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A noite em que eu enfrentei meus demônios
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A noite em que eu
enfrentei meus demônios

A noite em que eu enfrentei meus demônios

"Deus resgatou minha alma doente e entorpecida de um destino literalmente pior que a morte. Sem a sombria epifania que eu experimentei naquele bar, e aquilo a que ela me levou, só Deus sabe onde eu estaria agora."

Dr. John MorrisseyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2015
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Olhando retrospectivamente para os meus 29 anos de médico, acho que o ano em que passei no hospital do câncer foi o mais difícil de todos. Toda quarta-feira e fim de semana, sem falta, eu cobria a unidade de terapia intensiva por 24 horas, como médico residente intermediário. Durante todo o tempo em que passei ali, não vi um único paciente sobreviver, embora não fosse por falta de tentativa. Nenhum sequer.

Todos tinham em comum o fato de a sua médula óssea ter sido suprimida pelas sessões de quimioterapia, o que tinha como consequência infecções generalizadas inevitavelmente fatais. UTI, ressuscitação completa com tubos, ventilação, terapia intravenosa, estimulantes cardíacos: era tudo em vão. Eles morrem porque, sem a médula óssea funcionando, perdem a resposta imune do seu organismo. Nenhuma quantidade de antibióticos consegue impedir que seus corpos sejam infestados por microorganismos.

Obviamente, eu atendia apenas os mais doentes de todos. A maior parte dos pacientes de quimioterapia não sofre complicações tão severas. Com a médula recuperada, o seu câncer regride ou é até mesmo curado.

Eu tinha me tornado médico para curar quando desse, dar alívio na maioria das vezes e confortar sempre, mas aquela contínua experiência de fracasso foi começando pouco a pouco a me deixar para baixo.

Comecei a ficar apavorado com o trabalho no hospital do câncer, com medo de aquele bipe tocar. Mesmo tendo me afastado da prática da fé depois da universidade, comecei a rezar, pedindo que os meus pacientes se recuperassem ou que, pelo menos, eu não estivesse de plantão quando eles fossem admitidos. Minhas orações não foram atendidas. As mortes continuaram acontecendo, implacáveis, e um grande sentimento de vazio e de desespero encheu o meu coração.

O fato de eu estar solteiro, sem amigos, morando sozinho e afogando minhas mágoas, toda noite livre, em um bar ao lado do hospital, só piorava a situação. Nunca me faltavam companheiros – da equipe do hospital, principalmente – com quem beber, rir e me divertir na hora do rush, antes de voltar para jantar, TV e cama. Meu coração batia, mas eu não estava vivo.

Espiritualmente, eu era um alegre pagão, um Baco vestido com um imundo jaleco branco e uma falsa auréola na cabeça. Mesmo tendo vivido uma profunda experiência religiosa dois anos antes, minha vida moral continuava pintada com vários tons de preto e minha cabeça estava cheia de ideias sem sentido de sincretismo e "nova era".

Um dia, escrevendo o relatório de um jovem paciente que tinha acabado de falecer, fiquei paralisado ante a espreita do "cachorro negro" da depressão, pronto para me devorar. Eu estava encarando o vazio e meu rosto deve ter feito soar o alarme, porque um dos parentes da vítima veio me perguntar, preocupado: "Está tudo bem, doutor?" Emocionado com a sua gentileza, eu me desculpei: "Perdão, estou lutando para ver algo de bom aqui. Tem morte demais nesse lugar."

Constrangido com minha própria franqueza e morbidez, corri para a sala de plantão, desorientado à procura de uma introspecção e de alguma conversa com Deus. Nada disso me ajudou, na verdade. As enfermeiras devem ter pensado que eu era um desses senhores velhos e desajeitados.

Outra coisa me incomodava em relação à ética do hospital. Havia uma forte ênfase de pesquisa nos efeitos das terapias: tratamento A versus tratamento B. Tudo medido pelo número total de dias de sobrevivência, incluindo os pacientes da seção de terapia intensiva. Meu único papel parecia ser o de prover, a qualquer preço, aquelas últimas desesperadoras horas de vida, estendidas apenas por intervenções médicas extremas e inúteis. Eu não passava de um mero acessório para a confecção isolada de estatísticas. Parecia haver algo de errado naquilo tudo.

Tive um sonho estranho certa noite. Encapuzado, como um ativista pelos direitos dos animais, eu corria dentro do hospital, rasgando prontuários e dizendo a todos os pacientes que eles pelo menos estavam livres. No mínimo, bizarro.

Outra noite, fiquei até mais tarde no bar, bebendo sozinho depois que meus amigos haviam saído. Eu estava meio bêbado e não havia por que ir para casa, quando, de repente, me sobreveio de não sei que lugar um forte sentimento de paranoia, literalmente assustador. Por um momento, aquele aconchegante bar no qual eu tomava alguns driques se tinha transformado em um antro de horrores. Era como se eu estivesse vendo pela primeira vez aquele lugar como ele realmente era: uma caverna suja repleta de alcoólatras caloteiros e derrotados, e ali estava eu, um membro completo do clube. Os que ali bebiam com frequência eram desconhecidos para mim, mas eu comecei a suspeitar más intenções de cada olhadela deles em minha direção. Senti-me tão sozinho. Comecei a ficar gelado e a suar, à procura de uma rota de fuga.

Um terrível sentimento de morte iminente invadiu a minha cabeça. Eu tinha certeza de que estava para conhecer o meu fim, ou por violência, ou por alguma doença repentina. Minha mente saltava de um lugar para outro considerando todas as possibilidades e, então, com grande claridade e certeza, eu sabia que tinha que confessar os meus pecados a um padre sem demora, ou estaria condenado eternamente. Como um jovem "na ativa" em uma grande cidade, o pecado não me era estranho, como se pode ver, mas, até aquele momento, eu nunca havia percebido os seus efeitos de morte sobre a minha alma.

Saí do bar como que perseguido por uma horda de demônios e fiz o caminho até a entrada do hospital, onde havia uma cabine telefônica. Eram cerca de 9 da noite e ainda estava claro. Eu não pertencia a nenhuma paróquia, para quem ligar? As páginas amarelas listavam as igrejas da cidade e um nome saltou diante dos meus olhos. Era uma igreja jesuíta. Lembrei-me de ouvir sobre o seu carisma missionário enquanto estudante de colégio católico. Com certeza eles poderiam me ajudar.

