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A noite em que eu enfrentei meus demônios
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A noite em que eu
enfrentei meus demônios

A noite em que eu enfrentei meus demônios

"Deus resgatou minha alma doente e entorpecida de um destino literalmente pior que a morte. Sem a sombria epifania que eu experimentei naquele bar, e aquilo a que ela me levou, só Deus sabe onde eu estaria agora."

Dr. John MorrisseyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2015Tempo de leitura: 10 minutos
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Olhando retrospectivamente para os meus 29 anos de médico, acho que o ano em que passei no hospital do câncer foi o mais difícil de todos. Toda quarta-feira e fim de semana, sem falta, eu cobria a unidade de terapia intensiva por 24 horas, como médico residente intermediário. Durante todo o tempo em que passei ali, não vi um único paciente sobreviver, embora não fosse por falta de tentativa. Nenhum sequer.

Todos tinham em comum o fato de a sua médula óssea ter sido suprimida pelas sessões de quimioterapia, o que tinha como consequência infecções generalizadas inevitavelmente fatais. UTI, ressuscitação completa com tubos, ventilação, terapia intravenosa, estimulantes cardíacos: era tudo em vão. Eles morrem porque, sem a médula óssea funcionando, perdem a resposta imune do seu organismo. Nenhuma quantidade de antibióticos consegue impedir que seus corpos sejam infestados por microorganismos.

Obviamente, eu atendia apenas os mais doentes de todos. A maior parte dos pacientes de quimioterapia não sofre complicações tão severas. Com a médula recuperada, o seu câncer regride ou é até mesmo curado.

Eu tinha me tornado médico para curar quando desse, dar alívio na maioria das vezes e confortar sempre, mas aquela contínua experiência de fracasso foi começando pouco a pouco a me deixar para baixo.

Comecei a ficar apavorado com o trabalho no hospital do câncer, com medo de aquele bipe tocar. Mesmo tendo me afastado da prática da fé depois da universidade, comecei a rezar, pedindo que os meus pacientes se recuperassem ou que, pelo menos, eu não estivesse de plantão quando eles fossem admitidos. Minhas orações não foram atendidas. As mortes continuaram acontecendo, implacáveis, e um grande sentimento de vazio e de desespero encheu o meu coração.

O fato de eu estar solteiro, sem amigos, morando sozinho e afogando minhas mágoas, toda noite livre, em um bar ao lado do hospital, só piorava a situação. Nunca me faltavam companheiros – da equipe do hospital, principalmente – com quem beber, rir e me divertir na hora do rush, antes de voltar para jantar, TV e cama. Meu coração batia, mas eu não estava vivo.

Espiritualmente, eu era um alegre pagão, um Baco vestido com um imundo jaleco branco e uma falsa auréola na cabeça. Mesmo tendo vivido uma profunda experiência religiosa dois anos antes, minha vida moral continuava pintada com vários tons de preto e minha cabeça estava cheia de ideias sem sentido de sincretismo e "nova era".

Um dia, escrevendo o relatório de um jovem paciente que tinha acabado de falecer, fiquei paralisado ante a espreita do "cachorro negro" da depressão, pronto para me devorar. Eu estava encarando o vazio e meu rosto deve ter feito soar o alarme, porque um dos parentes da vítima veio me perguntar, preocupado: "Está tudo bem, doutor?" Emocionado com a sua gentileza, eu me desculpei: "Perdão, estou lutando para ver algo de bom aqui. Tem morte demais nesse lugar."

Constrangido com minha própria franqueza e morbidez, corri para a sala de plantão, desorientado à procura de uma introspecção e de alguma conversa com Deus. Nada disso me ajudou, na verdade. As enfermeiras devem ter pensado que eu era um desses senhores velhos e desajeitados.

Outra coisa me incomodava em relação à ética do hospital. Havia uma forte ênfase de pesquisa nos efeitos das terapias: tratamento A versus tratamento B. Tudo medido pelo número total de dias de sobrevivência, incluindo os pacientes da seção de terapia intensiva. Meu único papel parecia ser o de prover, a qualquer preço, aquelas últimas desesperadoras horas de vida, estendidas apenas por intervenções médicas extremas e inúteis. Eu não passava de um mero acessório para a confecção isolada de estatísticas. Parecia haver algo de errado naquilo tudo.

Tive um sonho estranho certa noite. Encapuzado, como um ativista pelos direitos dos animais, eu corria dentro do hospital, rasgando prontuários e dizendo a todos os pacientes que eles pelo menos estavam livres. No mínimo, bizarro.

Outra noite, fiquei até mais tarde no bar, bebendo sozinho depois que meus amigos haviam saído. Eu estava meio bêbado e não havia por que ir para casa, quando, de repente, me sobreveio de não sei que lugar um forte sentimento de paranoia, literalmente assustador. Por um momento, aquele aconchegante bar no qual eu tomava alguns driques se tinha transformado em um antro de horrores. Era como se eu estivesse vendo pela primeira vez aquele lugar como ele realmente era: uma caverna suja repleta de alcoólatras caloteiros e derrotados, e ali estava eu, um membro completo do clube. Os que ali bebiam com frequência eram desconhecidos para mim, mas eu comecei a suspeitar más intenções de cada olhadela deles em minha direção. Senti-me tão sozinho. Comecei a ficar gelado e a suar, à procura de uma rota de fuga.

Um terrível sentimento de morte iminente invadiu a minha cabeça. Eu tinha certeza de que estava para conhecer o meu fim, ou por violência, ou por alguma doença repentina. Minha mente saltava de um lugar para outro considerando todas as possibilidades e, então, com grande claridade e certeza, eu sabia que tinha que confessar os meus pecados a um padre sem demora, ou estaria condenado eternamente. Como um jovem "na ativa" em uma grande cidade, o pecado não me era estranho, como se pode ver, mas, até aquele momento, eu nunca havia percebido os seus efeitos de morte sobre a minha alma.

Saí do bar como que perseguido por uma horda de demônios e fiz o caminho até a entrada do hospital, onde havia uma cabine telefônica. Eram cerca de 9 da noite e ainda estava claro. Eu não pertencia a nenhuma paróquia, para quem ligar? As páginas amarelas listavam as igrejas da cidade e um nome saltou diante dos meus olhos. Era uma igreja jesuíta. Lembrei-me de ouvir sobre o seu carisma missionário enquanto estudante de colégio católico. Com certeza eles poderiam me ajudar.

Disquei rapidamente e, em pânico, expliquei minha situação à atenciosa voz do outro lado da linha. Eu sabia que devia estar parecendo um completo desvairado. A voz me disse calmamente para eu ir ao seu encontro.

Pulei para dentro de um táxi e cheguei lá em dois tempos. Da rua principal, avistei a porta da frente e toquei a campainha. A tranquilidade e as sombras do lugar não ajudavam a minha ansiedade. Sentia-me naquela famosa cena de "O Exorcista".

A porta se abriu e a claridade do lado de dentro instantaneamente dissipou a estranha penumbra que me cobria enquanto eu esperava. Fui recebido por um dos irmãos, o mesmo que tinha me atendido ao telefone. Eu devia estar parecendo um monstro alcoolizado, com os meus olhos arregalados, o rosto pálido e um terrível bafo de cerveja.

