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Quem marchou pelas mulheres nos Estados Unidos?

Mesmo a mídia e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida.

Um dia após a cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, centenas de milhares de mulheres tomaram as ruas de Washington D.C. para protestar contra suas posições políticas com relação ao aborto e a outros temas que lhe custaram uma enorme dor de cabeça durante o período de campanha. A Marcha das Mulheres, como foi chamada pelos seus organizadores, contou com amplo apoio de organizações filantrópicas, de artistas e, sobretudo, da mídia, que, aliás, fez questão de repercutir a mensagem do protesto para o mundo inteiro. No Brasil, um jornal de grande circulação disse que a marcha representaria a "alma feminina".

"Não aceitem esta nova era de tirania em que não apenas as mulheres estão em perigo, mas todas as pessoas marginalizadas. A revolução começa aqui, este é o começo de uma mudança muito necessária", vociferou a cantora Madonna durante sua participação no evento. Madonna só se esqueceu de explicar, porém, como a Marcha das Mulheres pretende combater essa marginalização se seus próprios organizadores marginalizam quem discorda deles, como no caso do veto à participação de mulheres pró-vidano evento. Nesta nova revolução, é preciso perguntar, mulheres que não tratem seus bebês como apenas mais uma parte de seu corpo serão respeitadas?

A resposta é não. Desde que a ativista Adrienne Germain convenceu John Rockefeller III a investir em pesquisas sociológicas que mudassem o pensamento das mulheres a respeito da maternidade, os movimentos feministas tornaram-se apenas uma massa de manobra nas mãos dos grupos globalistas que querem o controle populacional. A defesa dos tais "direitos reprodutivos" não é uma questão de "alma feminina", mas de marketing para diminuir o número de gestações; não é a pessoa da mulher que interessa, mas o seu útero. É por isso que enquanto Scarlett Johansson discursava na Marcha das Mulheres a favor da Planned Parenthood, essa mesma instituição negava a uma gestante o serviço de pré-natal: "Nós fazemos controle de natalidade, sabe, essas coisas… aborto, nós não fazemos pré-natal". E isso, atenção, é muito mais misógino que qualquer conversa de Donald Trump.

Os jornais erram, mais uma vez, ao vincularem a "alma feminina" à defesa do aborto, como se a Marcha das Mulheres fosse o único grito de protesto ecoado nos Estados Unidos naquelas semanas. Outra marcha ocorreu poucos dias depois, também em Washington, reunindo dezenas de milhares de pessoas, principalmente jovens, para protestarem contra a "cultura da morte", que, desde a famosa decisão "Roe vs. Wade", em 1973, já ceifou a vida de mais de 58 milhões de bebês, mortos em clínicas de aborto. Embora os jornais insistissem em ignorá-la, como denunciou o presidente Donald Trump, a Marcha pela Vida, de fato, tem despertado uma nova geração de homens e mulheres americanos, cuja mentalidade não segue a corrente do hedonismo e do relativismo, mas dos valores perenes da dignidade humana. E esta é a "geração pró-vida" que promete pôr fim a "Roe vs. Wade" nos Estados Unidos.

A primeira Marcha pela Vida aconteceu em janeiro de 1974, graças aos esforços da ativista católica Nellie Gray. Convicta de que toda vida humana deve ser valorizada e protegida, Gray decidiu abandonar sua carreira para dedicar-se exclusivamente à causa pró-vida e à organização anual da marcha. O evento logo arrebanhou uma enorme quantidade de pró-vidas e inspirou outros movimentos ao redor do mundo. Em 2013, poucos dias após a posse de Barack Obama, a Marcha pela Vida reuniu mais de 600 mil pessoas na capital americana para reivindicar o fim do aborto e opor-se às medidas antinatalistas do então presidente democrata. Neste ano, o evento contou com a participação do atual vice-presidente, Mike Pence, e de outros membros do governo republicano. "A vida está vencendo outra vez nos Estados Unidos", comemorou Pence durante seu discurso, fazendo referência à medida assinada por Trump, que pôs fim ao financiamento de ONGs pró-aborto no exterior.

A influência da Marcha pela Vida sobre a cultura americana é reconhecida pelos próprios defensores do aborto. Em 2010, a feminista Nancy Keenan declarou seu espanto acerca da quantidade de jovens presentes na edição da marcha daquele ano, que reuniu 400 mil pessoas: "Eu apenas pensei, meu Deus, eles são tão jovens… há tantos deles e são tão jovens". A Revista Time, por sua vez, publicou uma longa reportagem no aniversário de 40 anos da lei "Roe vs Wade", analisando como os ativistas pró-aborto têm regredido desde 1973: "Conseguir um aborto na América é, em alguns lugares, mais difícil hoje do que em qualquer lugar desde que se tornou um direito constitucionalmente protegido 40 anos atrás".

É claro, portanto, que a Marcha das Mulheres está longe de representar a "alma feminina", como tentaram vender os jornais. Contra fatos não há fake news. Mesmo a enorme campanha midiática e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida. Trata-se do que disse a atual presidente do movimento, Jeanne Mancini: "Ser pró-vida é ser pró-mulher". Essa é a verdadeira "alma feminina".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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As pessoas mais difíceis de converter. Seria você uma delas?

Esta matéria é sobre um tipo difícil de converter, que acha que conhece a Cristo, que já vive o Evangelho e que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Seria você, por acaso, uma dessas pessoas?

As pessoas mais difíceis de converter não são os que estão no mundo, mas os próprios católicos.

Ninguém se escandalize com isso, porque essa situação já foi denunciada várias vezes por pregadores de outros séculos. O pe. António Vieira, por exemplo, dizia que, "antigamente, batizavam-se os que eram convertidos; hoje, é preciso converter os que são batizados". Se a situação era assim no seu tempo, o século XVII, quanto mais em nossa época, em que a TV, a Internet e os meios de comunicação de uma forma geral são os maiores responsáveis por "formar" (ou deformar) as mentes das pessoas! Nunca foi tão fácil ser mundano, render-se aos encantamentos do mundo e esquecer-se de Deus, de nossa alma e das verdades eternas!

