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Vivamos a Oitava de Pentecostes!
Liturgia

Vivamos a Oitava de Pentecostes!

Vivamos a Oitava de Pentecostes!

Em 1970, ao ver abolida a Oitava de Pentecostes, o próprio Papa Paulo VI teria chorado… Verídica ou não a história, este pode ser um bom ano para intensificarmos essa Oitava como prática devocional, apesar de sua supressão litúrgica.

Pe. Raymond J. de SouzaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Há cinquenta anos, o Papa São Paulo VI chorou. Assim diz a tão difundida — mas não confirmada — história sobre o dia em que o Papa Paulo VI foi até a sua capela privada para celebrar a Santa Missa na segunda-feira depois do Pentecostes. Ele ficou surpreso ao ver que estavam separados para ele os paramentos verdes para o Tempo Comum, em vez dos vermelhos usados na Oitava de Pentecostes.

O Papa ficou assustado, e o cerimoniário de plantão relatou que a Oitava havia sido abolida. Desconcertado, o Pontífice quis saber quem havia feito aquilo.

“O senhor, Santidade”, respondeu o cerimoniário. E o Santo Padre chorou.

Giovanni Battista Montini, o Papa Paulo VI, governou a Igreja de 1963 a 1978.

Independentemente da veracidade dessa história, a perda da Oitava de Pentecostes é motivo de tristeza. Depois de cinquenta anos, as lágrimas têm pouca serventia. É melhor compreender por que ela é importante e o que pode ser feito a esse respeito.

A oração pública da Igreja tem aspectos litúrgicos e devocionais. Algumas partes da Tradição são uma combinação de ambos — como a “primeira novena” entre a Quinta-feira da Ascensão e o Domingo de Pentecostes ou, mais recentemente, a novena da Divina Misericórdia, que começa na Sexta-feira da Paixão e continua ao longo da Oitava de Páscoa.

Este pode ser um bom ano para intensificarmos a prática devocional da Oitava de Pentecostes, apesar de sua supressão litúrgica em 1970. Nos últimos anos, tem crescido o interesse por ela, uma consequência positiva do “enriquecimento mútuo” desejado por Bento XVI entre as formas ordinária e extraordinária do Rito Romano. Neste ano em que a vida devocional substituiu em grande medida a vida litúrgica, seria muito conveniente observar a Oitava de Pentecostes com orações diárias e devoções ao Espírito Santo

As Oitavas são muito respeitadas na Tradição da Igreja. Elas ampliam uma festa importante para uma semana inteira (oito dias, pois a própria festa conta como o primeiro dia) e muitas a coroam com outra festa no oitavo dia, também chamada de “oitava”.

O Natal possui uma Oitava, que começa no dia 25 de dezembro e termina em 1.º de janeiro. O oitavo dia é marcado por outra festa, outrora a do Santo Nome de Jesus e hoje a Solenidade de Maria, Mãe de Deus. A maternidade divina de Maria é uma oitava apropriada para o Natal. 

A Oitava de Páscoa é tão importante que não são permitidas outras festas dentro dela, e seu oitavo dia é outro domingo, atualmente o Domingo da Divina Misericórdia.

Com o passar dos anos, outras festas foram elevadas à condição de oitava. Por exemplo, os católicos ingleses podem se perguntar por que São Thomas More, escrevendo para a sua filha Meg na véspera de sua execução, refere-se àquele dia como a “vigília de Pedro”. Ele foi executado em 6 de julho de 1535, oitavo dia da Solenidade de São Pedro e São Paulo, que então era considerada uma extensão daquela solene festa apostólica. 

Por volta da década de 1950, o calendário litúrgico tinha dezoito (!) Oitavas, e era urgente fazer uma poda. Porém, a árvore mal sobreviveu, já que o Venerável Papa Pio XII suprimiu todas elas, exceto a do Natal, a da Páscoa e a de Pentecostes, que sobreviveu por mais quinze anos.   

Ainda há sinais de Oitavas no calendário revisado. O oitavo dia da Solenidade da Assunção (15 de agosto) é a festa de Maria Rainha (22 de agosto): o quarto e o quinto mistérios gloriosos do Rosário claramente fazem parte de uma mesma realidade. É possível até identificar Oitavas ocultas, como a que existe entre Santa Maria Madalena (22 de julho) e Santa Marta (29 de julho), que provavelmente surgiu da tradição (não inconteste) de que Maria Madalena era irmã de Marta.  

