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A crise da educação das crianças
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A crise da educação das crianças

A crise da educação das crianças

As mudanças no conceito de família e suas desastrosas consequências para a educação das crianças.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Abril de 2013Tempo de leitura: 3 minutos
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O debate em torno das novas propostas de família traz à tona uma questão que, muitas vezes, passa despercebida: a educação das crianças. O lar, conforme ensina o Papa Paulo VI, é "a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade". A mãe e o pai, por conseguinte, têm não só o dever, mas também o direito de transmitir aos filhos aqueles tantos valores que convergem para uma correta compreensão da dignidade da pessoa humana. Portanto, esse direito dos pais é inegociável e não pode de maneira alguma ser usurpado ou vilipendiado.

Acontece, não raras vezes, de se chegar à conclusão de que a família, apesar de sua fundamental importância para a justa ordenação da sociedade, encontra-se sob constante ataque nas suas estruturas, seja por meio de ideologias, seja por ações do próprio Estado. Esses ataques nada mais são que uma ferramenta utilizada por governos totalitários, a fim de assumirem o controle da educação das crianças e, desse modo, solaparem a clareza do direito natural e suplantarem em seu lugar um novo padrão de comportamento. A técnica é muito bem apresentada na obra de George Orwell, "A revolução dos bichos", quando o Estado toma os filhotes de uma das personagens para educá-los e transformá-los em militantes do partido.

Ademais, o controle da educação das crianças é imprescindível para que o Estado consiga eliminar a fé da sociedade, pois a geração proveniente de uma escola sem valores dificilmente estará aberta aos ensinamentos da Igreja. Um caso emblemático de como esse tipo de política é danosa é a Suécia, onde as constantes ingerências do governo promoveram, de uma forma assustadora, a maior taxa de aborto em adolescentes de toda a Europa. As escolas foram transformadas em salas de bate-papo sobre sexo e os casos de estupros tiveram um aumento de 1000 por cento, como atesta Johan Lundell, secretário-geral do grupo sueco pró-vida Ja till Livet. Tudo ao arrepio da sociedade que, proibida de educar seus filhos em casa, se vê obrigada a ter de escutar das crianças que os professores em sala de aula lhes perguntaram o que as excitavam. [1] [2]

Não obstante esse exemplo lamentável da Suécia, a elite globalista, leia-se ONU e outras fundações internacionais, não perde a oportunidade de exigir das nações a implantação imediata de medidas contrárias à dignidade da família e da criança, como "casamento" gay e educação sexual. É dessa maneira que, ajudado pelo lobby dos meios de comunicação, o Governo aprova uma lei que obriga os pais a matricularem seus filhos nas escolas a partir dos quatro anos de idade. É dessa maneira que jornais de grande audiência no país colocam um sexólogo para discutir o que é ejaculação com crianças de 10 a 11 anos. Isso em plena luz do dia.

A mesma petulância vale para ridicularizar a fé, sobretudo a cristã, e intimidar aqueles que apresentem qualquer tipo de oposição. A título de exemplo, veja-se o caso de um aluno da Universidade Atlântica da Flórida, nos Estados Unidos, que após recusar-se a escrever o nome de Jesus em uma folha e depois pisar sobre ela, a pedido de seu professor, acabou se envolvendo em uma briga que resultou na sua expulsão. Em sua defesa, o professor alegou que o garoto o havia ameaçado e que, ao contrário das acusações, ele era "uma pessoa muito religiosa" e identificava a si mesmo "como um cristão.[3] Como se um verdadeiro cristão provocasse outro a blasfemar contra Cristo.

De toda essa questão, o que está em jogo não é somente a educação das crianças. Isso é só a ponta do iceberg. O que se está em jogo é a própria organização da sociedade e a fé que a sustenta. Engana-se quem enxergue a situação como um "progresso". A instituição familiar e, por conseguinte, todo o arcabouço que dá forma à reunião de todo o gênero humano, encontra-se ameaçado, na iminência da instauração de uma cultura da morte. Tudo isso graças a uma mentalidade contraceptiva que viu no divórcio uma falsa liberdade. Os filhos tornaram-se bens de consumo e o casamento "evoluiu" de Sacramento a mera união contratual e com prazo de validade, baseada em sentimentos espúrios.

Não! A família não é isso e nem pode ser. Assim, recobrar a genuinidade do matrimônio e a sua sacralidade é um passo fundamental para que a humanidade esteja verdadeiramente inserida na dignidade natural querida por Deus. O homem não se faz homem por si mesmo, mas por sua fidelidade inegociável ao modelo dado por Cristo.

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A história de Santo Apolinário
Santos & Mártires

A história de
Santo Apolinário

A história de Santo Apolinário

Neste breve relato biográfico, conheça a vida do bispo Santo Apolinário, que foi enviado a Ravena por ninguém menos que o príncipe dos Apóstolos, São Pedro, a fim de anunciar o nome de Jesus aos incrédulos, operando inúmeros milagres.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Julho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A história abaixo, assim como muitas outras extraídas da Legenda Áurea, não constitui um “artigo de fé católica” [1]. É preciso saber colher, em meio aos floreios do autor medieval, as lições espirituais que também os católicos de gerações passadas colheram ao ler linhas como essas. É válido notar, de qualquer modo, que o livro chama-se “legenda” não por ser uma coleção de mitos ou contos de fantasia; a expressão vem do verbo latino lego, “ler”, e significa simplesmente “coisas a serem lidas”. 

E porque é para serem lidas que as divulgamos, convencidos de que não é justo sonegar aos católicos de agora esses piedosos relatos da vida dos santos, só porque não se adequam aos critérios atuais de historiografia

Não nos esqueçamos que o primeiro a realizar milagres foi Jesus de Nazaré; os Evangelhos, que contam inúmeros de seus prodígios, foram escritos muito tempo antes da Legenda Áurea; e nenhum dos seus milagres têm algo a temer ante a moderna “crítica científica”. Além do mais, Ele mesmo disse, de seus discípulos, que fariam obras muito maiores que as que Ele realizou (cf. Jo 14, 12).

Além do mais, Santo Apolinário foi, segundo a Tradição, discípulo de ninguém menos que São Pedro, chefe dos Apóstolos. Estamos falando, portanto, de um contemporâneo dos primeiros seguidores de Nosso Senhor.

Sua memória deixou de pertencer ao Calendário Romano Geral com a reforma litúrgica do Papa Paulo VI, ficando reservada apenas aos calendários particulares. A razão é que, apesar da antiguidade de seu culto, Apolinário não era considerado hoje um santo de “importância universal” [2]. Por meio de um decreto de 18 de dezembro de 2001, no entanto, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos [3], este santo voltou a ocupar lugar no Calendário Romano Geral, no dia 20 de julho.


Apolinário deriva de pollens, “poderoso”, e de ares, “virtude”, significando “poderoso em virtude”; ou pode derivar de pollo, “admirável”, e de naris, que pode ser entendido como “discrição”, significando “homem de admirável discrição”; ou pode derivar de a, “sem”, de polluo, “manchar”, e de ares, “virtude”, e assim equivaleria a “virtuoso sem mancha de vícios”.

