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Confirmação, o sacramento dos soldados de Cristo

Pelo sacramento da Confirmação, “nós nos convertemos em soldados de Cristo e, armados adequadamente, empenhamo-nos em lutar ao seu lado contra o mundo, a carne e o demônio”.

São Luís de França

Sexta-feira da Oitava de Pentecostes

O sacramento da Confirmação

Considerai antes de tudo que a Confirmação é um sacramento por cuja virtude o fiel, se devidamente disposto, recebe o Espírito Santo juntamente com todos os seus dons e graças, a fim de tornar-se um cristão forte e maduro. Os Apóstolos foram confirmados de um modo maravilhoso pela descida visível do Espírito Santo no dia de Pentecostes; os demais fiéis, no entanto, haviam de ser confirmados por seus ministros, sucessores dos Apóstolos, ou seja, pelos Bispos da Igreja de Deus: "Eles rezaram [...], impuseram-lhes as mãos e receberam o Espírito Santo" ( At 8, 15.17; cf. 19, 6).

Dai graças ao Senhor por esta sagrada instituição, da qual Ele se serve para perpetuar na Igreja o envio de seu Espírito e a comunicação de suas graças. Que dignidade! que alegria é receber o Espírito Santo, Senhor do céu e da terra, fonte inesgotável de toda graça! Ele, que é liberalíssimo em compartilhar os próprios tesouros, os leva consigo onde quer que sopre. Quantos, pois, fazem guerra a si mesmos, quer por rejeitarem este grande meio de receber o Espírito Santo, quer por dele se aproximarem sem as devidas disposições, privando-se assim dos seus benefícios, quer enfim por ousarem pervertê-lo em causa de condenação!

Considerai agora que a graça própria e peculiar deste sacramento é a transmissão de uma fortaleza celeste, quer dizer, de uma força espiritual, um valor e coragem que permitam nos mantenhamos fiéis a Deus e combatamos os inimigos, tanto visíveis como invisíveis, da nossa fé. Por força deste sacramento, convertemo-nos em soldados de Cristo; alistamo-nos nas fileiras desse grande Rei; pomo-nos sob a sua bandeira; somos marcados na fronte com o sinal da sua Cruz, emblema de todas as suas tropas; e, armados adequadamente, empenhamo-nos em lutar ao seu lado contra o mundo, a carne e o demônio.

Oh! quão glorioso é ostentar o título de soldado de Cristo! Quão gratificante é servi-lO! Mas o que lucramos em seguir a Cristo como nosso capitão e ter o seu Santo Espírito para nos guiar, fortalecer, animar e defender? Oh! nobre é a retribuição que um tão grande Rei dá aos que combatem ao seu lado! Pois é Ele mesmo a recompensa, e para todo o sempre: "Sê fiel até a morte", disse Ele, "e te darei a coroa da vida" ( Ap 2, 10).

Considerai por fim que no sacramento da Confirmação a alma é consagrada a Deus de um modo peculiar pela unção derramada por esse Santo Espírito, ao mesmo tempo que a fronte é ungida com o Santo Crisma, uma mistura de óleo e bálsamo solenemente consagrada na Quinta-feira Santa pelos Bispos da Igreja de Deus e guardada nas igrejas com toda a reverência, para ser utilizada apenas na consagração dos objetos mais solenemente dedicados a Deus ou mais estreitamente destinados ao culto divino. Por isso, a Igreja emprega este santo óleo na Confirmação para fazer-nos compreender que nela também nós somos santificados, oferecidos e consagrados solenemente a Deus para sermos templos do seu Espírito; pois assim como a unção e consagração do corpo são sinais externos da unção e consagração invisíveis da alma por obra do Espírito de Deus, assim também todos os demais sacramentos são sinais externos da graça interna.

Cristãos, que pensais dessa consagração de vossas almas? Já vos considerastes a vós mesmos um povo entregue de forma especial a Deus e santificado pelo unção do seu Espírito? Refletistes alguma vez que fostes santificados com a mesma consagração com que se dedicam ao serviço divino os altares e templos de Deus? De agora em diante não vos esqueçais disso, e permiti que vossas vidas manifestem que sois templos vivos do Deus vivo.

