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A noite em que eu enfrentei meus demônios
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A noite em que eu
enfrentei meus demônios

A noite em que eu enfrentei meus demônios

"Deus resgatou minha alma doente e entorpecida de um destino literalmente pior que a morte. Sem a sombria epifania que eu experimentei naquele bar, e aquilo a que ela me levou, só Deus sabe onde eu estaria agora."

Dr. John MorrisseyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2015Tempo de leitura: 10 minutos
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Olhando retrospectivamente para os meus 29 anos de médico, acho que o ano em que passei no hospital do câncer foi o mais difícil de todos. Toda quarta-feira e fim de semana, sem falta, eu cobria a unidade de terapia intensiva por 24 horas, como médico residente intermediário. Durante todo o tempo em que passei ali, não vi um único paciente sobreviver, embora não fosse por falta de tentativa. Nenhum sequer.

Todos tinham em comum o fato de a sua médula óssea ter sido suprimida pelas sessões de quimioterapia, o que tinha como consequência infecções generalizadas inevitavelmente fatais. UTI, ressuscitação completa com tubos, ventilação, terapia intravenosa, estimulantes cardíacos: era tudo em vão. Eles morrem porque, sem a médula óssea funcionando, perdem a resposta imune do seu organismo. Nenhuma quantidade de antibióticos consegue impedir que seus corpos sejam infestados por microorganismos.

Obviamente, eu atendia apenas os mais doentes de todos. A maior parte dos pacientes de quimioterapia não sofre complicações tão severas. Com a médula recuperada, o seu câncer regride ou é até mesmo curado.

Eu tinha me tornado médico para curar quando desse, dar alívio na maioria das vezes e confortar sempre, mas aquela contínua experiência de fracasso foi começando pouco a pouco a me deixar para baixo.

Comecei a ficar apavorado com o trabalho no hospital do câncer, com medo de aquele bipe tocar. Mesmo tendo me afastado da prática da fé depois da universidade, comecei a rezar, pedindo que os meus pacientes se recuperassem ou que, pelo menos, eu não estivesse de plantão quando eles fossem admitidos. Minhas orações não foram atendidas. As mortes continuaram acontecendo, implacáveis, e um grande sentimento de vazio e de desespero encheu o meu coração.

O fato de eu estar solteiro, sem amigos, morando sozinho e afogando minhas mágoas, toda noite livre, em um bar ao lado do hospital, só piorava a situação. Nunca me faltavam companheiros – da equipe do hospital, principalmente – com quem beber, rir e me divertir na hora do rush, antes de voltar para jantar, TV e cama. Meu coração batia, mas eu não estava vivo.

Espiritualmente, eu era um alegre pagão, um Baco vestido com um imundo jaleco branco e uma falsa auréola na cabeça. Mesmo tendo vivido uma profunda experiência religiosa dois anos antes, minha vida moral continuava pintada com vários tons de preto e minha cabeça estava cheia de ideias sem sentido de sincretismo e "nova era".

Um dia, escrevendo o relatório de um jovem paciente que tinha acabado de falecer, fiquei paralisado ante a espreita do "cachorro negro" da depressão, pronto para me devorar. Eu estava encarando o vazio e meu rosto deve ter feito soar o alarme, porque um dos parentes da vítima veio me perguntar, preocupado: "Está tudo bem, doutor?" Emocionado com a sua gentileza, eu me desculpei: "Perdão, estou lutando para ver algo de bom aqui. Tem morte demais nesse lugar."

Constrangido com minha própria franqueza e morbidez, corri para a sala de plantão, desorientado à procura de uma introspecção e de alguma conversa com Deus. Nada disso me ajudou, na verdade. As enfermeiras devem ter pensado que eu era um desses senhores velhos e desajeitados.

Outra coisa me incomodava em relação à ética do hospital. Havia uma forte ênfase de pesquisa nos efeitos das terapias: tratamento A versus tratamento B. Tudo medido pelo número total de dias de sobrevivência, incluindo os pacientes da seção de terapia intensiva. Meu único papel parecia ser o de prover, a qualquer preço, aquelas últimas desesperadoras horas de vida, estendidas apenas por intervenções médicas extremas e inúteis. Eu não passava de um mero acessório para a confecção isolada de estatísticas. Parecia haver algo de errado naquilo tudo.

Tive um sonho estranho certa noite. Encapuzado, como um ativista pelos direitos dos animais, eu corria dentro do hospital, rasgando prontuários e dizendo a todos os pacientes que eles pelo menos estavam livres. No mínimo, bizarro.

Outra noite, fiquei até mais tarde no bar, bebendo sozinho depois que meus amigos haviam saído. Eu estava meio bêbado e não havia por que ir para casa, quando, de repente, me sobreveio de não sei que lugar um forte sentimento de paranoia, literalmente assustador. Por um momento, aquele aconchegante bar no qual eu tomava alguns driques se tinha transformado em um antro de horrores. Era como se eu estivesse vendo pela primeira vez aquele lugar como ele realmente era: uma caverna suja repleta de alcoólatras caloteiros e derrotados, e ali estava eu, um membro completo do clube. Os que ali bebiam com frequência eram desconhecidos para mim, mas eu comecei a suspeitar más intenções de cada olhadela deles em minha direção. Senti-me tão sozinho. Comecei a ficar gelado e a suar, à procura de uma rota de fuga.

Um terrível sentimento de morte iminente invadiu a minha cabeça. Eu tinha certeza de que estava para conhecer o meu fim, ou por violência, ou por alguma doença repentina. Minha mente saltava de um lugar para outro considerando todas as possibilidades e, então, com grande claridade e certeza, eu sabia que tinha que confessar os meus pecados a um padre sem demora, ou estaria condenado eternamente. Como um jovem "na ativa" em uma grande cidade, o pecado não me era estranho, como se pode ver, mas, até aquele momento, eu nunca havia percebido os seus efeitos de morte sobre a minha alma.

