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Carlo Acutis, o anjo da juventude
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Carlo Acutis, o anjo da juventude

Carlo Acutis, o anjo da juventude

Algumas pessoas saem da vida para entrar na história; outras, para entrar no céu. Conheça a comovente história deste menino que, no leito de morte, ofereceu sua vida pela Igreja e pelo Santo Padre.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Outubro de 2013Tempo de leitura: 3 minutos
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Algumas pessoas saem da vida para entrar na história; outras, para entrar no céu. Em 12 de outubro de 2006, falecia o jovem Carlo Acutis, vítima de uma grave leucemia. No leito de morte, desejou ardentemente que seus sofrimentos fossem oferecidos a Deus pela Santa Igreja e pelo Papa. O testemunho do rapaz, de apenas 15 anos, comoveu toda a Itália, tornando-o modelo de santidade, sobretudo para a juventude. No momento, a Diocese de Milão, à qual Acutis pertencia, trabalha na sua causa de beatificação.

Carlo Acutis nasceu em Londres, na Inglaterra, em 3 de maio de 1991. Os primeiros dias de vida foram também os primeiros de sua jornada para Deus. Com uma fé católica profundamente arraigada, os pais, André e Antônia, não tardaram a lhe providenciar o batismo, preparando para a ocasião um pequeno bolo em formato de cordeiro, como forma de agradecimento ao Senhor pela entrada do filho na comunidade cristã. Um simbolismo profético. A exemplo do Cordeiro de Deus, o pequeno Acutis também se faria tudo para todos, a fim de completar na própria carne — como diz o Apóstolo ao explicar o valor salvífico do dor — o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja.

Crescendo em Milão, o pequeno Carlo demonstrou as virtudes cristãs desde a infância. Era uma criança alegre, de comportamento suave, que cativava a todos — principalmente as babás — com o seu entusiasmo contagiante. E se algum amiguinho aprontava-lhe uma maldade, sabia colocar a caridade acima do instinto: "O Senhor não seria feliz se eu reagisse violentamente". Aos 12 anos de idade, a Santa Missa já lhe era o bem mais precioso. Comungava diariamente, haurindo da Eucaristia a graça para uma vida santa.

Tamanha espiritualidade chamava a atenção dos mais próximos. Certa vez, preferiu participar de uma peregrinação a Assis, Itália, a visitar outros lugares para diversão. O comportamento do garoto levava os parentes a considerarem-no uma "vítima dos pais". Mas não era nada disso. Como confidenciaria a seu diretor espiritual, poucos dias antes de sua derradeira páscoa, Assis era o lugar onde mais se sentia feliz. Juntamente com Nossa Senhora de Fátima, São Francisco era-lhe o grande santo de devoção, principalmente por sua pequenez e humildade.

Vibrante, apaixonado pela vida, tinha no apostolado o fim último de toda a sua ação. Entendera cedo o "chamado universal à santidade". Daí a disponibilidade para todos, fazendo-se amigo de qualquer um, mesmo dos mais tímidos. "Ele acreditava no diálogo íntimo com o Senhor — conta um dos colegas — e rezava o Rosário todos os dias. Após a morte de Carlo voltei para a Igreja e acho que isso pode ser mérito de sua intercessão".

No Instituto Liceo Classico Leão XIII, onde iniciou o ensino médio, desenvolveu sua paixão por computadores. Carlo criou um site dedicado aos milagres eucarísticos e à vida dos santos. "Decidi ajudá-los — dizia o jovem na página da internet — compartilhando alguns dos meus segredos mais especiais para aqueles que desejam rapidamente alcançar a meta da santidade". Carlo Acutis insistia na Missa diária, na récita do Rosário, na lectio divina, na Confissão e no apego aos santos. "Peça ao seu Anjo da Guarda para ajudá-lo continuamente, de modo que ele se torne seu melhor amigo", recomendava.

Em 2006, com apenas 15 anos, Carlo Acutis descobriria uma grave doença: a leucemia. Confundida inicialmente com uma inofensiva "caxumba", o mal acabou se alastrando rapidamente, mesmo com os vários tratamentos, causando-lhe a morte em apenas um mês. Às 6h45min de 12 de outubro de 2006, o Senhor o levava para a vida eterna. Perto de falecer, confidenciou aos pais: "Ofereço todos os sofrimentos desta minha partida ao Senhor, ao Papa e à Igreja, para não fazer o Purgatório e ir direto para o Paraíso."

A postuladora para a causa dos Santos da Arquidiocese de Milão, Francesca Consolini, afirma que a fé de Carlo Acutis era "singular": "Levava-o a ser sempre sincero consigo mesmo e com os outros (...), era sensível aos problemas e às situações de seus amigos, os companheiros, as pessoas que viviam perto dele e quem o encontrava no dia a dia". O testemunho do rapaz pode ser encontrado na sua biografia, "Eucaristia, minha rodovia para o céu", escrita por Nicola Gori, articulista do L'Osservatore Romano.

O corpo de Carlo Acutis foi sepultado em Assis, cidade de São Francisco, por sua especial devoção ao santo.

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Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?
Sociedade

Por que
coube a São Tomé
evangelizar o Brasil?

Por que coube a São Tomé evangelizar o Brasil?

“Os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar” aos outros povos; “mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura”.

