| Categoria: Espiritualidade

Por que o Filho de Deus quis ter um pai humano?

Longe de representar uma simples “adoção”, a paternidade de São José foi para o menino Jesus uma verdadeira “escola de virilidade”.

São José foi verdadeiramente pai de Jesus: não pai biológico, porque não lhe deu a vida natural; mas também não simplesmente "pai adotivo" ou "pai nutrício", como se simplesmente lhe outorgasse um nome, um abrigo, alimentos e só. Muito mais do que isso, convinha que Cristo, humano que era, fosse realmente educado por um homem [1], inspirando-se em seu exemplo de masculinidade e paternidade para amadurecer totalmente e, chegando à idade adulta, entregar-se pela redenção da humanidade inteira.

Dada portanto a nobre e difícil missão que tinha diante de si, é razoável imaginar o patriarca da Sagrada Família como um homem jovem, na plenitude de suas forças físicas, de modo que, "se parte da iconografia mais recente tende a representá-lo com os traços de um velho, devemos pensar que é menos para sublinhar o número dos seus anos do que para dar uma idéia das suas virtudes, em especial da sua prudência e da maturidade do seu caráter" [2].

Tampouco se deve pensar em São José como um homem de aspecto efeminado, como se a virgindade e a pureza de alma fossem incompatíveis com a virilidade masculina. Ao contrário — ensina-nos a experiência —, só um homem verdadeiramente forte, capaz de submeter as suas paixões ao império da razão, pode enfrentar com igual vigor os grandes desafios e as lidas do dia-a-dia.

Olhando para a personalidade de Jesus Cristo, essas verdades tornam-se-nos ainda mais claras. De fato, só um homem de coragem é capaz de tecer um chicote com suas próprias mãos e servir-se dele para expulsar os vendilhões da casa de Deus (cf. Jo 2, 13-17); só um homem varonil pode suportar, como Cristo suportou, a traição dos próprios amigos, a flagelação na carne, os espinhos na cabeça e os cravos nos membros. Com quem o Filho de Deus encarnado aprendeu a ser homem assim, de modo perfeito, senão com o seu pai virginal, São José?

Nestes tempos em que a masculinidade experimenta uma grande crise, peçamos urgentemente a intercessão do carpinteiro de Nazaré, para que, imitando o seu exemplo, os homens possam enfrentar sem temor o desafio da paternidade, assumir o compromisso de formar os seus filhos e ver, enfim, coroados os seus esforços, nos frutos da boa educação que ministraram.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. A natureza humana exige que as pessoas sejam criadas por um pai e por uma mãe, desenvolvendo-se a partir da complementaridade dos dois sexos. O fato de as famílias ditas "monoparentais" se terem tornado uma realidade comum não as torna normais. Tampouco a chancela do Estado às chamadas "uniões homossexuais" faz com que elas estejam aptas a educar uma criança. "Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade", explica o Cardeal Joseph Ratzinger, "praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano" (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 7). E não é apenas a Igreja Católica que o reconhece. Em 2015, os estilistas criadores da marca Dolce & Gabanna, assumidamente homossexuais, deram declarações públicas contra a adoção de crianças por pares gays.
  2. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 46.

| Categoria: Educação

Não dê um smartphone ao seu filho

Não conceda aos produtores pornográficos o acesso que eles tanto procuram aos seus filhos.

Por Jonathon van Maren | Depois de passar quatro dias em um encontro de combate à exploração sexual, na cidade de Houston, no Texas, minha mente está exausta. Assistimos a palestras sobre neurociência, tráfico humano, abuso sexual, exploração infantil e muito mais. Também assistimos a muitas, muitas palestras, sobre o veneno que tem se infiltrado em todos os lugares, alimentando o estupro, destruindo relacionamentos, debilitando os homens e obliterando a infância: a pornografia.

Ainda escreverei muito mais sobre o que aprendi, mas, por enquanto, gostaria de fazer aos pais um breve apelo, que praticamente todos os palestrantes fizeram e eu faço questão de repetir: não dê um smartphone ao seu filho.

Parece loucura imaginar que, uma década atrás, smartphones eram incomuns. Muitas pessoas sequer tinham um celular em mãos. Agora, de acordo com a premiada jornalista e escritora Nancy Jo Sales — autora de American Girls: Social Media and the Secret Lives of Teenagers —, praticamente todas as interações sociais (e sexuais) dos adolescentes foram canalizadas para os pequenos e frenéticos aparelhos que eles carregam consigo para onde quer que vão. Isso tem feito crescerem o cyberbullying, o consumo e a produção de pornografia e até mesmo o suicídio e a exploração sexual entre jovens. Adolescentes — e crianças — são puxados para dentro das redes sociais, do Facebook ao Instagram, do Snapchat a outra meia dúzia de aplicativos desconhecidos, onde as interações e os conteúdos são selecionados apenas pelas crianças que os acessam, livres de qualquer supervisão dos pais ou adultos.

Os adolescentes sabem que isso está tornando as suas vidas miseráveis. As meninas com quem conversou a jornalista Nancy Sales também lhe contaram isso. Mas elas também revelaram não ter saída. Como hoje a maior parte da vida das pessoas se passa online, optar por sair é como escolher o isolamento voluntário. As "moedas de troca" geralmente envolvem imagens de nudez, sexo explícito ou "selfies" — e, cada vez mais, também isso deixou de ser opcional.

Os pais são incapazes de controlar esse novo mundo dos adolescentes. Em muitos casos, eles sequer conseguem penetrar o seu interior. É por isso que um pai ficou tão perplexo quando sua filha se enforcou depois de um adolescente cruelmente publicar um vídeo seu tomando banho no Snapchat — aquela tinha sido, na verdade, a primeira vez em que o pai, desolado, ouviu falar de "Snapchat". Para os pais que desejam resgatar os seus filhos da "selva da Internet" ou poupá-los do sofrimento que está devastando milhões de pessoas, há algumas alternativas. Diálogo honesto e conversas francas. Fiscalização atenta do uso das redes sociais. Programas especiais e filtros de Internet em todos os aparelhos de tecnologia.