Apolinário, discípulo de Pedro, foi por ele enviado de Roma a Ravena, onde curou a esposa de um tribuno e batizou-a juntamente com o marido e a família. Quando isso fez, foi denunciado ao juiz, este ordenou que Apolinário fosse levado ao templo de Júpiter para ali sacrificar. Como ele dissesse aos sacerdotes que seria melhor dar aos pobres o ouro e a prata pendurados diante dos ídolos, em vez de ali permanecerem diante dos demônios, foi agarrado, espancado a pauladas e deixado semivivo; mas alguns discípulos o levaram até a casa de uma viúva, onde ficou sete meses em recuperação. 

“Apoteose de Santo Apolinário”, por Guercino.

Dali partiu para a cidade de Classe a fim de curar um mudo de nobre ascendência. Quando ele entrou na casa, uma jovem possessa por um espírito imundo exclamou, dizendo: “Sai daqui, servo de Deus, senão te farei ser expulso da cidade de pés e mãos amarrados”. Apolinário, reprendendo-a, forçou imediatamente o demônio a sair. Como, pois, tivesse invocado sobre o mudo o nome do Senhor e este fosse curado, mais de quinhentos homens acreditaram.

Os pagãos, por sua vez, o proibiram, espancado a pauladas, de pronunciar o nome de Jesus. Ele, porém, lançado ao chão, clamava: “Ele é o verdadeiro Deus!” Então os pagãos lhe tiraram os calçados e o fizeram ficar de pé sobre brasas; mas, como ele continuasse a pregar a Cristo sem cessar, o lançaram fora da cidade.

Naquela época, Rufo, um patrício de Ravena, estava com a filha enferma e mandou chamar Apolinário para curá-la. Tão-logo ele entrou na casa, a menina morreu. Então Rufo lhe disse: “Oxalá não tivesses entrado em minha casa. Os deuses ficaram muito irados e não quiseram curar minha filha. Que lhe poderá fazer tu?” Apolinário respondeu: “Não temas. Jura-me que, se a jovem ressuscitar, não lhe proibirás de modo algum seguir seu Criador”. Rufo jurou, Apolinário fez uma oração, e a jovem ressuscitou e, proclamando o nome de Cristo, recebeu com a mãe e uma multidão o batismo e permaneceu virgem.

Quando o César soube disso, escreveu ao prefeito do pretório que forçasse Apolinário a sacrificar ou que o mandasse para o exílio. O prefeito, não podendo forçá-lo a sacrificar, fê-lo espancar a pauladas e mandou que o torturassem estendido no potro. Como ele continuasse a pregar o Senhor, o prefeito mandou que jogassem água fervendo sobre as feridas e o mandassem para o exílio preso a pesadas correntes.

Vendo tanta impiedade, de ânimo exaltado, os cristãos lançaram-se sobre os pagãos e mataram mais de duzentos dentre eles. Vendo isso, o prefeito se escondeu e ordenou que prendessem Apolinário num cárcere estreitíssimo; depois mandou levá-lo, acorrentado a três clérigos, a um navio que os conduziria ao exílio. Houve uma tempestade, da qual escaparam apenas ele, dois clérigos e dois soldados, a quem batizou.

Depois voltou a Ravena, foi preso novamente pelos pagãos e conduzido ao templo de Apolo, cuja estátua amaldiçoou, e ela subitamente veio abaixo. Vendo isso, os pontífices o levaram diante do juiz Tauro, juiz este que, porque Apolinário lhe devolvera a vista a um filho cego, acreditou e por quatro anos o manteve em uma propriedade sua.

Depois disso, como os pontífices o acusassem diante de Vespasiano, mandou Vespasiano que todos os que ofendessem os deuses ou sacrificassem ou fossem expulsos da cidade, pois “não é justo”, dizia, “que vinguemos os deuses; eles mesmos poderão vingar-se de seus inimigos, se ficarem irados”.

Então, o patrício Demóstenes não conseguiu fazer Apolinário sacrificar e o entregou a um centurião que já era cristão, o qual lhe rogou que se refugiasse numa aldeia de leprosos, onde poderia viver longe do furor dos gentios. Mas a multidão que o perseguia alcançou-o e o espancou durante muito tempo, deixando-o quase morto. Ali sobreviveu por ainda sete dias e, tendo instruído os discípulos, entregou o espírito e foi honradamente sepultado na época de Vespasiano, que começou a reinar por volta do ano 70 do Senhor.

Sobre este mártir diz Santo Ambrósio:

Apolinário, digníssimo bispo, foi enviado pelo príncipe dos Apóstolos, Pedro, a Ravena para anunciar o nome de Jesus aos incrédulos. Enquanto ali fez admiráveis sinais de virtudes para os seus, que acreditavam em Cristo, foi muitas vezes açoitado e teve o corpo já senil submetido pelos ímpios a horrendas torturas. Mas para que os fiéis não vacilassem vendo-lhe os sofrimentos, pela virtude do Senhor Jesus Cristo aperfeiçoou os sinais apostólicos: após os tormentos, ressuscitou uma menina morta, devolveu a vista a um cego e restaurou a voz a um mudo, livrou uma mulher possessa pelo demônio, limpou o contágio de um leproso, curou membros dissolutos por uma doença pestífera, fez ruir junto com o templo a imagem de um ídolo. Oh, digníssimo pontífice, merecedor de admiração, que com dignidade de pontífice mereceu receber o poder apostólico! Ó fortíssimo atleta de Cristo, que, já resfriando o calor da idade, em meio às penas, pregou constantemente a Jesus Cristo, redentor do mundo!

Referências

  1. O texto acima é uma tradução (adaptada aqui e ali pela Equipe CNP) do capítulo 92 da Legenda Áurea (São Paulo: Cia. das Letras, 2003, pp. 555-557).
  2. Cf. Calendarium Romanum. Typis Polyglottis Vaticanis, 1969, p. 131.
  3. Cf. Notitiae 432-433, vol. 39, 2002, pp. 313-314. (Agradecemos a um leitor pela vigilância e observação. Nesse mesmo decreto, juntamente com S. Apolinário, resgataram seu lugar nos livros litúrgicos reformados as festas dos Santíssimos Nomes de Jesus e Maria, em 3 de janeiro e 12 de setembro, respectivamente, e a grande S. Catarina de Alexandria, em 25 de novembro.)

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Três Marias diferentes ou Santa Maria Madalena?
Santos & Mártires

Três Marias diferentes
ou Santa Maria Madalena?

Três Marias diferentes ou Santa Maria Madalena?

Maria Madalena, a pecadora perdoada e a irmã de Lázaro são a mesma pessoa? Ou se trata, antes, de três mulheres diferentes? Eis uma questão que intriga há tempos os intérpretes da Sagrada Escritura e para a qual, pelo visto, só teremos uma resposta no céu.

