| Categoria: Doutrina

Quando Pio XII fez brilhar o Esplendor da Verdade

Seria possível amar a Deus e ao próximo sem respeitar os Dez Mandamentos em todas as suas circunstâncias? Para os adeptos da chamada “moral de situação”, sim. Para o Magistério da Igreja, no entanto, a resposta sempre foi não.

"Os mandamentos de Deus, que estão escritos no coração do homem e fazem parte da Aliança, têm verdadeiramente a capacidade de iluminar as opções quotidianas dos indivíduos e das sociedades inteiras? É possível obedecer a Deus e, portanto, amar a Deus e ao próximo, sem respeitar em todas as circunstâncias estes mandamentos?", perguntava-se, em 1993, o Papa São João Paulo II.

As perguntas formuladas não eram propriamente do Papa, mas de teólogos de seu tempo, e a resposta para elas não poderia ser diferente. Contra as teorias éticas heterodoxas em vigor, e em consonância com a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja, o Papa Wojtyla reafirmou a existência de "normas morais que proíbem sem exceção os atos intrinsecamente maus"; lembrou o dever que todos têm de formar retamente a própria consciência; e garantiu: "As circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato 'subjetivamente' honesto ou defensível como opção."

Muito antes, porém, de o Papa polonês fulminar com a encíclica Veritatis Splendor os perigosos postulados da chamada "moral de situação", outro Pontífice já havia condenado essa "nova ética", e mais de uma vez, ao longo de seu pontificado.

Tratava-se do venerável Papa Pio XII, que governou a Igreja durante os turbulentos anos da Segunda Guerra Mundial. Qual fosse a nota distintiva desta "nova ética" é ele mesmo quem explicava: " Ela não se baseia nas leis morais como, por exemplo, os Dez Mandamentos, mas nas condições e circunstâncias reais e concretas em que se deve agir e segundo as quais a consciência individual tem de julgar e escolher."

Na alocução que disponibilizamos a seguir, em nova tradução para a língua portuguesa, deixamos as orientações oportuníssimas do Papa Pio XII a respeito dessa "nova moral", "tão alheia à fé e ao princípios católicos, que mesmo uma criança que conheça o seu catecismo se dará conta disso".

Com muita clareza, o Papa Pacelli ensina que "pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma", recordando para isso o testemunho dos mártires, que preferiram a "morte sangrenta" a cometer um único pecado mortal.

Dada a extensão desse discurso, destacamos abaixo apenas o seu começo, sendo necessário, para se proceder à sua leitura integral, acessar o documento em formato PDF ou aqui ou nas reticências entre colchetes, ao fim do excerto.

Papa Pio XII
Discurso " Soyez les bienvenues"
Aos participantes do Congresso da Federação
Mundial da Juventude Feminina Católica

Sala das Bênçãos (18 abr. 1952)


Tema do Congresso
1. Sede bem-vindas, caríssimas filhas da Federação Mundial da Juventude Feminina Católica. Saudamo-vos com o mesmo prazer, a mesma alegria e a mesma afeição com que há cinco anos vos recebemos em Castel Gandolfo por ocasião do grande Encontro Internacional das Mulheres Católicas.

As motivações e os sábios conselhos que vos demos naquele Congresso, bem como as palavras que então vos dirigimos ( Discurso e Radiomensagem IX, pp. 221-233), não ficaram, de fato, sem produzir fruto. Bem sabemos o quanto vos tendes empenhado entrementes a fim de realizardes os objetivos precisos, dos quais já tendes clara visão. Isto Nos é comprovado, ademais, pela Memória impressa que fizestes chegar a Nós durante a preparação deste Congresso: La foi des jeunes. Problème de notre temps. Suas trinta e duas páginas têm o peso de um grande volume, e as examinamos com grande atenção, porque resumem e sintetizam as informações de variadas e numerosas enquetes sobre o estado da fé na juventude católica da Europa, sendo altamente instrutivas as suas conclusões.

2. Nós mesmos tratamos em nossa Alocução do dia 12 de setembro de 1947, à qual estáveis presentes, e em muitas outras mensagens de antes e depois, toda uma série de questões nelas abordadas. Hoje gostaríamos de aproveitar a ocasião que Nos oferece este encontro convosco para dizer o que pensamos a respeito deste fenômeno, que se tem manifestado por todas as partes na vida de fé dos católicos e que atinge um pouco a todos, mas de modo particular os jovens e seus educadores, problema cujos indícios estão registrados em diversos lugares de vossa Memória, como quando dizeis: "Confundindo o cristianismo com um código de preceitos e proibições, os jovens têm a impressão de se estarem afogando nesse clima de 'moral imperativa', e não são poucos os que sacodem esse 'fardo incômodo'".

Uma nova concepção de lei moral
3. Podemos chamar a este fenômeno uma nova concepção da vida moral, porquanto se trata de uma tendência que se manifesta no âmbito da moralidade. Ora, é sobre as verdades de fé que se fundam os princípios morais, e vós bem sabeis o quão importante e fundamental é para a conservação e crescimento da fé que a consciência dos jovens seja formada o quanto antes e se desenvolva segundo as justas e sãs normas da moralidade. Por isso, a nova concepção da moral cristã diz respeito muito diretamente ao problema da fé dos jovens. Falamos já da nova moral em nossa radiomensagem transmitida no último 23 de março aos educadores cristãos. E o que hoje diremos não é uma mera continuação daquilo que expomos outrora; o que agora pretendemos é descobrir as raízes profundas dessa concepção. Poderíamos qualificá-la de "existencialismo ético", de "atualismo ético", de "individualismo ético", entendidos no sentido restritivo que passaremos a explicar e tal como são compreendidos sob o que com outro nome se tem chamado Situationsethik, "moral da situação".

