| Categoria: Doutrina

Cristo, segundo Adão, recapitula todas as gerações

Em uma época como a nossa, que tende a ressuscitar erros antigos, nada como recordar a verdade da humanidade de Cristo, sem a qual se torna inútil toda a obra de nossa salvação.

Neste dia em que a Igreja celebra a memória de Santo Irineu de Lião, bispo e mártir († 202 d.C.), disponibilizamos abaixo um trecho de sua famosa obra Adversus haereses ("Contra as heresias"), no qual ele fala da recapitulação de todos homens em Cristo.

Em uma época como a nossa, que tende a ressuscitar erros antigos (lembremos que Santo Irineu se dirigia aos gnósticos, e essa heresia está longe de ser uma coisa do passado), nada como recordar a verdade da humanidade de Cristo, sem a qual se torna inútil toda a obra de nossa salvação. "Se não se fez o que nós éramos", diz Santo Irineu, "não tinha importância nem valor o que ele sofreu e padeceu".

No excerto a seguir, também temos um relato importante acerca do papel de Maria na redenção. "O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria", escreve o santo, "e o que Eva amarrara pela sua incredulidade Maria soltou pela sua fé". Como se trata de um escrito ainda do segundo século da Igreja, o que temos abaixo é um forte testemunho de que a devoção a Nossa Senhora por parte dos cristãos tem origem nos primórdios da Igreja — e não em uma suposta "distorção pagã" do Evangelho pelos romanos.

É uma grande alegria ler textos como este, que nos colocam em contato com nossos primeiros pais na fé. Não deixem de apreciar e de repassar esta preciosidade:

Cristo, segundo Adão, recapitula todas as gerações

Ele recapitulou também em si a obra modelada no princípio.

Como pela desobediência de um só homem o pecado entrou no mundo e pelo pecado a morte, assim pela obediência de um só homem foi introduzida a justiça que traz como fruto a vida ao homem morto. E como a substância de Adão, o primeiro homem plasmado, foi tirada da terra simples e ainda virgem — "Deus ainda não fizera chover e o homem ainda não a trabalhara" (Gn 2, 5) — e foi modelado pela mão de Deus, isto é, pelo Verbo de Deus — com efeito, "todas as coisas foram feitas por ele", e o "Senhor tomou do lodo da terra e modelou o homem" (Gn 2, 7) —, assim o Verbo que recapitula em si Adão, recebeu de Maria, ainda virgem, a geração da recapitulação de Adão.

Se o primeiro Adão tivesse homem por pai e tivesse nascido de sêmen viril teriam razão em dizer que também o segundo Adão foi gerado por José. Mas se o primeiro Adão foi tirado da terra e modelado pelo Verbo de Deus, era necessário que este mesmo Verbo, efetuando em si a recapitulação de Adão, tivesse geração semelhante à dele. E, então, por que Deus não tomou outra vez do limo da terra, mas quis que esta modelagem fosse feita por Maria? Para que não houvesse segunda obra modelada e para que não fosse obra modelada diferente da que era salvada, mas, conservando a semelhança, fosse aquela primeira a ser recapitulada.

Erram, portanto, os que sustentam que o Cristo nada recebeu da Virgem, para poder rejeitar a herança da carne; mas rejeitam assim, ao mesmo tempo, a semelhança. Com efeito, se aquele primeiro recebeu a sua modelagem e substância da terra pela mão e arte de Deus e este não, então não conservou a semelhança com o homem que foi feito à imagem e semelhança de Deus, e o Artífice pareceria inconstante e sem nada que demonstre a sua sabedoria. Isto quer dizer que ele apareceu como homem sem sê-lo realmente e que se fez homem sem tomar nada do homem!

Mas se não recebeu de nenhum ser humano a substância da sua carne, ele não se fez nem homem, nem Filho do homem. E se não se fez o que nós éramos, não tinha importância nem valor o que ele sofreu e padeceu. Ora, não há quem não admita que nós somos feitos de corpo tirado da terra e de alma que recebe de Deus o Espírito. E é isso que se tornou o Verbo de Deus ao recapitular em si mesmo a obra por ele plasmada, e é este o motivo pelo qual se declara Filho do homem e declara bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Por seu lado, o apóstolo Paulo, na carta aos Gálatas, disse abertamente: "Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher" (Gl 4, 4); e na carta aos romanos diz: "... acerca do seu Filho, que nasceu da posteridade de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus, com poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo Senhor nosso" (Rm 1, 3-4).

De outra forma, a sua descida em Maria seria supérflua; pois para que desceria nela se não devia receber nada dela? Se não tivesse recebido nada de Maria então nunca teria tomado alimentos terrenos com os quais se alimenta um corpo tirado da terra; após o jejum de quarenta dias, como Moisés e Elias, seu corpo não teria experimentado a fome e não teria procurado alimento. João, seu discípulo, não teria escrito: "Jesus, cansado pela caminhada, estava sentado" (Jo 4, 6); nem Davi teria dito dele: "E acrescentaram sofrimento à dor das minhas feridas" (Sl 69, 27); não teria chorado sobre o túmulo de Lázaro; não suaria gotas de sangue, nem teria dito: "A minha alma está triste" (Mt 26, 38); e de seu lado transpassado não teriam saído sangue e água. Tudo isso são sinais da carne tirada da terra, que recapitulou em si, salvando a obra de suas mãos.

Por isso Lucas apresenta genealogia de setenta e duas gerações, que vai do nascimento do Senhor até Adão, unindo o fim ao princípio, para dar a entender que o Senhor é o que recapitulou em si mesmo todas as nações dispersas desde Adão, todas as línguas e gerações dos homens, inclusive Adão. Por isso Paulo chama Adão figura do que devia vir, porque o Verbo, Criador de todas as coisas, prefigurara nele a futura economia da humanidade de que se revestiria o Filho de Deus, pelo fato de Deus, formando o homem psíquico, ter dado a entender que seria salvo pelo homem espiritual. Por isso, visto que já existia como salvador, devia tornar-se quem devia ser salvo, para não ser o Salvador de nada.

Da mesma forma, encontramos Maria, a Virgem obediente, que diz: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra", e, em contraste, Eva, que desobedeceu quando ainda era virgem. Como esta, ainda virgem se bem que casada — no paraíso estavam nus e não se envergonhavam, porque, criados há pouco tempo ainda não pensavam em gerar filhos, sendo necessário que, primeiro, se tornassem adultos antes de se multiplicar —, pela sua desobediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da morte, assim Maria, tendo por esposo quem lhe fora predestinado e sendo virgem, pela sua obediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da salvação. É por isso que a Lei chama a que é noiva, se ainda virgem, de esposa daquele que a tomou por noiva, para indicar o influxo que se opera de Maria sobre Eva. Com efeito, o que está amarrado não pode ser desamarrado, a menos que se desatem os nós em sentido contrário ao que foram dados, e os primeiros são desfeitos depois dos segundos e estes, por sua vez, permitem que se desfaçam os primeiros: acontece que o primeiro é desfeito pelo segundo e o segundo é desfeito em primeiro lugar.

Eis por que o Senhor dizia que os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros. E o profeta diz a mesma coisa: Em lugar dos pais nasceram filhos para ti. Com efeito, o Senhor, o primogênito dos mortos, reuniu no seu seio os patriarcas antigos e os regenerou para a vida de Deus, tornando-se ele próprio o primeiro dos viventes, ao passo que Adão fora o primeiro dos que morrem. Eis por que Lucas, iniciando a genealogia a partir do Senhor subiu até Adão, porque não foram aqueles antepassados que lhe deram a vida, e sim foi ele que os fez renascer no evangelho da vida. Da mesma forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, e o que Eva amarrara pela sua incredulidade Maria soltou pela sua fé.

IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias (III, 21, 9-22 [PG 7, 954-960]). São Paulo: Paulus, 2013, pp. 349-352.

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O pintor da Virgem do Perpétuo Socorro

Conheça a história e o simbolismo do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que remonta ao tempo dos primeiros cristãos.