Disquei rapidamente e, em pânico, expliquei minha situação à atenciosa voz do outro lado da linha. Eu sabia que devia estar parecendo um completo desvairado. A voz me disse calmamente para eu ir ao seu encontro.

Pulei para dentro de um táxi e cheguei lá em dois tempos. Da rua principal, avistei a porta da frente e toquei a campainha. A tranquilidade e as sombras do lugar não ajudavam a minha ansiedade. Sentia-me naquela famosa cena de "O Exorcista".

A porta se abriu e a claridade do lado de dentro instantaneamente dissipou a estranha penumbra que me cobria enquanto eu esperava. Fui recebido por um dos irmãos, o mesmo que tinha me atendido ao telefone. Eu devia estar parecendo um monstro alcoolizado, com os meus olhos arregalados, o rosto pálido e um terrível bafo de cerveja.

Enquanto eu esperava na entrada, a porta da frente se abriu de novo e dela saiu um velho sacerdote baixinho, com óculos redondos, uma boina e um longo casaco preto. Ele juntou-se a nós e, "Boa noite, irmão!", disseram alegremente um ao outro, como fazem os irmãos.

Fui apresentado a um quarto de hóspedes fora do hall de entrada. Alguns minutos depois, apareceu um padre de meia idade, com os olhos pesados, vestido em uma roupa clerical já meio desgastada. Obviamente, eu tinha tirado o pobre homem da cama. Ríspido, ele deixou claro que tudo aquilo era muito fora do comum, mas eu implorei tanto que ele escutasse a minha confissão que, vendo o quão perturbado eu me encontrava, ele misericordiosamente assentiu.

Eu estava bem fora de prática. Eram, afinal, dez anos sem me confessar. O padre me ajudou e, com lágrimas, consegui acusar os meus pecados. Recordei o Ato de Contrição da minha infância e, com as palavras finais da absolvição e de olhos fechados, todo meu pavor foi embora, completamente. Nunca tinha ficado tão agradecido como naquele momento. Pedi desculpas pela invasão e deixei aquela casa em paz.

Um coração consideravelmente mais iluminado observava a velha cidade escura, enquanto eu pulava as poças de água para pegar o ônibus para casa. Nada à minha volta tinha mudado, mas eu sim, eu estava reconciliado. Percebi que apenas os meus próprios pecados podiam realmente me fazer mal. Se eu pudesse cortar todas as amarras que me prendiam a eles, perderia também o meu medo da morte, para sempre e de uma vez por todas. Eu estava finalmente de volta ao aprisco e, agora, deveria dar o meu melhor para ficar aqui. Esse empenho continua até o dia de hoje, nesse tortuoso caminho familiar a todos os pecadores arrependidos. Minha paranoia levou-me a uma metanoia, a uma completa mudança de mentalidade e de vida.

Tive ainda que encontrar uma paróquia para ser minha casa espiritual e reestabelecer o hábito de ir à Missa regularmente. Levaria alguns anos até que eu novamente me sentisse parte de uma comunidade paroquial, como a que eu tinha em minha juventude. O casamento e os filhos ajudaram a acelerar esse processo.

Voltei à rotina do hospital. Aqueles pobres pacientes continuavam a morrer, mas, agora, eu rezava por suas almas, pedindo que recebessem o presente que eu tinha recebido, que a luz perpétua os iluminasse.

O moderno tratamento médico pode alterar apenas a hora, o lugar e o modo da morte corporal, mas não a sua ocorrência inevitável. Infelizmente, muitos pacientes e familiares não conseguem ver essa limitação ou sequer chegam a considerar a sua vida espiritual. Ninguém deveria "entrar gentilmente naquela boa noite" ("go gentle in that good night") sem alguma preparação para o caminho e uma "luz generosa" ("Kindly Light") para o guiar [2].

Pacientes de câncer estão bem conscientes de que foram invadidos por uma força hostil que intenta a sua aniquilação. Católicos veem os pecados mortais sob essa mesma luz: eles são um tumor letal, uma sentença de morte para a alma, separando-a para sempre de Deus, que é seu único verdadeiro repouso e morada. Todo o Evangelho não trata senão da morte dessa "sentença de morte", alcançada pelo único sacrifício de Cristo por todos na Cruz.

O pior câncer imaginável pode em teoria ser curado por uma dose totalmente ablativa de radiação, enviada a todo o corpo. Isso mata não apenas as células cancerígenas – para onde quer que elas se tenham espalhado –, mas também a médula óssea, fonte vital de imunidade. Sem um transplante de medula, o paciente irá morrer rapidamente mesmo com a mais inofensiva infecção, como uma gripe comum. A médula doada deve ser totalmente compatível, ou há um risco de que ela comece a atacar os próprios tecidos do paciente.

O transplante que Jesus nos dá na Eucaristia é perfeitamente compatível e revivificador para a alma humana, já que Cristo é o doador universal. Mas esse transplante só "funciona" com segurança na alma que foi perdoada do pecado grave pelas terapias ablativas e purificadoras do Batismo e da Reconciliação, que iluminam a alma com a graça santificante.

A dor, a doença, a tristeza a e morte geralmente não nos são tiradas por Jesus. Ao contrário, Ele nos mostra como usá-las santamente, em ordem a unirmos os nossos sofrimentos aos d'Ele. Mesmo sendo um ótimo remédio, a medicina não substitui uma união cada vez mais íntima com Jesus, e a Sua imitação nas coisas mais pequenas, até o sacríficio final – para tanto, serão suficientes, pelo menos a princípio, os sofrimentos ordinários que todos nós temos no dia a dia.

As flechas do nosso desejo de união com Deus, que nós lançamos contra a nuvem do desconhecido (que esconde Deus de nós), retornam para nós, no bom tempo de Deus, como dardos apontados para os nossos corações e envolvidos com o óleo da caritas transformadora. O misterioso é que nossas flechas estão geralmente sendo lançadas para cima sem a nossa plena consciência, enquanto as nossas almas trabalham, balindo no subconsciente por ajuda.

Quanto mais distante as ovelhas, mais aguçados os ouvidos do Bom Pastor. Se algumas vezes parece que as nossas orações não estão sendo atendidas, deve ser porque nosso Senhor está ocupado lidando com aquelas em maior perigo. A paciência é sempre vital para nós, que somos Seus pacientes.

