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Preferir a morte para entrar na vida
Santos & MártiresEspiritualidade

Preferir a morte para entrar na vida

Preferir a morte para entrar na vida

Na batalha diária para fazer a vontade de Deus, os cristãos são chamados a imitar o testemunho dos mártires. Como aquela mãe judia de Macabeus, que entregou a si e aos sete filhos por amor a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Novembro de 2013Tempo de leitura: 4 minutos
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Uma sentença do século III, de Orígenes, diz que "diante de uma tentação, um cristão sai mártir ou idólatra".

Todos os dias os homens são confrontados pela tentação demoníaca que oferece um caminho mais fácil, mais prazeroso. E não é diferente com os seguidores de Jesus: é-lhes comumente apresentada a sedutora proposta de abandonar a Deus e o caminho da Cruz, de adorar a criatura no lugar do Criador, de procurar a felicidade onde ela não se encontra: no dinheiro, na bebida, no sexo, na fama e em tantas outras coisas. Por outro lado, rejeitar essas criaturas que se arrogam o direito de tomar o lugar de Deus implica numa espécie de morte, de martírio.

Para fortalecer a coragem cristã, poucas coisas são tão importantes quanto a leitura e a meditação assídua do Evangelho e da vida dos santos. "A santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir", indicava o Papa Bento XVI. "O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus".

Pode acontecer que as pessoas, ao se debruçar sobre a riqueza misteriosa das Escrituras, imaginem a santidade como algo muito distante, seja no tempo, seja na própria dimensão das possibilidades de vida humana. Ao ler a vida dos santos, no entanto, o cristão depara-se com o Verbo que novamente se encarna na história. A santidade deixa de ser uma realidade "do século I", grafada em letras arcaicas ou "mortas": é uma verdade palpável, que toca também os homens dos nossos dias. É especialmente no esbarrar-se com aqueles que viveram verdadeiramente a Palavra de Deus que o ser humano se encontra com a "Beleza tão antiga e tão nova" da qual fala Santo Agostinho em suas Confissões.

A mensagem de Cristo nunca é velha, atrasada ou "inadequada" para os tempos modernos, como muitas leituras anticlericais sugerem; ao contrário, ela se rejuvenesce a cada testemunho vigoroso de amor, a cada mártir que se recusa a trair sua fé.

Neste contexto, um relato forte retirado da Bíblia, embora aborde uma perseguição ocorrida aos judeus, ajuda os cristãos a inflamar em si mesmos o espírito de fortaleza e de coragem. O trecho em questão narra o destemor de uma mãe e de seus sete filhos, todos mortos pelo rei Antíoco IV Epifânio, durante uma perseguição violenta ocorrida em Jerusalém, no século II a. C.

O Segundo Livro dos Macabeus afirma que os infantes "foram um dia presos com sua mãe" e instados a comer carne de porco, "por meio de golpes de azorrague e de nervos de boi" (7, 1). Um azorrague era uma espécie de açoite feito com tiras de couro e que possuía, em cada ponta, um instrumento cortante ou pedaços de articulações de carneiro. O espírito daquela família, no entanto, era resoluto. Nenhum dos terríveis golpes de azorrague diminuiu-lhes o fervor em cumprir a vontade de Deus: "Estamos prontos a morrer, antes de violar as leis de nossos pais" (v. 2), disse um deles, sem medo.

As torturas se seguiam, como em um conto de terror. "O rei (...) ordenou que aquecessem até a brasa assadeiras e caldeirões (...) [e] que cortassem a língua do que falara por todos e, depois, que lhe arrancassem a pele da cabeça e lhe cortassem também as extremidades, tudo isso à vista de seus irmãos e de sua mãe" (v. 3-4).

O que fizeram, então, aqueles rapazes, vendo seu irmão ser cruelmente torturado até o suplício? Não renunciavam a seu propósito, nem titubeavam, mas "exortavam-se mutuamente a morrer com coragem" (v. 6). Animados pela esperança na ressurreição dos mortos, eles entregavam bravamente sua vida a Deus, um por um.

Chegando o momento de infligir a morte ao filho mais novo, Antíoco recuou, por um instante. Ele insistia com ele, "prometendo-lhe com juramente torná-lo rico e feliz, se abandonasse as tradições de seus antepassados, tratá-lo como amigo e confiar-lhe cargos" (v. 24). Mas, nem assim o jovem cedia. Então, o rei tentou conversar com sua mãe. Narra o autor sagrado que ele "mandou que a mãe se aproximasse e o exortasse (...) para que o adolescente salvasse sua vida" (v. 25).

E o que fez aquela mulher, que tinha visto os outros seis filhos serem torturados e mortos diante de si? O que fez aquela mãe, cuja alma se encontrava dilacerada, à semelhança de Nossa Senhora, no Calvário? A Escritura diz que "ela consentiu em persuadir o filho" (v. 26), mas que, em seguida, exortou-lhe, falando na língua materna: "Meu filho, (...) não temas (...) este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles" (v. 27.29).

Esta santa mulher, mesmo acabrunhada pela dor de perder todos os seus filhos, estava consciente de que havia algo muito pior que a morte do corpo: a perdição da alma. "Seguindo as pegadas de todos os seus filhos, a mãe pereceu por último" (v. 41). Naquele dia, uma família inteira entregava-se em sacrifício a Deus. Eles preferiram morrer a violar as leis de seus pais, a abandonar as tradições de seus antepassados.