No entanto, este que é um verdadeiro drama — o de perder a Deus pelo pecado e deixar escapar pelas mãos a própria salvação — só é vivido verdadeiramente por quem tem fé. Aqueles que não a têm já estão entregues, rendidos, derrotados. E é deles principalmente que falamos quando nos referimos às pessoas mais difíceis de converter. É a católicos sem fé que queremos atingir com estas linhas.

Cumpre dizer, antes de mais nada, que não queremos pintar um quadro horrendo para os outros, enquanto mascaramos a nossa própria condição. Nossa santificação, o trabalho de nossa conversão, não é, evidentemente, obra de um dia ou de uma semana. Nós, que caminhamos por este vale de lágrimas, devemos estar sempre conscientes de que a presença da Santíssima Trindade em nós, pela graça, vai encerrada "em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós" (2Cor 4, 7). Não é nossa pretensão criar uma "casta" de iluminados dentro da Igreja, nem instituir algum tipo de "alfândega" para limitar as pessoas que atravessam a soleira de nossos templos. Essa exortação é mais um "convite à penitência comum", pois é assim que deve ser a correção fraterna feita a pecadores por… pecadores [1]. Em outras palavras, Cristo veio ao mundo para salvar os delinquentes e nós somos os primeiros deles (cf. 1Tm 1, 15)!

Partamos, porém, sem mais delongas, a uma breve descrição de como vive a maior parte de nossos autodenominados católicos.

Crêem eles, porventura? Talvez nos artigos do Creio, se tomados de modo simples; desdobrado o conteúdo que ali se encontra, certamente encontraremos muitos negando, por exemplo, a existência dos demônios ou da condenação eterna. Eles certamente não se negarão a repetir os artigos do Creio, um por um, quando se levantarem no domingo, durante a Missa, para rezá-lo; mas é que eles vão à Missa com tanta irregularidade, que muitas vezes sequer se dão conta de que estão tropeçando em uma e outra parte da oração.

Mas o que acontece quando alguém lhe mostra que faltar à Missa aos domingos é pecado mortal? E que é preciso confessar-se, portanto, antes de aproximar-se novamente da Sagrada Comunhão? Neste momento, o tipo a que nos referimos imediatamente desconversa, dá de ombros, tenta dizer alguma coisa para se desculpar e leva a sua vida do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. No próximo domingo em que for à Missa, talvez daí a um mês — ou mesmo durante a semana, quando sentir vontade —, ele entrará tranquilamente na procissão para receber Jesus Eucarístico, sem nenhum escrúpulo ou remorso de consciência.

Esse exemplo é ainda muito simples, porque faz referência apenas ao preceito dominical. Se fosse tratado, no entanto, o problema do sexto mandamento, certamente a resistência seria ainda maior. Onde já se viu não poder comungar, por exemplo, quem usa anticoncepcionais? Ou quem dorme com o namorado ou a namorada? Ou quem assiste a vídeos pornográficos ou cai no pecado da masturbação? Ou até, e aqui se rasgam definitivamente as vestes, quem consente em maus pensamentos e já pratica o adultério com os outros no coração?

Esse tipo, porém, é empedernido, é teimoso. Quer participar das cerimônias católicas, mas sem levar muito a sério a Igreja da qual diz fazer parte. Quer ser ativo na liturgia, participar das pastorais e dos movimentos, mas isso é o bastante. Ele traça uma linha para demarcar o limite da sua entrega: até aqui eu vou, até aqui eu sou católico, até aqui eu obedeço à Igreja. Ir além — ele já estabeleceu, ex cathedra, em sua mente — é "moralismo", "radicalismo", "extremismo".

Por que é tão difícil mudar a cabeça de pessoas assim, é muitíssimo fácil de perceber. Diferentemente de quem vive no mundo, despreocupado de tudo e desligado de qualquer prática religiosa, esse tipo de católico acha que conhece a Cristo, acha que já vive o Evangelho, acha que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Se estivesse fora, assumisse a sua ignorância e entrasse na Igreja com a intenção de aprender e reformar as próprias opiniões, certamente produziria muito mais frutos do que no atual estado em que se acha.

Muito apropriadas nesse sentido são as palavras do bem-aventurado John Henry Newman, durante um discurso a pessoas de várias religiões:

"Ninguém deveria entrar na Igreja sem o firme propósito de aceitar a sua palavra em todas as matérias de doutrina e moral, e isso por ela vir diretamente do Deus da Verdade. Tu deves enfrentar a matéria e calcular os gastos (cf. Lc 14, 28). Se não te aproximas com esse espírito, tu sequer deverias aproximar-te: grandes e pequenos, instruídos e ignorantes, todos devem vir para aprender. Se tens essa disposição, dificilmente algo dará errado, pois tens uma boa base; do contrário, se vens com qualquer outra intenção, é melhor que esperes até que te tenhas livrado dela. Tu deves vir à Igreja, eu te digo, para aprender; deves vir, não para trazeres a ela tuas próprias noções, mas com a intenção de ser sempre um aprendiz; deves vir com a intenção de tomá-la como parte de tua herança e de jamais apartar-te dela. Não venhas como para um experimento; não venhas como para arrumar assentos em uma capela, ou bilhetes para uma conferência; vem a ela como para tua casa, para a escola de tua alma, para a Mãe dos Santos e vestíbulo dos céus." [2]

A recomendação que o Cardeal Newman faz em seu discurso é importante porque lembra que existe, na Igreja Católica, uma identidade substancialmente diferente do protestantismo, religião muito comum na Inglaterra de sua época (e, agora, cada vez mais, também no Brasil). Enquanto entre os protestantes cada cristão é, por assim dizer, o seu próprio papa, a única e verdadeira Igreja de Cristo é una. Isso significa que um católico, quando crê, não é no que quer, mas no que recebeu de outrem; quando leva uma vida moral, não é com base em suas próprias ideias, mas nos ensinamentos de uma autoridade; quando reza, não é conforme a sua cabeça, mas de acordo com o modo como Deus mesmo manifestou que quer ser cultuado. Nós não inventamos a nossa própria religião; vivemos (ou melhor, esforçamo-nos por viver) a religião que Deus mesmo instituiu.

