| Categorias: Doutrina, Sociedade

A castidade é para os idiotas?

Através da graça, os castos participam na comunhão do homem com Deus. Isso não é uma forma apenas de ganhar o Céu, mas de vivê-lo aqui e agora. Só um mundo ao avesso consideraria isso uma coisa para idiotas.

A castidade, que já foi considerada uma virtude, é tida nos dias de hoje como uma coisa para idiotas. Os que querem acabar com ela descrevem seu fim como uma vitória da vida e do amor. Mas a verdade é justamente o oposto disso.

Um mundo impuro é um mundo morto e absorvido pelo egoísmo. Ao subordinar a natureza procriativa do sexo a propósitos recreativos, uma sociedade incasta vai sempre produzir filhos indesejados: em um lugar assim, o aborto não é opção, mas uma solução necessária. O "direito" que as pessoas recém descobriram de viver a própria sexualidade não pode ser livremente exercido sem que se afaste o direito dos filhos à vida. Que esses direitos sejam incompatíveis, deveria ser algo a acender-nos o alerta: algo errado está a se passar.

Não que viver a nossa sexualidade não seja, de fato, o mais básico dos direitos: perseguir esse caminho significa buscar a própria vida. Mas esses direitos, e a vida para a qual conduzem, não estão baseados em desejos eróticos, senão na verdadeira natureza de nossa sexualidade. Por isso, viver a castidade significa redimir a própria sexualidade, dando-lhe verdadeiro sentido e restaurando o direito que toda criança tem à vida e ao amor.

Para entender tudo isso, é necessário resgatar a sexualidade indefinida de hoje das nuvens sempre inconstantes do desejo, restaurando o seu significado objetivo. Independentemente da espécie, a nossa natureza sexual pertence, por definição, à biologia da criação da vida. Atos aparentemente sexuais que contrariem, portanto, a sua natureza inerentemente procriativa, não são atos sexuais de verdade. Isso incluiria tanto a relação sexual com contracepção, quanto atos intrinsecamente inférteis, tais como a sodomia e a masturbação. Sem abertura para a propagação da vida, atos assim não passam, na verdade, de aberrações da sexualidade. Considerá-los de outra forma significaria separar a sexualidade de uma definição ou sentido. Só apartada dessas aberrações a sexualidade pode ter restaurado o seu papel criador de vida. Olhando para a vida biológica, percebemos que nossa sexualidade é ao mesmo tempo procriativa e unitiva: é essa combinação inseparável que nos distingue do reino animal e nos torna verdadeiramente humanos.

A sexualidade se torna unitiva quando aceita a sua natureza procriativa. Ao aceitar a responsabilidade do poder de criar vida, o "eu" dá lugar ao "nós". Olhando para o filho que pode gerar, o homem verá cada mulher como uma mãe daquele filho. Ele verá a necessidade que ela tem de ser amada como mulher, como mãe. Um homem ama todas as mulheres quando leva uma vida que ajuda cada mulher a experimentar a maternidade no momento e no lugar certos. Amando toda mulher, então, ele ama toda criança, vendo a necessidade que todas as crianças têm de pais que se amem, uns aos outros, pela vida. Assim, também toda mulher deve ver, em cada homem, um pai e, por trás de cada homem, uma criança. Sem esse reconhecimento mútuo do potencial para serem pais e mães, a natureza inerentemente unitiva de nossa sexualidade se perde. É a procriação que produz a união.

Quando o ato sexual é designado como ato conjugal, fica reconhecida essa unidade inseparável. Uma vida casta honra essa definição, direciona-se propiciamente à formação de uniões matrimoniais e requer que vivamos interligados como homens e mulheres, como pais e mães em potencial. Na realização plena de nossa sexualidade, nós acolhemos toda criança ainda por nascer como digna do nosso amor. A castidade não é a vocação apenas de homens e mulheres solteiros, mas de todos os homens e mulheres. A meta para todos é ter filhos que sejam gerados no amor. Viver castamente é participar na alegria de cada criança que é concebida.

