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"Eu era católica e Deus me converteu"
Testemunhos

"Eu era católica e Deus me converteu"

"Eu era católica e Deus me converteu"

Conheça a história da jovem L.B., cuja vida foi transformada pela infinita misericórdia do Senhor.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Outubro de 2013Tempo de leitura: 7 minutos
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Salve Maria!

No mês de setembro completei meu primeiro ano de conversão. Se eu era ateia, protestante ou budista? Definitivamente não, talvez fosse o tipo mais difícil de converter: eu era católica. Fiz uma experiência muito forte do amor de Deus. Quero contar o que me aconteceu e especialmente destacar o papel do Padre Paulo Ricardo em tudo isso.

Em 2012, fui morar no Rio de Janeiro: o emprego dos sonhos, lá teria a minha casa, muitos ideais na cabeça, coração batendo forte e desejoso de aventuras e novas histórias... Quando lá cheguei foi tudo BEM diferente. O dono do escritório começou a rivalizar pesado comigo e me demitiu exatamente um mês depois, sem conseguir apontar meio motivo razoável. Ao mesmo tempo meu namoradinho carioca, lindo, inteligente, que tocava violão erudito pra mim em noites de lua cheia com vista para o Pão de Açúcar também resolveu me chutar.

De alegrias tropicais minha vida passou a um inferno dos mais dantescos. Fui para casa, comprei os acessórios, enchi a despensa, posicionei as plantas... Aquela cena que se ensaia mil vezes desde a infância, mas eu pensava que teria um gosto diferente, que estaria em segurança, tudo daria certo e eu seria feliz. Mas o gosto era TÃO AMARGO... Não se parecia em nada com a doçura que essas ideias românticas de felicidade prometem.

Então, o vazio tomou conta de mim de forma avassaladora.

Meu coração ardia de vontade de me confessar. Procurei o pároco da linda Igreja de São José, o Revmo. Padre André, sacerdote jovem que tinha acabado de voltar dos estudos em Roma. Sentei-me no banco, nem o conhecia, e comecei a contar meus pecados de estimação. Só que dessa vez, irritada por tantas coisas impalatáveis e que eu já não entendia, disse ao Padre num surto de sinceridade que eu não me arrependia porque "eu não concordava". O Padre calmamente me disse: "Minha filha, então eu não posso te absolver. Sem o arrependimento sincero e o compromisso de não buscar mais esses caminhos de nada vale a confissão. Quer um conselho? Pare de sofrer. Saia da Igreja já que ela não te satisfaz, mas não selecione apenas as partes que te agradam e ainda diga que é católica. Não existe isso de não concordar e fazer o que se quer, seja honesta e saia. Outra opção é você buscar a respostas de suas dúvidas no Catecismo e obedecer ao Papa. Desta forma você vai ser de fato uma católica. Como está você não o é". Eu fiquei atônita. NUNCA tinha ouvido UM Padre sequer dizer aquilo. Ele disse mais outras coisas específicas pra cada pecado que eu havia cometido e especialmente para aqueles dos quais que eu não me arrependia.

Foi TÃO CLARO que não teve jeito de eu defender minhas ideias, era óbvio que eu havia construído um muro de retórica pra me defender e legitimar minhas más escolhas e vícios. Até aquele ponto havia vivido como a maioria, de um jeito muito simplista: se eu extinguisse a culpa, o erro não seria meu. De um jeito que eu não sei explicar eu disse ao Padre que eu me arrependia. E eu disse isso com toda a minha alma e entendimento. Recebi ali uma cura incrível que jamais vou conseguir explicar. Passei a amar o Papa com TODAS AS MINHAS FORÇAS e fiquei muito curiosa em relação ao Catecismo e aos Evangelhos, parecia que havia passado muito tempo exilada, sentia saudade da Vida porque estando tão distante de Deus eu tinha me afastado de mim mesma e esquartejado corpo, alma e espírito em pequenas e indecifráveis partes que não faziam sentido por elas mesmas ou em conjunto. Eu tinha desenvolvido um soberbo exoesqueleto de pretensa "razão" e por ele me sustentava. Meu corpo físico e místico estava em frangalhos dentro daquela dura casca de superficialidade.

Depois disso voltei aos Sacramentos, às Missas Dominicais, à Adoração... Mas, quase não conseguia levantar da cama, fiquei doente e sem forças por muitas semanas. Eu só me levantava pra comprar comida às vezes e pra ir até a Igreja. Levantar um braço doía muito. Eu não quis contar pra minha família ou amigos o que tinha acontecido. Sentia uma mistura de choque, medo, raiva, tristeza, indignação, revolta, pânico, culpa, vergonha...

Tive anorexia. Anemia. Problemas estomacais. Infecções alimentares. Dores fortes no corpo todo. Depois de uns dois meses consegui sair de casa pra fazer esportes. E adquiri o hábito de caminhar na Lagoa rezando o Rosário. As pessoas olhavam curiosas achando engraçado uma moça com visual moderninho de roupa de ginástica caminhando com o Terço nas mãos. Eu queria lembrar as pessoas de que sempre há tempo para o Rosário. Não existe desculpa.

Então passei a participar do dia-a-dia da Igreja e fiz novos amigos, já que os primeiros, do escritório, jamais me ligaram nem pra saber se eu estava viva ou precisando de alguma coisa. E o tal namoradinho ainda fez questão de me esfregar outra garota na cara o mais que pôde. De que tinha valido tanta lua cheia, violão e romance? Nem respeito por mim ele conseguia ter! Naquela solidão radical eu fiquei pensando no que eu tinha por valores, quanto tempo eu gastava dando satisfações às outras pessoas, por que eu superestimava ser a "fofa, querida, gracinha" na boca dos outros e de que isso me valia no final das contas... Qual era o sentido da minha vida, afinal? Meu dinheiro estava no limite. Às vezes eu tinha de racionar pão. Tudo estava muito estranho... Tudo em que eu acreditava tinha se transformado em fumaça. Nenhuma das minhas velhas teorias poderia explicar ou me socorrer naquela nova situação.

