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A Santa Missa e as quatro lições mais importantes de nossa infância
Espiritualidade

A Santa Missa e as quatro lições
mais importantes de nossa infância

A Santa Missa e as quatro lições
mais importantes de nossa infância

Poder dizer a Deus “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado”, na Santa Missa, não é só um privilégio único para uma simples criatura. É um ato constantemente transformador.

Michael P. FoleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Novembro de 2018
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Uma das questões do velho Catecismo de São Pio X era: “Para que fins se oferece o Santo Sacrifício da Missa?” A resposta era dada em quatro partes:

  1. “para honrar a Deus como convém, e sob este ponto de vista o sacrifício é latrêutico;
  2. para lhe dar graças pelos seus benefícios, e sob este ponto de vista o sacrifício é eucarístico;
  3. para aplacá-lo, dar-lhe a devida satisfação pelos nossos pecados, para sufragar as almas do Purgatório, e sob este ponto de vista o sacrifício é propiciatório;
  4. para alcançar todas as graças que nos são necessárias, e sob este ponto de vista o sacrifício é impetratório” (n. 657).

Adoração, ação de graças, petição e satisfação: a menção desses quatro fins está presente em muitos missais antigos e é ainda uma lição corriqueira de qualquer catequese tradicional sobre a Missa. O que geralmente se deixa de lado, no entanto, é a relação que guardam esses fins com nossas próprias vidas concretas como seres humanos. Como exatamente essas quatro coisas se relacionam com o nosso bem-estar psicológico, emocional e espiritual?

Uma forma de tratar esta questão é ter em mente as quatro coisas mais importantes que nós aprendemos a dizer quando somos crianças: “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me”. Essas quatro simples expressões não só são capazes de colocar tanto jovens quanto adultos no caminho da felicidade humana; elas também proporcionam uma útil analogia para o que acontece em cada Sacrifício da Missa.

Lições para a vida

A tragédia da linguagem após o Éden é que um veículo originalmente projetado para denominar corretamente a realidade (como vemos em Adão com os animais) tornou-se mais frequentemente um meio de a manipular ou obscurecer. Dizer “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” pode ser um ato de tremenda dissimulação e até exploração, mas me parece evidente que, quando um bom pai passa tais palavras a seu filho, não é para equipá-lo com ferramentas de manipulação.

Por mais que falemos da importância de ensinar nosso filhos a “dizer” por favor e obrigado, nossa meta final é fazê-los dizer essas coisas e realmente senti-las. Quando uma mãe faz o seu filho se desculpar com a própria irmã por puxar-lhe o cabelo, ela normalmente não fica satisfeita com um “desculpe-me” frio e um olhar desafiador e obstinado. Obviamente, seu objetivo é fazer o menino entender que o que ele fez é errado, a fim de que ele possa sentir um arrependimento verdadeiro do que fez e procurar corrigir a injustiça, não simplesmente pronunciar uma sequência específica de sons verbais. A mesma coisa vale para as três outras coisas que instruímos nossos filhos a “dizer”.

Implícito, portanto, no objetivo de educar crianças que digam “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” está algo maior do que um hábito trivial de boas maneiras, ou uma conformidade e submissão sem sentido a convenções sociais. De alguma forma, a ideia é transformar uma jovem mente no tipo de pessoa que seja amoroso, agradecido, deferente e, quando necessário, contritamente determinado a fazer reparos. Talvez porque essas qualidades não sejam apenas escolhas dignas em si mesmas, mas também conduzam à aquisição de outras virtudes.

Alguém que sabe a importância do arrependimento, por exemplo, também sabe a importância de perdoar (o que não é pouca coisa); e alguém verdadeiramente agradecido mais facilmente se inclina a ser generoso para com os outros. Certamente, uma das razões pelas quais tanto crentes quanto não crentes acham o servo impiedoso da parábola (cf. Mt 18, 23-34) tão repreensível é o fato de ele violar tão grosseiramente ambos esses princípios do senso comum.