Pe. Hadriano Simón, CSSRTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Tornou-se costume entre os intérpretes [1] perguntar se a mulher pecadora referida por Lc 7, 37 tem alguma relação com Maria Madalena (cf. Lc 8, 2; 24, 10; Mt 27, 56-51; 28, 1; Mc 15, 40-47; 16, 1-9; Jo 19, 25; 20, 11-15), com Maria irmã de Lázaro (cf. Lc 10, 39-42; Jo 11, 1-33; 12, 1-8), ou com ambas. O motivo da questão se toma, por um lado, do episódio da unção (cf. Lc 7, 36ss; Jo 12, 1), donde parece seguir-se que a pecadora é irmã de Lázaro; por outro, da semelhança de vida (cf. Lc 7, 37; 8, 2b; Mc 16, 9), donde parece seguir-se que a pecadora é Madalena; por último, da identidade de nome, donde parece seguir-se que Maria de Betânia é também Maria de Magdala.

História do problema. — Deixando de lado os que opinam que a questão é insolúvel [2], encontramos entre os autores três soluções principais: a) alguns defendem que se trata de três mulheres distintas [3]; b) outros, que se trata de duas; c) outros enfim, que se trata de uma única mulher, designada no Evangelho de várias formas [4]. Igual diversidade — antes, até maior — houve entre os antigos, de modo que, não obstante o dito por alguns exegetas [5], não se pode invocar a tradição patrística em apoio definitivo de qualquer das três soluções. Além disso, nenhum Padre apela à fé ou à tradição da Igreja em favor de sua própria opinião [6].

Na Igreja latina, de São Gregório Magno (✝ 604) até os nossos dias, defendeu-se com consenso verdadeiramente unânime a identidade entre as três [7]. Tal consenso se deve à autoridade deste Pontífice [8], uma vez que, antes dele, os Padres latinos defenderam opiniões contrárias, chegando alguns a mudar mais de uma vez de parecer (v.g., São Jerônimo e Santo Agostinho). Os escritores gregos distinguiram as três mulheres, e alguns parecem ter defendido a existência de quatro, porque distinguiam também a unção referida por Mt 26, 6 e Mc 14, 3 da referida por Jo 12, 3, atribuindo cada uma destas três unções a tantas outras mulheres distintas, das quais Madalena diferiria como a quarta.

Argumentos. — Vejamos os argumentos exegéticos em favor de cada uma das soluções:

“Maria Madalena”, por Carlo Dolci.

1.ª solução: três mulheres.a) A mulher pecadora não é nem irmã de Lázaro nem Maria Madalena: α) porque os evangelistas a apresentam como desconhecida e jamais lhe dizem o nome, ao passo que das outras duas, conhecidas e próximas de Cristo, se fala muitas vezes no Evangelho; além disso, β) não há indício algum que permita afirmar que Maria irmã de Lázaro foi pecadora pública (cf. Lc 7, 37); γ) Madalena, por sua vez, é explicitamente contraposta à pecadora porque, narrado o arrependimento desta, cujo nome não é revelado, logo em seguida (cf. Lc 8, 2) se fala de Madalena como de pessoa conhecida entre as mulheres que seguiam a Cristo; δ) embora se diga que Madalena foi possuída por sete demônios (cf. Lc 8, 2; Mc 16, 9), nunca se diz ou sugere nada sobre um suposto passado vergonhoso, enquanto que na narração da pecadora não se vê um só vestígio de possessão; ora, os evangelistas costumam distinguir nitidamente a possessão do estado de pecado; logo… 

b) Maria irmã de Lázaro não é Maria Madalena: α) em razão do nome, dado que tanto Lucas como João, sempre que falam da irmã de Lázaro, a chamam simplesmente de Maria (cf. Lc 10, 39; Jo 11, 1ss; 12, 3) e quando falam de Maria Madalena não dão sinal algum de que se trata da mesma mulher; β) em razão do lugar em que viviam ou do qual procediam, pois a irmã de Lázaro era de Betânia, vilarejo próximo de Jerusalém (cf. Jo 11, 1), ao passo que Madalena, assim chamada por vir (provavelmente) de Magdala, às margens do lago de Genesaré, é contada entre as mulheres que com o Senhor subiram da Galileia a Jerusalém (cf. Mt 27, 55; Mc 15, 41; Lc 23, 55) e com Ele percorriam as cidades da Galileia (cf. Lc 8, 2).

2.ª solução: duas mulheres. — Os defensores desta opinião afirmam que a irmã de Lázaro e Maria Madalena são a mesma pessoa, distinta da mulher pecadora (v.gr., Calmet, loc. cit.; Patrizi, In Mc [Friburgo, 1862] 222; Belser, Joh. 338; L. Murillo, S. Juan, 373 adn. etc.); para outros, no entanto, a pecadora e a irmã de Lázaro é que seriam a mesma pessoa (v.gr., Knabenbauer, In Matt. II, 405s).

3.ª solução: uma única mulher.a) O sentir tácito da Igreja inclina a essa parte (Maldonado); cf. o Ofício antigo de 22 de jul., de Santa Maria Penitente [9]. — b) Nas três se vê a mesma índole generosa, aparece o mesmo amor ardentíssimo a Cristo; em todas transparece aquela que muito amou, a que escolheu a melhor parte, a que, triste e chorosa, buscava o Senhor etc. [10]. — c) O fato de terem saído de Madalena sete demônios não demonstra, necessariamente, que ela fora pecadora, embora provavelmente o indique. — d) As palavras: a que ungiu (Jo 11, 2: ἡ ἀλείψασα) não pode referir-se à unção feita em Betânia (cf. Jo 12, 3ss), que ainda não fora mencionada, mas a uma unção anterior, qual seja: à referida por Lc 7, 37. — e) Que Lc 7, 36-50 fale da pecadora como de uma pessoa desconhecida e logo adiante, em 8, 2, de Maria chamada Madalena não prova que são duas mulheres distintas; nada impede, v.gr., que o evangelista, ao falar da pecadora, tenha julgado mais prudente omitir-lhe o nome. — f) As cenas descritas por Lc 7, 36ss e Jo 12, 3ss são tão parecidas (alabastro, enxugar os pés com os cabelos etc.), que não poderiam ser repetidas senão pela mesma mulher.

Conclusão. — O testemunho dos Padres, tomado isoladamente, não é muito favorável à identidade entre as três mulheres. As razões exegéticas pesam mais a favor da distinção entre elas [11], excetuando talvez Jo 11, 2 (ἡ ἀλείψασα), que parece sugerir a identidade de duas (não de três). Como não há razões conclusivas para nenhuma das soluções, e como a Igreja nunca definiu nada a esse respeito, há a liberdade de opinião. — Seja como for, a sentença segundo a qual Maria Madalena, Maria irmã de Lázaro e a pecadora são uma e a mesma mulher pode ser admitida como a mais provável, porquanto não contradiz o texto evangélico, tem seus defensores entre os antigos e não implica dificuldades tão sérias, a ponto de debilitar o valor desta antiga e venerável tradição (cf. Corluy, p. 206s), de algum modo acolhida pela própria Igreja em sua Liturgia.

Referências

  • Este texto é uma tradução adaptada, com acréscimos e omissões de nossa equipe, de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 6.ª ed., Turim: Marietti, 1944, vol. 1, p. 569ss, n.398ss.