O autor do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, exposto à visitação dos fiéis na igreja de Santo Afonso de Ligório, em Roma, permanece desconhecido até nossos dias. Segundo a tradição da Igreja, no entanto, o artista que pintou a imagem da Virgem do Perpétuo Socorro inspirou-se em um ícone atribuído a São Lucas. Além de médico, homem culto e letrado, o Evangelista foi provavelmente um dos primeiros iconógrafos da história da Igreja. Segundo antiga tradição, São Lucas teria pintado ícones de Jesus Cristo, da Virgem Maria, de São Pedro e São Paulo. Há pinturas atribuídas a ele que existem até hoje, como é o caso dos ícones da "Theotokos de Vladimir" e de "Nossa Senhora de Czenstochowa".

A veneração dos ícones sagrados esteve presente na Igreja desde os primórdios do cristianismo. As imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora, dos outros santos e dos anjos fazem parte da tradição bimilenar da Igreja Católica. No II Concílio de Niceia, em 787, o Magistério da Igreja "justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: dos de Cristo, e também dos da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova 'economia' das imagens" [1].

No início do século XVI, surgiram entre os protestantes "novos iconoclastas" e, a exemplo do que aconteceu no passado, em nome da fidelidade às Sagradas Escrituras, nossas imagens sagradas foram quebradas e nossas igrejas terminaram invadidas, depredadas e queimadas. Este fato fez com que o culto às imagens sagradas fosse perdendo a sua força em muitas comunidades, ao passo que, com a tradução da Bíblia do latim para as mais diversas línguas, o culto às Escrituras ganhou cada vez mais força. Essa tendência se tornou ainda mais forte quando, por conta de um falso ecumenismo, passou-se a suprimir as imagens das igrejas e das casas.

À primeira vista, essa mudança na espiritualidade pode até parecer uma evolução.

Dito fenômeno causou, entretanto, um grande problema. Como grande maioria das pessoas não conhecia a Revelação como um todo — Sagradas Escrituras e Tradição da Igreja —, nem a interpretação do Magistério da Igreja acerca do mistério de Deus revelado, isso fez com que crescessem equívocos e interpretações contraditórias. O resultado foi uma verdadeira perversão do sentido autêntico das Sagradas Escrituras, por parte de alguns, e a disseminação de heresias, por parte de outros.

Quanto aos ícones, até a Idade Média, os fiéis, que na sua maioria eram pouco letrados, aprendiam o significado profundo dos símbolos visuais. Dessa forma, pessoas rudes, sem instrução, podiam "ler" nas imagens sagradas o patrimônio de fé da Igreja Católica. No Renascimento — que na realidade foi um verdadeiro retorno ao paganismo —, o culto original aos ícones sagrados reduziu-se drasticamente, passando a fazer parte da espiritualidade de um número cada vez menor de pessoas.

No limiar do terceiro milênio, o Concílio Vaticano II tratou, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre o espírito da pregação e do culto. Nesse documento, o mais importante do Concílio, somos orientados quanto ao culto à Virgem Maria e às sagradas imagens, confirmando o ensinamento que nos foi dado em Niceia:

"Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos" [2].

Na contramão desses fatos, o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro parece ser para nós como que um sinal dos céus para que voltemos às nossas origens.

No final do século XV, um negociante roubou a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do altar onde estava, na ilha de Creta, onde era venerada pelo povo cristão. O mercador viajou com o ícone, de navio, para Roma e escapou milagrosamente de uma tormenta em alto-mar. Já na Cidade Eterna, ele adoeceu gravemente e, por isso, procurou a ajuda de um amigo. No seu leito de morte, o comerciante, arrependido, contou ao amigo que roubou o quadro e pediu a ele que o devolvesse a uma igreja. Este prometeu devolver a obra de arte sacra, mas depois mudou de ideia e morreu, sem ter cumprido a promessa feita ao amigo comerciante.

Para que se cumprissem os desígnios divinos, a Santíssima Virgem Maria apareceu a uma menina de seis anos, familiar de quem portava o ícone, e "mandou-lhe dizer à mãe e à avó que o quadro devia ser colocado na Igreja de São Mateus Apóstolo, situada entre as basílicas de Santa Maria Maior e São João Latrão, sob o título de Perpétuo Socorro" [3]. Em obediência, o ícone foi devolvido e exposto na igreja de São Mateus em 27 de março de 1499. A partir do século XVI, a devoção começou a se divulgar em toda Roma e, anos mais tarde, pelo mundo inteiro. Nessa igreja, a imagem foi venerada durante os 300 anos seguintes. Em 1798, a igreja de São Mateus foi destruída e a imagem foi retirada a tempo, mas ficou quase que esquecida. Até que, em 26 de abril de 1866, o ícone foi entronizado na Igreja de Santo Afonso, onde permanece até hoje.

Como dissemos, São Lucas pintou belos ícones de Nossa Senhora, como a Virgem do Perpétuo Socorro. No entanto, ele também "pintou" algumas das mais belas "imagens" da Santíssima Virgem nas páginas do santo Evangelho. Entre elas, destacam-se: a anunciação do arcanjo São Gabriel à Virgem de Nazaré (cf. Lc 1, 26-38), a visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel (cf. Lc 1, 39-56), o nascimento de Jesus Cristo em Belém (cf. Lc 2, 1-21) e a apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém (cf. Lc 2, 22-40).

No ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, temos alguns simbolismos que se fazem presentes no Evangelho segundo São Lucas.

Na imagem, vemos a mão direita de Maria apontando para seu Filho e no Evangelho temos várias passagens que apontam para Jesus como o Messias esperado pelo Povo de Israel: "O ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus" (Lc 1, 35b); "Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador" (Lc 1, 46b-47); "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38a); "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho" (Lc 1, 76). Naquele tempo, raramente alguém tinha um livro das Sagradas Escrituras. Possuir uma passagem da Escritura era também muito raro. Por isso, como já dissemos, os primeiros discípulos de Cristo olhavam para os ícones, nas casas das poucas pessoas que os possuíam, e neles "liam" os textos sagrados.

Entre os simbolismos presentes na imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, talvez o teologicamente mais rico e espiritualmente mais significativo seja o retrato do Calvário. Ao contemplar a Virgem do Perpétuo Socorro, vemos à sua esquerda o arcanjo São Miguel, que apresenta a lança, a vara com a esponja e o cálice das amarguras que o Cristo sorveu até o fim. À direita, está o arcanjo São Gabriel, com a cruz e os cravos, que foram os instrumentos da paixão e morte de Jesus. O Menino Jesus, o Perpétuo Socorro em pessoa, assustado ao olhar para os instrumentos de Sua paixão, com as duas mãos, segura firmemente a mão direita de sua Mãe, como que nos ensinando a confiar-nos inteiramente a ela, especialmente nos momentos de medo, dor e sofrimento.

Para completar a nossa "leitura" do ícone, na perspectiva do mistério pascal de Cristo, podemos olhar para Maria como a Virgem das Dores. A sua mão esquerda, que sustenta o Filho, simboliza a sua presença aos pés da cruz (cf. Jo 19, 25). O seu olhar materno, ao mesmo tempo que demonstra o acolhimento e o cuidado para com cada um de nós, que fomos entregues a ela como filhos, é um convite para que a levemos para o que é nosso, ou seja, para a nossa vida interior, como fez o discípulo amado (cf. Jo 19, 27).