Há resquícios da Oitava de Pentecostes, cujas orações no Ofício Divino São John Henry Newman considerava as mais “grandiosas” de todo o ano. O ponto culminante da Oitava suprimida ainda é o Domingo da Santíssima Trindade. O Espírito Santo nos dá a capacidade de professar que Jesus é o Senhor (cf. 1Cor 12, 3) e de clamar “Aba! Pai!” (Rm 8, 15; Gl 4, 6). Portanto, é apropriado que a Solenidade da Santíssima Trindade suceda a descida do Espírito Santo.

Resta ainda uma curiosa anotação no Missal Romano que diz o seguinte: nos lugares em que “é costume ou obrigação dos fiéis” assistir à Missa na “segunda ou mesmo na terça” depois de Pentecostes, os textos da Missa do Domingo de Pentecostes podem ser repetidos. Trata-se de uma referência à Baviera e à Áustria, onde esses dias já foram feriados civis. Na Inglaterra, era a Segunda-feira de Pentecostes, um eco da Oitava de Páscoa, particularmente da Segunda-feira de Páscoa.

Em 2018, o Papa Francisco determinou a obrigatoriedade de uma nova festa na segunda-feira depois de Pentecostes: Maria, Mãe da Igreja. Alguns alegaram que isso tornou impraticável qualquer vestígio da Oitava de Pentecostes, pois foi removida a opção de repetir a Missa de Pentecostes naquele dia ou até a de celebrar uma Missa votiva do Espírito Santo. Trata-se de uma objeção fraca, pois “Mãe da Igreja” é um título mariano inextricavelmente ligado à vinda do Espírito Santo. É Ele quem cobre Maria na Anunciação em Nazaré, e ela está mais uma vez presente em Pentecostes, quando o Espírito desce sobre a Igreja nascente. 

Em vez disso, pode-se dizer que, com o próprio Pentecostes, a nova festa mariana, o Domingo da Trindade e a sua vigília, quatro dos oito dias da Oitava já estão cobertos. Missas votivas do Espírito Santo poderão preencher o restante, se não forem impedidas por uma festa obrigatória.

Mas isso só se aplica às orações que o sacerdote usa na Santa Missa. Há plena liberdade para orações devocionais feitas em privado ou com familiares e amigos. Ladainhas do Espírito Santo, atos de consagração ao Espírito Santo, imagens do Espírito Santo para adornar o lar, o canto do Veni, Creator Spiritus e do Veni, Sancte Spiritus — podemos fazer tudo isso para vivenciar a Oitava de Pentecostes.

Esta época de pandemia, em que a oração nos lares se tornou mais regular e mais criativa, é um período ideal para fazermos exatamente isto — a novidade pode ser usada para se recuperar uma tradição antiga. — Vinde, Espírito Santo!

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O ateísmo é o “novo normal”
Sociedade

O ateísmo é o “novo normal”

O ateísmo é o “novo normal”

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu. Hoje, é a pessoa religiosa que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe. É a pessoa de fé que precisa ter coragem para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

David CarlinTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Este texto não foi escrito pelo Pe. Paulo Ricardo; trata-se de uma tradução, feita por nossa equipe, de um texto do professor David Carlin. A análise dele é feita a partir da observação do que tem acontecido recentemente nos Estados Unidos, lugar onde ele reside. Mas as manifestações criminosas do último fim de semana no Chile, que incluíram incêndios de igrejas católicas históricas, têm muito a ver com a situação que ele descreve abaixo. 

O texto original foi publicado em 4 de setembro no site The Catholic Thing, ou seja, bem antes dos fatos dos últimos dias. Mas ele fala de um colapso civilizacional que não é de hoje, nem do fim de semana passado. Daí a atualidade e importância do tema.


Não posso prová-lo, mas tenho a forte impressão de que, hoje, o ateísmo é a posição “padrão” dos americanos bem educados, relativamente ricos e com menos de 40 anos. 

Quando falo de ateus, penso em três categorias: (1) os ateus sinceros, pessoas bastante francas em relação à sua descrença; (2) os ateus tímidos, também conhecidos como agnósticos, que não creem em Deus, mas gostam de dizer a si e aos outros que são tolerantes em relação ao assunto (embora não o sejam); (3) os ateus indiferentes, cuja convicção da inexistência de Deus é tão grande, que não se importam em atribuir ao seu estado de espírito o rótulo de ateu ou agnóstico.