Fazei, em conclusão, o propósito de ter em alta conta a graça de vossa Confirmação e de viver à altura do caráter com que fostes selados. Procurai comportar-vos sempre de modo a crescerdes na perfeição cristã e vos tornardes soldados de Cristo. Que não recebais inutilmente tão preciosa graça.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

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Como saber se o Espírito Santo está presente em minha alma?

Se são estas as tuas sinceras disposições e determinações, “o Espírito Santo está contigo; mas se, pelo contrário, não te vês assim decidida, não há em teu coração espaço para Ele, pois Satã o está ocupando”.

Quinta-feira da Oitava de Pentecostes

Os sinais da presença do Espírito Santo na alma

Considerai, em primeiro lugar, que a maneira mais segura de sabermos se o Espírito Santo está ou não presente à alma é por seus frutos. O Espírito de Deus nunca está ocioso; Ele é um fogo que sempre queima, sempre se move, sempre tende para o alto. Se nada disto vemos em nossa alma, temos bons motivos para crer que Ele não está em nós. Seus frutos são a caridade, a alegria, a paz, a paciência e muitos outros; ora, se não temos nenhum desses frutos, Ele não está conosco.

Ouve, pois, meu filho: como está a tua fé? firme? viva? Ou antes débil e morta? Ela se manifesta no dia-a-dia? Tens vivido por ela? Qual é a tua esperança? O que pensas das coisas eternas? Que cuidado tens das coisas do espírito? Como é a tua devoção? Como amas a Deus e ao próximo? Alimentas o desejo de progredir diariamente nas veredas de Deus? Se te examinares nestes pontos, ser-te-á fácil julgar se tens ou não o Espírito Santo ao teu lado. E não há mais seguro indício da presença divina do Espírito do que um constante e fervoroso desejo de amar a Deus cada dia mais, de O conhecer e cumprir-Lhe a vontade em todas as coisas. E tu, acaso encontras em ti o desejo de O amar e agradar? Se dizes que sim, então o Espírito de Deus não pode estar longe de ti.

Considerai agora que, sendo infinita a distância que separa o Espírito de Deus do pecado voluntário, outro dos sinais seguros de que o Espírito Santo habita nossa alma é a vontade firme e constante de evitar todo pecado deliberado, com a determinada determinação de nunca mais admitir, sob o aspecto que for, tudo quanto seja pecaminoso. Ó minh'alma, quais as tuas disposições a esse respeito? Estás tu inteiramente empenhada em ser, tanto na vida como na morte, fiel e leal ao teu Deus? Renuncias resolutamente, agora e para sempre, a Satanás e suas obras? É esta a tua constante e assentada decisão de nunca mais transgredir a lei sagrada e os Mandamentos de Deus, seja por honras mundanas ou prazer, por respeito humano, seja por amor ou medo a quanto o mundo pode dar ou subtrair, seja enfim por qualquer outro motivo? Se esta é a tua sincera disposição e determinação, o Espírito Santo está contigo; mas se, pelo contrário, não te vês assim decidida, não há em teu coração espaço para Ele, pois Satã o está ocupando.

Considerai, em terceiro lugar, que aonde quer que o Espírito Santo se dirija Ele convence "o mundo do pecado, da justiça e da sentença" ( Jo 16, 7). Ele convence, pois, a alma do pecado na medida em que a ilumina com a sua presença, fazendo-a compreender a feiúra do pecado, bem como o número e a gravidade de suas próprias faltas, e inspirando-lhe um horror por esse monstro infernal e um desejo de exterminá-lo pela penitência. O Espírito também a faz enxergar manchas onde ela julgava estar limpa, e humilha o seu orgulho convencendo-a de suas várias culpas. Ó alma, sabes já o que é estar convencido do pecado?

Com sua vinda o Espírito Santo convence-a também da justiça de Cristo e de sua lei celestial, da beleza das virtudes e da santidade, do prazer e da felicidade que se sentem ao servir a Deus de perto. Estás convencida, ó alma, disso tudo na prática? Preferes de fato o maná descido do Céu às lentilhas do Egito?