[...]

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O fim do mito sobre o “Papa de Hitler”

Por 60 anos, a verdade sobre a batalha do Papa Pio XII contra o nazismo tem sido suprimida. Mas novas evidências tornam inegável o seu heroísmo.

Passou despercebido pela imprensa mundial, mas uma notável reviravolta ocorreu recentemente nos estudos sobre o Holocausto. Quase dois anos atrás, a Fundação Internacional Wallenberg, um instituto de pesquisa histórica, iniciou um "projeto modesto": marcar as "Casas da Vida" — lugares onde judeus eram protegidos durante a guerra — com uma placa memorial. Foram encontradas mais de 500 casas como essas na Itália, França, Hungria, Bélgica e Polônia. Eduardo Eurnekian, presidente da fundação, escreveu que, "para nossa surpresa, descobrimos que a esmagadora maioria das Casas da Vida eram instituições relacionadas à Igreja Católica, incluindo conventos, mosteiros, internatos, hospitais etc".

Em Roma apenas, quase 4.500 pessoas encontraram refúgio em igrejas, conventos, mosteiros e internatos. Em Varsóvia, a Igreja de Todos os Santos protegeu judeus. Isso é notável porque a pena para poloneses que abrigassem judeus era o campo de extermínio ou, mais provavelmente, a execução sumária.

Que uma fundação nomeada após Raoul Wallenberg encontre uma colaboração católica tão ampla para salvar a vida de judeus, é coisa muitíssimo apropriada. Wallenberg foi um diplomata sueco em Budapeste durante a guerra. Ele e Angelo Rotta, o núncio papal, salvaram 120 mil dos 150 mil judeus da cidade. Wallenberg foi preso pela Guarda Vermelha e nunca mais visto.

As notícias sobre as Casas da Vida só são surpreendentes porque a verdade sobre a Igreja e o povo judeu na II Guerra Mundial tem sido escondida. Vários ajudantes do Papa da época da guerra, Pio XII, reconhecem que trabalharam para resgatar judeus sob instruções diretas do pontífice. Eles ainda incluíram dois futuros papas — Mons. Angelo Roncalli (João XXIII) e Mons. Giovanni Battista Montini (Paulo VI). Pio XII mesmo protegeu judeus tanto no próprio Vaticano como em Castel Gandolfo.

Este é um bom momento para marcar o testemunho da Igreja contra o nazismo. Oitenta anos atrás, a 14 de março de 1937, Pio XI publicou Mit Brennender Sorge ("Com grande preocupação), uma encíclica, propositalmente escrita em alemão, condenando o nazismo. "Quem quer que exalte a raça, ou o povo, ou o Estado, e divinize-os a um nível idolátrico, perverte a ordem do mundo criado por Deus", escreveu o Papa.

O secretário de Estado de Pio XI era o Cardeal Pacelli, futuro Pio XII. Ele distribuiu secretamente o texto, que ajudara a redigir, dentro da Alemanha. Quatro anos antes, ele havia negociado uma concordata entre a Santa Sé e a Alemanha, não para apaziguar o nazismo, mas para ter algum meio de conter os nazistas através de um tratado internacional. O regime referia-se a ele como um "amante de judeus". Pacelli fez mais de 50 protestos contra a política nazista, nos dias que antecederam a aprovação da Lei de Concessão, que garantiu a Hitler o poder para decretar leis sem a aprovação do Reichstag. Pacelli foi considerado tão anti-nazista que o III Reich tentou impedir a sua eleição como papa em 1939.

A história pessoal de Pacelli é importante. Ele era um amante da cultura germânica — e, igualmente, da cultura judaica — desde sua juventude. Como núncio na Bavária durante a breve república comunista de 1919, demonstrou sua coragem pessoal, permanecendo em seu posto. Sua simpatia e amizade com judeus, incluindo o grande maestro Bruno Walter, era bem conhecida, e ele concedeu auxílios discretos a muitos. A pedido de Walter, conseguiu a liberdade de um músico, Ossip Babrilowitsch, preso em um massacre (pogrom) enquanto a Bavária estava sob o domínio comunista. Em segurança na América, Gabrilowitsch tornou-se o diretor e fundador musical da Orquestra Sinfônica de Detroit. Walter, por sua vez, tornou-se católico.

Antes da guerra, Pacelli assumiu riscos extraordinários para ajudar a oposição alemã. Ele sabia que os generais estavam planejando um ataque contra Hitler, e fez com que notícias de suas intenções chegassem ao governo britânico.

Em uma situação de grande dificuldade, Pio XII fez o que ninguém mais fez para salvar a vida de judeus durante a guerra. Ele bem sabia o que realmente estava acontecendo ao povo judeu. Naquela época, muitos estavam na defensiva, incluindo um diplomata britânico que escreveu sobre "estes judeus queixosos". Nem o Reino Unido, nem a América facilitaram a fuga de judeus para o exílio — o Kindertransport foi uma abençoada exceção.