Um detalhe do ícone, que pode passar despercebido, é a sandália desamarrada, que pode simbolizar um pecador, preso a Jesus apenas por um fio, fio este que é a devoção a Santíssima Virgem. Este "fio" tão frágil pode ser uma lembrança, ou uma devoção sem muita piedade, que num momento de desespero, de sofrimento, pode nos manter unidos ao Senhor. Vemos uma imagem disto naquela que é provavelmente a mais conhecida e bela parábola de Jesus, presente somente no Evangelho escrito por Lucas: a parábola do filho pródigo. Depois de deixar a casa do pai e de gastar toda a sua fortuna numa vida desenfreada, o filho esbanjador estava na situação humilhante de cuidar de porcos. Para os judeus que ouviram de Jesus esta parábola, cuidar de porcos era ainda mais humilhante, porque eles os consideravam animais impuros. Para completar a humilhação, o rapaz, faminto, queria comer a comida dos porcos, mas nem isso lhe era dado para comer (cf. Lc 15, 11-16). Foi então que ele entrou em si, refletiu, recordou-se que na casa de seu pai até mesmo os empregados tinham pão em abundância e tomou a decisão de voltar (cf. Lc 15, 17-18). Da mesma forma, um pecador pode voltar para Jesus e se salvar pela simples devoção que tem à Virgem Maria, ou até mesmo por uma vaga lembrança do amor que nutre por ela.

Nas passagens do Evangelho que falam dos dois ladrões, crucificados à direita e à esquerda de Jesus, há aparentemente uma contradição, que pode nos ajudar a aprofundar nossa reflexão. Em Mateus e Marcos, ambos escarneciam de Jesus: "E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam" (Mt 27, 44; cf. Mc 15, 32). Mas, em Lucas, apenas um dos malfeitores blasfemava (cf. Lc 23, 39). O outro, que segundo a tradição se chamava Dimas, não somente repreendeu o outro ladrão, mas também reconheceu que para eles aquela condenação era justa, mas não para Jesus, pois não tinha feito mal algum (cf. 23, 40-41). A razão desta aparente contradição é que, segundo uma visão da mística Beata Anna Catharina Emmerich, a princípio, ambos escarneciam do Cristo, até que algo inesperado aconteceu:

"Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado [da lepra] quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: 'O quê? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus'" [4].

Naquele momento derradeiro de sua vida terrena, São Dimas recebeu a graça de recordar de Jesus e de sua Mãe. A partir dessa lembrança de sua infância, começou o extraordinário processo de conversão do bom ladrão, que culminou no seu ousado pedido: "Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!" (Lc 23, 42). A salvação de São Dimas estava por um "fio", que era a vaga recordação de uma cura, operada pelas mãos do Menino Jesus e de Maria. Dessa forma, quase no último momento de sua vida, o bom ladrão "roubou" o Céu, a salvação eterna.

São Lucas escreveu o Evangelho de Jesus Cristo não somente com palavras, mas também com imagens, que nos ajudam a encontrar na devoção a Virgem Maria um caminho seguro para chegar a Ele. Que neste dia, no qual celebramos Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, façamos o salutar propósito de "ler", na sua imagem, as Sagradas Escrituras, e nelas encontrar o próprio Cristo, a Palavra de Deus que se fez carne.

Ainda que nossa situação seja semelhante à do filho pródigo, ou como a do bom ladrão, e nossa vida esteja unida a Cristo apenas por um "fio", entreguemo-nos com confiança à Virgem das Dores, que nos foi dada, pelo próprio Filho, por Mãe (cf. Jo 19, 27). Assim, da mesma forma que a Mãe de Deus contribuiu para a cura e a salvação de São Dimas, ela nos alcançará os bens necessários para a nossa vida terrena e principalmente para chegarmos à glória celeste.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 2131.
  2. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, 67.
  3. A12, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
  4. Flor do Carmelo, Meditação - Quinto Mistério Doloroso - Jesus Morre na Cruz. Texto extraído do livro: Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus, da Beata Anna Catharina Emmerich. Como toda revelação particular, não somos obrigados a crer com fé católica nesse escrito, mas podemos aceitá-lo para melhor compreensão das Escrituras e para edificação de nossa fé.

| Categoria: Virgem Maria

O que significa dizer que Maria é “corredentora” e “medianeira de todas as graças”?

A participação singular de Maria na obra da redenção não é apenas uma “opinião piedosa”, mas uma verdade ensinada repetidas vezes pelo Magistério da Igreja.

Falávamos há pouco sobre a relevância das aparições de Maria para a vida cristã e de como os católicos devem interpretá-las segundo a imutável e incorrigível Revelação Divina. De fato, elas não têm a missão de acrescentar ou corrigir qualquer ponto da doutrina, mas de ajudar a Igreja a testemunhar mais profundamente os mistérios de Cristo, sobretudo quando estes mistérios parecem caducar em determinados contextos sociais marcadamente hostis à religião [1].

Na mensagem de Lourdes, por exemplo, Nossa Senhora veio recordar a validade da pobreza e da piedade contra a racionalidade materialista e anticlerical do século XIX.

Em Fátima, por sua vez, a Mãe de Deus insistiu na necessidade de reparação e penitência pelas almas infiéis que, àquela altura, tripudiavam sobre o santíssimo nome de Deus com toda sorte de blasfêmias e injúrias.

É importante agora precisar mais claramente o papel de Maria na história da salvação. Tal esclarecimento nos ajudará a entender por que a Virgem Santíssima veio visitar a humanidade em tantas ocasiões, apresentado-se como meio singular para o acesso às graças de Deus. Quando Bento XVI declarou não existir "fruto da graça na história da salvação que não tenha como instrumento necessário a mediação de Nossa Senhora", ele não estava simplesmente fazendo uso de um exagero retórico próprio da linguagem dos santos [2]. A mediação de Maria faz parte do patrimônio da fé cristã e é a partir desta verdade, tão presente nos ensinamentos dos santos como também no Magistério ordinário da Igreja, que a porção dos fiéis pode unir-se mais eficazmente contra os desvios mundanos, a fim de alcançar a coroa do Céu.

"Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo" [3]: com essas palavras, São Luís Maria Grignon de Montfort resume todo o fundamento da doutrina católica acerca da participação da Mãe de Deus na redenção da humanidade. Como em Deus não há movimento nem mudança, a sua vontade permanece sempre a mesma para todos os efeitos [4]. Ora, Ele escolheu livremente ter uma mãe segundo a carne humana e manter-se submisso aos seus cuidados durante a maior parte de sua vida terrena. Não é difícil concluir, portanto, que essa maternidade divina continua no Céu. A própria Sagrada Escritura nos confirma isso em inúmeras passagens, em especial, nos relatos de São João sobre as últimas palavras de Cristo pregado à cruz: Maria é dada como mãe para toda a humanidade (cf. Jo 19, 25-27; Gn 3, 15; Ap 12, 1-18). E é por meio da cooperação dessa mesma Mãe que nos devem chegar todas as graças da salvação, ou seja, o próprio Jesus Cristo.

Santos de todas as épocas dão crédito a essa doutrina. Falando sobre a cooperação de Nossa Senhora na obra da Redenção, Santo Irineu disse: "Obedecendo, Ela tornou-se causa de salvação para si e para todo o gênero humano" [5].

Algo semelhante escreveu um discípulo de Santo Anselmo: "Deus é Senhor de todas as coisas, constituindo cada uma delas na sua própria natureza pela voz do seu poder, e Maria é Senhora de todas as coisas, reconstituindo-as na sua dignidade primitiva pela graça, que lhes mereceu" [6].

E para que não reste qualquer dúvida dessa cooperação de Maria, citemos a profecia de Simeão acerca da espada de dor com a qual Ela seria ferida (cf. Lc 2, 35). A Virgem Santíssima completou na própria carne as dores que faltaram na Cruz de Cristo, segundo o ensinamento de São Paulo (cf. Col 1, 24).

No último século, o Magistério ordinário da Igreja também falou repetidas vezes sobre o mesmo assunto.

Leão XIII, por exemplo, redigiu 13 encíclicas para ressaltar o valor da oração do Rosário. É de sua pena esta belíssima prece, na qual o grande pontífice pede que a Virgem "restitua a tranquilidade da paz aos espíritos angustiados; apresse enfim, na vida privada como na vida pública, o retorno a Jesus Cristo": "Que, no seu poder, a Virgem Mãe, que outrora cooperou por seu amor no nascimento dos fiéis na Igreja, seja ainda agora o instrumento e a guardiã da nossa salvação" [7].