Ser católico exige, portanto, em primeiríssimo lugar, uma autêntica mudança de mentalidade. Sem isso, não estaremos seguindo a Igreja, mas tão somente o nosso próprio "eu", como diz Santo Tomás de Aquino:

"É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade." [3]

Se a Igreja lhe diz, por exemplo, com a sua autoridade dada pelo próprio Cristo (cf. Mt 16, 18), que tal coisa é pecado, e você, ao invés de acatar, desconversa, diz que "não é bem assim" e tenta se justificar, é muito triste dizê-lo, mas seu catolicismo é superficial, não passa de um verniz, de uma fachada. Você não acredita na Igreja, mas em você mesmo. Sua opinião conta muito mais que a religião a qual você diz seguir. Seria muito mais honesto abandonar de vez essa peça farsesca que você encena e procurar a igreja protestante mais próxima e que mais se adequa aos seus gostos e posições.

Abra os olhos de uma vez por todas, pare de tentar mentir para si mesmo e de ficar se defendendo com insultos. Não chame os outros de "moralistas" só porque não compartilham do "código moral" inventado por você; não chame os outros de "radicais" só porque não são superficiais como você; não chame os outros de "extremistas" só porque você se contenta com uma vida morna e levada de qualquer modo. Converta-se, mude de mentalidade e honre as águas do santo Batismo com que a Igreja o banhou! Foi a ela, afinal, não a você, que Cristo confiou as chaves do Reino dos céus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 33, a. 5.
  2. John Henry Newman, Faith and Doubt. In: Discourses to Mixed Congregations, p. 231.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 3.

| Categoria: Sociedade

“Silêncio”, uma trágica negação da graça de Deus

Se há algum silêncio no filme de Martin Scorsese, é o silêncio que ignora a intrépida coragem e a alegria sobrenatural com que os mártires do Japão entregaram sua vida a Deus.

Por John Horvat II — Na história da Igreja, muitos mártires morreram pela fé. A começar por Santo Estêvão, o protomártir logo após a Ressurreição, eles foram os primeiros a serem lembrados, venerados por seu testemunho público e elevados ao altar com o título de santos. Houve também aqueles que negaram a fé sob pressão. Eles foram esquecidos e enterrados na escuridão da história.

O mundo moderno tem um problema com os mártires. As pessoas não são capazes de entender a glória do testemunho deles por Cristo. O homem moderno preferiria, ao invés, tentar encontrar alguma justificativa por trás da angustiante decisão daqueles que negaram a fé.

Tal é o caso do último filme de Martin Scorsese, Silence ("Silêncio", lançado no Brasil dia 2 de fevereiro). Trata-se de uma história sobre essa segunda categoria de não-mártires — de quem Nosso Senhor disse: "Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus" (Mt 10, 33).

Curiosamente, críticas recentes de "Silêncio" foram negativas — mesmo vindas da mídia liberal e hostil à Igreja. O consenso é que a tentativa de Scorsese, de propor para a admiração geral alguém que publicamente negou a sua fé, foi um fracasso.

Talvez seja porque a natureza humana considera tais renúncias detestáveis. Mesmo o talento do diretor, os efeitos especiais de Hollywood e a publicidade midiática não puderam superar esse fato. A tentativa ardilosa de Scorsese de justificar seu protagonista atormentado mostrou-se entediante e pouco convincente.

A "autoridade docente" de Hollywood

"Silêncio" é baseado em um romance de 1966 de mesmo nome, escrito pelo autor japonês Shusaku Endo. O enredo gira em torno de um personagem fictício: um padre jesuíta português do século XVII, no Japão, na época de uma violenta perseguição anticatólica. O filme representa um "conflito de fé", no qual o padre deve escolher entre a sua fé e as vidas de seu rebanho. Diante de sua provação, ele se depara com o silêncio de Deus às suas súplicas, de onde vem o título do filme. Finalmente, Cristo mesmo supostamente rompe o silêncio, dizendo-lhe interiormente que deve negar a fé, passando por cima de sua imagem a fim de salvar seu rebanho.

Uma história tão superficial e contrária a todo o ensinamento da Igreja normalmente não representaria nenhuma ameaça aos católicos que são firmes na fé. Entretanto, Hollywood tem tragicamente assumido o papel de uma autoridade docente para incontáveis católicos. Portanto, a principal lição ensinada pelo filme — que a negação pública da fé pode ser justificada algumas vezes e até ser desejada por Deus — realmente oferece um perigo a muitos não-catequizados, os quais podem vir a confundir o script de Hollywood com as Escrituras. Qualquer silêncio a respeito de "Silêncio" pode ser mal interpretado como um consentimento.

Não que seja o caso de rever o filme ou explorar os seus complexos enredos e subenredos. Tais filmes não apresentam, na verdade, nada de novo; não passam de meios para reafirmar certas premissas falsas que minam a fé. É de longe muito melhor responder às próprias premissas falsas, especialmente no modo como elas são aplicadas à lamentável incompreensão de martírio que tem a modernidade.

O martírio como uma derrota

A primeira falsa premissa é a concepção moderna de que a vida é o valor supremo. Essa é uma premissa terrível, pois, se não há nenhum valor pelo qual valha a pena morrer, então não há nenhuma razão real pela qual valha a pena viver. Em um mundo materialista que adora a vida e seus prazeres, o martírio representa fracasso. Aqueles que renunciam a fé e o martírio são vencedores. Aqueles que não o fazem são perdedores.

A mensagem de contos fictícios como "Silêncio" é de que a vida é para ser adorada a tal ponto que até mesmo Deus deve fazer-se cúmplice em inspirar a apostasia que salva a vida dos fiéis. Entretanto, narrativas assim são realmente fictícias; elas ignoram a realidade histórica do que aconteceu.

O registro histórico

O registro histórico dos mártires japoneses é um dos mais gloriosos na história da Igreja. Trata-se de uma ardente reprimenda ao mundo moderno por sua "idolatrização" da vida. Dezenas de milhares sofreram ou morreram nas mãos de cruéis executores. Se histórias são necessárias para inspirar autores, deixem-nos falarem da coragem, do heroísmo e da perseverança destes mártires japoneses, jovens e anciãos, homens e mulheres, religiosos e seculares, que alegremente deram suas vidas por Cristo e ganharam para si mesmos a coroa da glória eterna. Se vilões precisam ser encontrados nessas histórias, deixem-nos serem encontrados nos cruéis governadores e juízes que condenaram os cristãos à morte.