Nos anos da guerra, Pio XII atuou diretamente na Itália e por meio de diplomatas papais na Romênia, Hungria, Eslováquia e outros lugares. Não surpreendentemente, dadas as circunstâncias, não há nenhum número exato daqueles que foram salvos pelo Papa ou pela Igreja de um jeito ou de outro. Talvez tenha sido algo entre 500 e 860 mil.

As declarações de Pio XII tanto antes como durante a guerra eram inequivocamente hostis ao nazismo. Os Aliados podiam querer mais, mas o preço seria o fim de todo o bem que o Papa podia fazer. Os nazistas entendiam os pronunciamentos dele muito bem. Um plano para sequestrá-lo em 1944 foi apenas evitado pela improvável intervenção do general da SS Karl Wolff.

O Papa foi também completamente claro sobre os males do comunismo e da viciosa perseguição religiosa dos stalinistas. Mas não disse nada sobre isso durante a guerra. Os diplomatas aliados no Vaticano entenderem isso, pois só preservando a neutralidade da Santa Sé o Papa podia conceder refúgio a milhares de judeus em casas religiosas na Itália e mesmo no Vaticano. Isso também lhe permitiu manter contatos a fim de que informações sobre os prisioneiros de guerra e do Holocausto pudessem chegar aos Aliados.

Tudo isso era conhecido durante e após a guerra, inclusive por judeus. Albert Einstein, que escapou do regime nazista, disse em 1940: "Somente a Igreja permaneceu firmemente do outro lado da campanha de Hitler para suprimir a verdade… Eu sou obrigado, portanto, a confessar que agora louvo sem reservas o que uma vez eu desprezei".

Chaim Weizmann, primeiro presidente de Israel, e Isaac Herzog, líder dos rabinos de Israel, prestaram igualmente generosos tributos a Pacelli. Israel Zolli, chefe dos rabinos de Roma, tornou-se católico e, em homenagem ao Papa, tomou o nome cristão de "Eugênio". Depois da morte de Pio XII em 1958, Golda Meir, então ministra israelita das relações exteriores, escreveu: "Nós choramos um grande servo da paz".

Os nazistas odiavam a Igreja. Milhares de padres católicos foram aprisionados, especialmente em Dachau, o "campo dos padres". É verdade que alguns bispos seguiram uma política de apaziguamento: o Cardeal Adolf Bertram de Breslau supostamente teria ordenado um missa de Requiem para Hitler, em 1945. Alguns católicos traíram judeus e chegaram a massacrá-los, como em Jedwabne, em 1941. Mas outros, notavelmente o bispo Clemens August von Galen, de Münster, e o bispo Konrad von Preysing, de Berlim, fizeram tudo que podiam para resistir ao nazismo. O agente de Preysing e cura da Catedral de Berlim, Bernhard Lichtenberg, foi judicialmente morto e agora é reconhecido como um mártir.

Passados quase 60 anos, no entanto, desde a morte de Pio XII, sua reputação tem sido manchada. Exemplo recente foi uma reportagem da BBC que relacionou a oração silenciosa do Papa Francisco em Auschwitz a um ato de reparação pelo silêncio da Igreja Católica. A corporação estava simplesmente repetindo aquilo que se tornou a visão comum sobre Pio XII e a Igreja durante a guerra. (Como se chegou a esse equívoco é uma longa história, que já foi contada aqui no site outras vezes.)

Deixemos, entretanto, a última palavra para o próprio Papa Pio XII. Em 1943, ele escreveu: "Chegará o momento em que documentos não publicados sobre esta terrível guerra serão tornados públicos. Então, a tolice de todas as acusações se tornarão tão claras como a luz do dia. Sua origem não é a ignorância, mas o desprezo pela Igreja". Naquela época, o Papa estava se referindo à propaganda nazista. Mas suas palavras se aplicam igualmente bem às calúnias maliciosas contra ele lançadas nos últimos 60 anos.

Fonte: Catholic Herald | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Igreja Católica

O vigário de Jesus Cristo

Jesus governa a Sua Igreja de modo visível e ordinário por meio do Papa, o seu vigário na Terra.

Quando Cristo instituiu a Sua Igreja, Ele edificou-a sobre um fundamento visível. É claro que, ao falar desta realidade que toca o Céu e a Terra, a doutrina católica se refere à Igreja como uma comunidade muito maior que o simples conjunto de fiéis presentes neste mundo. Esta paisagem que se contempla aqui é apenas uma pequena porção da comunhão dos santos. A Igreja está presente, sobretudo, no Céu, onde já estão glorificados nosso Senhor e Sua Mãe Santíssima, juntamente com uma multidão incontável de santos e anjos.

No entanto, Jesus, conhecendo a fraqueza e a instabilidade humanas, viu a necessidade de deixar à Igreja um pastor que "fizesse as suas vezes" na Terra. Ele construiu uma estrutura sólida, a fim de que os fiéis cristãos mantivessem a unidade da fé e não se perdessem. Nas palavras de Pio XII, "o divino Redentor governa o seu corpo místico de modo visível e ordinário por meio de seu vigário na terra" [1]. Este vigário é sucessor do apóstolo Pedro, a quem foram confiadas as chaves do Reino dos céus (cf. Mt 16, 19).

