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É possível dialogar com o espiritismo?

O espiritismo é um dos desvios doutrinários mais perigosos presentes no Brasil, já que “nega não apenas uma ou outra verdade de nossa santa fé, mas todas elas”. Seria possível, diante disso, manter um “diálogo ecumênico” com os espíritas?

Por Frei Boaventura Kloppenburg — O Vaticano II nos explica que por "movimento ecumênico" se entendem iniciativas e atividades que visam à união dos cristãos (Unitatis Redintegratio, n. 4b). Um verdadeiro movimento ou diálogo ecumênico só é possível com aquelas igrejas ou comunidades cristãs separadas da comunhão católica que efetivamente dão esperanças positivas de chegar outra vez à comunhão plena. Mas o espiritismo não é uma igreja separada, nem mesmo pretende ser igreja. Não somente não há nenhuma esperança de conseguir algum dia "comunhão plena" com os reencarnacionistas, mas semelhante comunhão não é nem sequer pensável. O reencarnacionismo não é cristão e seus postulados fundamentais se opõem total e absolutamente à soteriologia cristã. E mesmo que se proclamassem cristãos, seria necessário dizer-lhes que em verdade não o são.

Em sua declaração oficial de 2 de janeiro de 1978, a Federação Espírita Brasileira, que é kardecista, fez saber que "é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de espíritas adotada por pessoas, tendas, núcleos, terreiros, centros, grupos, associações e outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina espírita", isto é, "o conjunto de princípios básicos codificados por Allan Kardec". Pela mesma lógica se pode afirmar também que é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de cristãos adotada por pessoas, centros, terreiros ou outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina cristã.

Colocados pastoralmente diante dos movimentos espíritas (ou outros, que não faltam entre nós), é necessário que nos perguntemos honradamente qual é nosso objetivo. Temos dois campos bem diferentes: de um lado estão os sectários com seus métodos proselitistas, procurando penetrar no ambiente católico; de outro lado temos os próprios católicos mais ou menos facilmente vítimas desta propaganda sectária. A quem queremos dirigir-nos pastoralmente: aos propagadores da evocação e da reencarnação ou aos fiéis católicos vítimas deste assalto? Do objetivo dependerá nosso método. Se não definimos previamente e com clareza a meta, ou se pretendemos alcançar uns e outros, animados com a benévola atitude de compreensão, de abertura e de diálogo com relação aos agressores, teremos uma ação pastoral híbrida, que produzirá nos fautores do erro grande alegria (pois lhes deixamos abertas todas as portas e ainda abrimos outras) e nos católicos um estado de confusão, desorientação e perplexidade ainda maior.

Desde o Concílio se insistiu muito no diálogo com os não-católicos. Esta disposição de diálogo com os responsáveis do movimento espírita não deve jamais olvidar que sua ativa presença entre nossos fiéis tem um objetivo claro e definido, que certamente não é o de ajudar-nos a conseguir que sejam melhores cristãos católicos. O Documento de Puebla (n. 80) constata que:

"Muitas seitas se têm mostrado clara e pertinazmente não só anticatólicas, mas até injustas contra a Igreja, e têm procurado minar seus membros menos esclarecidos. Devemos confessar com humildade que, em grande parte, até em determinados setores da Igreja, uma falsa interpretação do pluralismo religioso permitiu a propagação de doutrinas errôneas e discutíveis."

Por estes motivos nossa atitude pastoral há de dirigir-se em primeiro lugar diretamente às vítimas da propaganda espírita. Não podemos esquecer o grave fato da presença ativa, com claros propósitos proselitistas, daquilo que o Senhor chamou "falsos profetas". Tem-se a impressão de que entre os mesmos pastores católicos já não há ambiente para recordar palavras como estas das Escrituras:

"Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis" ( Mt 7, 15-16).