Em 1776, Santo Afonso de Ligório escreveu o livro Vitória dos Mártires, o qual contém uma longa seção destinada a contar incríveis histórias sobre os mártires japoneses. Ele fala, por exemplo, de uma cristã japonesa chamada Úrsula, que, ao ver seu marido e dois filhos martirizados, exclamou: "Louvado sejais, ó meu Deus, por me terdes tornado digna de estar aqui neste sacrifício! Concedei-me agora a graça de tomar parte em sua glória". Ela e sua filha mais nova foram decapitadas.

De fato, qualquer padre que salvasse a vida de suas ovelhas renunciando sua fé seria desprezado pelos fiéis japoneses, tanto por sua negação, quanto por ter privado seu rebanho da coroa do martírio.

Se há algum silêncio no "Silêncio" de Scorsese, é o silêncio que ignora a intrépida coragem e a alegria sobrenatural encontrada nos mártires e missionários japoneses, cujo testemunho era tão superior a ponto de seus inimigos serem vencidos por seus argumentos e resolverem matá-los. O martírio desses homens não foi a sua derrota, foi a sua vitória.

Atos sem significado

Uma segunda premissa é a de que atos externos não têm significado algum. Eles significam o que quer que uma pessoa determine que eles sejam. Uma premissa assim é típica do pensamento pós-moderno, que "desconstrói" atos de seu significado e contexto naturais.

Portanto, qualquer benefício ou inspiração pode justificar um ato que significa a negação da fé, já que atos não têm nenhum significado fixo. De fato, o enredo do filme mascara a negação pública com a boa intenção do protagonista de preocupar-se com a segurança de seu rebanho.

Novamente, isso mostra uma profunda incompreensão da ideia de martírio. A palavra martírio significa "testemunha" — uma manifestação externa da fé aos outros. A interpretação pós-moderna do dilema do martírio questiona a noção de que possa haver testemunhas tão convictas das verdades da religião católica a ponto de elas sofrerem felizes a morte ao invés de negarem a fé. A "metanarrativa" dos grandes feitos dos mártires não é mais válida. Mesmo a ideia de verdade é relativa. Tudo deve ser reduzido ao nível da experiência pessoal.

E, outra vez, tal interpretação vai contra a realidade histórica que foi centrada na noção de verdade objetiva. Aqueles que perseguiram a Igreja odiavam a verdade e a lei moral ensinadas por Cristo e pela Igreja. Eles odiavam especialmente o testemunho público dado pelos cristãos porque seu testemunho denunciavam os seus pecados e fraquezas. Tudo o que eles pediam de suas vítimas era algum sinal público de negação. Por essa razão, perseguidores frequentemente forçavam cristãos a negarem sua fé ao invés de tirarem suas vidas.

Historicamente, essa é a razão por que aqueles que perseguem a Igreja sempre querem oferecer honrarias, postos e benefícios àqueles que renunciam a fé. Eles sempre darão aos cristãos uma desculpa para deixarem de ser testemunhas. Isso inclui aquelas "boas intenções" a fim de diminuir o sofrimento da família, dos parentes e dos fiéis cristãos. No entanto, isso é apenas um pretexto. O que eles querem destruir, na verdade, é o testemunho que os assombra e os chama à virtude. Eles querem cristãos renegados para fazerem suas negações públicas e, assim, desencorajarem o testemunho de outros.

Felizmente, seus esforços são sempre frustrados pela constância dos fiéis cristãos que levam outros à conversão. Eles não entendem que "o sangue dos mártires é semente para novos cristãos", como dizia Tertuliano.

O deus do silêncio

A última falsa premissa vem de uma compreensão naturalista do mundo, em que as pessoas não compreendem o modo como Deus trabalha nas almas. O mundo secular pensa que a posição natural de Deus seja a do silêncio. Quando os escritores seculares são forçados a imaginar a ação de Deus sobre seus personagens, eles a retratam como uma questão puramente pessoal, baseada em sentimentos e emoções inconsistentes e distantes da lógica da lei divina.

Essa é, talvez, a maior incompreensão da fé. Os autores modernos criaram o seu próprio "deus" do silêncio, com crentes fora da vida da graça.

Uma combinação assim leva a representações absurdas como as de "Silêncio". O martírio não pode ser baseado em emoções ou sentimentos, já que envolve o sacrifício do maior dom natural que o homem possui — a vida. Isso é algo tão difícil que está acima das forças do ser humano. O martírio requer a graça, que ilumina o intelecto e fortalece a vontade. Só assim os cristãos podem fazer o que está acima de sua natureza humana. A graça de Deus nunca permitiria que uma pessoa negasse a Cristo diante dos homens.

O martírio, fruto da graça

É por isso que Santo Afonso declara ser uma questão de fé que "os mártires devem suas coroas ao poder da graça que receberam de Jesus Cristo; por Ele é que receberam a força para desprezar toda promessa e ameaça dos tiranos e suportar todos os tormentos até que tenham feito um sacrifício completo de suas vidas".

Ademais, Santo Agostinho declara que os méritos dos mártires provêm dos efeitos da graça de Deus e da cooperação deles com essa graça.

Em outras palavras, Deus não pode silenciar-se face ao martírio, como afirma o "Silêncio" de Scorcese. Sua justiça não permitirá a uma pessoa ser tentada além dos limites de sua capacidade. Ele está intimamente unido àqueles que enfrentam o martírio. Ele lhes dá a graça que é uma participação em sua própria vida divina. Enfrentar o martírio sem a graça é impossível. Ainda que Deus permita desafios, Ele nunca está em silêncio.

Os católicos não podem ficar em silêncio

E é por isso que os católicos não podem se silenciar diante desse filme. A produção de Scorsese é uma trágica negação da graça de Deus em um mundo urgentemente necessitado dela. Nestes dias em que católicos estão sendo martirizados, nós precisamos saber que Deus nunca fica em silêncio. Os mártires nunca estarão em uma situação em que Deus trai a si mesmo. Ele sempre estará com eles quando necessário.