Olhando para a história da Igreja, não é difícil encontrar dramas muito parecidos com este contado pelo Espírito Santo. De São Pedro a São Maximiliano Kolbe, de São Josafá aos mártires deste tempo, inúmeros são os exemplos de homens e mulheres que ofereceram a sua vida em holocausto, preferindo a morte a ofender a Deus. No dia a dia, todos os cristãos são chamados a testemunhar a mesma coragem destes grandes servos da fé, senão pelo sangue, pelo sacrifício quotidiano e pela prática da penitência. Este é o único caminho possível para o Céu. O outro é a idolatria – que, por sua vez, conduz à morte eterna.

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Diálogo de uma freira com um livre pensador
Espiritualidade

Diálogo de uma freira
com um livre pensador

Diálogo de uma freira com um livre pensador

“Dizei lá fora que, com amor fraterno, nós vos amamos a todos… Dizei-lhes que a nossa prece é uma catedral que não se acaba, e que nas ogivas destas mãos continuamente alçadas há o labor de uma construção que não percebeis, porque não olhais para o céu!”

Carlos de Laet14 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Entrevista… que com uma freira de certo convento, prestes a ser profanado, teve um jornalista que se julga livre-prosador.

O que se vai ler é o diálogo ultimamente travado entre uma freira, abadessa ou priora de certa comunidade, nesta capital, e um jornalista que entendeu oportuno entrevistá-la.

Freira — Diz o senhor que tem qualquer cousa a tratar comigo. Pode falar. 

Jornalista — Reverenda madre, eu quisera obter informações que me habilitassem a escrever com acerto sobre o seu convento, e dele dar ao público uma notícia que não se apartasse da verdade. 

F. — Notícia ao público! E que temos nós com o vosso público, isto é, com o mundo de que voluntariamente nos afastamos, cortando até mesmo os laços de família que a ele nos prendiam?

J. — Não ignoro que menosprezais o mundo, mas não é menos certo que ele vos não menospreza e que se ocupa convosco. Vossa existência murada é um incentivo para a curiosidade. Por trás das chapas e das grades farejamos uns mistérios que ardemos por descobrir. Neste século de publicidade tendes o atrativo do que se recata e esconde. Natural é, pois, a trêfega indagação que ao redor desta casa vagueia, e da qual nós, os homens de imprensa, somos os órgãos naturais. Não seria, pois, preferível dizer-lhes logo o que é, por não deixarmos lugar a conjecturas talvez errôneas e nocivas?

“Visita de família a uma jovem religiosa carmelita”, de Jan Swerts.

F. — Se assim é como dizeis, o que de melhor poderíeis fazer seria explicar-lhe, ao vosso público, que por trás destes muros e nesta associação religiosa não há outros mistérios senão os da nossa religião, exarados no catecismo. Como vivemos e o que fazemos consta, outrossim, da nossa regra monástica, que muitas vezes se tem publicado.

J. — O público, ou, se preferir, o mundo não pode compreender por que, quando em torno de vós tudo se move e se agita, assim persistis na imobilidade do claustro.

F. — Não me pareceis lógico afirmando a nossa imobilidade, quando há pouco parecíeis de todo ignorar qual o nosso gênero de vida; e singularmente vos enganais acreditando que vivemos ociosas. Ainda mesmo supondo que não trabalhemos materialmente, o que não é bem verdade, ainda assim grande e importante seria a nossa tarefa. As mãos que se erguem para o céu fazem um imenso trabalho: não foi um santo, mas um dos vossos, Victor Hugo, quem o escreveu nos Miseráveis.

J. — Muito folgo, reverenda madre, que me citeis, não padres da Igreja, que não leio, mas pensadores profanos, o que mostra que os tendes lido, ao menos alguns, e isto nos abre um terreno, conhecido por nós ambos e em que sem constrangimento nos poderemos encontrar.

F. — Antes de professar li o que intitulais pensadores profanos, e estimo que isso vos traga qualquer vantagem para nos entendermos. Permiti, porém, que assinale uma das vossas fraquezas habituais. De ordinário, em vossa profissão de jornalista, quando, por exemplo, tendes de atacar a administração militar, procurais livros e autores que especialmente se ocupem da matéria. Tratados de ciência naval não faltariam na vossa biblioteca se tivésseis de escrever sobre marinha… Mas como é que todos discutis assuntos religiosos, sem conhecer ao menos os rudimentos da fé e da disciplina católica? Não falaríeis, certamente, sobre a literatura francesa do século décimo oitavo sem leitura de Voltaire; e vós mesmos, que vos propondes escrever sobre a vida monástica, jamais tendes lido um dos bons tratadistas que vos diriam o que ela seja!

J. — De boa mente confesso que aí não vos falta alguma razão, desde que a censura se dirija a mim, ou a qualquer outro publicista de penúltima classe; mas não acredito que seja fundada em relação aos verdadeiros cientistas.

F. — Haeckel, verbi gratia, o emérito propugnador do monismo, não o tendes por cientista às direitas? Pois bem, ainda outro dia ele assombrava o mundo religioso, revelando, em uma polêmica, a mais estupenda ignorância dos dogmas católicos, por isso que confundia a Encarnação do Verbo com a Imaculada Conceição de Maria. Os vossos governos, aliás, fomentam essa ignorância, proibindo que em país de católicos se ensine a doutrina católica.