Mas, por hoje, eu gostaria de indicar apenas uma coisa: não dê um smartphone ao seu filho.

Esse conselho tem me tornado bastante impopular em alguns ambientes. Um dia desses, durante apresentação em uma escola, um adolescente me cumprimentou com sarcasmo: "Então você é aquele que disse aos meus pais que eu não deveria ter um celular". Mas isso é essencial. As crianças e a maior parte dos adolescentes não precisam de um celular com acesso à Internet. Eles não precisam de acesso ininterrupto aos sites de mídia social que os submetem mais à influência de seus colegas que à de seus pais. Eles não precisam da pressão social que inevitavelmente — inevitavelmente — advém da entrada em um mundo com novos padrões e novas "moedas de troca". E, acima de tudo, eles não devem ter acesso a toda a pornografia que a web pode oferecer, a todo esse material sujo criando novos e destrutivos modelos de comportamento — modelos com os quais toda a juventude, para além dos Estados Unidos, está começando a se conformar, seja por pressão, por violência ou por escolha própria.

Escutei dezenas de histórias nesse fim de semana, de pais que se surpreenderam encontrando os seus filhos assistindo a pornografia pesada em seus smartphones. Crianças com idade menor que a média de primeira exposição a pornografia, que costumava ser 11 anos. Agora são 9. Essas crianças, em alguns breves momentos de espanto e terror, têm roubada a sua inocência. Seus mundos mudam por completo naquele momento. Elas não podem "desver" o que viram. Elas sequer deveriam ter acesso a isso, para começo de história.

Por isso, não coloque um smartphone na mão do seu filho.

Eu entendo que os adolescentes tendem mais a precisar realmente de um celular. Meus pais me compraram um telefone celular quando eu tirei a carteira de habilitação — não para que eu interagisse com meus amigos e entrasse na Internet, mas para que eles entrassem em contato comigo e eu tivesse um meio de me comunicar quando estivesse fora, essas coisas. Meus primeiros celulares não tinham acesso à Internet, e eu não perdi nada com isso. Confesso que às vezes gostaria que meu telefone atual também não tivesse Internet, porque eu sou culpado, juntamente com esta geração, de desperdiçar tempo no meu telefone quando poderia estar fazendo alguma coisa (qualquer coisa, na verdade) mais produtiva. Mas, quando adolescentes precisam de um telefone, mesmo assim eles não precisam de um telefone com acesso à Internet. Um telefone que lhes permita fazer ligações e mandar mensagens é bom o suficiente. Eles não precisam estar constantemente conectados às redes sociais, não precisam de Snapchat (um aplicativo que pode arruinar vidas em questão de segundos) e eles definitivamente não devem ter acesso à pornografia selvagem com a qual quase inevitavelmente irão se deparar.

Não dê aos produtores pornográficos o acesso que eles tanto procuram aos seus filhos. Eles sabem que crianças e adolescentes são mais propensos a encontrar pornografia em seus celulares, e é por isso que eles fizeram um esforço gigantesco nos últimos anos para criar material pornô que pudesse ser visto e transmitido via aparelhos móveis. Eles sabem como chegar aos seus filhos: por meio de um smartphone.

Não dê um ao seu filho.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Como Ser Família

Luís Martin, o “pai incomparável” de Santa Teresinha

O pai de Santa Teresinha do Menino Jesus bem sabia que aquelas meninas não eram suas. Deus só lhe tinha confiado o cuidado delas, e ele, por sua vez, aceitou generosamente a tarefa de educá-las para o Céu.

Durante a cerimônia de beatificação de São Luís e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, o Cardeal Saraiva Martins, lendo a carta do Papa Francisco, descreveu os dois como "leigos, esposos e pais".

Luís, pai e esposo, sabia que o primeiro dever de um bom pai era ser um bom marido. "Sou sempre muito feliz com ele", escrevia Zélia sobre seu companheiro. "Ele preenche minha vida de ternura e delicadeza. Meu marido é um homem muito santo; quisera que toda mulher tivesse um marido como ele".

"Os nossos sentimentos estavam sempre de acordo", diria ela tempos depois, "e ele serviu-me constantemente de amparo e consolação" [1].

Nos anos de seu matrimônio, de 1858 a 1877, Luís foi um pai e um esposo muito generoso: vendo o sucesso do negócio de rendas de Zélia, ele abandonou a profissão de relojoeiro à qual se tinha dedicado por muitos anos, vendeu o negócio ao sobrinho por um preço modesto e tratou de gerenciar pessoalmente a compra de aviamento para a manufatura. Após a morte de Zélia, ele deixou os amigos em Alençon para dar às suas filhas a benéfica influência dos tios e primos maternos, em Lisieux. Numa época em que o pai era geralmente o "chefe da casa", ele deu às filhas mais velhas livre permissão tanto para cuidar das coisas da casa quanto para ensinar as irmãs mais novas. Não poupou esforços para desenvolver os talentos que elas tinham, provendo-lhes aulas de arte e dando-lhes toda ajuda que estava em suas possibilidades.

Luís Martin foi um homem valente. Na juventude, pertenceu ao clube militar. Por exercitar-se regularmente, acabou se tornando um homem alto e robusto. Nadava bem o bastante para salvar várias pessoas do afogamento, resgatava pessoas de incêndios, e era tão corajoso nas ruas que, se ficasse fora mais tarde que o normal, suas filhas já começavam a suspeitar que ele teria se machucado ao tentar separar alguma briga.

Como pai, Luís criou uma estrutura de disciplina para a vida diária de cada membro de sua família. Durante todas as estações eles assistiam juntos à Missa de manhã. As crianças tinham que comer o que lhes era preparado. Dificilmente perdiam algum dia na escola: em oito anos, Celine só teve duas faltas. Por não gostar de vê-las ociosas, Luís encorajava suas filhas a desenvolverem várias atividades.