Enquanto eu esperava na entrada, a porta da frente se abriu de novo e dela saiu um velho sacerdote baixinho, com óculos redondos, uma boina e um longo casaco preto. Ele juntou-se a nós e, "Boa noite, irmão!", disseram alegremente um ao outro, como fazem os irmãos.

Fui apresentado a um quarto de hóspedes fora do hall de entrada. Alguns minutos depois, apareceu um padre de meia idade, com os olhos pesados, vestido em uma roupa clerical já meio desgastada. Obviamente, eu tinha tirado o pobre homem da cama. Ríspido, ele deixou claro que tudo aquilo era muito fora do comum, mas eu implorei tanto que ele escutasse a minha confissão que, vendo o quão perturbado eu me encontrava, ele misericordiosamente assentiu.

Eu estava bem fora de prática. Eram, afinal, dez anos sem me confessar. O padre me ajudou e, com lágrimas, consegui acusar os meus pecados. Recordei o Ato de Contrição da minha infância e, com as palavras finais da absolvição e de olhos fechados, todo meu pavor foi embora, completamente. Nunca tinha ficado tão agradecido como naquele momento. Pedi desculpas pela invasão e deixei aquela casa em paz.

Um coração consideravelmente mais iluminado observava a velha cidade escura, enquanto eu pulava as poças de água para pegar o ônibus para casa. Nada à minha volta tinha mudado, mas eu sim, eu estava reconciliado. Percebi que apenas os meus próprios pecados podiam realmente me fazer mal. Se eu pudesse cortar todas as amarras que me prendiam a eles, perderia também o meu medo da morte, para sempre e de uma vez por todas. Eu estava finalmente de volta ao aprisco e, agora, deveria dar o meu melhor para ficar aqui. Esse empenho continua até o dia de hoje, nesse tortuoso caminho familiar a todos os pecadores arrependidos. Minha paranoia levou-me a uma metanoia, a uma completa mudança de mentalidade e de vida.

Tive ainda que encontrar uma paróquia para ser minha casa espiritual e reestabelecer o hábito de ir à Missa regularmente. Levaria alguns anos até que eu novamente me sentisse parte de uma comunidade paroquial, como a que eu tinha em minha juventude. O casamento e os filhos ajudaram a acelerar esse processo.

Voltei à rotina do hospital. Aqueles pobres pacientes continuavam a morrer, mas, agora, eu rezava por suas almas, pedindo que recebessem o presente que eu tinha recebido, que a luz perpétua os iluminasse.

O moderno tratamento médico pode alterar apenas a hora, o lugar e o modo da morte corporal, mas não a sua ocorrência inevitável. Infelizmente, muitos pacientes e familiares não conseguem ver essa limitação ou sequer chegam a considerar a sua vida espiritual. Ninguém deveria "entrar gentilmente naquela boa noite" ("go gentle in that good night") sem alguma preparação para o caminho e uma "luz generosa" ("Kindly Light") para o guiar [2].

Pacientes de câncer estão bem conscientes de que foram invadidos por uma força hostil que intenta a sua aniquilação. Católicos veem os pecados mortais sob essa mesma luz: eles são um tumor letal, uma sentença de morte para a alma, separando-a para sempre de Deus, que é seu único verdadeiro repouso e morada. Todo o Evangelho não trata senão da morte dessa "sentença de morte", alcançada pelo único sacrifício de Cristo por todos na Cruz.

O pior câncer imaginável pode em teoria ser curado por uma dose totalmente ablativa de radiação, enviada a todo o corpo. Isso mata não apenas as células cancerígenas – para onde quer que elas se tenham espalhado –, mas também a médula óssea, fonte vital de imunidade. Sem um transplante de medula, o paciente irá morrer rapidamente mesmo com a mais inofensiva infecção, como uma gripe comum. A médula doada deve ser totalmente compatível, ou há um risco de que ela comece a atacar os próprios tecidos do paciente.

O transplante que Jesus nos dá na Eucaristia é perfeitamente compatível e revivificador para a alma humana, já que Cristo é o doador universal. Mas esse transplante só "funciona" com segurança na alma que foi perdoada do pecado grave pelas terapias ablativas e purificadoras do Batismo e da Reconciliação, que iluminam a alma com a graça santificante.

A dor, a doença, a tristeza a e morte geralmente não nos são tiradas por Jesus. Ao contrário, Ele nos mostra como usá-las santamente, em ordem a unirmos os nossos sofrimentos aos d'Ele. Mesmo sendo um ótimo remédio, a medicina não substitui uma união cada vez mais íntima com Jesus, e a Sua imitação nas coisas mais pequenas, até o sacríficio final – para tanto, serão suficientes, pelo menos a princípio, os sofrimentos ordinários que todos nós temos no dia a dia.

As flechas do nosso desejo de união com Deus, que nós lançamos contra a nuvem do desconhecido (que esconde Deus de nós), retornam para nós, no bom tempo de Deus, como dardos apontados para os nossos corações e envolvidos com o óleo da caritas transformadora. O misterioso é que nossas flechas estão geralmente sendo lançadas para cima sem a nossa plena consciência, enquanto as nossas almas trabalham, balindo no subconsciente por ajuda.

Quanto mais distante as ovelhas, mais aguçados os ouvidos do Bom Pastor. Se algumas vezes parece que as nossas orações não estão sendo atendidas, deve ser porque nosso Senhor está ocupado lidando com aquelas em maior perigo. A paciência é sempre vital para nós, que somos Seus pacientes.

É quando somos levados por nossas escolhas ou pelas circunstâncias ao nosso ponto mais baixo e nos encontramos desamparados, que a graça de Deus pode intervir ao máximo. Quando somos fracos, Ele é o mais forte. Deus é gentil e educado e nunca faz violência contra nós – até mesmo o divino médico exige o nosso consentimento. Mas Ele nunca fracassa em salvar-nos de nossa aflição, se permitirmos que Ele aja.

Mais de 20 anos depois, agora eu posso ver como Deus resgatou minha alma doente e entorpecida de um destino literalmente pior que a morte. Sem a sombria epifania que eu experimentei naquele bar, e aquilo a que ela me levou, só Deus sabe onde eu estaria agora.

Notas

  1. O autor do texto é especialista no cuidado com pessoas em estado terminal. John Morrissey é apenas o seu pseudônimo.
  2. Os dois trechos entre aspas fazem referência a dois poemas de língua inglesa. O primeiro é Do not go gentle into that good night, do escritor Dylan Thomas (1914-1953). O segundo é a canção The Pillar of the Cloud, de autoria do bem-aventurado John Henry Newman (1801-1890).

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Isto não é misericórdia!
Igreja Católica

Isto não é misericórdia!

Isto não é misericórdia!

Infelizmente prevalece hoje, na cultura assim como na Igreja, uma falsa ideia de misericórdia, segundo a qual os pecados dos outros não devem ser corrigidos. O verdadeiro “pecado” seria “ofender” as pessoas com a verdade do Evangelho.