Também deveríamos observar que o ateísmo tem muitos “companheiros de viagem” semiateus entre protestantes, católicos e judeus progressistas. 

Antigamente, era necessário algum esforço para ser ateu nos Estados Unidos. Era preciso realizar certo esforço mental e moral. A pessoa tinha de se rebelar contra a existência de Deus, uma coisa dada por certa. Além disso, era preciso encontrar razões para rejeitá-la. Finalmente, faltava coragem ou obstinação para aderir a essa perspectiva, apesar de ela contar com poucos apoiadores.

Em contrapartida, é fácil ser ateu nas primeiras décadas do glorioso século XXI. Quase tão fácil quanto respirar.

A situação mudou. Hoje, é a pessoa religiosa bem instruída que tem de se rebelar contra a ideia de que Deus não existe, o que é, agora, dado por certo. É a pessoa de fé que precisa encontrar razões para rejeitar a descrença. É o teísta que precisa ter coragem ou obstinação para aderir à sua crença num ambiente altamente secularizado e hostil a ela.

A menos que alguma grande revolução religiosa ocorra, é provável que o ateísmo se dissemine nos níveis menos instruídos e privilegiados da sociedade. Existe uma espécie de princípio segundo o qual as crenças e valores das elites culturais da sociedade cedo ou tarde se disseminam entre as massas, ainda que de forma diluída. Na Idade Média, por exemplo, as crenças e valores cristãos dos sacerdotes, monges e freiras se espalharam entre as massas semicristianizadas, ainda que o cristianismo das massas fosse diluído com muitas doses de heresia e superstição.

Nos grandes dias da atividade missionária dos jesuítas, estes compreendiam que, se quisessem converter uma sociedade para o catolicismo, teriam de começar não pelos camponeses, mas pelo rei e a corte. Converta-se o rei, e o campo logo se converterá também.

Em resumo, em poucas décadas os Estados Unidos poderão ser uma sociedade em que elites ateias liderarão massas semiateias. Já é possível antever a formação dessa estrutura social. Elites ateias tendem a predominar em nossas grandes instituições dedicadas à “educação cultural” do público: instituições como o jornalismo, a indústria do entretenimento e as nossas melhores faculdades e universidades.

Tudo isso é bastante estranho, já que, ao longo da história da espécie humana, algum tipo de teísmo (ou politeísmo) foi praticamente universal. Quase todas as pessoas acreditavam em Deus (ou em deuses). Quase todos acreditavam que algum poder (ou poderes) divino sobrenatural governava o mundo. 

Isso funcionou assim por tantos milênios, que alguns criteriosos pesquisadores concluíram que os seres humanos são religiosos por natureza. Há algo em nossa natureza que nos impele a crer em Deus (ou deuses). O ateísmo, portanto, era algo raro e artificial. Mais ou menos como a homossexualidade. 

Naturalmente, por vivermos numa época extraordinária de esclarecimento científico e psicológico, a maior parte de nossas elites culturais aderiu ao novo entendimento de que a homossexualidade não é nem um pouco antinatural. Depois de fazerem essa grande descoberta, deveríamos nos surpreender com o fato de terem descoberto algo ainda mais importante, ou seja, que o ateísmo também não é antinatural?

Imaginemos que o ateísmo passe a predominar na sociedade. Isso causará algum dano significativo nas gerações que virão? Aqueles que, ao longo da vida, acreditaram na existência de Deus responderão que sim. Mas talvez este seja apenas um “preconceito” da nossa parte. Temos, pois, bons motivos para temer o triunfo do ateísmo?

Sugiro dois: por um lado, se Deus não existe, então a moralidade humana não tem fundamento divino; mas, se não possui fundamento divino, deve ter um fundamento exclusivamente humano. A moralidade terá de ser reconhecida como algo criado exclusivamente pelo homem. Ora, se é algo feito apenas pelo homem, então pode ser modificado por ele de forma súbita e radical. O que ontem se considerava mau (o assassinato, por exemplo) poderá, hoje, ser considerado bom. É claro que facilitaremos essa transição usando nomes suaves. Não chamaremos assassinato de “assassinato”. Chamaremos de aborto, eutanásia ou de qualquer outro nome suave que possamos encontrar.