J. — Isto se faz para assegurar a liberdade de consciência.

F. — Perdão: então não apanhastes o meu argumento, ou antes fui eu quem não se fez compreender. O que digo é que, independentemente de qualquer intimativa, coação ou sedução religiosa, a doutrina cristã deveria ser ensinada em vossas escolas como elemento essencial e indispensável para a compreensão da atual ordem de cousas, da civilização ambiente. Que fazeis para entender a vida grega e romana? Ler e reler a Cité Antique, de Fustel de Coulanges, ou qualquer outro autorizado especialista. Em Constantinopla, nada entenderíeis da cidade otomana e de seus usos, se de todo estranho vos fosse o Alcorão. Pois bem! viveis em uma sociedade católica — eis o fato — e sonegais aos vossos alunos o único livro que lho poderia explicar.

J. — Percebo agora, reverenda madre, a força de vosso raciocínio, e não vos negarei que, conquanto especioso, não acho de pronto com que o refutar. E igualmente vos dou o parabéns pela agudeza dialética que exibis e que, com franqueza, não pensava encontrar neste retiro, onde fora de supor que no misticismo se embotasse o gume da razão. 

F. — A devoção mais fervorosa não é incompatível com o cultivo das letras; e, se acaso vos não tivera esquecido a história literária, bem presente vos seria a nossa matriarca Santa Teresa de Jesus, cujas obras ao mesmo tempo exornam a literatura sacra e enaltecem a prosa e a poesia espanholas do século décimo sétimo.

J. — Teresa de Cepeda e Ahumada foi, reverenda madre, um poderoso engenho sobreexcitado pela histeria, e que, excepcional em tudo, não pode ser trazido como regra.

F. — Nem eu vos digo que Santa Teresa deva ser tomada por espécime comum da intelectualidade monástica; da mesma sorte que para espécime da vossa inteligência há fora, no mundo, erradamente se apontariam extraordinários intelectos. Na canonização de Santa Teresa, em 1622, Cervantes compôs uma ode, que foi lida por Lope de Vega. Ora, entre vossos romancistas e dramaturgos não vejo quem com esses dois vultos possa suportar o confronto.

J. — Está bem, reverenda madre, e peço que a mal não tomeis aquilo que me escapou no tocante à histeria: falo como homem do meu século, ao qual repugna o sobrenatural.

F. — Duplo engano, meu filho. Em primeiro lugar não há confundir histeria com o que chamais a exaltação da nossa santa. Vossos hospitais estão cheios de histéricas, e é singular que lá esse estado nervoso só conduza a disparates e loucuras, ao passo que na monja incomparável tão acima se elevou das melhores capacidade contemporâneas. Sei que há uma escola, ou antes um grupo, para o qual todo gênio é uma enfermidade mental. Napoleão foi um epiléptico… Quero crer que o perfeito equilíbrio mental seja para esses tais a mais pacata mediocridade; e neste sentido lhes concedo que hoje tantos se exibam perfeitamente equilibrados.

J. — Este seria o meu primeiro erro; e o segundo…

F. — O segundo é supordes que ao vosso século repugna o sobrenatural. Pura ilusão! Sobrenatural e preternatural (que não são o mesmo) coexistem convosco, e neles estais e viveis imersos. O milagre permanente de Lourdes desafia todos os dias os vossos cientistas, que, não podendo negar os fatos, só têm para explicá-los uma palavra: — sugestão. O preternatural? Mas acaso ignorais que nesta cidade, quotidianamente, se evocam mortos, e milhares de pessoas, aos torvos de espíritos que por eles se apresentam, pedem o segredo da saúde e o da felicidade terrena, com sacrifício da futura? Nunca, eu vo-lo asseguro, nunca tão impregnado de sobrenatural e de preternatural esteve quanto agora o gênero humano. Nesta crise de fé, Deus amiúda os milagres, e para derribar a inconsistente fábrica do materialismo estavam reservadas aos nossos tempos as experiências dos ocultistas.

J. — Consenti, reverenda madre, que vos observe estarmos já muito longe do objeto que me induziu a importunar-vos. Não me dais licença para visitar agora o convento?

Uma monja carmelita francesa em sua cela, 1904.

F. — Não. Vê-lo-eis depois, quando o tivermos deixado aos profanadores que dele vão fazer um hotel, segundo ouço dizer [1]. Onde se rezava, há de haver festins e dissoluções… Tanto pior para vós! Nós continuaremos ociosas, como dizeis, ou trabalhando, como dizia Victor Hugo, com mãos e olhos alçados para o céu, que é donde baixa a complacência para os que oram e a misericórdia para os que pecam.

J. — Não receais que, mal guiada por vossos inimigos, a opinião se transvie a vosso respeito?

F. — A opinião? Não a conhecemos nem a tememos. Costumais lamentar, e quero crer que sinceramente, a privação de liberdade que nos impusemos… Mas acabais de proferir o nome de um tirano a cujo domínio estamos subtraídas: — a opinião. Dela tremeis todos, desde o primeiro magistrado da República até o último cidadão: e nós impassíveis a afrontamos, melhormente eu diria — nem sequer a avistamos. Morrem às nossas portas essas ondas lodosas que chamais escândalo. Nossos caluniadores, não podemos pessoalmente amá-los, pois não sabemos quem sejam, mas todos os dias rezamos por eles, de ordem expressa de Jesus: Orai pelos que vos perseguem e caluniam.