Isso não é abstinência, mas um chamado ao êxtase. Em Deus Caritas Est, Bento XVI nos fala do êxtase "não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus". A castidade é um ato de comunhão que traz todos os homens e mulheres para a união com Deus e para a alegria da própria criação. Sua natureza unitiva reúne todas as coisas em uma comunhão de amor, não simplesmente do homem e da mulher, mas a comunhão última com o próprio Céu, aqui e agora. Chamar isso de mera abstinência é um reducionismo absurdo.

No entanto, o absurdo reina nos dias de hoje. Ao mesmo tempo em que condena a castidade como um fardo arcaico, a Revolução Sexual segue condenando as pessoas à escravidão e à morte. Aborto, crianças abandonadas e famílias destruídas não são meros acidentes, mas o resultado natural de uma sexualidade separada de sua natureza criadora. O estilo de vida que se propaga não é estilo de vida coisa nenhuma, senão "estilo de morte", uma rejeição da vida. Oferece um paraíso falso de autorrealização, ao mesmo tempo em que destrói a comunhão do "nós" em favor do grito de guerra do "eu". Atrás do falso paraíso mora o inferno do egocentrismo. A Revolução Sexual é simplesmente um convite para começar a viver o inferno aqui e agora.

E a resposta a essa falsa sexualidade chama-se castidade: o único e verdadeiro estilo de vida, voltado para a vida. A maioria de nós, no entanto, vê a castidade como uma vida de negação. Talvez o problema não esteja com a castidade, no fim das contas, mas com o modo como a enxergamos. O mau ladrão provocou Jesus na cruz: "Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e também a nós!" Só o que ele via era a dor sem propósito algum. Mas, olhando para o mesmo homem pendendo da mesma cruz, o bom ladrão viu, além da dor, o próprio paraíso: "Senhor, lembra-te de mim…" Um ladrão viu Jesus sem a graça. O outro viu Jesus através da graça. Da mesma forma, nós podemos ver a vida casta sem a graça, como uma dor sem propósito, ou podemos vê-la através da graça, como um convite para participar na alegria da criação. O primeiro olhar diminui e amarga, enquanto o segundo nos atrai para o Céu, um Céu que se estende por toda a eternidade.

A escolha entre o Céu e o inferno está bem diante de nós. Hoje nós enfrentamos uma escolha entre um estilo de vida que rejeita a vida e um que a abraça. A castidade rejeita o inferno narcisista da falsa sexualidade e preenche o Céu vinculado à natureza da verdadeira sexualidade. Através da graça, os castos participam na comunhão do homem com Deus, vivendo a sua sexualidade radicalmente e no êxtase da entrega de si mesmo. Isso não é menos, é mais. Não é uma forma apenas de ganhar o Céu, mas de vivê-lo aqui e agora. Só um mundo ao avesso consideraria isso uma coisa para idiotas.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

| Categoria: Sociedade

Como a Revolução Sexual arruinou a amizade

É difícil para as pessoas cultivarem amizades quando imagens de pessoas nuas pululam em seus cérebros com toda a fixação de um viciado em crack.

Por Jonathon Van Maren | Tradução: Equipe CNP — O panorama cultural de nosso século XXI está repleto de vítimas da Revolução Sexual, ainda que você tenha escutado exclusivamente suas armas propagandistas, a mídia e a academia, e provavelmente pense que todo o experimento tenha sido uma maravilha. A terra dos "não-homens", como resultado da "guerra dos sexos", está coberta com dúzias de novas doenças sexualmente transmissíveis, cérebros saturados com o crescimento da pornografia, casamentos desfeitos e futuros aniquilados.

Uma das vítimas da Revolução Sexual, porém, é significativa: a amizade.