Não nos esqueçamos ainda das piedosas exortações de Pio XII. O Papa que, conforme contam algumas testemunhas, teria visto o milagre do sol nos jardins do Vaticano, ensinava: "Se Maria, na obra da salvação espiritual, foi associada por vontade de Deus a Jesus Cristo, princípio de salvação, pode-se dizer igualmente que esta gloriosíssima Senhora foi escolhida para Mãe de Cristo 'para lhe ser associada na redenção do gênero humano'" [8].

Palavras semelhantes são encontradas também nas cartas de Pio X, Bento XV, Pio XI, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II.

Com tantos papas escrevendo sobre esse assunto, já não se pode dizer ingenuamente que a "mediação universal" de Maria e o seu papel como "corredentora" sejam meras "opiniões piedosas". Embora a Igreja ainda não tenha se manifestado solenemente a esse respeito, por meio de uma declaração ex cathedra, a sua notável presença nos documentos comuns dos Santos Padres leva-nos àquela obediência da fé, que também se aplica ao que propõe o Magistério ordinário e universal, isto é, "o ensino comum e universal de uma determinada doutrina pelo papa e por todos os bispos espalhados pelo mundo" [9].

Aliás, o próprio Concílio Vaticano II referendou tudo isso que dissemos até agora:

Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalável junto à cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos. De fato, depois de elevada ao Céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto se entende de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo.

Efetivamente, nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde variamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte.

Esta função subordinada de Maria, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a aos fiéis, para mais intimamente aderirem, com esta ajuda materna, ao seu mediador e salvador. [10]

Demonstrado o fundamento de nossa fé na cooperação de Maria — cooperação esta que se manisfestou "de modo singular, com sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural" [11] —, tornam-se mais lúcidas as suas aparições, cujas mensagens resumem-se a uma maior fidelidade à religião cristã, ou seja, ao chamado à santidade.

Maria nunca quer nada para Ela. Ao contrário, a Virgem sempre direciona-nos para o Seu Filho, a fim de que deixemos de ofendê-lO com nossos pecados.

Maria fala contra a indiferença e a tibieza dos corações que já não dão espaço para Jesus.

Mais: a Mãe de Deus escolhe almas inocentes para livremente sofrerem pela conversão dos pobres pecadores. Maria, por meio da consagração que lhe fazem, instrui e protege Seus filhos na batalha contra a serpente maligna, forjando-os no mesmo fogo no qual quis ser forjado o próprio Filho de Deus. Portanto, não há como negar as palavras de São Luís Maria Grignon de Montfort: "Se a devoção à Santíssima Virgem nos afastasse de Jesus, seria preciso rejeitá-la como uma ilusão do demônio. Mas é tão o contrário [...], esta devoção só nos é necessária para encontrar Jesus Cristo, amá-lO ternamente e fielmente servi-lO" [12].

Maria é, realmente, corredentora e medianeira de todas as graças.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 67.
  2. Papa Bento XVI, Homilia da Santa Missa de Canonização de Frei Galvão (11 de maio de 2007), n. 5.
  3. São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 1.
  4. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 2, a. 3.
  5. Santo Irineu, Adversus Haereses, III, 22, 4 (PG 7, 959).
  6. Eadmero, De excellentia Virginis Mariae, 11 (PL 159, 308).
  7. Breve de 8 de setembro de 1901: Acta Leonis XIII, vol. 21, pp. 159-160.
  8. Papa Pio XII, Carta Encíclica Ad Caeli Reginam (11 de outubro de 1954), n. 35.
  9. MARÍN, Antônio Royo. A fé da Igreja: em que deve crer o cristão hoje (trad. de Guilherme Ferreira Araújo). Campinas: Ecclesiae, Edições Cristo Rei, 2015, p. 69.
  10. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), n. 65.
  11. Ibid., n. 61.
  12. São Luís Maria Grignion de Montfort, op. cit, n. 62.

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Sexo antes do casamento é pecado? Nossa resposta a um desabafo.

Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará.

Em reação ao vídeo "Por que o sexo antes do casamento é pecado?", um rapaz nos direcionou a seguinte mensagem no Facebook:

"Sério, como a religião cega as pessoas. Então quer dizer que, se duas pessoas estão namorando há pelo menos, digamos, uns três anos, mas ainda não se uniram em sagrado matrimônio, com toda aquela hipocrisia (sic) de pompa e circunstância e o famoso clichê de 'até que a morte os separe', não podem fazer sexo?! Se o fizerem, então suas almas estão condenadas eternamente ao fogo do inferno? Então só se ama alguém de verdade se essas duas pessoas colocam uma porcaria (sic) de aliança de ouro no dedo um do outro? A maior prova de que casamento em si não significa nenhum pouco de prova de amor de verdade, é a quantidade desses que são destruídos por adultério ou traição.

Sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma. Sabe o que é verdadeiro pecado? Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho. Na própria Bíblia mesmo está escrito: 'Não julgueis, para não serdes julgados'! Então, sejam menos mesquinhos e respeitem a escolha de cada um, pois por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres nojentos (sic) e podres de alma. Em contrapartida, existem aqueles que não se casaram, fizeram sexo mesmo assim e se amam de verdade, sem pecado algum! Pronto, está dito, doa a quem doer."

O "desabafo" desse internauta é uma ocasião propícia para falarmos novamente da castidade no namoro, esse tema que se tornou tão complicado nos últimos tempos, até mesmo em ambientes cristãos. Assim como esse rapaz se dispôs a dizer o que pensa, "doa a quem doer", também nós faremos o mesmo aqui, pois acreditamos que, ao lado do dever de manifestar a verdade, os católicos têm a missão de repelir os erros que a contrariem. Os grandes doutores da Igreja, de fato, não "pregavam" apenas dos púlpitos das igrejas: eles debatiam e corrigiam, com caridade, quem quer que se encontrasse em algum caminho tortuoso. Assim, humildemente, esperamos que estas palavras ajudem as pessoas afastadas a se encontrarem com a fé e a aceitarem a doutrina moral da Igreja.

Como ponto de partida, tomemos a tese central de nosso comentarista: a de que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma".

Quem o autoriza a dizê-lo com tanta certidão?

Ninguém, absolutamente. Ele simplesmente põe a frase, mas a fonte é ele mesmo. Mais adiante, ele até cita uma passagem bíblica, mas, aparentemente, serve-se dela apenas como um recurso retórico. Se acreditasse no todo da revelação divina contido nas Sagradas Escrituras, nosso comentarista certamente não diria que "sexo antes do casamento não é pecado coisa nenhuma", porquanto os primeiros cristãos já ensinavam, em consonância com a própria tradição judaica, que a fornicação é pecado (cf. At 21, 25; 1 Cor 6, 18; Gl 5, 19; Ef 5, 3).

Mas, a pergunta é importante, o que é verdadeiro pecado? Nosso comentarista tem um rol de bons exemplos: "Trair a quem se ama, trair a confiança de um amigo, humilhar as pessoas, ser preconceituoso, difamar, dar falso testemunho". Seguramente, não há o que questionar: essas coisas são realmente pecaminosas.

A questão que precisa ser colocada é: de que modo nosso comentarista chegou a essa conclusão? Como descobriu que tal e qual coisa são erradas, e o que faz com que ele as chame de pecado?

"Pecado" significa, de acordo com a Primeira Epístola de São João, "transgressão da Lei" (1 Jo 3, 4). Santo Agostinho é um pouco mais minucioso e, em uma definição que já se tornou célebre, diz: "Peccatum est dictum vel factum vel concupitum contra legem aeternam — O pecado é a palavra, a ação, ou o desejo contra a lei eterna" [1]. Para sabermos o que é pecado, portanto, é preciso que conheçamos essa "Lei" de que fala o apóstolo São João, essa "lei eterna" de que fala Santo Agostinho.

Mas o que fazer para conhecê-la?

São duas as suas fontes: a razão humana e a revelação divina.