J. — Mas, se indiferente vos pode ser o aleive em circunstâncias normais, haveis de convir que em quadras agitadas ele pode motivar o esbulho, o desacato, a violência…

F. — Escutai, meu filho. Quando o sacrifício se faz martírio, tanto maior a graça de Nosso Senhor. Lede a história da revolução francesa, e lá encontrareis, em um dos capítulos do terror, a execução das carmelitanas de Compiègne. Morreram contentes, entoando o Te Deum. A priora, uma nobre velha, reservara-se para o fim, não por prolongar de minutos a existência, mas para confortar com sua presença as mais novas, entre as quais algumas na flor da juventude. Morreram todas como os mais bravos dentre os homens! Se em uma de vossas revoluções, que tão amiúde se sucedem, alguma se lembrar de nos bater à porta, achar-nos-á junto do altar; e deste para o céu o caminho é curto, ainda que seja através do apupo e do martírio.

J. — Ninguém, felizmente, em nossa terra, reverenda madre, pensa em prejudicar-vos e menos ainda em perseguir-vos. A tolerância é um dogma da verdadeira democracia…

F. — Sei disso… Vós, por ora, nos tolerais como quem tolera o vício ou o desvairo das ruins paixões. Seja como for, será o que Deus quiser! Se nos tolerardes, como nos Estados Unidos, havemos de conquistar mansa e irresistivelmente as consciências; se nos perseguirdes, como na França e em Portugal, por nós clamarão, diante de Deus, a ignomínia e os sofrimentos a que nos submeterdes.

J. — Mais ou menos o que havemos dito formaria um artigo interessante, pela pintura de dois estados d’alma tão diversos quanto o vosso e o meu. Não haveria, talvez, mal em publicá-lo… E, neste caso, não me fixareis algum ponto, que particularmente desejareis que se soubesse?

F. — Sim. Dizei lá fora que, com amor fraterno, nós vos amamos a todos — aos que nos defendem e protegem, bem aos que nos injuriam e detraem… Dizei-lhes que a nossa prece é uma catedral que não se acaba, e que nas ogivas destas mãos continuamente alçadas há o labor de uma construção que não percebeis, porque não olhais para o céu!

Notas

  1. Segundo indica este trecho, o convento onde se teria dado este suposto diálogo seria o da Ajuda, em cujo terreno foi construída a atual Cinelândia, no Rio de Janeiro (Nota do autor).

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A banda que foi “mais popular do que Jesus”
Sociedade

A banda que foi
“mais popular do que Jesus”

A banda que foi “mais popular do que Jesus”

No auge do sucesso dos Beatles, John Lennon declarou, sem medo de errar: “Agora nós somos mais populares do que Jesus”. E, de certo modo, ele não estava errado… Mas qual é o preço da popularidade que o mundo dá?

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Em março de 1966, durante uma entrevista, o músico John Lennon, dos Beatles, afirmou: “O cristianismo irá acabar. Ele desaparecerá e encolherá. Eu não preciso discutir isso; estou certo e isso ficará provado. Agora nós somos mais populares do que Jesus…”

Como se sabe, suas afirmações repercutiram muitíssimo mal na ocasião: no sudeste dos Estados Unidos, de forte penetração protestante, algumas estações de rádio pararam de tocar músicas dos Beatles e discos da banda foram publicamente queimados. 14 anos depois, em Nova Iorque, a própria morte de John Lennon seria tragicamente associada a esse episódio: seu assassino alegou razões religiosas para o injustificável crime e chegou a citar, em uma entrevista posterior, a polêmica frase do cantor britânico.

Os Beatles.

O fato é que, de certo modo, Lennon não estava errado. A afirmação de que o cristianismo desapareceria foi muito pretensiosa, sem dúvida — e no fim foram os Beatles que não duraram muito tempo —, mas o “encolhimento” da fé era um drama que já se desenrolava a olhos vistos aquela época. Apenas alguns anos mais tarde, mas na mesma década, um homem que depois viria a tornar-se Papa repetiria em essência a mesma “profecia”: “A Igreja diminuirá de tamanho”, disse o então jovem sacerdote Joseph Ratzinger. E foi o que aconteceu.

A popularidade dos Beatles em relação à de Cristo também tem a sua verdade. Principalmente se se leva em conta que, ao contrário dos artistas modernos, que se apresentam em palcos e congregam multidões em torno de si para fazer uma performance, Nosso Senhor ia por um caminho muito diferente, com o que o adjetivo “popular” não seria o mais apropriado para descrevê-lo.

Para demonstrar como não era essa a intenção de Jesus, basta folhear (sem ceticismo e preconceitos materialistas, é claro) as páginas dos Santos Evangelhos. De sua impopularidade e absoluta despretensão nesse sentido dão testemunho sua vida oculta até os 30 anos; seu pedido, aos que eram agraciados com milagres, para que não contassem nada do que viram a ninguém; sua recusa em “voltar atrás” quando palavras mais duras desagradavam e faziam muitos irem embora; e, por fim, prova-o de modo máximo a sentença final de sua vida, pronunciada pelo próprio povo da época, que o condenou à morte numa cruz enquanto clamava por Barrabás. Se era para ser popular aos moldes do mundo, ali o “plano” de Cristo teria fracassado definitivamente.