O Espírito Santo, ainda uma vez por sua vinda, convence a alma do falso juízo que ela até agora tem formado, ao seguir o mundo e o príncipe deste mundo, o qual já foi julgado e condenado, e do reto juízo que deve ter de todas as coisas, a fim de livrar-se do julgamento que, caso não o faça, Deus fará recair um dia sobre ela. E tu, ó minh'alma, te vês convencida desse julgamento? Estão os teus juízos acerca da verdade e do erro, da veracidade e da vaidade, do tempo e da eternidade, retificados pelo Espírito Santo? Não tens por acaso, por um perverso engano, seguido o príncipe deste mundo, em vez de Cristo; as máximas mundanas, que não passam de mentiras, em vez do exemplo dos santos, que ponderam todas as coisas na balança da santidade? Que o teu modo de julgar as coisas resista à prova do último grande Julgamento.

Concluí, pois, que é examinando os sinais como os aqui descritos que podeis discernir se o Espírito de Deus está ou não convosco. Se percebeis em vós algum dos indícios de sua presença, rendei-Lhe humildes ações de graças; não vos fieis, porém, de vós mesmos, a fim de não serdes ludibriados por vosso amor-próprio, ou separados do Espírito por causa do vosso orgulho. Se, por outro lado, não sois capazes de perceber as marcas de que Ele vos acompanha, chorai vossa miséria, e não vos deis nenhum descanso; chorai lágrimas de penitência, rezai com fervor, recorrei enfim a todos os meios de O trazer de volta às vossas almas, até que possais ter outra a vez a esperança de O terdes em vossos corações.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

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Como podemos manter conosco o Espírito Santo?

O Espírito Santo “abandona as almas que, não tendo o cuidado de estar recolhidas a seus pés, preferem dissipar-se em distrações e esbanjar com fantasias e pensamentos inúteis o tempo precioso que deveriam passar com Ele”.

Quarta-feira da Oitava de Pentecostes

Sobre os meios de manter o Espírito Santo conosco

Considerai primeiro que uma alma que tenha sido agraciada com a visita do Espírito Santo, se deseja preservar a felicidade que aí encontra, deve ter o cuidado de O tratar da maneira adequada. Com efeito, se ela dá pouca ou nenhuma atenção a esse divino hóspede; se logo dá-Lhe as costas para voltar-se a qualquer divertimento ocioso e inoportuno que se lhe ofereça; se não procura recolher-se para O encontrar; se enfim não ama tratá-lO na intimidade, sem demora O há de perder e afastar de si. Pois a delícia do Espírito Santo é estar com quem ama estar com Ele. Espera esse divino hóspede que correspondamos ao seu amor, e por essa razão abandona as almas que, não tendo o cuidado de estar recolhidas a seus pés, preferem dissipar-se em distrações e esbanjar com fantasias e pensamentos inúteis o tempo precioso que deveriam passar com Ele.

Ó minh'alma, não é este o estado em que tantas vezes te encontras? Dentre as muitas coisas que de hora em hora ocupam-te a mente ao longo do dia, quantas são as proveitosas? quantas as que poderiam pensar-se na presença do Espírito Santo? Como então esperas que Ele permaneça contigo, se tu mesma introduzes tais companhias no cômodo que Lhe está reservado?

Considerai, em segundo lugar, que o Espírito de Deus, assim como não irá habitar numa alma que, deixando de recolher o pensamento, faz dEle pouco caso, tampouco o fará numa alma que não O serve com pureza de intenção e afeto. Ele, só, quer ser o dono do coração em que reside e não permitirá que ali se meta um intruso, pois é um amante ciumento que não tolera rivalidades. Ora, um coração que em seus afetos divide-se entre o Criador e a criatura repele o Espírito Santo: Ele não suportará qualquer divisão; Ele quer apoderar-se sozinho de todo o coração: ou Ele ou ninguém mais o possuirá inteiramente.

Cristãos, se de fato aspirais à felicidade de serdes templo do Espírito Santo, não ergais em vossas almas ídolo nenhum, porque são ídolos todos os afetos desordenados, já que por causa deles ao Criador preferis a criatura; e todos os afetos desse tipo são como redes lançadas aos vossos corações para os apartar de Deus. Tornai inocente o objeto do vosso amor, que deixa de sê-lo sempre que é amado sem a devida subordinação ao amor a Deus; ele torna-se impuro, corrompe o coração, espanta o Espírito de Deus, que não desce senão aos limpos de coração.