Pe. António Vieira3 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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A forma com que Cristo mandou pelo mundo a Seus Discípulos, diz o Evangelista São Marcos que foi esta: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, quia iis, qui viderant eum resurrexisse, non crediderunt, et dixit illis: Euntes in mundum universum, praedicate Evangelium omni creaturae (Mc 16, 14s). Repreendeu Cristo aos Discípulos da incredulidade e dureza de coração, com que não tinham dado crédito aos que O viram ressuscitado, e sobre esta repreensão os mandou que fossem pregar por todo o mundo. A São Pedro coube-lhe Roma e Itália; a São João, a Ásia Menor; a São Tiago, Espanha; a São Mateus, Etiópia; a São Simão, Mesopotâmia; a São Judas Tadeu, o Egito; aos outros, outras províncias, e finalmente a Santo Tomé esta parte da América em que estamos, a que vulgar e indignamente chamaram Brasil. Agora pergunto eu: e por que nesta repartição coube o Brasil a Santo Tomé e não a outro Apóstolo? Ouvi a razão.

Notam alguns Autores modernos que notificou Cristo aos Apóstolos a pregação da Fé pelo mundo, depois de os repreender da culpa da incredulidade, para que os trabalhos que haviam de padecer na pregação da Fé fossem também em satisfação e como em penitência da mesma incredulidade e dureza de coração que tiveram em não quererem crer: Exprobavit incredulitatem eorum, et duritiam cordis, et dixit illis: Euntes in mundum universum. E como Santo Tomé, entre todos os Apóstolos, foi o mais culpado da incredulidade, por isso a Santo Tomé lhe coube, na repartição do mundo, a missão do Brasil, porque, onde fora maior a culpa, era justo que fosse mais pesada a penitência. Como se dissera o Senhor: os outros Apóstolos, que foram menos culpados na incredulidade, vão pregar aos Gregos, vão pregar aos Romanos, vão pregar aos Etíopes, aos Árabes, aos Armênios, aos Sármatas, aos Citas; mas Tomé, que teve a maior culpa, vá pregar aos Gentios do Brasil, e pague a dureza de sua incredulidade com ensinar à gente mais bárbara e mais dura.

Bem o mostrou o efeito. Quando os Portugueses descobriram o Brasil, acharam as pegadas de Santo Tomé estampadas em uma pedra, que hoje se vê nas praias da Bahia; mas rasto, nem memória da Fé que pregou Santo Tomé, nenhum acharam nos homens. Não se podia melhor provar e encarecer a barbaria da gente. Nas pedras, acharam-se rastos do Pregador, na gente não se achou rasto da pregação; as pedras conservaram memórias do Apóstolo, os corações não conservaram memória da doutrina.

A causa por que as não conservaram, diremos logo, mas é necessário satisfazer primeiro a uma grande dúvida, que contra o que imos dizendo se oferece. Não há Gentios no mundo que menos repugnem à doutrina da Fé, e mais facilmente a aceitem e recebam, que os Brasis; como dizemos logo, que foi pena da incredulidade de Santo Tomé o vir pregar a esta gente? Assim foi (e quando menos assim pode ser) e não porque os Brasis não creiam com muita facilidade, mas porque essa mesma facilidade com que crêem faz que o seu crer, em certo modo, seja como o não crer. Outros Gentios são incrédulos até crer; os Brasis, ainda depois de crer, são incrédulos. Em outros Gentios a incredulidade é incredulidade, e a Fé é Fé; nos Brasis a mesma Fé ou é, ou parece incredulidade. 

“A Incredulidade de São Tomé”, de Mattia Preti.

São os Brasis como o pai daquele Lunático do Evangelho, que padecia na Fé os mesmos acidentes que o filho no juízo. Disse-lhe Cristo: Omnia possibilia sunt credenti (Mc 9, 22): “Que tudo é possível a quem crê”. E eles respondeu: Credo, Domine, adjuva incredulitatem meam: “Creio, Senhor, ajudai minha incredulidade”. Reparam muito os santos nos termos desta proposição, e verdadeiramente é muito para reparar. Quem diz: creio, crê e tem Fé; quem diz: ajudai minha incredulidade, não crê e não tem Fé. Pois como era isto? Cria este homem, e não cria; tinha Fé, e não tinha Fé juntamente? Sim, diz o Venerável Beda: Uno eodemque tempore is, qui nondum perfecte crediderat, simul et credebat, et incredulus erat: “No mesmo tempo cria e não cria este homem, porque era tão imperfeita a Fé com que cria, que por uma parte parecia e era Fé, e por outra parecia e era incredulidade”: Uno eodemque tempore, et credebat, et incredulus erat. Tal é a Fé dos Brasis: é fé que parece incredulidade, e é incredulidade que parece Fé; é Fé, porque crêem sem dúvida e confessam sem repugnância tudo o que lhes ensinam, e parece incredulidade, porque, com a mesma facilidade com que aprenderam, desaprendem, e com a mesma facilidade, com que creram, descrêem.

Assim lhe aconteceu a Santo Tomé com ele. Por que vos parece que passou Santo Tomé tão brevemente pelo Brasil, sendo uma região tão dilatada e umas terras tão vastas? É que receberam os naturais a Fé que o Santo lhes pregou com tanta facilidade e tão sem resistência nem impedimento, que não foi necessário gastar mais tempo com ele. Mas tanto que o Santo Apóstolo pôs os pés no mar (que este, dizem, foi o caminho por onde passou à Índia) tanto que o Santo Apóstolo (digamo-lo assim) virou as costas, no mesmo ponto se esqueceram os Brasis de tudo quanto lhes tinha ensinado, e começaram a descrer ou a não fazer caso de quanto tinham crido, que é gênero de incredulidade mais irracional, que se nunca creram. Pelo contrário, na Índia pregou Santo Tomé àquelas Gentilidades, como fizera às do Brasil: chegaram também lá os Portugueses dali a mil e quinhentos anos, e que acharam? Não só acharam a sepultura e as relíquias do Santo Apóstolo, e os instrumentos de seu martírio, mas o seu nome vivo na memória dos naturais, e o que é mais, a Fé de Cristo, que lhes pregara, chamando-se cristãos de Santo Tomé todos os que se estendem pela grande Costa de Coromandel, onde o Santo está sepultado.