A visão de mundo secular é estreita e asfixiante, mas, infelizmente, é a que prevalece hoje em dia. A obsessão com o "eu" permeia a cultura até a exclusão de Deus. Não é de se admirar que muitos pensem haver "silêncio" do outro lado do martírio. Isso se deve em grande parte ao fato de essas pessoas viverem, em suas próprias vidas, um grande vazio existencial. Elas simplesmente não conseguem acreditar na ação de Deus e da Sua graça.

Em meio à frenética intemperança dos nossos tempos, as multidões agitadas ironicamente não buscam Deus onde Ele sempre pode ser encontrado — no silêncio de suas próprias almas.

Fonte: Return to Order | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categorias: Sociedade, Política

O samba da “pluralidade” de uma nota só

Os modernos arautos da “tolerância” só sabem tolerar, na verdade, quem pensa como eles.

"Presidente da CNBB, o cardeal Sergio da Rocha enviou carta a Temer recomendando a indicação de Ives Gandra Martins Filho para o STF", informa a Folha de S. Paulo. "Os arcebispos dom Odilo Scherer e dom Orani Tempesta também manifestaram apoio ao jurista".

Outros que "entregaram ao Palácio do Planalto cartas de apoio a Ives Gandra Filho para o STF", de acordo com Lauro Jardim, foram os líderes da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil e da Conferência Nacional das Igrejas Evangélicas do Brasil.

Nas redes sociais, foi lançada uma campanha para que as pessoas entrem em contato com o Gabinete da Presidência, pedindo a Michel Temer que indique Ives para a Suprema Corte. Muitos estão fazendo a sua parte e a pressão já está surtindo efeitos.

Do outro lado, as críticas à indicação de Ives continuam, evidentemente, a todo vapor — ainda que os métodos empregados nem sempre sejam os mais honestos. No último dia 30, foi a vez do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) manifestar o seu repúdio ao nome de Ives Gandra. Alega-se, entre outras coisas, que suas posições seriam um grave atentado à "configuração plural" do "conceito de família". Para entender o que isso significa, basta explicar que o IBDFAM é conhecido por defender a poligamia. Para Maria Berenice Dias, uma das fundadoras da organização, a monogamia não passa de "uma mera convenção decorrente do triunfo da propriedade privada sobre o condomínio espontâneo primitivo" — noção que ela aprendeu com ninguém menos que Friedrich Engels.

Compartilha de semelhante opinião o ministro Luiz Edson Fachin, que já foi membro do mesmo instituto. Em prefácio ao livro "Da Monogamia – A sua Superação como Princípio Estruturante do Direito de Família", do seu ex-aluno Marcos Alves da Silva, Fachin pede a superação da monogamia, considerada por ele como um "jugo". Os que defendem que um homem deve ter uma só mulher e vice-versa são comparados pelo jurista a uma "gosma com verniz de epidérmico conhecimento" — mais ou menos como Ives Gandra Filho e a maioria da população brasileira.

Acontece que, no Brasil, a bigamia é crime tipificado pelo art. 235 do Código Penal e o casamento exige dos cônjuges, segundo o art. 1.566 do Código Civil, o dever de "fidelidade recíproca".

Mas, quando nomeado para o Supremo, algum desses veículos de imprensa que agora vociferam contra Ives Gandra pediram a Fachin algum tipo de explicação?

Não, nenhum.

Outro ministro conhecido por suas posições progressistas é Luís Roberto Barroso. Muito antes da patética decisão de dezembro de 2016, quando ele tentou usar um habeas corpus para descriminar o aborto até o terceiro mês de gravidez, o advogado Barroso já havia reconhecido, em entrevista, que "a mulher tem o direito fundamental a escolher se ela quer ou não ter um filho" — mesmo depois de concebido.

Acontece que, no Brasil, o aborto é crime (Código Penal, art. 124), violação do direito fundamental à vida do nascituro (Constituição Federal, art. 5.º, caput; Código Civil, art. 2.º).

Mas, quando indicado para o Supremo, algum desses veículos de imprensa que agora bradam contra Ives Gandra pediram a Barroso algum tipo de explicação?

Mais uma vez, não, absolutamente nenhum.

Este é, portanto, o samba da "pluralidade"… de uma nota só. O Supremo pode albergar militantes ativos das mais variadas causas (inclusive as que estão à margem da lei!), mas uma pessoa, simplesmente porque é católica, contrária ao aborto e favorável ao casamento entre um homem e uma mulher, não só é considerada inapta para o cargo, como é execrada publicamente e tratada como a escória da humanidade.

Está comprovado: os modernos arautos da "tolerância" só sabem tolerar, na verdade, quem pensa como eles.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Espiritualidade

Um recado do Cardeal Newman aos católicos de Facebook

Se há uma coisa que tem emperrado a nossa vida espiritual, especialmente em tempos de Internet, é a ilusão da autossuficiência.

Se há uma coisa que emperra a nossa vida espiritual, especialmente em tempos de Internet, é a ilusão da autossuficiência. As Escrituras ilustram o seu perigo quando dizem que " Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes" (Tg 4, 6).

O bem-aventurado John Henry Newman, em um de seus "Sermões pregados em diversas ocasiões" — obra recém traduzida para o português e publicada pela editora Molokai —, tem algumas palavras muito adequadas para tratar esse problema. Falamos especialmente de um discurso seu, feito na University Church de Dublin, em 1856, que leva o título "A religião do fariseu, a religião da humanidade". (Aos que lêem em inglês, vale a pena acessar o texto original, aqui.)

Newman inicia a sua pregação com a oração do publicano, na famosa parábola do Evangelho (cf. Lc 18, 9-14): "Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!". Para ele, trata-se da oração cristã por excelência, por constituir, ao mesmo tempo, "uma confissão do pecado e uma oração por misericórdia" [1], coisa que absolutamente todos os membros da Igreja são chamados a repetir. Mesmo estando na glória do Céu, é justamente o fato de terem sido alcançados pela misericórdia de Deus o que os santos cantam dia e noite, como comprova o Apocalipse: "Foste imolado e resgataste para Deus, ao preço do teu sangue homens de toda tribo, língua, povo e raça" (5, 9).