É uma ironia da modernidade que as elites seculares acreditem ser perfeitamente razoável supor que a humanidade tem a habilidade de mudar o clima ou acabar com a pobreza, mas é incapaz de manter-se dentro de suas calças. Nós podemos fazer qualquer coisa, se nós nos focarmos nisso — exceto, é claro, pararmos de cair numa piscina de paixão primitiva no momento em que somos apresentados a uma oportunidade de (des)aventura sexual. Isso porque a "abstinência", informam-nos os gurus da Revolução Sexual, é "irrealista". Portanto, toda amizade é agora suspeita — amizade entre pessoas de sexo diferente especialmente, é claro, mas não só essa, certamente. Isso não é meramente uma observação minha. Muitos dos meus amigos, de várias classes sociais e visões de mundo, têm feito a mesma reclamação. "Amigos? Sei...", sugerem maliciosamente as pessoas, se você começa a passar o que elas consideram ser uma significativa quantidade de tempo com alguém... "interessante".

A cultura pop confirma e acentua essa nova concepção. Notem bem: quase todo seriado na TV tem os personagens deitando-se na cama um com o outro, como se isso fosse simplesmente uma questão de tempo para o alarme indicar que o período da "amizade" acabou e que o dos "amigos com benefícios" pode agora prosseguir. Na verdade, o esmagador hit da NBC nos anos 1990, o sitcom Friends, tinha quase todo personagem dormindo com o outro em algum momento. Neste ponto, o sexo é de pouca importância, e os velhos e nostálgicos hippies professores de história e de literatura aplicam retroativamente uma motivação sexual para cada expressão de amor e afeto que encontram. Desde Abraham Lincoln dividindo a cama com um amigo (como eles poderiam não ser gays?), passando pela antiga amizade do israelita rei Davi com Jonathan, até as linhas aparentemente homossexuais dos sonetos de Shakespeare, tudo agora é suspeito.

A noção de que "intimidade" necessariamente significa "relação sexual" — o que, obviamente, não é verdade — é um daqueles extraordinários reducionismos acerca da pessoa humana. A ideia de que dois seres humanos não podem dividir uma proximidade pessoal e uma relação significativa sem qualquer componente sexual pressupõe que o ser humano, em todas as suas gloriosas e bagunçadas complexidades, não pode estar interessado em ninguém sem tentar obter algo — e algo físico — dele. Pressupõe que amigos verdadeiros, amigos que dividem uma base comum para discutir sobre vida, liberdade e busca da felicidade, vão, ao final do dia, calcular o valor dessa amizade e trocá-la por um prazer físico fugaz, independentemente do custo. Pressupõe que o físico sempre vencerá o cérebro e o intelecto no julgamento moral que as pessoas fazem.

Essa atitude é estúpida, ofensiva, imoral e, penso, incrivelmente intolerante, na medida em que lança um pano de suspeita sobre muitos relacionamentos que nos tempos passados seriam considerados perfeitamente comuns. Embora, de modo especial, a Revolução Sexual tenha nos roubado muito do que é o tesouro de um longo matrimônio, a amizade ocupa quase o topo das perdas. Como escreveu C. S. Lewis, "a amizade não é necessária, como a filosofia e a arte… ela não tem nenhum valor de sobrevivência; ao contrário, é uma daquelas coisas que dá valor à sobrevivência".

Isto não quer dizer, obviamente, que a amizade não tem necessidade de limites (especialmente amizades de sexo diferente). Mas, como uma amiga minha mulher disse, talvez nossa cultura tenha "matado a amizade porque nós estamos tão fixados em sexo que terminamos por negligenciar ao invés de cultivar as amizades de quem talvez precise de nossa ajuda em tempos difíceis — e eles talvez não estejam nem aí para nós no futuro, quando precisarmos deles, porque nós estamos tão supersexualizados que tudo o que nos interessa é alimentar nossos prazeres sensuais". As estatísticas nos dizem que 64-68% dos homens e 19% das mulheres veem pornografia toda semana. É difícil para as pessoas cultivarem amizades quando imagens de pessoas nuas pululam em seus cérebros com toda a fixação de um viciado em crack. E quando você passa uma boa parte da sua noite programando o seu cérebro para ver as pessoas como objetos, torna-se substancialmente mais difícil voltar para o mundo real, com pessoas reais, durante o seu dia.