Considerai finalmente que, para mantermos o Espírito Santo presente em nossa alma, de modo que Ele deseje ali habitar como em seu templo, devemos não apenas manter limpo e imaculado este templo, pois "se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá" ( 1Cor 3, 17), mas ainda empenhar-nos em fazer dele uma casa de oração, como deve ser a casa de Deus. Temos de retirar-nos aí com frequência, para adorar em espírito e verdade o Espírito da Verdade. Temos de aplicar as três potências da alma — vontade, memória e inteligência — à tarefa de aí conversarmos na oração mental com o Deus que as criou; o culto a Deus, para o dizer numa palavra, deve ser constante neste seu templo. É esse o meio de O mantermos conosco e transformarmos nossas almas em remanso seu para sempre.

Disso tudo podeis concluir o quão proveitoso é lançar mão de todos esses meios, a fim de entreter essa visita soberana e como "fixá-la" na alma. Dai-Lhe a plena posse de vossa memória e entendimento, atendendo à sua presença com profundo recolhimento; deixai-O, pois, assenhorear-se de vossa vontade mediante a simplicidade de intenção e a pureza de coração e afeto; desse modo, Ele estará convosco para sempre.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

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Sobre os dons do Espírito Santo

Aprenda nesta meditação “o quanto se devem estimar esses dons celestes”, os dons do Espírito Santo, “dos quais o menor é ainda mais precioso do que tudo o que o mundo nos pode oferecer”.

Terça-feira na Oitava de Pentecostes

Sobre os dons do Espírito Santo

Considerai em primeiro lugar os dons preciosos que o Espírito de Deus traz consigo onde quer que se encontre, e os tesouros concedidos às almas em que Ele faz a sua morada. O profeta Isaías enumera sete dons admiráveis do Espírito Santo ao chamar-Lhe "Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de conselho e de fortaleza, Espírito de ciência e de piedade [...], Espírito de temor do Senhor" ( Is 11, 2s). Oh! quão preciosos e admiráveis são decerto esses dons! Oh! quão rica é a alma que toma posse de tais tesouros pela vinda do Espírito Santo!

Mas qual é a sabedoria concedida pelo Espírito Santo? Não é a sabedoria deste mundo, a qual não passa de tolice aos olhos de Deus, pois ela, ao mesmo tempo que se esquece do Senhor e da eternidade, não busca senão os bens terrenos e a satisfação dos desejos passageiros deste mundo. Tampouco é a sabedoria dos filósofos, que se ocupam do curso das estrelas e dos segredos da natureza, enquanto rejeitam procurar a verdade em sua fonte; eles, com efeito, não estão seriamente empenhados em conhecer nem a Deus nem a si mesmos. A única sabedoria digna desse nome é a que consiste no conhecimento e amor de Deus, a que tende continuamente para Ele e esforça-se por encontrá-lO em todas as coisas.

Considerai agora quão preciosos são os dons comunicados à alma pelo Espírito de Deus. O dom de entendimento, que abre os olhos da alma para a luz de Deus e fá-la contemplar as verdades divinas à sua luz própria; que lhe revela com clareza como são vãs e transitórias todas as honrarias deste séculos, as riquezas, os prazeres, e a convence assim de que nada é mais verdadeiramente digno de sua afeição do que os bens eternos. Com o auxílio dessa luz, o fim de nossa criação, a dignidade de uma alma imortal, a natureza de nossa peregrinação terrestre, os quatro Novíssimos, assim como outras tantas verdades cristãs, tudo isso lança raízes profundas na alma e exerce uma influência maravilhosa em nossas vidas.