E qual seria a razão por que nas Gentilidades da Índia se conservou a Fé de Santo Tomé, e nas do Brasil não? Se as do Brasil ficaram desassistidas do Santo Apóstolo pela sua ausência, as da Índia também ficaram desassistidas dele pela sua morte. Pois, se naquelas nações se conservou a Fé por tantos centos de anos, nestas por que se não conservou? Porque esta é a diferença que há de umas nações a outras. Nas da Índia, muitas são capazes de conservarem a Fé sem assistência dos Pregadores; mas nas do Brasil nenhuma há que tenha esta capacidade. Esta é uma das maiores dificuldades que tem aqui a conversão. Há-se de estar sempre ensinando o que já está aprendido, e há-se de estar sempre plantando o que já está nascido, sob pena de se perder o trabalho e mais o fruto

A Estrela que apareceu no Oriente aos Magos guiou-os até o presépio, e não apareceu mais. Por quê? Porque muitos Gentios do Oriente, e doutras partes do mundo, são capazes de que os pregadores, depois de lhes mostrarem a Cristo, se apartem dele e os deixem. Assim o fez São Filipe ao Eunuco da rainha Candace, de Etiópia: explicou-lhe a Escritura de Isaías, deu-lhe notícia da Fé e divindade de Cristo, batizou-o no rio de Gaza, por onde passavam, e tanto que esteve batizado, diz o texto que arrebatou um anjo a São Filipe, e que o não viu mais o Eunuco: Cum autem ascendissent de aqua, Spiritus Domini rapuit Philippum, et amplius non vidit eum eunuchus (At 8, 39). Desapareceu a Estrela, e permaneceu a Fé nos Magos; desapareceu São Filipe, e permaneceu a Fé no Eunuco; mas esta capacidade, que se acha nos Gentios do Oriente, e ainda nos de Etiópia, não se acha nos do Brasil. A Estrela que os alumiar não há de desaparecer, sob pena de se apagar a luz da doutrina; o Apóstolo que os batizar, não se há de ausentar, sob pena de se perder o fruto do Batismo. É necessário, nesta vinha, que esteja sempre a cana da doutrina arrimada ao pé da cepa, e atada à vide, para que se logre o fruto e o trabalho [...].

Estátua do Pe. Vieira em Lisboa, a mesma que foi alvo recente de vândalos “antifascistas”.

Hão-se de haver os Pregadores Evangélicos na formação desta parte do mundo, como Deus se houve ou se há na criação e conservação de todo. Criou Deus todas as criaturas no princípio do mundo em seis dias, e, depois de as criar, que fez e que faz até hoje? Cristo o disse: Pater meus usque modo operatur et ego operor (Jo 5, 17). Desde o princípio do mundo até hoje não levantou Deus mão da obra, nem por um só instante; e com a mesma ação com que criou o mundo, o esteve sempre, e está, e estará conservando até o fim deles. E se Deus o não fizer assim, se desistir, se abrir mão da obra por um só momento, no mesmo momento perecerá o mundo, e se perderá tudo o que em tantos anos se tem obrado. 

Tal é no espiritual a condição desta nova parte do mundo, e tal o empenho dos que têm à sua conta a conversão e reformação dela. Para criar, basta que trabalhem poucos dias; mas para conservar, é necessário que assistam, e continuem, e trabalhem, não só muitos dias e muitos anos, mas sempre. E já pode ser que esse fosse o mistério com que Cristo disse aos Apóstolos: Praedicate omni creaturae (Mc 16, 15). Não disse: “Ide pregar aos que remi”, senão: “Ide pregar aos que criei”, porque o remir foi obra de um dia, o criar é obra de todos os dias. Cristo remiu uma só vez, e não está sempre remindo; Deus criou uma vez, e está sempre criando. 

Assim se há de fazer nestas nações: há-se lhes de aplicar o preço da Redenção, mas não pelo modo com que foram remidas, senão pelo modo com que foram criadas. Assim como Deus está sempre criando o criado, assim os Mestres e Pregadores hão de estar sempre ensinando o ensinado, e convertendo o convertido, e fazendo o feito: o feito para que se não desfaça; o convertido, para que se não perverta; o ensinado, para que se não esqueça; e, finalmente, ajudando a incredulidade não incrédula, para que a Fé seja Fé não infiel: Credo, Domine: adjuva incredulitatem meam (Mc 9, 23).

Referências

  • Cf. Pe. Antônio Vieira, Sermão do Espírito Santo, pregado em São Luís do Maranhão, na Igreja da Companhia de Jesus, § III. In: Obra Completa. Dir. por João E. Franco e Pedro Calafate. São Paulo: Loyola, 2015, vol. 5/I, pp. 249-254. Excerto adaptado aqui e ali para esta publicação.

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A cura para a “masculinidade tóxica”
Sociedade

A cura para a “masculinidade tóxica”

A cura para a “masculinidade tóxica”

Para a maior parte das feministas, o problema da chamada “masculinidade tóxica” é o patriarcado: seria preciso abolir desde a noção de família natural até as próprias diferenças sexuais. Mas o cristianismo tem uma resposta diferente a oferecer.