Como já escrevi antes, amizade duradoura é uma daquelas coisas que fazem a vida ser uma jornada extraordinária. Não é só pelo caminho que você está trilhando; é pelas pessoas que você convidou para lhe acompanhar. Elas estão lá porque você as quer lá, e por nenhuma outra razão que não seja a alegria da sua companhia. Se você as quer lá para ter algo delas, então não é verdadeira amizade. C. S. Lewis notou que "aqueles que não podem conceber a amizade como um amor substancial, mas apenas como um disfarce ou uma elaboração do Eros, traem o fato de que nunca tiveram um amigo". E que suposição terrível e reducionista é ver as pessoas desfrutando da companhia um do outro e assumir que a única coisa que eles têm para oferecer uns aos outros são favores sexuais. Não comprem as mentiras cuidadosamente propagandeadas pela hipersexualizada cultura pop e pornográfica. Para mim, a paisagem "liberal" que eles divulgam parece um abismo e um lugar solitário.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

Holanda “arrependida” com legalização da maconha e da prostituição

A Holanda está custando para aprender que a liberdade, mesmo constituindo um bem em si mesmo, de nada serve quando não há preocupação em buscar a verdade e fazer o que é correto.

A Holanda é, reconhecidamente, um dos países mais liberais do mundo. Contudo, dois itens de sua cartilha progressista estão sendo pouco a pouco questionados e revistos por sua população: trata-se da descriminalização do uso da maconha, que aconteceu em 1976, e do reconhecimento da prostituição como profissão legalizada, em 2000.

Está comprovado que ambos os comércios movimentam muito a economia do país. Os coffee shops que vendem maconha e os chamados "distritos de luz vermelha" — assim chamados pela forte presença de casas de prostituição —, trazem todos os anos 2,5 bilhões de euros para a economia nacional. Cálculos oficiais apresentados pela agência Reuters estimam que as duas indústrias representam 0,4% do produto interno bruto, um número "levemente menor que o consumo total de pão e provavelmente um pouco maior que o consumo total de queijo", de acordo com um instituto de estatísticas.

A situação de um país, no entanto, não se resume a índices econômicos. Diferentemente do que pensavam Karl Marx e pensadores com uma visão da antropologia e da história notoriamente reducionistas, "não só de pão vive o homem". O ser humano não se reduz "ao ventre, ao sexo e ao dinheiro". Ainda que movimente o turismo e a economia, as consequências humanas da legalização das drogas e da prostituição estão fazendo com que as autoridades e a população da Holanda repensem seriamente suas políticas sociais.

Para entender o porquê dessa reviravolta, é preciso compreender os efeitos negativos das decisões que esse país tomou em seus "anos rebeldes". Em uma reportagem de 2008, intitulada "Mudanças na vitrine", a revista Veja pinta um retrato interessante dos Países Baixos em meados da última década, do qual vale a pena fazer alguns recortes.

Em relação às drogas, o jornalista Thomaz Favaro explica que:

"A tolerância em relação à maconha, iniciada nos anos 70, criou dois paradoxos. O primeiro decorre do fato de que os bares podem vender até 5 gramas de maconha por consumidor, mas o plantio e a importação da droga continuam proibidos. Ou seja, foi um incentivo ao narcotráfico. O objetivo da descriminalização da maconha era diminuir o consumo de drogas pesadas. [...] O problema é que Amsterdã, com seus coffee shops, atrai 'turistas da droga' dispostos a consumir de tudo, não apenas maconha. Isso fez proliferar o narcotráfico nas ruas do bairro boêmio. O preço da cocaína, da heroína e do ecstasy na capital holandesa está entre os mais baixos da Europa."

Como resultado, entre 2002 e 2006, as prisões por posse ou comércio de drogas ilegais cresceram 21% na Holanda. Além disso, de acordo com The Washington Post, "a ausência de meios legais para que os coffee shops obtenham Cannabis tem sublinhado a sua associação com o crime organizado".