É claro que, depois de morto, Nosso Senhor ressuscitou e mandou que seus discípulos ensinassem pelo mundo inteiro as coisas que dele haviam aprendido, e aí, sim, o cristianismo se fez “popular”. Se observarmos porém o modo como se disseminou o Evangelho — numa época em que o homem sequer sonhava em inventar a TV e os outros meios de comunicação de que hoje dispomos —, essa popularização se revelará aos nossos olhos muito mais admirável do que o fenômeno de qualquer banda moderna de rock n’roll (ou seja lá qual for o gênero musical de sua preferência). Santo Tomás de Aquino o expõe de forma brilhante ao defender, contra os pagãos, o caráter sobrenatural da fé cristã:

Os segredos da sabedoria divina, ela mesma — que conhece tudo perfeitamente — dignou-se revelar aos homens, mostrando-lhes a sua presença, a verdade da sua doutrina, e inspirando-os, com testemunhos condizentes. Ademais, para confirmar as verdades que excedem o conhecimento natural, realizou ações visíveis que superam a capacidade de toda a natureza, como sejam a cura de doenças, ressurreição dos mortos e maravilhosas mudanças nos corpos celestes. Mais maravilhoso ainda é, inspirando as mentes humanas, ter feito que homens ignorantes e rudes, enriquecidos pelos dons do Espírito Santo, adquirissem instantaneamente tão elevada sabedoria e eloquência.

Depois de termos considerado tais fatos, acrescente-se agora, para confirmação da eficácia dos mesmos, que uma enorme multidão de homens, não só os rudes como também os sábios, acorreu para a fé cristã. Assim o fizeram, não premidos pela violência das armas, nem pela promessa de prazer, mas também — o que é maravilhoso — sofrendo a perseguição dos tiranos. Além disso, na fé cristã, são expostas as virtudes que excedem todo o intelecto humano, os prazeres são reprimidos e se ensina o desprezo das coisas do mundo. Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto é ainda maior milagre e claro efeito da inspiração divina.

Essas coisas não aconteceram de improviso ou por acaso, mas por disposição divina… (Summa contra gentiles, I, 6).

Essa reflexão de cunho simplesmente racional que o Doutor Angélico escreveu há quase 800 anos tem o poder de abrir os olhos aos incrédulos ainda hoje; poderia ter convencido, quem sabe, o próprio sr. Lennon...

“Cristo cravado na cruz”, de Vincenzo Campi.

Como um homem que morreu crucificado, numa região relativamente afastada do mundo antigo, e que reuniu em torno de si doze pobres discípulos, com pouquíssima erudição — dos quais apenas um permaneceu aos pés de sua Cruz —, pôde conquistar tantas pessoas, em tempos e lugares diversos, e ainda por cima contra todas as expectativas humanas, contra todos os apelos naturais dos sentidos? Ou seja, Jesus fez seguidores sem prometer a ninguém nem poder nem prazer nem riquezas materiais. Tampouco veio para encantar os homens com canções ou apresentações artísticas: a melodia divina que saía de seus lábios, por assim dizer, tinha as notas dissonantes de sua agonia no Horto e de um chamado insólito a que os homens tomassem a própria cruz para segui-lo. “Ora, terem os espíritos humanos concordado com tudo isto”... só por milagre mesmo poderia acontecer, e dos grandes.

Contra essa maravilha sobre a qual, infelizmente, não meditamos o suficiente, está o moderno fenômeno das massas hipnotizadas com bandas de rock, duplas sertanejas e DJs. Em um só show, esses artistas conseguem reunir muito mais pessoas do que Nosso Senhor reuniu em torno de si durante toda a vida. Na verdade, em uma só live, dentro de suas próprias casas, esses músicos conseguem congregar em frente a TVs, computadores e dispositivos móveis multidões inimagináveis para qualquer outra época da história humana. Depois dos Beatles, de fato, quantos mais não poderiam gabar-se de ser “mais populares do que Jesus”, à vista da fama e do sucesso que fazem? 

E no entanto o que geralmente move as pessoas a quase idolatrar essas personalidades senão o apelo aos sentimentos mais baixos do ser humano? É muito fácil seduzir as multidões com o iê-iê-iê, quando é justamente o iê-iê-iê o que elas querem. Difícil é apresentar aos homens a verdade nua e crua que se esconde em seu interior, repreender-lhes o pecado e mandar que mudem de vida, e ser seguido mesmo assim ao longo dos séculos. 

Não, o entusiasmo com o Evangelho nem de longe se compara ao frenesi com que as fãs dos Beatles assistiam aos seus concertos. Mas é que a atração que o Deus feito homem exerce sobre os corações não é como o furacão, o terremoto ou o fogo… O Deus todo-poderoso, podendo arrasar qualquer que seja o lugar por onde passe, prefere esconder-se na brisa ligeira e pedir o silêncio do homem para fazer-se ouvir (cf. 1Rs 19, 11–12); ao invés de palcos, microfones e alto-falantes, Ele prefere revelar-se no humilde casebre de Nazaré e soprar lenta e gradualmente ao longo da história, convocando um exército de adoradores que em número pode até ser subestimado, mas não em qualidade.

Olhando tudo isso à luz da vida eterna, importa-nos concluir dizendo que esta é, verdadeiramente, a única glória e “popularidade” que importa: pertencer ao povo de Deus; poder ser contado, um dia, entre os santos e santas do Céu. Todo o resto não passa de vaidade: vanitas vanitatum et omnia vanitas, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecle 1, 2)! 

Além do que, o preço a ser pago pela popularidade mundana é muito alto, nesta e na outra vida. O pobre rapaz de Liverpool a que nos referimos ao longo de todo esse texto, infelizmente, foi morto a tiros em frente ao prédio onde morava. E agora, quem sabe onde ele se encontra? A que destino foi submetido pelos séculos? Toda a fama que ganhou durante a vida de que lhe valeu na trágica hora da morte? Toda a multidão que o seguia, e os poucos que ainda o seguem, continuarão a aplaudi-lo no lugar onde ele estiver? Eis as perguntas que ficam, eis o que deve nos preocupar.