Assim, continua o Cardeal Newman:

" O que é para os santos que estão nos Céus tema de gratidão sem fim é, enquanto estão no mundo, o motivo da sua humilhação perpétua. Qualquer que seja o seu avanço na vida espiritual, nunca deixam de se ajoelhar, nunca deixam de bater no peito, como se o pecado lhes fosse estranho enquanto estavam na carne. Até mesmo Nosso Senhor, o próprio Filho de Deus na natureza humana infinitamente separado do pecado, e mesmo sua Mãe Imaculada, repleta da sua Graça desde os primórdios de sua existência e sem qualquer mancha do pecado original, mesmo eles, como descendentes de Adão, foram no fim submetidos à morte, a punição direta e categórica do pecado. E mais ainda, mesmo o mais favorecido da gloriosa companhia a quem Ele lavou em seu Sangue; eles nunca se esqueceram do que eram por nascimento; confessam, todos juntos, que são filhos de Adão, e da mesma natureza dos seus irmãos, cercados de enfermidades na carne, qualquer que seja a graça concedida a eles e seu aperfeiçoamento. Alguns podem se voltar para eles, mas eles sempre se voltam para Deus; alguns podem falar dos seus méritos, mas eles só falam dos seus defeitos. O jovem sem mácula, o maduro de idade avançada, o que pecou menos, o que se arrependeu mais, o semblante jovem e inocente e os cabelos grisalhos se unem numa mesma ladainha: 'Ó Deus, tende piedade de mim, que sou pecador!'..." [2]

Essas verdades são realmente notáveis na vida dos santos. São Filipe Néri, por exemplo, "quando alguém o elogiava, gritava: 'Vai-te embora, eu sou um diabo e não um santo!', e quando ia comungar, protestava diante do seu Senhor, dizendo-se 'bom para nada além de fazer o mal'" [3].

Mas não era um simples exagero retórico, uma questão de "etiqueta", esse comportamento tão usual na história dos seguidores de Cristo. A humildade não é uma máscara que os santos colocam para disfarçar o que realmente são. Muito ao contrário, como ensinava Santa Teresa d'Ávila às suas irmãs, ser humilde é "andar na verdade" [4]: em primeiro lugar, a verdade de que somos criaturas e só por isso já nos encontramos infinitamente distantes de Deus, como diz o salmista: "Diante da vossa presença, não é justo nenhum dos viventes" (Sl 142, 2); em segundo lugar, a verdade de que somos pecadores — "todos pecaram e estão privados da glória de Deus" (Rm 3, 23) — e, com as nossas faltas, só o que fazemos é aumentar ainda mais o abismo que nos separa do Criador.

Assim, se procuramos levar uma vida correta, se nos esforçamos por cumprir os Mandamentos, se conseguimos praticar esta ou aquela virtude, nada disso é por mérito nosso, mas unicamente por graça de Deus. É Ele quem nos inspira, diz o Apóstolo, "o querer e o fazer" ( Fl 2, 13).

Isso precisa entrar em nossa cabeça o quanto antes, para que afastemos de uma vez por todas todo ranço de "pelagianismo prático" de nossa vida [5]. Não adianta nada reconhecermos, na teoria, que Deus é o "sumo Bem", que só a Ele devemos servir e adorar, que não devemos viver para nós mesmos, se continuamos a levar, na prática, o mesmo estilo pagão e autossuficiente de sempre: sem reservar um tempo para fazer oração, sem cumprir os nossos deveres de estado, sem fazer durante o dia algum tipo de mortificação etc. Ora, se Deus é realmente a fonte de todo o nosso bem, por que não recorremos a Ele e não procuramos cumprir o que nos manda, inclusive nas pequenas coisas do dia-a-dia? Desde quando basta, para sermos bons católicos, ir à Missa aos domingos e rezar uma ou outra Ave-Maria durante o dia, ao mesmo tempo em que gastamos na TV, no Facebook ou no WhatsApp o resto do tempo que Deus nos dá — muitas vezes até, sob o pretexto de "estarmos evangelizando" na Internet?

A verdade é que não alcançaremos a santidade enquanto continuarmos sentados em frente a um computador, vivendo um catolicismo cômodo de Facebook; enquanto continuarmos comprando livros e mais livros para a nossa biblioteca, na ilusão de sermos salvos pela "alta cultura"; enquanto acharmos que tudo ficará bem quando o mundo for simplesmente conservador. Não foi para fundar um grupo nas redes sociais, uma sociedade literária ou uma agremiação política que Cristo veio a este mundo. Continua sendo necessário entrarmos na Igreja, e nela perseverarmos, para alcançarmos a salvação [6]. Nas palavras do beato John Henry Newman:

"As nossas realizações seculares não nos valerão de nada se não se subordinarem à religião. O conhecimento do Sol, da Lua e das estrelas, da Terra e de seus três reinos, dos clássicos ou da História, nada disso nos levará para o Céu. Podemos dar 'graças a Deus' porque não somos como os analfabetos e os estúpidos; mas aqueles a quem desprezamos, se tudo o que souberem for pedir a misericórdia dEle, então sabem o que se deve saber para obter o Céu, muito mais do que todas as nossas letras e toda a nossa ciência." [7]

Tomar consciência de todas essas verdades também nos ajuda a ter, em relação ao próximo, uma atitude de muito mais caridade — virtude a qual muitas pessoas parecem ter esquecido na hora de usar a Internet. Talvez por não estarem face a face com quem se encontra do outro lado da tela, os usuários das redes sociais sentem-se livres para escrever em suas linhas do tempo todo tipo de ofensa e xingamento aos outros, por motivos muitas vezes os mais banais. A essas pessoas, a Imitação de Cristo dá um conselho importante: "Ainda quando vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem. Nós todos somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo" [8].

Em todo o sermão de que falamos, o Cardeal Newman procura contrapor à religião cristã, marcada pela figura do publicano, a religião do fariseu, das pessoas "autossuficientes", dos que "estão muito contentes consigo mesmos e acham que seu mérito é muito elevado" [9]. A diferença fundamental entre as duas está justamente na ação sobrenatural: esta é esteticamente até agradável, está repleta de "bons modos", mas é imanente, humanista, mundana; aquela, no entanto, reúne pessoas de todos os tipos, as quais se esvaziam e se deixam redimir por Deus.