Quanto à prostituição, Amsterdã tem uma relação de 14 prostitutas para cada 1000 habitantes, quatro vezes mais que em Paris, e o tráfico de mulheres aumentou 260% nos primeiros três anos da legalização dos bordéis. Ainda de acordo com a reportagem de Veja,

"Nos últimos vinte anos, a gerência dos prostíbulos saiu das mãos de velhas cafetinas holandesas para as de obscuras figuras do Leste Europeu, envolvidas em lavagem de dinheiro e tráfico de mulheres. Boa parte dos problemas é conseqüência do excesso de liberalidade. O objetivo da legalização da prostituição foi dar maior segurança às mulheres. Como efeito colateral houve a explosão no número de bordéis e o aumento na demanda por prostitutas. Elas passaram a ser trazidas — nem sempre voluntariamente — das regiões mais pobres, como a África, a América Latina e o Leste Europeu."

O que pretendia "dar maior segurança às mulheres", portanto, acabou se revelando um verdadeiro prejuízo para elas. "Ao invés de confinar os bordéis a uma discreta (e evitável) parte da cidade, a indústria do sexo se espalhou por toda a Amsterdã, incluindo o meio da rua", escreve Julie Bindel para o The Spectator. "Ao invés de receberem direitos no 'ambiente de trabalho', as prostitutas descobriram que os cafetões são tão brutais como sempre foram."

Está ruindo, enfim, a "permanente Woodstock" que algumas pessoas se iludiam tentando construir. Os Países Baixos aprenderam via ardua que, definitivamente, não se melhora uma sociedade simplesmente aumentando — ou estendendo indevidamente — a liberdade de seus cidadãos. Embora constitua um bem em si mesmo, o valor liberdade de nada serve quando não há preocupação em buscar a verdade e fazer o que é correto. O homem é tragicamente livre até para abusar dos bens que Deus lhe deu.

É evidente que o problema da Holanda não está nem nas drogas nem no sexo — sem eles, não haveria nem farmácias para curar as enfermidades nem famílias para repor a população do mundo —, mas no que as pessoas estão fazendo delas. Corruptio optimorum pessima: quando satisfazem tão somente os seus instintos mais baixos, esquecendo que foram dotados de inteligência e vontade e criados para a grandeza do Céu, os seres humanos descem mais baixo do que os animais. Que a Holanda — e com ela todo o mundo — acorde finalmente para o grande pecado em que está atolada e transforme as profundezas de seu inferno em profundidade de penitência: "Das profundezas eu clamo a vós, Senhor, escutai a minha voz..." (Sl 129, 1-2).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

Progresso ou engenharia: como os meios de comunicação mudaram a moral

Novelas, filmes e noticiários são produzidos com o único fim de alterar a moral social e obter dinheiro fácil para os grandes estúdios.

A virgindade virou peça de museu. Ao menos, é o que dizem certas vozes da mídia, em nome de um suposto progresso humano e social. Esses dias mesmo, em um badalado programa de TV, os apresentadores discutiam com seus convidados como a sociedade teria "evoluído" desde a época em que se acreditava que toda pessoa deveria ser virgem antes do casamento. É verdade que, numa época dominada pela influência da revolução sexual e do dinheiro, falar de castidade soa antiquado. Infelizmente, o número de casais de namorados sexualmente ativos é muito grande. Mas isso em nada justifica a relação absurda que se costuma fazer entre liberdade sexual e progresso. Essa mudança de comportamento tem outras raízes.

A Igreja celebra nestes dias a memória litúrgica de uma grande mártir, cujo heroísmo na luta para preservar a própria pureza serve de exemplo para nossos dias, tão marcados pelo hedonismo. Maria Goretti era uma simples camponesa italiana, filha de pais pobres e a terceira de seis filhos. Desde cedo, graças ao exemplo de sua família, mostrou-se piedosa e dedicada à religião. Com apenas 11 anos de idade, teve de enfrentar a fúria do homem escravo do pecado. Alessandro Serenelli, à época, com 20 anos, aproveitando-se de uma ocasião em que Maria se achava sozinha em sua casa, quis forçar a menina a ter relações sexuais com ele. Maria recusou-se, obviamente, e disse ao rapaz: "Não! É um pecado! Deus não gosta disso". Ao perceber que nada conseguiria da pequena santa, Alessandro Serenelli golpeou-a 11 vezes com uma adaga.