Mas eu fiquei doente por mais muito tempo, sempre alternando "estiagens" e vontade de fazer as coisas. Nessas minhas temporadas na cama eu buscava coisas pra ver, pra me encorajar... Já que eu não queria conversar com as pessoas e ter de explicar o que nem eu mesma compreendia. Foi numa dessas, naqueles vídeos relacionados que eu achei o Padre Paulo Ricardo. Vi um vídeo, gostei, mesmo que ele me parecesse "duro demais" e até mesmo fanático. Mas existia algo diferente naquele Padre: ele tinha AUTORIDADE. Digo isso não somente pelo incrível domínio teórico e por citar as fontes e documentos oficiais com precisão, mas era outro tipo de autoridade, aquilo só poderia ter sido dado pelo próprio Deus. Eu entendi isso com a alma, mais que apenas com a razão, por isso ele me convenceu. Em pouco tempo via playlists inteiras e aquela musiquinha inicial já me aquecia o coração. Sou muito grata a Deus também por ter enviado o Padre Paulo para ajudar a mim e a muitos como eu. Nós só amamos verdadeiramente aquilo que conhecemos, então este Padre tem o carisma de alimentar nossa fé através do conhecimento. Muita gente se prende apenas ao plano teórico e continua a ser um descrente com muitas informações. Discutem, se posicionam, mas não amam ou vivem aquilo de que falam. É importante usar o conhecimento como uma poderosa ferramenta vivificadora da fé. Às vezes é preciso ver uma foto para entendermos uma determinada situação, o Padre Paulo nos revela através de "imagens teóricas" aquilo que vemos com pouca definição. Hoje rezo com mais fé porque entendo que isso tem real importância e valor, mesmo com meus limites. Também sinto mais paz e segurança porque esse conhecimento otimizou meu tempo de oração: entendo o que devo temer e o que não, isso muda muito o foco.

Passei cinco meses sem trabalho, e finalmente voltei pra minha casa. Vivi um tipo de retiro espiritual onde eu menos poderia imaginar... Voltei outra, menos ruidosa, mais obediente, estudiosa, centrada, de olho nas necessidades alheias e sobretudo FELIZ! Eu entendi que o Amor é a origem da própria vida, ou seja, é a alma do próprio Deus. O amor humano é sua imagem e semelhança. Felicidade é uma escolha definitiva pelo Amor. E a alegria é a consequência de tudo isso!

Hoje eu consigo trabalhar melhor que antes, viver minha vida e sonhos com a certeza de que Deus sonha e realiza tudo comigo. Ajudo e amparo muitas pessoas com essas coisas que aprendi estudando, sofrendo e rezando. Aprendi o valor da penitência, intercessão, fé e, sobretudo, da obediência.

Pra ser livre é preciso ter regras. Se não as tem você é escravo dos seus sentidos e ignorância. A santa obediência ensina muito aos que buscam a humildade e a ela se submetem. Vejo que muitos dos meus amigos inteligentíssimos não compreendem a Deus porque seus ricos vasos estão sempre cheios, e dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Deus espera que nos esvaziemos de nós mesmos pra poder entrar. Ele não nos invadiria nem para nos salvar. Este é o verdadeiro sentido da liberdade que Ele nos deu.

Uma profunda fé em Deus coloca TUDO em justa perspectiva. Depois que o centro se alinha as coisas tomam seus devidos lugares e proporções.

L.B.

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Carlos e Zita da Áustria: um casal segundo o ideal cristão
Santos & Mártires

Carlos e Zita da Áustria:
um casal segundo o ideal cristão

Carlos e Zita da Áustria: um casal segundo o ideal cristão

Numa época em que a família é relativizada e a santidade no matrimônio é apresentada como algo impossível, é oportuno recordarmos alguns detalhes da vida matrimonial do Beato Carlos da Áustria e da Serva de Deus Zita.

Irmã Joana da Cruz, OCD1 de Abril de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Numa época em que a família é relativizada e a santidade no matrimônio é apresentada como algo impossível, é oportuno recordarmos alguns detalhes da vida matrimonial de Carlos e Zita da Áustria. 

O título deste artigo é tirado da expressão que Madre Maria Antônia — irmã de Zita que se fez monja beneditina em Santa Cecília/ Solesmes — usou em seu testemunho para as Atas do Processo de Carlos: “Um casal segundo o ideal cristão”. Se esta era a impressão que Carlos e Zita deixavam junto àqueles que conviviam com eles, isto, sem dúvida, é sinal de como este santo casal estava empenhado em viver sua vocação matrimonial segundo os desígnios de Deus para as famílias e de acordo com os valores do Evangelho [1].


Em virtude de um laço de parentesco indireto, Carlos e Zita se conheceram quando ainda eram crianças. Mas, então, as brincadeiras próprias dos meninos e os entretenimentos das meninas proporcionavam poucos pontos de interesse comum. Em 1909, as coisas mudaram.

Zita de Bourbon-Parma, Serva de Deus.

Zita tem dezoito anos. Após uma breve estadia na Inglaterra para complementar sua educação, ressentindo o clima por demais úmido da ilha, foi obrigada a retornar para a família. Aconselharam-lhe um tratamento junto a uma estação de águas e, assim, ela vai para Franzensbad, acompanhada de uma tia de Carlos, a Arquiduquesa Maria Anunciata, que também precisava se tratar. De sua parte, Carlos, seguindo a tradição dos Habsburgos, entrara para a vida militar. Na época, tinha vinte e três anos e estava aquartelado em Brandeis, não muito longe de Franzensbad. Nos dias de folga, costumava ir visitar sua tia predileta, a Tia Anunciata, que estava com Zita. Foi a partir destes encontros que o mútuo interesse entre os dois jovens nasceu.