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Julho de 2020Tempo de leitura: 11 minutos
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Durante muito tempo, e em boa parte das civilizações, a masculinidade esteve associada a virtudes como coragem, resiliência, disciplina etc., coisas que seriam necessárias para um menino tornar-se “homem de verdade”. Por isso, várias dessas civilizações possuíam códigos de honra e rituais de passagem, que os rapazes mais jovens do grupo precisavam cumprir para ganhar o respeito não só do líder da tribo, mas também das mulheres.

De modo geral, a vocação masculina costumava ser resumida em três palavras-chave:  “procriar”, “prover” e “proteger”. Com o passar do tempo, no entanto, esse código passou por mudanças e agora, entre tantas discussões sociais, políticas e sexuais, encontra-se no centro do debate. Se, em outras épocas, alguém poderia afirmar tranquilamente que “a masculinidade faz do mundo um lugar mais seguro”, como fez o ator Juliano Cazarré, em seu Instagram, hoje isso pode causar não só escândalo como uma enxurrada de críticas ao patriarcalismo ou, como quer a novilíngua, à “masculinidade tóxica”.

Em outro comentário, Cazarré teve de explicar que, calma lá, “masculinidade não é equivalente a machismo, a feminicídio, a patriarcalismo” etc., mas “significa agir com coragem mesmo quando se tem medo”, “ajudar quem precisa”, “valorizar as virtudes cardeais” e “fazer algo em vez de ficar parado reclamando da vida”. O óbvio, porém, não é mais tão óbvio assim, sobretudo quando a linha entre masculinidade e machismo tornou-se, aparentemente, tão tênue.

A origem da barbárie. — O censo mais recente sobre feminicídio no Brasil revelou que, durante a pandemia, os casos cresceram 22% em 12 estados. Também, nos últimos anos, aumentou o número de mães solteiras. Além desses dados, outros números são igualmente preocupantes: homens são as principais vítimas de homicídio e a maior população carcerária do Brasil. Geralmente, eles têm uma expectativa de vida inferior à das mulheres, sendo mais propensos que elas à dependência química e a cometer suicídios. Para completar, são cada vez mais comuns rapazes com problemas de disfunção erétil e ejaculação precoce.

Na origem dessa barbárie, vários estudiosos acusam o “machismo estrutural” de reforçar entre os homens a ideia de que eles “podem tudo”, que é da natureza deles a “brutalidade” e que, por isso, eles têm o direito de usar as mulheres e depois largá-las; podem dominá-las, tratando-as como uma propriedade ou, em situações extremas, matando-as. E esse machismo teria representatividade justamente em lugares como a família, a Igreja, a política e a arte, que, segundo eles, defendem uma ideia de homem “agressivo”, “dominador”, “predador”, entre outros estereótipos.

“Você pode ser masculino sem ser tóxico, ‘mano’”. Palavras de ordem comuns em manifestações feministas nos EUA.

De fato, a chamada cultura pop está repleta de ícones masculinos baseados na ideia do “predador sexual”, que se deita com quantas mulheres quiser, apenas por supostamente ser forte, viril e derrotar os inimigos da história. Que sejam esses, inclusive, os protagonistas dos filmes mais vistos das plataformas de streaming não é mero acaso: “Exalta-se entre os homens a baixeza” (Sl 11, 8). Ao fim e ao cabo, trata-se de mais do mesmo na indústria cinematográfica: sexo, sexo e sexo.

É fácil perceber a relação entre essas representações masculinas e o comportamento machista de muitos homens, considerando que a pornografia é a teoria e o estupro, a prática. Produções desse gênero, longe de falar da complementaridade e respeito entre sexos, só o que fazem é exibir o domínio de um sobre o outro. Seja como for, não há dúvida de que a exposição constante a cenas de sexo, explícitas ou não, provoca uma séria alteração no cérebro masculino. E se os homens são, em sua maioria, consumidores frenéticos dessa droga, a consequência inevitável é que tais comportamentos se reproduzam na vida real, em maior ou menor medida. Prova disso são os escândalos de abuso que assolaram Hollywood nos últimos anos e fizeram a Academia revisar boa parte de sua política.

Quanto à acusação que se faz aqui e ali à Igreja, no entanto, é difícil acreditar que homens se masturbando dentro de transportes públicos (notícia que tem se tornado, infelizmente, muito comum), tenham se sentido autorizados a fazê-lo depois de uma homilia dominical. Na verdade, há quem considere o cristianismo uma religião mais feminina que masculina. Mas o fato de a Igreja ser comandada hierarquicamente apenas por homens e ter, em sua pregação, um discurso sobre papéis institucionais e diferença entre os sexos seria o suficiente para sustentar um “machismo estrutural” e “simbólico”. Ao menos, é o que pensam muitas feministas.

Os remédios para o machismo. — A discussão torna-se, a partir daqui, mais melindrosa e fora do senso comum. Para grande parte das feministas, a reação adequada à “masculinidade tóxica” seria abolir toda e qualquer mentalidade considerada patriarcal, desde a noção de família à convicção de que existe uma natureza humana que faz os homens serem biologicamente diferentes de mulheres. O esforço, portanto, deveria ser o de construir socialmente novos “papéis de gênero”, enfraquecendo os códigos de masculinidade que falam em “procriar”, “prover” e “proteger”. Uma tendência disso pode ser vista no vestuário ou no cinema, com roupas masculinas cada vez mais emasculadas e filmes cujos protagonistas homens têm personalidades bem suaves e frágeis — quando não imbecis.

