Pelo fato de ser móvel a data da Páscoa, bem como tudo o que dela depende, as Têmporas de Setembro podem cair em qualquer semana entre o 13.º e o 20.º Domingo depois de Pentecostes. Neste ano elas caem na 15.ª semana [i], mas no próximo cairão na 16.ª. No Missal Romano, elas são tradicionalmente inseridas após a 17.ª semana, uma disposição textual que reflete um tema bastante antigo a permear as Missas desses dias de Têmporas.

A Coleta do 17.º Domingo depois de Pentecostes é muito antiga e se encontra em diferentes lugares nas várias versões do Sacramentário Gelasiano. Desde o final do séc. VIII, no entanto, ela já se achava fixada no 17.º Domingo no Sacramentário Gregoriano: Da quæsumus, Domine, populo tuo diabolica vitare contagia, et te solum Deum pura mente sectari — “Dai, Senhor, ao vosso povo evitar as ciladas do demônio e servir de mente pura a vós, único Deus” [ii]. Essa é a única Coleta de Missa do ano eclesiástico a fazer uma alusão direta à influência diabólica, mas a Secreta do 15.º Domingo traz um tema similar: Tua nos, Domine, sacramenta custodiant, et contra diabolicos semper tueantur incursus — “Que os vossos sacramentos nos guardem, Senhor, e nos defendam sempre das investidas do demônio”.

Na Quarta-feira das Têmporas de Setembro, o Evangelho relata a cura de um jovem possesso (cf. Mc 9, 16-28) [iii]. Com exceção dos tempos da Páscoa e da Ascensão, o antigo Lecionário romano faz pouco uso de São Marcos, não obstante a tradição de que o evangelista foi discípulo de São Pedro e compôs o Evangelho quando ainda estava com ele em Roma. Aqui, sua versão foi certamente escolhida por conta da narrativa comovedora do diálogo entre Cristo e o pai do menino, a qual se encontra com menos detalhes na versão de São Mateus:

Jesus perguntou ao pai: “Há quanto tempo lhe acontece isto?”. — “Desde a infância”, respondeu-lhe. “E o tem lançado muitas vezes ao fogo e à água, para o matar. Se tu, porém, podes alguma coisa, ajuda-nos, compadece-te de nós!” Disse-lhe Jesus: “Se podes alguma coisa!... Tudo é possível ao que crê”. Imediatamente exclamou o pai do menino: “Creio! Vem em socorro à minha falta de fé!”

No final da passagem, os discípulos perguntam a Cristo por que não conseguiram expelir o demônio, ao que Ele replica: “Esta espécie de demônios não se pode expulsar senão pelo jejum e a oração”. No Ofício Divino, estas palavras são cantadas nas Laudes como antífona do Benedictus.

Na Sexta-feira das Têmporas, o Evangelho é o da mulher que unge os pés do Senhor na casa de Simão, o fariseu (cf. Lc 7, 36-50). É um dos pouquíssimos exemplos de um Evangelho tirado de outra parte do ciclo temporal; ele também é lido na Quinta-feira da Paixão [N.T.: isto é, na semana anterior à Semana Santa], e uma vez mais na festa de Santa Maria Madalena, com a qual a mulher é tradicionalmente identificada no Ocidente. Essa associação é reforçada, em parte, pelas palavras de São Lucas imediatamente após essa passagem (8, 1-3), ainda que elas não sejam lidas na liturgia:

Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa-nova do Reino de Deus. Os doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses.

No Sábado das Têmporas, o Evangelho consiste em duas histórias de São Lucas (13, 6-17): a parábola da figueira e a cura de uma mulher “possessa de um espírito que a detinha doente: andava curvada e não podia erguer-se de modo algum”. A escolha deste Evangelho para o sábado vem muito a calhar, pois ele se passa na sinagoga, cujo chefe, “indignado de ver que Jesus curava no sábado, disse ao povo: ‘São seis os dias em que se deve trabalhar; vinde, pois, nesses dias para vos curar, mas não em dia de sábado’”. Ao que Cristo respondeu: “Hipócritas! Não desamarra cada um de vós no sábado o seu boi ou o seu jumento da manjedoura, para os levar a beber? Esta filha de Abraão, que Satanás paralisava há dezoito anos, não devia ser livre dessa prisão, em dia de sábado?”

Cada um desses Evangelhos, portanto, faz referência ao mesmo tema da Coleta do 17.º Domingo, a oração da Igreja ao Senhor para que a proteja, a si e a seus membros individuais, da influência maligna do diabo.

É fato notório que as Têmporas constituem um dos mais antigos traços característicos do Rito Romano. O Papa São Leão Magno, que governou a Igreja de 444 a 461, pregou numerosos sermões em dias de Têmporas, e os tinha como de origem apostólica, como ele diz, por exemplo, em seu segundo sermão de Pentecostes: 

Ora, à presente solenidade, diletíssimos, hemos de acrescentar ainda uma tal devoção, que celebremos o jejum que provém da tradição apostólica; porque também isso se há de contar entre os grandes dons do Espírito Santo: que nos foram dadas contra as seduções da carne e as insídias do diabo as armas do jejum, com as quais, pela ajuda de Deus, venceremos todas as tentações (Serm. 76.9: PL 54, 411B).