Saí do bar como que perseguido por uma horda de demônios e fiz o caminho até a entrada do hospital, onde havia uma cabine telefônica. Eram cerca de 9 da noite e ainda estava claro. Eu não pertencia a nenhuma paróquia, para quem ligar? As páginas amarelas listavam as igrejas da cidade e um nome saltou diante dos meus olhos. Era uma igreja jesuíta. Lembrei-me de ouvir sobre o seu carisma missionário enquanto estudante de colégio católico. Com certeza eles poderiam me ajudar.

Disquei rapidamente e, em pânico, expliquei minha situação à atenciosa voz do outro lado da linha. Eu sabia que devia estar parecendo um completo desvairado. A voz me disse calmamente para eu ir ao seu encontro.

Pulei para dentro de um táxi e cheguei lá em dois tempos. Da rua principal, avistei a porta da frente e toquei a campainha. A tranquilidade e as sombras do lugar não ajudavam a minha ansiedade. Sentia-me naquela famosa cena de "O Exorcista".

A porta se abriu e a claridade do lado de dentro instantaneamente dissipou a estranha penumbra que me cobria enquanto eu esperava. Fui recebido por um dos irmãos, o mesmo que tinha me atendido ao telefone. Eu devia estar parecendo um monstro alcoolizado, com os meus olhos arregalados, o rosto pálido e um terrível bafo de cerveja.

Enquanto eu esperava na entrada, a porta da frente se abriu de novo e dela saiu um velho sacerdote baixinho, com óculos redondos, uma boina e um longo casaco preto. Ele juntou-se a nós e, "Boa noite, irmão!", disseram alegremente um ao outro, como fazem os irmãos.

Fui apresentado a um quarto de hóspedes fora do hall de entrada. Alguns minutos depois, apareceu um padre de meia idade, com os olhos pesados, vestido em uma roupa clerical já meio desgastada. Obviamente, eu tinha tirado o pobre homem da cama. Ríspido, ele deixou claro que tudo aquilo era muito fora do comum, mas eu implorei tanto que ele escutasse a minha confissão que, vendo o quão perturbado eu me encontrava, ele misericordiosamente assentiu.

Eu estava bem fora de prática. Eram, afinal, dez anos sem me confessar. O padre me ajudou e, com lágrimas, consegui acusar os meus pecados. Recordei o Ato de Contrição da minha infância e, com as palavras finais da absolvição e de olhos fechados, todo meu pavor foi embora, completamente. Nunca tinha ficado tão agradecido como naquele momento. Pedi desculpas pela invasão e deixei aquela casa em paz.

Um coração consideravelmente mais iluminado observava a velha cidade escura, enquanto eu pulava as poças de água para pegar o ônibus para casa. Nada à minha volta tinha mudado, mas eu sim, eu estava reconciliado. Percebi que apenas os meus próprios pecados podiam realmente me fazer mal. Se eu pudesse cortar todas as amarras que me prendiam a eles, perderia também o meu medo da morte, para sempre e de uma vez por todas. Eu estava finalmente de volta ao aprisco e, agora, deveria dar o meu melhor para ficar aqui. Esse empenho continua até o dia de hoje, nesse tortuoso caminho familiar a todos os pecadores arrependidos. Minha paranoia levou-me a uma metanoia, a uma completa mudança de mentalidade e de vida.

Tive ainda que encontrar uma paróquia para ser minha casa espiritual e reestabelecer o hábito de ir à Missa regularmente. Levaria alguns anos até que eu novamente me sentisse parte de uma comunidade paroquial, como a que eu tinha em minha juventude. O casamento e os filhos ajudaram a acelerar esse processo.

Voltei à rotina do hospital. Aqueles pobres pacientes continuavam a morrer, mas, agora, eu rezava por suas almas, pedindo que recebessem o presente que eu tinha recebido, que a luz perpétua os iluminasse.

O moderno tratamento médico pode alterar apenas a hora, o lugar e o modo da morte corporal, mas não a sua ocorrência inevitável. Infelizmente, muitos pacientes e familiares não conseguem ver essa limitação ou sequer chegam a considerar a sua vida espiritual. Ninguém deveria "entrar gentilmente naquela boa noite" ("go gentle in that good night") sem alguma preparação para o caminho e uma "luz generosa" ("Kindly Light") para o guiar [2].

Pacientes de câncer estão bem conscientes de que foram invadidos por uma força hostil que intenta a sua aniquilação. Católicos veem os pecados mortais sob essa mesma luz: eles são um tumor letal, uma sentença de morte para a alma, separando-a para sempre de Deus, que é seu único verdadeiro repouso e morada. Todo o Evangelho não trata senão da morte dessa "sentença de morte", alcançada pelo único sacrifício de Cristo por todos na Cruz.

O pior câncer imaginável pode em teoria ser curado por uma dose totalmente ablativa de radiação, enviada a todo o corpo. Isso mata não apenas as células cancerígenas – para onde quer que elas se tenham espalhado –, mas também a médula óssea, fonte vital de imunidade. Sem um transplante de medula, o paciente irá morrer rapidamente mesmo com a mais inofensiva infecção, como uma gripe comum. A médula doada deve ser totalmente compatível, ou há um risco de que ela comece a atacar os próprios tecidos do paciente.

O transplante que Jesus nos dá na Eucaristia é perfeitamente compatível e revivificador para a alma humana, já que Cristo é o doador universal. Mas esse transplante só "funciona" com segurança na alma que foi perdoada do pecado grave pelas terapias ablativas e purificadoras do Batismo e da Reconciliação, que iluminam a alma com a graça santificante.