Neste ponto, surge uma indagação: como explicar que, de acordo com São Paulo, Cristo seja a cabeça do Corpo, que é a Igreja (Cl 1, 18), e, ao mesmo tempo, haja nela um chefe reconhecidamente venerado e respeitado, a ponto de ser chamado de Papa?

Esta parece ser uma questão espinhosa. Os protestantes vêm à baila com novas acusações infundadas de "idolatria", como se ao sucessor de São Pedro fosse prestada uma honra devida somente a Jesus. Ora, basta conhecer um pouco de Catecismo para saber que o culto aos santos difere essencialmente do culto prestado a Deus. Note-se que a diferença está radicada na "essência" dos cultos, e não em uma mera gradação. Ou seja, o culto que se presta a Deus não é simplesmente maior que o culto aos santos, mas substancialmente diverso, já que a adoração (latria) se dirige somente a Deus, e a mais ninguém (cf. Dt 6, 13).

Mas, para fazer cessar o falatório antipapista, basta mostrar aos protestantes uma passagem dos Atos dos Apóstolos que relatava que "o povo lhes tributava grandes louvores" (At 5, 13). Será que também aos cristãos daquela época cairá a acusação de "idolatria"? Muitos deles – continuam os Atos – "traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles" (At 5, 15).

A pergunta, no entanto, persiste: se Cristo é a cabeça do povo de Deus e Pedro é seu chefe visível, haveria na Igreja "duas cabeças"? O venerável Papa Pio XII responde, com propriedade:

"Nem se objete que com o primado de jurisdição instituído na Igreja ficava o corpo místico com duas cabeças. Porque Pedro, em força do primado, não é senão vigário de Cristo, e por isso a cabeça principal deste corpo é uma só: Cristo; o qual, sem deixar de governar a Igreja misteriosamente por si mesmo, rege-a também de modo visível por meio daquele que faz as suas vezes na terra; e assim a Igreja, depois da gloriosa ascensão de Cristo ao céu não está educada só sobre ele, senão também sobre Pedro, como fundamento visível." [2]

Ainda de acordo com o imortal ensinamento do Papa Bonifácio VIII, Cristo e Pedro formam uma só cabeça: "A una e única Igreja, portanto, tem um só corpo, uma só cabeça – não duas, como um monstro –, a saber: Cristo e o vigário de Cristo, que é Pedro e o sucessor de Pedro" [3]. E explica o Catecismo de São Pio X que o Romano Pontífice "dirige visivelmente [a Igreja] com a mesma autoridade de Jesus Cristo, que é a cabeça invisível da Igreja" (n. 194).

Não há dúvida de que a fé no primado de Pedro, tal como posta por Jesus e reafirmada pelo Magistério da Igreja, é uma verdadeira pedra de escândalo. Ela mostra a este século orgulhoso que Deus, santo e incorruptível, age no mundo através de homens de carne e osso, com pecados e defeitos; que, nesta vida, desfrutamos o tesouro da graça "em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós" (2 Cor 4, 7).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Papa Pio XII, Carta Encíclica Mystici Corporis (29 de junho de 1943), n. 39.
  2. Idem.
  3. Bula Unam Sanctam (18 de novembro de 1302): DH 872.

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Um organismo decapitado

Além de tentar arrancar do coração humano as virtudes sobrenaturais infundidas por Deus em sua alma, o trabalho do diabo tem ido além.

Ainda destrinchando as palavras do Papa Pio XII sobre a lenta e gradual destruição da humanidade, é preciso que nos atentemos às seguintes palavras: “Nestes últimos séculos [o “inimigo"] tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo" [1].

A que Pio XII queria se referir, nesse discurso, ao falar do “organismo misterioso de Cristo"? Esse Pontífice, que escreveu a bela encíclica Mystici Corporis, “sobre o Corpo Místico de Jesus Cristo e nossa união nele com Cristo" [2], podia muito bem estar falando da Igreja, que é “muito mais excelente que quaisquer outras sociedades humanas" [3]. Mas, dado o contexto – a desestruturação presente em todo o mundo –, também é provável que tenha querido falar da sociedade humana como um todo.

Mas, por que chamar a sociedade de “organismo misterioso de Cristo"? Porque, como atesta Santo Tomás de Aquino, verdadeiramente, Cristo é cabeça de todos os homens:

“Cristo é a cabeça de todos os homens, mas em graus diversos. Assim, primária e principalmente, é a cabeça daqueles que atualmente lhe estão unidos pela glória. Em segundo lugar, dos que lhe estão unidos pela caridade. Em terceiro, dos que lhe estão unidos pela fé. Em quarto, dos que lhe estão unidos só em potência sem ainda terem sido reduzidos ao ato, mas que a este devem ser reduzidos, segundo a divina predestinação. O quinto, enfim, os que lhe estão unidos em potência e nunca serão reduzidos a ato, como os homens que vivem neste mundo e que não são predestinados. Mas que, partindo deste mundo, deixam totalmente de ser membros de Cristo, por já não poderem ser unidos a Cristo." [4]

Ao assumir a natureza humana, Jesus procurou salvar todos os homens. “Como não há, não houve, nem haverá homem algum cuja natureza não foi assumida por Cristo Jesus, nosso Senhor, assim não há homem algum, não houve, nem haverá pelo qual ele não tenha sofrido", diz uma declaração magisterial do século IX. Mas, como “o cálice da salvação humana", “se não for bebido, não salva" [5], o sacrifício de Cristo, embora útil a todos, pode ser ineficaz, não por defeito do resgate operado por Nosso Senhor, mas por ingratidão dos homens. Por isso, o demônio se esforça por transformar aqueles que receberam, pelos méritos de Cristo, a herança eterna, em rebeldes e moradores do inferno.