Por isso, você, que lê estas linhas, não deixe de fazer hoje a experiência do desespero… de si próprio! É a experiência fundamental que conduziu todos os santos a Cristo e que deve mover também a nossa conversão, dia após dia. Não somos capazes de amar a Deus com nossas próprias forças. Baseando-nos tão-somente em nossos esforços, não vai dar certo. Ele manda que trabalhemos, mas somos preguiçosos; que sejamos castos, mas somos infiéis; que sejamos pacientes, mas nos irritamos facilmente; que rezemos e nos lembremos dEle, mas sempre nos esquecemos. Se pararmos para meditar um pouco sobre a nossa miséria, veremos que a graça de Deus é necessária para absolutamente tudo em nossa vida. Sejamos menos autossuficientes, pois, e abramos o nosso coração para esta verdade que Cristo proclama no Evangelho: "Sem Mim, nada podeis fazer"(Jo 15, 5). Que Ele seja o nosso tudo, porque nós, definitivamente, não somos nada.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 27.
  2. Ibid., p. 28.
  3. Ibid., p. 29.
  4. Sextas Moradas, 10, 7.
  5. Reginald Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, 11. ed., Madrid: Palabra, 2007, p. 448.
  6. Catecismo da Igreja Católica, 846.
  7. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 38.
  8. Imitação de Cristo, l. 1, c. 2.
  9. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 32.

| Categoria: Virgem Maria

As condições para o triunfo do Imaculado Coração de Maria

O triunfo do Imaculado Coração de Maria depende de nossa conversão pessoal e de uma vida íntima de oração com Deus.

Apenas quatro meses nos separam do grande centenário da primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima. E é claro que, nesta ocasião, o coração dos católicos não poderia deixar de palpitar de alegria pela expectativa de que o "triunfo do Imaculado Coração de Maria" finalmente aconteça. Em que pese todas as más notícias deste começo de ano — atentados terroristas, massacres e genocídios —, a esperança nas promessas da Senhora de Fátima permite-nos saborear a paz dos santos mesmo nos momentos de amargura.

Que o Coração Imaculado de Maria triunfe sobre todo mal. É isso o que deseja qualquer católico. Todavia, a mensagem de Fátima não diz respeito somente a uma vitória de Nossa Senhora sobre as hostes infernais. Para que essa vitória ocorra, explica a Virgem, o homem deve voltar-se para o mundo interior, numa verdadeira atitude de conversão, e parar de ofender a Deus com seus pecados. Deve, aliás, rezar diariamente o santo terço e fazer as comunhões reparadoras aos cinco primeiros sábados. Em suma, a humanidade tem de procurar viver para o Céu, cumprindo as suas promessas batismais. Essas são as condições para que o mal caia e o bem triunfe.

Uma meditação sincera sobre tais pedidos da Virgem leva-nos a concluir que sua mensagem não é um conjunto de previsões sobre um futuro sombrio, como poderiam pensar alguns curiosos; ela é uma "exortação à oração como caminho para a 'salvação das almas'", um caminho que se faz também pela penitência e pela conversão [1]. E talvez seja por isso que as aparições de Fátima despertam tanto incômodo em alguns ambientes, pois falam de uma realidade que já não parece tão interessante, uma realidade aparentemente já superada, a saber, a "salvação das almas". Infelizmente, é preciso reconhecer que a paz que muitos procuram atualmente é uma paz de ordem material e imediata, que não exige sacrifícios nem renúncias. Mas esse tipo de paz definitivamente não é a paz cristã, tampouco é a paz pregada pela Virgem Maria aos três pastorinhos.

De fato, nenhuma paz é verdadeira se não nasce de uma entrega essencialmente amorosa. Quem vive buscando o bem-estar neste mundo acaba provocando o mal-estar próprio e de seus irmãos, já que uma vida cujo objetivo final não é o Céu torna-se, aos poucos, um projeto em que o pecado não é só uma opção, mas um caminho. Isso pode ser visto no dia a dia de qualquer pessoa.

"Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?". Ao atenderem a esse convite da Virgem Maria, Lúcia, Jacinta e Francisco anteciparam em suas vidas aquele "triunfo" do qual falávamos anteriormente. Eles ofertaram-se amorosamente em sacrifício de expiação pela conversão dos pecadores. Neste sentido, a paz se tornou uma realidade tanto para eles quanto para aqueles que eram objetos de sua caridade ardente. Nós precisamente fomos beneficiados com o amor dessas crianças, que hoje intercedem do Céu por nós. É assim que devem triunfar os Corações de Jesus e de Maria. Trata-se do cumprimento daquilo que dizia São Pedro em uma de suas cartas: "Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão dos pecados" (1 Pe 4, 8).

Eis, então, as três condições para o triunfo do Imaculado Coração de Maria: oração, penitência e apostolado. Uma é necessariamente consequência da outra. Quem reza, ou seja, tem intimidade com a pessoa de Cristo, vai querer mudar seu estilo de vida e, por meio dessa mudança, conquistará outros para o caminho de Jesus. Mas tudo começa com a oração, momento em que o homem se desarma perante Deus e coloca-se à sua escuta. A oração é um diálogo com Deus, "é a hora das intimidades santas e das resoluções firmes" [2].

A oração, por outro lado, não é simplesmente um palavreado piedoso. Como explicou Bento XVI certa vez, "sabemos que a oração não se deve dar por certa: é preciso aprender a rezar, quase adquirindo esta arte sempre de novo" [3]. Isso nos ensina também o exemplo dos santos, sobretudo dos três videntes de Fátima, que tiveram de entrar na "escola da oração", cuja professora era a própria Virgem Maria. Eles aprenderam a guardar o próprio coração das perturbações do mundo para ouvirem a voz suave de Deus, que se escuta na brisa. Quiçá nós também tenhamos essa vigilância, "uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma" [4].

"Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!", lamentou-se Jesus sobre Jerusalém (Lc 19, 42). Em verdade, esse lamento também está sobre nós que, buscando a paz fora da oração, refugiamo-nos em falsos acordos e falsas seguranças. Mas, em Fátima, Maria nos mostrou mais uma vez o caminho para a paz. Aproveitemos, portanto, a grande oportunidade deste Ano Mariano para redescobrirmos os frutos da oração cristã e, assim, apressarmos "o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima" [5].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Card. Joseph Ratzinger, Comentário teológico da Mensagem de Fátima, ano 2000.
  2. São Josemaria Escrivá, Sulco, n. 457.
  3. Papa Bento XVI, Audiência Geral, 4 de maio de 2011.
  4. Card. Joseph Ratzinger, Comentário teológico da Mensagem de Fátima, ano 2000.
  5. Papa Bento XVI, Homilia, 13 de maio de 2010.

| Categoria: Sociedade

O assombroso poder de um presidente

Há algo de muito doentio em um sistema de governo que submete a dignidade humana às arbitrariedades de um homem, seja ele quem for.

A notícia de que Donald Trump assinou uma medida contra o financiamento público de ONGs pró-aborto em outros países fez com que ele caísse nas graças de muitos cristãos mundo afora. De fato, a decisão do recém empossado presidente americano foi um grande golpe para a "cultura da morte" e, exatamente por isso, merece todo o apoio. Nenhuma fundação que se considere humanitária, mas defende o aborto, pode ser subvencionada.

Por outro lado, o histórico dessa mesma lei, agora novamente em vigor nos Estados Unidos, causa séria perplexidade.

Em 1984, na Cidade do México, o então presidente americano Ronald Reagan assinou um decreto que exigia, como condição para o financiamento das organizações não-governamentais, a não promoção do aborto em outras nações como método contraceptivo. Essa lei ficou conhecida como Mexico City Policy e perdurou até 1993, quando Bill Clinton assumiu a presidência e a revogou. Durante o mandato de George Bush Filho, a Mexico City Policy voltou a vigorar no país. Com Barack Obama, no entanto, as ONGs pró-aborto tiveram uma nova oportunidade para promover suas ideologias no exterior. A assinatura de Trump nesta última semana foi apenas mais um set dessa espécie de "ping-pong político" que, infelizmente, deve continuar nas próximas gestões.

Acontece que a Mexico City Policy não é apenas uma medida a respeito de juros ou piso salarial. Não é apenas uma questão periférica, que pode ser mudada a cada quatro anos, segundo o projeto político do novo presidente. A Mexico City Policy diz respeito ao direito à vida de milhões de pessoas. É escandaloso, portanto, que uma questão tão delicada e grave seja tratada como jogo político e manipulação ideológica. Ninguém tem o direito de decidir quem deve viver e quem deve morrer. Isso deveria ser algo muito claro para as pessoas, sobretudo para aquelas que exercem alguma liderança política. Mas o fato de ninguém se pronunciar acerca desse problema mostra o quanto a sociedade está míope e, por conseguinte, incapaz de identificar a real causa de grande parte dos crimes contra a dignidade humana.

O Papa Bento XVI acertou em cheio quando avisou que "a negação de um fundamento ontológico dos valores essenciais da vida humana termina, inevitavelmente, no positivismo e leva o direito a depender das correntes de pensamento predominantes numa sociedade" [1]. Hoje um presidente assina um termo pró-vida, amanhã outro assina um termo pró-morte. E "assim caminha a humanidade", como diz a canção, sob o arbítrio das canetadas de quem está mandando. Há algo de muito doentio em um sistema de governo que submete a dignidade humana às arbitrariedades de um homem: "Maldito o homem que confia no homem" (Jr 17, 5). Se nem o Papa pode ser "um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis", imagine o presidente de um país [2]. Ele deve estar a serviço da lei, e não a lei a seu serviço.

De fato, quando não há fundamento seguro para nosso agir, "abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político" [3]. Ao se afastarem da lei natural e dos ensinamentos da Igreja, as pessoas não adquiriram mais liberdade, como postulavam as serpentes do Iluminismo. Elas tornaram-se reféns delas mesmas e de suas escolhas.

Está claro que a fidelidade à lei natural, isto é, àquilo que nos define como pessoas humanas e de onde derivam todos os nossos direitos, deve voltar a ser respeitada e preservada. Como explicou Bento XVI ao Parlamento Alemão, o homem "é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo" [4]. Um verdadeiro governo, portanto, é aquele que respeita essa dignidade do ser humano acima de suas próprias vontades e convicções. Nem a vida, nem a família, nem o sexo podem ser objeto de manipulação ideológica, e tanto menos reféns da assinatura de um presidente.

A decisão de Trump, claro, é bem vinda. Mas está longe de trazer a verdadeira segurança que os homens precisam para viver livremente. É como se a liberdade fosse uma concessão do Estado para a cada quatro anos. O Estado virou Deus. E enquanto esse tipo de mentalidade torpe prevalecer, a "ditadura do relativismo" continuará a cortar cabeças, segundo o último programa de governo da moda.

Por isso, acorde! As próximas canetadas podem ser contra você!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Discurso aos membros da Comissão Teológica Internacional reunidos em Sessão Plenária, 1º de dez. 2005.
  2. ________, Homilia, 7 de maio de 2005.
  3. ________, Audiência Geral, 16 de jun. 2010.
  4. ________, Discurso ao Parlamento Federal, 22 de set. 2011.

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A quem você está entregando seus filhos?

Matando-se de trabalhar pelo bem-estar financeiro, os pais terceirizaram as almas de suas crianças à TV e à Internet. Mas que tipo de educação elas poderiam ter dessas coisas senão aquela que condena a alma?

Trecho da aula que será exibida hoje, dia 26 de janeiro, às 21h.

O desenvolvimento do poder financeiro na sociedade revolucionou o propósito da educação. Nem santos, nem bons cidadãos. O que a escola tem de formar agora é uma geração de trabalhadores profissionais. E, para isso, o professor não poderia ser outro senão o Banco Mundial.

Hoje, matando-se de trabalhar pelo bem-estar financeiro, os pais terceirizaram as almas de suas crianças à TV, à internet, aos filmes, aos chats etc. E que tipo de educação elas poderiam ter dessas coisas senão aquela que condena a alma?

Venha participar conosco da aula de logo mais, às 9h da noite, e saiba por que, desejando para os seus filhos tão somente uma boa faculdade e um bom emprego, você está arriscando a salvação eterna de sua família!