"Então, se alguém vos disser: 'Olha o Messias aqui', ou 'ali', não creiais. Pois hão de surgir falsos messias e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios, de modo a enganar até mesmo os eleitos, se possível. Eis que vo-lo predisse" ( Mt 24, 23-25).

"Quem não entra pela porta do redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante" ( Jo 10, 1).

"Sede solícitos por vós mesmos e por todo o rebanho… Eu sei que, depois de minha partida, introduzir-se-ão entre vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que no meio de vós surgirão homens que farão discursos perversos com a finalidade de arrastar discípulos atrás de si" ( At 20, 28-30; cf. 2Ts 2, 3-4; 2Pd 2, 1-3 e todo o cap. 13 do Ap).

Não nego o alcance e o valor positivo do diálogo. Haverá situações concretas e objetivos pastorais que pedem dar absoluta preferência ao método e à atitude do diálogo: no verdadeiro ecumenismo, quando há esperanças positivas de chegar a uma plena comunhão, o diálogo será a via indispensável.

Mas pode haver também situações concretas de defesa e de apologética: é precisamente o estado dos católicos indefesos, não suficientemente instruídos e preparados, constantemente molestados por importunos e falsos profetas disfarçados como cristãos. O binômio apologética-diálogo não deve ser proposto em forma disjuntiva, "ou apologética ou diálogo", mas na forma conjuntiva, "e apologética e diálogo". Apologética será a atitude pastoral com os crentes vítimas da invasão das seitas; diálogo será a atitude pastoral com os não-católicos desejosos de encontrar a unidade perdida mandada pelo Senhor.

Quando a situação do agressivo proselitismo sectário nos obriga a recorrer ao método apologético ou defensivo, será também inevitável a polêmica: diante da necessária atitude de defesa, o sectário reaciona; e esta reação pede muitas vezes resposta esclarecedora ou retificadora. Temos então a polêmica. Encontramo-la em Cristo, nos Apóstolos e nos melhores Santos Padres e Doutores da Igreja. "Este serviço dos pastores inclui o direito e o dever de corrigir e decidir, com a clareza e a firmeza que sejam necessários" ( Documento de Puebla, n. 249). "Em algumas ocasiões, falta a oportuna intervenção magisterial e profética do bispo, bem como maior coerência colegial" (Ib., n. 678). O silêncio e a atitude de tolerância, por vezes, pode ser um pecado de omissão e ter como conseqüência uma grei desatendida e dispersa. Devemos ser pastores. Pastores vigilantes. "O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas. O mercenário que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa" (Jo 10, 11-12). No Apocalipse 2, 13-16 diz o Senhor ao responsável da comunidade de Pérgamo:

"Sei onde moras: é onde está o trono de Satanás. Tu, porém, seguras firmemente o meu nome, pois não renegaste a minha fé, nem mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha fiel, que foi morto junto a vós, onde Satanás habita. Tenho, contudo, algumas reprovações a fazer: tens aí pessoas que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaq a lançar uma pedra de tropeço aos filhos de Israel, para que comessem das carnes sacrificadas aos ídolos e se prostituíssem. Do mesmo modo tens, também tu, pessoas que seguem a doutrina dos nicolaítas. Converte-te, pois! Do contrário, virei logo contra ti para combatê-los com a espada de minha boca."

É certo que no Brasil o espiritismo não é nosso único problema religioso. Infelizmente. Mas continua válida a constatação feita pelos bispos em 1953: que, no momento, o espiritismo ainda é o desvio doutrinário "mais perigoso", já que "nega não apenas uma ou outra verdade de nossa santa fé, mas todas elas, tendo, no entanto, a cautela de dizer-se cristão, de modo a deixar, a católicos menos avisados, a impressão erradíssima de ser possível conciliar catolicismo com espiritismo".


Transcrito e levemente adaptado de
Espiritismo, orientação para os católicos,
do Frei Boaventura Kloppenburg,
9.ª ed., São Paulo: Loyola, 2014, pp. 8-11.