Até mesmo seu lado feminino se tinha desenvolvido bem. Quando ficou viúvo, Luís se tornou um pai e uma mãe para suas filhas. Elas diziam: "O coração afetuoso de nosso pai foi enriquecido com um amor verdadeiramente maternal por nós". Muitas vezes ele acompanhava as filhas no caminho de ida e de volta para a escola, escutando pacientemente os relatos de como tinham sido os seus dias. Todas as noites, ele as reunia depois do jantar, confeccionava brinquedos, cantava, contava histórias, recitava poemas e fazia brincadeiras com elas, antes das orações em família. "Com minhas filhas eu sou um Bom-Papai", ele gostava de dizer [2].

Luís tinha um profundo respeito pela vida espiritual de suas filhas. Não apenas dava a elas toda a liberdade para que satisfizessem suas vocações, como ativamente as apoiava no que quer que elas descobrissem a respeito da vontade de Deus para suas vidas, "permitindo ao Criador que lidasse diretamente com a criatura". Empreendeu viagens e gastos para permitir que elas fizessem retiros e consultassem seus diretores espirituais. Num tempo em que muitos pais ficavam furiosos se suas filhas quisessem entrar para o convento, às vezes até impedindo que elas o fizessem, Luís deu livremente o seu consentimento e doou largas somas ao convento em que entraram suas filhas. Quando Maria, a mais velha e sua favorita, lhe confidenciou a sua vocação, ele disse: "Ah... mas... sem você!... Pensei que você nunca fosse me deixar" [3]. Ainda assim, ele lhe deu permissão imediatamente para ir.

Quando a família estava visitando Alençon, antes de Maria deixá-los e Leônia entrar para as Irmãs Clarissas, abruptamente e sem pedir permissão, ele permitiu que ela lá permanecesse e apoiou-a generosamente. Quando o vigário geral da diocese se furtou de ajudar Teresa a entrar no Carmelo, Luís, encontrando-o vários dias depois em Roma, disse com franqueza: "Você sabe muito bem que tinha prometido ajudar-me". Mais tarde, ficou tão impressionado com os talentos artísticos de Celina que quis levá-la a Paris para ter aulas com os melhores artistas. Quando ela lhe revelou, todavia, que planejava tornar-se carmelita depois que ele não mais precisasse de seus cuidados, ele disse: "Venha, vamos juntos ao Santíssimo Sacramento agradecer a Ele pela honra que me faz em escolher Suas esposas em minha casa. Se possuísse eu qualquer coisa melhor, eu depressa ofereceria para Ele." Teresa dizia que a melhor coisa que ele tinha a oferecer era a si mesmo. Quando ficou paralisado e teve que aceitar ser cuidado por um sanatório e depois por sua família, ele se rendeu completamente e ficou profundamente tocado pela devoção de seus parentes. "No céu, eu lhes recompensarei por tudo isso", ele disse a seu cunhado.

Luís entendeu que suas filhas não eram suas. Deus só lhe tinha confiado o cuidado delas, e ele, por sua vez, aceitara generosamente com sua esposa a tarefa compartilhada de "criá-las para o Céu". Sobre o papel profético de Luís na importante e repentina conversão que Teresa teve mais tarde, sua irmã Celina escreve que, "ao lhe conceder um pai incomparável, cuja bondade era uma prefiguração da bondade de nosso Pai do Céu, Nosso Senhor a estava preparando para penetrar, mais do que qualquer pessoa, no mistério da divina paternidade."

E em que Luís Martin pode nos ajudar a refletir sobre nosso relacionamento com nossos próprios pais?

Em 9 de maio de 1897, Teresa escreveu ao jovem Padre Roulland, sacerdote francês enviado em missão à China, de quem ela era irmã espiritual e por cujo apostolado rezava de modo especial:

"Se, como creio, meu Pai e minha Mãe estão no Céu, devem olhar e abençoar o irmão que Jesus me deu. Desejaram tanto um filho missionário! Contaram-me que antes de eu nascer, meus pais tinham a esperança que seu anseio fosse enfim se realizar. Se tivessem podido penetrar o véu do futuro, teriam visto que, com efeito, era por mim que o desejo deles se realizaria. Dado que um missionário se tornou meu irmão, é também filho deles, e nas suas orações, não podem separar o irmão de sua indigna irmã." [4]

E não é que Teresa, com essas palavras, oferece Luís como um pai para todos nós? Se, como ele, nossos próprios pais foram bons e amáveis conosco, então, na comunhão dos santos, Luís pode juntar-se a eles para derramar em nós o amor do coração de Cristo. Se, no entanto, como muitas das crianças que Luís ajudou no decorrer de sua vida, não pudemos experimentar essa delicadeza por parte de nossos pais, ou se nunca chegamos a conhecê-los, Luís pode ser o instrumento por meio do qual Deus derrama em nós as Suas graças.

São Luís Martin oferece aos pais de hoje um novo modelo de masculinidade e paternidade. Unindo seu amor a Deus com seu amor por sua esposa e filhas, ele entendeu a essência da paternidade: que seu papel como cocriador das almas de suas filhas para glorificar a Deus não acabava com o nascimento, mas continuava por toda a sua vida, enquanto ele as acompanhasse para fazê-las nascer para a eternidade. Como ele mesmo repetia com frequência, ele era um pai "todo para a maior glória de Deus".

Por Maureen O'Riordan | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta da Senhora Martin para Paulina, de 4 de março de 1877. In: PIAT, Stéphane Joseph. História de uma família. 3. ed. Braga: Apostolado da Imprensa., p. 49.
  2. GENOVEVA DA SANTA FACE, Irmã. O pai de Santa Teresa do Menino Jesus (trad. do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha). Cotia, 1965, p. 58.
  3. Ibid., p. 63.
  4. Carta 226. In: TERESA DO MENINO JESUS, Santa. Obras completas: escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002, p. 472.