Gina SowerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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“Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 30-37).

Ao final desta parábola, Jesus nos diz que, se quisermos ser como o bom samaritano, devemos tratar as pessoas com misericórdia. Contudo, prevalece não apenas em nossa cultura, mas também na Igreja uma falsa ideia de misericórdia

Ouvimos falar com frequência em misericórdia, quase com a mesma frequência com que ouvimos falar em amor. Não me entenda mal. Como católica, aceito plenamente o amor e a misericórdia. São palavras que deveriam definir qualquer um que se considere católico. O problema está na incapacidade de definir o verdadeiro significado dessas palavras e como elas deveriam ser implementadas em nossas vidas. Infelizmente, para muitas pessoas, misericórdia significa aceitar o comportamento pecaminoso do outro e considerar que o verdadeiro “pecado” é “ofendê-lo” com a verdade do Evangelho.

As ações do bom samaritano foram misericordiosas justamente porque ele viu as feridas do outro e não lhes fez vista grossa. A verdadeira misericórdia não significa ignorar as necessidades do próximo, mas oferecer um remédio para sua doença, a exemplo do bom samaritano. A misericórdia, assim como o amor, é orientada para o bem verdadeiro do outro, particularmente para o bem de sua alma. Não tem nada a ver com aceitar o estilo de vida de outra pessoa, se ele estiver na contramão de sua salvação.

A maioria de nós não vê problema em agir com misericórdia quando lidamos com necessidades físicas. Por exemplo, ninguém tem medo de alimentar os pobres ou de vestir os nus. As obras corporais de misericórdia são, em sua maioria, bem vistas na nossa cultura. São as obras espirituais de misericórdia (por exemplo, advertir os pecadores) que se consideram intolerantes ou mesmo odiosas. Nossa cultura vê a misericórdia como uma aceitação do pecado, embora a verdadeira misericórdia liberte as pessoas da escravidão do pecado e da morte. A misericórdia está em enxergar a alma ferida e lhe oferecer um remédio verdadeiro.  

É um fato triste, mas a distorção da misericórdia infiltrou-se na Igreja. Em vez de influenciar a cultura, é a cultura que tem influenciado a Igreja. Se quisermos contornar a situação e ver as verdades de nossa fé influenciarem a cultura, então teremos de começar mostrando a verdadeira misericórdia, particularmente aos que não tiveram a sorte de ouvir falar dela.

Há algum tempo, levei a uma palestra sobre pureza uma adolescente rebelde com quem tenho parentesco. Fiquei hesitante em convidá-la por causa de todas as razões normais, como o medo da rejeição e a preocupação com o que ela e outros membros da família poderiam pensar. Finalmente, tomei coragem para convidá-la e, para minha surpresa, ela foi. Jamais esquecerei como ela me olhou depois da palestra e disse: “Como gostaria de ter aprendido isso antes”. Por um lado, fiquei empolgada porque se lhe abriram os olhos: as mentiras foram destruídas por palavras de misericórdia e de verdade. Ao mesmo tempo, porém, fiquei desolada por ela ter levado tanto tempo para ouvir aquilo. 

É triste o fato de muitos católicos serem como minha parente. Também lhes venderam as mentiras de nossa cultura. Fico desconcertada com o fato não se dizer nada nas paróquias para ajudar a maioria dos leigos, que sucumbiram aos ideais do mundo e se encontram em estado de pecado mortal. Por exemplo, a maioria dos católicos hoje usa contraceptivos, vive na fornicação e muitos já abriram mão de questões como sodomia e aborto, considerando-as perfeitamente aceitáveis — sem falar que quase 75% deles não creem na presença real de Cristo na Eucaristia.

O sacerdote ou o bispo que ignora as almas feridas da maioria de seu rebanho pode ser comparado ao sacerdote da parábola do bom samaritano, que viu o homem sangrando e largado para morrer, mas ainda assim escolheu ignorá-lo. Pensemos em quantas almas poderiam ser convertidas se bispos, sacerdotes e leigos parassem de ficar com medo e tivessem a coragem de agir com metade da franqueza de nossos oponentes. Porém, não somos corajosos porque tememos a possibilidade de as pessoas não gostarem de nós; temos medo de ofender e afastar da fé os católicos de nome.

Recentemente, eu e meu marido tivemos de lutar contra todos esses temores quando fomos convidados para participar do “casamento” de um parente que estava tentando se casar com uma pessoa divorciada duas vezes.

Amamos muito as duas pessoas, mas não poderíamos confirmar a participação na cerimônia sem saber se matrimônios ou tentativas de matrimônio anteriores haviam sido declarados nulos. Minha maior preocupação não era tanto com o que outras pessoas pensariam de nós, mas com a possibilidade de seu recente interesse pelo catolicismo desaparecer por não participarmos da cerimônia. Antes do evento, meu marido e eu explicamos a eles nossa preocupação e o que a Igreja ensina sobre um relacionamento como o deles. A conversa foi boa, mas ainda assim eu fiquei preocupada com a possibilidade de nos tornarmos a causa da perda de seu interesse pelo catolicismo. 

Pouco depois de nossa decisão de não ir à cerimônia, deparei com a história do jovem rico em Mc 10, 17-31. Depois de refletir sobre a passagem, percebi que, embora houvesse a possibilidade de aquele casal perder o interesse pela Igreja, perante Deus ainda tínhamos o dever de ser honestos com eles quanto à doutrina da Igreja e à razão pela qual não poderíamos participar da cerimônia. Vejamos cuidadosamente a resposta de Jesus depois de o jovem rico lhe perguntar o que devemos fazer para nos salvar e como o jovem reagiu:   

Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: “Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Ele entristeceu-se com essas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens (Mc 10, 21-22).

Reparemos no seguinte. Antes de Jesus dizer a verdade ao homem, a passagem diz: “Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe…”. Vemos que foi o amor que levou Jesus a dizer a esse jovem algo que ele não queria ouvir. O fato de que o jovem tinha a liberdade de ir embora não impediu Jesus de lhe contar a dura verdade sobre sua situação espiritual. Jesus sabia que o jovem amava sua riqueza mais do que a Ele, e que seu amor ao dinheiro era um obstáculo à sua salvação. Como podemos ver no versículo seguinte, o jovem não aceita o convite de Jesus e prefere o amor ao dinheiro ao amor a Deus. Se quisermos agir com verdadeira misericórdia, temos de fazer como Jesus, amor e misericórdia encarnados: oferecer a cura, mesmo que ela possa ser rejeitada.  

No final da parábola do bom samaritano, Jesus nos instrui a ir e oferecer o mesmo tipo de misericórdia que o bom samaritano ofereceu ao próximo. Nem sempre é fácil agir com misericórdia ou ser tratado com misericórdia, porque ela trará as marcas de Cristo crucificado. Jesus não ressuscitou dos mortos sem antes ter sido crucificado e morto. A misericórdia de Deus está em Ele ir nos purificando a fim de nos tornarmos semelhantes a Ele, e isso não acontecerá se não seguirmos seus passos. Nós também devemos morrer para que Ele possa viver e reinar em nossas almas. Este é o maior dos gestos de misericórdia, e é a mesma misericórdia que devemos ter com o nosso próximo. Caso contrário, não será misericórdia.  