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Ex-luterana convertida à Igreja é declarada santa pelo Papa Francisco

Ela nasceu na Suécia protestante para morrer em odor de santidade na Roma católica. Conheça um pouco da história de Maria Isabel Hesselblad, canonizada este mês pelo Papa Francisco.

O Papa Francisco canonizou, neste dia 5 de junho, a religiosa sueca Maria Isabel Hesselblad. Trata-se de um destino pouco comum para quem nasce na região da Escandinávia, dominada pelo protestantismo desde o século XVI.

De fato, Isabel foi criada em um lar protestante. Nasceu no vilarejo de Faglavik, sudoeste da Suécia, no dia 4 de junho de 1870. Ela era a quinta de 13 irmãos e foi batizada na comunidade luterana da Suécia, que seus pais frequentavam todos os domingos.

Com 16 anos, para ajudar nas necessidades materiais de casa, Isabel começa a trabalhar como doméstica. Dois anos depois, em 1888, a jovem decide mudar-se para os Estados Unidos, onde passa a trabalhar como enfermeira em um hospital de Nova Iorque. Aí ela entra em contato com diferentes culturas e religiões, descobrindo um mundo cristão totalmente diverso daquele a que estava acostumada na Suécia: a Igreja Católica.

Enquanto atendia a um trabalhador irlandês que se havia ferido na construção da futura Catedral de São Patrício, Isabel ouviu-o clamando o auxílio de Nossa Senhora: "Maria, Mãe de Deus, rogai por nós!". Assustada com a invocação, a jovem Isabel escreveria que "não era cristão" falar daquele modo. "Os católicos usam umas fórmulas curiosas", pensou ela na ocasião.

Outra noite, depois de enfrentar uma terrível tempestade buscando um sacerdote para um católico moribundo, ela receberia uma bênção profética. "Que Deus te abençoe, querida irmã, pelo teu cuidado e dedicação", disse-lhe o religioso. "Tu ainda não és capaz de entender o maravilhoso serviço que prestas a tanta gente, mas um dia o entenderás e encontrarás o caminho."

A jovem Isabel perambulava com suas amigas por várias igrejas cristãs de distintas denominações e se perguntava qual seria o único rebanho a que se referia o Evangelho de São João. Muito lhe agradava o silêncio das igrejas católicas, ainda que não conseguisse entender o porquê de tantos gestos físicos, como o sinal da cruz e as genuflexões.

Foi durante uma viagem a Bruxelas, enquanto acompanhava suas amigas católicas em um procissão do Santíssimo na Catedral de São Miguel e Santa Gudula, que Isabel teve um encontro pessoal com Jesus na Eucaristia:

"Ao ver as minhas duas amigas e muitos outros se ajoelhando, retirei-me atrás das portas para não ofender os que me rodeavam ficando de pé. Pensei comigo: 'Só me ajoelho diante de ti, Senhor, não aqui'. Naquele momento, o bispo chegou à porta carregando a custódia. Minha alma atormentada se encheu de repente de doçura e escutei uma voz, que parecia proceder ao mesmo tempo do exterior e do fundo do meu coração, que me dizia: 'Eu sou aquele que tu buscas'. Caí de joelhos, então, e ali, atrás da porta da igreja, realizei a minha primeira adoração a nosso divino Senhor presente no Santíssimo Sacramento."

Essa experiência mística abriu a alma de Isabel à fé católica. Depois, a oração, o estudo e os conselhos de um sábio padre jesuíta terminariam dissipando as suas dúvidas em relação a Nossa Senhora. Em 15 de agosto de 1902, já com 32 anos, Isabel finalmente recebe o Batismo "sob condição", no Convento da Visitação, em Washington. "Por um momento o amor de Deus foi derramado sobre mim", ela escreve, relembrando esse evento tão importante em sua caminhada de fé. "Entendi, então, que só poderia responder àquele amor por meio do sacrifício e de um amor disposto a sofrer por Sua glória e pela Igreja. Sem hesitar ofereci a Ele a minha vida e a minha vontade de segui-Lo no caminho da Cruz."