Por John Lennon, que já partiu deste mundo, só nos resta oferecer a Deus as nossas mais sinceras orações. Aos famosos que ficam, no entanto, sejam eles artistas de TV, músicos profissionais ou influenciadores digitais (com um celular na mão e uma conta no YouTube, nunca foi tão fácil ser popular), sirva de reflexão o ritual que era feito, até pouco tempo atrás, nas coroações pontifícias. O Papa recém-eleito, na sédia gestatória, partia em procissão da Basílica de São Pedro e era parado três vezes pelo mestre de cerimônias que, de joelhos, queimava na sua frente uma mecha de estopa e dizia, também por três vezes: Pater Sancte, sic transit gloria mundi! — “Santo Padre, assim passa a glória do mundo!

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O que vale mais, o templo ou a fé?
Igreja Católica

O que vale mais, o templo ou a fé?

O que vale mais, o templo ou a fé?

“Também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora. Eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora.”

Santo Atanásio de AlexandriaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Advertência prévia da edição de J.-P. Migne [1]. — Eis aqui um fragmento, erudito leitor, das cartas festivais [2] de Atanásio, cuja perda é verdadeiramente deplorável. Foram escritas em grande número pelo santo pastor quando, no exílio, vivia em regime de solidão. Mesmo nos mais remotos lugares do deserto, tendo na memória a sua grei, oprimida por dificuldades e tragédias diárias por conta do furor dos arianos, enviava-lhe cartas, quase sempre consolatórias, para serem lidas na reunião dos irmãos, as quais foram daí compiladas em um só corpo epistolar [...].

A carta abaixo, por nós descoberta em manuscrito antiquíssimo [3], data do ano 356, quando as igrejas de Alexandria, roubada aos católicos, foram entregues por ordem de Constâncio II aos arianos, razão por que escreveu Atanásio esta carta consolatória. Desta, extraiu o editor somente dois fragmentos, omitidos os trechos em que Atanásio, como é de crer, tratava com mais vagar e detalhe dos atos dos arianos em sua invasão das igrejas. Seja como for, por pequenas que sejam essas linhas, aqui vingadas da obscuridade e da injúria do tempo, revelam-nos coisa digna de saber: que os arianos converteram igrejas em casas de negócios e domus veli, isto é, tribunais de justiça.


Começa a carta de S. Atanásio, bispo de Alexandria, a seus filhos

Santo Atanásio, retratado por Francesco Bartolozzi.

[1]. Que Deus vos console! Tomei conhecimento de que não só isso vos contrista, mas de que também vos entristece o fato de terem alguns tomado as igrejas por violência, enquanto vós permaneceis de fora; eles ocupam, sim, os lugares; vós porém tendes a fé apostólica. Eles, embora dentro dos templos, estão do lado de fora; mas vós, conquanto estejais fora dos templos, tendes a fé dentro <de vós>. Vejamos pois o que é maior: se o templo, se a fé; ora, é evidente que a verdadeira fé. Quem, portanto, mais perdeu, ou quem mais possui: o que ocupa o lugar, ou o que retém a fé? Sim, é bom o templo, quando ali é pregada a fé apostólica; é santo, se ali habita o Santo. […] 

[2]. Bem-aventurados sois vós, que estais, pela fé, na Igreja: habitais nos fundamentos da fé, e tendes suficiente satisfação, a grandeza da fé, que em vós permanece inconcussa; ela, com efeito, vos foi transmitida pela Tradição apostólica, e frequentemente a tentou abalar a execranda inveja, mas não <o> pôde: na verdade, mais se apartaram eles pelas maquinações que <contra ela> urdiram. É isso, pois, o que está escrito: “Tu és o Filho de Deus vivo”, confessado por revelação do Pai pela boca de Pedro, que mereceu ouvir: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai, que está nos céus” etc. Ninguém, portanto, irá prevalecer jamais contra a vossa fé, diletíssimos irmãos: se porventura nos devolver Deus algum dia as igrejas — e nisto acreditamos! —, independente da devolução das igrejas, basta-nos a fé. E para não soar talvez demasiado duro falando sem Escrituras, é bom que vos aduza testemunhos das Escrituras.

Lembrais-vos de que o Templo estava, de fato, em Jerusalém: o Templo não estava em lugar deserto, e gentes estranhas o invadiram. Depois disso, estando o Templo ainda em Jerusalém, desceram exilados <os judeus> para a Babilônia, por juízo de Deus que não só os provava, mas corrigia e, assim, manifestava a pena <reservada> aos ignorantes por intermédio de inimigos sedentos de sangue. Tomaram, sim, o Templo gentes estranhas, mas desconheciam o Senhor do Templo. Mas <Ele>, entrementes, nem lhes respondia nem lhes dirigia palavra, porque estavam separados da verdade. Que lhes aproveita o lugar, pois? Eis que agora os que ocupam os templos são acusados pelos que amam a Deus, porque fizeram deles espelunca de ladrões, casa de negócios e, ensandecidos, transformaram para si em tribunais de justiça o lugar santo, onde não lhes é lícito entrar.