Notas

  1. Cf. Maldonado, In Matt. 26, 6s; 27, 56; Calmet, Dissertatio in tres Marias, Comm. VII 451-60; Corluy, In Ioh. 245-61; K. Sickenberger, Ist die Magdalenenfrage wirklich unlösbar?, in BZ 17 (1965) 63-74; A. Lemonnyer, L’onction de Béthanie, in: Rech. sc. relig. 18 (1928) 105-17; P. Ketter, Die Magdalenenfrage, Trier 1929 (= Pastor bonus 40 [1929] 101-18.203-14.264-85); Prat, Jésus Christ II, 501-6; U. Holzmeister, S. Maria Magdalena estne una eademque cum peccatrice et Maria sorore Lazari?, in: VD 16 (1939) 193-9.
  2. J. B. Nisius, art. “Maria Magdalena”, in: Kirchliche Handlexikon 2 (1917) 822; A. Durand, St. Jean 309.33; (ao que parece) Prat, loc. cit.
  3. Faber Stapulensis (Lefèvre d’Etaples), De Maria Magdalene, Parisiis 1516; Salmerón, t. 4, tr. 6; G. Estius, Calmet, que diz ser esta a opinião mais comum entre os doutores de seu tempo; Lagrange, loc. cit. 531; St. Luc., 235s; Holzmeister, ll. cc.; Sickenberger, loc. cit.; Leben §92.93; Innitzer, Ioh. 334-7; Ketter, loc. cit.;Buzy, Paraboles 239-42; Marchal, Lc 106; Renié, Manuel, IV, 318, adn. 3; Tillmann, Ioh. 231s; Schmid, Lk i. l.; Lauck, Joh. 291.
  4. Quase todos os ocidentais após São Gregório Magno; J. B. Solerius (du Sollier), Acta Sanctorum, ad 22 Iul. (jul. 5, 187-225); Corluy, loc. cit.; M.-J. Ollivier, Revue Thomiste 2 (1894) 585-613; Didon, Jésus-Christ I, 352-5; Le Camus, Les Origines…, II, 293ss; Fouard, Vie…, I, 339-41; Kaulen, Kirchenlexikon VIII, 735-8; K. Kastner, BZ 13 (1915) 345; Lesêtre ap. Vigouroux Dict. IV, 809-18; Cladder, Unsere Evangelien, 173s; Lemonnyer, loc. cit.; Simón; Schuster-Holzammer, Historia, II, 201s; G. Mezzacasa, “De tribus et unica Magdalena”, in: Perfice Munus 3 (1928) 434-8. Entre os acatólicos, Bernard, St. Joh. II, 410-14.
  5. Cf., v.gr., Maldonado, In Lc 7, 3: “opinião constante de todos os antigos autores”; Didon, Jésus-Christ, I, 352: “uma tradição quase unânime”.
  6. Investigou com grande acuidade este aspecto da questão La Grande, Jésus a-t-il été oint plusieurs fois et par plusieurs femmes?, in: RB NS 9 (1912) 504-32; com maior amplitude U. Holzmeister, “Die Magdalenenfrage in der christlichen Ueberlieferung”, in: Zeitschr. für kath. Theol. 46 (1922) 402-22.556-85; mais compendiosamente Ketter, loc. cit., c. 34-43.
  7. Houve “muitos autores” (v.gr., Bossuet, Calmet, Tillemont) que distinguiram duas ou três mulheres, mesmo depois que a Faculdade de Teologia de Paris, a “Sorbonne”, declarou no ano de 1521 que se deve sustentar a sentença que defende a unidade (cf. Holz., loc. cit., 199).
  8. Holzm. VD, loc. cit., 199, explica como São Gregório chegou a essa conclusão.
  9. A oração antiga para a sua festa diz: Beátæ Maríæ Magdalénæ, quǽsumus, Dómine, suffrágiis adjuvémur: cuius précibus exorátus, quatriduánum fratrem Lázarum vivum ab ínferis resuscitásti: Qui vivis et regnas…, “Sejamos assistidos, Senhor, vo-lo pedimos, pelos sufrágios de Santa Maria Madalena, por cujas preces fizestes ressurgir vivo dos infernos seu irmão Lázaro, morto havia quatro dias”.
  10. Cf. Le Camus, Vie de J.-Ch. III, 31ss.
  11. O argumento tomado da índole generosa das três mulheres é de todo artificial. É bastante semelhante a índole de Madalena e da pecadora, mas Maria irmã de Lázaro é uma mulher quieta e contemplativa (cf. Lc 10, 39ss), o que torna difícil imaginá-la a percorrer com o Senhor e os Apóstolos toda a Galileia, como se lê a respeito de Madalena (cf. Lc 8, 1s). O argumento tomado da Liturgia, segundo os próprios especialistas na matéria, tampouco prova nada de modo conclusivo.

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Quem são os “irmãos do Senhor”?
Doutrina

Quem são os “irmãos do Senhor”?

Quem são os “irmãos do Senhor”?

No Novo Testamento se fala muitas vezes dos irmãos e das irmãs do Senhor. Sobre esse assunto, um aparente problema para a virgindade de Maria, há três soluções possíveis: uma herética, outra infundada e uma comum e certa...

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Julho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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No Novo Testamento se fala muitas vezes dos irmãos e das irmãs do Senhor (cf. Mt 12, 46s; 13, 55ss; Mc 3, 31s; 6, 3; Lc 8, 19s; Jo 2, 12; 7, 3.5.10; 20, 17; At 1, 14; 1Cor 9, 5; Gl 1, 19). Não sabemos quem eram as irmãs; dos irmãos, quatro são expressamente nomeados: Tiago, José, Judas e Simão. 

Sobre esse assunto, um aparente problema para a virgindade de Maria, há três soluções possíveis: uma herética, outra infundada e uma comum e certa. Vejamos primeiro cada uma delas; em seguida, oito razões em prol da doutrina católica; por último, algumas objeções frequentes entre protestantes e as respostas que lhes podemos dar.

I. Irmãos do Senhor?

1.ª solução, heterodoxa. — Alguns antigos hereges (por exemplo, Helvídio, Bonoso Sardenho, Celso, Joviniano etc.) e, mais tarde, os socinianos, muitos protestantes e racionalistas ousaram afirmar que São José e a bem-aventurada Virgem Maria tiveram outros filhos além de Jesus. Essa proposição é dogmaticamente inaceitável em virtude da solene declaração da Igreja e da tradição constante e unânime dos Padres, além de ser historicamente inadmissível pelas razões que daremos abaixo, quando expusermos a doutrina verdadeira.

2.ª solução, infundada. — Alguns Padres e autores antigos (por exemplo, Orígenes, Santo Hilário, São Gregório de Nissa, Santo Ambrósio, Santo Epifânio, São Cirilo de Alexandria, Eusébio, e também Crisóstomo e Santo Agostinho, que depois mudaram de opinião), influenciados talvez por invenções apócrifas [1], pensavam que os irmãos do Senhor eram filhos de São José nascidos de algum matrimônio anterior, antes de ele se casar com a bem-aventurada Virgem Maria. Essa proposição não pode ser sustentada pelos católicos, uma vez que, segundo o sentir comum da Igreja ao longo dos séculos, São José guardou sempre a virgindade nem teve outra esposa além da Virgem Santíssima.