Durante uma peregrinação à Cidade Eterna, Isabel recebeu o sacramento da Confirmação e descobriu que devia dedicar toda a sua vida a rezar pela unidade dos cristãos. Ao visitar o templo e a casa de sua conterrânea, Santa Brígida, ela ficou profundamente impressionada e sentiu que Deus lhe chamava para a vida consagrada: "É neste lugar que desejo que Me sirvas".

Em 1906, ela recebe a permissão do Papa São Pio X para tomar o hábito da Ordem do Santíssimo Salvador, fundada por Santa Brígida. Cinco anos depois, passados inúmeros percalços, ela consegue estabelecer em Roma uma casa das brigidinas, dando início a um novo ramo da comunidade.

Desde o começo de sua fundação, Isabel se dedicou com muito cuidado à formação e direção de suas filhas espirituais. Ela implorava a elas que vivessem unidas a Deus, que tivessem um desejo fervoroso de se conformarem a nosso Divino Salvador, que possuíssem um grande amor pela Igreja e pelo Romano Pontífice e, por fim, que rezassem continuamente pela unidade de todos os cristãos. "Essa é a primeira meta da nossa vocação", ela repetia. "Nossas casas religiosas devem ser formadas pelo exemplo de Nazaré: oração, trabalho e sacrifício. O coração humano não pode aspirar a nada maior."

Contemplando o infinito amor do Filho de Deus, que Se sacrificou pela nossa salvação, ela alimentava a chama do amor em seu coração e lutava por transmitir a mesma caridade a suas filhas. "Nós devemos nutrir um grande amor por Deus e pelo próximo", ela dizia. "Um amor forte, um amor ardente, um amor que elimine as imperfeições, um amor que gentilmente suporte um ato de impaciência ou uma palavra amarga, um amor que se preste prontamente a um ato de caridade."

Durante a Segunda Guerra Mundial, o convento das brigidinas em Roma escondeu inúmeros refugiados, vindos de todos os lados, o que fez o Estado de Israel reconhecê-la com o título de "justa entre as nações".

A bem-aventurada Maria Isabel Hesselblad morreu em 24 de abril de 1957, em odor de santidade. Já em 2000 ela foi beatificada pelo Papa São João Paulo II.

Ao aproximar-se a sua morte, Isabel rezava continuamente o Rosário. "A Virgem está mais próxima de mim que o meu próprio corpo", ela escrevia. "Sinto que seria mais fácil cortar-me um braço, uma perna ou a cabeça que afastar de mim a Virgem. É como se a minha alma estivesse acorrentada a ela."

Com informações de ReL e Vaticano | Por Equipe CNP

Sugestão

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Os seis eixos pastorais de João Paulo I

Em apenas 33 dias de pontificado, João Paulo I foi capaz de levar a mensagem pacificadora de Cristo, sobretudo através de seu sorriso - o sorriso de Deus.

São João Paulo II reinou gloriosamente no Trono de São Pedro por quase 27 anos. Foi o terceiro maior pontificado da história da Igreja. Perde apenas para São Pedro e Pio IX. Considerado conservador demais para uns, inovador demais para outros, o Pontífice polonês soube, como nenhum outro até então, deixar a sua marca: O Papa das multidões, o Papa da Teologia do Corpo, o Papa da família, o Papa do segredo de Fátima, o Papa que derrubou o comunismo, o Papa das Jornadas Mundiais da Juventude… O Papa do Terceiro Milênio. João Paulo II teve a missão de levar o catolicismo adiante, em uma época de ideologias que pareciam já não deixar espaço para a fé cristã. Após sua morte, em abril de 2005, é possível dizer que seus esforços não foram em vão.