As visitas à Tia Anunciata eram sempre mais desejadas, sempre mais agradáveis, sempre mais prolongadas... Certa vez, a avó de Carlos quis ir em peregrinação ao santuário mariano de Mariazell. Pediu que seu neto a acompanhasse. Zita e sua irmã Francisca também aproveitaram a oportunidade para irem rezar aos pés da Virgem. E foi aí, na casa de Maria, diante do Santíssimo Sacramento que Carlos fez sua proposta à Zita.

O noivado foi celebrado aos 13 de junho de 1911, na Villa delle Pianore, residência italiana dos Duques de Parma, família de Zita. Na fotografia que ofereceu a Carlos nesta ocasião, a jovem noiva escreveu: “Mais para você do que para mim”, indicando, desta forma, que sua felicidade consistia em sair de si, em esquecer sua própria pessoa para fazer Carlos feliz. Em preparação para o sacramento do matrimônio, os noivos decidem fazer os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. Zita, de acordo com os costumes dos Habsburgos e dos Bourbons-Parma, também vai a Roma para pedir, numa audiência privada com o Papa Pio X, a bênção para ela e seu esposo. Ambos querem constituir uma verdadeira família cristã.

O casamento foi marcado para o dia 21 de outubro de 1911, na propriedade que a família de Zita mantinha na Áustria: o Castelo de Schwarzau. Na véspera da cerimônia, antecipando em cinquenta anos a verdade tão enfatizada pelo Concílio Vaticano II de que todos, independentemente de nosso estado de vida, somos chamados à santidade, Carlos diz à Zita: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu”. Nas alianças, como sinal da devoção que os dois nutrem por Nossa Senhora, ele mandou gravar, junto dos nomes, o início da antífona mariana: Sub tuum praesidium, “À vossa proteção, recorremos, ó Santa Mãe de Deus”. E a viagem de núpcias inicia-se, justamente, em Mariazell, onde o casal consagra à Virgem a nova vida que iniciam.

Eis como Madre Maria Antônia, irmã de Zita que se fez monja beneditina, descreve o relacionamento de Carlos com sua esposa: 

A vida de família de Carlos foi, de fato, segundo o ideal cristão; foi uma harmonia perfeita de pensamentos e princípios, não havia segredos entre os dois, era a abertura completa, leal, recíproca, a confiança absoluta. (...) Carlos sempre foi para sua esposa o melhor dos maridos, e para seus filhos, um modelo de pai. Quando estava ausente, telefonava todos os dias para sua esposa, mesmo do front, para ter notícias da família e tranquilizá-la em suas obrigações (...). Minha irmã dava um resumo dos acontecimentos da casa e ele seguia tudo com interesse, de maneira cordialíssima e dava conselhos e diretrizes [2].

O Conde Pedro Revertera diz que “o relacionamento entre os dois cônjuges foi sempre particularmente íntimo, terno e afetuoso”.  Sobre Zita, ele conta: 

Esta afetuosidade, eu mesmo a pude notar várias vezes, quando, por exemplo, [Carlos] devia falar em ocasiões públicas — coisa para a qual não era inclinado. Pude, então, observar como [Zita], antes, dava-lhe ânimo da maneira mais afetuosa, a fim de encorajá-lo neste dever tão desagradável, e como, da mesma maneira afetuosa, encontrava, depois, palavras de alegria e aprovação [3].

Os filhos, no total de oito, não tardaram a vir: Otto, Adelaide, Roberto, Felix, Carlos Luís, Rodolfo, Carlota e Elisabete — que nasceu dois meses após a morte do pai. Ambos enxergavam a paternidade e a maternidade como a exponenciação máxima de sua vocação matrimonial. Consideravam os filhos como dons que Deus lhes havia confiado e, portanto, não só os acompanhavam no seu desenvolvimento humano, mas se empenhavam em dar-lhes uma sólida formação religiosa e em infundir-lhes sincera piedade.

Desde a mais tenra idade, Carlos costumava levá-los à capela, para apresentá-los e entregá-los ao Senhor. Todas as noites, passava junto de suas caminhas, abençoava-os e rezava com eles. Gostava, sobretudo, de contar-lhes a História Sagrada e, sentando-os junto a si, narrava-lhes passagens bíblicas. Zita, por sua vez, ensinava-lhes as orações do cristão, incentivava-os aos pequenos sacrifícios diários e à prática da caridade. Quando chegavam à idade da Primeira Comunhão, era ela mesma quem lhes ensinava o catecismo e os preparava para receber Jesus Eucarístico.

Em 28 de junho de 1914, o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando mudou a história do mundo: veio a Primeira Guerra. E mudou também a vida de Carlos: ele tornou-se o primeiro na linha de sucessão ao Império Austro-húngaro.

E, de fato, com a morte do Imperador Francisco José em 1916, Carlos sobe ao trono. Ele e Zita condividem as responsabilidades de Governo neste difícil período da guerra: visitam soldados combatentes e feridos, buscam medidas para amparar os órfãos e as viúvas, procuram amenizar a pobreza do povo, empenham-se na obtenção diplomática da paz. Mas, nem por isso, a vida de família é negligenciada. Sempre há tempo para se dedicarem aos filhos e, sobretudo, a primeira sexta-feira de cada mês é vivida em família de maneira muito intensa. Todos estão presentes na missa de manhã e os meninos mais velhos servem como coroinhas. No final da tarde, mesmo os mais pequeninos participam da adoração eucarística, seguida da bênção do Santíssimo Sacramento e da renovação da consagração ao Sagrado Coração. De noite, toda a família reza junto a Ladainha do Coração de Jesus e outras preces em sua honra.