A razão humana, porque a lei eterna de Deus reflete nas criaturas racionais uma outra lei, a que damos o nome de "natural": por ela, as pessoas são capazes de dizer, usando a própria razão, se determinados atos, palavras ou desejos são bons ou ruins; é por causa dessa lei, inscrita no próprio coração humano, que uma pessoa sem nenhuma instrução religiosa sabe, por exemplo, que matar, tomar a propriedade alheia, mentir ou "trair a quem se ama" são condutas más e devem ser evitadas. Não é necessário ser católico apostólico romano e ir à Missa todos os domingos para ter consciência de que determinadas coisas são pecado. Um esquimó que, sem culpa própria, nunca tenha ouvido falar de Cristo, pode muito bem "cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência" [2] — palavras do Catecismo da Igreja Católica.

A revelação divina da Lei, no entanto, era necessária não só para elevar o homem ao conhecimento da fé — que supera e transcende a nossa mera capacidade racional —, mas até mesmo para deixar sólidas aquelas verdades que poderíamos alcançar pelo simples uso de nossa faculdade racional, já que, com o pecado original, o ser humano ficou debilitado até mesmo para reconhecer a lei natural. Um dos motivos da revelação, portanto, foi a fraqueza da condição humana após a queda de Adão e Eva: com a mente turva e os sentimentos perturbados, ficou difícil para o homem alcançar as verdades de sua própria natureza.

O mal do sexo fora do casamento é uma dessas verdades que podem ser apreendidas com o simples uso da razão. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, ao dialogar com quem não era cristão em sua famosa obra Suma contra os gentios, reúne um monte de argumentos para mostrar que, sim, "a simples fornicação é pecado contra a lei divina" [3].

A fornicação é errada, portanto, não simplesmente "porque a Igreja quis assim". A razão humana testemunha a maldade do sexo fora do compromisso conjugal e, para confirmar a inquietude da nossa consciência, vem em nosso auxílio a revelação do próprio Deus, que condenou essa conduta ainda na Antiga Lei (cf. Dt 17, 23; Tb 4, 13), reiterando essa proibição na Nova Aliança, seja pelas palavras de seu Filho (cf. Mt 5, 28), seja pelas palavras dos Apóstolos (já referidas acima) e dos seus sucessores [4].

A palavra "proibição", no entanto, provoca arrepios e traz imagens sinistras à imaginação das pessoas. É justamente por estar associada ao advérbio "não" que a nossa sociedade tende a enxergar a castidade como um fardo pesado e custoso de se carregar. Anos a fio de doutrinação ideológica nas escolas somam a esse preconceito as fogueiras da Inquisição, a rigidez da educação religiosa e... o argumento está pronto: o que esses católicos querem, na verdade, é "controlar as mentes" das pessoas e castrar os seus impulsos sexuais!

Nesse momento, é preciso conter um pouco a própria imaginação (ou a memória, às vezes) e tentar enxergar as coisas como elas realmente são.

"Castidade" não é um conjunto de normas sexuais carregadas de sanções punitivas. É verdade que existe uma pena para quem livre e conscientemente se afasta de Deus. Das coisas que Nossa Senhora mostrou aos três pastorinhos de Fátima, em Portugal, uma das primeiras foi o inferno, que é para onde vão "as almas dos pobres pecadores" que não se convertem. Mais do que um temor (sadio!) do castigo eterno, porém, o Evangelho de Cristo veio trazer ao homem a lei do amor. É por isso que, no episódio do programa "A Resposta Católica" sobre o sexo antes do casamento, Padre Paulo Ricardo insiste bastante no fato de o sexo fora do casamento ser uma forma de usar o outro, não de amar! Para perceber isso, basta tirarmos as vendas passionais que temos diante dos olhos. Como pode ser amor o ato egoísta de duas pessoas que se entregam totalmente no sexo, mas, ao amanhecer do dia, cada um se levanta de volta para sua casa? Como pode ser "natural" a fornicação, se transforma uma pessoa em objeto, tanto mais quanto se procura de todos os modos evitar a possibilidade dos filhos? Como pode ser amor que uma menina perca a sua virgindade sem sequer saber se o outro está disposto a perder a sua vida por ela, colocando uma aliança em seu dedo — aliança que nosso comentarista chama de "porcaria"?

É verdade que uma aliança, por si só, não significa nada. Nisto nosso comentarista está certo, "por trás de muitos 'casamentos maravilhosos' existem homens e mulheres podres de alma". O sinal da aliança é importante, todavia, porque carrega consigo a imagem do compromisso: lembra que o amor não é uma simples atração, mas um ato firme da vontade, que quer o bem do outro e se dispõe a isso, sim, por toda a vida — "até que a morte os separe", porque as pessoas não são objetos para uso de "uma noite" e descarte logo em seguida.

O que Deus pede do homem e da mulher, no entanto, não é a "pompa e circunstância" de uma cerimônia luxuosa, não são um vestido e um terno caros, nem carreiras profissionais bem sucedidas ou salários suntuosos. Quando, para conter a epidemia dos "casamentos clandestinos", a Igreja sabiamente estabeleceu, usando o poder das chaves (cf. Mt 16, 19; 18, 18), que a celebração do casamento deveria ser feita "na presença do pároco" ou de outro sacerdote autorizado, ela foi bem simples em sua colocação:

"Se não se apresenta nenhum impedimento legítimo, proceda-se à celebração do matrimônio em presença da Igreja, na qual o pároco, interrogados o varão e a mulher e entendido seu mútuo consentimento, diga: 'Eu vos uno em matrimônio, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo', ou use de outras palavras, segundo o rito aceito em cada província." [5]

Essa determinação foi feita pela Igreja no século XVI. É, portanto, uma lei eclesiástica, válida somente para católicos batizados [6]. Nela, como se pode ver, não consta nenhum luxo excessivo, nenhuma imposição de festa, nenhuma "pompa" abusiva, porque, no fim das contas, não é isso que importa para Deus. O importante é que o casal se ame (de verdade) e queira fazer a vontade divina em suas vidas, o que inclui evitar o pecado — pecado que não é o que um ou outro charlatão arbitrariamente define como tal, mas o que Deus desde a eternidade fixou em sua Lei e transmitiu aos homens, seja através da razão que eles possuem, seja através da revelação que a Igreja guarda como fiel depositária.

Para entender a fundo todas essas coisas, no entanto, nada é tão necessário quanto a . Sem ela, é até possível compreender este ou aquele ponto da doutrina moral católica — a indissolubilidade do matrimônio é outro exemplo de verdade que pode ser alcançada pelo uso de nossa razão [7] —, mas não se é capaz de admirar o conjunto da obra. Quem vê de fora os Dez Mandamentos até consegue enxergar a sua razoabilidade, mas, não tendo fé, fica no superficial: os Mandamentos não passam, então, de algumas "regrinhas de boas maneiras". Quem olha tudo isso, todavia, a partir do Evangelho, a partir da Encarnação do Verbo, a partir do fato de que o mesmo Deus que deu as tábuas da Lei a Moisés enviou ao mundo o seu Filho para dar também a nós a filiação divina pela graça, é capaz de enxergar um mundo completamente novo à sua frente. E isso — eis o que é mais extraordinário — não está reservado a uma pequena elite, a este ou aquele grupo especial, porque Deus o preparou para todos!

Só diante de todo esse conjunto é possível entender, por exemplo, que o pecado humano tenha consequências tão terríveis, como diz o Apóstolo: "O salário do pecado é a morte" (Rm 6, 23). Não se trata de coisa insignificante, de "bagatela", como o demônio e o mundo têm tentado pintar, a fim de seduzir e enganar as pessoas. A lama de imundície em que os homens de nosso tempo chafurdam é a prova viva de que não é a religião que "cega as pessoas", como diz o nosso comentarista; são os nossos sentimentos descarrilados que cegam a nossa razão e nos impedem de ver a realidade que dança, às vezes freneticamente, diante de nossos olhos. Como diz, aliás, o Papa Pio XII, o homem, não raro, procura persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que, no fundo, não deseja admitir que seja verdadeiro [8].