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Francesa concebida em proveta à procura do pai: “É duro nascer assim”

Audrey Kermalvezen, advogada francesa, descobriu a verdade sobre si depois de casar-se com outro “filho da fecundação in vitro”. Em entrevista exclusiva, ela conta o medo que ela e seu marido têm em comum: os dois podem ser filhos do mesmo pai.

Foto: Frédéric Stucin/Libération

Perceber, desde criança e quase inconscientemente, que há algo de errado; descobrir que não "está tudo bem" nascer em um laboratório e de uma pessoa diferente daquela que te criou; ficar com raiva e, depois, perceber que a responsabilidade não é só dos próprios genitores, mas de todo um sistema; sofrer e, então, reagir, entrando na luta contra isso. É essa a história que fez Audrey Kermalvezen, uma advogada francesa de 33 anos, tornar-se uma das paladinas da luta contra a fecundação heteróloga e o anonimato dos chamados "doadores" de gametas.

Concebida em proveta. Kermalvezen é membro da associação Procréation médicalement anonyme ("Procriação medicamente anônima"). "Estamos aqui mais para testemunhar o quanto é difícil sermos gerados assim que para lutar por descobrir as nossas origens", ela explica. A advogada usa o plural porque a sua história começa quando já era casada com um homem concebido em proveta, como ela. Ele, todavia, sabia desde criança que tinha nascido por fertilização heteróloga. Acaso? "Bem – continua a advogada –, quando eu era pequena não sabia de nada, mas sempre sonhava com um homem que chegava e me levava embora. Perguntava continuamente aos meus genitores se eles tinham me adotado. Com 23 anos, escolhi especializar-me em direito bioético, mesmo não sabendo ainda nada da minha história". Em suma, tudo parecia empurrar Kermalvezen para o mundo da proveta.

A revelação. Mais tarde, em 2009, tendo completos 29 anos, os genitores da moça decidiram revelar, a ela e ao irmão, então com 32 anos, que ambos tinham sido concebidos em laboratório, com o esperma de um desconhecido. "Meu irmão se sentiu aliviado" porque sempre tinha desconfiado haver "qualquer coisa que não batia" entre ele e a sua família. Ao contrário, a reação de Kermalvezen foi de "raiva" contra os seus genitores, pelo fato de haverem mentido para eles, mesmo tendo compreendido, depois, "que não eram só eles os responsáveis pelo segredo, mas também os médicos criaram todas as condições para mantê-lo, escolhendo um doador que se assemelhava ao meu pai e dizendo a ele e a minha mãe para não nos contarem nada".

"Nosso medo". Para a advogada, todavia, a dor veio duplicada. "Com o meu marido eu divido um receio: o de sermos nascidos do mesmo genitor", razão pela qual ele está tão engajado na batalha para ter acesso às suas origens. "Ele e suas duas irmãs sempre souberam que tinham sido concebidos por um doador de esperma, mas esperavam que os seus genitores lhes dessem as informações sobre a identidade do seu pai, uma vez que completassem os 18 anos. Mas isso não aconteceu: eles não tiveram acesso a nenhuma notícia a respeito".

"Eles se recusam a responder-me". Como foi concebida em 1979, a norma francesa que, desde 1994, estabelece a obrigação do anonimato para o doador, não é um problema. "É meu direito contatar o 'doador' e eles perguntam se ele quer permanecer anônimo ou não. Se disser que não quer me revelar a sua identidade, respeitarei a decisão", ela explica. De uma coisa, porém, Kermalvezen não abre mão: "A lei protege só a identidade, mas a justiça francesa estabelece, ao menos, que não pode esconder se o meu irmão ou o meu marido e eu fomos concebidos do esperma do mesmo homem. Mesmo assim, eles se recusam a responder-me."

"Não há nenhum remédio". Kermalvezen conta a sua história no livro Mes origines, une affaire d'Etat (Max Milo), lançado em 2014. Infelizmente, é difícil para um filho de proveta reivindicar um direito quando a lei, permitindo a fecundação assistida, sempre joga o direito do não nascido para o segundo plano em relação àquele do adulto. "Esse é o problema pelo qual eles não nos respondem", conclui. "Eis por que nós não estamos aqui, antes de tudo, para conhecer as nossas origens, mas para testemunhar o quanto é duro nascer assim". Porque, para todo esse sofrimento, "não há nenhum remédio".

Fonte: Tempi.it | Tradução: Equipe CNP

Para saber qual a posição da Igreja acerca da fecundação in vitro, assista:

| Categoria: Santos & Mártires

O testamento de um Rei santo para seu filho

Confira a carta que São Luís IX da França deixou a seu filho e descubra a maior glória que um Rei pode possuir neste mundo: ser servo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

São Luís IX, Rei da França, que entre 1214 e 1270 governou generosamente um povo com extrema piedade e coração inflamado de amor a Deus, não poderia deixar que cada um de seus súditos ficassem sem sentir e entender quem era o verdadeiro Rei do Universo.

Sua dedicação no zelo para com os pobres e sua humildade pública comoviam os corações mais endurecidos.

Fazia questão de que todos tivessem acesso aos sacramentos e vivessem uma vida íntima de adoração ao Senhor. Para isso pagou uma quantia de 135 mil libras para que a Santa Coroa de espinhos de Nosso Senhor e um pedaço do Preciosíssimo Lenho fossem trazidos de Jerusalém.

Para abrigá-los dignamente, contruiu a grandiosa Catedral gótica de Sainte Chapelle.

Ao final de sua vida, padecendo mortalmente de tifo, que contraíra na última cruzada em Túnis na África, deixou um legado a seu filho, o futuro Rei Felipe III da França, de cujas palavras talvez somente o grande Patriarca São José seria capaz:

"Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todas as tuas forças; pois sem isto não há salvação.

Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal.

Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito e que talvez a tenhas merecido. Além disto, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo valendo-te dos seus dons.

Ouve com boa disposição e piedade o ofício da Igreja e enquanto estiveres no templo, cuides de não vagueares os olhos ao redor, de não falar sem necessidade; mas roga ao Senhor devotamente, quer pelos lábios, quer pela meditação do coração.

Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda; põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas.

Sê dedicado e obediente à nossa mãe, a Igreja Romana, e ao Sumo Pontífice como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e a heresia.

Ó filho muito amado, dou-te enfim toda a benção que um pai pode dar ao filho; e toda a Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém."

São Luís IX faleceu em 25 de agosto de 1270, após os últimos ímpetos em favor da Oitava Cruzada. Seu corpo foi colocado sobre um leito de cinzas, em sinal de humildade, e os braços em cruz, à imagem de Jesus Cristo.

Fonte: Bibliothèque de l'École des Chartes | Tradução: Equipe CNP

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Pais santos geram famílias santas

É preciso redescobrir o autêntico valor da masculinidade, a fim de que o homem possa também cumprir o seu papel de pai.

A pequena Santa Teresa de Lisieux e seu pai, o beato Louis Martin

A polêmica iniciada no Facebook do Padre Paulo Ricardo por causa do vídeo Abortos Ocultos trouxe à tona os excessos e as falácias do pensamento feminista. De fato, como dissemos outrora, as mulheres não precisam de anticoncepcionais para serem livres. Precisam de dignidade. Essa é a questão de fundo que deve ser tratada com seriedade de argumentos e razoabilidade. O feminismo radical está comprometido com uma agenda contrária à autêntica natureza da mulher. Por isso, deve ser desmascarado, a fim de que as mulheres, já oprimidas por uma série de fatores históricos e sociais, não sejam cooptadas por um movimento ainda mais opressor. A experiência dos últimos anos só comprova um fato: o feminismo não é o caminho para o devido respeito à mulher.

Outro aspecto deste assunto, porém, merece atenção: o machismo. A opressão masculina sobre as mulheres é uma das raízes de tantos movimentos que atentam contra a família e a dignidade humana. Infelizmente, não se pode negar que, por de trás de muitos abortos, está a mão intimidadora de um homem. Mesmo no que diz respeito ao uso de anticoncepcionais, sabe-se, por meio de vários testemunhos, que grande parte das mulheres são forçadas pelos seus maridos a usarem esse tipo de medicamento. Isso é grave. Torna-se demasiado difícil cobrar da mulher o amor à maternidade, à família e ao matrimônio, quando, em sua própria casa, é obrigada a esquecer os Mandamentos da Lei de Deus para submeter-se à arbitrariedade do homem. Os abusos masculinos, como bem denunciou São João Paulo II, "humilham a mulher e inibem o desenvolvimento de relações familiares sadias" [1].

Existe uma guerra contra a virilidade. O machismo nada mais é que uma deformação da identidade masculina, cuja origem se encontra precisamente na queda do primeiro homem. Lemos no relato de Gênesis sobre uma das consequências do pecado original: "Sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará" (Gn 3, 16). "Este domínio", conforme explica São João Paulo II, "indica a perturbação e a perda da estabilidade e da igualdade fundamental" entre o homem e a mulher [2]. O cristianismo jamais foi conivente com essa injusta desigualdade. Ao contrário, assim como existe a pregação do apóstolo sobre a submissão das mulheres aos seus maridos, existe também a exortação para que os maridos morram por suas mulheres, como Cristo morreu pela Igreja (cf. Ef 5, 25). Nada é mais urgente que recuperar o sentido dessa pregação. Dar novo vigor a esse ensinamento da Igreja faz-se imprescindível para anular os efeitos de certas ideologias que visam cancelar a complementariedade dos sexos [3].

Com efeito, na luta contra o machismo, deve-se repudiar com vigor toda forma de emasculação, isto é, a tendência a negar a virilidade, como se a solução do problema fosse transformar o homem numa mulher. Infelizmente, os homens têm se tornado cada vez mais femininos, ora pelas roupas que vestem, ora pelas músicas que ouvem ou outras modas despropositadas. Prestem atenção: a masculinidade não é o problema. Trata-se simplesmente de direcioná-la para o exercício da vocação própria do homem. E essa vocação tem nome. Chama-se paternidade. Todo homem, seja celibatário seja casado, é chamado à paternidade. Os celibatários, no pastoreio das ovelhas de Cristo; os casados, no zelo pela esposa e pelos filhos. Na vida matrimonial, mais especificamente, "o amor à esposa tornada mãe e o amor aos filhos são para o homem o caminho natural para a compreensão e realização da paternidade" [4].

A presença do pai na família é essencial. Conforme explica Padre Paulo Ricardo neste vídeo, o pai é aquele que exerce a função de estabelecer justos limites e conduzir os filhos para o desenvolvimento de suas próprias vocações e anseios. Aliás, a figura masculina, quando alicerçada pela oração, garante a segurança do lar e dá à mulher a força para educar as crianças, mesmo diante dos grandes desafios. Pais santos geram famílias santas. Basta pensar nos exemplos de Santa Teresinha e de São João Paulo II. Ambos foram formados em lares em que a figura paterna se sobressaía pela vida interior, pela caridade fraterna como pelo zelo evangélico. O pai de Santa Teresinha, sobretudo — o senhor Louis Martin, cuja canonização sua e de sua mulher, Maria Zélia Guérin, foi aprovada recentemente pelo Papa Francisco para o próximo mês de outubro —, aparece como um verdadeiro modelo de masculinidade orientada para a vocação divina. Exerceu deveras a paternidade sem precisar flertar com um falso estereótipo — em que pese a ausência de sua esposa, devido ao falecimento.