A dor, a doença, a tristeza a e morte geralmente não nos são tiradas por Jesus. Ao contrário, Ele nos mostra como usá-las santamente, em ordem a unirmos os nossos sofrimentos aos d'Ele. Mesmo sendo um ótimo remédio, a medicina não substitui uma união cada vez mais íntima com Jesus, e a Sua imitação nas coisas mais pequenas, até o sacríficio final – para tanto, serão suficientes, pelo menos a princípio, os sofrimentos ordinários que todos nós temos no dia a dia.

As flechas do nosso desejo de união com Deus, que nós lançamos contra a nuvem do desconhecido (que esconde Deus de nós), retornam para nós, no bom tempo de Deus, como dardos apontados para os nossos corações e envolvidos com o óleo da caritas transformadora. O misterioso é que nossas flechas estão geralmente sendo lançadas para cima sem a nossa plena consciência, enquanto as nossas almas trabalham, balindo no subconsciente por ajuda.

Quanto mais distante as ovelhas, mais aguçados os ouvidos do Bom Pastor. Se algumas vezes parece que as nossas orações não estão sendo atendidas, deve ser porque nosso Senhor está ocupado lidando com aquelas em maior perigo. A paciência é sempre vital para nós, que somos Seus pacientes.

É quando somos levados por nossas escolhas ou pelas circunstâncias ao nosso ponto mais baixo e nos encontramos desamparados, que a graça de Deus pode intervir ao máximo. Quando somos fracos, Ele é o mais forte. Deus é gentil e educado e nunca faz violência contra nós – até mesmo o divino médico exige o nosso consentimento. Mas Ele nunca fracassa em salvar-nos de nossa aflição, se permitirmos que Ele aja.

Mais de 20 anos depois, agora eu posso ver como Deus resgatou minha alma doente e entorpecida de um destino literalmente pior que a morte. Sem a sombria epifania que eu experimentei naquele bar, e aquilo a que ela me levou, só Deus sabe onde eu estaria agora.

Notas

  1. O autor do texto é especialista no cuidado com pessoas em estado terminal. John Morrissey é apenas o seu pseudônimo.
  2. Os dois trechos entre aspas fazem referência a dois poemas de língua inglesa. O primeiro é Do not go gentle into that good night, do escritor Dylan Thomas (1914-1953). O segundo é a canção The Pillar of the Cloud, de autoria do bem-aventurado John Henry Newman (1801-1890).

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Sofrendo como Jó, mas com a Virgem Maria
Espiritualidade

Sofrendo como Jó,
mas com a Virgem Maria

Sofrendo como Jó, mas com a Virgem Maria

Quem já leu a história de Jó e de seus sofrimentos pode dizer: certamente não é fácil imitá-lo em sua aceitação fiel das provações. Nós, porém, temos uma grande vantagem nessa matéria, que ele não tinha: o consolo de nossa mãe, a Virgem Maria.

Fr. Hugh BarbourTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A vida do homem sobre a terra é uma milícia;
os seus dias são como os dias dum mercenário.
Assim como um escravo (fatigado) suspira pela sombra,
e o mercenário espera o seu salário,
assim também eu tive meses vazios (de consolação),
e contei noites trabalhosas.
Se durmo, digo: Quando me levantarei eu?
(Depois de levantado) espero a tarde,
e sacio-me de dores até à noite.
Os meus dias correm mais rápidos que o cortar da teia pelo tecelão,
consomem-se sem esperança (de voltar).
Lembra-te que a minha vida é um sopro
e que os meus olhos não tornarão a ver a felicidade (perdida) ( 7, 1-4.6-7).

Bem, com essa e uma série de outras leituras no Lecionário [1], parece um pouco estranho responder, na Missa: “Graças a Deus!” Mas é o que fazemos. Como entender essa aclamação? Não estou absolutamente certo do que os compiladores litúrgicos tinham em mente, se é que tinham algo, mas vou oferecer minha própria explicação.

Detalhe de “Jó reprovado por seus amigos”, de James Barry.

Em primeiro lugar, os tremendos sofrimentos de Jó são prefigurações dos sofrimentos de nosso Salvador, Jesus Cristo. Embora fosse inocente, Jó suportou a malícia de Satanás e a incompreensão dos homens, e Deus permitiu tudo isso e o tirou de suas provações com a esperança da ressurreição e da visão beatífica: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que surgirá finalmente na terra. Então, revestido da minha pele, na minha própria carne verei o meu Deus. Eu mesmo o verei, os meus olhos o hão-de contemplar, e não os de outro” ( 19, 25-27a). Então, sim, ele “verá a felicidade novamente” e uma felicidade além de qualquer imaginação terrena. Para este evento futuro da história, conhecido por nós, cristãos, que ouvimos a lição que está sendo lida, podemos muito bem responder: “Graças a Deus”.

Mas, considerando o que sabemos sobre nossa vida espiritual em Cristo, também podemos dizer “graças a Deus” ao estado atual de Jó como apresentado na leitura. O mérito de sua árdua paciência é a preparação para seu triunfo final, pelo poder de Deus, sobre todos os ardis de Satanás. Como o Beato Solano Casey, frade capuchinho, gostava de dizer: “Dê graças a Deus antes do tempo”. Há um tremendo mérito nisso; tamanha gratidão, antes de que se dê o fato, é uma obra de grande amor a Deus. E o livro de nos fala de seu amor por Deus, visto que, apesar de todas as provações, ele jamais pecou por murmuração, expressando sua submissão à vontade divina mesmo quando admitiu sinceramente seu grande sofrimento e consternação. Ele não fingiu que não estava sofrendo, nem fez pouco caso de seu sofrimento, pois isso seria contrário à verdade. Manteve o equilíbrio, mesmo no extremo sofrimento.

Ele recebeu o poder de fazer isso pela graça do Redentor vindouro, que estava vivo e viria para levantá-lo e dar-lhe a visão de sua face — Jó estava convencido dessa verdade.