Por trás dessas expressões simples, portanto, reside uma antropologia moral saudável, um esboço amplo do que seja viver bem. Idealmente falando,

  • uma pessoa capaz de dizer “eu te amo” com sinceridade é capaz de compromisso, devoção e autossacrifício;
  • uma pessoa capaz de dizer “obrigado” com sinceridade reconhece, como veremos, o dom imerecido da própria existência e o seu débito para com um mundo mais amplo que ela não criou;
  • uma pessoa capaz de dizer “por favor” com sinceridade confessa sua dependência de uma realidade fora de si mesma e rejeita o princípio de que “a verdade é relativa”, transcendendo o egoísmo debilitante que faria dela, na expressão de Walter Scott, um vil “desgraçado, concentrado todo em si mesmo”; e, finalmente,
  • uma pessoa capaz de dizer com sinceridade “desculpe-me” (ou “perdão”, para ofensas maiores) está fazendo o difícil mas crucial ingresso no mundo do autoconhecimento, sem desculpas nem disfarces, apresentando a coragem de reconhecer as próprias faltas e a resolução de corrigi-las.

Ao contrário, uma pessoa que não tenha sido educada nesses quatro ditos e nas disposições por trás deles, foi gravemente injustiçada, porque não foi estimulada ou a superar o próprio egoísmo ou, o que acaba sendo a mesma coisa, a entender a realidade da condição humana.

Os quatro fins da Missa

Curiosamente, esse caminho quadriforme guarda uma semelhança formidável com a teologia tradicional da Santa Missa. Sendo mais específico, dizer “eu te amo” em casa é análogo ao ato de adoração que acontece na Missa, “obrigado” à ação de graças, “por favor” à petição, e “desculpe-me” à satisfação.

Quando Nosso Senhor se ofereceu na cruz como um sacrifício vivo, aquele sacrifício incluía um ato infinito de adoração a seu Pai, de ação de graças a Ele, de petição ou de impetração por nossa causa, e de satisfação (ou propiciação, expiação) pelos pecados da humanidade. Esses quatro componentes, por sua vez, são representados por Cristo através da ação do sacerdote em cada Missa. E nós, os fiéis, assistimos à Missa para tomar parte e ser enriquecidos por esses fins.

Nossos próprios atos de devoção não são, é claro, idênticos aos de Nosso Senhor. A expiação de Cristo, por exemplo, não incluía “desculpe-me” da mesma forma que a nossa, porquanto Ele não tinha nada por que ser perdoado. Mas nossa frágil tentativa de compensar os próprios fracassos em um ato de expiação torna-se eficaz pela liberalidade infinita de nosso Deus crucificado e ressuscitado, sendo profunda, portanto, a diferença entre os dois atos.

As quatro perturbações do espírito

Uma razão pela qual essa analogia é significativa, portanto, é o fato de ela indicar que o sacrifício da cruz — e por extensão o do altar — contribui poderosamente para a perfeição sobrenatural de nosso potencial natural para o bem, assim como para a restauração de nossa natureza após a Queda.

Para demonstrá-lo, só precisamos considerar o substrato emocional básico do ser humano, à luz das quatro perturbationes da alma: alegria, desejo, medo e tristeza. Essa útil classificação foi empregada por Cícero (cf. De finibus bonorum et malorum, 3, 10; Tusculanae Disputationes, 4, 6), o qual tomou-a emprestada dos estoicos, e depois seria usada por pensadores cristãos como Santo Agostinho (cf. Confissões, X, 14, 22).

As quatro emoções a que Cícero faz referência guardam uma interessante relação com as quatro expressões que discutimos e com as quatro finalidades da Missa — não que elas se encaixem perfeitamente uma na outra da mesma forma, mas bons atos de adoração, ação de graças, petição e restituição contrita levam à perfeição nossos instintos mais básicos de alegria, desejo, medo e tristeza.

Desejo

No plano natural, por exemplo, o puro desejo pessoal é humanizado e sublimado pelo ato simples e sincero de dizer “por favor”. Ao invés de arrebatar o que queremos, nós reconhecemos um limite de propriedade e humildemente pedimos que esse limite seja redesenhado, com o que trocamos a brutalidade da coerção pela gentileza da cortesia. A súplica consiste, portanto, em uma sublimação do desejo, não no sentido corrompido de Freud de suprimir a libido, mas no sentido genuíno de tornar o desejo sublime ou elevado.