Mas há ainda outra razão para rejeitá-la. A própria Escritura diz expressamente quem era a mãe de dois dos irmãos do Senhor, Tiago e José. Trata-se de Maria, irmã da Mãe do Senhor (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40; 16, 1; Jo 19, 25). Ora, como é possível que São José, chamado justo pelo Espírito Santo (cf. Mt 1, 19), tenha atentado outro matrimônio, enquanto ainda era viva a primeira (e legítima) esposa?

3.ª solução, comum e certa. — No Evangelho, a expressão “irmãos do Senhor” (o mesmo vale para “irmãs”, naturalmente) não significa irmãos germanos, ou uterinos, mas apenas consanguíneos em diferentes graus de parentesco. Assim pensa São Jerônimo e a maioria maciça dos católicos. E há várias razões para isso.

II. A doutrina católica

1) Antes de tudo, é consequência do dogma da virgindade perpétua de Maria [2], doutrina atestada por vários documentos, desde o início do cristianismo (por exemplo, o símbolo apostólico, o símbolo de Epifânio, a profissão de fé de Dâmaso, a carta de Santo Inácio aos efésios, a apologia de Aristides a Adriano, a apologia de São Justino a Antônio, a carta de Sirício Accepi litteras vestras etc.).

2) Está em conformidade com o uso bíblico da palavra “irmão” (hebr. ’ach, gr. ἀδελφός). De fato, vários exemplos tanto do Antigo como do Novo Testamento demonstram que a expressão significa não apenas irmãos germanos, mas quaisquer parentes. Ló, por exemplo, é chamado irmão de Abraão (cf. Gn 13, 8; 14, 12) e Jacó de Labão (cf. Gn 29, 15), embora nenhum dos dois fosse irmão, mas sobrinho. A mulher e a esposa são chamadas irmãs (cf. Ct 4, 9), e também aos amigos e membros da mesma cidade ou tribo se dá o nome de irmãos (cf. Ex 2, 11; 2Rs 2, 26; Mt 25, 40; At 11, 29 etc.) [3].

3) Em terceiro lugar, ainda que se fale muitas vezes dos irmãos do Senhor, ninguém além de Jesus é chamado filho de Maria, assim como Maria não é chamada mãe de ninguém a não ser de Jesus.

4) Além disso, se a bem-aventurada Virgem tivesse outros filhos, o Senhor, pouco antes de morrer na cruz, não poderia ter dito: “Mulher, eis aí o teu filho” (ὁ υἱός σου); João, com efeito, não era ὁ υἱός, o filho (com artigo definido), muito menos o primeiro entre os filhos. Além do que, os outros filhos dela, entre os quais estaria o Apóstolo Tiago Menor, irmão do Senhor (cf. Gl 1, 19), veriam o gesto quase como uma afronta, isto é, uma acusação de que tinham pouco cuidado pela mãe, confiada por isso a um dos caçulas… 

Tampouco faltam razões para pensar que os chamados irmãos do Senhor eram, na verdade, primos maternos ou paternos dele.

5) De fato, a Maria que é chamada mãe de dois deles, Tiago e José (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; Lc 24, 10), é chamada também irmã de Maria, Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25), como já foi dito antes.

Ora, a palavra “irmã” pode ser entendida aqui de dois modos: a) em sentido estrito, enquanto significa que a primeira Maria era filha dos pais de Nossa Senhora, Joaquim e Ana; b) ou em sentido amplo, na medida em que o marido dela, Cléofas (cf. Jo 19, 26), seria irmão de São José, o que já foi atestado por Hegesipo (cf. Eusébio, HE IV 22), palestino do séc. II. Nada impede, aliás, que admitamos ambas as hipóteses.

6) Ademais, como também afirma Hegesipo, Tiago e Simão eram primos paternos do Senhor, e ao menos Simão era filho de Cléofas. Eis as palavras dele referidas por Eusébio: “Depois que Tiago, chamado o Justo, padeceu o martírio assim como o Senhor, pela mesma razão um outro filho do tio dele [de Cristo ou de Tiago?], Simão de Cléofas, foi constituído bispo, a quem todos indicaram por ser o segundo primo do Senhor”.

7) Some-se a isto que Judas era irmão de Tiago (cf. Lc 6, 16; Jd 1), como atesta ainda Hegesipo (cf. Eusébio, HE iii 20): “Naqueles tempos [a saber: de Domiciano], ainda viviam alguns da família do Senhor, sobrinhos daquele Judas que era chamado irmão dele [de Tiago] segundo a carne. Estes eram acusados de ser da estirpe de Davi” [4].

Tudo isso, no entanto, parece ir de encontro ao fato de o Apóstolo Tiago, que é chamado irmão do Senhor (cf. Gl 1, 19), ser chamado também filho de Alfeu em Mt 10, 3. 

8) Mas isso se pode explicar também de dois modos: a) ou consideramos que Cléofas, ou Clopas, é a mesma pessoa que Alfeu, o qual, como era costume, teria dois nomes (por exemplo, João Marcos, Tomás Dídimo, Mateus Levi etc.); de fato, é possível que Alfeu e Cléofas (ou Clopas, Κλωπᾶς) equivalham ao mesmo nome, Chalpai (חֲלפי), pronunciado com maior ou menor suavidade. — b) Ou se trata de duas pessoas distintas, de forma que Alfeu seria casado com Maria, irmã de Cléofas e de São José, da qual nasceram Tiago e José, enquanto Cléofas seria pai de Simão e Judas, todos eles, portanto, primos de Cristo [5].

III. Objeções e respostas

1.ª objeção: No Evangelho (cf. Mt 1, 25; Lc 2, 7), Cristo é chamado primogênito (gr. πρωτότοκος) de Maria. Logo, Maria, depois do parto de Cristo, teve outros filhos.

Resposta: Segundo a Lei (cf. Ex 13, 2ss; 34, 19s; Nm 3, 47ss; 18, 15), considera-se primogênito todo o que primeiro sai da vulva (lt. quidquid primum erumpit e vulva, gr. πᾶν διανοῖγον μήτραν), quer se lhe sigam outros filhos ou não. A razão é que sobre o primeiro filho recaíam alguns preceitos da Lei que os pais estavam obrigados a cumprir, para o que não deviam esperar até o nascimento de outro filho, obviamente [6]. Logo, o vocábulo “primogênito” designa não só o filho depois do qual vieram outros, mas também aquele antes do qual não veio nenhum. Noutras palavras, todo unigênito é primogênito, embora nem todo primogênito seja unigênito [7].

Vale ainda recordar uma inscrição funerária judaica descoberta no início do século passado e publicada por C. C. Edgar nos Annales des Antiquités de l’Egypte (cf. vol. 22, 1922, pp. 7–16). Nessa inscrição, pertencente à época de Augusto (provavelmente ao séc. V a.C., ou seja, pouco antes do nascimento de Cristo), lê-se que certa jovem morreu em meio às dores do parto de seu primogênito. Logo, para ela o primogênito foi também o unigênito [8].

“A Adoração dos Reis Magos” por Carlo Dolci.