Todos os Papas são chamados a uma missão especial: Confirmar seus irmãos na fé. É um dos deveres do Sucessor de Pedro vigiar e zelar para que o rebanho de Cristo não seja assaltado pelos lobos. João Paulo II fez de seu programa de governo uma autêntica cruzada. Na raiz disso, encontra-se outro programa de governo que, dadas as circunstâncias em que foi ceifado, não teve tempo de prosseguir. Ao menos não pelo seu idealizador. Falamos de João Paulo I. O imediato predecessor de Karol Wojtyla, por um desígnio divino, foi Papa por apenas 33 dias. "Ele que despertou na Igreja tão grande alegria e inspirou nos corações dos homens tanta esperança, em tão breve tempo consumou e levou a termo a sua missão", enfatizou João Paulo II, durante sua primeira Audiência Geral, na Sala Paulo VI. Recordando o Papa falecido, o Papa reinante esclareceu que era seu desejo "continuar os temas já iniciados por João Paulo I". Wojtyla falava das catequeses sobre as virtudes. Mas em seu coração, como havíamos de provar, vislumbrava-se o grande projeto de João Paulo I: Trazer a humanidade de volta para o seio da Igreja.

Albino Luciani, o Papa João Paulo I, possuía uma consciência muito clara do "caráter insubstituível da Igreja Católica". "Só nela se encontra a salvação: sem ela perece-se!", ensinava. Assim, logo na sua primeira mensagem apostólica, o Papa que se chamava "humilde e último 'servo dos Servos de Deus'" não hesitou em convocar uma nova evangelização. Para um mundo acostumado ao relativismo, tentado a substituir a Deus pela própria vontade, pensar em uma "nova evangelização" é flertar com o imperialismo. Não era assim que pensava João Paulo I. Sua humildade estava no devido lugar. Não sofria do mal do século, conforme explica G.K. Chesterton: "O mal de que sofremos hoje em dia é a humildade no lugar errado… O homem foi concebido para duvidar de si mesmo, mas não da verdade… O novo cético é tão humilde que duvida até de sua capacidade de aprender" [1]. Na contramão, enquanto o mundo todo duvidava da necessidade da Igreja, da necessidade de voltar-se uma vez mais para Cristo e seus ensinamentos, João Paulo I levantava-se sob esta mesma certeza: A Igreja Católica é garantia de paz e ordem. E essa certeza provinha não de teorias abstratas e sem fundamentos, mas do "encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo." [2]

Afamado já desde o tempo de Cardeal Patriarca de Veneza por sua simplicidade e pobreza, o único e urgente desejo de Albino Luciani era o de levar o patrimônio espiritual da fé a toda a humanidade. Por isso, recomendava ao Orbe Católico [3]:

"Superando as tensões internas, que aqui e além se puderam criar, vencendo as tentações de identificação com os gostos e costumes do mundo, e bem assim as atrações de um fácil aplauso, unidos no único vínculo do amor que deve informar a vida íntima da Igreja como também as formas externas da sua disciplina, os fiéis devem estar prontos a dar testemunho da própria fé diante do mundo: Sempre prontos a responder, para vossa defesa, a todo aquele que vos pergunte a razão da vossa esperança (1 Pd 3, 15)."

João Paulo I deteve-se sobre seis eixos principais na elaboração de seu projeto pastoral. O primeiro deles: "Queremos prosseguir, sem paragens, a herança do Concílio Vaticano II". Pode-se dizer que Luciani foi pioneiro na chamada hermenêutica da continuidade, muito antes que Ratzinger a comentasse naquele famoso discurso aos Cardeais, no natal de 2005. João Paulo I tinha olhos atentos para que certo ímpeto, "generoso talvez mas incauto", não deformasse o conteúdo do Concílio, como também para que "forças exageradamente moderadoras e tímidas" não atrasassem seu "magnífico impulso de renovação e de vida". Sobre a reforma litúrgica, exigia: "Desejaria também que Roma desse bom exemplo em matéria de Liturgia celebrada piedosamente e sem 'criatividades' destoantes… desejaria poder dar a certeza de que todas as irregularidades litúrgicas serão diligentemente evitadas." [4]