É quando somos levados por nossas escolhas ou pelas circunstâncias ao nosso ponto mais baixo e nos encontramos desamparados, que a graça de Deus pode intervir ao máximo. Quando somos fracos, Ele é o mais forte. Deus é gentil e educado e nunca faz violência contra nós – até mesmo o divino médico exige o nosso consentimento. Mas Ele nunca fracassa em salvar-nos de nossa aflição, se permitirmos que Ele aja.

Mais de 20 anos depois, agora eu posso ver como Deus resgatou minha alma doente e entorpecida de um destino literalmente pior que a morte. Sem a sombria epifania que eu experimentei naquele bar, e aquilo a que ela me levou, só Deus sabe onde eu estaria agora.

Notas

  1. O autor do texto é especialista no cuidado com pessoas em estado terminal. John Morrissey é apenas o seu pseudônimo.
  2. Os dois trechos entre aspas fazem referência a dois poemas de língua inglesa. O primeiro é Do not go gentle into that good night, do escritor Dylan Thomas (1914-1953). O segundo é a canção The Pillar of the Cloud, de autoria do bem-aventurado John Henry Newman (1801-1890).

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Possessão? A tentação é pior, diz exorcista
Doutrina

Possessão?
A tentação é pior, diz exorcista

Possessão? A tentação é pior, diz exorcista

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa para a alma.”

Catholic News AgencyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Maio de 2019
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Ainda que representações dramáticas de possessões demoníacas, como as de Hollywood, dêem a entender que são elas a principal atividade do demônio, um padre e exorcista dominicano alerta: a ameaça maior e mais comum colocada pelo demônio para a salvação de uma pessoa é a tentação ao pecado.

“A manifestação demoníaca mais comum é a tentação, e ela é muito pior do que a possessão”, disse o Pe. François Dermine, O.P., em entrevista à Catholic News Agency, em 10 de maio.

O sacerdote, exorcista há mais de 25 anos, explica que a possessão não é uma ameaça espiritual da mesma forma que a tentação, e que é até possível, a um possesso, que ele faça um “progresso espiritual extraordinário”, chegando mesmo à santidade.

Isso se deve ao fato de que a possessão do corpo de uma pessoa ocorre sem o seu conhecimento ou consentimento. A possessão em si mesma não torna a sua vítima moralmente culpável.

“Nós não devemos subestimar a gravidade da tentação. Ela não é tão espetacular quanto a possessão, mas é de longe muito mais perigosa [para a alma]”, diz o sacerdote.

“Resistir à tentação é simples”, ele afirma, ainda que nem sempre seja fácil. “É preciso evitar as ocasiões de pecado, é claro, levar uma vida cristã e ter vida espiritual. Faz-se necessário rezar, comportar-se corretamente e amar as pessoas com que nos encontramos todos os dias e também aquelas com que convivemos.”

Segundo o Pe. Dermine, depois da tentação, outra forma muito comum de atividade demoníaca é a opressão. Às vezes as pessoas podem encontrar alguns problemas, geralmente de saúde, nos negócios ou na família, e que não podem ser explicados por causas naturais. Quando se julga que a causa desses problemas é uma opressão diabólica, dá-se-lhes o nome de “preternaturais” e eles podem demandar o auxílio de um exorcista.

“Das ações extraordinárias do demônio, essa é a mais comum”, diz o Pe. Dermine, explicando que a tentação é considerada como ação demoníaca “ordinária”.

O sacerdote adverte que as pessoas não deveriam concluir de imediato que problemas físicos ou sofrimentos sejam resultado de uma opressão demoníaca, porque na maioria das vezes eles podem ser explicados por causas naturais.

Se alguém visitou um médico (ou um psicólogo, se for o caso) e nenhuma explicação natural pôde ser encontrada, então é o caso de se procurar um exorcista. “Quando uma pessoa vem e pede uma bênção para um problema específico”, diz o padre, “a primeira coisa que um exorcista deve perguntar é: você já foi a um médico?”.

O Pe. François Dermine é nascido no Canadá, mas vive na Itália praticamente desde que foi ordenado sacerdote, em 1979. Exorcista desde 1994, ele exerce seu ministério na Arquidiocese de Ancona-Osimo e foi convidado a falar sobre como é a vida de um exorcista durante o 14.º curso sobre exorcismo e orações de libertação — evento organizado pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum e pelo Gruppo di Ricerca e Informazione Socio-Religiosa.

O curso tem duração de uma semana, encerrou-se no dia 10 de maio e tem como finalidade não só formar novos exorcistas, mas também inteirar sacerdotes e leigos do exorcismo e de tópicos semelhantes. O Pe. Dermine disse que muitos dos leigos participando do curso compareceram a pedido de seus bispos, para que aprendessem a prestar auxílio aos sacerdotes durante os exorcismos.

O sacerdote conta ainda que, em sua palestra, apresentou alguns dos erros mais comuns cometidos por exorcistas, como o de confundir manifestações demoníacas preternaturais com carismas sobrenaturais, vindos de Deus. “Há uma diferença muito importante”, ele explica. “Nós temos uma natureza humana e não podemos conhecer as coisas sem antes as termos aprendido por meio de nossos sentidos.”

“Deus nos criou para agir de uma certa forma. Se você tem percepções extrassensoriais e coisas do tipo, e elas não servem para influenciar ou provocar um resultado espiritual, então elas não podem vir de Deus”, ele adverte. Pessoas com tais percepções são normalmente chamadas de “médiuns” na cultura secular.

Esses tipos de sentimentos ou manifestações preternaturais podem ser “causa de muitos problemas”, explica o sacerdote, e as pessoas envolvidas nisso podem precisar da ajuda de um exorcista.

O padre nota que existe um valor cultural em se ministrar um curso sobre exorcismos para padres e leigos, e isso acontece porque o tópico é no mais das vezes misterioso, suscitando o desejo de aprender. “A maior parte das pessoas que vêm aqui fazem-no não porque têm intenção de se tornarem exorcistas necessariamente, mas porque querem aprender”, ele diz.

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Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo
Família

Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo

Fátima, o “grande mistério” e a Teologia do Corpo

Cem anos após a mensagem de Fátima, na época racionalista em que vivemos, onde a sexualidade é reduzida apenas à biologia, haverá espaço ainda para “o grande mistério” que é o Matrimônio?