É uma guerra cultural. As feministas mais radicais acreditam que, entre o homem que usa a força para “prover” e “proteger” sua família e o que a utiliza para abusar de mulheres, parece, em tese, não haver diferença alguma, senão de grau: enquanto o último representaria o estágio mais avançado do troglodita, o primeiro esconderia seu machismo sob a fachada de “pai de família”. A violência de um é física: ele oprime com o punho; a do outro é institucional: ele oprime com o olhar. Assim, a única solução para a masculinidade seria transformá-la ao ponto de não restar sombra do tal “macho alfa”. Em outras palavras, é a abolição da testosterona.

Acontece que uma coisa é a ideologia e outra, a realidade: homens menos viris não são necessariamente menos opressores. Ao contrário, eles podem ser bem mais onerosos sobre suas famílias, sobre seus filhos e sobre a sociedade, quando não têm desafios para enfrentar, quando não decidem assumir responsabilidades e empregar as próprias habilidades para promover o bem e formar o caráter. No fundo, grande parte da violência masculina, hoje em dia, se deve ao vazio que os homens sentem, por não saberem mais que papel desempenhar na sociedade, o que lhes causa enorme ansiedade e frustração. Os homens não querem mais ser homens.

Homens censurando uma mulher, J. K. Rowling, por ela afirmar o óbvio — sim, mulheres menstruam — sem considerar o disparate — “há muitos homens transsexuais que menstruam, e muitas mulheres trans que não” — é a quintessência do machismo. Porque se, antes, era considerado abuso que os homens quisessem “proteger” e “prover” suas esposas, que se dirá agora de homens que forçam juridicamente, e com apoio da mídia mainstream, mulheres a relativizar algo tão íntimo como o ciclo menstrual, para se adequarem a novos “papéis de gênero”? É a intromissão total sobre o corpo da mulher, a imposição arbitrária da imaginação sobre a realidade, imposição dos fetiches sexuais sobre a natureza biológica. Enquanto muitas feministas se preocupam com os Rosários dos católicos contra o aborto, é a ideologia de gênero que lhes arranca o útero e a garganta.

Nesse contexto, cresce ainda o fenômeno chamado MGTOW (sigla para Men Going Their Own Way; em português: “Homens seguindo o seu próprio caminho”), que reúne homens que preferem não criar nenhum vínculo com mulheres, a fim de conservar seus negócios, patrimônios e independência. Eles podem até manter relações sexuais com elas, mas jamais as assumirão como namoradas ou esposas.

Curados pelo amor. — No fim das contas, em toda essa balbúrdia, para a qual parece não haver solução, há no entanto quem ainda acredite no amor dos homens: “Toda mulher quer amar e ser amada por homens em sua vida. Seja gay ou hétero, bissexual ou celibatária, ela deseja sentir o amor de seu pai, avô, tio, irmão ou amigo” [1]. Essa não é a afirmação de uma mulher “bela, recatada e do lar”, mas de uma feminista dissidente, bell hooks (sim, com minúsculas), que, para além da ideologia, percebe que os homens têm um papel necessário na vida familiar, na criação dos filhos e no mundo feminino.

Em The will to change (em português: “Desejo de mudança”), a ativista fala de sua infância e de como ela, criada num lar onde a figura paterna era muito severa, desejava que as mãos de seu pai a abraçassem, abrigassem e protegessem, tocando-a com ternura e cuidado. A partir de sua experiência, ela afirma que a abordagem sobre a masculinidade deve focar não na ideia negativa do “poder” dos homens — como fazem muitas feministas —, mas na capacidade deles para o amor. Para hooks, dentro da cultura atual, na qual se prega tanto a dominação de um pelo outro, a escolha pelo amor é a atitude mais heroica. 

A escritora feminista bell hooks.

A observação de hooks é que muitos meninos crescem pressionados a serem fortes e resilientes, como se essas fossem as virtudes principais, mas eles não são ensinados a lidar com a vida interior. Eles têm dos demais homens, bem como dos seus colegas, ou até de suas mães, a cobrança para que cumpram seus papéis sociais sem, por outro lado, o suporte para aceitarem o próprio temperamento e os limites pessoais. É como se tivessem de desenvolver uma ataraxia, o que se expressa frequentemente pelo imperativo: “Seja homem”. E quando não correspondem a essas expectativas, acabam expressando a própria dor por meio da violência, da sexualidade, do vício etc.

“Para amar os meninos corretamente”, insiste ela, “devemos valorizar sua vida interior o suficiente para construirmos mundos, tanto privados quanto públicos, onde seu direito à totalidade possa ser consistentemente comemorado e afirmado, onde a necessidade deles de amar e serem amados possa ser satisfeita” [2]. Portanto, ela conclui que “apenas uma revolução dos valores em nossa nação acabará com a violência masculina, e essa revolução deve ser necessariamente baseada numa ética do amor” [3].

A descoberta de bell hooks é fantástica, sem dúvida. No entanto, vem com certo atraso. Um século antes da publicação de The will to change, o livro de outro autor, Chesterton, já falava do “dano mais terrível” que as virtudes, “isoladas uma da outra”, causavam ao mundo. Em Ortodoxia, o jornalista dizia que “o mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas” circulando por aí sozinhas [4]. É por isso que, quando falamos da fortaleza masculina e da missão de “prover” e “proteger”, somos facilmente identificados com o machismo. Para a sociedade atual, à fortaleza não está unida a virtude da caridade. E é por isso também que, para reagir ao machismo, muitas feministas preferem aniquilar a masculinidade em vez de redimi-la pelo amor, como fez Cristo.