2.ª objeção: No Evangelho, diz-se explicitamente de José e Maria: “Estando Maria, sua mãe, desposada com José, achou-se ter concebido por obra do Espírito Santo, antes de coabitarem” (Mt 1, 18). Logo, depois de coabitar e consumar o casamento, tiveram outros filhos. E de José se diz igualmente: “E não a conhecia até que ela pariu o seu filho primogênito” (Mt 1, 25). Logo, depois do parto a conheceu carnalmente.

Resposta: a) O verbo “coabitar” (lt. convenire, gr. συνελθεῖν) não significa “consumar matrimônio”, mas apenas que Maria e José, no tempo da Encarnação, não viviam juntos na mesma casa, o que fizeram só mais tarde (cf. Mt 1, 20.25). Com efeito, as mulheres desposadas, entre os hebreus, não eram levadas de imediato para a casa do esposo e, por esse motivo, não costumavam viver com ele sob o mesmo teto antes de celebrar solenemente as núpcias.

b) Além disso, a locução “até que” (lt. donec, gr. ἔως), assim como “antes que” e outras similares, é utilizada na Escritura para exprimir muitas vezes o que não aconteceu até um determinado tempo, sem que se possa inferir daí que tenha acontecido depois [9]. Assim, por exemplo, lê-se em 2Sm 6, 23: “E Micol, filha de Saul, não teve mais filhos até o dia da sua morte”, o que não significa que os teve depois de morta, e em Sl 109, 2: “Senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés”, o que não significa que, feito isso, não se sentará mais à direita de Deus etc. (cf. Gn 8, 7; 49, 10.26; Sl 122, 2 e muitos outros lugares).

Ora, a finalidade do evangelista era mostrar que Cristo não foi concebido de José (= o que não aconteceu), mas virginalmente, conforme o vaticínio de Isaías a que explicitamente se refere, e não a de narrar o restante da vida de Maria, sobre a qual não pretende afirmar ou negar nada. Por isso, ainda que se interprete “coabitar” como “consumar matrimônio”, das palavras do evangelista não se segue de modo algum que Maria e José tenham-se unido depois, só porque não o tinham feito até então.

3.ª objeção: Embora nas línguas hebraica e aramaica, de fato, não haja um termo técnico e específico para designar os primos (tinham de dizer, com algum incômodo, filho do irmão do pai…), daí não se segue que os irmãos do Senhor fossem primos dele. A razão é que o grego do Novo Testamento, sim, possui um termo técnico e específico para designar os primos (ἀνεψιοί), que os hagiógrafos deveriam ter utilizado no lugar de ἀδελφοί, para não induzir o leitor em erro. Logo, se falam de ἀδελφοί, é porque se trata realmente de irmãos de sangue, não de primos ou parentes em outro grau.

Resposta: A tradução dos LXX sempre verte o vocábulo hebraico ’ach como ἀδελφοί, e não como ἀνεψιοί, mesmo quando é evidente que ele está sendo usado em sentido lato para significar “primos”. A expressão οἱ ἀδελφοὶ τοῦ Κυρίου surgiu no contexto da catequese grega à imitação da versão grega dos LXX e por isso tornou-se como um “termo técnico”, sem perigo algum de erro, já que todos sabiam por tradição o que ela queria dizer. Além do mais, até o final do séc. II não houve qualquer discussão acerca do sentido das palavras “irmãos do Senhor”; esse modo de dizer, por conseguinte, não era visto como contrário ao dogma da virgindade perpétua de Nossa Senhora [10]. 

Referências

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada, com acréscimos e omissões, de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 248s, n. 162; p. 344, n. 236, e de Gabriel M.ª Roschini, Mariologia. 2.ª ed., Roma: A. Belardetti (ed.), 1948, vol. 3, p. 262s.