A santa Igreja Católica é, de fato, a maior estalajadeira de toda a história, pois ela transmite a plenitude da verdade e, por meio de seus sacramentos (que comunicam a verdadeira misericórdia), fornece óleo e vinho para limpar, atar e curar as almas feridas. Paremos de ocultar o significado da misericórdia e comecemos a partilhá-lo com quem está fora da Igreja. Sejamos realistas sobre quem Jesus é e a misericórdia que Ele deseja nos dar

“Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 37).

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Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto
Pró-Vida

Cem anos atrás,
a Rússia comunista legalizava o aborto

Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto

18 de novembro de 1920: há um século, o aborto era legalizado na Rússia soviética — episódio marcante e com consequências terríveis, para todo o mundo. Os socialistas bolcheviques liberaram a prática assim que tomaram o poder.

Paul KengorTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Há cem anos, no dia 18 de novembro de 1920, o regime bolchevique na Rússia soviética legalizava o aborto — episódio marcante de um dia de infâmia, com consequências terríveis, para a Rússia e para o mundo [1].

A prática foi legalizada pelos bolcheviques logo depois de eles tomarem o poder. Sua revolução começou em São Petersburgo, em outubro de 1917, seguida imediatamente de uma brutal guerra civil entre 1918 e 1921, que, segundo o historiador W. Bruce Lincoln, ceifou a vida de 7 milhões de homens, mulheres e crianças russas. Mas isso não foi nada comparado com as mortes de nascituros que começaram a ocorrer quando os bolcheviques legalizaram o aborto em novembro de 1920.

Curiosamente, no regime bolchevique os russos não eram livres para ter uma fazenda, uma fábrica, uma empresa, uma conta bancária, nem para ir à igreja. Os comunistas tomaram os casacos de pele e as contas bancárias das mulheres russas. Os bebês já não podiam ser batizados. E mesmo assim o céu era o limite quando se tratava de realizar um aborto (ou de divorciar-se). Havia plena liberdade nessa área tão particular.  

Em novembro de 1920, após subverter a nação e matar (literalmente esquartejar) toda a família Romanov em julho de 1918, os bolcheviques honraram a promessa feita por Vladimir Lênin em junho de 1913 (publicada no Pravda) de “anular incondicionalmente todas as leis contrárias ao aborto”. Como suas crias progressistas viriam a fazer mais tarde no Ocidente, os soviéticos publicaram seu decreto usando como pretexto a “saúde das mulheres”. O decreto de Lênin foi intitulado: “Sobre a Proteção da Saúde das Mulheres”. O aborto tornou-se plenamente disponível e gratuito para as russas. 

Como geralmente acontece quando um certo vício é legalizado, a sociedade passou a ver mais dele — e, então, ainda mais. O número de abortos disparou. Surpreendentemente, por volta de 1934 as mulheres de Moscou realizavam três abortos para cada bebê nascido vivo — números chocantes que as mulheres norte-americanas nunca alcançaram, mesmo depois de Roe vs. Wade [n.d.t.: a decisão judicial de 1973 que legalizou o aborto nos Estados Unidos]. 

A situação fugiu tanto do controle, que até a eugenista Margaret Sanger ficou surpresa. Como muitos peregrinos políticos e progressistas simpáticos ao regime soviético daquela época, a matrona da Planned Parenthood peregrinou até a URSS na década de 1930 para aprender com o “grande experimento” soviético — como disse John Dewey, o “pai moderno da educação experimental”. Alguns dos admiradores eram George Bernard Shaw, colega de Sanger, e H. G. Wells, namorado dela (um dos muitos que ela teve, mesmo sendo casada). Sanger foi até a URSS no verão de 1934. Ela fora seduzida pelos avanços de Lênin e Stálin no campo do controle de natalidade e falou sobre eles com entusiasmo na edição de junho de 1955 de seu jornal, Birth Control Review, num artigo chamado Birth Control in Russia [“Controle de Natalidade na Rússia”]. 

Vladimir Lênin.

“Teoricamente, não há na Rússia obstáculos para o controle de natalidade”, escreveu Sanger maravilhada. “Ele é aceito […] por razões de saúde e por ser considerado um direito humano”. Mostrando estar muito à frente de seu tempo, ela disse o seguinte sobre os Estados Unidos: “Poderíamos muito bem seguir o exemplo da Rússia, onde não há restrições legais e nenhuma condenação religiosa, e onde a instrução sobre o controle de natalidade é parte das políticas de bem-estar regulares do governo”. 

Levou algum tempo até que os progressistas americanos alcançassem as políticas de Stálin sobre controle de natalidade, mas eles já chegaram lá.

Curiosamente, no entanto, embora Sanger tivesse uma visão muito positiva do controle populacional na Rússia, ela ficou horrorizada com a repentina proliferação do aborto, que pareceu ter piorado tão rápido a ponto de os planejadores centrais bolcheviques não saberem quantos abortos estavam sendo realizados. “O número total é desconhecido”, relatou ela, “mas só em Moscou o número é estimado em cerca de 100.000 por ano”.

Joseph Stálin tinha uma estimativa. Na verdade, a proliferação de casos o preocupava. Em 1936, a taxa de abortos era tão espantosa, que um horrorizado Stálin (que não era exatamente um grande humanista) tentou controlar a situação. Ele proibiu o aborto naquele ano, havendo ponderado seriamente que, se aquela loucura continuasse, a Rússia não teria futuro. 

Para ficar claro: nem todos os companheiros de Stálin concordavam com ele. Seu antigo aliado, León Trótski, então em exílio forçado, protestou com veemência. Em seu livro A Revolução Traída, Trótski insistiu na ideia de que “o poder revolucionário havia dado às mulheres o direito ao aborto” como “um de seus mais importantes direitos civis, políticos e culturais”. Isso estava implícito na visão de Trótski a respeito da “nova família”. Para realizá-la, disse ele, “a antiga família continua a se dissolver de forma muito mais rápida”. Não há nada melhor do que o aborto para ajudar nessa dissolução

“Não é possível abolir a família”, ensinava Trótski. “É necessário substituí-la.”

Trótski estava aperfeiçoando Marx e Engels, que declararam no Manifesto Comunista: “Abolição da família! Mesmo os mais radicais se exaltam com essa infame proposta dos comunistas”.

Como o processo dessa abolição não estivesse avançando na velocidade devida — ao contrário do que aconteceu à propriedade privada, ao capital e a “toda a moralidade” (nas palavras de Marx e Engels —, os bolcheviques estavam dispostos a dar um empurrão

Por fim, prevaleceu entre os comunistas o ponto de vista de Trótski, o qual literalmente durou mais que Stálin, que se encontrou com o Ceifador em 5 de março de 1953. Após a morte de Stálin, o aborto foi rapidamente legalizado outra vez. Nikita Khrushchev, mais progressista, pôs as coisas em ordem de novo em 1955, revertendo a proibição do aborto determinada por Stálin, permitindo assim que as taxas de aborto chegassem a um patamar jamais visto na história humana. O professor H. Kent Geiger, uma fonte confiável do fim da década de 1960, relatou o seguinte numa obra publicada pela Harvard University Press: “É possível encontrar mulheres soviéticas que fizeram vinte abortos”.