A presença dos pais para os filhos torna-se ainda mais importante, em face das grandes transformações vividas pelos meninos durante a puberdade. Não há como negar que "a ausência do pai provoca desequilíbrios psicológicos e morais e dificuldades notáveis nas relações familiares" [5]. A experiência tem mostrado isso de maneira incontestável. O menino necessita de uma referência masculina para saber lidar com sua sexualidade e, por conseguinte, manter-se longe das ofertas fáceis da pornografia e da masturbação. Recentemente, o jornalista americano Michael Voris publicou dois interessantes vídeos (que podem ser vistos aqui e aqui) sobre a importância do pai no desenvolvimento do filho. Voris salienta que o menino necessita sentir-se amado pelo pai e livre para poder perguntar sobre determinados assuntos que provavelmente ele não se sentiria confortável para falar com a mãe: "Seu filho deve sentir-se livre para chegar em você e falar sobre assuntos sexuais assim como ele se sente livre para falar com você sobre esportes, ou hobbies, ou trabalhos escolares, ou seu futuro". Nesta atmosfera de confiança, marcada pela adequada discrição no vocabulário, o pai poderá transmitir ao filho os valores do sacrifício, do devido respeito às mulheres, da pureza e da busca pela santidade.

A verdadeira masculinidade precisa ser redescoberta como um valor inegociável da identidade do homem. Não se pode mais compactuar com o machismo nem com o feminismo. Que as mulheres sejam mulheres e que os homens sejam homens. Assim é que está escrito na lei natural, assim é que deve ser.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981), n. 25.
  2. João Paulo II, Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (15 de agosto de 1988), n. 10.
  3. Francisco, Audiência Geral (15 de Abril de 2015).
  4. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981), n. 25.
  5. Idem.

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”Fomos abençoados por tê-los conhecido”: pais de trigêmeos prematuros encontram sentido no impensável

Bernadette, Christine e Adam sobreviveram por apenas quatro horas. O suficiente para marcar para sempre os membros da família Taylor.

Quando o médico revelou aos recém-casados Jason e Marie Taylor, ambos com seus 30 anos, que eles esperavam trigêmeos, o casal não cabia em si de tanta felicidade. "Nós estávamos muito, muito entusiasmados", conta Jason. No ultrassom, aparecia a imagem de duas meninas e um menino. Os pais orgulhosos se apressaram em dar-lhes um nome: Bernadette, Christine e Adam.

A primeira gestação do casal foi fruto de um relacionamento vivido na graça de Deus, já a partir do namoro. Desde o momento em que se apaixonaram, Jason e Marie ansiavam por começar uma família, mas decidiram fazer o seu relacionamento "do jeito de Deus", vivendo a castidade até que se comprometessem mutuamente, no altar, em maio de 2012.

Mesmo o sonho de ter muitos filhos, porém, não impediu que os dois se surpreendessem com a notícia dos trigêmeos. "Meu Deus, o que vamos fazer com tantos bebês?", eles pensavam. "Temos apenas um número limitado de braços". Em uma outra visita ao hospital, alguns médicos ousaram falar com eles sobre uma espécie de "redução seletiva", mas o casal nem deu atenção. Ainda que Marie fosse enfermeira e soubesse que os médicos fariam aquela pergunta, ela se sentiu mal em escutar alguém se oferecer tão tranquilamente para matar um ou dois dos seus filhos. "Aquilo foi realmente perturbador para nós dois, já que esperávamos tão ansiosamente por nossos filhos", disse Jason.

De fato, mal recebeu a boa nova, o casal começou a preparar a casa para a chegada dos novos hóspedes, prevista para fevereiro de 2013. Três bercinhos foram comprados e cuidadosamente enfileirados no quarto de cima, enquanto a barriga de Marie só aumentava... Todas as noites, antes de cair no sono ao lado de sua esposa, Jason se inclinava para conversar com os seus filhos: "Ei, Adam! Ei, Bernadette! Ei, Christina! Estou ansioso por conhecê-los. Amo vocês!" Antes de sair para o serviço, ele dizia às crianças: "Cuidem de sua mãe!"

O impensável

Mas o corpo de Marie começava a ter problemas para se adaptar às exigências daquelas três vidas que cresciam dentro dela. Além do refluxo severo, ela experimentava palpitações, dores no peito e fortes dores de cabeça. Um dia, enquanto assinava alguns cartões de 'obrigado' pelo casamento na mesa da cozinha, Marie repentinamente apagou. Quando voltou a si, tratou de telefonar ao seu marido para pedir ajuda.

Apesar das dificuldades, um ultrassom de novembro revelava que Marie e os seus bebês estavam bem. Com 22 semanas, Marie se parecia mais com uma gestante de 35 semanas.

Um dia depois do ultrassom, porém, Marie começou a sentir "pequenas dores agudas" no abdômen, que se foram tornando cada vez mais regulares. Naquela noite, o casal decidiu ir ao hospital para descobrir o que estava acontecendo.

Chegando lá, os dois não acreditaram quando os médicos disseram que Marie estava com 4 cm de dilatação e tinha entrado em trabalho de parto. O jovem casal se apegou à esperança de que os médicos pudessem fazer algo para impedir que o quadro progredisse, a fim de manter os bebês a salvo.

Mas a situação piorou e o médico revelou ao casal que as crianças estavam prestes a nascer. Com 22 semanas, os pequeninos trigêmeos não tinham muitas chances de sobreviver. Eles não apenas tinham crescido pouco por conta de serem três, como seus pulmõezinhos não se tinham aperfeiçoado o suficiente para que pudessem respirar. Como enfermeira, Marie sabia que tentativas de oxigenação em pulmões pouco desenvolvidos podiam fazê-los arrebentar, causando morte imediata. Os doutores advertiram os pais que, depois do parto, os bebê não receberiam intervenção médica.