Por outro lado, se Deus existe (ao menos o Deus racional no qual sempre creram a teologia e a filosofia ocidentais, em oposição ao Deus um tanto arbitrário do islamismo), então faz sentido crer que a natureza, criatura de Deus, é inteligível; que a natureza pode ser compreendida pela razão humana. Se nos livrarmos desse Deus racional, também nos livraremos da Criação racional. Abriremos as portas para crenças arbitrárias (por exemplo, a de que um homem se torna mulher apenas por sentir-se assim). Abriremos as portas para as mais selvagens superstições. As pessoas serão incentivadas a crer em qualquer coisa de que gostarem. 

Não me agrada a ideia, por ser já um homem velho, de que, em breve, terei de deixar o espetáculo terrivelmente interessante da história humana. Outras vezes, no entanto, agradeço a Deus por saber que não serei espectador do colapso total de nossa outrora magnífica civilização.

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Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha
Espiritualidade

Escolhendo tudo:
uma lição de Santa Teresinha

Escolhendo tudo: uma lição de Santa Teresinha

Quando nos aproximamos de Deus com a cesta da nossa vida, tendemos a esconder nossas fraquezas, pecados e feridas, oferecendo-lhe só o que nos parece mais agradável. Ele age conosco, porém, como na história da pequena Teresa, e nos diz: “Eu escolho tudo!”

Jim AndersonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Em sua autobiografia, História de uma alma, S. Teresinha conta uma bela história sobre um incidente de infância. Sua irmã mais velha, Leônia, que já estava muito grande para brincar de boneca, trouxera uma cesta com materiais para fazer vestidos de boneca para as irmãs mais novas, Celina e Teresa. A boneca de Leônia estava na cesta, em cima dos materiais. Ela ofereceu a cesta às irmãs, dizendo: “Queridas, escolham o que quiserem”. Celina, a mais velha das duas, pegou uma bola de lã que havia chamado sua atenção, mas Teresa, que tinha apenas dois anos, simplesmente afirmou: “Eu escolho tudo!” e, sem fazer cerimônia, pegou a cesta, a boneca e tudo o mais!  

Esse episódio reflete a postura de Teresa durante toda a vida, como ela conta em História de uma alma (Manuscrito A, 10r-10v): 

Este pequeno episódio de minha infância é o resumo de toda a minha vida; mais tarde, quando dei com a perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, procurar sempre o mais perfeito e esquecer-se a si mesma, compreendi que havia muitos graus na perfeição e que cada alma era livre de responder às solicitações de Nosso Senhor, de fazer pouco ou muito por ele, numa palavra, de escolher entre os sacrifícios que ele pede. Então, como nos dias de minha infância exclamei: “Meu Deus, escolho tudo. Não quero ser santa pela metade, não tenho medo de sofrer por vós; a única coisa que temo é guardar minha vontade, tomai-a vós, pois ‘escolho tudo’ o que quiserdes!...”

Embora a pequena Teresa ilustre, com sua precoce e vibrante audácia, a profundidade do desejo humano — um desejo que, no final das contas, só é saciado por Deus —, creio que seja possível extrair outra reflexão desse relato.

Deus fala a cada um de nós com o mesmo desejo entusiasta manifestado por Teresa quando nos apresentamos diante dEle com a cesta da nossa vida — muitas vezes, com temor e tremor — e a oferecemos a Ele pedindo-lhe que pegue algo dela. É claro que oferecemos, imediatamente, as partes preferidas: as que julgamos mais agradáveis a Ele, as que podemos oferecer com mais segurança ou as que supostamente não nos custarão muito.

Porém, há outros aspectos da vida que estamos menos dispostos a oferecer a Deus: nossas fraquezas, pecados e feridas; os rancores e queixas que guardamos secretamente; as partes da nossa humanidade ferida que nos atormentam e constrangem; todas as partes da nossa personalidade que estão cheias de imperfeições.

Isso também pode nos deixar irritados. O mandamento de Jesus: “Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” parece impossível de cumprir, algo flagrantemente absurdo de pedir a um ser humano! Conscientes da fraqueza e da escuridão que se escondem em nosso coração, nós, como Marta diante do sepulcro de Lázaro, clamamos: “Senhor, já cheira mal!”, e muitas vezes nos afastamos dEle e nos escondemos em nossas feridas.

Mas o amor não se satisfaz facilmente. Deus age como a pequena Teresa. Olhando para a cesta que somos nós, Ele diz sem meios termos: “Eu escolho tudo!” Em momentos como esse, brotam em nosso coração as palavras que Ele dirigiu a Marta: “Não te disse eu: se creres, verás a glória de Deus?”   