E quando, como estrangeiros e viajantes cá embaixo, acossados por um sem número de fortes e astutos inimigos, somos compelidos a tomar o caminho que nos leva à verdadeira pátria, passando por muitas dificuldades e perigos, o Espírito de Deus vem em nosso socorro com dois outros dons admiráveis, a saber, o dom de conselho, para mostrar-nos o caminho, descobrir-nos os ardis dos inimigos e conduzir-nos sãos e salvos por todos os perigos, e o dom de fortaleza, também chamado "força e coragem celeste", para animar-nos a enfrentar as oposições mundanas, a carne e o demônio, e para ajudar-nos a sair vitoriosos de todas as batalhas. Oh! quão feliz é o peregrino que conta conta com tal guia, com tal conselheiro, con tão poderoso ajudante e protetor!

Considerai, em terceiro lugar, os demais dons que o Espírito Santo transmite à alma em que habita: o dom de conhecimento, que a educa e instrui em toda virtude, em todo dever, em cada passo que ela deve dar em direção a Deus e à vida eterna; o dom de piedade, que a torna fervorosa no serviço de Deus, de maneira que ela cresça em vigor e presteza no cumprimento de seus divinos Mandamentos; e, por fim, o dom de temor do Senhor, a que as Escrituras chamam "começo da sabedoria" (cf. Pr 9, 10), e que infunde na alma horror a tudo quanto ofende a Deus, fazendo-a temer mais o desagradá-lO do que qualquer outro mal. Acaso pode comparar-se com estes qualquer um dos tesouros da terra?

Concluí enfim o quanto se devem estimar esses dons celestes, dos quais o menor é ainda mais precioso do que tudo o que o mundo nos pode oferecer. Quão rica, pois, é a alma que deles saber tirar proveito, deixando-se acompanhar pelo Espírito de Deus, que é a fonte de todo bem e o único que nos pode comunicar dons tão excelentes.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

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Onde não está o Espírito de Deus, está Satanás

“Assim como nada pode ser mais ditoso que possuir o Espírito Santo em nossa alma, nada pode ser mais terrível do que estar sem esse divino Hóspede. Onde não está o Espírito de Deus, aí está Satanás.”

Segunda-feira na Oitava de Pentecostes

Da alegria de ter o Espírito Santo na alma

Consideremos, em primeiro lugar, com que ditoso hóspede se entretém a alma, quando tem dentro de si o Espírito Santo. Ele é chamado na Escritura de Paráclito ( Qui diceris Paraclitus), nome que significa, ao mesmo tempo, "consolador" e "intercessor": consolador, por causa das graças e consolações que Ele comunica à alma, tornando doces, em sua peregrinação mortal, todas as suas cruzes e trabalhos, e ajudando-a a superar todas as dificuldades e oposições; e intercessor, por suplicar para ela o espírito de oração, que Ele mesmo inspira, ensinando-a a rezar, agindo com ela e nela.

Ele é chamado o dom do Altíssimo por excelência ( altissimi donum Dei), o maior presente que Deus nos pode conceder. Afinal, o que pode Ele nos dar que seja maior do que Ele mesmo? Ele é dom que abarca, pois, todos os outros.

Ele é chamado de fonte viva ( fons vivus), ou fonte de água viva, jorrando para a vida eterna, revigorando o homem interior, amenizando o fogo da concupiscência, extinguindo toda sede pelas coisas deste mundo, e regando a alma com uma corrente perene de graças.

Ele é chamado de fogo ( ignis), pelas chamas vivas de amor com que incendeia a alma; de unção da alma (spiritalis unctio), por difundir com doçura a Si mesmo por toda a alma, dando-lhe força e vigor. Ó, que mais pode querer a alma que com um tal hóspede se entretém? Não se antecipa nela, em certa medida, a alegria do Céu, tendo dentro de si o Rei dos céus com todas as suas graças?

Consideremos, em segundo lugar, os frutos benditos que produz na alma a presença do Espírito Santo, tais como os enumera São Paulo (cf. Gl 5, 22-23) e ensina a Tradição da Igreja:

  1. A caridade — que abrange o amor de Deus, por sua própria bondade infinita, e o amor do próximo, em Deus e por Deus —, fruto tão notável nos primeiros cristãos depois que eles receberam o Espírito Santo, ao ponto de os Atos dos Apóstolos dizerem que, por seu amor a Deus, "a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma" (At 4, 32).
  2. A alegria, provinda do testemunho de uma boa consciência (cf. 2Cor 1, 12), bem como de percebermos a presença desse divino Hóspede, e experimentarmos a sua doçura.
  3. A paz com Deus, com nosso próximo e conosco mesmos, uma paz que não é concedida aos perversos.
  4. A paciência em suportar cruzes e adversidades, as quais torna leves e suaves este Espírito celeste.
  5. A benignidade, ou gentileza, em aliviar os aflitos.
  6. A bondade, que é como uma vontade de comunicar tudo que há de bom ao nosso próximo.
  7. A longanimidade, que é a disposição de sofrer com perseverança, sem desanimar, a fim de vencer o mal com o bem.
  8. A mansidão em conter a própria cólera e suportar injúrias.
  9. A fidelidade a todos os nossos compromissos, seja com Deus seja com nosso próximo.
  10. A modéstia, moderação em todas as coisas, regulando todo movimento seja do nosso corpo seja da nossa alma.
  11. A continência, que é temperança em refrear todas as nossas inclinações desordenadas.
  12. A castidade, que preserva seja o corpo seja a alma das impurezas da luxúria.

Ó que frutos felizes são estes! E quão feliz é a alma na qual o Espírito de Deus produz todos estes frutos! Ó alma minha, traz este Espírito celeste para dentro de tua casa interior, entretém-te aí com Ele, e todos estes frutos serão teus!

Consideremos em terceiro lugar que, assim como nada pode ser mais ditoso que possuir o Espírito Santo em nossa alma, nada pode ser mais miserável do que estar sem esse divino Hóspede. Onde não está o Espírito de Deus, aí está Satanás. E, ai de nós!, pode haver miséria maior que ser possuído por Satanás? "Se alguém não tem o Espírito de Cristo", diz o Apóstolo, "não pertence a Cristo." ( Rm 8, 9). Se não pertence a Ele, a quem pertence então? Que lugar poderia ele tomar no Corpo de Cristo ou no seu Reino?

Ó, quão verdadeiro é o que a Igreja canta nestes tempos, em sua súplica ao divino Espírito: Sine tuo numine, nihil est in homine, nihil est innoxium, isto é, sem a luz da divindade, nada há no homem, nada que seja inocente (em nossa tradução litúrgica: "Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele"). Temamos, pois, a miséria de ficar sem Ele, e fujamos de todos os males que O possam afastar de nós.

Não negligenciemos, por fim, nada que esteja em nosso poder, pelo qual devemos procurar para nossa alma a alegria de ser um templo do Deus vivo e de ter aí o Espírito Santo, não apenas como um visitante, mas fazendo morada definitiva em nós, tanto no tempo como na eternidade.

Por Dom Richard Challoner — Meditations | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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O Domingo de Pentecostes e a descida do Espírito Santo

Através da descida do Espírito Santo, os doze são “completamente transformados em outros homens” e, “de fracos e covardes que eram antes, tornam-se agora, de repente, corajosos e perfeitos”.

Nesta primeira meditação para a semana de Pentecostes, o bispo inglês Richard Challoner, do século XVIII, ajuda-nos a fazer um exame espiritual da primeira leitura de hoje, retirada dos Atos dos Apóstolos.

Através da descida do Espírito Santo, os doze são “completamente transformados em outros homens" e, “de fracos e covardes que eram antes, tornam-se agora, de repente, corajosos e perfeitos".

Domingo de Pentecostes

Da descida do Espírito Santo

Consideremos, em primeiro lugar, que na festa de Pentecostes, quando os discípulos estavam todos reunidos juntos, "de repente, veio do céu um ruído como de um vento forte, que encheu toda a casa em que se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia expressar-se" ( At 2, 2-4). Assim receberam eles o Consolador prometido, com todos os seus dons e graças. Assim foram eles completamente transformados em outros homens. De fracos e covardes que eram antes, eles se tornam agora, de repente, corajosos e perfeitos. Começam a pregar com audácia, a proclamar a fé e a lei de seu Senhor crucificado, e trazem milhares de pessoas para abraçá-las.