Pois é Cristo, e não Jó, o modelo absoluto. O sofrimento de Jesus superou infinitamente o de seu servo. Nosso Senhor não apenas foi provado por Satanás com os infortúnios da vida, como foi entregue às suas garras, na tentação do deserto — imagine o horror natural de ser fisicamente transportado pelo maligno (cf. Mt 4, 5)! — e sobretudo na Paixão.

S. John Henry Newman afirma isso de forma mais eloquente em um de seus sermões:

Tanto na alma como no corpo, este Santo e Bendito Salvador, o Filho de Deus e Senhor da vida, foi entregue à malícia do grande inimigo de Deus e do homem. No Antigo Testamento, Jó foi entregue a Satanás, mas dentro de limites prescritos: primeiro, o Maligno não tinha permissão para tocar sua pessoa; depois teve, mas não de tirar sua vida. Satanás teve poder para triunfar — ou o que ele pensava ser um triunfo — sobre a vida de Cristo, o qual confessa a seus perseguidores: “Esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22, 53b). Certamente, apenas a ele aplicam-se em plenitude as palavras do Profeta: “Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera” (Lm 1, 12) [2].

“Tudo bem”, você pode dizer a esta altura, “mas eu me sinto como Jó e certamente não sou o Salvador. Seus exemplos são fortes, mas o que eu devo fazer?”

Ouça interiormente esta passagem do mesmo santo, Cardeal Newman, sobre o auxílio de Nossa Senhora em nossas provações e você saberá o que fazer. Nós temos essa vantagem sobre as perfeições de Jó e de Jesus: a esposa de Jó o atormentava e Jesus teve de entregar sua Mãe (não podendo receber consolo dela em sua Paixão); nós, porém, temos Maria toda para nós. Leiamos com atenção e deixemo-nos consolar pela descrição do nosso estado, semelhante ao de Jó, e do poderoso auxílio de Maria:

O que vos fará avançar no caminho estreito, se viveis neste mundo, senão o pensamento e o auxílio de Maria? O que selará vossos sentidos, o que tranquilizará vosso coração, quando vos rodearem visões e sons de perigo, senão Maria? O que vos dará paciência e perseverança, quando estiverdes extenuados com a duração do conflito contra o mal, com a necessidade incessante de precauções, com a inquietação de observá-las, com o tédio de sua repetição, com a tensão sobre vossa mente, com a vossa condição de desamparo e de tristeza, senão uma comunhão amorosa com Maria! Ela vos confortará em vossos desânimos e em vossas fadigas, erguer-vos-á de vossas quedas, recompensar-vos-á por vossos sucessos. Mostrar-vos-á o seu Filho, vosso Deus e vosso tudo. Quando vosso espírito, dentro de vós, estiver ou agitado, ou sem energia, ou deprimido, quando ele perder o equilíbrio, quando estiver inquieto e rebelde, quando estiver cansado do que tem e ansioso pelo que não tem, quando vossos olhos forem aliciados pelo mal e vosso corpo mortal tremer debaixo da sombra do tentador, o que vos trará a vós mesmos, à paz e à saúde, senão o alento sereno da Imaculada [3]?

Demos, pois, graças a Deus e a sua Mãe santíssima!

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O testamento de Moisés para os católicos
Liturgia

O testamento
de Moisés para os católicos

O testamento de Moisés para os católicos

Pouco antes de morrer, Moisés compôs um cântico, narrando os benefícios de Deus a Israel e deplorando a ingratidão do povo escolhido. O que para muitos não passaria, porém, da “letra morta” de um testamento, a Igreja até hoje canta em sua liturgia.

Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Um dos grandes benefícios de se rezar o Ofício Divino é o contato contínuo que passamos a fazer com toda a história da salvação — contato que realmente nos toca o íntimo, como uma experiência viva, que não só acrescenta “cultura”, mas que também faz aumentar o amor a Deus e a devoção.

Essa é, na verdade, desde muito tempo, a grande diferença entre católicos e protestantes: enquanto estes se gabam de ter um cristianismo “bíblico” — principalmente através do “dogma” da sola Scriptura —, aqueles têm consciência de que sua religião nasceu muito antes da popularização dos livros

Por isso nunca houve, da nossa parte, uma “fixação” com a palavra escrita. A Igreja Católica conserva e venera a Bíblia, sim, mas ela não é uma “religião do livro”; somos também o povo da Missa e do presépio, do Terço e da Liturgia. É através desses instrumentos que entramos em contato com os mistérios da fé: na manjedoura de Belém, aprendemos que Deus se fez homem para nossa salvação e pão para nosso sustento; no Rosário, conhecemos praticamente toda a vida de Jesus; nos sacramentos, mais do que “conhecimento”, é a própria graça de Deus que nos transforma, desde a pia batismal até a Comunhão do Corpo e Sangue de Cristo.

Tudo isso faz da nossa vivência religiosa uma experiência integral, plenamente humana e “católica” (no sentido de universal): mais do que simples leitores do Evangelho, nós também ouvimos, contemplamos e apalpamos o Verbo da vida, para usar uma expressão de S. João (cf. 1Jo 1, 1). Afinal, somos chamados a servir a Deus não só com a visão e o intelecto, mas com todos os nossos sentidos e faculdades: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força” (Dt 6, 5).

O Segundo Cântico de Moisés

“Moisés no monte Sinai”, por Jacques de Létin.

Falávamos, porém, do Ofício Divino, e digressamos. Queremos chamar a atenção de nossos leitores justamente para uma dessas pérolas que a Igreja reza em sua liturgia e que nos põe em contato com a história da salvação, ao mesmo tempo que a insere na nossa própria vida.