E o que é a glória de Deus? Irineu nos diz: “A glória de Deus é o homem plenamente vivo!” Aos olhos de Deus, isso é a perfeição — ser perfeito como pessoa humana é ser humano de modo autêntico e pleno, assim como Deus é perfeito sendo plenamente divino.  

S. João Paulo II disse a mesma coisa com outras palavras, exortando as famílias a “tornarem-se o que são”. Mas precisamos da graça de Jesus Cristo, que é “a ressurreição e a vida”, para renovar, restaurar, curar, aperfeiçoar e elevar todos os aspectos da nossa humanidade — os bons, os maus e os feios — à plenitude da imagem e semelhança de Deus. Isso significa ser plenamente humano, entregando a Deus tudo o que somos e temos para que, em contrapartida, possamos aceitar tudo dEle, como o fez Teresa.

É uma troca admirável: o nosso tudo (que, na verdade, não é nada) pelo tudo de Deus (que, na verdade, é Tudo). Nessa troca de tudo por tudo, ficamos com a parte boa do negócio.

Esse é o núcleo do gênio de S. Teresinha e de sua pequena via. Deus nos encontra quando aceitamos voluntariamente nossa imperfeição, fraqueza, pobreza e carência. Com a confiança de uma criança, Teresinha nos encoraja a confiarmos que até o menor passo em direção a Deus é suficiente para receber seu amor e misericórdia. Podemos ter certeza de que, se estivermos dispostos a nos aproximar de Deus tanto quanto possível — ainda que seja um caminho curto —, Ele fará a diferença em sua ternura e bondade.

Esse também é o núcleo do espírito missionário de S. Teresinha, padroeira das missões, pois, como sugere outra santa mulher, Catarina Doherty, o primeiro campo de qualquer missão é o coração humano — onde são tomadas todas as decisões favoráveis ou contrárias a Deus e ao próximo. Só precisamos aceitar humildemente nossas fraquezas como oportunidades para encontrar a Deus em profundidades cada vez maiores, e assim abrir nosso coração a Ele de forma mais plena, permitindo que Ele escolha tudo e transforme tudo em seu amor.

João Paulo II descreve a autêntica formação humana como um movimento que parte do autoconhecimento, passa pela aceitação de si e chega à doação de si. Isso requer uma visão integral da pessoa humana em todos os aspectos de seu ser — físico, espiritual, emocional, social e intelectual — e implica a Redenção e o aperfeiçoamento de todos esses aspectos em Cristo.

E Teresinha nos ensina isso. “Teresa é Mestra para o nosso tempo”, escreveu João Paulo em Divini Amoris Scientia, a Carta apostólica em que ele a proclamou Doutora da Igreja, “Mestra de vida evangélica, particularmente eficaz ao iluminar os caminhos dos jovens, aos quais compete ser protagonistas e testemunhas do Evangelho junto das novas gerações”. 

Sem dúvida, já vi esse testemunho ao longo de meus anos de trabalho como formador de jovens — uma miríade de esperanças, alegrias e vidas restauradas pela entrega inocente ao amor de Deus. Talvez nestes dias, como nunca antes, em meio ao medo disseminado pela pandemia, ao crescimento do isolamento e da divisão, da agitação social e da animosidade crescente mesmo no seio da Igreja, necessitemos de uma mestra como Teresinha, que pode nos ajudar a entregarmos tudo para escolhermos Tudo.

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Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?
Virgem Maria

Pode um cientista
ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Pode um cientista ainda levar a sério o Milagre do Sol?

Em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

Pe. Andrew PinsentTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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A pergunta na chamada implica que a resposta esperada é: não; mas, como antigo físico de partículas, a minha resposta é: por que não? Contra o preconceito comum, uma perspectiva científica não descarta milagres, e o evento de Fátima é, na visão de muitos, particularmente crível.

Com relação a milagres em geral, o preconceito de costume contra eles assume uma de duas formas. A primeira alega que um ponto de vista científico exclui milagres, erroneamente definidos como um rompimento das forças da natureza ou, especificamente, com a física. Este preconceito repousa num mal-entendido sobre o alcance das leis científicas, que descrevem de forma simplificada como sistemas ideais, tomados isoladamente, se comportam. Essas leis nos permitem realizar feitos extraordinários, como a viagem final que a espaçonave Cassini empreendeu em 2017 através dos anéis de Saturno.