Em nossos tempos, porém, além de tentar o homem com a falta de fé, com o desespero e com o ódio, tentando arrancar de seu coração as virtudes sobrenaturais infundidas por Deus em sua alma, o trabalho do diabo tem ido além. A própria seiva natural tem sido impiedosamente sugada de suas veias e passam a ser aceitos comportamentos que, em si mesmos, não só entram em choque com preceitos religiosos, mas com a própria realidade das coisas.

Como não deplorar, por exemplo, que o aborto e a eutanásia sejam amplamente aceitos por legislações civis mundo afora? Como não enxergar na promoção de um “estilo de vida homossexual" uma profunda disfunção cultural, que coloca o prazer acima da própria preservação da espécie? Como não se espantar com o agigantamento descontrolado do “Estado-babá", que não só distribui vales e bolsas aos seus cidadãos – que bem podem ser chamados de súditos –, mas chega a arrogar para si o direito de educar as crianças e os jovens?

O “inimigo", indica o Santo Padre, é “astuto". Obscurecendo a compreensão da lei natural, torna praticamente impossível a obra de evangelização entre os homens. Afinal, como se pode ensinar que Deus é um pai amoroso, que “de tal modo amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" [6], se se aceita que uma mãe que mata seu filho permaneça impune ou, pior, receba toda a assistência do Estado para assassiná-lo? Ou se se entrega aos políticos a responsabilidade de criar as crianças, eliminando lenta e gradualmente as figuras paternas e maternas de seus imaginários? Como se podem ensinar as verdades eternas, cujo fio condutor é a Palavra (o λόγος) que “se fez carne" [7], a uma sociedade que sequer entende a finalidade primária do ato conjugal?

Por esses e outros fatos, é preciso concordar com o Papa: está-se diante de uma verdadeira “desagregação intelectual, moral, social, da unidade do organismo misterioso de Cristo" – que chega a parecer “decapitado". A solução é recuperar como guia e senhor Aquele que é “a cabeça de todos os homens" e procurar, com a oração e com a pregação do Evangelho, integrar todos no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja.

Por Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica, 12 ottobre 1952
  2. Carta Encíclica Mystici Corporis, 29 de junho de 1943
  3. Mystici Corporis, 61
  4. Suma Teológica, III, q. 8, a. 3
  5. Sínodo de Quiercy, maio 853: DS 624
  6. Jo 3, 16
  7. Jo 1, 14

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Amar, uma tarefa diária para todo cristão

O amor é um ato de determinação; requer-se uma vontade deliberada de amar.

O chamado de Jesus consiste unicamente no amor, de modo que as palavras dirigidas a Mateus – “Segue-me" (Cfr. Mt 9, 9) – podem também significar o imperativo do verbo amar: ame! Seguir Jesus é amar. A vocação cristã, portanto, se resume nessa atitude de doação, que só um coração contrito e apaixonado por Deus é capaz de ofertar aos outros.

O Catecismo da Igreja Católica, aprofundando um pouco mais neste mistério, explica que somos vocacionados do amor, porque fomos “criados à imagem e semelhança de Deus"[1]. Visto que Deus é amor, como narra São João, também nós somos predestinados a tomar parte nesta natureza, tornando-nos, em Cristo, filhos de Deus e, por conseguinte, membros de seu Corpo. Nesse sentido, que belo exemplo nos dá a Virgem Maria, como modelo de perfeição, ao acolher com total obediência – “eis aqui a escrava do Senhor" (Cfr. Lc 1, 38) – o propósito divino para sua história. Ela escolheu a melhor parte.

Por outro lado, lembra-nos o livro de Gênesis (Cfr. Gn 3, 10) a vocação do homem ao amor foi abalada a partir do momento em que – assistido pelos conselhos perniciosos da serpente – ele optou por ser um deus sem Deus. Com efeito, o amor ao Criador e suas criaturas, que era antes doação, converteu-se em amor próprio: amo-me acima de todas as coisas. Esse amor doentio (filáucia), que os padres da Igreja consideram a mãe de todas as doenças espirituais, permeia todo o orbe católico, até mesmo os lugares onde se exala certa piedade e zelo apostólico[2]. As liturgias impecáveis, a oração do terço, a opção preferencial pelos pobres, por sua vez, podem muitas vezes esconder um teatro com aparência de santidade. Diz o Papa Pio XII[3]:

[...] Sabeis, veneráveis irmãos, que o divino Mestre considera indignos do templo sagrado e expulsa dele os que crêem honrar a Deus somente com o som de bem construídas palavras e com atitudes teatrais e estão persuadidos de poder prover de modo adequado à sua salvação sem arrancar da alma os vícios inveterados.