Para que as escamas caiam de nossos olhos, não nos vai adiantar "tomar" o lugar de Deus e tentar definir o que é certo e o que não é, o que é pecado e o que não é. Tudo já está escrito, não só no papel de alguns livros religiosos, mas na carne do nosso próprio coração. O que precisamos fazer é ouvir a voz de Deus, ter fé no que Ele nos revelou e nos arrependermos de nossos pecados.

Enquanto continuarmos achando que as cadeias do nosso pecado são apenas pulseiras de adorno, a verdade do Evangelho de Cristo jamais nos libertará.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santo Agostinho, Contra Faustum, XXII, 27 (PL 42, 418).
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 847.
  3. Santo Tomás de Aquino, Contra Gentiles, III, 122.
  4. Cf. Papa Inocêncio IV, Carta Sub catholicae professione, de 6 de março de 1254, n. 18 (DH 835); Inocêncio XI, Decreto do Santo Ofício, de 2 de março de 1679, n. 48 (DH 2148).
  5. Concílio de Trento, Decreto Tametsi, de 11 de novembro de 1563 (DH 1814).
  6. Cf. Código de Direito Canônico, cân. 1108.
  7. Cf. Santo Tomás de Aquino, Contra Gentiles, III, 123.
  8. Papa Pio XII, Carta Encíclica Humani Generis (12 de agosto de 1950), n. 2.

| Categoria: Santos & Mártires

Beata Albertina, a Maria Goretti do Brasil

Ela preferiu morrer a pecar contra a castidade. Seu nome é Albertina e ela nasceu no Brasil.

A bem-aventurada Albertina Berkenbrock nasceu a 11 de Abril de 1919, no distrito de São Luís, município de Imaruí, interior de Santa Catarina, numa família de origem alemã, simples e profundamente cristã.

Há uma singular concordância entre os testemunhos dados nos vários processos canônicos, por parte das testemunhas que a tinham conhecido e convivido com a Serva de Deus, ao descrevê-la como uma menina bondosa no mais amplo sentido do termo. A natural mansidão e bondade de Albertina conjugavam-se bem com uma vida cristã compreendida e vivida completamente. Da prática cristã derivava a sua inclinação à bondade, às práticas religiosas e às virtudes, na medida em que uma criança da sua idade podia entendê-las e vivê-las.

Sabia ajudar os pais no trabalho dos campos e especialmente em casa. Sempre dócil, obediente, incansável, com espírito de sacrifício, paciente, até quando os irmãos a mortificavam ou lhe batiam ela sofria em silêncio, unindo-se aos sofrimentos de Jesus, que amava sinceramente.

A frequência aos sacramentos e a profunda compenetração que mostrava ter na participação da mesa eucarística é um índice de maturidade espiritual que a menina tinha alcançado; distinguia-se pela piedade, pela modéstia e pelo recolhimento.

O cenário no qual se consumou o seu martírio é terrivelmente simples, quanto atroz e violenta foi a morte da Serva de Deus.

No dia 15 de junho de 1931, Albertina estava apascentando os animais de propriedade da família quando o pai lhe disse para ir procurar um boi que se tinha distanciado. Ela obedeceu. Num campo vizinho encontrou Idanlício e perguntou-lhe se tinha visto o animal passar por ali.

Idanlício Cipriano Martins, conhecido com o nome de Manuel Martins da Silva, era chamado pelo apelido de Maneco. Tinha 33 anos, vivia com a mulher próximo da casa de Albertina e trabalhava para um tio dela. Embora já tivesse matado uma pessoa, era considerado por todos um homem reto e um trabalhador honesto. Albertina muitas vezes levava-lhe comida e brincava com os seus filhos; portanto, era uma pessoa do seu conhecimento.

Quando Albertina lhe perguntou se tinha visto o boi, Maneco responde que sim, acrescentando que o tinha visto ir para o bosque próximo dali e ofereceu-se para a acompanhar e ajudar na busca. Mas, ao chegarem perto do bosque, convidou-a para deitar com ele. Seguiu-a com intenção de lhe fazer mal. Albertina não consentiu e Maneco então a pegou pelos cabelos, jogou-a ao chão e, visto que não conseguia obter o que queria porque ela reagia, pegou um canivete e cortou o seu pescoço. A jovem morreu imediatamente.

Dos testemunhos dos companheiros de prisão de Maneco revelou-se que a menina declarou a sua indisponibilidade pois aquele ato era pecado. A intenção de Maneco era clara, a posição de Albertina também: não queria pecar.

Durante o velório, Maneco controlava a situação fingindo velar a vítima e ficando por perto da casa. Porém, antes que descobrissem quem era o assassino, algumas pessoas notaram um fenômeno particular: todas as vezes que ele se aproximava do cadáver da Serva de Deus, a grande ferida do pescoço começava a sangrar.

No funeral de Albertina participou um elevado número de pessoas e todos diziam já que era uma "pequena mártir", pois dado o seu temperamento, a sua piedade e delicadeza, eram convictos de que tinha preferido a morte ao pecado. A exemplo da italiana Santa Maria Goretti, Albertina sacrificou a vida somente pela virtude.

Beatificada em 2007 pelo Papa Bento XVI, hoje ela se encontra na companhia dos santos no Céu, cumprindo a palavra que diz: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" ( Mt 5, 8). Que do mesmo solo que recebeu o sangue desta santa jovem brotem almas puras e dispostas a antes morrer que ofender a Nosso Senhor — e que estas almas sejamos nós!

Beata Albertina Berkenbrock,
rogai por nós!

Fonte: Site da Santa Sé | Adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Fé e Razão

O milagre eucarístico de Sokólka

Em 2008, esta pequena cidade no nordeste da Polônia foi agraciada com um milagre, quando parte de uma Hóstia consagrada começou a sangrar e transformou-se em verdadeira carne humana.

Todos os dias, em todos os altares do mundo, dá-se o maior milagre possível: o da transformação do pão e do vinho no verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus Cristo. No entanto, ao recebermos a comunhão, podemos tocá-lO apenas pela fé, pois aos nossos sentidos é oferecida apenas a forma do pão e do vinho fisicamente inalteradas pela consagração. O que é que, afinal, traz à nossa fé o acontecimento eucarístico de Sokólka?

Foi no domingo, 12 de outubro de 2008, logo após a beatificação do servo de Deus Pe. Miguel Sopocko. Durante a Santa Missa iniciada na igreja paroquial de Santo Antônio de Sokólka às 8h30, durante a distribuição da Comunhão, caiu a um dos sacerdotes aos pés do altar uma Hóstia consagrada. O sacerdote interrompeu a distribuição da Comunhão, pegou nela e, de acordo com as normas litúrgicas, colocou-a no vasculum, um pequeno recipiente com água que se encontra normalmente ao lado do sacrário, servindo para o sacerdote lavar os dedos após a distribuição da Comunhão. A Hóstia deveria dissolver-se nesse recipiente.

No fim da Missa, a irmã Júlia Dubowska, sacristã da Congregação das Irmãs Eucarísticas, em serviço na paróquia, tendo a consciência de que a Hóstia consagrada levaria algum tempo a dissolver-se, a pedido do Pe. Stanislaw Gniedziejko, pároco da paróquia, despejou o conteúdo do vasculum noutro recipiente e colocou-o no cofre que se encontra na sacristia da paróquia. Só a Irmã e o Pároco tinham as chaves do cofre.

Ao fim de uma semana, no dia 19 de outubro, Domingo das missões, a irmã Júlia – questionada pelo pároco sobre o estado da Hóstia – foi ver o cofre. Ao abrir a porta, sentiu um aroma delicado a pão ázimo. Quando abriu o recipiente, viu a água limpa com a Hóstia a dissolver-se e no meio desta uma mancha arqueada com uma cor vermelha intensa, lembrando um coágulo de sangue, com a forma de uma espécie de partícula viva de um corpo. A água permanecia incolor.