Com o final da guerra e a queda da monarquia austro-húngara, a Família Imperial é constrangida ao exílio na Suíça. É um período de muitas preocupações e de grande sofrimento moral. Carlos e Zita apoiam-se mutuamente. A força para enfrentarem todas essas adversidades lhes vem da vida sacramental e da prática da oração. O grande conforto do casal são os filhos.

A pedido de um grupo de legitimistas e com o apoio do Papa Bento XV, que temia a expansão do bolchevismo no leste europeu, Carlos empreendeu duas Tentativas de Restauração da monarquia na Hungria. Após o fracasso da primeira, Zita decidiu acompanhá-lo na segunda. Para ela, “o dever da esposa é estar ao lado de seu esposo”.

Mas, a Segunda Tentativa de Restauração também malogrou em virtude da traição do Regente. O casal imperial é levado para um novo e drástico exílio: a Ilha da Madeira, na costa oeste da África, afastada do continente europeu e, naquele tempo, bem isolada do mundo. Estão sozinhos, longe dos filhos... longe de todos os parentes... longe da pátria e daqueles que lhes eram fiéis... com todos os bens confiscados…

Sim, com todos os bens confiscados, sem ter como se sustentarem. As forças aliadas que impuseram tal exílio não sentiam qualquer responsabilidade sobre Carlos e Zita, considerando-os um problema dos antigos povos do Império desfeito. Estes, transformados em novas e fracas repúblicas, diziam não ter nenhum vínculo que lhes obrigasse a sustentar o antigo monarca.

A dor e o sofrimento interior são inauditos neste período da vida do casal, mas eles se sustentam um ao outro e, juntos, recorrem a Deus. Duas são as grandes preocupações de Carlos e Zita: trazer os filhos para perto de si e conseguir um meio de subsistência para o futuro. Problemas importantíssimos para eles, mas diante dos quais sentem sua absoluta impotência: não podem fazer nada, não podem tomar nenhuma atitude. Sem esmorecer na esperança, confiam tudo às mãos de Deus e aguardam a solução e o momento marcados por ele para o alívio de suas angústias.

Um acontecimento triste, mas, sem dúvida, providencial, vem resolver a primeira questão. Um dos filhos, o Arquiduque Roberto, passa por sérias crises de apendicite e deve submeter-se a uma cirurgia. Após inúmeros e difíceis trâmites burocráticos, Zita obtém a permissão de deixar brevemente a Ilha da Madeira para acompanhar seu filho na operação. Ao voltar da Suíça, traria consigo as crianças. De fato, retorna acompanhada de todos os filhos, exceto Roberto que, em convalescência, chegaria um mês mais tarde, acompanhado da Arquiduquesa Maria Teresa, avó de Carlos. Foi assim que, no dia 2 de fevereiro de 1922, num momento de indizível emoção no porto de Funchal, a família pôde estar novamente reunida.

O Bem-aventurado Carlos da Áustria.

Com a possibilidade de Zita viajar, Carlos vislumbrou também a solução para o segundo problema que assolava seu coração. Orientou a esposa para que procurasse contato com o senhor a quem ele confiara a custódia das joias de família; que as vendesse e trouxesse o dinheiro consigo. Mas qual não foi a surpresa de Zita ao ver este senhor esquivar-se dela e, em seguida, sumir de cena, pois há tempo já havia vendido as joias e usado o provento em benefício próprio?!!

Ao saber disso e vendo que a política internacional não resolvia nada com relação à sua pessoa, Carlos percebe que está, realmente, sem saída. As parcas economias que trouxera quando da Tentativa de Restauração na Hungria iam se esgotando; a chegada das crianças aumentava inevitavelmente os gastos; Zita deveria dar à luz no final de maio — algo que o inquieta sobremaneira, pois quer pagar um médico para assisti-la. É tempo de economizar ao máximo e, por isso, não lhe restando outra opção, aceita a oferta de um abastado senhor da Ilha para que ele e sua família fossem morar, graciosamente, na casa de verão que mantém no bairro do Monte, na parte alta de Funchal.

A casa é de uma boa construção, mas, na verdade, pequena e sem os recursos necessários para a numerosa família. Sobretudo, é imprópria para ser habitada nesta época do ano, pois, em fevereiro, ainda fazia frio, o ar continuava úmido e havia muitos nevoeiros no Monte. Para Carlos e Zita, no entanto, nada disso pesa. Não se queixam; antes, agradecem a Providência Divina. Os dois se privam de tudo: do supérfluo, como o café, tão apreciado por Carlos, mas por demais caro, e daquilo que seria necessário, como a carne para Zita, que espera um bebê. Sabendo das necessidades do “bom Rei Carlos e da Rainha Zita” — como os madeirenses costumavam chamar  a Família Imperial —, o povo simples leva-lhes leite e ovos para ajudar na alimentação das crianças. É de novo a Providência Divina, na qual confiam plenamente, que age em suas vidas.

Os únicos gastos que ambos se permitem são os referentes aos filhos e, assim mesmo, são reduzidos ao mínimo. No dia 9 de março, Carlos desce ao centro de Funchal, pois, no dia seguinte, Carlos Luís completará quatro anos. Quer dar-lhe um presente de aniversário. Não pôde comprar mais que dois carrinhos feitos de artesanato de vime. Enfim, não importa o valor; importa que o pequeno se sinta amado.

Na cidade, ao nível do mar, o dia está ensolarado e faz calor, mas no Monte está frio, sopra um vento gelado que carrega consigo a névoa. Voltando para casa, Carlos ressente a diferença de temperatura e contrai uma forte gripe que o deixa de cama. Está obstinado em não solicitar auxílio médico para poupar os gastos.

Acredita que tudo passará de per si e logo. Mas, na verdade, com tanto sofrimento e restrições, seu corpo está debilitado e a gripe não cede. Foi apenas ante os suplicantes e repetidos pedidos de Zita que ele assentiu em chamar um médico.