Maria Goretti chegou a ser socorrida e ir para o hospital, mas não resistiu aos ferimentos. Antes de falecer, porém, perdoou seu assassino, dizendo que gostaria de vê-lo no céu. Alessandro Serenelli foi condenado a 30 anos de prisão. Arrependido, pediu perdão aos pais da vítima, após ter sonhado com a santa. Em 24 de junho de 1950, na presença dos familiares e, mais surpreendente ainda, de Alessandro Serenelli, Pio XII canonizou a humilde mártir, chamando-a de a "Santa Inês do século XX", por causa da semelhança entre o martírio das duas. Ambas deram a vida pela castidade. Entre tantas palavras comovedoras, o Papa exortou o orbe católico a "não ceder ante a sedução do vício, mas antes a combater com alegria (...) para alcançar aquela perfeição cristã de bons costumes, que todos podemos atingir com a força de vontade, ajudada com a graça divina" [1].

É claro que um crime hediondo como esse, do qual Santa Maria Goretti foi vítima, é capaz de horrorizar qualquer pessoa, seja cristã ou não. Basta pensar na comoção nacional, gerada recentemente pelo estupro coletivo ocorrido no Piauí, para afastar qualquer dúvida. O estupro não é simplesmente um atentado contra algum preceito religioso. É um atentado contra a dignidade do ser humano. E é isso o que o torna tão odioso aos olhos da humanidade. Ocorre, no entanto, que o poder de uma boa propaganda, sob a força de sofisticados mecanismos de manipulação, pode tornar até mesmo o estupro uma coisa atraente. Falamos aqui há poucos meses da "cultura do estupro", que vem se desenvolvendo ano após ano, sobretudo entre a juventude, graças a filmes como Cinquenta tons de cinza e outros congêneres igualmente bizarros. É exatamente essa cultura — orgulhosa pela inversão de valores que há anos promove no seio da sociedade — a responsável por tornar a virgindade um tabu e a liberdade sexual uma conquista.

O cinema, a televisão, os jornais e tantos outros meios de comunicação — embora sejam, de maneira geral, extremamente úteis, como já reconheceu a Igreja em inúmeras oportunidades — têm prestado um enorme desserviço à população, a pretexto de um novo padrão de comportamento [2]. Notem: Quais personagens de filmes, novelas ou séries, hoje em dia, promovem, com suas atitudes, aquelas virtudes necessárias ao bem comum? É difícil dizer. Praticamente todos fundamentam suas vidas em projetos de vingança, golpes, traições e divertimento sexual. Não há mais uma linha clara entre o bem e o mal. Ao contrário, há apenas uma parte do jogo: o mal. Por outro lado, personagens ligados a virtudes como castidade, bondade e pureza são caracterizados de maneira ridícula e boba, no intuito de nutrir o desprezo do público por esses ideais. Assim funciona. Aquilo que habitualmente se chamava de "sétima arte", na verdade, não passa de um empenho de engenharia social e busca por dinheiro. A verdadeira arte, com raras exceções, passa bem longe — algo que há muito tempo já notara o Papa Pio XI [3]:

Enquanto a produção de figuras realmente artísticas, de cenas humanas e ao mesmo tempo virtuosas exige um esforço intelectual, trabalho, habilidade e também uma despesa grande, é relativamente fácil provocar certa categoria de pessoas e de classes sociais com representações que excitam as paixões e despertam os instintos inferiores, latentes no coração humano.