Na década de 1970, segundo estatísticas oficiais do Ministério da Saúde Soviético, era feita na URSS uma média de 7 a 8 milhões de abortos por ano, aniquilando futuras gerações inteiras de crianças russas. Foi só há pouco tempo, no governo de Vladimir Putin, que enfrentou a projeção de decréscimo populacional de 140 milhões de russos no ano 2000 para 104 milhões em 2050 (segundo projeções da Organização Mundial da Saúde), que a Rússia pôs restrições ao aborto e criou políticas para incentivar a fertilidade.

Pensemos nestes números: 7 ou 8 milhões de aborto por ano! Muitas vezes enfatizamos, perplexos, o número de russos mortos na I Guerra Mundial (mais do que qualquer outra nação), na II Guerra (ao menos 20 milhões; outra vez, mais do que qualquer outra nação), ou que foram mortos por seus próprio governo por meio dos expurgos, da fome e dos gulags. O número total de cidadãos soviéticos mortos por causa do comunismo varia entre 20 milhões (segundo o Livro Negro do Comunismo) e 60 ou 70 milhões “aniquilados somente por Stálin” (segundo Alexander Yakovlev).

Mesmo assim, o número total de vítimas do aborto soviético é campeão. Estamos falando de aproximadamente 70 ou 80 milhões de abortos na URSS apenas na década de 1970

Agora entendemos por que Nossa Senhora de Fátima voltou seus olhos para a Rússia bolchevique com preocupação e dor maternais. Trata-se de uma tragédia difícil até mesmo de ser compreendida.  

Naturalmente, essa compulsão pelo aborto legal não era de modo algum uma simples aberração no regime bolchevique. Os comunistas geralmente defendiam o aborto com agressividade. Muito antes de os esquerdistas americanos pró-aborto promoverem slogans como: “Isso é meu corpo” (algo assustador, pois é uma inversão exata das palavras sacrificiais de Jesus Cristo), “Meu corpo, minha escolha”, ou “Mantenha suas mãos longe do meu corpo”, na década de 1920, as mulheres comunistas na Alemanha encorajavam o aborto por meio do slogan: “Seu corpo pertence a você”. Os comunistas estavam décadas à frente dos progressistas americanos em muitas áreas (inclusive na promoção de mudanças radicais na sexualidade), mas estes finalmente terminaram alcançando aqueles.

Até hoje os países com as mais elevadas taxas de aborto ainda são comunistas ou deixaram de sê-lo só recentemente: Rússia, Cuba, Romênia, Vietnã, China. É claro que nenhum país superou a perversidade da China contra os nascituros. Muitos dos abortos feitos na China (senão a maioria) foram forçados pela política do filho único, implantada pelo governo há mais de 40 anos. Tratou-se de um dos maiores ataques à vida familiar já realizados por um governo. É difícil calcular a taxa de mortalidade dessa política, e mais ainda assimilá-la mental e politicamente.  

Em consonância com a filosofia comunista, tais políticas pró-aborto foram apresentadas como uma “emancipação” das mulheres. Um dos acontecimentos mais horríveis que acompanho e sobre o qual escrevo é a falsa alegação de que o comunismo fez bem às mulheres, promovida pela esquerda nas universidades. É algo tão perverso, que incluí em meu livro O guia politicamente incorreto do comunismo um capítulo sobre o tema. Recebo com regularidade mensagens de jovens angustiados dizendo que algum professor (ou o New York Times) lhes disse que o comunismo é uma libertação fantástica para as mulheres. 

Percebi isso pela primeira vez cerca de vinte anos atrás, quando analisava uma pesquisa sobre textos cívicos de alunos do Ensino Médio. Revisei dezenas de textos usados por distritos escolares em todo o país. Aqueles textos não apresentavam nenhuma condenação ao que o comunismo fazia com as mulheres; ao contrário, elogiavam-no como algo positivo para elas. Eu poderia dar muitos exemplos, mas o primeiro — e muito característico — que me chamou a atenção foi um texto popular intitulado simplesmente The World’s History. Em determinado trecho, na página 618, os autores (acadêmicos de nossas universidades) afirmaram o seguinte ao falar da vida no regime comunista: “Em termos legais, a situação das mulheres russas era melhor que a das mulheres do restante do mundo.”     

Quê? Isso foi na década de 1920, durante os regimes de Lênin e Stálin. Quais foram os “fabulosos direitos” adquiridos pelas mulheres russas?

Chocado com essa afirmação absurda, deparei com a explicação na frase seguinte: as mulheres russas, diziam os autores, tinham acesso ao aborto. Entre os grandes avanços feitos em prol das mulheres soviéticas, estavam os “métodos eficazes de controle de natalidade”, que, anunciava o livro didático para estudantes do Ensino Médio, “se tornaram tão comuns que foram banidos por um tempo em 1936 [isto é, o aborto]”. As mulheres russas tinham acesso ao aborto e, portanto, “em termos legais […] estavam numa situação muito melhor que a das mulheres no restante do mundo”.

Afinal, de que outro direito as mulheres precisariam, não é mesmo?… 

Ironias à parte, a realidade é que não há nada que celebrar. O centenário da legalização do aborto pela Rússia bolchevique é algo para ser lembrado com seriedade. Deveríamos rezar não somente por essa terrível perda para a humanidade, mas para que as nações de hoje parem de seguir esse mesmo caminho mortal de destruição humana.

Notas

  1. Tomamos a liberdade de adaptar, em favor da fluidez, os três primeiros parágrafos do texto original. Destaque-se, porém, a menção honrosa feita pelo autor às instituições que recordaram esse triste centenário do aborto na Rússia: a organização Rachel’s Vineyard, a comunidade religiosa Sisters in Jesus the Lord e o Ruth Institute (Nota da Equipe CNP).

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A coisa mais cruel que Jesus já disse
Doutrina

A coisa mais cruel que Jesus já disse

A coisa mais cruel que Jesus já disse

“Quanto a esses inimigos, trazei-os aqui e matai-os na minha frente”: o final da parábola das minas tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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O Evangelho da Missa de quarta-feira da última semana (a 33.ª do Tempo Comum) é conhecido como a parábola das minas (cf. Lc 19, 11-27). Ele tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Eu gostaria de olhar para o Evangelho e refletir sobre esse final chocante. A parábola é como a dos talentos, de Mateus, mas com algumas diferenças significativas. Na de Lucas, dez pessoas recebem uma moeda de ouro cada uma. Ouvimos apenas o relato de três deles (como em Mateus): dois que dão lucro e um que não o dá.

Outra diferença é o entrelaçamento de outra parábola (vamos chamá-la de “parábola do rei rejeitado”) dentro da mesma história. Aqui está uma versão abreviada, incluindo o final chocante:

Um homem nobre partiu para um país distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar… Seus concidadãos, porém, o odiavam, e enviaram uma embaixada atrás dele, dizendo: “Nós não queremos que esse homem reine sobre nós”... Mas o homem foi coroado rei e, quando voltou..., [disse]: “E quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 12.14.15a.27).