Dois outros desejos do Papa: "Queremos conservar intacta a grande disciplina da Igreja, na vida dos sacerdotes e dos fiéis" e "queremos recordar a toda a Igreja que o seu primeiro dever continua sendo o da evangelização". A relação entre esses dois "quereres" é evidente. Uma Igreja apostólica nasce precisamente de uma Igreja disciplinada, consciente de seu chamado à santidade. Quando se perde a dimensão espiritual, perde-se, ipso facto, o significado da missionariedade. A Igreja torna-se tão somente uma ONG piedosa, pois deixa de anunciar a Cristo. [5]

Quarta vontade de João Paulo I: "Queremos continuar o esforço ecumênico, que vemos como a última indicação dos nossos imediatos Predecessores, velando com fé intacta, com esperança invencível e com amor indeclinável pela realização do grande mandamento de Cristo: 'Que todos sejam um ( Jo 17, 21)'". Mas "sem cedências doutrinais", deixa claro. O esforço do Santo Padre vai na direção daquilo que Pio XI esclareceu na Mortalium Animos: "Não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela." [6] Também no mesmo sentido segue o desejo de "prosseguir com paciência e firmeza naquele diálogo sereno e construtivo, que o nunca suficientemente chorado Paulo VI pôs como fundamento e programa de sua ação pastoral".

And last, but not least, a intenção de "favorecer todas as iniciativas louváveis e valiosas, que possam defender e incrementar a paz no mundo conturbado". O Papa, como vigário de Cristo, é também um baluarte da paz. Mesmo com apenas 33 dias de pontificado, João Paulo I foi capaz de levar essa mensagem pacificadora, ora por seus escritos e radiomensagens, ora por seu imenso carisma. Sobretudo, pelo seu sorriso. O sorriso de Deus, como ficou conhecido. Quis a providência divina que seu ímpeto evangélico fosse breve no Trono de São Pedro. Ainda se pode ouvir sua frágil porém decidida voz defender o direito dos mais pobres naquele fatídico 28 de setembro de 1978. Em seu lugar, veio um polonês: João Paulo II. Essa história já conhecemos. Ela nos revela como a firmeza de um Papa por 33 dias é capaz de fortalecer a fé de um Papa por 27 anos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, págs. 53-54
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est, 25 de dezembro de 2005, n. 1
  3. Primeira Radiomensagem de João Paulo I, 27 de agosto de 1978
  4. Papa João Paulo I, Homilia da Missa de tomada de posse da Diocese de Roma, 23 de setembro de 1978, n. 3
  5. Papa Francisco, Homilia da Missa com os Cardeais, 14 de março de 2013
  6. Papa Pio XI, Carta Encíclica Mortalium Animos, 6 de janeiro de 1928, n. 16

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O verdadeiro ecumenismo está em Maria

O melhor caminho para se alcançar a unidade dos cristãos é a devoção à Virgem Maria

A separação dos cristãos constitui uma grave ofensa à vontade de Jesus Cristo, pois atenta contra a sua exortação para que todos sejam um e, assim, “o mundo creia" [1]. Ainda mais: trata-se de um verdadeiro escândalo; uma pedra de tropeço que “prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda criatura" [2]. Neste sentido, o chamado “movimento ecumênico", que visa à união de todos os fiéis no mesmo aprisco de Cristo, presta um grande serviço à difusão da fé. A pertença à Igreja Católica – o Sacramento Universal da Salvação – é o único meio seguro de que se tem notícia para alcançar a graça da paternidade divina, já que, como atestam os santos, não pode ter a Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe.