Notas

  1. Concretamente, o Protoevangelho de Tiago (séc. II), o Evangelho da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, a História de José, o Carpinteiro (séc. IV) e o Evangelho de Pedro (séc. II).
  2. É de fé divina e católica definida que a bem-aventurada Mãe de Deus Maria Santíssima foi e permaneceu sempre e perfeitamente virgem, antes, durante e depois do parto, com virginidade de corpo (integridade física inviolada) e de mente (disposição perpétua de abster-se de toda e qualquer prática venérea, inclusive por simples desejo). Cf., por exemplo, a definição solene do Concílio de Latrão, de 649, no cânon 3 (DH 503): “Se alguém não professa… que depois do parto permaneceu inviolada a sua [de Maria] virgindade, seja condenado”, e a declaração de Paulo IV, ao condenar na bula “Cum quorumdam hominum” (DH 1880), de 1555, a seita dos unitários, que afirmavam que “a beatíssima Virgem Maria não… permaneceu sempre na integridade virginal, a saber: antes do parto, no parto e perpetuamente depois do parto” (ante partum scilicet, in partu et perpetuo post partum). Uma explicação ao mesmo tempo sucinta e detalhada dessa doutrina encontra-se disponível nesta resposta católica.
  3. Cf. F. Lucas Brugensis, In Sacrosancta IV Iesu Christi Evangelia Commentarius. Antuerpiæ, 1606, p. 190: “Tornou-se uso nas línguas hebraica e síria que o nome de irmãos significasse os parentes e todos aqueles que são de uma mesma família”. — É evidente, de resto, que a palavra “irmão”, no plural, serve muitas vezes, não só nos evangelhos como em outros livros do Novo Testamento, para designar genericamente o conjunto dos fiéis cristãos. Assim, por exemplo, se lê em Jo 21, 23: “Correu esta voz entre os irmãos (τοὺς ἀδελφοὺς) que aquele discípulo não morreria”, e em At 1, 15: “Naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos irmãos (τῶν ἀδελφῶν)” etc., entre os quais se incluem as santas mulheres, Maria, Mãe de Jesus, e também os irmãos dele (cf. At, 1, 14: τοῖς ἀδελφοῖς αὐτοῦ), isto é, seus parentes e discípulos. Cf. F. X. Patrizi, De Evangeliis Libri Tres. Friburgi Brisgoviæ, Herder, 1853, p. 104, n. 42 (= l. I, c. 3, q. 5, §1).
  4. Cf. J. Knabenbauer, Commentarius in Evangelium secundum Matthæum. 3.ª ed., Paris: P. Lethielleux (ed.), 1922, p. 565s: “É coisa conhecidíssima que, entre os hebreus, o nome ‘irmão’ designa não somente o irmão germano e uterino, mas também qualquer parente ou consanguíneo (cf. Gn 14, 16; 13, 9; 24, 48; 29, 12; 2Sm 10, 13 etc.). Ora, os irmãos do Senhor, Tiago, José, Simão e Judas, eram filhos de Maria, irmã da Mãe do Senhor, isto é, de Maria esposa de Cléofas (cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; 16, 1; Jo 19, 25). E São Jerônimo escreve: ‘Nós, como está no livro que escrevemos contra Helvídio [De virginitate perpetua B. Mariæ], entendemos que os irmãos do Senhor são primos do Salvador, filhos de Maria, tia de Cristo, a qual é chamada mãe de Tiago Menor, de José e de Judas, que em outro evangelho são chamados irmãos do Senhor. Ora, que os primos sejam chamados irmãos, toda a Escritura o demonstra’. — Hegesipo (cf. Eusébio, HE IV 30.4) diz que Cléofas era irmão de José. Segundo Orígenes (cf. PG 13, 876), no evangelho [apócrifo] de Pedro se dizia que eles eram filhos de José e sua primeira esposa, opinião que Jerônimo rejeita como delírio dos apócrifos, e Santo Tomás também observa contra ela: ‘Cremos que, assim como a Mãe de Jesus foi virgem, também José o foi, porque [Deus] confiou a Virgem a um virgem tanto no fim como no princípio’. Que eles não possam de modo algum, contra os racionalistas e muitos outros, ser considerados irmãos germanos e uterinos de Jesus, é evidente com base nas passagens citadas e também em Lc 1, 34: ‘Porque não conheço varão’”.
  5. Para outros, a Maria dita esposa de Alfeu seria filha de Cléofas, de sorte que o genitivo de Cléofas seria de origem, não de posse (cf. Van Hasteren, Studien, vol. 65, p. 187).
  6. Cf. C. Pesch, Compendium Theologiæ Dogmaticæ. Friburgi Brisgoviæ, Herder, 1913, vol. 3, p. 104: “A Lei se aplica a Maria tal como soa e foi dada a todos, não para este [e aquele] caso particular. Jesus, que viera cumprir a Lei, quis também que este preceito fosse cumprido em si e em sua Mãe porque não poderia ser omitido sem escândalo para outros, e porque Ele mesmo era aquele a quem a Lei tipicamente prefigurava”.
  7. Cf. Santo Tomás de Aquino, STh III 28, 3c., onde dá quatro razões teológicas de conveniência para a virgindade de Maria após o parto: “1) Por parte de Cristo, que, do mesmo modo que o Unigênito do Pai segundo a divindade é perfeito Filho dele em tudo, assim convinha que fosse o Unigênito da Mãe, como fruto perfeitíssimo dela. — 2) Por parte do Espírito Santo, cujo sacrário foi o útero virginal no qual formou a carne de Cristo; donde, não convinha que fosse depois violado pela comistão viril. — 3) Por parte de Maria, Mãe de Deus, que pareceria ingratíssima se não se contentara com tão grande Filho, e se voluntariamente quisesse perder pelo concúbito da carne a virgindade que nela fora milagrosamente conservada. — 4) Por parte de São José, a quem se haveria de imputar a máxima presunção, se atentasse poluir aquela que, por revelação do anjo, soubera ter concebido a Deus. E por isso se deve afirmar absolutamente que a Mãe de Deus, assim como concebeu virgem e pariu virgem, assim também permaneceu virgem após o parto para sempre [in sempiternum]”.
  8. Cf. J.-B. Frey, La signification du terme πρωτότοκος d’aprés un inscription juive, em: Biblica, vol. 11, n.º 4 (1930), p. 386, ll. 5–6: “… ὠδεῖνι δὲ Μοῖρα / πρωτοτόκου με τέκνου πρὸς τέλος ἦγε βίου”.
  9. Já Helvídio pretendera impugnar a virgindade post partum nessa linha, interpretando “antes de coabitarem” (lt. priusquam convenirent) como “antes de se conhecerem”. São Jerônimo respondeu-lhe com seu habitual e cáustico bom humor (cf. De virg. perp. 4: PL 23, 195): Helvídio, antes de fazer penitência, morreu. Quer dizer então que se arrependeu depois de morto, embora diga a Escritura que “na morte não há quem se lembre de ti” (Sl 6, 6)? V. também J. Corluy, Commentarius in Evangelium S. Joannis. Gandavi, C. Poelman (ed.), 1878, p. 168.
  10. Cf. Dom Estevão Bettencourt, Pergunte e Responderemos, n.º 472 (2001), p. 432: “Não se pode esquecer que a língua grega dos evangelhos supõe um fundo semita, pois o Evangelho é a redação escrita da pregação oral dos Apóstolos feita em aramaico. Ora, em aramaico o vocábulo ’ach significa parente ou familiar, e é com este sentido amplo que ele é traduzido para o grego pelo termo ἀδελφός. Deve-se, pois, entender ἀδελφός no sentido de ’ach aramaico”.

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Um dos artigos mais obscuros da nossa fé
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Um dos artigos
mais obscuros da nossa fé

Um dos artigos mais obscuros da nossa fé

A descida de Jesus à chamada “mansão dos mortos” talvez seja um dos artigos mais obscuros e incompreendidos de nossa fé. Fala-se muitíssimo pouco a seu respeito, embora ele conste expressamente no Credo, que rezamos todos os domingos.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Julho de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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A descida de Jesus à chamada “mansão dos mortos” talvez seja um dos artigos mais obscuros e incompreendidos de nossa fé. Fala-se muitíssimo pouco a seu respeito, e no entanto ele consta expressamente no Credo Apostólico, que rezamos todos os domingos na Santa Missa. 

A fim de sanar essa ignorância — e também para combater certos erros modernos —, tratemos brevemente do assunto. 

Jesus desceu “aos infernos”

No latim, a expressão que se usa no Credo para resumir esse acontecimento é descendit ad ínferos (lit. “desceu aos infernos”). Mas, justamente para não confundir nossa cabeça — e não pensarmos que Jesus desceu ao inferno dos condenados —, é até melhor que usemos a expressão “mansão dos mortos” (com a qual estamos acostumados por causa de nossa tradução litúrgica). 

De fato, os judeus acreditavam, desde o Antigo Testamento, que, quando uma pessoa morria, a sua alma imortal ia para junto de seus pais, num lugar chamado sheol (cf., v.g., Gn 37, 35, Nm 16, 30-33; Jn 2, 3). Nosso Senhor mesmo aludiu a isso quando profetizou acerca de si mesmo: “Do mesmo modo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do Homem ficará três dias e três noites no seio da terra” (Mt 12, 40). Essa expressão (gr. καρδίᾳ τῆς γῆς, lit. “coração da terra”) não é o sepulcro, mas as “regiões inferiores” ou “infernais”, por assim dizer (o prefixo latino infer designa simplesmente algo que está embaixo). 

As almas dos mortos, porém, não se misturavam indistintamente nesse lugar. A parábola do pobre Lázaro e do rico epulão (cf. Lc 16, 19-31) nos recorda a separação que, mesmo antes de Cristo, havia entre bons e maus: enquanto estes se condenavam para um lugar de fogo e tormentos eternos, aqueles iam para o “seio de Abraão”. E foi para este último lugar, especificamente, que desceu Nosso Senhor Jesus Cristo: 

Há quatro infernos: o inferno dos condenados, o purgatório, o limbo das crianças e o limbo dos justos ou seio de Abraão. O inferno ao qual desceu Cristo não é o dos condenados, mas o lugar onde moravam as almas dos justos que morriam antes de ter-se realizado a redenção — e que recebe o nome de limbo dos justos (limbus Patrum) [1].