A masculinidade do homem cristão. — É uma pena que, por conta de sua experiência particular, hooks veja na Igreja apenas o sinal de um patriarcalismo e de uma mentalidade machista e misógina. Mas, data venia, é preciso dizer que, se há no mundo alguma instituição que lutou, desde o início, para ensinar aos homens a virtude do amor, essa instituição se chama Igreja Católica. E as confusões a esse respeito se dão simplesmente porque, não sabendo interpretar os paradoxos do cristianismo, muitos não entendem como São Paulo pode, na mesma carta, pedir a submissão das mulheres aos seus maridos e, logo em seguida, dizer aos maridos que amem suas esposas como Cristo amou a Igreja. Mas tudo se explica neste versículo: “Sede submissos uns aos outros, no temor de Cristo” (Ef 4, 21).

Quando Davi disse para Salomão “ser homem”, ele associou a masculinidade não tanto à força física — porque Deus não se deleita com músculos, diz o salmista (147, 10) — quanto à obediência aos preceitos divinos. Nesse sentido, a escolha dos doze Apóstolos significou uma revolução de todo o código de masculinidade, pois Cristo chamou homens fracos e débeis aos olhos do mundo, para ensiná-los que: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10, 43). Nosso Senhor substituiu a lei de talião — “olho por olho, dente por dente” — pela máxima da caridade — “que vos amei uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12).

De fato, Jesus curou a crise entre o homem e a mulher, que não é uma crise de sistemas patriarcais ou matriarcais, como se a mera substituição de um pelo outro resolvesse algo, mas uma crise antropológica e espiritual, que vem desde a Queda no Éden: “A teu marido irá o teu desejo, e ele te dominará” (Gn 3, 16). Essa foi uma das consequências do pecado original, que só pode ser remediado pela graça do amor de Deus. Restaurados em Cristo, a relação entre o homem e a mulher deixa de ser a de “senhor e escrava” para converter-se na de “senhor e senhora”. É um serviço mútuo em que cada um empenha suas qualidades para a edificação amorosa do próximo.

No romance Quo Vadis, que conta a história dos primeiros cristãos, a diferença entre a masculinidade cristã e a do paganismo é notável. Enquanto o general Marcus Vinícius, chefe das tropas romanas, sente-se no direito de possuir a jovem Lígia, simplesmente por defender a nação e ser um homem com feitos heroicos, o cristão Ursus, um homem fisicamente robusto, recusa-se a utilizar a força para espetáculos de gladiadores. “Eu não luto”, responde ele a uma proposta de Marcus Vinícius, “porque é pecado matar”. Ursus só utiliza a força para proteger Lígia numa arena, quando os dois, por serem discípulos de Jesus, são jogados à sorte das feras. Com isso, o homem cristão mostra ao general pagão que a força dele não é para conquistar troféus e prêmios neste mundo, mas a graça do amor de Deus e a vida eterna. 

E essa, sem dúvida, é a masculinidade que faz do mundo um lugar mais seguro.

Referências

  1. bell hooks, The will to change: men, masculinity and love. New York: Atria Books, 2004 (versão eletrônica).
  2. Id.
  3. Id.
  4. G.K. Chesterton, Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 31.

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O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós
Espiritualidade

O que não podíamos,
o Sangue de Cristo fez por nós

O que não podíamos, o Sangue de Cristo fez por nós

“Que poderei retribuir ao Senhor...?” O Salmo 115, que a Igreja por séculos fez constar em sua Liturgia, tem uma lição a nos passar: o sacrifício que não podíamos oferecer a Deus, Ele mesmo veio oferecer em nosso lugar.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Julho de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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A virtude da religião, explica Santo Tomás de Aquino, é o hábito da justiça pelo qual damos ao Deus Todo-Poderoso o que lhe devemos como nosso Criador e Senhor: seu direito à adoração adequada, tanto em nossas ações externas (por exemplo, louvando-o com os lábios, curvando-nos diante dele) e atos internos (como a humilde submissão da mente e do coração em adoração). Como Ele é nosso Criador e soberano Senhor, de quem dependemos em nosso ser e em nossa vida, em nossas atividades e para a nossa felicidade, a Ele nós devemos tudo: cada parte de nós mesmos, corpo e alma.

Esse retorno não é algo que possamos fazer tal como Ele merece, mas podemos dar o máximo que é possível a uma criatura. Para o homem antes da Queda, essa virtude teria assumido a forma de um “sacrifício racional”, no qual ele não apenas ofereceria a Deus adoração, louvor e ação de graças, mas também a silenciosa homenagem de todas as criaturas. Ao fazerem isso em determinados horários todos os dias, permanecendo sempre em comunhão de amor e confiança, Adão e Eva, antes da Queda, tinham uma vida religiosa perfeita.

A Queda mudou tudo. Agora, o homem age contra aquilo que deve a Deus — age, na verdade, na medida do possível, contra o próprio Deus, pois o Senhor, que está presente em suas leis, é amado quando são obedecidas, mas desprezado, quando desobedecidas. Adão e Eva agora vivem em um mundo que se voltou contra eles, como eles mesmo se voltaram contra o seu Criador e Senhor. Eles precisam trabalhar para sobreviver, sofrendo no trabalho, sofrendo no nascimento. Eles se cansam, se frustram e vacilam. O pior de tudo é que, quando se voltam para Deus, não é com a familiaridade íntima de uma criança, mas com a consciência abalada de um renegado, tentando compensar uma ofensa de gravidade quase infinita.

Para os filhos caídos de Adão, portanto, a virtude da religião deve necessariamente assumir a forma de um culto sacrificial pelo qual Deus é honrado e também aplacado. O derramamento de sangue simboliza a morte da própria vontade egoísta: derramar a vida, dolorosamente, para restaurar o que foi perdido e mostrar que pertence apenas a Deus. “Sem derramamento de sangue, não há perdão dos pecados” (Hb 9, 22).