Ao analisar um texto como este, devo dizer que fiquei desapontado com o silêncio que a maioria dos comentários guarda a respeito desse final. A frase chocante: “matai-os na minha frente” (“massacrai-os na minha presença”, na tradução da Ave-Maria) passa quase despercebida.

Os Padres da Igreja parecem falar pouco sobre isso. Consegui, no entanto, encontrar duas referências na Catena Aurea, de S. Tomás de Aquino. Sobre este versículo, S. Agostinho ressalta a impiedade dos judeus, que se recusaram a se converter a Jesus. Teófilo escreveu: “A esses, ele os entregará à morte, lançando-os no fogo exterior; mas, neste mundo, eles foram mortos de modo lastimável pelo exército romano”.

Consequentemente, ambos os Padres consideram o versículo ao pé da letra, declarando-o historicamente cumprido na destruição de Jerusalém, em 70 d.C. Flávio Josefo relatou em sua obra que 1,2 milhão de judeus foram mortos naquela guerra terrível.

Cumprido historicamente ou não, o tom triunfal e vingativo de Jesus ainda me intriga. Se este versículo se refere à destruição de 70 d.C., como explicar o tom de Jesus aqui, sendo que apenas alguns versículos mais tarde Ele irá chorar por Jerusalém (cf. Lc 19, 41)?

Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, ele chorou e disse:

Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra. Porque tu não reconheceste o tempo em que foste visitada (Lc 19, 41-44).

De fato, uma variedade de emoções pode abater até mesmo Jesus, Deus feito homem [1]; deixe-me, porém, sugerir algumas considerações contextuais e culturais relacionadas com as palavras surpreendentes e “maldosas” de Jesus: “Quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 27).

“Jesus purificando o Templo”, de Carl Bloch.

1. Jesus estava falando na tradição profética. — Os profetas frequentemente falavam dessa forma, usando imagens e caracterizações surpreendentes e, muitas vezes, mordazes. Embora muitos hoje tentem “amordaçar” Jesus, o verdadeiro Jesus falou com vivacidade, na tradição profética. Ele costumava usar imagens chocantes e paradoxais. Falava sem rodeios, como faziam os profetas, chamando seus interlocutores hostis de hipócritas, víboras, filhos do diabo, sepulcros caiados, maus, tolos, guias cegos e filhos daqueles que assassinaram os profetas. Ele os advertiu de que seriam condenados ao inferno, a menos que se arrependessem, e os expôs por sua contradição e dureza de coração. É assim que os profetas falavam.

Ao falar dessa maneira “rude”, Jesus seguia firmemente a tradição dos profetas, que falavam de maneira semelhante. Assim, para compreender as palavras duras de Jesus, não podemos ignorar o contexto profético. Suas palavras, que nos parecem iradas e até vingativas, eram esperadas na tradição profética na qual Ele falou; elas foram intencionalmente chocantes. Seu objetivo era provocar uma resposta.

Os profetas usaram hipérboles e palavras chocantes para transmitir e sublinhar seu chamado ao arrependimento. E embora não devamos descartar as palavras de Jesus como “exageradas”, não devemos deixar de vê-las no contexto tradicional do discurso profético.

Portanto, as palavras de Jesus não eram sinal de vingança em seu coração, mas antes uma profecia dirigida àqueles que se recusavam a se arrepender: “Morrereis no vosso pecado” (Jo 8, 21.24). Na verdade, a recusa deles em se reconciliar com Deus e seus vizinhos (neste caso, os romanos) levou a uma guerra terrível na qual foram mortos.

2. A cultura e a linguagem judaicas costumavam ser hiperbólicas. — Mesmo fora da tradição profética, os antigos judeus costumavam usar a linguagem do “tudo ou nada”. Embora eu não seja um estudioso do hebraico, aprendi que a língua hebraica contém muito menos palavras comparativas (por exemplo, “mais”, “menos”, “maior”, “menor” etc.) do que as línguas modernas. Se perguntassem a um judeu antigo se ele gostava mais de chocolate ou sorvete de baunilha, ele responderia: “Gosto de chocolate e odeio baunilha”. Com isso, o que ele realmente quis dizer foi: “Gosto mais de chocolate que de baunilha”. Quando Jesus disse em outro lugar que devemos amá-lo e odiar nossos pais, cônjuge e filhos (cf. Lc 14, 26), Ele não quis dizer que devamos odiá-los em sentido forte. Era uma maneira judaica de dizer que devemos amá-lo mais do que a eles.

Esse pano de fundo explica a antiga tendência judaica de usar hipérboles. Não é que eles não compreendessem as nuances; eles apenas não falavam dessa maneira, permitindo que o contexto explicitasse que “ódio” não significava ódio em sentido literal.

Essa contextualização linguística ajuda a entender como os elementos mais extremistas da linguagem profética tomam forma.

Devemos ter cuidado, entretanto, para não descartar as coisas como se fossem simples hipérboles. Nós, modernos, podemos adorar que nosso idioma permita maiores nuances; mas, às vezes, temos tantas nuances em nossa fala, que acabamos dizendo menos do que o devido. Há momentos em que é preciso dizer sim ou não; em que é preciso estar com Deus ou contra Ele. No final (mesmo que haja o Purgatório), só se pode ir para o Céu ou para o Inferno.

A antiga maneira judaica de falar, um pouco ao modo do “tudo ou nada”, não era primitiva em si. Era uma forma diferente e honesta de insistir que é preciso decidir estar contra Deus ou ao seu lado, é preciso decidir-se pelo que é certo e justo.

Portanto, embora as palavras de Jesus sejam duras, elas tocam num ponto importante: porque ou escolhemos a Deus e vivemos, ou escolhemos o pecado e morremos espiritualmente. “Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

3. Jesus estava falando a pecadores endurecidos. — Os ouvintes aqui também são importantes. Ao se aproximar de Jerusalém, Jesus entrava em território hostil. Os pecadores e incrédulos que Ele encontrou eram muito rígidos e tinham endurecido seus corações contra Ele. As palavras de Jesus, portanto, devem ser entendidas como um forte remédio.

Pode-se imaginar um médico dizer a um paciente teimoso: “Se você não mudar de hábitos, morrerá em breve e eu o verei no seu funeral”. Embora alguns possam considerar isso uma atitude inadequada para com um doente, há pacientes para os quais essa linguagem é apropriada e necessária.

Jesus falou sem rodeios porque estava lidando com pecadores empedernidos. Eles estavam indo para a morte e o Inferno, e Ele disse isso abertamente.

Talvez nós, que vivemos nestes tempos “delicados”, que nos ofendemos tão facilmente e temos tanto medo de ofender, possamos aprender algo com essa abordagem. Há quem precise ouvir de padres, pais e outros: “Se você não mudar de caminho, não vejo como você possa evitar sua condenação ao Inferno”.