O cristianismo não é uma religião de formalismo sem fundamento e sem conteúdo. Quando São Josemaria Escrivá pede que tenhamos uma oração litúrgica, nada mais faz do que obedecer à lei de Deus, exortando-nos a conhecer “a genuína natureza da verdadeira Igreja"[4]. Na liturgia, celebramos o mistério pascal, com o qual Cristo nos redimiu e tornou-nos coerdeiros das graças divinas. Mas essa celebração deve estar acompanhada por uma atitude interior de entrega e amor a Deus, de sorte que o homem respire a beleza de uma vida em comunhão com o Senhor. Ensina o Catecismo da Igreja Católica: “a liturgia é o ápice para o qual tende a ação da Igreja, e ao mesmo tempo é a fonte donde emana toda a sua força"[5]. Mas sem o amor, torna-se pouco eficaz, pois, com a liturgia – insiste oportunamente Pio XII –, a Igreja “quer que todos os fiéis se prostrem aos pés do Redentor para professar-lhe o seu amor e a sua veneração"[6].

Pelo contrário, se este propósito não estiver em todo coração católico, por mais belas que sejam as casulas e os ornamentos do altar, a celebração não passará de um monólogo: uma conversa comigo mesmo, em cujo cerne se encontra apenas a minha própria vontade. Analisando muitas atitudes ao nosso redor – e até mesmo a nossa – perceberemos que infelizmente não estamos muito distantes disso.

O amor é um ato de determinação; requer-se uma vontade deliberada de amar. Não se trata de um sentimento, mas de uma resposta à ação de Deus, bebendo “incessantemente da fonte primeira e originária que é Jesus Cristo"[7]. Recorda-nos Bento XVI, na sua encíclica Deus Caritas Est, que “quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom"[8]. A esse respeito, une-se à voz do Santo Padre a “pequena via" de Santa Teresinha[9]:

[...] Oh! Como eu gostaria de ser hipnotizada por Nosso Senhor! Foi o primeiro pensamento que me veio quando acordei. Com que doçura eu lhe entregaria a minha vontade! Sim, eu quero que ele se apodere de minhas faculdades de tal modo que não faça mais ações humanas e pessoais, mas, ações divinas, inspiradas e dirigidas pelo Espírito de Amor!

Quando posto à prova pelos fariseus em relação ao maior de todos os mandamentos, Cristo não hesitou em dizer: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo" (Cfr. Mt, 22, 37-39). Esta é a nossa única tarefa diária: amar, amar, amar!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, n. 27.
  2. Padre Paulo Ricardo, Filáucia, a mãe de todas as doenças espirituais, Curso de Terapia das doenças espirituais, aula 1.
  3. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 21.
  4. Constituição Conciliar Sacrosanctum concilium, n. 2.
  5. Catecismo da Igreja Católica, n. 1074.
  6. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 21.
  7. Bento XVI, Carta Enc. Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 7.
  8. Ibidem.
  9. Uma noviça de Santa Teresinha, Carmelo de Cotia, p. 111

| Categoria: Igreja Católica

Não, Pio XII não se calou

Passados 55 anos da morte do venerável Papa Pio XII, é momento de voltar alguns anos e honrar a sua grandiosa memória

Há uma lenda negra em curso: a de que o Papa Pio XII teria sido conivente com os crimes perpetrados pelos nazistas em meados do século XX.

Essa mentira nasceu de uma peça teatral, produzida por Rolf Hochhuth, no ano de 1963, de nome "O Vigário" (Der Stellvertreter, em alemão). Nela, Eugenio Pacelli é retratado como um homem pusilânime e covarde diante da deportação de judeus para campos de concentração. A obra de Hochhuth inspirou o filme Amen (Costa-Gavras, 2002). No decorrer da trama, um padre jesuíta tem pressa para falar com o Papa, para pedir a ele que se manifeste com mais veemência a favor dos judeus e contra o Holocausto. O clérigo é recebido com frieza pela personagem de Pacelli, que se limita a dizer que o coração do Pontífice sangra pelas vítimas do Holocausto... e nada mais.

O auge da difamação acontece em 1999, com a publicação de "O Papa de Hitler" (The Hitler's Pope). Mesmo que o seu autor, John Cornwell, tenha admitido que, ao escrever a dita biografia, "faltou equilíbrio" de sua parte01, o mito permanece e não são poucos os acadêmicos que recorrem a todas estas obras mentirosas para acusar a Igreja de conluio com Hitler.

Os fatos, porém, são outros. Hoje, sabe-se que tanto barulho em torno da figura de Pacelli não passou de um plano arquitetado pela KGB para desacreditar a Igreja Católica02. Além disso, ainda que Pio XII tenha preferido a estratégia de ações concretas para poupar a vida de milhares de judeus, não é correto falar que o Pontífice tenha se "silenciado" diante da iniquidade que se passava na Alemanha.

A ação de Eugenio Pacelli contra o nazismo começa ainda no pontificado de Pio XI, quando ele era secretário do Estado do Vaticano. Em 1937, foi ele quem escreveu grande parte da famosa encíclica Mit Brennender Sorge ("Com ardente preocupação"), condenando os erros do nazismo. "Naquele tempo, Pio XI estava gravemente doente e lembro-me de [que] ele reteve o texto de Pacelli durante dois dias, corrigindo-o só levemente e assinando-o, depois. Portanto, esta encíclica que mostrava o verdadeiro rosto do nazismo, foi obra do cardeal Pacelli", conta o padre Roberto Leibier, colaborador de Pio XII03.