Trata-se do chamado “Segundo Cântico de Moisés”, que se encontra no livro do Deuteronômio (cf. 32, 1-43). Diz-se que é o segundo, porque o primeiro é o famoso hino de vitória composto após a travessia do mar Vermelho, presente em Êxodo 15, 1-19, tão importante que a Igreja chega a cantar na própria liturgia da Vigília Pascal. Por estar já bem próximo do relato da morte do patriarca, esse segundo pode ser chamado também de seu último cântico. É o testamento de Moisés.

Para se ter uma ideia da grandeza desse poema bíblico, o Pe. Matos Soares o avalia como “uma das páginas mais belas da Sagrada Escritura. Mesmo sob o ponto de vista literário não se encontra composição comparável em qualquer literatura humana”.

Na Liturgia das Horas atual, esse cântico é rezado nas Laudes do Sábado da II Semana do Saltério, numa versão bastante abreviada, indo dos versículos 1 a 12. Compartilhamos a tradução litúrgica do Brasil abaixo:

Ó céus, vinde, escutai; eu vou falar,
ouça a terra as palavras de meus lábios!
Minha doutrina se derrame como chuva,
minha palavra se espalhe como orvalho,
como torrentes que transbordam sobre a relva
e aguaceiros a cair por sobre as plantas.

O nome do Senhor vou invocar;
vinde todos e dai glória ao nosso Deus!
Ele é a Rocha: suas obras são perfeitas,
seus caminhos todos eles são justiça;
é ele o Deus fiel, sem falsidade,
o Deus justo, sempre reto em seu agir.

Os filhos seus degenerados o ofenderam,
essa raça corrompida e depravada!
É assim que agradeces ao Senhor Deus,
povo louco, povo estulto e insensato?
Não é ele o teu Pai que te gerou,
o Criador que te firmou e te sustenta?

Recorda-te dos dias do passado
e relembra as antigas gerações;
pergunta, e teu pai te contará,
interroga, e teus avós te ensinarão.

Quando o Altíssimo os povos dividiu
e pela terra espalhou os filhos de Adão,
as fronteiras das nações ele marcou
de acordo com o número de seus filhos;
mas a parte do Senhor foi o seu povo,
e Jacó foi a porção de sua herança.

Foi num deserto que o Senhor achou seu povo,
num lugar de solidão desoladora;
cercou-o de cuidados e carinhos
e o guardou como a pupila de seus olhos.

Como a águia, esvoaçando sobre o ninho,
incita os seus filhotes a voar,
ele estendeu as suas asas e o tomou,
e levou-o carregado sobre elas.
O Senhor, somente ele, foi seu guia,
e jamais um outro deus com ele estava.

Sobretudo a imagem final desses versículos é muito consoladora: Deus é comparado à águia, que cuida de seus filhotes como a “pupila de seus olhos”, e que chega a colocá-los sobre suas asas.

Muito belo também é o contraste entre o que Deus fez com Israel e o lugar em que Ele o encontrou. A tradução brasileira diz que o povo estava “num lugar de solidão desoladora”, mas o latim da Vulgata é ainda mais enfático: Israel se encontrava in loco horróris et vastae solitúdinis, isto é, “num lugar de horror e vasta solidão”. A palavra “horror”, em particular, nos ajuda a pôr na recitação desse versículo a nossa própria vida de pecado. Longe de Deus, nossa situação é de “solidão desoladora”, mas também de “horror”. O pecado nos desfigura, torna-nos horríveis e horrorosos. A expressão latina é forte.

No Ofício Divino antigo, esse cântico assumia um caráter ainda mais penitencial, não só porque era rezado nas Laudes dos sábados do Advento e da Quaresma, mas também por conta de seus versículos finais (infelizmente omitidos no rito atual). Trata-se dos versículos 13 a 18, que compartilhamos abaixo, na tradução do Pe. Matos Soares (e cujo conteúdo vem bastante a calhar para os nossos dias): 

Levou-o às alturas da terra,
nutriu-o com os frutos dos campos,
deu-lhe a sugar o mel (que saía) da pedra,
e o azeite (que saía) do rochedo duríssimo.
A manteiga das vacas, o leite das ovelhas,
com gordura dos cordeiros,
e dos carneiros criados em Basan, e dos cabritos,
com a flor de farinha do trigo,
e ele bebeu o mais puro sangue da uva.
Mas Jesurun engordou e recalcitrou;
tendo-se tornado gordo, cheio e nédio,
abandonou a Deus seu criador,
e afastou-se de Deus sua salvação.
Provocaram-no com deuses estranhos,
e excitaram-no à ira com as suas abominações.
Sacrificaram aos demônios e não a Deus,
a deuses que desconheciam,
deuses novos, acabados de chegar,
que seus pais não tinham adorado.
Abandonaste o Deus que te gerou,
e esqueceste-te do Senhor teu criador (Dt 32, 13-18).

Vemos neste pequeno trecho final duas partes bem distintas. 

Primeiro, Moisés continua a narrar os benefícios de Deus a seu povo, só que agora com mais detalhes: Israel foi saciado não só de modo natural — com “os frutos dos campos”, a “manteiga das vacas”, “o leite das ovelhas” e a “gordura dos cordeiros”, com carneiros e cabritos, trigo e uva —, mas também de modo prodigioso, sobrenatural, isto é, com “o mel da pedra” e o “azeite do rochedo duríssimo”. 

Depois, porém, Moisés começa a relatar a ingratidão de Israel: mesmo “gordo, cheio e nédio” — no latim, incrassátus, impinguátus, dilatátus —, Jesurun (nome poético de Israel, que significa o “justo”, empregado aqui ironicamente) “recalcitrou” e voltou as costas para Deus. A descrição do que fez o povo escolhido é pesada, mas resume-se basicamente à idolatria: “Sacrificaram aos demônios e não a Deus”. No fim, os verbos que estavam na terceira pessoa passam à segunda, e somos confrontados com nossos próprios pecados: “Abandonaste o Deus que te gerou, e esqueceste-te do Senhor teu criador”. Assim acaba o cântico no rito antigo, sem afago nem consolação. 