Brian KranickTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Maio de 2019
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Como se sabe, a Irmã Lúcia de Fátima escreveu uma carta ao Cardeal Caffarra prevendo que “o confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o Matrimônio”. Não muito tempo depois, o Papa João Paulo II se encontrava no meio das famosas catequeses de sua “Teologia do Corpo”, sobre o Matrimônio e a família, quando um assassino turco tentou matá-lo. A tentativa de assassinato aconteceu em 13 de maio de 1981, dia da festa de Nossa Senhora de Fátima, e o mesmo dia em que o Papa João Paulo II iria anunciar a fundação de seu Pontifício Instituto para Estudos sobre Matrimônio e Família. Ele creditou “à mão de uma mãe”, Nossa Senhora de Fátima, o ter a vida salva naquele dia, permitindo assim que seus insights exegéticos sobre a Teologia do Corpo fossem promulgados.

A biografia de João Paulo II escrita por George Weigel descreveu suas ideias revolucionárias sobre a Teologia do Corpo como “uma espécie de bomba-relógio teológica, programada para explodir com dramáticas consequências, talvez no século XXI”. Quais eram essas novas ideias? Como reafirmou o autor Christopher West, a tese do Papa é a de que o corpo humano “foi criado a fim de transferir para a realidade visível do mundo o mistério escondido na eternidade em Deus; para ser um sinal disso, portanto”. O corpo é algo não só biológico, mas também teológico. O corpo é o sacramento da pessoa. Ao contrário das más interpretações que normalmente se fazem, a Igreja não ensina que o corpo ou o sexo é ruim; essa é uma heresia neognóstica que deprecia o corpo como algo que nos é externo e passível de ser consumido. Na verdade, a Igreja ensina que o corpo é bom e santo, templo do Espírito Santo. Ele é encarnacional e sacramental. O corpo é uma pessoa e a pessoa é um corpo.

Mas o corpo também é mais do que isso. Deus o criou como um sinal e autorrevelação de seu próprio mistério divino. Deus “imprimiu na carne modelada sua própria forma, de modo que até o que fosse visível tivesse a forma divina” (Catecismo da Igreja Católica, § 704). O mistério central da fé cristã é que Deus é uma comunhão eterna de três Pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo. Há uma sacramentalidade no corpo humano que torna visível esse mistério escondido na eternidade.

O que o corpo nos fala sobre Deus

Como isso se dá? No princípio, quando Deus criou o homem, ele o fez duas encarnações separadas, mas complementares, homem e mulher. Através da beleza da diferença sexual, masculina e feminina, somos chamados a formar uma comunhão de pessoas, assim como há uma comunhão de Pessoas na Divindade. Nesse intercâmbio de amor entre marido e mulher, uma terceira pessoa é gerada em uma criança, formando novamente um ícone do amor trinitário, assim como através do amor mútuo entre o Pai e o Filho procede o Espírito Santo. Desse modo, a família humana torna visível no mundo criado — ainda que por uma via analógica e de distância infinita — o intercâmbio de amor, eterno e oculto, que há em Deus. Ao homem é dado tomar parte nesse grande mistério de geração e criação, à imitação da Trindade. Pode-se entender então que, quando Deus diz a Adão e Eva: “Crescei e multiplicai-vos”, ele está realmente lhes dizendo, em um nível simbólico, para manifestar sua imagem trinitária em todo o mundo. Esta é a vocação original do ser humano: amar como Deus ama.

E Deus nos ensina a amar como Ele ama através da complementaridade dos sexos, tal como ela foi impressa em nossos corpos. Esse dado revela o significado esponsal da nossa própria existência. Jesus mesmo reafirma a dualidade dos sexos e seu significado nupcial. Quando os fariseus o questionam sobre o divórcio, Jesus lhes responde: “Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne?’ Assim, já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19, 4-6). E os dois tornam-se um no sacramento primordial do Matrimônio: foi o sacramento original, o protótipo a apontar para a união esponsal de Cristo com a Igreja. São Paulo se refere a esse casamento de Cristo com a Igreja como um “grande mistério” (Ef 5, 32). Os casais unidos em santo matrimônio constituem um sinal sacramental do Esposo divino e sua Esposa.

Um tema subjacente a toda a Bíblia é que Deus quer nos “casar” (Os 2, 19). De fato, Ele quis nos tornar tão óbvio seu plano nupcial, que criou nossos próprios corpos, masculino e feminino, a fim de nos preparar para esse matrimônio místico e eterno. O casamento humano é, portanto, o sinal e o sacramento, revelando a realidade eterna da união entre Cristo e sua Igreja. Jesus também falou disso quando se dirigiu aos saduceus dizendo: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). Jesus reafirma que o casamento terrestre não é em si mesmo o fim último, senão um sinal do casamento celeste que há de vir. Trata-se de um precursor da verdade final, quando o sinal terreno finalmente dará lugar à realidade celestial. Na ressurreição, o corpo se tornará eterno, incorruptível, espiritual e divino. No entanto, como acontece com qualquer proposta de casamento, o consentimento mútuo é necessário. Nós devemos dar o nosso “sim” através da fé e da oferta de nós mesmos.

O casamento foi construído sobre essa noção de um dom livre e sincero dado de si para o outro. O dom de si próprio no casamento é um sinal e uma analogia do dom total de Cristo por sua Igreja. Na Última Ceia, quando Jesus institui a Eucaristia, Ele diz: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22, 19). Jesus se oferece corporalmente por nós, sua Esposa. A total auto-oferta de seu corpo é consumada com sua crucificação. Da mesma forma, a Eucaristia é uma renovação desse dom esponsal que Cristo oferece de seu corpo. Nas palavras de Jesus: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56). Essa é a nossa comunhão em uma só carne com Ele.

O plano original de Deus para o casamento

Jesus por diversas vezes nos aponta de volta ao princípio, a fim de que vejamos o plano original de Deus para o Matrimônio. Em resposta aos fariseus que o desafiavam a respeito do casamento, Jesus diz que “no começo não foi assim” (Mt 19, 8). Implicitamente Ele nos diz que permanece em nós, ainda que de modo residual, um certo eco dessa inocência original. Na “nudez original” do ser humano, Adão e Eva “estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2, 25). Eles não tinham nem vergonha, nem medo, nem luxúria; apenas inocência. Suas naturezas compostas, corpo e alma, estavam em perfeita harmonia. Adão e Eva viam um no outro uma pessoa inteira, imagem perfeita do Criador. A total doação de si que eles estavam destinados a fazer um ao outro era uma personificação do amor oblativo de Deus e uma expressão perfeita do significado nupcial de seus corpos. Cristo nos chama a restaurar isso.