A carta foi lida integralmente, durante a Missa, em mais de 11 mil igrejas da Alemanha. Suas palavras eram duras: "Só espírito superficiais podem cair no erro de falar de um Deus nacional, de uma religião nacional, e empreender a louca tentativa de encerrar Deus, criador do mundo, nos limites de um só povo e na estreiteza étnica de uma única raça". E ainda: "As leis humanas que estão em contraste insolúvel com o direito natural, estão feridas de vício original, não sanável nem com coações nem com desdobramento de força externa"04.

Os nazistas tinham entendido a mensagem de Roma. Ainda que a carta de Pio XI em nenhum momento usasse as palavras "nazismo" ou "judeus", o órgão oficial da SS – a organização paramilitar ligada ao Partido Nazista – qualificara a encíclica como "um insulto à nova Alemanha". Também Hitler reagiu à ousadia da Igreja, no 1º de maio daquele mesmo ano: "Não podemos suportar que esta autoridade, que é a autoridade do povo alemão, seja atacada por quem quer que seja. Isto vale para todas as Igrejas. Enquanto elas se ocupam dos seus problemas religiosos, o Estado não se preocupa com elas. Mas, quando elas tentam, através de medidas de todo o gênero, com escritos, encíclicas, etc., atribuir a si mesmas direitos que competem exclusivamente ao Estado, nós reprimi-las-emos (...). Da moralidade do Estado e do povo alemão tratarão os dirigentes do Estado alemão".

A represália dos dirigentes do Partido Nazista foi grande. A imprensa católica foi suprimida e processos contra clérigos católicos ressuscitaram das cinzas. Quando o Papa Ratti faleceu e Pacelli foi eleito, ele sabia da responsabilidade que tinha diante de si, do perigo que corriam não só os judeus, mas os próprios católicos alemães. Se uma mensagem com expressões indiretas causara tamanho rebuliço, uma condenação mais direta poderia causar uma verdadeira tragédia.

Mesmo consciente disto, Pio XII não se calou. Mal assumira o trono de Pedro, Pio XII condenou "a premeditada agressão a um povo pequeno, trabalhador e pacífico, com o pretexto de uma ameaça que nem existe nem é querida e nem sequer é possível" e pediu o respeito "às verdadeiras necessidades e às justas exigências das nações e dos povos, como também das minorias étnicas", fazendo clara alusão ao povo judeu05.

Quando o exército alemão invadiu os países baixos, novamente o Pastor Angelicus levantou a sua voz. Enviou telegramas aos soberanos da Holanda, da Bélgica e de Luxemburgo, deplorando as ações bélicas nazistas perpetradas "contra a sua vontade e o seu direito". De novo, as atitudes do Papa não agradaram nada às potências do Eixo. O texto das mensagens diplomáticas foi publicado por L'Osservatore Romano e "os ardinas do jornal vaticano foram maltratados tal como foram agredidos todos os que foram vistos com um exemplar do diário"06.

Em dezembro de 1940, Pio XII oferece socorro aos refugiados da guerra e decide nominar diretamente os judeus. "Nem menor conforto é para nós ter tido condições de consolar, com a assistência moral e espiritual dos nossos representantes e com o óbolo dos nossos subsídios, um número enormíssimo de refugiados, de expatriados e de emigrantes, também entre os de estirpe semita..."07.

As manifestações do Santo Padre não param aí. Nas grandes radiomensagens natalícias de 1941 e 1942, o Papa Pacelli não poupou tinta para condenar a totaler Krieg ("guerra total") de Hitler e "o conceito que reivindica para certas nações, raças ou classes o instinto jurídico, como último imperativo e norma sem apelação"08. Era uma denúncia direta do ódio pregado pelos orgulhosos advogados da "raça ariana", os nazistas.

Um fato particularmente curioso da vida de Pacelli ilustra sua inconformidade visceral com os projetos de Adolf Hitler. De acordo com a sua fiel serviçal, a irmã Paschalina Lehnert, Pio XII estava convencido, ainda nos tempos de nunciatura em Berlim, de que Hitler "estava completamente possesso"09. Tudo leva a crer que estas palavras devem ser lidas em seu sentido literal. Um de seus sobrinhos conta que "Pio XII teria até o hábito de rezar, durante a guerra, orações de exorcismo para tentar expulsar o diabo da alma de Hitler"10.

Papa de Hitler? Pode-se até questionar a ação diplomática de Pio XII em tempos de guerra: se poderia ter sido mais prudente ou mais enfático, se poderia ter se pronunciado mais ou dito menos... Porém, falar de "silêncio" ou pior, de pacto com Hitler, é aderir à tática suja de quem usa qualquer pedaço de pau para bater na Igreja Católica. O Pastor Angelicus manifestou-se várias vezes em favor da vida dos inocentes e contra as arbitrariedades ideológicas dos partidários nazistas.