Eis uma meditação muito oportuna não só para este tempo quaresmal, mas para toda a nossa vida. De um lado, está a prodigalidade de Deus, que nos cumula de toda sorte de bênçãos espirituais (cf. Ef 1, 3) e, pelo Batismo, nos faz não mais hóspedes ou estrangeiros, mas “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2, 19); do outro, está a nossa ingratidão, muito pior que a de Israel, pois, quanto maiores os benefícios que recebemos, maior a dívida que contraímos. 

Mesmo com todas as graças e com toda a misericórdia que recebemos de Deus, nós teimamos em lhe voltar as costas e, cedendo aos pecados, sacrificamos aos demônios. Apesar de, no clima atual de indiferentismo e relativismo religioso, essas palavras guardarem o seu sentido literal estrito, também nós precisamos considerar pessoalmente que, todas as vezes que consentimos no pecado, é com os demônios que estamos tratando. Nas palavras de Santo Tomás, tentari humanum est, sed consentire diabolicum: “Ser tentado é humano, mas consentir é diabólico” (Exp. in orat. dom., a. 6).

É Quaresma; é tempo de nos arrependermos de nossos pecados e buscarmos a Deus de coração contrito e humilhado. Isso vale muito mais aos seus olhos do que os sacrifícios externos que fazemos (cf. Sl 50, 18-19). Deixemos que calem em nossos corações as palavras severas do testamento de Moisés: Abandonaste a Deus; esqueceste-te dele

Sim, reconheçamos, não neguemos: sou eu o filho gordo e ingrato do cântico de Moisés; fui eu que dei as costas a Deus e sacrifiquei aos demônios; “Senhor, pequei. Tende piedade e misericórdia de mim.”

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A “primeira quaresma” da história
Espiritualidade

A “primeira quaresma” da história

A “primeira quaresma” da história

A Quaresma recorda tanto os quarenta anos do povo de Israel no deserto quanto os quarenta dias de jejum de Jesus, também no deserto. Mas há uma outra “quaresma”, do Antigo Testamento, da qual muitas vezes não nos lembramos...

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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A Quaresma faz referência aos quarenta anos do povo de Israel no deserto e aos quarenta dias de jejum de Jesus, também no deserto. Mas uma referência da qual muitas vezes não nos lembramos é que, pela mesma quantidade de dias, graças à pregação do profeta Jonas, o povo de Nínive jejuou e conseguiu poupar a cidade da destruição. Foi a “primeira quaresma” da história.

É tão forte a relação entre esse tempo litúrgico e a história de Nínive que, nas orações tradicionais que os sacerdotes faziam sobre as cinzas, no primeiro dia da Quaresma, a Igreja toda chegava a pedir a Deus a graça de imitar os ninivitas em sua penitência: 

Orémus: Omnípotens sempitérne Deus, qui Ninivítis in cínere et cilício paeniténtibus, indulgéntiae tuae remédia praestitísti: concéde propítius; ut sic eos imitémur hábitu, quátenus véniae prosequámur obténtu. Per Christum Dóminum nostrum. — Oremos: Deus eterno e todo-poderoso, que destes aos ninivitas, por fazerem penitência na cinza e no cilício, os remédios de vossa indulgência: concedei-nos, propício, imitá-los de tal modo na mortificação, que alcancemos como eles o vosso perdão. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje, apesar de as orações sobre as cinzas terem sido bastante simplificadas no novo Missal, a referência a Jonas e Nínive continua presente no Lecionário, mais especificamente na quarta-feira da 1.ª Semana da Quaresma (o primeiro dia das Têmporas de Outono). A leitura é tirada de Jn 3, 1-10 e o Evangelho, de Lc 11, 29-32.

“Jonas pregando aos ninivitas”, de Gustave Doré.

Tomando porém o relato veterotestamentário na íntegra, desde a fuga de Jonas da presença de Deus, passando por seu cativeiro no ventre de uma baleia, até a sua revolta em ver poupada a cidade de Nínive, o que mais chama atenção é a vontade firme que Deus tem de salvar os ninivitas. Toda a história do livro de Jonas é, na verdade, a da salvação de Nínive. De nenhuma outra missão foi encarregado o profeta, senão desta: “Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e profere contra ela os teus oráculos, porque sua iniquidade chegou até a minha presença” (Jn 1, 2). 

Aqui fica patente, desde o princípio, uma realidade da qual hoje muito pouco se fala: Deus é justo e castiga os homens por seus pecados. “Verdade ultrapassada”, alguns podem dizer. Ao que respondemos, simplesmente: se Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre, e se Ele declarou ser a própria Verdade, é simples arrogância nossa querer impor um “prazo de validade” às suas palavras. Se Deus de fato castigava no Antigo Testamento, por que deixaria de fazê-lo agora — especialmente agora em que, mais agraciados por Ele, aumenta em nós o dever de corresponder ao seu amor?

Não sem razão o Papa S. João Paulo II recordava, em sua Carta Apostólica Salvifici Doloris (n. 10), que:

Ao mal moral do pecado corresponde o castigo, que garante a ordem moral no mesmo sentido transcendente em que esta ordem foi estabelecida pela vontade do Criador e Supremo Legislador. Daqui se segue também uma das verdades fundamentais da fé religiosa, baseada igualmente na Revelação; ou seja, que Deus é juiz justo, que premeia o bem e castiga o mal: “Vós, Senhor, sois justo em tudo o que fizestes; todas as vossas obras são verdadeiras, retos os vossos caminhos, todos os vossos juízos se baseiam na verdade, e tomastes decisões conforme a verdade em tudo o que fizestes que nos sobreviesse e à cidade santa dos nossos pais, Jerusalém. Sim, em verdade e justiça nos infligistes todos estes castigos por causa de nossos pecados” (Dn 3, 27ss).