Deus deu a Israel a Antiga Lei como um sistema, uma forma estabelecida de adoração que tornaria necessária a vinda de um Mediador e Redentor, de alguém que, em si mesmo, pudesse oferecer a Deus uma adoração verdadeiramente digna de seus direitos sobre toda a Criação. Poder-se-ia chamar toda a Antiga Lei de grande “ritual do ofertório”, pelo qual a vítima foi preparada na presciência de Deus, em antecipação à vinda do Messias, o Cordeiro de Deus. A consagração corresponde à morte deste Cordeiro no altar da Cruz. A Comunhão significa tomar parte na salvação que nos foi adquirida ao preço do seu Sangue precioso.

Somente Cristo, portanto, realiza de modo perfeito a virtude da religião, e nós temos o privilégio incomparável de sermos inseridos em sua própria adoração. A Missa latina tradicional expressa essa verdade em um momento pungente, escondido da vista do leigo, mas não do seu conhecimento, caso ele acompanhe as orações em um missal.

Quando está prestes a tomar o Preciosíssimo Sangue, o sacerdote no rito antigo pronuncia o verso do Salmo: Quid retribuam Domino pro omnibus, quae retribuit mihi? (Sl 115, 12), “Que poderei retribuir ao Senhor por todas as coisas que ele me deu?” Ele pega o cálice com mais dois versos: Calicem salutaris accipiam, et nomen Domini invocabo. Laudans invocabo Dominum, et ab inimicis meis salvus ero (Sl 115, 4; 17, 4), “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”.

Em seguida, ele se benze com o cálice em forma de cruz e, segurando a patena sob ele, toma o Preciosíssimo Sangue após pronunciar as palavras: Sanguis Domini nostri Jesu Christi custodiat animam meam in vitam aeternam, “Que o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo preserve a minha alma para a vida eterna”.

Em STh II-II 80, 1, Santo Tomás cita o Sl 115, 12: “Que poderei retribuir ao Senhor por tudo o que ele me deu?”, como testemunho bíblico da virtude da religião, pela qual damos o que podemos ao Senhor, embora nunca possamos dar o suficiente, pois nunca lhe retribuímos um dom equivalente ao que Ele nos deu. A colocação deste versículo no ponto mais alto da Missa, em que se bebe o Sangue do Senhor, enfatiza o aspecto da justiça na Liturgia. O homem se esforça para voltar-se a Deus, e o melhor retorno que ele pode fazer é, de fato, comungar o Corpo de Jesus Cristo e permitir que Ele mesmo agradeça ao Pai dentro e através de quem comunga.

É por isso que o sacerdote, logo em seguida, acrescenta: “Beberei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor”. O Justo e Santo vem, por misericórdia, habitar em seu interior, para que o homem possa, unido a Cristo, oferecer-se a Deus como uma oblação digna. O cristão incorporado a Cristo tem o “Deus de Deus, luz da luz”, dentro de si, e entre o Pai e o Filho há o amor mais elevado e a mais sublime justiça, como se cada um deles estivesse eternamente dando ao outro a sua perfeita retribuição. O Pai não apenas gera o Filho, mas nele se compraz e o recebe no amor eterno e recíproco que é o Espírito Santo. A Sagrada Comunhão coloca o fiel nesta circumincessão ou habitação mútua das Pessoas divinas. É por isso que o cálice é mencionado como “calicem salutis perpetuae”: o cálice da salvação eterna.

É como se esse pequeno ritual nos estivesse dizendo: “Sim, ó homem, para vós é impossível retribuir justamente ao Senhor por tudo o que Ele vos deu”, mas “a Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).

Como ensina a Madre Matilde do Santíssimo Sacramento (1614–1698):

A Missa é um mistério inefável no qual o Pai eterno recebe homenagens infinitas: nela Ele é adorado, amado e louvado como merece; e é por isso que somos aconselhados a receber a Comunhão com frequência, a fim de cumprirmos para com Deus, por meio de Jesus, todas as nossas obrigações. Isso é impossível sem Jesus Cristo, que entra em nós para realizar o mesmo sacrifício da Santa Missa.

A sequência dos versículos do Salmo, uma vez sorvido o cálice, conclui apropriadamente: “Louvando, clamarei ao Senhor e serei salvo dos meus inimigos”. Que motivo de louvor: receber o próprio Senhor, Aquele a quem clamamos! Que proteção contra nossos inimigos! O Senhor nos salvará, porque, na Santa Comunhão, Ele vem habitar em nós, aplicar-nos os méritos de sua morte e aumentar nossa participação em sua vida ressuscitada.

A tristeza dos católicos por não poderem assistir à Missa e receber Nosso Senhor sacramentalmente deve intensificar nosso desejo espiritual pelo santo sacrifício e por uma participação cada vez mais frutuosa, sempre que o Senhor quiser que tenhamos de novo a felicidade de participar do seu banquete. Somos chamados a fazer o que pudermos e a nos entregar nas mãos de Deus, usando as palavras de nosso Salvador na Cruz: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (Lc 23, 46).

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Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino
Sociedade

Sagrado Coração,
venha a nós o vosso Reino

Sagrado Coração, venha a nós o vosso Reino

Os católicos não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Entre nós está a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus. Nele está a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles quais forem.

Jane StannusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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À Espera dos Bárbaros”, poema de Konstantínos Kaváfis sobre o colapso da civilização, descreve uma Roma tão desanimada e desmoralizada, que já quase não possui esperança alguma. Ela se agarra aos bárbaros como a sua última tábua de salvação — há rumores de que as hordas barbáricas se aproximam, sem dúvida para saquear e queimar, mas também para construir, talvez, um novo império a partir das ruínas do antigo.  