O diagnóstico não foi dos melhores. A gripe já se transformara numa pneumonia que parecia avançar rapidamente. Zita, embora adiantada na gravidez, não deixa a cabeceira de seu esposo. Dia e noite, atende a todas as suas necessidades: é dar-lhe um copo de água, é mudar-lhe a posição ou enxugar-lhe o suor, é o administrar-lhe algum alívio... Faz-lhe leituras, reza com ele e por ele. Quando Carlos está muito ofegante, recita em voz alta, em seu nome, suas devoções particulares e, ainda, apresenta a Deus todas as suas intenções. Ela também sempre lhe fala sobre os filhos, pois, para evitar o contágio, eles estão proibidos de ver o pai.

Carlos, por outro lado, parece pressentir o futuro e não cessa de manifestar seu carinho por Zita:

“Quero descansar junto de você. Venha e sente-se aqui, ao meu lado. Segure-me... sustente-me... Agora, já rezei o suficiente; não posso mais”.
“Nos braços do Redentor... você e eu e os nossos amados filhos...”.
Encontramo-nos nas mãos da Divina Providência. Tudo o que nos acontece está bem. Apenas confiemos”.

E também vai, aos poucos, orientando-a sobre as atitudes a tomar no futuro, sobre a educação das crianças…

A pneumonia investe os pulmões. Estamos num tempo em que não existem antibióticos... No dia 1.º de abril, após receber o viático e tendo os olhos fixos em Jesus Sacramentado que se erguia diante dele, Carlos pronuncia, num fiasco de voz, suas últimas palavras à Zita: “No Coração de Jesus, nós nos reencontraremos”. “Amo-lhe infinitamente”.

Os corações de Carlos e Zita estão conservados atrás das grades do altar da Capela de Loreto, na Abadia de Muri (Suíça).

Pouco tempo depois, com suas derradeiras respirações, sussurra baixinho: “Seja feita a vossa vontade... Jesus... Jesus, vinde! Sim — Sim. Meu Jesus... seja feita a vossa vontade — Jesus”. E entrega sua alma a Deus, reclinando a cabeça sobre os ombros da amada esposa que está a seu lado.

Naquela manhã, Zita trajava um vestido rosa. Foi a última vez que usou uma roupa de cor. Desde então, sempre vestiu o preto, não como lúgubre expressão de uma dor insuperável, mas para significar que seu coração pertencia tão somente a Carlos.

Zita teve uma longa viuvez. Faleceu aos 14 de março de 1989, sessenta e sete anos depois de seu marido. Certa vez, já sendo bem adiantada em idade, um de seus netos perguntou-lhe o que ela pensava da morte. Sua resposta foi: “Se o Bom Deus vier me procurar, estarei, enfim, com Carlos de novo” [4].

Embora Carlos esteja sepultado na Ilha da Madeira e Zita em Viena, estes corações que tanto se amaram e que se doaram um ao outro sem restrição, encontram-se inumados na Abadia de Muri (Suíça), onde a dinastia dos Habsburgos teve origem. Se nesta terra, eles louvaram e serviram a Deus unidos, agora, no céu, eles o contemplam e o adoram unidos.

Que, tendo vivido juntos a alegria e a tristeza, a riqueza e a pobreza, a saúde e a doença, Carlos e Zita da Áustria intercedam pelas famílias de hoje, ajudando-as no perfeito cumprimento das promessas matrimoniais, em qualquer circunstância da vida.

Notas

  1. Este artigo, de autoria da Irmã Joana da Cruz, OCD, foi publicado primeiro no Boletim “Beato Carlos da Áustria”, n. 6, 1-2015, pp. 1-5.
  2. Testemunho de Maria Antônia. Positio, pp. 854-855.
  3. Conde Pedro Revertera. Positio, pp. 418-419.
  4. O fato foi narrado várias vezes pelo próprio Vincente, filho da Arquiduquesa Elisabete.

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Os sacerdotes exilados do seu povo
Igreja Católica

Os sacerdotes exilados do seu povo

Os sacerdotes exilados do seu povo

Os fiéis em todo o mundo sofrem por estarem privados da Missa, e os padres, por estarem privados do seu povo. Ordenado propter homines, a vida do sacerdote católico não faz sentido sem um povo ao qual servir ou um rebanho do qual cuidar.

Pe. Paul ScaliaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Março de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O sacerdote chegou, tirou a pedra do altar e a guardou em sua mala; em seguida, queimou os maços de algodão que tinham óleo sagrado e jogou fora as cinzas; esvaziou a pia de água benta, apagou a lâmpada do sacrário e o deixou aberto e vazio, como se a partir daquele momento a Sexta-Feira da Paixão tivesse se tornado permanente.

Na terça-feira passada [i.e., 17 de março] — primeiro dia sem Missas públicas em nossa diocese [devido ao surto da Covid-19] —, lembrei-me dessa cena do romance Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh, no qual o sacerdote fecha a capela da família Marchmain. E veio-me particularmente à memória a última linha: “como se a partir daquele momento a Sexta-Feira da Paixão tivesse se tornado permanente”.

Eu reconheço que a analogia não é perfeita, porque nossa situação não é exatamente idêntica à da Sexta-Feira Santa. A Missa ainda está sendo celebrada (embora privadamente), Nosso Senhor Eucarístico ainda está presente e nossas igrejas ainda estão abertas para que as pessoas possam rezar dentro delas. No entanto, apesar de necessária, a suspensão da celebração pública da Missa, de fato, provoca uma tristeza não muito diferente daquela causada pela Sexta-Feira Santa. É como se estivéssemos exilados de alguém que amamos: sabemos onde Ele está, mas não podemos estar com Ele.