Enquanto permanecia ao lado de sua esposa, testemunhando o inimaginável pesadelo que se desenrolava diante dos seus olhos, Jason percebeu que estava dando toda a sua atenção a Marie. Ele se deu conta de que os seus filhos provavelmente estavam tão assustados com o que acontecia quanto eles dois. Então, o jovem pai se inclinou e, ofegante, confortou os seus filhos com as palavras amorosas de costume: "Ei, eu amo vocês, meus filhos... Estou ansioso para conhecê-los..."

Os pais se prepararam para saudar os seus filhos e passar com eles o máximo de tempo que pudessem.

Enfim, nas primeiras horas do dia 15 de novembro de 2012, Bernadette, Christine e Adam nasceram, pesando de 360 a 450 gramas cada um. "Eles saíram cheios de vida e se movendo", disse Jason. "Continuei na esperança de que eles pudessem ser os únicos trigêmeos a sobreviverem com 22 semanas, mas eles se foram rapidamente".

Apesar da profunda dor de presenciar os seus filhos partindo, o casal ficou impressionado ao ver como eles estavam perfeitamente formados, com seus narizinhos, seus frágeis dedinhos, as unhas e, acima de tudo, com seus rostinhos adoráveis. "Nós os seguramos. Tivemos tempo de examiná-los com cuidado e sentimos realmente como se os tivéssemos conhecido um pouco", disse Jason.

Mais tarde, o resto da família chegou ao hospital para dar suporte ao casal e se despedir das três pequenas crianças. Uma enfermeira tirou o "carimbo do pezinho" dos três. Eles foram vestidos com uns pequenos chapéus e envoltos em roupinhas coloridas.

Para a mãe, tudo foi uma incrível mistura de emoções: "Nós seguramos os bebês, choramos, olhamos para eles e os examinamos, conversamos com eles e os batizamos. Enfim, nós os amamos."

Durante quatro horas, Bernadette, Adam e Christine foram amados, respeitados e acalentados por cada momento de suas curtas existências.

Em busca de sentido

Logo após a morte das crianças, Jason e Marie se perguntavam sobre o que devia ser feito com os seus restos mortais, não sabendo se o hospital deixaria que eles levassem os seus corpos.

O pai de Marie interveio. "É claro que devemos dar a eles um funeral adequado", ele disse. "Eles tiveram uma vida, assim como qualquer pessoa. Nasceram, foram batizados, viveram e morreram."

O irmão de Marie fez um pequeno caixão de madeira com três cruzes em cima. Os trigêmeos que cresceram, viveram e morreram juntos, seriam agora colocados juntos no seu paradeiro final de descanso.

Jeff Gunnarson, da Campaign Life Coalition, assistiu ao funeral e contou ao LifeSiteNews.com que ficou "profundamente emocionado" ao escutar o testemunho de Jason sobre a vida de seus filhos, acrescentando que era difícil encontrar algum olho seco na multidão.

"Jason explicou às pessoas ali reunidas que a vida de seus filhos foi preciosa", ele conta. "Ele mencionou as frágeis e pequenas unhas de suas filhas e o belo traço do queixinho de seu filho. Disse que, mesmo prematura, cada criança já mostrava traços distintos de personalidade. Ele mostrou que cada pessoa tem uma vida única e irrepetível."

"Acredite-me, qualquer um naquela multidão com um pingo de indiferença ao valor de um bebê de 22 semanas teria deixado o funeral repensando sua posição pró-aborto. Jason transmitiu como são maravilhosamente formados esses pequenos filhos de Deus. Ele foi capaz de enxergar, naquele sério e triste, mas também profundo momento de despedida, um raio pró-vida de esperança que trouxe lágrimas aos nossos olhos e fez com que sentíssemos gratidão por testemunhar um tão belo amor."

Um testemunho de vida

Como qualquer pai que tivesse que enterrar seus filhos, Jason e Marie se pegaram perguntando "por quê". Nos dias mais sombrios, eles se viram lutando com Deus na oração, perguntando a Ele por que havia permitido aquela dor, aquele luto, aquele sofrimento, aquela perda.

O momento mais difícil para Marie foi acordar no meio da noite que sucedeu a sua perda. Assim que o pesadelo do dia anterior caiu sob a sua cabeça, ela se deu conta de que não estava mais grávida. "Senti-me realmente desesperada, perguntando a mim mesma como poderia vir alguma coisa boa de tudo isso", ela conta.

À procura de respostas para questões tão difíceis, os dois se voltaram para a fé. "Não sabíamos por que não tínhamos conseguido ficar com eles", disse Marie. "Mas, seja qual for a razão, Deus permitiu que eles fossem tirados de nós. Temos fé de que eles estão agora no Céu, descendo para tentar nos puxar para lá com eles. Acreditamos que temos três pequenos anjos lá em cima, intercedendo por nós, a fim de que também nós um dia cheguemos lá."

Ao invés de focar na sua perda, o casal decidiu dar atenção às bênçãos que recebeu. "De qualquer modo, esses bebês são um testemunho de vida. É isso o que eles são. É isso o que temos de ver em tudo isso", diz Marie.

Apesar da dor e da perda, os pais nunca pensariam em tirar a vida de seus filhos. Eles sabem que o luto e o sofrimento não têm a palavra final.

Os trigêmeos já têm feito a diferença nas vidas de todos os que os conheceram. Os vizinhos se uniram para ajudar Jason e Marie. Os membros da família superaram as suas pequenas diferenças e ficaram juntos. A fé em Deus e os laços familiares foram fortalecidos; os corações frios foram aquecidos.

"De alguma forma, o simples fato de ver as suas vidas muda um coração", diz Jason. "A esperança e a oração" dos dois é que, compartilhando a sua experiência, outros "sejam encorajados" a enfrentar escolhas difíceis relacionadas à vida.

Eles colocaram no YouTube um emocionante tributo em memória aos seus três filhos. Os pais escreveram e gravaram uma canção cordial e inspiradora que acompanha a sua história, a qual é contada pelas fotos e pelo texto. O vídeo já recebeu mais de 4 milhões de visualizações.