O ecumenismo, por outro lado, pode assumir características bem distintas de seus propósitos genuínos, quando imbuído de um espírito pouco católico. Diga-se com todas as letras: “Não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela" [3].

Contudo, um grande número de ecumenistas tende a pensar de maneira oposta, chegando às raias do absurdo de relativizar os dogmas de nossa fé, mormente quando se referem à Santíssima Virgem Maria. Ora, não há nada mais deplorável do que um filho que esconde a mãe, por medo do que podem pensar os outros. Quanto mais deplorável, portanto, é o católico que, achando fazer grande serviço aos irmãos separados, priva-os da maternidade de Maria, escondendo-a de seus olhos, como se se tratasse de uma mulher mundana. Quão entristecido deve ficar o coração de Jesus diante de almas tão pouco caridosas! Separam a mãe dos filhos, deixando-os à orfandade – ou acaso não foi desejo de Nosso Senhor que, desde o momento da crucificação, o apóstolo tomasse Maria por mãe? [4] Ora, se, à hora da Cruz, em São João estava representada toda a humanidade, Maria é mãe também dos protestantes.

Por isso, no diálogo com os irmãos separados, a maneira mais eficaz de atraí-los à verdadeira Igreja é apresentar-lhes a Mãe do Salvador. Quantas vezes, nos noticiários dos grandes jornais, nos deparamos com histórias comoventes de filhos que, após longos anos de separação, reencontraram suas mães? Essas histórias são verdadeiros testemunhos do quão imprescindível é a presença materna para a reta formação do filho. O próprio Cristo manifestou essa verdade, tendo vivido a maior parte de sua vida terrestre escondido do mundo, a fim de servir à sua Augusta Mãe. A esse respeito, São Luís de Montfort é mais do que taxativo: “Jesus Cristo deu mais glória a Deus submetendo-se a Maria durante trinta anos, do que se tivesse convertido toda a terra pela realização dos mais estupendos milagres" [5]. É que na docilidade da vida escondida, no trabalho do dia a dia, conformando-se à vontade do Pai e servindo à Virgem Santíssima – “era-lhes submisso" –, Jesus já operava a obra de nossa redenção, crescendo em graça e sabedoria [6].

Por isso, Maria não pode constituir um obstáculo à unidade dos cristãos; pelo contrário, a devoção mariana é um verdadeiro remédio, uma vez que “Maria, pela sua participação íntima na história da salvação, reúne e reflete, por assim dizer, os dados máximos da fé" [7]. Ela está intimamente ligada a seu filho, de sorte que os dogmas proclamados pela Igreja a seu respeito nada mais são do que luzes que iluminam ainda mais a beleza de Cristo: as duas naturezas em uma só pessoa. Está certo o Papa Bento XVI quando enfatiza que “é preciso retornar a Maria, se quisermos retornar àquelas verdades sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem" [8].

Ademais, como diz uma fórmula antiga, Maria é a inimiga de todas as heresias. Isso se confirma, sobretudo, por meio do testemunho eloquente do Papa emérito Bento XVI, que, quando cardeal prefeito da Doutrina da Fé, teve de lidar com todo tipo de desvios heréticos. O auxílio da Virgem Santíssima no combate às insídias do demônio tornou-o consciente de que aquela expressão conciliar “não se tratava de exageros de devotos, mas de verdades hoje mais do que nunca válidas" [9].