É claro que, com a Queda do homem no pecado original, a imoralidade e a morte entraram no mundo. Adão e Eva tomaram folhas de figueira e juntaram-nas para cobrir seus corpos e ocultar sua vergonha. Na linguagem mítica da pré-história do Gênesis, as coisas tinham dado terrivelmente errado e nunca mais foram as mesmas desde então. A perfeita harmonia entre corpo e alma havia se rompido. Nossa natureza humana foi ferida pela concupiscência, o orgulho, a luxúria e a desobediência. A revelação da pessoa como uma imagem de Deus, a teologia estampada em nossos corpos, obscureceu-se.

Mesmo assim, apesar do pecado, aponta João Paulo II, “o casamento continuou a ser a plataforma para a realização dos planos eternos de Deus”. Em nenhum outro lugar isso ficou tão evidente quanto  na Encarnação. Jesus quis se fazer carne no seio de uma família e ser criado por uma mãe e um pai. A Encarnação de Jesus mostra que o corpo, e o casamento e a família permanecem “muito bons”. Ele destaca a centralidade do casamento como sacramento. As Escrituras nos dizem que Jesus também foi convidado para um casamento (cf. Jo 2, 2). Sua presença santifica o sacramento. Jesus realizou seu primeiro milagre público nas bodas de Caná, transformando a água em vinho. Aquele casamento aponta para a consumação do seu próprio matrimônio no Calvário, quando Ele oferece seu corpo por sua Esposa.

No Sermão da Montanha, Cristo novamente nos chama de volta ao modo como eram as coisas no princípio. Jesus diz: “Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração” (Mt 5, 28). Ele nos desafia a encontrar uma maneira nova e pura de olhar um para o outro, com a custódia de nossos olhos e uma pureza de coração que seja capaz de ver a pessoa como imagem de Deus. Jesus nos chama à conversão e a um domínio de si mesmo. Esse é o novo ethos que Jesus institui para o coração: agora se infunde em nosso eros um amor ágape. A visão antropológica de João Paulo II é uma sexualidade redimida, um “ethos da redenção do corpo”, o qual, através do poder de Cristo, torna-se livre do domínio da concupiscência e da autogratificação sexual. Somos chamados a essa libertação e a essa liberdade de ser; foi para isso que Jesus veio nos resgatar; Ele veio para que tivéssemos vida, e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Satanás trabalha para minar nosso relacionamento com Deus

Se, no entanto, o Matrimônio é o sacramento primordial — a primeira revelação, na Criação, do ser interior de Deus e a primeira revelação da união de Cristo com sua Igreja —, há alguma dúvida de por que Satanás o ataca? É precisamente nessa unidade original dos sexos que ele tenta romper nossa comunhão com Deus. O objetivo de Satanás é manter o homem longe de seu destino eterno com Cristo. A Irmã Lúcia comentou, de fato, que muitas pessoas vão para o inferno por causa dos “pecados da carne”. Ao distorcer a teologia de nossos corpos, Satanás planeja obscurecer a imagem trinitária dentro de nós. Ele procura zombar da nossa união em uma só carne com Cristo. Vivemos em uma sociedade cada vez mais depravada, que torce o sacramento, transforma-o em um antissacramento e distorce o sinal em uma impostura diabólica. A desconcertante perda da ética sexual nos últimos cinquenta anos pelo menos, como parte da Revolução Sexual (e subsequente “cultura da morte”), mostra o ataque selvagem que se tem feito ao casamento, à sexualidade, à procriação e à família. Não é difícil perceber quantas falsificações obtiveram ampla aceitação cultural, infelizmente até por muitos dentro da Igreja. Como João Paulo II declarou: “O ‘grande mistério’ encontra-se ameaçado em nós e ao nosso redor”. Não surpreende que a progressiva destruição da moral sexual, especialmente a redefinição tanto do casamento quanto dos sexos, seja agora a ponta de lança que ameaça a liberdade religiosa.

Refletindo ademais sobre as proibições sexuais da Igreja, como a contracepção, por exemplo, a conclusão do Papa é que ela é teologicamente sacrílega porque falsifica o sinal sacramental do Matrimônio. Ao explorar essas verdades sublimes, João Paulo II considerou sua Teologia do Corpo como “um extenso comentário” sobre a Humanae Vitae e a regulação do nascimento. Será que nós nos fazemos as perguntas difíceis, como se é livre, total, fiel e fecunda a nossa união dentro do Matrimônio? Em nossa modernidade racionalista, onde a sexualidade é reduzida apenas à biologia, haverá ainda espaço para “o grande mistério”? Para entender o ensinamento da Igreja sobre controle de natalidade e ética sexual, é necessário ter uma “visão integral do homem e de sua vocação ”. A abertura à vida faz todo o sentido no “profetismo do corpo” como imagem de Deus, mas parece loucura quando não se tem em mente o sinal sacramental.

Agora que cruzamos o limiar do centenário das aparições de Fátima, talvez possamos, como o Papa João Paulo II, apelar a Nossa Senhora de Fátima por uma intervenção em prol do Matrimônio e da família. Foi em outubro de 1917, no clímax da última aparição da Virgem, que o mundo recebeu a visão milagrosa da Sagrada Família: Nossa Senhora e o Menino Jesus nos braços de São José. Eles nos foram apresentados como o modelo da família perfeita. Nós também podemos nos esforçar em nossas famílias pela santidade e a perfeição através da oração, da penitência e dos sacramentos. Como a Irmã Lúcia escreveu sobre a visão da Sagrada Família:

Em tempos como o presente, quando a família muitas vezes parece incompreendida na forma como foi estabelecida por Deus, e é atacada por doutrinas errôneas e contrárias aos propósitos para os quais o divino Criador a instituiu, Deus quis nos deixar um lembrete do propósito para o qual Ele estabeleceu a família no mundo.