Outro exílio doloroso é o dos sacerdotes, afastados de seu povo. Os fiéis em todo o mundo sofrem por estarem privados da Missa. Os sacerdotes sofrem por estarem privados do seu povo. Esses homens deram suas vidas pelo rebanho de Cristo, e agora se esforçam para compreender como serão suas vidas longe do rebanho. “Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado”, diz a exortação de São Pedro aos pastores da Igreja (1Pd 5, 2). Mas o que fazer quando o rebanho não está mais conosco… e não pode estar? 

Toda essa situação põe em evidência esta verdade sobre nós, párocos: fomos ordenados propter homines — para servir o povo de Deus. Nossas vidas não fazem sentido sem um povo ao qual servir ou um rebanho do qual cuidar. Quando lhe perguntaram o que achava dos leigos, São John Henry Newman fez esta conhecida observação: “A Igreja seria ridícula sem eles”. De fato, os sacerdotes parecem ridículos numa situação como essa.

Infelizmente, temos consciência do que acontece quando um sacerdote perde a perspectiva sobrenatural e o senso do sagrado. Ele não apenas se torna inútil, mas perigoso. Um sacerdote deve, acima de tudo, concentrar-se no que é sagrado. Mas agora enxergamos a outra parte da equação com mais clareza. O sacerdote concentra-se no sagrado não por causa de si, mas pelos outros. Pois todo sumo sacerdote escolhido dentre os homens, diz a Carta aos Hebreus, “é designado para agir em nome dos homens perante Deus para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” (5, 1). Sem a presença daqueles por quem age, portanto, um sacerdote pode perder de vista seu objetivo.

Nesse sentido, a suspensão da Missa pública pode e deveria se tornar uma ocasião para o crescimento espiritual, como todas as cruzes que suportamos. Temos de tirar todo o bem possível desse sofrimento.

Então, o que isso pode significar para um sacerdote?

Bem, para começar, a ausência dos fiéis pode lembrar aos sacerdotes que, na Missa, nos colocamos diante do Senhor em nome de nosso rebanho. É claro que os fiéis não estão presentes, mas nós estamos, e para representá-los. Isso realça a diferença entre alguém que conduz uma oração e um sacerdote. Aquele simplesmente coordena e guia uma ação em grupo, precisando apenas da autorização para fazê-lo, não da aprovação divina.

Porém, um sacerdote é designado para agir em nome dos homens perante Deus. Ele se coloca diante do Todo-Poderoso como personificação das orações e sacrifícios de seu rebanho — quer estejam ou não presentes. A ausência dos fiéis deveria, pois, aumentar nossa estima por essa verdade.

“Jesus sobe sozinho a uma montanha para rezar”, J. J. Tissot, c. 1890.

Outra luz que resplandece é da generosidade evangélica e da criatividade de tantos sacerdotes sem rebanho. Durante o bombardeio da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, o monsenhor Ronald Knox se refugiou em Mells para trabalhar na tradução de partes da Sagrada Escritura. Subitamente, ele se tornou capelão de uma escola feminina que havia sido evacuada de Londres para aquela cidade pacata. Não era o melhor cenário para o estudioso Knox, nem se tratava de uma situação desejada por ele. Mas sua resposta foi generosa, criativa e duradoura. Daquela capelania surgiram duas de suas melhores obras: O Credo em Câmera Lenta e A Missa em Câmera Lenta.

Assim também muitos sacerdotes separados de seus fiéis estão tirando o máximo proveito da situação. Apesar do contexto triste e diferente daquilo que teriam escolhido, eles não desistiram. Estão tentando encontrar formas inusitadas de evangelizar. E a internet possibilita o uso de soluções criativas, tendo muitos visto nela oportunidades para chegar ao rebanho que já não está presente.

Além disso, toda essa situação revela a verdadeira natureza do ministério sacerdotal: é realmente uma questão de paternidade espiritual, diz respeito à presença de um pai perante seus filhos. A impossibilidade de estar presente realça de forma dolorosa a necessidade dessa presença.

Isso também mostra que toda a tecnologia que possuímos, que tendemos a enxergar como a solução para a evangelização, é insuficiente, apenas um paliativo. É um paradoxo fascinante o fato de que, nesta situação, dependemos ainda mais da tecnologia e ao mesmo tempo percebemos com maior clareza suas limitações. Por mais úteis que sejam, e-mails, transmissões ao vivo, vídeos etc. não podem nos colocar verdadeiramente em contato uns com os outros. Eles apenas nos sustentarão até que a verdadeira comunicação humana — sem mediação, face a face, pessoa a pessoa —  possa ser recuperada.

Não há nada que possa substituir a presença do pastor junto aos seus fiéis. E o coração de um sacerdote não pode contentar-se com uma conexão virtual. Ele anseia pelo real.

Finalmente, podemos tirar uma última rosa desses espinhos: uma valorização cada vez maior da devoção de nosso povo. A ausência de uma Missa pública dominical impactará consideravelmente as vidas de todos os católicos, quer eles percebam, quer não. Mas muitos se dão conta disso. Eles anseiam pela Missa, ainda vão à igreja para rezar e desejam receber tudo o que um sacerdote deseja oferecer. A dor e o anseio que sentem deveriam nos encorajar a nos fazermos dignos deles.

Passamos por um advento inesperado em plena Quaresma. Estamos esperando — e portanto nos preparando para — o momento em que o sacerdote de Cristo poderá estar com seu rebanho novamente.

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Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio
Espiritualidade

Coronavírus: uma ocasião
para redescobrir o poder do silêncio

Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio

Será um grande passo sairmos desse momento difícil tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso.

Stephen KokxTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Por mais estranho que possa parecer, uma das primeiras coisas que fiz depois de abraçar o catolicismo tradicional seis anos atrás, aos 27 anos, foi desligar o rádio do meu carro.