Isto não é apologia de católico papista; é apenas história.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. The papacy: For God's sake
  2. O fim de uma longa farsa
  3. Andrea Tornielli, Pio XII, il Papa degli ebrei. Trad. António Maia da Rocha. Porto: Ed. Civilização. P. 99
  4. Pius XI, Mit Brennender Sorge (14/03/1937)
  5. Discurso a los miembros del Sacro Colegio y de la Prelatura Romana con motive de las felicitaciones de Navidad
  6. Andrea Tornielli, Pio XII, il Papa degli ebrei. P. 163
  7. Allocuzione "Grazie, Venerabili fratelli"
  8. Natal de 1942
  9. Lehnert P., Pio XII – Il privilegio di servirlo, Rusconi, Milão 1984
  10. Andrea Tornielli, Pio XII, il Papa degli ebrei. P. 110

| Categoria: Igreja Católica

Pio XII, "pai solícito e providente"

Em carta ao vigário-geral de Roma, Francisco reconhece o heroísmo do venerável Pio XII, que conduziu a Igreja durante os horrores da Segunda Guerra Mundial

Depois do reconhecimento das virtudes heroicas do Papa Pio XII, em 2009, por iniciativa de Bento XVI, foi a vez do Papa Francisco demonstrar seu apreço pelo grande Pastor Angelicus, que conduziu a Igreja durante os terríveis anos da Segunda Guerra Mundial. No último mês, em carta enviada ao vigário-geral da diocese de Roma, o cardeal Agostino Vallini, o Santo Padre expressou sua gratidão "a quem foi pai solícito e providente" 01.

No dia 19 de julho de 1943, isto é, há 70 anos, a cidade de Roma foi bombardeada pelos Aliados, apesar dos insistentes pedidos de Pio XII para que a cidade eterna fosse poupada dos horrores da guerra. O conhecido bairro São Lourenço foi devastado: uma igreja tradicional dedicada ao mártir foi destruída e inúmeras vidas foram ceifadas. Sensível ao sofrimento dos moradores de Roma e incansável em seu esforço pela conciliação em tempos de conflito, o Papa Pacelli visitou o mesmo bairro, pouco tempo depois, para confortar o povo romano e clamar por paz.

O Papa Francisco recordou o incidente e louvou o "venerável Pio XII, que, naquelas horas terríveis, ficou próximo de seus concidadãos tão duramente golpeados". "O Papa Pacelli – escreveu – não hesitou em correr, imediatamente e sem escolta, às ruínas ainda fumegantes do bairro de São Lourenço, a fim de socorrer e consolar a população consternada. Também naquela ocasião se mostrou Pastor com premência, que está no meio de seu próprio rebanho, especialmente na hora da prova, pronto a compartilhar os sofrimentos de sua gente."

Francisco também lembrou a grande obra de caridade realizada pela Igreja durante a denominada "grande guerra", salvando inúmeras vidas e aliviando as almas. "O gesto do Papa Pacelli é o sinal da obra incessante da Santa Sé e da Igreja em suas diversas articulações, paróquias, institutos religiosos, residências, para dar alívio à população. Muitos bispos, sacerdotes religiosos e religiosas em Roma e em toda a Itália foram como o Bom Samaritano da parábola evangélica, inclinado ao irmão na dor, para ajudar-lhe e dar-lhe conforto e esperança."

De fato, é conhecida a ajuda que a Igreja, por meio do venerável Pio XII, concedeu às vítimas da guerra, especialmente aos judeus. São inúmeros os testemunhos de personalidades judias que abonam a ação do Pastor Angelicus. O diplomata israelense Pinchas Lapide esclarece que, "durante o pontificado de Pio XII, a Igreja católica foi o instrumento de salvação de, pelo menos, 700 000, mas talvez também de 860 000 judeus que deviam morrer às mãos dos nazis". Um judeu, que ficou quatro meses escondido nas catacumbas de São Calisto, em Roma, assegurou que "a Igreja católica foi para todos nós um seguro lugar de refúgio". "Quando um judeu encontrava um padre no caminho sabia que podia tranquilamente pedir-lhe refúgio e assistência".

Também é sabido, por exemplo, que foram muitos os conventos e mosteiros em Roma a abrirem suas portas para o abrigo de refugiados. Nada disto seria possível sem "instruções precisas, orais ou escritas, provenientes de Roma", garante o jornalista Andrea Tornielli, autor do livro "Pio XII, o Papa dos judeus". Tornielli escreve ainda que "só a necessidade de criar um bode expiatório, para cima de cujas costas se atirem as muitas culpas de quem não mexeu um dedo para ajudar os judeus, pode justificar que esta extraordinária ajuda humanitária seja esquecida"02.

Pio XII foi Pontífice da Santa Igreja de 1939 até o ano de 1958, quando morreu. Escreveu inúmeros discursos, encíclicas e radiomensagens, tendo abordado neles uma infinidade de questões, como o evolucionismo, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Liturgia católica. Grande parte deste tesouro pode ser consultada no site da Santa Sé03.

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Messaggio del Santo Padre Francesco al Cardinale Vicario Agostino Vallini, nel LXX anniversario del bombardamento di Roma
  2. Andrea Tornielli, Pio XII, il Papa degli ebrei. Trad. António Maia da Rocha. Porto: Ed. Civilização.
  3. Pius PP. XII - Eugenio Pacelli