Mas essa leis nada nos dizem sobre o que acontece quando um sistema não é isolado, muito menos quando um agente pessoal e livre nele intervém. Para dar um exemplo: se eu jogar uma maçã no ar, a sua trajetória será semelhante a uma parábola que pode ser prevista a partir da posição inicial e impulso da maçã; mas essa previsão nada diz sobre o que eu decido fazer ou não com a maçã. Ora, se eu posso intervir para mudar a trajetória de uma maçã, então (presumivelmente) Deus todo-poderoso pode fazer o mesmo. E muito mais. Portanto, não existem problemas reais em relação aos milagres do ângulo das leis científicas, uma vez que descrever como um sistema se comporta na ausência de interferências externas não diz nada sobre se uma intervenção pode ocorrer ou ocorre de fato.

Uma segunda forma de preconceito alega que uma combinação de causas naturais pode e deve ser encontrada para explicar o que aparenta ser milagroso, reduzindo o extraordinário ao previsível. Para dar apenas um exemplo: não é incomum entre padres e professores já de certa idade, que acham milagres embaraçosos, a ideia de que Jesus, na multiplicação dos pães, teria alimentado cinco mil pessoas dividindo a comida que elas mesmas trouxeram consigo. Seria um símbolo de “partilha”. 

Explicações como estas dificilmente quadram com as contas reais, menos ainda com a reação das testemunhas. Além disso, não são explicações necessárias ou úteis. Obviamente, nós devemos ter senso crítico na hora de avaliar relatos de milagres particulares, que deveriam ser sinais excepcionais num mundo de seres criados com as suas próprias potências naturais. Mas determinar, antes de considerar quaisquer evidências, que milagres são impossíveis ou nunca acontecem é contra o espírito de investigação crítica, além de uma declaração de desespero. Afinal de contas, se nenhum milagre acontece, é porque estamos presos num mundo de potências naturais, inadequados para a nossa felicidade e condenados à decadência e à morte individual e, finalmente, cósmica.

Pessoas presentes na Cova da Iria, em 13 de outubro de 1917, olhando para o Sol.

Como então avaliar o milagre de Fátima, especialmente o Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917? Este evento acompanhou a última de seis aparições de Nossa Senhora à Beata Lúcia Santos, de 10 anos, e seus primos, os santos Jacinta e Francisco Marto. Houve uma multidão de testemunhas, contadas em dezenas de milhares, sem contar o testemunho de professores universitários e repórteres, compilados mais tardes no livro de John Haffert Meet the Witnesses of the Miracle of the Sun (“Conheça as testemunhas do Milagre do Sol”). Por exemplo, Avelino de Almeida, de O Século (um jornal anticlerical do governo), que anteriormente zombava das crianças, escreveu que o Sol fazia movimentos súbitos e incríveis, “fora de todas as leis cósmicas”.

Hoje, a Igreja não exige que aceitemos o milagre, mas afirma apenas que as aparições de Nossa Senhora são dignas de fé [1]. No entanto, em razão do número e da variedade de testemunhas oculares, além do choque político e eclesial em Portugal que se seguiu ao evento, tudo o que sobre ele sabemos aponta para um milagre público extraordinário e com altíssimo grau de credibilidade.

As aparições da Virgem ocorreram quatro séculos após o início da Reforma Protestante, em 1517, e dois séculos depois da fundação da primeira Grande Loja maçônica, em Londres, no ano de 1717, marcos da apostasia das nações do catolicismo para o indiferentismo religioso. No dia mesmo do Milagre do Sol, em 1917, os sovietes assumiram o controle militar da Rússia, preparando o caminho para que o comunismo ateu começasse a ruinosa dominação de grande parte do mundo, perseguindo a Igreja e levando a mortes cruéis dezenas de milhões de pessoas.

Não surpreende, pois, que Deus nos tenha concedido um milagre espetacular, com avisos severos de arrependimento e penitência, para aprendermos a responder ao dom de sua graça, para a salvação de nossas almas e do mundo.