Deus, porém, não é um ser vingativo que quer simplesmente “fulminar” suas criaturas. É à luz do desejo de Deus por nossa salvação que devemos ler todos os relatos bíblicos sobre a “ira” e os “castigos” divinos. Como diz uma antífona que rezamos continuamente na Quaresma: Vivo ego, dicit Dóminus: nolo mortem peccatóris, sed ut magis convertátur, et vivat, “Vivo, diz o Senhor: não quero a morte do pecador, mas antes que se converta e viva”. É, pois, para que nos emendemos, para que mudemos de vida, que Deus nos busca. Muitas vezes com o chicote.

E Ele nos busca como buscou os ninivitas, persistindo com Jonas, apesar de sua teimosia e resistência, para que profetizasse em Nínive. Busca-nos também como buscou os judeus do tempo de Jesus. Estes, porém, diferentemente daqueles, fizeram ouvidos moucos à voz de Deus e não trilharam o caminho da penitência. Por isso diz Nosso Senhor no Evangelho: 

Esta geração é uma geração má. Ela busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. Com efeito, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do Homem para esta geração. [...] No dia do julgamento, os ninivitas se levantarão juntamente com esta geração e a condenarão. Porque eles se converteram quando ouviram a pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas (Lc 11, 29-30.32).

O relato da conversão dos ninivitas é, de fato, prodigioso. Apesar de toda a má vontade de Jonas, que não queria a salvação de Nínive e percorreu a cidade dizendo simplesmente: “Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída” (Jn 3, 4), o próprio rei da cidade “levantou-se de seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza” (v. 6); depois, publicou pela cidade um decreto proibindo “aos homens e aos animais, tanto do gado maior como do menor, comer o que quer que seja, assim como pastar ou beber” (v. 7). Ou seja, diante do aviso do castigo de Deus, a reação dos ninivitas foi de prontidão. Imediatamente se puseram a fazer penitência, implorando a Deus misericórdia pela cidade. 

O que aconteceu, então, em consequência? “Diante de uma tal atitude, vendo como renunciavam aos seus maus caminhos, Deus arrependeu-se do mal que resolvera fazer-lhes, e não o executou” (v. 10). O arrependimento dos homens gera o “arrependimento” de Deus. Lembrando sempre, porém, que essa é uma linguagem metafórica; ou seja, a verdade é que Deus, desde toda a eternidade, já havia decidido salvar a cidade de Nínive, mas Ele queria fazer isso através da pregação de Jonas e da penitência dos ninivitas. Sendo onipotente, Ele poderia fazer tudo isso de outro modo, mas — parafraseando S. Agostinho — o Deus que nos criou sem a nossa ajuda não a dispensa para nos salvar.

Também hoje, Deus quer a nossa penitência. A Quaresma é um tempo litúrgico favorável para que nós, ouvindo a voz de Cristo, da sua Igreja, dos seus santos, dos seus sacerdotes, nos voltemos para nós mesmos, reconheçamos os nossos pecados e mudemos de mentalidade e de vida. Nem Jonas nem Jesus vieram para encontrar “elementos positivos” em nossos pecados, como hoje, infelizmente, muitos procuram fazer, às vezes dentro da própria Igreja. Não, a mensagem que vieram trazer — e que os santos têm repetido ao longo desses dois mil anos de história da Igreja — é apenas esta: “Se não vos converterdes, perecereis todos” (Lc 13, 5).

“Perecereis”, diz o Senhor. Mas entendamos bem: o que está em jogo não é a destruição de uma cidade, tampouco a morte física, o perecimento natural de nossos corpos. O que está em xeque é a nossa salvação eterna

Uma última coisa, a respeito da palavra “cilício”, presente na oração que transcrevemos acima: o uso desse instrumento jamais foi reprovado pela Igreja. Ninguém vai ouvir, hoje, recomendações públicas do uso específico do cilício; e quem o usa, evidentemente, tampouco sairá por aí anunciando o fato aos quatro ventos. O que precisamos saber é que se trata de um instrumento legítimo de penitência, e não de “tortura” — como tem procurado fazer crer, em nossa época, uma forte propaganda anticatólica.

Para quem quiser entender em que, de fato, consiste esse objeto e qual a sua finalidade, recomendamos que assistam ao vídeo a seguir, de nosso programa “A Resposta Católica”.

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O jejum da Quaresma purifica a Igreja
Liturgia

O jejum da Quaresma purifica a Igreja

O jejum da Quaresma purifica a Igreja

Segundo alguns dos Santos Padres, a prática de jejuar ao longo da Quaresma data dos Apóstolos. Mas, ainda que se trate de uma invenção posterior, é Deus quem usa esse tempo de penitência para purificar a sua Igreja.

Michael P. FoleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A maior diferença entre os tempos da Quaresma no calendário de 1962 e no de 1969 está na matéria do jejum. Com efeito, o calendário de 1962 pressupõe que os fiéis manterão o antigo jejum quaresmal de quarenta dias, ordenando a partir disso suas orações e leituras. É possível dizer inclusive que, no Missal antigo, as próprias da Quaresma servem justamente para a santificação individual através do jejum e da abstinência. O Missal de 1969, por outro lado, foi publicado na esteira da Constituição Apostólica de 1966 Paenitemini, do Papa Paulo VI, que tornou facultativo o jejum quaresmal [1]. 