A Irmã informou imediatamente o Pároco, que veio logo com os sacerdotes locais e o missionário Pe. Ryszard Górowski. Todos ficaram surpreendidos e atônitos com o que viram.

Mantiveram discrição e prudência, não esquecendo o peso do acontecimento, pois tratava-se de Pão consagrado que, pelo poder das palavras de Cristo no Cenáculo, é verdadeiramente o Seu Corpo. Do ponto de vista humano, foi difícil definir se a forma alterada do fragmento da Hóstia é o resultado de uma reação orgânica, química ou de outro tipo de ação.

Imediatamente notificaram do sucedido o Arcebispo Metropolitano de Bialystok, Edward Ozorowski, que se dirigiu a Sokólka juntamente com o chanceler da cúria, os sacerdotes prelados e catedráticos. Todos ficaram profundamente comovidos com o que viram. O Arcebispo mandou proteger a Hóstia, esperar e observar o que iria acontecer.

No dia 29 de outubro, o recipiente com a Hóstia foi transportado para a capela da Misericórdia Divina na casa paroquial e colocado no sacrário. No dia seguinte, por decisão do Arcebispo, retirou-se a Hóstia com a mancha visível da água, colocou-se num pequeno corporal e em seguida no sacrário. Deste modo se conservou a Hóstia durante três anos, até ter sido solenemente levada para a igreja, no dia 2 de outubro de 2011. Durante o primeiro ano foi guardada em segredo. Foi um tempo de reflexão sobre o que fazer, pois tratava-se de um sinal de Deus que era necessário interpretar.

Até meados de janeiro de 2009, o fragmento da Hóstia alterada secou de forma natural e permaneceu como coágulo de sangue. Desde essa altura não mudou de aparência.

Em janeiro de 2009, o Arcebispo ordenou que se fizessem análises pato-morfológicas à Hóstia e a 30 de Março desse ano criou uma comissão eclesial para analisar o fenômeno.

O fragmento da Hóstia em forma alterada recolhido foi analisado pela Prof. Dr.ª Maria Sobaniec-Lotowska e pelo Prof. Dr. Stanislaw Sulkowski – de forma independente um do outro, com vista a uma maior credibilidade dos resultados –, pato-morfologistas da Universidade de Medicina de Bialystok. As análises foram realizadas no Instituto de Pato-morfologia dessa universidade. O trabalho de ambos os especialistas foi regido pelas normas e obrigações dos cientistas para analisar cada problema científico de acordo com as diretrizes do Comitê de Ética da Ciência da Academia das Ciências Polacas. As análises foram descritas e fotografadas exaustivamente. A documentação completa foi entregue à Curia Metropolitana de Bialystok.

Quando foram recolhidas as amostras para análise, a parte não dissolvida da Hóstia consagrada estava já embebida no tecido. Porém, a estrutura de sangue acastanhado do fragmento da Hóstia não perdeu nada da sua clareza. Este fragmento estava seco e frágil, intimamente ligado à restante parte da Hóstia em forma de pão. A amostra recolhida foi o suficiente para realizar todas as análises indispensáveis.

Os resultados de ambas as análises independentes sobrepuseram-se completamente. Concluíram que a estrutura do fragmento da Hóstia analisado é idêntica a tecido do músculo do coração de uma pessoa viva, mas em estado de agonia. A estrutura da fibra do músculo do coração e a estrutura do pão estavam interligadas de forma muito estreita, de forma impossível de realizar por ingerência humana.

As análises realizadas provaram que não foi adicionada nenhuma outra substância à Hóstia consagrada, mas que o seu fragmento tomou a forma de tecido do músculo do coração de uma pessoa em estado de agonia. Este tipo de fenômeno não é explicável pelas ciências naturais, sendo que os ensinamentos da Igreja nos dizem que a Hóstia entregue para análise é o Corpo do próprio Cristo pelo poder das Suas próprias palavras proferidas durante a Última Ceia.

O resultado das análises pato-morfológicas datadas de 21 de janeiro de 2009 foram incluídas no protocolo entregue na Cúria Metropolitana de Bialystok.

Para concluir, no comunicado oficial que emitiu, a Cúria Metropolitana de Bialystok afirmou o seguinte: "O acontecimento de Sokolka não se opõe à fé da Igreja, antes pelo contrário, confirma-a. A Igreja professa que, após as palavras da consagração, pelo poder do Espírito Santo, o pão se transforma no Corpo de Cristo e o vinho no Seu Sangue. Para além disso, trata-se de um chamamento para que os ministros da Eucaristia distribuam o Corpo do Senhor com fé e cuidado e que os fiéis O recebam com adoração."

Fonte: Site do Milagre Eucarístico de Sokólka | Tradução: Senza Pagare

| Categoria: Padre Paulo Ricardo

“Essa é a finalidade de tudo”

​Hoje, dia do 24.º aniversário sacerdotal do Padre Paulo Ricardo, o desejo de toda a nossa família é que ele seja santo e nos arraste consigo para o Céu.

Reverendíssimo Padre Paulo Ricardo,

Nas últimas semanas acompanhamos com entusiasmo as aulas que o senhor deu sobre as aparições e a mensagem de Nossa Senhora de Fátima. Em uma delas, foi sublinhada uma frase que poderia passar despercebida a quem folheasse desatentamente as Memórias da Irmã Lúcia, mas que condensa, na verdade, a essência da mensagem de Fátima: as palavras do Anjo de Portugal, diz a vidente, gravaram-se no espírito dos três "como uma luz", que os fazia compreender "quem era Deus, como nos amava e queria ser amado".

"Nos amava e queria ser amado", o senhor repetiu. "Essa é a finalidade de tudo."

Hoje, nós queremos elevar a Deus o nosso coração agradecido, porque, 100 anos depois das aparições do Anjo de Portugal, a Virgem Santíssima nos enviou um mensageiro para ensinar isto que a Igreja repete desde a sua fundação pela boca de seus santos: que Deus nos ama e quer ser amado! Este, de fato, não é o centro só da mensagem de Fátima, mas de toda a boa nova da salvação. "Que maior razão houve da vinda do Senhor do que mostrar seu amor por nós?", pergunta Santo Agostinho, concluindo com uma frase que o senhor não se cansa de repetir em suas pregações: "Si amare pigebat, saltem reamare non pigeatSe nos custava amá-Lo, ao menos não nos custe retribuir-Lhe o amor" [1].

Neste dia em que o senhor faz mais um aniversário de ordenação sacerdotal, queremos agradecer-lhe por estar sempre apontando o essencial de nossa fé e por tornar acessível a todos nós, seus alunos e filhos espirituais, o tesouro de dois mil anos de Igreja.

Muito obrigado, padre, especialmente pelos últimos cursos que o senhor tem gravado, ensinando-nos a oração por meio da grande mestra da vida espiritual que é Santa Teresa de Ávila, e a , através do grande mestre da teologia católica que é Santo Tomás de Aquino, bem como pelas centenas de Homilias Diárias e Testemunhos de Fé, que nos colocam em contato diário com a humanidade santíssima do Verbo encarnado.

Além da gratidão, o desejo de toda a equipe e família Christo Nihil Praeponere é que o senhor seja santo e nos arraste consigo para o Céu.

Referências

  1. De Catechizandis Rudibus, IV, 7 (PL 40, 314).

| Categoria: Santos & Mártires

A língua incorrupta de Santo Antônio de Pádua

Quando exumaram o corpo de Santo Antônio, os habitantes de Pádua descobriram a sua língua incorrupta. Desde então, o órgão repousa em um relicário especial, de onde recebe a veneração de inúmeros devotos e peregrinos até hoje.

Embora tenha nascido na cidade de Lisboa, em Portugal, Santo Antônio é normalmente referido com o nome do local em que morreu, a cidade de Pádua (Padova), na região nordeste da Itália. A sua morte se deu a 13 de junho de 1231, quando o santo contava com apenas 36 anos de idade.