Ó Espírito celeste, quão maravilhosas são vossas obras! Ó quando realizareis semelhante transformação em minh'alma! Cristãos, louvai e bendizei o vosso Deus por enviar dessa maneira o seu Espírito Santo sobre sua Igreja, e por todas as maravilhas que ele operou em sua primeira fundação. Os israelitas observavam a solenidade de Pentecostes como uma das três principais festas do ano, porque nesse dia a antiga lei fôra publicada, do monte Sinai, em meio a relâmpagos e trovões. Quanto mais não devem os cristãos religiosamente observar essa solenidade, já que nesse dia, do monte Sião, a nova lei da graça e do amor foi publicada, com a descida do Espírito Santo em línguas de fogo.

Consideremos, em segundo lugar, que o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos em forma de línguas, significando que Ele veio para torná-los pregadores aptos da Palavra; veio para dotá-los com o dom de línguas, com a sabedoria celeste e a inteligência dos mistérios de Deus e de todas as verdades do Evangelho, a fim de que eles se tornassem capazes de ensinar e proclamar, por todo o mundo, a fé e a lei de Cristo!

E essas línguas eram de fogo, para mostrar como o Espírito divino age nessas almas: inflamando-as com o incêndio do divino amor; consumindo a escória de seus apegos mundanos; colocando nelas uma moção contínua de desejos e esforços sinceros por progredir, de virtude em virtude, assim como o fogo está sempre em movimento; e levando-as para o alto, em direção ao Deus dos deuses, na Sião celeste, assim como a chama está sempre se elevando para o alto. Ó fogo bendito, vinde e tomai posse de meu coração, consumi todos estes fios que o mantêm atado à terra e levai-o convosco, rumo à fornalha celeste donde viestes! Ó doce Jesus, Vós que dissestes: "Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso" (Lc 12, 49), lançai este fogo dentro de minh'alma, para que aí ele fique aceso!

Consideremos, em terceiro lugar, que a vinda do Espírito Santo foi uma graça prometida não apenas aos Apóstolos e cristãos dos primeiros séculos, mas ao povo de Deus através de todas as eras. "Eu pedirei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, que ficará para sempre convosco: o Espírito da Verdade" ( Jo 16, 17). Ele foi destinado a estar para sempre: com os pastores da Igreja de Deus, conduzindo-os à plena verdade, ao ensinar o povo de Deus; e com as ovelhas de Cristo, conduzindo-as em sua fé e em sua vida, e sendo a fonte de toda graça para suas almas. Sendo assim, ainda que agora não mais devamos procurar a descida visível do Espírito em línguas de fogo, nós estamos no entanto habilitados, se sinceramente O procuramos e recorremos a Ele, a esperar uma participação em suas graças e comunicações invisíveis, e a aspirar à honra e à alegria de sermos templos dEle.

Cristãos, que alegria não é, de fato, ter o Espírito de Deus em nós! A isto nós todos devemos aspirar com todas as nossas forças! É esta a grande devoção deste tempo santo! Por isto nós devemos suplicar em todos os momentos!

Concluamos, enfim, com este humilde pedido da Igreja ao divino Espírito: "Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor", ou com aquele outro do hino sacro: "Ó vinde, Espírito Criador, as nossas almas visitai e enchei os nossos corações com vossos dons celestiais." Repitamos com frequência essas orações e outras semelhantes, e confiemos na infinita bondade dAquele que se deleita em estar entre os filhos dos homens, vindo até eles e fazendo neles a sua morada.

Por Dom Richard Challoner — Meditations | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Novena de Pentecostes 9º dia - A inteligência e a sabedoria

Neste mundo, a compreensão dos mistérios da fé está totalmente voltada ao Amor.

No último dia de nossa novena, falaremos dos dons mais elevados do Espírito: a inteligência e a sabedoria.

Estes dons estão ligados ao fato de que nós, pela fé, ainda temos um conhecimento limitado de Deus. É a inteligência que nos dá a conhecer mais profundamente os mistérios da fé, diferentemente da ciência, que, como vimos, nos ajuda a perscrutar as realidades naturais. É possível perceber a sua ação quando, por moção da graça, em um momento específico de oração ou de escuta da Palavra de Deus, as realidades eternas de algum modo se abrem ante nossos olhos, fazendo-nos contemplar a grandeza do Amor.