4. Um pensamento final (uma teoria, na verdade) sustentado por alguns. — De acordo com uma teoria, Jesus estava se referindo a um incidente histórico real, do qual se serviu para desiludir os ouvintes de suas vãs expectativas por um novo rei. Após a morte de Herodes, o Grande, seu filho Arquelau foi a Roma para solicitar o título de rei. Um grupo de judeus também compareceu perante César Augusto, opondo-se ao pedido de Arquelau. Embora não tenha recebido o título, Arquelau foi nomeado governante da Judeia e da Samaria; mais tarde, ele mandou matar os judeus que se opuseram a ele.

Os reis frequentemente são tiranos. — Como os judeus pensavam que o Messias (quando viesse) seria um rei, alguns esperavam que Jesus estivesse viajando para Jerusalém a fim de assumir o papel de monarca terreno. Segundo essa teoria, como o povo ansiava por um rei, Jesus usou essa parábola assustadora como um lembrete de que os reis terrenos geralmente são tiranos. Jesus, portanto, os estava tentando desiludir da ideia de que Ele ou qualquer outra pessoa deveria ser seu rei terreno.

Embora essa teoria seja aceitável, especialmente quanto aos precedentes históricos, parece improvável que o texto do Evangelho aponte para um evento historicamente tão localizado. Jesus não estava apenas falando às pessoas daquela época e lugar; Ele também está falando conosco. Mesmo que esse trecho se enquadre em um contexto histórico parcial, o significado precisa ser estendido para além de um incidente antigo.

Portanto, Jesus está sendo mau aqui? Não. Ele está sendo direto e dolorosamente claro? Sim. E, francamente, muitos de nós precisamos disso. Nestes tempos difíceis, podemos nos irritar com esse tipo de conversa, mas esse problema é nosso. A honestidade e um diagnóstico claro são muito mais importantes do que nossos “preciosos” sentimentos.

Notas

  1. A rigor, a tristeza vivida por Cristo foi o que alguns teólogos (entre eles, S. Tomás de Aquino) costumam chamar de “pro-paixão”, um movimento inicial do apetite concupiscível que não o extrapola, mas se mantém sob o controle da racionalidade. Quanto à paixão da ira, é certo que Cristo a experimentou de fato, não como apetite desordenado de vingança, mas como desejo de impor ao culpado o castigo devido; trata-se de uma ira justa e louvável, que Cristo mantinha perfeitamente subordinada à reta razão. O “abatimento” de que fala o autor do artigo deve entender-se em referência à intensidade dessas paixões (Cristo chorou de tristeza; por ira, disse palavras duras e justíssimas etc.), mas não em referência ao descontrole e insubordinação à razão que, em nós, elas costumam provocar (Nota da Equipe CNP).

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Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!
Santos & Mártires

Não, Carlo Acutis
não era um jovem comum!

Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!

Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Enquanto alguns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 ele já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A beatificação do jovem Carlo Acutis chamou a atenção dos católicos no mundo inteiro. Na internet, há alguns meses, não se falava de outra coisa. O túmulo do beato, em Assis, recebeu a visita de mais de 40 mil pessoas só na primeira quinzena de outubro, mesmo em meio a severas restrições devido à pandemia do novo coronavírus. 

Infelizmente, porém, como acontece com seja qual for a devoção, a seja qual for o santo, poucas pessoas procurarão ir a fundo na história desse menino e fazer-se realmente devotas dele, imitando-lhe a vida e as virtudes.

O que é uma pena, pois a primeira biografia a seu respeito, escrita pelo italiano Nicola Gori, encontra-se facilmente à disposição em língua portuguesa no site Cultor de Livros, e todos os jovens católicos brasileiros fariam um bem enorme a si, a seus amigos, a seus familiares, a seus grupos de oração, a todos que os rodeiam, enfim, se procurassem ler e estudar a vida do agora beato Carlo.

Os santos não se improvisam!

Sim, pois não basta nutrir, com relação a ele, o entusiasmo superficial de quem se identifica com sua camisa polo, com seu tênis de marca, com seu amor por videogames ou com sua aptidão geral para as novas tecnologias. Todos esses aspectos contemporâneos do Carlo são, sem dúvida, um estímulo para nós, mas não devemos parar neles, pois a essência da santidade está em outras coisas, não nestas. A esse respeito, o escritor Peter Kwasniewski teceu algumas considerações muito relevantes, justamente ao escrever sobre os santos mais novos da Igreja:

No que tange aos santos que viveram sob a nova barbárie cultural de nossos tempos, devemos tomar o cuidado de não “canonizar”, junto com a santidade deles, algo incidental a respeito de suas vidas modernas. Isso vai acontecer com bastante frequência de agora em diante. “Ah, o Beato Betinho gostava tanto de música pop! Não é maravilhoso? A música pop agora faz parte da santidade! Não importa o que você escuta ou dança!”, ou: “A Santa Carol amava sair por aí de moletom e com camiseta rosa fluorescente! Acredito que não importa mais como você se veste quando o assunto é ser santo”. É possível imaginar todos os tipos de cenários e falsas inferências como essas.

O modo de contornar esse problema — que, para ser justo, tem paralelos em toda época da Igreja; por exemplo, os santos da Idade Média tinham notavelmente uma má higiene, mas ninguém, ao meu conhecimento, sugere que os devamos imitar nesse aspecto — é lembrar a relação, e a distinção, entre fé e razão, natureza e graça. Um homem notável por sua santidade pode não o ser nos argumentos que apresenta de teologia; uma mulher de santidade indiscutível pode não ter bom gosto em matéria de arte. Como discípulos do Doutor Comum da Igreja, Santo Tomás de Aquino, precisamos ser capazes de fazer distinções e imitar o que merece ser imitado, desculpando, ao mesmo tempo, o que pode ser desculpado, ou ignorando o que é melhor que seja ignorado.

Considere o seguinte: se fosse necessário escolher, melhor seria dedicar-se à oração e ouvir música medíocre, ou vestir-se de modo medíocre, do que ser um egoísta mentiroso com gosto impecável em abotoaduras e gravatas-borboleta; mas o melhor é ser, ao mesmo tempo, santo e bem educado, piedoso e inteligente, porque isso representa uma perfeição mais completa da humanidade tal como Deus a pensou. Graças sejam dadas a Ele por podermos alcançar a bem-aventurança apesar de certos defeitos nossos, mas nem por isso eles se tornam admiráveis ou dignos de imitação.

Trocando em miúdos: se o menino Carlo Acutis vier a ser canonizado, não será porque ele “manjava” de informática ou de jogos virtuais. Isso é acidental à santidade. (A propósito, se o quiséssemos imitar inclusive nesses aspectos, valeria a pena considerar também que, como penitência, Carlo não despendia em seu PlayStation 2 mais do que uma hora por semana — um tempo certamente bem inferior àquele com o qual estão acostumados nossos jovens. A santidade não se resume a isso, é certo, mas o exemplo é válido para reforçar a ideia: se vamos imitar o beato, que seja no que ele fazia de beatificante, e não só no que nos parece mais agradável ou atrativo!)