Por isso, na mensagem de Fátima, Deus nos chama a voltar os olhos para a Sagrada Família de Nazaré, na qual Ele escolheu nascer e crescer, em graça e estatura, a fim de nos apresentar um modelo para imitar, enquanto nossos passos percorrem o caminho de nossa peregrinação ao Céu.

O Matrimônio é um sinal sacramental por toda a vida do mistério interior de Deus, sinal que deve ser vivido de forma casta e experimentado na temperança quotidiana de nossas vidas, por reverência a Cristo. Esse é, para muitos, o mapa da nossa estrada para a vida eterna. Vamos estudar novamente a Teologia do Corpo, como parte da nova evangelização, a fim de que brilhem novamente a verdade e a compaixão neste mundo tão desesperadamente necessitado delas, pois o tempo urge.

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Nem todo o mundo
é hipócrita como você!

Nem todo o mundo é hipócrita como você!

Não é que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um?

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Maio de 2019
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Se há uma coisa que ainda precisamos compreender bem e em toda a sua profundidade, é a ação transformadora, realmente transformadora, da graça de Deus na alma humana. Digo que precisamos compreender, na primeira pessoa, porque de modo geral até os católicos ignoramos a beleza da teologia da graça, que está presente não só nos bons escritos dos santos Doutores da Igreja, mas principalmente nas páginas do Santo Evangelho.

Para esclarecer as coisas, digamos desde o início qual é o erro que parece ter impregnado a mente das pessoas de nossa época e que precisamos combater com todas as nossas forças, especialmente nestes tempos de confusão moral: trata-se da visão protestante de justificação. Em que ela consiste, é o Pe. Boulenger quem nos explica:

Na opinião deles (Lutero, Calvino), o homem, desde o pecado original, está despojado do livre-arbítrio, e por isso incapaz de qualquer coisa boa, de modo que a fé sozinha, a fé sem obras, é o requisito único para a justificação. Acresce que esta fé, dos tais inovadores, não é a fé propriamente dita, pela qual cremos, por serem revelações de Deus, todas as verdades que a Igreja nos ensina, não. É uma confiança que nos leva a julgar perdoados pela imputação os nossos pecados, isto é, pela aplicação dos méritos de Jesus Cristo [...].

No sistema deles, pela justificação, os pecados não são verdadeiramente destruídos. São apenas vendados. Encobertos e ocultos pelos méritos de Jesus Cristo que nos são atribuídos. Não é nenhuma renovação intrínseca que a graça produz no homem justificado.

Essa justificação vem a ser, antes, uma espécie de sentença, uma proclamação que nos declara justos, se bem que, interiormente, não haja em nós mudança alguma [1].

Na prática, o que é essa “justificação” senão uma farsa, uma roupa bonita com que Deus veste o pecador só para lhe disfarçar a sujeira, as misérias e a podridão? É tão aberrantemente contrária ao espírito do Evangelho e da Nova Aliança essa forma de pensar que custa-nos crer que alguém lhe possa realmente dar crédito. O Jesus que tanto condenou a hipocrisia dos fariseus — cujos lábios e corações viviam fora de sintonia (cf. Is 29, 13) — torna-se nessa teologia miserável, Ele mesmo, um grande fariseu.

Mas, antes de apontar o dedo aos protestantes (pois não é a finalidade deste artigo), façamos nós mesmos, católicos, um exame de consciência, e vejamos bem se com nossas palavras e julgamentos não somos nós os primeiros a precisar de advertência e emenda.

Qual é a nossa reação, por exemplo, diante do bem e dos bons? Isto é, quando somos confrontados com a verdade do Evangelho, ou com alguém que procura vivê-la; quando nos deparamos com a vida de um santo, ou com uma pessoa que se esforça por viver os Mandamentos, ter uma vida de oração e lutar contra os próprios pecados… qual é normalmente a nossa postura? O que sai de nossa boca (ou em que tipo de pensamentos consentimos) quando o Cristo se apresenta diante de nós na forma de um ensinamento que nos constrange ou de uma pessoa que nos corrige, ainda que seja só com sua vida?

Talvez sejamos daqueles que dizem, meio que irrefletidamente: “Mas também não se pode ser tão radical assim”, ou: “Ninguém suporta, também, viver a religião assim, a ferro e fogo”. Talvez pensemos: “Religião não pode ser camisa de força”, ou achemos que as pessoas que procuram viver o Evangelho, no fundo, não passam de umas “reprimidas” e “recalcadas”. Talvez sejamos ainda piores e até já tenhamos teorias prontas sobre o interior e o passado dos outros: “O fulano fala e age assim agora, posa de santo, mas ele já fez isto e aquilo”; “O fulano se comporta assim agora, mas lá no fundo…” etc.

Ou seja, na cabeça de muitos de nós, qualquer pessoa que aparente ser um pouco melhor do que nós, um pouco mais esforçada do que nós, um pouco mais perfeita do que nós, já é motivo para darmos na língua e acharmos que é uma hipócrita. (No fundo, um artifício para que estejamos sempre “por cima”, para que nos sintamos sempre superiores.)

Pode até ser que não nos demos conta, mas por trás de todas essas ideias está escondida uma profunda falta de fé na santidade. No fundo, nós não acreditamos que as pessoas possam realmente ser transformadas pela graça. Para nós, elas sempre vão continuar as mesmas pecadoras miseráveis de sempre, mas disfarçadas com uma roupinha melhor aqui, um traje mais elegante acolá.

Ou seja, ao acusarmos de “hipócritas” e “farisaicas” as pessoas de igreja, na verdade, estamos revelando mais de nós mesmos do que daqueles a quem acusamos. Querendo enxergar o “fundo” do coração dos outros, nós estamos na verdade externando o que vai no fundo do nosso coração.

Talvez fosse necessário dizer a essas pessoas que nem todo o mundo é hipócrita como elas... Se é o seu caso, preste atenção: não é porque você acha os Mandamentos um fardo, não é porque você acha a religião um peso, que as pessoas são do mesmo modo. Há pessoas sinceras, que realmente querem a Deus, que realmente buscam a santidade, que realmente acreditam no Céu e querem viver por ele. E você, ao invés de desencorajar a piedade dos outros falando asneiras, faria muito melhor se entrasse na Igreja também, com o coração, ao invés de acusar as de dentro de estarem lá só de corpo presente.