Notas

  1. A revelações privadas como a de Fátima não estão obrigados a prestar assentimento de fé divina os fiéis a quem elas não foram imediata e certamente dirigidas, embora convenha prestar-lhes assentimento de fé humana, na medida em que a autoridade da Igreja prudencialmente as reconhece como autênticas, isto é, livres de todo indício razoável de fraude, engano, manipulação etc. e de quaisquer elementos que contradigam o conteúdo da Revelação pública. Por isso, não peca contra a fé quem não crê, v.gr., nas revelações de Fátima ou em outras aparições marianas particulares, embora nisto possa haver certa indocilidade culposa ao Magistério eclesiástico, quando ele mesmo reconhece a autenticidade destas manifestações e as propõe aos fiéis, especialmente pela Liturgia, como dignas de fé e conformes à doutrina cristã (Nota da Equipe CNP).

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Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?
Virgem Maria

Por que a Virgem de Fátima
apareceu no dia 13 de cada mês?

Por que a Virgem de Fátima apareceu no dia 13 de cada mês?

É claro que houve um significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 em Portugal. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima.

Joseph PronechenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Comecemos com um simples fato. Nas principais aparições em Fátima, nossa Mãe Santíssima apareceu no dia 13 de cada mês, menos em agosto, quando as crianças foram levadas à cadeia de Ourém por um administrador ateu, que estava determinado a impedir que elas fossem até a Cova da Iria.

Depois que as crianças foram soltas, Nossa Senhora lhes apareceu no dia 15 de agosto, festa da Assunção. 

Houve algum significado no fato de Nossa Senhora ter aparecido no dia 13 dos outros cinco meses? Claro que sim. O Céu não faz coisas sem propósito. Por ora, podemos não conhecer todas as razões, mas há importantes conexões entre esse número e a história de Fátima, e elas podem, até o momento, ser consideradas mais um modo de enriquecer seu significado.

Primeiro, tenhamos em mente que certos números possuem grande significado e simbolismo para os judeus e para nós. É algo claramente bíblico. No Antigo Testamento, determinados números são associados a significados místicos e a certa sacralidade. Isso continuou no Novo Testamento e foi mantido pelos Padres da Igreja.

Consideremos os seguintes números: 3 (a Trindade, por exemplo); 7 (o sétimo dia da semana, quando Deus descansou); 12 (as doze tribos de Israel, os doze Apóstolos). Obviamente, isso não tem nada a ver com superstição.  

Antes de voltarmos ao 12, lembremos mais uma conexão. Os Padres da Igreja consideravam Ester, do Antigo Testamento, uma prefiguração da Santíssima Virgem. Trata-se de uma importante relação. Você se lembra da história dessa rainha, contada no Livro de Ester?

Em resumo, Ester estava entre os judeus exilados na Pérsia. Seu tio, Mardoqueu, cuidava dela e ao mesmo tempo era um diligente servo do rei. Ela era reverenciada por todos: “Ela ganhava as boas graças de todos os que a viam” (Et 2, 15). Quando o rei Assuero precisou escolher uma rainha entre as possíveis candidatas, “preferiu-a a todas as outras mulheres, e ganhou ela as graças e o favor real mais que todas as demais jovens. Tanto que o rei colocou sobre sua cabeça o diadema real e a fez rainha no lugar de Vasti” (Et 2, 17). Ele não sabia que ela era judia.

Entra em cena o vilão, que tinha ciúmes de seu tio e da posição que ele ocupava, porque ele mesmo queria ser o braço direito do rei, com todo o poder que a posição oferecia. Ele conseguiu isso imediatamente, ao armar uma trapaça contra Mardoqueu. Então, para manter-se no poder, escreveu e baixou um decreto no dia 13 do primeiro mês, determinando que, dentro de alguns meses, todos os judeus no reino — homens, mulheres e crianças — deveriam ser exterminados à espada. A execução em massa seria realizada no 13.º dia do mês de Adar do calendário judaico

Pediram a Ester que intercedesse junto ao rei. Ela o fez, mesmo que isso lhe pudesse ter custado a vida, pois ela apareceu diante dele sem pedir a permissão necessária para vê-lo — um aviso vindo dele mesmo autorizando-lhe a presença. Ela se dirigiu ao rei para fazer o pedido.

Ester revelou ao rei que o vilão havia ordenado em nome do rei a morte dos judeus, e usou o selo dele para determinar que aquilo fosse feito no dia 13 de Adar. Além disso, ela revelou que também era judia. O rei Assuero, que a amava afetuosamente, ficou indignado com tal vileza, condenou o vilão à morte e ordenou que os judeus fossem salvos.