Ouvimos estas coisas, diletíssimos, dos que de lá vieram, e até piores do que estas. Quanto mais parece que é deles a Igreja, tanto mais fora dela se encontram. E julgam estar dentro da verdade, quando são eles os exilados e cativos, e nenhum ganho têm em ter só para si a Igreja, porque é a verdade das coisas que se julga…

Notas

  1. Cf. PG 26, 1189-1190.
  2. As cartas festivais (epistulæ festales), também chamadas cartas pascais, eram uma forma de notificação anual do Patriarca de Alexandria, endereçada a todas as cidades e mosteiros de sua jurisdição eclesiástica, sobre a data de início do jejum quaresmal e, portanto, sobre o dia da celebração da Páscoa. O costume parece ter começado pouco depois do Concílio de Niceia, que, além de condenar a heresia ariana, também se ocupou de matérias disciplinares, como a uniformidade do calendário litúrgico, com a determinação precisa das principais festividades do ano (cf. W. Cureton, The Festal Letters of Athanasius. Londres, 1848, p. xxxvii). Não parece haver evidências, contudo, de que o fragmento aqui apresentado provenha de alguma carta pascal de S. Atanásio. (Nota da Equipe CNP.)
  3. Trata-se de um códice (Colb. 1783) do ano 800 d.C. (Nota da Equipe CNP.)

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Quem foi Jesus de Nazaré?
Doutrina

Quem foi Jesus de Nazaré?

Quem foi Jesus de Nazaré?

A busca pelo “Jesus histórico” continua, com teólogos rejeitando a melhor evidência histórica para a verdade de uma conclusão que eles mesmos tentam provar que é falsa… Eles estão nesse jogo desde o século XVII, sem chegar a lugar nenhum, e ainda não desistiram.

Chilton Williamson Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Lendo e ouvindo a Paixão de Cristo na Quaresma passada, fiquei ainda mais impressionado do que em anos anteriores com a objetividade e minúcia históricas com que os quatro evangelistas relatam esses eventos. Competentes historiadores entendem, como bons romancistas, a importância de detalhes minuciosos, mas reveladores, para uma história ser eficaz e credível. Mateus, Marcos, Lucas e João, embora amadores, compartilharam essa qualidade literária. Alguns dos fatos relatados por cada um deles concordam com o que dizem todos os quatro, enquanto outros aparecem em apenas alguns relatos, e outros ainda são mencionados somente uma vez. No entanto, as quatro narrativas da Paixão têm em comum a proximidade, a objetividade sólida e a coerência que são características importantes da escrita histórica séria. A estas se deve acrescentar uma apreensão aguçada das personalidades envolvidas no drama — seus pensamentos, falas, respostas, gestos e aparências — e do próprio drama.

“A juventude de Jesus”, por James Tissot.

Ainda assim, a busca pelo chamado “Jesus histórico” persiste, cuja historicidade foi confirmada para satisfazer praticamente aos céticos. O trabalho é de uma qualidade fantástica: é como se, após a viagem de Colombo, houvesse aventureiros que duvidavam de que o Novo Mundo tivesse sido descoberto e estivessem construindo barcos na Espanha, em Portugal e em Gênova para navegar ao Oeste, a fim de saber “se era verdade”. Ou, para usar outra metáfora, é como se um homem míope perdesse os dias tentando ler um livro longo e difícil, tendo esquecido no alto da testa o seu caro par de óculos.

Aqueles que acreditam que deve haver um “Jesus histórico” a ser descoberto, separado e distinto do Jesus dos Evangelhos, negam a sua a-historicidade e aceitam que o personagem histórico chamado Jesus Cristo existiu. Além disso, assumem que as técnicas de investigação disponíveis aos estudiosos modernos oferecem uma boa chance de aprender quem e o que Ele “realmente” era — desde que os pesquisadores envolvidos na busca sejam pesquisadores “de mente aberta” e imparciais. Eles ignoram o fato de haver apenas três tipos de estudantes de história das religiões — ou de qualquer outro tipo de história, e provavelmente de qualquer que seja o assunto. São os crentes, os descrentes e os neutralistas (a quem chamamos céticos ou agnósticos).

É razoável pensar que, em uma questão tão essencial como a religião, a neutralidade humana seja uma impossibilidade psicológica, assim como é igualmente razoável acreditar que nenhum ser humano seja realmente assexual. De fato, a experiência e a evidência dão abundantes provas de que nenhum escritor, nenhum pensador — de fato, nenhuma pessoa viva — está totalmente livre de preconceitos sobre qualquer assunto importante, ou mesmo sobre os que não têm importância alguma. É um erro supor, como os “caçadores” do Jesus histórico, que os únicos incapazes de honestidade intelectual são os que crêem que Jesus foi quem Ele disse ser, e o adoram como tal; e que, como consequência, o que quer que eles tenham dito e escrito por dois mil anos a respeito de Cristo é suspeito desde o início. A regra geral é que, nesse assunto, nunca se deve dar aos cristãos o benefício da dúvida; em suma, eles devem ser considerados mentirosos até que se prove o contrário.

Os estudiosos e outros que trabalham na vinha dos estudos sobre o “Jesus histórico” só ficarão satisfeitos, de uma forma ou de outra, quando acharem ter descoberto uma prova histórica incontestável de que Cristo não foi quem Ele disse que era — que Ele não era o Filho divino do Deus vivo. Como eles estão envolvidos na prática de pesquisa e dedução históricas, é de supor que estejam procurando o tipo de evidência a que os historiadores profissionais recorrem para investigar e interpretar: registros falados e escritos de testemunhas oculares; narrativas em segunda mão e boatos contemporâneos confiáveis; documentos, incluindo relatórios oficiais, memorandos e cartas; relatos históricos de pessoas da época; resultados de pesquisas de arquivo feitas por historiadores de períodos históricos subsequentes; artefatos exumados por investigações arqueológicas e assim por diante.