"Graças a Deus, as vidas dos nossos bebês podem, de alguma forma, fazer a diferença, ainda que seja apenas fortalecendo e encorajando as pessoas que já estão no movimento pró-vida", diz Jason.

Gunnarson denominou o testemunho dos Taylor como "corajoso e surpreendente". Eles mostraram ao mundo que trazer crianças de 22 semanas ao mundo, mesmo sem longas perspectivas de vida, é "a coisa mais natural e mais saudável a se fazer". Ainda que Bernadette, Christine e Adam não fossem capazes de sobreviver senão por algumas horas, foram horas preciosas de existência – horas que dão testemunho do valor e dignidade de cada pessoa humana.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução e adaptação: Equipe CNP

| Categoria: Espiritualidade

Lembre-se de quem você é

O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma "determinada determinação" de tornar-se santo como o Pai é santo

A filiação divina é o fundamento da vida cristã. O ministério público de Jesus inicia-se com estas palavras: "Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição" (Mt 3, 17). Essa é a novidade trazida pela encarnação de Cristo. Ao entregar seu único filho, a fim de que por Ele se operasse a redenção do gênero humano, Deus manifestou sua profunda essência paterna. Diferentemente do que apregoava Ário, nunca houve um tempo em que Deus não foi pai. Com efeito, é seu querer fazer que o homem atinja a perfeição cristã, conduzindo-o pelo caminho do amor, da fé e da esperança, até o dia em que o reunirá "e o apertará sobre seu seio" (cf. Is 40, 10-17).

O reconhecimento da paternidade divina, por sua vez, exige uma urgente mudança de vida. O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma determinada determinação — como dizia Santa Teresa d'Ávila — de tornar-se santo como o Pai é santo [1]. Não pode servir a dois senhores. A santidade deve ser nossa única meta nesta vida. Todavia, para que possamos atingi-la, é necessário o auxílio da graça. Amamos com o amor de Deus. A lógica da santidade cristã, portanto, é esta: Deus me ama (pela fé, cremos no seu amor), eu amo Deus (pela caridade, devolvo seu amor a Ele e ao próximo). E isso se realiza mediante a esperança. Esperamos em Deus a purificação de nossas faltas para que possamos urgentemente amá-lO "em espírito e em verdade" (Jo 4, 24). Pois "quem pôs a sua esperança em Cristo vive dela, e traz já em si mesmo algo do gozo celestial que o espera" [2].

A consciência de que, pelo batismo, somos filhos de Deus — e, por isso, chamados a uma dignidade superior — revela-nos a nós mesmos. Assim, quem se esquece da paternidade divina, esquece sua própria identidade. No clássico-infantil O rei leão, enxergamos essa realidade, de maneira alegórica, na cena em que o pai de Simba, Mufasa, aparece nas nuvens para recordar a condição real do filho. Após um olhar profundo para o lago onde vê o rosto do pai — que poderíamos encarar como o olhar profundo para nossa alma —, Simba escuta a vós de Mufasa, que lhe diz: "You have forgotten me, / you have forgotten who you are and so forgotten me. / Look inside yourself. / You are more than what you have become. / You are my son. / Remember who you are. — Você se esqueceu de mim, / você esqueceu quem você é e se esqueceu de mim / Olhe para dentro de você. / Você é muito mais do que pensa que é. / Você é meu filho. / Lembre-se de quem você é". Guardadas as devidas proporções, as palavras do personagem infantil ajudam-nos a recordar a exortação de um grande santo da Igreja, a saber, São Leão Magno: "Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e corpo és membro" [3].

De fato, Deus nos ama. É justamente essa a razão pela qual, na oração do Pai-Nosso, Jesus se dirige a Ele não só pelo pronome "Pai"; Ele diz "Abba, Pai", que em hebraico significa "papai". Com esta expressão, Jesus demonstra seu livre abandono, sua confiança filial. Faz-se como uma criança. "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem" (Lc 11, 13). Mesmo no pecado, Deus não nos abandonou à própria sorte, não deixou a ovelha perdida. Ao contrário, enviou seu próprio Filho para nos revelar a sua face e tornar-nos participantes de sua glória.

"Na tarde desta vida, aparecerei diante de vós de mãos vazias" [4]. Nesta frase, com a qual Santa Teresinha do Menino Jesus fez sua livre oferenda ao amor misericordioso, encerra-se toda a doutrina da filiação divina. Quem tem a Deus por Pai não pode ser outra coisa senão uma alma confiante. Ela, embora saiba o valor dos méritos, não procura ser amada por eles, mas unicamente pela graça do Pai. Não procura recompensas nem honrarias. Procura somente o amor. Sabe-se uma pequena ave, um fraco passarinho que, ficando em seu posto, não se aflige "se nuvens escuras vierem esconder o Astro de Amor", pois "sabe que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia ser eclipsado um só instante" [5]. Assim, voa para seu querido Sol nas asas de suas irmãs águias.

Os grandes santos da Igreja, a exemplo de Santa Teresinha, foram forjados sobretudo pela paternidade divina. Eles receberam o amor do Pai e, acolhendo-o em seu coração, sentiram a força para levar a mensagem salvífica até os confins do mundo. Em especial, mais do que qualquer outro santo, a Virgem Maria soube acolher a paternidade de Deus-Pai para ser a Mãe de Deus-Filho e, desse modo, cooperar para a redenção do gênero humano. Benditos são, portanto, aqueles que acreditam no amor de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Mt 5, 1-12.
  2. FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Falar com Deus: meditações para cada dia do ano. Vol. 7º: Festas litúrgicas e Santos (2). Índices. Julho-dezembro — 3ª ed. — São Paulo: Quadrante, 2005, pág. 186
  3. Catecismo da Igreja Católica, 2784
  4. Teresa de Lisieux, Oferenda ao amor misericordioso
  5. Manuscrito B, 5r