Mas numa mudança repentina que se assemelha a um soco, Kaváfis puxa o tapete de Roma. Não há bárbaros. De nada adiantará que se reúnam, esperando por ventos e turbilhões fora do reino que venham a determinar o seu destino. Se há qualquer salvação para Roma, ela deve vir de dentro.

Ao observar nossas nações e a Igreja, nós, católicos, nos perguntamos onde foi parar a vitalidade da nossa fé. Onde está o ardor missionário que converterá a América e o mundo? Onde está o ímpeto que deveria levar os católicos de hoje a perseverar na prática da religião e na transmissão de uma fé vibrante para a geração vindoura? Onde estão o destemor e a firmeza das eras da fé, que eram como anéis de luz a cingir o mundo?

Talvez devêssemos tentar aproveitar uma força vital de nossa própria época. Que movimento vigoroso poderíamos acolher em nosso meio a fim de conferir nova relevância à nossa Igreja? Talvez devêssemos acolher o Antifa em nossas igrejas e apoiar os seus membros na luta por justiça social. Ou poderíamos explorar o vigor do movimento pró-imigração, ou o movimento ambientalista, ou talvez montar o irascível touro do marxismo. “Um dia”, escreveu Teilhard de Chardin num ímpeto de otimismo prepotente, “depois de dominar os ventos, as ondas, as marés e a gravidade, deveremos dominar para Deus as energias do amor, e então, pela segunda vez na história do mundo, o homem terá descoberto o fogo”. 

Palavras radiantes. Mas toda essa procura fora da Igreja de Cristo por sinais dos tempos, energias do amor, forças da história e ventos de mudança equivale simplesmente a aguardar a chegada dos bárbaros. Somos cidadãos decrépitos de um império moribundo ou membros vivos do Corpo Místico de Cristo?

Esse Corpo Místico possui o centro pulsante das forças do verdadeiro amor: o Sagrado Coração de Jesus, no qual encontramos a resposta para todos os problemas de nossa época, sejam eles políticos, filosóficos ou espirituais. Não precisamos sentar diante dos portões da cidade, tentando em vão chamar a atenção das causas populares do momento. Temos entre nós a fonte de toda a vitalidade, que é Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a solução para as nossas sociedades cada vez mais confusas e divididas. Somente o amor de Cristo e a sua bondade podem mudar os corações cheios de ódio e as mentes dominadas por ideias errôneas e falsos juízos. Sua autoridade amorosa pode ensinar os nossos policiais, pais e líderes a combinar mansidão e força. Na encíclica Haurietis Aquas, de 1956, Pio XII disse que o Sagrado Coração de Jesus “é a escola mais eficaz do amor de Deus”, que é “o fundamento sobre o qual o reino de Deus é construído nos corações dos indivíduos, das famílias e das nações”.

No Sacratíssimo Coração de Jesus nós encontramos a cura para as nossas personalidades feridas e fraturadas. Seu divino Coração de carne nos ensina a bondade da humanidade física e nos ajuda a rejeitar teorias gnósticas que, por desprezar completamente o corpo humano, afirmam que a vontade humana é livre para o modificar e redefinir como quiser, ou para o eliminar através da eutanásia ou do aborto. Sua humanidade perfeita nos faz ter a esperança de que, por meio de seu amor e de sua graça, as nossas feridas e erros, sejam eles resultado das nossas ações ou da injustiça e crueldade de outras pessoas, podem ser curados.   

Os nossos problemas políticos também podem ser resolvidos se recorrermos ao Sagrado Coração. Leão XIII escreveu com tristeza na encíclica Annum Sacrum, de 1899, que trata da separação entre Igreja e Estado: “Essa política tende praticamente à eliminação da fé cristã em nosso meio e, se fosse possível, à eliminação de Deus mesmo da terra”. No entanto, é por meio de Cristo, como nos diz São Paulo, que aprouve ao Pai “reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Col 1, 20). Como poderemos ter paz na terra sem o Príncipe da Paz?

Em sentido oposto, como os papas ensinaram diversas vezes e como Pio XI reiterou na encíclica Quas Primas, em 1925: “Quando os homens reconhecerem, na vida pública como na privada, que Cristo é Rei, a sociedade finalmente receberá as maiores bênçãos da verdadeira liberdade, da disciplina bem ordenada, da paz e da harmonia”. Esse reconhecimento não requer uma mudança de regime. Tanto as estruturas democráticas quanto as monárquicas possuem a capacidade e o dever de reconhecer que toda lei tem por fundamento a lei de Cristo; toda justiça, a justiça de Cristo; e toda ordem, a ordem de Cristo.

Eles devem, além disso, reconhecer de modo formal que Cristo é o Rei dos reis e o governante de todas as nações, com o que só estarão reconhecendo a realidade daquilo que é. Pois o Filho de Deus nos governa independentemente de nós escolhermos ou não, em nossa fantasia de grandeza, reconhecer esse fato; mas a nossa busca por ordem e justiça estará condenada desde o início se nos recusarmos a fundamentá-la no amor que move o sol e todas as estrelas.  

Amigos católicos, parem de esperar pelos bárbaros. Temos no seio da Igreja uma fonte de vitalidade, uma força de amor suficiente para transformar todas as coisas em Cristo: o Sacratíssimo Coração de Jesus, com a sua divindade e humanidade, os seus santos poderes legislativos e judiciários, a sua realeza sagrada e infinita.

Essa é a maior das causas e a única, pois contém o que é bom e digno em todas as causas menores, excluindo todo o resto. Essa é a energia de amor que temos de aproveitar caso queiramos mudar o mundo.

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