tende misericórdia de mim, vosso servo, e dai a todos os pecadores e a todos os fiéis, tanto vivos quanto defuntos, misericórdia, graça, remissão e a vida eterna. Amém.

Notas

  1. A seguinte notitia foi publicada nas AAS 46 (1954) 64: “Em alguns lugares tem sido divulgado certo opúsculo intitulado ‘O segredo da felicidade. Quinze orações reveladas pelo Senhor a S. Brígida na igreja de São Paulo, em Roma’, Nice (e em outros lugares), publicado em várias línguas. Ora, como neste mesmo livro se afirma que a S. Brígida foram feitas por Deus certas promessas, de cuja origem sobrenatural não há evidência alguma, tenham os Ordinários de cada lugar o cuidado de não dar licença para que se vendam ou de novo se imprimam opúsculos ou escritos que contenham as mencionadas promessas. — Dado em Roma, nas dependências do Santo Ofício, no dia 28 jan. 1954. Mário Crovini, Notário da Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício.”

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Há heresias que começam da cintura para baixo
Doutrina

Há heresias
que começam da cintura para baixo

Há heresias que começam da cintura para baixo

“Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé”. Por isso, quando uma pessoa faz da impureza um projeto de vida, padece não só a sua carne, mas também a sua mente e o seu espírito. São as heresias que começam da cintura para baixo.

Dave ArmstrongTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé” (CIC 2518): essa famosa citação expressa a ideia de que os desejos, impulsos e atos sexuais (a saber, fora do matrimônio heterossexual e da procriação) são contrários à teologia, que os define como intrinsecamente imorais. Portanto, quem se deleita com esses pensamentos e atos tende a querer rejeitar também a teologia, ao invés da própria sexualidade mal vivida. Por causa disso, começa a cair em heresia.

Talvez a manifestação clássica dessa mentalidade seja a afirmação do escritor e filósofo inglês Aldous Huxley (1894-1963), autor de quase cinquenta livros e muito famoso por ter escrito Admirável Mundo Novo (1932). Por coincidência, ele morreu no mesmo dia em que C. S. Lewis e John Kennedy. Numa coleção de ensaios publicada em 1937, Huxley escreveu o seguinte:

Eu tinha motivos para não desejar que o mundo tivesse um sentido; consequentemente, presumi que não tinha sentido algum e pude, sem qualquer dificuldade, encontrar razões satisfatórias para esse pressuposto. O filósofo que não vê sentido no mundo não está preocupado apenas com um problema de metafísica pura. Ele também se preocupa em provar que não há uma razão válida pela qual ele não deveria fazer o que quer fazer. Para mim, e sem dúvida para a maioria dos meus amigos, a filosofia da falta de sentido era, em essência, um instrumento de libertação de certo sistema de moralidade. Contestamos a moralidade porque ela interfere em nossa liberdade sexual.  

Lendo a conceituada biografia de Lewis escrita por seu amigo George Sayer, intitulada Jack: C. S. Lewis and His Times (“Jack: C. S. Lewis e sua Época”, sem trad. portuguesa), fiquei surpreso ao saber que, para ele, Lewis (quando tinha entre 13 e 15 anos) perdeu a fé cristã da infância por causa da imoralidade sexual.

Isso confirma minha argumentação como apologista, segundo a qual a perda da fé e a apostasia muitas vezes (senão frequentemente) são o resultado de processos e impulsos não racionais, e não do fracasso do cristianismo ao ser submetido a uma análise intelectual séria. Sayer afirma o seguinte na página 31 do livro:

Ele começou a se masturbar […]. Fez o firme propósito de jamais fazer isso outra vez, e então sofreu repetidas vezes com a humilhação de não conseguir perseverar. Ele diz que sentia aquilo que São Paulo descreve na Carta aos Romanos (cf. 7, 19-24): “Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero”. Ele também rezava, e como suas orações não eram escutadas, logo perdeu a fé […]. Para alcançar um equilíbrio psicológico, teve de reprimir os fortes sentimentos de culpa, o que ele realizou ao rejeitar o cristianismo e sua moralidade.

Consigo imaginar um ateu ou alguém que, sob outros aspectos, seja cético em relação ao cristianismo (ou particularmente ao catolicismo) dizendo: “Bem, como podemos culpar o jovem Lewis? Afinal de contas, ele decidiu com sinceridade abandonar a prática da masturbação, algo que [erradamente] considerava errado, e rezou sinceramente a Deus para conseguir ajuda no cumprimento daquela decisão, e Deus [supondo, a título de argumentação, que realmente existe] o decepcionou. Portanto, não teria sido culpa de Deus, e não dele?”

Há várias condutas muito viciantes ou obsessivas que os seres humanos assumem voluntariamente, mas depois descobrem que foram escravizados, gostariam de parar e, infelizmente, não conseguem. De modo geral, de início não se vê que essa condutas se tornarão tão controladoras ou viciantes; mas, depois que alguém é dominado por esse tipo de conduta, é muito difícil escapar.