Não que não haja hipócritas dentro de nossas igrejas. Certamente os há, certamente eles abundam. Mas quem está em condições de fazer esse juízo, apontando aos hipócritas um por um? E qual é a linha que separa um hipócrita, afinal, uma pessoa fingida e dissimulada, de um pecador que busca sinceramente conformar-se à vontade de Deus? Se tanto o fariseu quanto o publicano da parábola eram pecadores, por que Nosso Senhor elogiou a este e reprovou a conduta daquele (cf. Lc 18, 9-14)?

A resposta é simples: enquanto o publicano teve a humildade de reconhecer a própria miséria e saber-se necessitado da graça divina, o fariseu era cheio de si, autossuficiente demais para precisar de Deus. E talvez nós, com nossa soberba e arrogância, estejamos enveredando pelo mesmo caminho, pois, aparentemente, os esforços que os outros fazem no caminho da santidade não são necessários para nós, não é preciso ser tão “ferrenho” assim no seguimento da santidade…

Daí o fato curiosíssimo de algumas pessoas sentirem “alergia” só de ouvirem falar de “perfeição” e de “santidade”. Elas acham que está demais esse discurso. “Tem gente demais querendo ser perfeito”, talvez elas pensem.

Mas não, elas estão erradas. O que está em alta, ainda, não são os cristãos que querem ser perfeitos. (Chegaremos lá, se Deus quiser.) Hoje, infelizmente, o que abundam são cristãos medíocres, que não querem de jeito nenhum ser perfeitos. E é a esses que cabe puxar as orelhas, ao invés de desencorajar os católicos praticantes que, sendo imperfeitos, querem pelo menos abandonar o pecado e fazer-se santos por graça de Deus.

Em tempos de mornidão espiritual como os nossos, nos quais a mediocridade parece ter-se transformado em “regra de perfeição”, nunca é demais recordar o ensinamento tradicional da Igreja e dos Santos Padres de que, na vida espiritual, não progredir é regredir, pois é dever de todo cristão multiplicar o talento recebido, fazer brotar a semente plantada por Cristo e esforçar-se, numa palavra, por crescer dia a dia na caridade. Ouçamos o que nos diz a este respeito São Bernardo de Claraval:

Viu Jacó na escada anjos a subir e anjos descer. Mas viu acaso algum deles parado ou sentado? O parar-se no degrau desta frágil escada e na incerteza desta vida mortal não é, de forma alguma, permanecer imóvel no mesmo lugar. Não temos aqui morada permanente, nem possuímos ainda a futura, senão que nos dirigimos a ela. Não há remédio: é necessário ou que subas ou que desças; se tentares parar, é forçoso que caias. Não pode, em absoluto, ser chamado de bom quem não deseja ser melhor, pois quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom (Epist. 91 [PL 182, 224]; cf. também Santo Agostinho, Sermão 169, 18).

“Quando começas a não querer melhorar, é então que deixas de ser bom”. Não nos esqueçamos nunca que “é uma luta a vida do homem sobre a terra” ( 7, 1), e que é só combatendo dia após dia contra nós mesmos, contra nossas más inclinações, contra nossa hipocrisia, sim — porque até que nos tornemos de Deus por inteiro, todos somos uma farsa em alguma medida —, só assim é que poderemos ganhar aquela paz que não nos pode dar o mundo, aquela tranquilidade de consciência que só experimentam os que vivem em Cristo.

Não é verdade, pois, que “o jogo já está ganho” — como deduzem os protestantes, tirando as consequências práticas de sua visão farisaica de justificação, e como muitos católicos fazem crer hoje em dia, desacreditados que estão da santidade. A santa liturgia ensina-nos justamente o contrário, quando canta a Jesus Ressuscitado, na Páscoa: “Tu nobis, victor rex, miserere! — Tu, rei vitorioso, tem piedade de nós!” Ora, se é vencedor o nosso rei, se derrotou o demônio, o pecado e a morte, por que pedir-lhe misericórdia? É que a vitória de Cristo já está garantida, mas a nossa perseverança não. E como só quem perseverar até o fim será salvo (cf. Mt 10, 22)... ninguém está dispensado de vigiar e orar.

Referências

  1. Boulenger, Doutrina Catholica: Manual de Instrucção Religiosa para uso dos Collegios e Catechistas voluntarios, v. 3. Livraria Paulo de Azevedo & Cia., pp. 19-20.

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“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”
Espiritualidade

“Como se pode fazer de
uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”

“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”

As provocações dos hereges não merecem resposta, mas nós, católicos, deveríamos ter sempre na ponta da língua a verdade da nossa fé e as razões da nossa esperança em Jesus Sacramentado.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Maio de 2019
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“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?”: a provocação feita pelo profanador de Trieste é uma objeção à Eucaristia que atravessa os séculos. Patatina não passa de uma versão mais irreverente do escândalo que muitos dos primeiros discípulos experimentaram ao ouvir falar desse mistério pela primeira vez. É uma versão muito parecida com a acusação que os protestantes vivem fazendo contra os católicos, de que, além de adorarmos imagens, ainda por cima nos prostramos diante de uma “bolacha” ou um “pedaço de pão”. Não estamos falando, portanto, de uma agressão pontual, mas de um desafio constante à nossa fé.

Mas se os hereges debochados, como o profanador de Trieste, ou mesmo os protestantes mais agressivos, não merecem uma resposta, nós, católicos, entretanto, deveríamos ter sempre na ponta da língua a resposta a essa provocação. Se não para os que nos perguntam e provocam, ao menos para nós mesmos, para que tenhamos cada vez mais firmeza da nossa fé, para que nos estejam sempre presentes no espírito as razões da nossa esperança (cf. 1Pd 3, 15).

Respondamos, então, como é possível que em toda Santa Missa os católicos façam de uma “batatinha”, de uma “bolacha”, de um “pãozinho” (ou seja lá como se queira chamar a matéria deste sacramento), nada mais nada menos do que o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como se dá isso, afinal? Onde o porquê disso?

Comecemos do Evangelho, mais exatamente do momento exato em que Jesus nos promete a Eucaristia. Sabemos que a instituição deste sacramento se deu na noite da Quinta-feira Santa, na Última Ceia. Mas antes disso, em seu ministério público, Jesus já havia aludido ao mistério que havia de inaugurar, e isso aconteceu no célebre “discurso do pão da vida”, presente no capítulo 6 do Evangelho de São João (v. 22-71).

“A Eucaristia”, por Juan de Juanes.