Se falamos dos efeitos que produziu, Cristo baixou a todos os infernos que se conhecem, mas com diferente finalidade a cada um. E assim, baixou ao inferno dos condenados para convencê-los de sua incredulidade e malícia; ao purgatório, para dar-lhes a esperança de alcançar a glória, e ao limbo dos patriarcas, para infundir a luz da glória eterna nos justos que ali estavam retidos unicamente pelo pecado original da natureza humana. Mas por sua própria presença real Ele desceu unicamente ao limbo dos patriarcas, a fim de visitar em sua morada, com a alma, aqueles que pela graça havia visitado interiormente com sua divindade. E desde ali estendeu aos demais infernos sua influência da forma como dizemos, de modo semelhante a como, padecendo em um só lugar da terra, libertou com sua Paixão o mundo inteiro [2].

Quando professamos que Jesus “desceu à mansão dos mortos”, então, estamos falando do que aconteceu à alma de Cristo durante o tempo entre sua morte e ressurreição. Enquanto o seu divino corpo estava no sepulcro, sua alma santíssima foi para junto dos mortos, a fim de resgatar os que entre eles eram justos e abrir-lhes as portas do Céu, até então fechadas a todos, como consequência do primeiro pecado.

Muitos artistas procuraram representar esse momento da história da salvação (que permaneceu oculto, evidentemente, aos olhos de todos): nesses retratos, Jesus Cristo é visto, ressuscitado, inclinando-se para resgatar os patriarcas, à frente dos quais estão ninguém menos que Adão e Eva. 

Uma descida salvadora

“Descida de Cristo ao Limbo”, por Andrea Mantegna.

Uma boa forma de explicar esse artigo de fé é inserindo-o no grande quadro da nossa salvação. 

De fato, a história humana é uma longa linha do tempo, no centro da qual se encontra ninguém menos que Nosso Senhor Jesus Cristo. Se estamos no ano 2021, é porque se passaram 2021 anos desde o nascimento de Cristo. Todas as vezes que escrevemos a data, estão implícitas as abreviações d.C. (“depois de Cristo”) ou A.D. (anno Domini). Ainda que nossos contemporâneos tentem eliminar essa referência, chamando a nossa época simplesmente de “Era Comum” (E.C.), a luz de Cristo refulge através dos séculos, e é debalde qualquer esforço por escondê-la ou apagá-la.

Só que Jesus não está no centro da história como um simples “ponto de referência” do passado, que nada tem a ver com nossas vidas. Como sabemos pela fé, Ele é o próprio Deus que salva. O significado do seu nome é o que Ele fez (e faz) por todos os homens. Há uma diferença, porém, no modo como Ele salvou os que vieram antes dele e como Ele salva a nós, que viemos depois. É o que nos explica Santo Tomás de Aquino:

A paixão de Cristo foi uma espécie de causa universal da salvação dos homens, tanto dos vivos como dos mortos. Ora, a causa universal se aplica aos efeitos particulares segundo algo especial. Portanto, assim como o poder da paixão de Cristo se aplica aos vivos por meio dos sacramentos, que nos configuram com a paixão de Cristo, também é aplicada aos mortos por meio de sua descida aos infernos. Por isso, diz claramente Zc 9, 11: “Vou libertar teus cativos desta cisterna sem água por causa da aliança que contigo fiz, selada com sangue”, isto é, pelo poder de sua paixão (STh III 52, 1 ad 2).

Os sacramentos são para nós, portanto, o que foi o descensus para os justos do Antigo Testamento. Jesus nos resgata da “cisterna sem água” dos nossos pecados pelo Batismo; aos nossos pais, porém, Ele salvou indo-lhes ao encontro na região dos mortos. 

Uma verdade de fé

Como não estamos acostumados com a catequese sobre esse acontecimento, podemos nos perguntar: é realmente “de fé” — ou seja, é obrigatório acreditar — que Jesus de fato desceu com sua alma para salvar os mortos antes dele, ou isso é apenas uma “especulação teológica”?

“Descida de Cristo ao Limbo”, por Sebastiano del Piombo.

Ao que devemos responder que sim, essa é uma verdade de fé, sobre a qual falam todos os bons catecismos e livros de teologia dogmática (cf., v.g., as citações acima, cujas referências se encontram abaixo), e isso com base em inúmeros registros das Escrituras [3], da Tradição e do próprio Magistério da Igreja.

O silêncio de nossa época a respeito desse artigo de fé se deve, em primeiro lugar, como já dissemos, à singularidade do fato: a descida de Jesus à mansão dos mortos não aconteceu na frente de todos, não foi atestada por inúmeras testemunhas oculares — como foram, por exemplo, seus milagres — e, até por isso, não foi narrada meticulosamente por nenhum evangelista. Por falta de detalhes, é um assunto sobre o qual, naturalmente, pouco se fala

Mas, em nossa época, há também um fator que não devemos subestimar. Seu nome é incredulidade. É uma infeliz tendência da teologia moderna depreciar, ignorar ou até mesmo negar os acontecimentos mais extraordinários da vida de Cristo. As reflexões de nossos “eruditos” estão cheias de espírito cético, racionalista e antissobrenatural. É muito comum ver os teólogos contemporâneos qualificando, inclusive, as várias descrições da descida de Cristo aos infernos como resquícios de uma “mitologia pagã”. Quando a própria existência da alma humana é questionada por um sem-número de teólogos, não impressiona que a descida da alma de Cristo à mansão dos mortos seja igualmente posta em questão e distorcida, quando não negada de todo. 

Agora, que os incrédulos não creiam, não é novidade alguma. A nós cabe preservar o que nós mesmos recebemos de outrem. Como disse o Apóstolo: Ego accepi a Domino quod et tradidi vobis, “Eu recebi do Senhor o que vos transmiti” (1Cor 11, 23). Só assim seremos católicos de fato: preservando o depósito da Revelação, a Tradição de nossos pais na fé. 

Notas

  1. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. Barcelona: Herder, 1966, p. 301. 
  2. Antonio Royo Marín, Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 348.
  3. Em 1Pd 3, 19, v.g., se afirma claramente que, uma vez morto segundo o corpo, Cristo desceu em espírito ao cárcere (gr. ἐν φυλακῇ, lt. in carcere), isto é, ao sheol (cf. At 2, 27.31) para pregar às almas (gr. τοῖς πνεύμασιν, lt. spiritibus, pt. “aos espíritos”) aí detidas. No entanto, os intérpretes divergem quanto à finalidade da descida e à qualidade das almas: a) para uns, este cárcere seria o limbo dos patriarcas, aos quais o Senhor foi anunciar a libertação que tanto aguardavam (cf. J.-A. van Steenkiste, Epistolæ Catholicæ Breviter Explicatæ. 2.ª ed., Brugis, 1887, p. 82); b) para outros, este cárcere designaria genericamente a mansão dos mortos, de maneira que aos ímpios Cristo confirmou a condenação e aos justos anunciou a redenção (J. Frings, “Zu I Petr. 3, 19 und 4, 6”, in: Bibl. Zeits. 17 [1925], pp. 75–88); c) para outros, enfim, Cristo teria descido ao lugar em que se achavam os que, incrédulos, desprezaram os avisos de Noé, mas se arrependeram assim que rebentou o dilúvio (cf. v. 20; H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. Taurini: Marietti, 1942, vol. 2, p. 448, n. 925).

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