Até então, sempre que eu entrava no meu carro, eu ouvia os últimos lançamentos musicais do pop, do rock clássico ou do rap. A verdadeira questão não era se o rádio ou o CD player seriam ligados. A questão era simplesmente em que volume eu os colocaria.

Quando cheguei a uma compreensão mais profunda da fé católica  — graças, em parte, aos escritos de Santo Afonso —, fiquei menos atraído pelo mundo e por aquilo que ele considera como música.

As canções às quais eu recorria a fim de passar pelos altos e baixos da vida não tinham mais o mesmo significado. Passei a vê-las como nada mais do que formas cativantes de poluição sonora que, ao serem ouvidas, mesmo que por acaso, infelizmente acabavam permanecendo em minha mente pelas próximas 48 horas.

Então, eu abracei o silêncio. Quando dirigia, desligava o rádio e rezava, muitas vezes o Rosário. Nos momentos em que ouvia algo, era música clássica ou canto gregoriano.

Essa atitude exerceu um enorme impacto sobre a minha vida espiritual. Minha mente libertou-se da obsessão de conhecer os mais recentes artistas da indústria da música e suas canções entorpecentes. Passei lentamente de uma perspectiva naturalista da vida para uma mais sobrenatural que, acredito, permitiu que a graça fosse mais facilmente derramada em minha alma.

Suspeito que o surto de coronavírus esteja dando a milhões de pessoas a chance de experimentar algo semelhante ao que passei seis longos anos atrás.

Em todo o mundo, eventos esportivos foram cancelados. As salas de cinema estão fechadas. Bares, restaurantes e cassinos foram fechados. Os “entretenimentos” que prendiam as pessoas ao longo do dia de repente lhes foram tomados. Suas distrações, em outras palavras, foram reduzidas ao mínimo, e as coisas que, por muitos anos, lhes trouxeram uma falsa sensação de conforto não são mais capazes de consolá-las.

Que grande dádiva! Deus concedeu à humanidade a chance de apreciar o mundo como ele é, aproveitando a beleza do silêncio, em oposição ao que o Cardeal Robert Sarah chamou de “a ditadura do barulho”.

É também uma ocasião para milhões de almas perceberem que as muitas coisas às quais elas estão apegadas são, na realidade, armadilhas sem sentido que, muitas vezes, desviam sua atenção das coisas que realmente importam — sua fé, sua família e seus amigos.

Esse tipo de circunstância não ocorre com muita frequência. Na prática, para levar as pessoas a pensar na mudança das próprias vidas como o coronavírus as está forçando a fazer, seriam necessários milhões de missionários cristãos viajando para todos os cantos do mundo.

Infelizmente, eu aposto que, quando o surto terminar, nem todas as pessoas perceberão que muitas coisas que elas “amam” não passam, na verdade, de vícios sem sentido. Muitas simplesmente permanecerão relutantes, ou serão incapazes de libertar-se da vida cheia de distrações que estavam vivendo. “Um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras” (Pr 26, 11).

Seria um grande passo se saíssemos disso tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso. O mais provável é que apenas olhem para trás e vejam este momento como um incômodo que toleraram contra a própria vontade, e não como uma ocasião que tiveram de abraçar com alegria a penitência que foram forçados a suportar, e de oferecê-la pela salvação das almas.

Seja como for, minha esperança é de que as pessoas em geral desliguem os rádios dos seus carros (e seus aparelhos de televisão), e se envolvam com atividades de lazer e hobbies que lhes preparem melhor a alma para receber a graça que o Deus todo-poderoso tanto deseja derramar em seus corações. Ler, cozinhar, pintar, caminhar, andar de bicicleta, escrever e cuidar do próprio jardim são, na minha opinião, os melhores lugares por onde começar.

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Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa
Liturgia

Mesmo sem fiéis, os padres
não só podem como devem rezar a Missa

Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa

Rejeitar a Missa sem o povo é rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta, mas ela continua sendo real e eficaz, seja qual for o número dos presentes: mil, vinte ou nenhum.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)27 de Março de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Num artigo intitulado Private Mass does not fit with a contemporary understanding of Eucharist [lit., “Missa privada não combina com o entendimento contemporâneo sobre a Eucaristia”] (publicado primeiro em alemão no portal katholisch.de), três velhos e cansados “liturgistas” de Bonn, Erfurt e Münster bradam de suas “cátedras” acadêmicas contra a celebração da Missa sem a presença dos fiéis.

Esses acadêmicos não têm nada melhor a fazer senão tentar conservar o que consideram como “vitórias” do período pós-conciliar, quando a Missa, em vez de ser tratada como a renovação do sacrifício do Calvário e fonte de graça, foi reinterpretada como um evento social horizontal não muito diferente de uma assembleia protestante. O valor inerente do oferecimento diário, pelo padre, da Vítima perfeitamente agradável, para proveito espiritual dele e de toda a Igreja, foi minimizado em favor das concelebrações; e, em muitas ocasiões, os sacerdotes adquiriram o hábito de dizer a Missa apenas em caso de celebração pública.

Essa noção reducionista da Missa jamais foi pensada pela Santa Igreja Católica, e tampouco é pensada por ela hoje.

Quando tais erros começaram a aparecer depois do Concílio, o Papa Paulo VI os condenou com firmeza na encíclica Mysterium Fidei, de 1965. Ele afirmou: “Não é lícito, só para aduzirmos um exemplo, exaltar a Missa chamada ‘comunitária’, a ponto de se tirar a sua importância à Missa privada” (n. 11). Mais adiante no documento, ele fala sobre a “natureza pública e social de toda e qualquer Missa”:

Toda a Missa, ainda que celebrada privadamente por um sacerdote, não é ação privada, mas ação de Cristo e da Igreja. Esta, no sacrifício que oferece, aprende a oferecer-se a si mesma como sacrifício universal, e aplica, pela salvação do mundo inteiro, a única e infinita eficácia redentora do Sacrifício da Cruz. Na realidade qualquer Missa celebrada oferece-se não apenas pela salvação de alguns mas pela salvação do mundo inteiro. Donde se conclui: se muito convém que à celebração da Missa, quase por sua natureza, participe ativamente grande número de fiéis, não se deve condenar, mas sim aprovar, a Missa que um sacerdote, por justa causa e segundo as prescrições e tradições legítimas da Santa Igreja, reza privadamente, embora haja apenas um acólito para ajudar e responder; de tal Missa deriva grande abundância de graças particulares, para bem tanto do sacerdote, como do povo fiel e de toda a Igreja, e mesmo do mundo inteiro; graças estas, que não se obtêm em igual medida só por meio da Sagrada Comunhão (n. 32).