A quem ainda não leu esta importante passagem bíblica, vale a pena fazê-lo, mas sua ideia central é muito simples: Jesus Cristo quer se dar aos homens como alimento. Percebam, no entanto, que Ele não institui a Eucaristia naquele episódio, estando no meio da multidão, senão que escolhe seus momentos finais para fazê-lo, estando na intimidade com seus amigos, e deixando-lhes sua carne e seu sangue como um verdadeiro testamento. Nosso Senhor revestiu de grande solenidade a instituição da Eucaristia, e com isso Ele já indicava o respeito e a reverência que queria receber dos homens neste sacramento.

A promessa do pão da vida, no entanto, é feita a todo o povo, porque de toda a multidão que O escutava desde já Nosso Senhor queria receber a obediência da fé. Jesus Cristo usará nessa ocasião termos fortes, como nunca antes tinha usado: falará de sua carne como “verdadeira comida” e de seu sangue como “verdadeira bebida”, dizendo ainda que seria necessário τρώγειν (lit., “roer, mastigar, comer”) o seu corpo para ter a vida eterna (cf. Jo 6, 53-55). Muitos, ao ouvir dessas palavras, reagirão assustados e perplexos — “Isto é muito duro! Quem o pode admitir?” (Jo 6, 60), deixarão de seguir a Jesus (cf. Jo 6, 66) e no próprio colégio apostólico haverá um que não crê: Judas Iscariotes, a quem o Senhor chama “um demônio” (Jo 6, 70) já nesta ocasião.

Dos lábios de São Pedro, no entanto, Nosso Senhor recebe aquilo por que tanto ansiava: um ato de fé. “Senhor, a quem iremos nós?”, ele diz. “Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).

A atitude do primeiro Papa é a atitude que toda a multidão de fiéis deverá imitar ao longo dos séculos para com o Santíssimo Sacramento. Com a diferença que se canta no hino Adoro te devote: In cruce latebat sola deitas, / at hic latet simul et humanitas, isto é, “Na cruz estava oculta somente a divindade, / mas aqui se esconde também a humanidade”. Ou seja, São Pedro ainda pôde ver a carne física de Cristo, enquanto de nossa parte é exigida a fé tanto na divindade quanto na humanidade de Nosso Senhor, ambas escondidas sob a aparência do pão e do vinho.

Toda essa digressão é necessária para explicar por que Deus não opera logo, em nossos altares, todos os dias, o milagre de Lanciano, por exemplo, transformando tudo — inclusive as aparências do pão e do vinho — em seu Corpo e em seu Sangue gloriosos. Ele não o faz porque quer a nossa fé, assim como quis a de seus primeiros discípulos. Se toda vez que fôssemos à Missa o padre tivesse em suas mãos um pedaço da carne viva de Cristo, não seria necessário ter fé. A Missa poderia até se tornar um “espetáculo” aos olhos do mundo, mas não foi para se mostrar vaidosamente aos homens que o Filho de Deus instituiu a Eucaristia; foi para se unir a nós que Ele o fez.

E aqui está a outra grande razão pela qual Nosso Senhor se esconde na Hóstia consagrada: porque foi dando-se a nós na forma de alimento — ou seja, nas espécies do pão e do vinho — que Ele conseguiu realizar o grande desejo de se unir a nós. Eis a razão de Ele se submeter a um tal rebaixamento! Eis o grande amor que O faz descer ao aspecto de um simples alimento, submetendo-se (como se submete) a profanações como a de Trieste, a irreverências que tão frequentemente ocorrem em nossas Missas e às ingratidões de tantas das nossas comunhões!

Embora Nosso Senhor se exponha a isso, no entanto, que fique bem claro: o que Ele quer é a nossa fé e o nosso amor. Não é para os descrentes, para os Judas Iscariotes ou para os malfeitores que Cristo desce aos altares.  É, ao contrário, para estar com os que crêem nEle, para estar com os que O amam, para ouvir deles como ouviu de São Pedro: Domine, ad quem ibimus? Verba vitae aeternae habes. Como diz Santa Teresa d’Ávila, “Ele tudo suporta e se dispõe a sofrer para encontrar uma única alma que O receba e Lhe dê uma acolhida amorosa; que essa alma seja a vossa” (Caminho de Perfeição, 35, 2).

Mas se ainda não estamos convencidos o suficiente da grandeza do amor que brota do Coração Eucarístico de Nosso Senhor, que nos convença esta revelação recebida por Santa Teresa e registrada em seu Livro da Vida (38, 23):

Indo comungar, vi com os olhos da alma, com maior clareza do que com os do corpo, dois demônios deveras abomináveis. Tive a impressão de que, com os seus chifres, mantinham presa a garganta do pobre sacerdote. E, na hóstia que ia receber, vi meu Senhor, com a majestade que descrevi, posto naquelas mãos, que percebi com clareza serem transgressoras, compreendendo que aquela alma estava em pecado mortal. Que seria, Senhor meu, ver Vossa formosura entre figuras tão abomináveis? Elas estavam como que amedrontadas e espantadas diante de Vós, e creio que de boa vontade teriam fugido se Vós lhes tivésseis permitido.

Isso me provocou tamanha perturbação que não sei como pude comungar, e fui tomada de grande temor, pensando que, se fosse visão de Deus, Este não me permitiria ver o mal que se instalara naquela alma. O Senhor disse que rogasse por ele e que permitira semelhante coisa para que eu entendesse que força tinham as palavras da consagração e visse que, por pior que seja o sacerdote que as pronuncia, Deus está sempre ali; disse também que o fizera para que eu conhecesse Sua grande bondade, que se põe nas mãos do inimigo só para o meu bem e o de todos.

“Como se pode fazer de uma ‘batatinha’ o Corpo de Cristo?” Como pode ser que Ele se submeta a ficar nas mãos de um criminoso debochado como o de Trieste? Porque é grande a sua bondade, a ponto de se pôr nas mãos do inimigo… só para se unir aos que quer como seus amigos. Assim como aconteceu dois mil anos atrás, quando o Bom Jesus deixou-se prender, flagelar e coroar de espinhos, só para ter o nosso amor, também hoje a sua entrega se repete em nossas igrejas. E cabe a cada um de nós responder se temos sido os malfeitores que O profanam ou as almas adoradoras que O consolam e desagravam.

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