É importante destacar que, neste mundo, a compreensão dos mistérios da fé está voltada justamente para o Amor. Quanto mais conhecemos a Deus, mais podemos amá-Lo. Quando, pela visão beatífica, contemplarmo-Lo face a face, conheceremos completamente, como somos conhecidos (cf. 1 Cor 13, 12), e esse conhecimento nos divinizará de tal modo que nosso amor estará totalmente em sintonia com o amor divino. Por isso, diversamente do que acontece aqui, no Céu, a faculdade de nossa inteligência será superior à da vontade.

Para aperfeiçoar a virtude da caridade, é necessário o dom da sabedoria. Do latim sapere, tem que ver com “saborear". Assim, por este dom, somos capazes de “sentir o gosto" das coisas divinas. Entramos de tal modo no conhecimento dos mistérios de Deus que ele, de algum modo, se torna operativo no amor.

Por isso, quando acontecem tragédias e crises na vida das pessoas, o sábio é capaz de enxergar nessas situações a mão providente do Senhor. Trata-se do sopro divino que transforma as tribulações em ocasiões extraordinárias para amar a Deus... e abraçar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Com efeito, diz o Apóstolo, “nós (...) proclamamos Cristo crucificado, (...) loucura para os pagãos" (1 Cor 1, 23). O caminho da Cruz não é a exceção, mas a regra. Os santos, mesmo sentindo o drama do sofrimento – afinal, o próprio Cristo suou sangue no Monte das Oliveiras (cf. Lc 22, 44) –, conformavam-se à vontade de Deus, pois, pela sabedoria, eram capazes de enxergar nela o Seu amor e a Sua bondade.

Também nós somos chamados a seguir as pegadas dos santos, fortalecendo a nossa amizade com Deus, mais valiosa que todo o mundo natural. Para tanto, urge pedirmos ao Espírito Santo as graças atuais necessárias para amá-Lo e servi-Lo de todo o coração. Ao fim da caminhada, cremos poder repetir com o Apóstolo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20).

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Novena de Pentecostes 8º dia - A ciência, a fortaleza e o conselho

Como os dons do Espírito Santo iluminaram a vida dos santos e mártires da Igreja

Hoje, ainda sobre os dons do Espírito Santo, falaremos, sobre a ciência, a fortaleza e o conselho.

O dom da ciência permite-nos enxergar a realidade das coisas, de modo sobrenatural. Pelo pecado original, corremos o perigo de cair em uma ilusão, não enxergando a realidade como ela é de fato. Então, Deus sopra na vela da ciência, a fim de olharmos as coisas como elas são. Neste dom, há um lado positivo, que é enxergar nas criaturas as pegadas do Criador, como fez São Francisco de Assis, e um lado negativo, que é olhar para o mundo criado e perceber o quanto tudo é vazio e sem sentido sem a presença de Deus.

Os santos, impulsionados pelo dom da ciência, também conseguiam enxergar a gravidade do pecado, em todo o seu horror. Não tinham essa percepção por conta de um “complexo de culpa" – afinal, estavam em estado de graça e já tinham sido perdoados por seus pecados –, mas pelo grande amor que tinham para com Deus.

O dom da fortaleza é um aperfeiçoamento da virtude da fortaleza. Nesta, é a pessoa que tem a coragem de enfrentar os males com a graça cooperante de Deus; naquela, é Deus quem passa a ser forte nela, operando diretamente em sua alma. Sem dúvida, os mártires, como Santa Inês e Santa Maria Goretti, só conseguiam entregar a sua vida por causa deste dom. A debilidade humana não poderia justificar tamanho destemor. Pode-se dizer, então, que é verdadeiramente Cristo quem morre nos mártires.

Para descobrir o ponto de equilíbrio da fortaleza, surge o dom do conselho, que é um aperfeiçoamento da virtude da prudência. Por esta, somos capazes de discernir o modo certo de agir. No entanto, a própria virtude infusa é insuficiente para julgar tudo. Por isso, o Espírito vem em nosso socorro, atentando-nos à advertência de Cristo: “Sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas" (Mt 10, 16).

Quando rezamos e recebemos uma inspiração divina dizendo para onde devemos ir, é o Espírito soprando na vela do conselho, a fim de iluminar as nossas decisões.

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