Enquanto o Missal antigo fala da prática do jejum — mencionando-o, explicando-o e rezando por ele — em todos os dias da Quaresma até a Semana Santa (o Prefácio do rito tradicional para a Quaresma, usado diariamente desde as Cinzas até o Tempo da Paixão, é suplementado quase que todos os dias com referências adicionais ao jejum nas orações próprias), o novo Missal em apenas três ocasiões manda que se faça referência ao jejum dos fiéis [2]: 

  • na Quarta-feira de Cinzas (um dos dois dias obrigatórios de jejum que restaram no ano): “Concedei-nos, ó Deus todo-poderoso, iniciar com este dia de jejum o tempo da Quaresma, para que a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal. Por Nosso Senhor…”;
  • na Coleta para o 3.º Domingo da Quaresma: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...”; e 
  • na Oração sobre as Oferendas do Sábado da 5.ª Semana da Quaresma: Accépta tibi sint, Dómine, quaésumus, nostri dona ieiúnii, quae expiándo nos tuae gratiae dignos effíciant et ad sempitérna promíssa perdúcant. Per Christum., “Recebei, ó Senhor, nós vos pedimos, os dons do nosso jejum, a fim de que, em expiação, nos tornem dignos da vossa graça e nos conduzam às promessas eternas. Por Cristo…” [N.T.: infelizmente, na tradução litúrgica oficial do Brasil, não consta nesta oração a palavra “jejum”]. 

O Prefácio tradicional para a Quaresma, embora mantido no novo Missal como o 4.º do tempo, tornou-se facultativo; o 1.º Domingo da Quaresma do Novus Ordo refere-se ao jejum de Cristo no deserto, mas não há indicação de que os fiéis devam seguir-lhe o exemplo. Em geral, o novo Missal oferece poucas orientações a respeito do jejum e quase nenhuma oração por seu êxito.

As orações para o 1.º Domingo da Quaresma no Missal de 1962, por outro lado, ao mesmo tempo que pedem por um jejum frutuoso, explicam a importância dessa prática. A Coleta diz: 

Deus, qui Ecclésiam tuam ánnua quadragesimáli observatióne puríficas: praesta famíliae tuae: ut, quod a te obtinére abstinendo nítitur, hoc bonis opéribus exsequátur. Per Dóminum… — Deus, que pela observância anual da Quaresma purificais a vossa Igreja, concedei à vossa família assegurar pela prática das boas obras o que ela se esforça por obter de vós através da abstinência. Por Nosso Senhor...

Segundo alguns Padres da Igreja, o Grande Jejum da Quaresma foi iniciado pelos Apóstolos. Mas, ainda que se trate de uma invenção do século III ou IV, a Coleta afirma que é Deus quem usa esse tempo de jejum para purificar a sua Igreja. O jejum religioso é diferente do jejum médico, ou do que somos tentados a chamar jejum cosmético (fazer dieta com o fim de cultivar uma boa aparência): sua meta é purificar a alma. Mas, ao contrário do que pretendia Pelágio, a alma não pode purificar a si mesma; o êxito do jejum religioso depende inteiramente da graça de Deus

De modo similar, a Pós-comunhão do dia pede por uma purificação a vetustáte, “da vetustade” — isto é, das coisas antigas, das coisas passadas. A Coleta não estipula o que exatamente a família de Deus está procurando alcançar, seja pela abstinência, seja pelas boas obras, mas a oração de Pós-comunhão o faz, ao pedir que entremos “na posse comum do mistério da salvação” (in mystérii salutáris fáciat transíre consórtium).

“A Tentação de Cristo pelo Demônio”, de Félix Joseph Barrias.

A lógica operativa é similar, embora não idêntica, a “deixar o que é ruim e ficar com o que é bom”: a comida da qual nos abstemos não é má, mas o ato de se abster serve para corrigir um apego malsão aos alimentos. A bela Secreta põe desta forma: ut, cum epulárum restrictióne carnálium, a nóxiis voluptátibus temperémus; isto é, que, “pela restrição dos alimentos corporais” sejamos ajudados “a não cair nos prazeres pecaminosos”

Uma vez livres de prazeres nocivos ou viciosos, devemos preencher esse espaço com o que é bom. Com isso, somos lembrados do Evangelho que será o do 3.º Domingo da Quaresma: Lc 11, 14-28. Ele fala de um espírito impuro que, depois de ser exorcizado, retorna para uma casa limpa, porém vazia, com sete outros demônios. Em outras palavras: preencha a casa de coisas boas, antes que o mal retorne.

O jejum é, portanto, uma atividade importante, mas não se trata de um cura-tudo. Nosso Senhor menciona que alguns demônios só podem ser expulsos através de jejum e oração (cf. Mt 17, 21); os dois devem andar juntos. A Coleta pede a Deus que alcancemos pelas boas obras o que não pode ser alcançado pela abstinência: elas suplementam as deficiências do jejum; sem elas, de fato, a Quaresma não está completa. Vários Padres da Igreja ensinavam que o dinheiro poupado com o jejum devia ir para os menos afortunados. O Papa São Leão Magno coloca desta forma: “Possa a abstinência dos que jejuam ser o alívio dos pobres” (Serm., XIII). Nas palavras da bela liturgia maronita: “Quão esplêndido é o jejum, quando adornado com a caridade! Parti o pão generosamente com o que tem fome; do contrário, não é jejum o que fazeis, mas economia!” (Vésperas da Quinta-feira na Quaresma).

O Evangelho de hoje nos diz que “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo demônio” por quarenta dias e quarenta noites (Mt 4, 1). Deixemo-nos guiar, pois, pelo Espírito da liturgia rumo ao deserto e confrontemos nossos demônios através do jejum, da oração e das boas obras.

Notas

  1. Para conhecer um pouco mais as mudanças que ocorreram ao longo da história nesta disciplina, desde os seus rigores primevos até as dispensas e relaxamentos atuais, cf. Dom Próspero Guéranger, El Año Litúrgico, v. II: Septuagésima, Cuaresma y Pasión. Trad. de los Monjes de Santo Domingo de Silos. Burgos: Editorial Aldecoa, 1956, pp. 127-153.
  2. A partir deste trecho, o texto foi levemente adaptado, aqui e ali, tendo em vista esclarecer melhor algumas coisas do original e trazer na íntegra referências apenas mencionadas.

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