No caso de Jesus de Nazaré, começamos com quatro relatos separados, escritos por quatro homens que acreditamos terem sido seus discípulos, tendo-o acompanhado por três anos e testemunhado sua prisão, julgamento e execução, e tendo-o visto ressuscitado dos mortos e subir aos céus. Esses relatos, como digo, são minuciosamente detalhados, ainda que não documentados, e mais amplificam que contradizem um ao outro. Trata-se, é claro, da obra de homens alfabetizados e de inteligência elevada, graças a um talento nativo até então oculto ou à inspiração divina. Salvo por uma coisa — o elemento sobrenatural, inseparável do início da história até o seu fim —, os Evangelhos seriam aceitos como histórias, boas ou ruins, logo depois que começaram a circular entre o público. Fossem os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João os Evangelhos segundo Thomas Jefferson [1], poucas pessoas ao longo dos últimos dois milênios teriam tentado desacreditá-los, ou tido razão para crer neles. 

Os materialistas, para quem a história é uma série de eventos naturais que se desenrolam no mundo do espaço e do tempo, naturalmente resistem à intromissão do mundo sobrenatural. Se estivessem abertos a isso, reconheceriam a impossibilidade de procurar explicações naturais para eventos sobrenaturais. É sobretudo esse avanço sobrenatural que ofende a mente não-cristã. Maomé alegou ser mensageiro de Deus e seu profeta, mas não alegou ser, ele mesmo, divino. Como consequência, nenhuma pesquisa foi feita por escritores kafiri (infiéis) em busca do “Maomé histórico”, embora nenhum secularista acredite que o anjo Gabriel tenha aparecido a Maomé em sua caverna e ordenado: “Recite!” Para eles, o islamismo não passa de outro sistema bem elaborado de crença supersticiosa, apreciada por ignorantes e ingênuos; mas, passadas apenas duas décadas desde os ataques de 11 de setembro, não se trataria de uma religião perigosa e ameaçadora (ao contrário do cristianismo, seu sinistro rival) — e quem quer que diga o contrário é prontamente repreendido.

Apesar de toda a aparente seriedade e esforço intelectual que os membros dos estudos sobre o “Jesus histórico” têm devotado ao próprio trabalho, seus praticantes, de mentalidades diversas, até agora não concordam em nada, ou pelo menos em muito pouco. Alguém poderia argumentar que essa falta de sucesso, paradoxalmente, dá suporte ao ceticismo deles, já que, se o Cristo dos Evangelhos fosse o verdadeiro, Ele deveria ter sido muito mais amplamente conhecido e aceito no Mediterrâneo Oriental do que durante o tempo de sua vida. Todavia, sua relativa obscuridade é inteiramente plausível quando se levam em conta o afastamento geográfico relativo e o isolamento intelectual e cultural da antiga Palestina, tão separada da civilização greco-romana da época, não obstante a ocupação romana.

“Jesus acalma a tempestade”, de James Tissot.

De fato, fora do território da Palestina, quem teria tomado conhecimento ou manifestado interesse pelo líder de uma insignificante seita judaica, antes de Ele mesmo ser crucificado, ressuscitar e enfim subir aos céus, deixando seus Apóstolos e demais discípulos espalharem sua doutrina e a história de sua vida entre os judeus e os gentios, e converterem, dentro de poucos anos, alguns daqueles e milhares (ou dezenas de milhares) destes, à nova religião cristã — algo que parece ter acontecido numa velocidade quase sobrenatural? O modus operandi de Sherlock Holmes era que, uma vez esgotada a gama de explicações possíveis, a resposta impossível deveria ser a correta. O mesmo se dá com Jesus Cristo: se Ele não era quem alegava ser, então Ele jamais existiu.

Os cientistas sempre foram preparados para aceitar de modo condicional conclusões demonstradas apenas parcialmente, enquanto se aguardam futuros desenvolvimentos. Mas o público leigo está inclinado a receber essas descobertas acriticamente, já que elas foram “cientificamente” alcançadas por “especialistas”, e é neles que está a fé do materialista moderno — embora muitas das teorias propostas por físicos do séc. XXI alarguem as fronteiras da credulidade humana muito mais do que os ensinamentos de Cristo e da Igreja Católica. (Vale perguntar em que ponto — se é que ele existe — os limites do mundo natural se fundem com os do sobrenatural.)

Além disso, os cientistas, quando desenvolvem uma teoria aparentemente impossível, que  no entanto consideram instintivamente verdadeira, estão dispostos a prosseguir no pressuposto de que é verdade, até que se demonstre falsa. As histórias aparecem o tempo todo nas notícias para relatar novas observações de fenômenos naturais, como buracos negros engolindo estrelas anãs negras, que parecem confirmar as teorias formuladas por Einstein há um século. Os pesquisadores do “Jesus histórico” trabalham inversamente: eles rejeitam a melhor evidência histórica para a verdade de uma conclusão enquanto tentam provar que a conclusão é falsa! Eles estão nesse jogo desde meados do séc. XVII sem chegar a lugar nenhum, e ainda não desistiram.

Notas

  1. O autor se refere aqui à obra The Life and Morals of Jesus of Nazareth (“Vida e Costumes de Jesus de Nazaré”), de Thomas Jefferson, uma seleção naturalista de versículos dos Evangelhos, dispostos em ordem cronológica, mas sem as passagens milagrosas e sobrenaturais (Nota da Equipe CNP).

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