Rejeitar a Missa sem a presença dos fiéis não é nada mais nada menos que rejeitar a compreensão católica da Missa definida de forma dogmática. Não se trata de ter presente este ou aquele grupo de pessoas, mas de levar o mundo e todos os fiéis de volta ao Pai por meio de Jesus Cristo. Obviamente, é bom que os fiéis estejam presentes e participem dessa oferta —  é bom para eles —, mas ela continua sendo objetivamente real e eficaz independentemente do número de fiéis presentes (mil, vinte ou nenhum).

Também estamos nos esquecendo, porventura, de que a Missa é oferecida na presença dos santos anjos e em comunhão com os santos da Igreja triunfante, honrados com tanta frequência na liturgia e particularmente na Oração Eucarística? Um sacerdote “sozinho” em sua capela nunca está realmente sozinho; ele está sempre na companhia dos eleitos de Deus, “lutando não contra homens de carne e sangue, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal” (Ef 6, 12). Naturalmente, essa perspectiva cósmica — a mesma presente na Sacrosanctum Concilium e na tradição católica como um todo — depende da fé viva naquilo que o olho humano não é capaz de enxergar. Os progressistas alemães parecem reduzir tudo ao que pode ser visto e assim demonstram não ter fé no mundo invisível, que é muito mais real do que o mundo físico que nos circunda.

Além da referida encíclica de Paulo VI, encontramos incentivo à celebração da Missa de forma privada no atual Código de Direito Canônico (cf. cân. 902, 904 e 906), bem como em outros documentos do Magistério pós-conciliar. Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, por exemplo, João Paulo II ensina o seguinte:

Se a Eucaristia é centro e vértice da vida da Igreja, é-o igualmente do ministério sacerdotal. Por isso, com espírito repleto de gratidão a Jesus Cristo nosso Senhor, volto a afirmar que a Eucaristia é a principal e central razão de ser do sacramento do Sacerdócio, que nasceu efetivamente no momento da instituição da Eucaristia e juntamente com ela... Compreende-se, assim, quão importante seja para a sua vida espiritual, e depois para o bem da Igreja e do mundo, que o sacerdote ponha em prática a recomendação conciliar de celebrar diariamente a Eucaristia, porque, “mesmo que não possa ter a presença dos fiéis, é ato de Cristo e da Igreja” (Concílio Vaticano II, Presbyterorum Ordinis, 13). Deste modo, ele será capaz de vencer toda a dispersão ao longo do dia, encontrando no sacrifício eucarístico, verdadeiro centro da sua vida e do seu ministério, a energia espiritual necessária para enfrentar as diversas tarefas pastorais. Assim, os seus dias tornar-se-ão verdadeiramente eucarísticos (n. 31).

Bento XVI diz o mesmo em sua exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis (2007):

A forma eucarística da existência cristã manifesta-se, sem dúvida, de modo particular no estado de vida sacerdotal. A espiritualidade sacerdotal é intrinsecamente eucarística... Uma vida espiritual intensa permitir-lhe-á entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor e ajudá-lo-á a deixar-se possuir pelo amor de Deus, tornando-se sua testemunha em todas as circunstâncias mesmo difíceis e obscuras. Para isso, juntamente com os padres do Sínodo, recomendo aos sacerdotes a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação (n. 80).

A Instrução Geral do Missal Romano, que rege as celebrações na Forma Ordinária, apresenta rubricas para a celebração da Santa Missa quando apenas um ministro está presente (n. 252-272) e para a celebração da Santa Missa sem a participação de um ministro (n. 254). O mesmo ocorre com as rubricas que regem a celebração da Forma Extraordinária. Disposições tão consistentes, feitas ao longo de séculos (antes e depois do Concílio Vaticano II, até o presente), não fariam sentido se esse cenário não fosse antevisto como uma prática necessária e louvável em determinadas situações. Evidentemente, não se trata de um abuso nem de uma ideia “fora de moda”, se nossos professores me permitem dizê-lo.

A oração de nosso Sumo e eterno Sacerdote é a mais santa e poderosa de todas, e a Missa é a sua oração salvífica e a sua oblação com aroma suave, oferecida pelas mãos de um ministro ordenado para o bem dos vivos e dos mortos e para a sua própria santificação. Se o sacerdote não for santo — se não buscar assiduamente a conformidade com Cristo Sumo Sacerdote —, o seu ministério será cada vez mais vazio, superficial e infrutífero. Isso não traz nenhum benefício para o povo de Deus.

Em épocas de perigo e dificuldade, os fiéis e seus ministros necessitam ainda mais da graça de Deus para que os apoie e os fortaleça. Privar a Igreja de um bem tão imenso quanto uma única Santa Missa, ou encorajar os sacerdotes a se privarem dela em qualquer dia, é sinal não de uma atitude sábia, mas de uma fé fraca, da renúncia ao sobrenatural, de uma caridade morna; é o mesmo que depositar a esperança neste mundo e em suas “soluções”. Independentemente de quais sejam os seus méritos, as soluções do mundo não são definitivas e não nos podem trazer a ajuda divina de que necessitamos.

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