A pureza de Carlo

Comecemos a desenhar um retrato da santidade de Carlo a partir da pureza, que ele viveu com grande fidelidade, mesmo em meio aos inúmeros perigos que nossa época apresenta para a vivência dessa virtude. A mãe do menino e um rapaz que trabalhava em sua casa testemunham: ele “tapava os olhos com as mãos se passasse algum programa ou propaganda escandalosos na televisão” [1]. Os registros do computador que ele utilizava atestam a mesma delicadeza de consciência: nenhum vestígio de acesso a algum site da internet que fosse menos decente. 

No relacionamento com as meninas, seu comportamento era o apropriado para um rapaz de sua idade (lembrando que Carlo morreu com apenas 15 anos): nada de “namoricos” indevidos, nem de interesses precoces. O menino chegaria a declarar, com a maturidade própria de quem compreendeu o que significa amar a Deus de modo esponsal: “Nossa Senhora é a única mulher da minha vida!” [2].

Carlo Acutis, quando criança.

Esses fatos não estão muito além do que se deve esperar de um discípulo de Cristo, sim, mas precisam ser recordados a uma época como a nossa, que tanto avançou na degradação da sexualidade e que corrompeu a sua juventude praticamente sem deixar sobreviventes. O acesso à pornografia, por exemplo, nunca foi tão fácil como agora, e as crianças e adolescentes estão tendo contato com esse tipo de conteúdo cada vez mais cedo, com consequências seriíssimas para sua saúde mental, física e espiritual. 

Se quisermos ser verdadeiros devotos do beato Carlo Acutis, precisamos “correr atrás do prejuízo”, se já fomos manchados de alguma forma nessa matéria, procurando imitá-lo na penitência, já que perdemos a nossa primeira inocência [3]. Mesmo os que foram preservados, no entanto, não devem dormir jamais: quando o assunto são os pecados contra a castidade, confirma-se com ainda mais força que o nosso adversário “ronda como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8).

Os que já servem a Deus, enfim, seja na vocação do Matrimônio, seja no celibato ou na vida consagrada, podem aprender com Carlo a experiência do coração indiviso, que ele viveu como uma graça extraordinária desde a mais tenra idade. Será que nós temos real dimensão do que é um menino proclamar, de coração, que a Santíssima Virgem é a “única mulher” da sua vida? 

Deixemos que essa declaração íntima de amor, de uma criança a sua Mãe celeste, nos impressione e examine a consciência, elevando nossos corações ao alto, purificando nossa relação com Deus, ordenando, enfim, nossos amores nesta terra. Afinal de contas, a que outra pessoa nos uniremos por toda a eternidade, sem morte alguma que nos venha a separar, senão a Deus, Nosso Senhor?

Carlo já vivia aqui, nesta vida, o que ele agora experimenta no Céu.

Carlo e a eternidade

E como pensava no Céu o pequeno Carlo, como o queria, como ansiava por ele! Seu contato com tudo quanto era livro de espiritualidade, vida dos santos, revelações privadas, não tinha como motor uma simples curiosidade malsã e desordenada; não, era um desejo da vida eterna que o impulsionava

  • Quando lia sobre os milagres eucarísticos, era para aumentar seu fervor na participação da Santa Missa — à qual ele assistia todos os dias. 
  • Quando lia relatos extraordinários sobre o Purgatório, era para rezar mais pelas almas, para buscar mais intensamente o Céu e para se estimular no combate aos próprios vícios — dos quais, ele mesmo dizia, a gula e a preguiça eram os principais [4]. 
  • Quando lia sobre as mais diversas devoções que o tesouro de dois mil anos da Igreja lhe oferecia — fosse a devoção ao Sagrado Coração, à Divina Misericórdia, à Virgem de Fátima ou à de Lourdes —, era para crescer cada vez mais em amor a Jesus e Maria. 

Justamente porque tinha os olhos voltados para o alto, era visível em Carlo uma conformidade profunda com a vontade de Deus. Um colega de escola que passou anos ao seu lado conta: “Um aspecto dele que me tocou muito era que, além de uma fé que vi em poucos, tinha um senso de satisfação e de felicidade por cada momento da vida, fosse feliz ou triste: sempre encontrei em seu rosto um sorriso sem limites” [5]. 

Numa sociedade que se preocupa continuamente com o número crescente de suicídios entre seus jovens, não deixa de ser significativa mais essa característica do pequeno Carlo Acutis. Seu segredo, porém, não pode ser buscado neste mundo. Esse “senso de satisfação” que brilhava em seu rosto é um dom que recebem todos os que amam a Deus: para estes, de fato, tudo concorre para o bem (cf. Rm 8, 28); os santos sempre estão felizes, porque querem o que Deus quer. Quando são contrariados, homens da estirpe de Carlo Acutis — movidos, é claro, pela graça divina — não lamentam, nem reclamam: maduros que são, o que eles fazem é oferecer, doar-se.

Foi o que ele fez nos últimos dias de sua vida. Como viveu, Carlo morreu. Preparado por Deus ao longo de sua breve vida, a notícia da leucemia não foi um “baque” para ele, nem seus sofrimentos finais foram capazes de perturbá-lo e tirar-lhe a paz da alma. De fato, antes de ser internado em definitivo no hospital, com prontidão de espírito aquele jovem declarou (percebam como ele não perdia de vista a eternidade, como ele a desejava!...): “Ofereço todo o sofrimento que deverei padecer no Senhor pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao purgatório e entrar direto no céu” [6].

“Ofereço”, ele dizia. Eis aí uma palavra forte, que as pessoas não costumam esperar da boca de um adolescente. 

Mas Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Os que conviviam com ele já diziam: “Parecia ser mais velho do que era” [7]. Enquanto uns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 anos Carlo já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus. No hospital, se lhe perguntavam como estava, ele dizia: “Como sempre, bem!”. Nas palavras de uma enfermeira, “Carlo era uma daquelas pessoas que, quando alguém lhe oferece a mão, segura-a com amor e transmite serenidade, uma serenidade maior do que a que eu deveria lhe oferecer” [8].

Foi assim, aceitando plenamente os desígnios de Deus para si e fazendo-se tudo para os outros, que morreu, no dia 12 de outubro de 2006, o jovem Carlo Acutis.

Aos olhos do mundo, seu falecimento aos 15 anos pareceu, desde então, uma perda irreparável. Muitos dos que o conheceram não podiam se conformar com o fato de aquele menino, precoce em tudo, ser precoce também para morrer. Uma religiosa de clausura, porém, que conheceu Carlo, e que o viu receber precocemente a primeira Eucaristia o sacramento da Crisma, encontrou na Sagrada Escritura [9] o motivo para Deus levar tão cedo deste mundo aquele jovem rapaz: “Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade” (Sb 4, 13-14).

Notas

  1. Nicola Gori. Eucaristia, minha estrada para o Céu. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 42.
  2. Ibid., p. 81.
  3. Esse conhecido jogo de palavras encontra-se na oração que a liturgia da Igreja propõe para a memória de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude.
  4. Nicola Gori, op. cit., p. 102.
  5. Ibid., 44.
  6. Ibid., p. 131.
  7. Ibid., p. 35.
  8. Ibid., pp. 133s.
  9. Ibid., p. 99.

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