“Ester diante de Assuero”, pintura de Guercino.

“No duodécimo mês, que é o de Adar, no dia treze do mês, data em que entrava em vigor a ordem e o edito do rei, no mesmo dia em que os inimigos dos judeus contavam fazer-lhes mal, aconteceu tudo ao contrário e os judeus dominaram seus inimigos”, diz-nos o livro (Et 9, 1). 

Ester salvou seu povo. Os judeus sobreviveram.

Em Fátima, Nossa Senhora apareceu para salvar seu povo mostrando-lhe o caminho correto a ser seguido.

Como um “extra”, a Enciclopédia Católica lembra que o nome Ester vem do hebraico e significa “estrela”, “felicidade”. Isso também reforça a conexão entre Ester e a aparição e mensagem de Nossa Senhora de Fátima.

Ela sempre tinha uma estrela em seu manto”, disse a Ir. Lúcia ao padre dominicano Thomas McGlynn, quando ele perguntou qual era a aparência de Nossa Senhora. A estrela era amarela. Mais uma vez, o Céu estabelecia uma conexão para nos dizer que Maria estava indo a Fátima também para salvar do mal seu povo e a Igreja.  

Ester era uma rainha. Nossa Senhora é uma Rainha infinitamente superior — que foi coroada, contemplamos no quinto mistério do Rosário, “como Rainha do Céu e da terra”. 

Por falar no Rosário, todas as vezes que apareceu em Fátima, Nossa Senhora nos pediu que o rezássemos (do dia 12 de maio ao dia 13 de outubro). Na aparição do dia 13 de outubro, ela se apresentou como Nossa Senhora do Rosário, e outubro é o mês dedicado ao Santo Rosário. 

Isso nos leva a outro 13. Foi no séc. XIII que Nossa Senhora deu o Rosário a São Domingos. E foi também nesse século que ela deu a São Simão Stock o escapulário marrom. No dia 13 de outubro, Nossa Senhora apareceu com três títulos — um deles foi o de Nossa Senhora do Carmo, dando-nos uma lição silenciosa sobre o escapulário. Alguns anos depois, quando frades carmelitas lhe perguntaram sobre o escapulário, Lúcia lhes disse que “o escapulário e o Rosário são inseparáveis. O escapulário é um sinal de consagração a Nossa Senhora”. 

Naturalmente, Nossa Senhora apareceu em Fátima para nos aproximar de Jesus. Um dos caminhos foi a recepção da Sagrada Eucaristia, que é a parte mais importante da devoção dos cinco primeiros sábados. Isso nos leva a outra conexão com o número 13. 13 de maio, data da primeira aparição, era o dia original da festa de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Com certeza essa data não foi escolhida a esmo; ela apontava propositalmente para a Sagrada Eucaristia.

Durante a primeira aparição, no dia 13 de maio, as crianças perceberam que a luz que saía das mãos abertas de Maria era a luz de Deus; então, ajoelharam-se e começaram a rezar: “Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro! Meu Deus, meu Deus, amo-vos no Santíssimo Sacramento”.

É claro que essa oração tem uma conexão com o Espírito Santo. Lembremos que Nossa Senhora e os Apóstolos somavam 13 pessoas no Cenáculo, onde o Espírito Santo desceu em Pentecostes.

Além dos doze Apóstolos juntos com Maria, podemos retroceder no tempo e mencionar as doze tribos de Israel e assim o 13 aparecerá novamente. Certo rabino especialista no tema mostrou que as doze tribos, dos doze filhos de Jacó, as quais se tornaram Israel, “estão unidas a seu pai Israel [Jacó]. Israel é o 13.º. O sentido do número treze é a união de muitos em um só”.

O rabino também observou que, na língua hebraica, toda letra possui um valor numérico, e a palavra hebraica ahava (que significa amor, como no Novo Testamento, na Bíblia) está ligada a Deus e ao valor numérico de treze.  

Em Fátima, Maria veio com amor para nos unir todos no amor de Deus, desde que sigamos suas instruções, que em última instância vieram de Deus — o qual, como nos diz São João, é Amor (cf. 1Jo 4, 8) —, para a única família de Deus que se dirige ao Céu.  

Portanto, o número 13 está, de fato, relacionado com Fátima de diversas formas, direta ou indiretamente. Trata-se de mais um dos muitos e diferentes modos que nos ampliam a mensagem e o significado de Fátima.

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