Do mesmo modo, em seu segundo sermão nas Têmporas de Setembro, ele se refere às palavras de Cristo sobre o jejum, que são lidas na quarta-feira [iv]:

Pois em toda prova do certame cristão é de grandíssimo valor e utilidade a temperança, de tal modo que certos espíritos entre os mais violentos demônios não são expulsos dos corpos possessos por ordem nenhuma dos exorcistas, mas apenas à força de jejuns e de orações, como diz o Senhor: “Esta casta de demônios não se pode expulsar senão pelo jejum e a oração”. É portanto agradável a Deus e terrível para o diabo a oração de quem jejua (Serm. 87.2: PL 54, 439B).

A Coleta do 17.º Domingo depois de Pentecostes é um dos exemplos mais claros de oração que os reformadores pós-conciliares consideraram imprópria aos ouvidos do homem moderno, que não deve jamais ser confrontado com quaisquer ideias “negativas” enquanto está em oração. Não obstante sua antiguidade e a universalidade de seu lugar no Rito Romano, ela foi inteiramente removida do Missal, juntamente com as Têmporas, a maior parte das referências ao jejum e todas as referências ao diabo.

Detalhe inferior da “Transfiguração” de Rafael, que precede o Evangelho da Quarta-feira das Têmporas de Setembro.

Numa tendência similar, quando a pseudo-anáfora de um pseudo-Hipólito foi adaptada como Oração Eucarística II, a versão original da seção paralela ao Qui pridie — que dizia: “Ele, quando foi entregue ao sofrimento voluntário, a fim de dissolver a morte, e romper as cadeias do diabo, e pôr o inferno sob seus pés, e trazer o justo para a luz… e manifestar a ressurreição” — foi reduzida para: “Estando para ser entregue e abraçando livremente a Paixão…”.

No entanto, como notou certa vez o Pe. John Zuhlsdorf, a edição revisada do Missal de 2002 sugere em alguns lugares a consciência de que a reforma pós-conciliar foi longe demais e descartou muito do Rito Romano tradicional. Entre o que foi restaurado está a oração tradicional do 17.º Domingo depois de Pentecostes, que agora aparece como uma Coleta opcional para as Missas in quacumque necessitate, “em qualquer necessidade”, aumentando o número total de referências ao diabo, no Missal, para “um”.

A Instrução Geral do Missal Romano contém uma exortação (e não mais que isso) a que as Rogações e as Têmporas “sejam indicadas” (indicentur, não indicandæ sunt) nos calendários locais, e uma rubrica (I, 45) diz que é dever (oportet) das conferências episcopais estabelecer tanto o tempo quanto o modo de celebrá-las. Não deve ser surpresa para ninguém que essa rubrica tem sido amplamente ignorada.

Entretanto, para qualquer católico que ame a Igreja, uma coisa é praticamente impossível ignorar: o abandono quase completo de todo tipo de disciplina ascética formal, orientada pela liturgia, teve consequências hediondas, e parece ter dado ao diabo liberdade ampla para reinar. Uma restauração permanente e universal da disciplina tradicional do jejum, incluindo as Têmporas, seria um pequeno mas importante passo rumo ao fim desse “livre reinado” do mal.

Notas

  1. Em vários livros litúrgicos medievais, as Têmporas são colocadas após a última Missa do tempo depois de Pentecostes. É o que acontece, por exemplo, com o Missal Sarum (N.A.). O Rito Sarum é uma variante do Rito Romano usada nas Ilhas Britânicas antes da separação da Igreja da Inglaterra à obediência ao papado realizada por Henrique VIII, do Livro de Oração Comum por parte de Jaime I de Inglaterra e da unificação de ritos litúrgicos latinos pela bula papal Quo Primum Tempore de São Pio V (N.T.).
  2. Os manuscritos mais antigos trazem dominum ao invés de Deum; a mudança provavelmente foi feita para evitar a repetição da palavra Domine, já dita no início. Muitos manuscritos trazem puro corde, isto é, “de coração puro”, ao invés de pura mente (N.A.).
  3. Não obstante o esforço dos reformadores litúrgicos por inserir mais trechos bíblicos no Missal Romano, esta perícope está completamente ausente da liturgia reformada pós-Vaticano II (N.T.).
  4. É provável — e agrada-nos pensar — que, no tempo de São Leão Magno, já estivesse estabelecida a tradição do lecionário romano, embora ela tenha sido atestada pela primeira vez só 250 anos depois, com o Lecionário de Wurtzburgo (ca. 700 d.C.). Mas é igualmente possível que o desconhecido compilador desse lecionário tenha escolhido esse Evangelho inspirado pelo sermão do Papa Leão I (N.A.).