Na mosca! Comparem quanto tempo levou para J.R.R. Tolkien escrever a obra-prima O Senhor dos Anéis e o tempo gasto pela senhora E.L. James para produzir o lixo sadomasoquista sobre Christian Grey. É muito mais fácil seduzir as massas com algumas cenas de nudez e sexo, que motivá-las, por meio de personagens bem construídos, a guardar a castidade, pedir perdão, lutar pelo céu etc. E como tudo tem o seu preço, o resultado é uma sociedade imbecilizada pelo vício, incapaz de reagir com honestidade às contrariedades e provações do cotidiano. Grande parte dos jovens universitários, por exemplo, imagina-se dentro de um daqueles filmes bobocas de colegiais americanos, onde reina o sexo livre e a bebedeira. Poucos se veem em uma instituição de ensino superior. Dão testemunho disso as famosas cervejadas e trotes que, dia sim dia também, costumam sair com algum escândalo nos noticiários do país.

É um engano terrível creditar as mudanças morais das pessoas simplesmente ao espírito do tempo (o Zeitgeist), como se estivéssemos, irreversivelmente, fadados à perversão dos costumes e da lei natural. Não sejamos tolos. Por trás de cada filme, série e notícia, existe uma equipe altamente especializada, capaz de usar os mais variados recursos da comunicação, para induzir o povo à sua pauta. Quem conhece o mínimo de Teoria da comunicação já ouviu falar sobre as técnicas de agendamento de notícias, a fim de produzir uma única consciência coletiva. Noticia-se somente aquilo que convém ao grupo no poder. Percebam: toda essa campanha em torno da causa gay, diga-se de passagem, está alicerçada em um grande esquema publicitário. Mesmo vozes da imprensa secular já denunciaram essa artimanha. Famílias naturais são apresentadas de maneira problemática, com traições, divórcios e brigas constantes, ao passo que os relacionamentos homossexuais são escritos cuidadosamente para conquistar a opinião pública. Isso a doses homeopáticas, a fim de que a audiência não perceba. Trata-se de um programa de projeção e identificação, como explica o teórico Edgar Morin [4]:

O leitor ou o espectador, ao mesmo tempo em que libera fora dele virtualidades psíquicas, fixando-as sobre os heróis em questão, identifica-se com personagens que, no entanto, lhe são estranhas, e se sente vivendo experiências que contudo não pratica.

Não vamos insistir aqui em boicotes a determinados filmes, marcas ou canais de televisão. Sejamos francos. O problema já se tornou tão grave que levantar cruzadas santas seria flertar com o ridículo. O que defendemos — e com muita esperança — é o apostolado pessoal, em que cada cristão, por meio de seu testemunho — ora por atos, ora por palavras —, desperte a consciência das pessoas à sua volta para a verdadeira vocação do ser humano: a santidade. Isso, sim, é eficaz. O exemplo de um casal de namorados que busca, a cada dia, viver a santidade em seu relacionamento é muito mais convincente que qualquer propaganda. Aos poucos, as pessoas irão perceber a miséria oferecida por esses programas de TV e, como o filho pródigo, voltarão para a casa do Pai. O boicote ocorrerá naturalmente. Mas é preciso o apostolado; um grupo de verdadeiros cristãos que "enfrente e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta" [5].

E esse apostolado é missão sua, leitor.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Homilia de Pio XII na missa de canonização da Beata Maria Goretti.
  2. Concílio Vaticano II, Decreto Inter Mirifica sobre os meios de comunicação social (4 de dezembro de 1966); Pontifício Conselho para a Comunicação Social, Ética nas comunicações (4 de junho de 2000); Documentos do Pontifício Conselho para a Comunicação Social.
  3. Pio XI, Carta Encíclica Vigilanti Cura (29 de junho de 1936), n. 14.
  4. MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: O Espírito do tempo. Rio de Janeiro: Forense, 1967, p. 82.
  5. JOSEMARÍA ESCRIVÁ, Caminho. Trad. port. de Alípio M. de Castro. 9.ª ed., São Paulo: Quadrante, 1999, n. 121, p. 59.