O Concílio Vaticano II, que foi o que mais deu atenção à questão ecumênica, dedicando um documento inteiro a esse assunto, foi também o Concílio que reafirmou o título de Maria como “advogada, auxiliadora, socorro e medianeira" [10]. Não seria por desejo divino, destarte, que a graça da unidade dos cristãos se operasse por meio da Mãe de Jesus? Essa é a pergunta que o “movimento ecumênico" se deve fazer todas as vezes em que for questionada a oportunidade de se falar de Nossa Senhora no diálogo com os protestantes. Vale a pena repetir: de Maria nunquam satis – de Maria nunca se dirá o suficiente.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Jo 17, 21
  2. Conc. Vat. II, Decreto Unitatis Redintegratio (20 de novembro de 1963), n. 1
  3. Papa Pio XI, Carta encíclica Mortalium Animos, 6 de janeiro de 1928, n. 16
  4. Cf. Jo 19, 27
  5. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 2012, n. 18
  6. Cf. Lc 2, 51-52
  7. Conc. Vat. II, Declaração Dogm. Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), n. 65
  8. RATZINGER; MESSORI, Joseph; Vitorio. A fé em crise? O cardeal Ratzinger se interroga. São Paulo: EPU, 1985, pág. 77
  9. Ibidem
  10. Conc. Vat. II, Declaração Dogm. Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), n. 62

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Cristãos devem percorrer juntos o "caminho estreito" da fidelidade a Deus, afirma o Papa


O Papa Bento XVI assinalou que todos os cristãos devem caminhar juntos pelo "caminho estreito" de fidelidade à vontade soberana de Deus, que quer que todos cheguem à santidade.

Assim o indicou o Santo Padre a uma delegação luterana da Finlândia, em ocasião da festa de Santo Enrique de Uppsala, padroeiro desse país. O encontro também aconteceu na véspera da Semana pela Oração da Unidade dos Cristãos cujo tema este ano vem do livro do profeta Miqueias: "Aquilo que o Senhor exige de nós?".

Bento XVI assinalou que "o profeta deixa claro o que o Senhor exige de nós: trata-se de 'fazer justiça, amar a misericórdia, e caminhar humildemente com nosso Deus'".

"O tempo do Natal que acabamos de celebrar nos recorda que Deus é aquele que desde o início caminhou conosco, e aquele que, na plenitude dos tempos, encarnou-se para nos salvar de nossos pecados e para guiar nossos passos no caminho da santidade, da justiça e da paz".

O Santo Padre ressaltou logo que "caminhar humildemente na presença do Senhor, em obediência à sua palavra de salvação e com a confiança em seu plano de graça, fornece uma imagem vívida não só da vida de fé, mas também de nosso caminho ecumênico para a plena e visível unidade de todos os cristãos".

"Nesta jornada de discipulado, somos chamados a continuar juntos na estrada estreita de fidelidade à vontade soberana de Deus para lidar com quaisquer dificuldades ou obstáculos que possamos encontrar".

Portanto, disse o Papa, "para avançar no caminho da comunhão ecumênica – destacou o pontífice - precisamos estar cada vez mais unidos em oração, cada vez mais comprometidos com a busca da santidade, e cada vez mais empenhados nos âmbitos da pesquisa teológica e cooperação a serviço de uma sociedade justa e fraterna".

"Seguindo este caminho de ecumenismo espiritual, caminhamos verdadeiramente com Deus e uns com outros na justiça e no amor porque, como afirma a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação: 'Somos aceitos Por Deus e recebemos o Espírito Santo que renova nossos corações, enquanto nos capacita e chama às boas obras'".

O Papa Bento XVI expressou sua esperança de que a visita a Roma da delegação finlandesa "contribua para fortalecer as relações ecumênicas entre todos os cristãos" neste país.

"Vamos agradecer a Deus por tudo que tem sido feito até agora e rezemos para que o Espírito da verdade guie os seguidores de Cristo em vosso país em um amor e uma unidade cada vez mais forte, enquanto se esforçam por viver na luz do Evangelho e iluminar com ela as grandes questões morais que enfrentam nossas sociedades".

"Se percorrermos juntos com humildade o caminho da justiça e da misericórdia que o Senhor nos indicou, os cristãos, não apenas viverão na verdade, como também serão faróis de alegria e de esperança para todos os que buscam um ponto seguro de referência em nosso mundo em constante mudança", concluiu.

fonte: ACI / EWTN Noticias