Foi tão grande o luto que se mostrou por ocasião de seu falecimento, e tantos os milagres realizados, que o processo eclesiástico para verificar a sua santidade não chegou a durar sequer um ano: Santo Antônio de Pádua foi canonizado em 1232, por Gregório IX, o mesmo papa que o vira pregar e que lhe tinha dado o epíteto de "Arca do Testamento", pelo conhecimento notável que exibia das Sagradas Escrituras. "Se permitíssemos privar da devoção humana por mais tempo aquele que foi glorificado pelo Senhor, pareceria que de algum modo lhe tirávamos a honra e a glória que lhe eram devidas" [1], disse na ocasião o sucessor de São Pedro.

Nesse mesmo ano, os confrades do santo, ajudados pelos moradores de Pádua, começaram a erigir uma basílica em sua honra. Em 1263, seu corpo foi transferido para o lugar, na presença de São Boaventura, então superior dos franciscanos. Quando o sarcófago foi aberto, a língua do santo que tinha proclamado com tanta eloquência a Palavra de Deus foi encontrada perfeitamente intacta:

"Nessa altura, uma personalidade tão venerável como o senhor Boaventura [...] com todo o respeito pegou na língua do Santo em suas mãos, e comovido até às lágrimas, na presença de todos os circunstantes, dirigiu-se a essa relíquia com toda a devoção nestes termos: 'Ó língua bendita, que sempre glorificaste o Senhor e levaste os outros a glorificá-lo, agora nos é permitido avaliar como foram grandes os teus méritos perante Deus!' E beijando-a com ternura e piedade, determinou que fosse conservada à parte, com todas as honras, como era justo e conveniente." [2]

A língua do grande pregador foi então colocada em um relicário dourado, de onde até os dias de hoje recebe a veneração de inúmeros devotos e peregrinos.


Saiba o que a Igreja ensina a respeito da veneração de relíquias, assistindo a este episódio do programa "A Resposta Católica":


O corpo de Santo Antônio foi exumado ainda duas outras vezes: em 1350, quando o seu queixo e vários de seus ossos foram colocados em relicários próprios; e há poucos anos, em 1981, por ordem do Papa São João Paulo II, quando se descobriram incorruptas também as suas cordas vocais.

A incorrupção dessas duas partes de seu corpo não deixa dúvidas sobre qual era a maior virtude de Santo Antônio: a da pregação. "Esta virtude era nele tão resplandecente que não havia olhos que não a vissem" [3], diz um de seus biógrafos. Tantas almas levaram a Deus aquela língua e aquelas cordas vocais que, certa Quaresma, que ele tinha decidido dedicar "à pregação quotidiana e ao confessionário" [4], "quando refazia com o benefício do sono os seus membros fatigados, atreveu-se o diabo a apertar com violência a garganta do homem de Deus e, depois de a apertar, tentou sufocá-lo" — uma clara amostra do perigo que o demônio vislumbrava no uso de sua voz. Antônio, por sua vez, "depois de invocar o nome da gloriosa Virgem, imprimiu na fronte o sinal da santa cruz e, afugentado o inimigo do gênero humano, imediatamente experimentou alívio" [5].

Para medir a qualidade da pregação de Santo Antônio, leve-se em conta o fato de que, às vezes, mesmo reunindo em um só lugar uma multidão de 30 mil pessoas, "nem sequer se ouvia um sinal de clamor ou murmúrio" enquanto ele falava. "Pelo contrário, num silêncio prolongado, como se fora um só homem, todos escutavam o orador com os ouvidos da mente e do corpo atentos" [6].

Mais importante do que isso, as palavras do frade realizavam na vida das pessoas o maior de todos os milagres, que é a conversão de coração. Depois que escutavam a sua pregação, eram tantos os homens e mulheres que corriam para o confessionário, que faltavam sacerdotes para atender tanta gente. Um frade franciscano anônimo, comentando os efeitos da pregação de Santo Antônio, diz o seguinte:

"Segundo a promessa de Cristo, os santos quase sempre dão dele testemunho duma forma muito mais sutil do que com a realização de prodígios visíveis. Por exemplo quando anunciam com convicção a Palavra de Deus, ou com a perfeição da própria vida mostram como se deve proceder, ou ainda quando, sem deixarem de atender as súplicas que lhes são dirigidas, realizam autênticos milagres noutra esfera mais elevada. Ao procederem assim, estão como a dar vista a cegos espirituais, permitindo-lhes descobrir a verdade; ou a desobstruir ouvidos de surdos, entupidos pela obstinação, possibilitando-lhes ouvir e obedecer aos mandamentos divinos. Da mesma forma estão a erguer às alturas das virtudes tantos trôpegos pela fatuidade de critérios e de ações; ou então a desembaraçar para uma salutar confissão certas bocas anteriormente caladas; ou a limpar leprosos da podridão contagiosa de algum mau hábito; ou a restituir tranquilidade e sossego a pessoas atormentadas pela crueldade diabólica; ou, enfim, a ressuscitar para uma vida espiritual presente e futura alguns a quem o veneno do pecado matara e fizera entrar em fétida putrefação.

Tudo isto são autênticos milagres, embora os descrentes e os materialistas não considerem tais eventos dignos de admiração em confronto com prodígios materiais. No entanto, se bem que para realizar quaisquer prodígios, tanto de ordem espiritual como material, tenha de intervir a mesma onipotência divina, aos olhos do Juiz misericordioso é muito mais importante converter um ímpio do seu pecado do que restituir-lhe a vida corporal." [7]

É isto o que se pode dizer, em resumo, da língua de Santo Antônio de Pádua: que operou milagres muito maiores que todos os outros que ele fez, seja em vida, seja depois de sua morte. Antônio, por certo, não pode ser tido como um santo "discreto": foi ele um verdadeiro taumaturgo, a ponto de haver nos livros relacionados à sua vida uma obra dedicada tão somente à narração de seus milagres. Mesmo assim, foram a sua língua e as suas cordas vocais, entre todos os membros de seu corpo, que experimentaram a incorrupção.

Com isso, Deus quer nos mostrar que, muito mais do que multiplicar pães, curar enfermos e ressuscitar defuntos, a grande obra dos santos, como Santo Antônio, é espiritual: levar as pessoas à conversão e à mudança de vida.

Fica para todos os devotos de Santo Antônio, portanto, esta importante lição deixada pelo próprio Cristo: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos serão dadas em acréscimo" ( Mt 6, 33). Em nossas orações a este grande santo e doutor da Igreja, peçamos o que verdadeiramente nos convém, entregando a Deus a decisão última de tudo. Ele sabe o que é melhor para nós, não é virando uma imagem de cabeça para baixo que vamos mudar a Sua vontade para a nossa vida.

Para falar a verdade, a oração não foi feita para mudar a vontade de Deus, mas a nossa. O que precisa ser virada de ponta-cabeça não é a imagem de Santo Antônio, mas a nossa vida.

Santo Antônio de Lisboa e de Pádua,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. GREGÓRIO IX, Papa. Bula da canonização Cum dicat Dominus, de 11 de junho de 1232 (trad. de Frei Henrique Pinto Rema, OFM). Braga: Editorial Franciscana, 1996, p. 25.
  2. PECKHAM, João. Legenda de Santo António intitulada Benignitas. Braga: Editorial Franciscana, 1996, p. 42.
  3. JULIANO DE ESPIRA, Frei. Vida de Santo António Confessor ou Vida Segunda (trad. de Frei José Afonso Lopes, OFM). Braga: Editorial Franciscana, 1996, p. 128.
  4. Ibid., p. 131.
  5. Vida primeira de Santo António, também denominada Legenda Assidua, por um frade anónimo da ordem dos menores (trad. de Frei Manuel Luís Marques, OFM). Braga: Editorial Franciscana, 1996, p. 46.
  6. Ibid., p. 47.
  7. Diálogo sobre as gestas de Santo António, por um Frade Menor anónimo (trad. de Frei José Maria da Fonseca Guimarães, OFM). Braga: Editorial Franciscana, 1996, pp. 190-191.