Quem é o culpado disso? Deus ou a pessoa que iniciou a jornada em direção àquele comportamento? Eu digo que é a pessoa e que acusar a Deus é transferir a culpa a outrem. Podemos pensar em muitos vícios: por exemplo, fumar, consumir drogas, agredir a esposa, ser guloso ou viver a promiscuidade sexual desenfreada. Mesmo coisas intrinsecamente boas podem tornar-se viciantes e destrutivas: pensemos, por exemplo, num homem que queira ler livros ou praticar a jardinagem o dia inteiro, negligenciando assim sua obrigação de sustentar a família.  

Somos nós que começamos essas coisas; mas, por causa de um orgulho bobo, queremos culpar outra pessoa, quando é evidente que somos nós os envolvidos em condutas prejudiciais e destrutivas. Deus é o alvo errado, porque sempre nos podemos convencer de que “Deus deve me dar a capacidade de parar, se eu lho pedir”. Logo, se Ele não o fizer, poderemos dizer que Ele ou é impotente ou não existe.

Na verdade, há uma coisa chamada graça, um poder divino de superar o pecado e o mal (ver, por exemplo, Rm 8, 37 e Fp 4, 13). Eu e praticamente todo cristão sério experimentamos esse auxílio diversas vezes e, na verdade, grupos muito bem-sucedidos como os Alcoólicos Anônimos pressupõem que ela existe e pode ajudar os alcoólatras a largarem a bebida.

O que quero dizer é que é irracional exigir que Deus (um ser onisciente e infinitamente superior a nós e, portanto, muitas vezes inexplicável, como nós o seríamos para uma formiga) faça neste exato momento aquilo que eu desejo, por medo de ser rejeitado ou desacreditado caso não faça nada.

Deus não tem obrigação de realizar milagre algum nem de atender a todas as nossas orações. Ele faz o que faz em seu próprio ritmo, por suas próprias razões inescrutáveis e objetivos providenciais. Deus não é uma varinha mágica nem um boneco de meia que pode ser usado ao nosso bel prazer. 

Dizer “ou Deus faz X ou não quero mais saber dele!” é ter uma espiritualidade infantilóide, é racionalizar os próprios caprichos, é ter um exagerado senso de (falsa) liberdade. É o pecado original de Adão, Eva e o demônio: escolher a própria vontade no lugar da vontade de Deus. Aldous Huxley reconheceu (de modo admirável) que fazia exatamente isso. E creio que o jovem C. S. Lewis (supondo que a opinião de Sayer esteja correta) também fazia a mesma coisa, e isso era irracional e insensato pelas razões acima apresentadas. Mais tarde, Lewis explicou como e por que a moralidade sexual é tão importante

[Nota da Equipe CNP: A esse propósito, leia-se abaixo um trecho de carta de Lewis a Keith Masson (3 jun. 1956), publicada em The Collected Letters of C. S. Lewis, Vol. III: Narnia, Cambridge, and Joy 1950-1963, editado por Walter Hooper, Harper San Francisco, 2007:

Você supõe que um princípio moral tradicional deva apresentar uma prova de sua validade antes de ser aceito. Eu suponho o contrário: ele deve ser aceito até que alguém apresente uma refutação definitiva.

Além disso, concordo que seja idiotice falar em “desperdício de fluidos vitais”. Para mim, o verdadeiro mal da masturbação reside no fato de ela usar um desejo que, se aplicado de forma correta, conduz a pessoa para fora de si, de modo que possa completar (e corrigir) sua própria personalidade na de outra pessoa (e finalmente nos filhos e netos) e o inverte, enviando o homem novamente à prisão de seu ego a fim de que lá ele possa manter um harém de noivas imaginárias. Depois de ser aceito, esse harém impede que o homem se liberte de si mesmo e se una verdadeiramente a uma mulher real.

Pois o harém é sempre acessível e subserviente, não exige sacrifícios ou ajustes, além de ser dotado de atrações eróticas e psicológicas com as quais nenhuma mulher verdadeira pode competir. O rapaz é sempre adorado pelas noivas sombrias, é sempre considerado o amante perfeito: não exigem nada de seu altruísmo, jamais é imposta à sua vaidade alguma mortificação. No final das contas, elas se tornam apenas o meio pelo qual ele cada vez mais cultua a si mesmo… A faculdade do amor não é a única a ser esterilizada e a ter de retroceder, mas também a faculdade da imaginação...

A masturbação implica esse abuso da imaginação em temas eróticos (que eu considero mau em si) e, portanto, estimula um abuso semelhante dela em todas as esferas. Afinal de contas, a principal tarefa da vida é praticamente sairmos de nós, da pequena e obscura prisão na qual nascemos. A masturbação deve ser evitada, bem como todas as coisas que retardam esse processo. O perigo que nos ronda é o de acabar amando a prisão.]

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