É esse sentido de sublimidade que encontra sua mais alta expressão na Missa, onde o desejo pessoal é aperfeiçoado sobrenaturalmente no pedido altruísta que aí fazemos não apenas por nós mesmos, mas por todos os homens. Quão longe isso está do materialismo da “oração de Jabes” na moda (cf. 1Cr 4, 10), em que cristãos são encorajados a rezar pelas ninharias desta vida como se não trouxessem dentro de si nenhum desejo de eternidade. A Missa, ao contrário, existe seja para expandir e reordenar nossos desejos a fim de que bens maiores tenham prioridade sobre bens menores, por um lado, seja para transcender também a eles, por outro.

Isso fica particularmente claro nas orações da coleta do Missal tridentino para os Domingos depois de Pentecostes, o período do ano litúrgico correspondente ao tempo da Igreja. As coletas refletem um foco recorrente em reorientar e aumentar o desejo dos fiéis. Além de pedir que sejam atendidos nossos pedidos, por exemplo, as orações pedem por uma mudança no que queremos:

  • Fac nos amare quod praecipis, “fazei-nos amar os preceitos da vossa lei” (13.º Domingo);
  • Insere pectoribus nostris amorem tui nominis, “infundi no nosso coração o amor do vosso nome” (6.º Domingo);
  • Fac eos, quae tibi sunt placita, postulare, “fazei que vos peçam [aqueles que vos invocam] o que vos apraz” (9.º Domingo), etc.

E, uma vez que nossos desejos tenham se convertido ou se voltado para esses bens maiores, a Igreja vai além e declara que Deus superará até mesmo esses bens e nos dará, como é dito na coleta do 11.º Domingo, quod oratio non praesumit, “o que não ousamos esperar da pobreza das nossas orações”.

Toda essa teologia do desejo, da impetração e da transcendência talvez em nenhum outro lugar esteja mais bela e sucintamente expressa do que na coleta para o 5.º Domingo depois de Pentecostes:

Ó Deus, que preparastes para os que vos amam bens invisíveis, infundi nos nossos corações o fogo do vosso amor, e fazei que, amando-vos em todas e sobre todas as coisas, alcancemos o efeito das vossas promessas, que superam toda a nossa esperança.

Seria necessário um ensaio adicional para desvelar os diferentes pressupostos dessa coleta no que diz respeito ao télos da mente humana e a sua relação com a ordem criada e o seu Criador. Basta-nos dizer que o “por favor” do desejo humano está sendo transposto aqui para um nível completamente novo.

Medo e tristeza

Medo e tristeza, por outro lado, são ambos responsáveis pelo ato de pedir desculpas e fazer reparações, mas só se esses atos forem genuínos. Um pedido imperfeito de desculpas tem como motivo único o medo: “Estou pedindo desculpas a você não porque eu esteja verdadeiramente arrependido do que fiz, mas porque tenho medo do que você fará a mim caso eu não lhe peça desculpas”. O pedido perfeito de desculpas, ao contrário, traz consigo o sentimento de tristeza: “Eu vejo que te machuquei de alguma forma e fiquei realmente entristecido com isso”.

Um pedido de desculpas perfeito, no entanto, também envolve o medo, não o medo da represália, como no caso anterior, mas o medo de ser afastado da pessoa amada. Santo Tomás distingue dois tipos de temores:

  • o servil, como o de um escravo que tem medo de ser punido por seu senhor; e
  • o nobre ou filial (cf. Suma Teológica, II-II, q. 19; também I-II, q. 67, a. 4, ad 2; II-II, q. 7, a. 1), como o de um marido que teme fazer algo a sua esposa pelo medo de ela perder o respeito que tem para com ele, não pelo medo de que ela venha a agredi-lo pelo que ele fez.

Ainda que o temor servil tenha sua importância nesta vida (sendo inclusive suficiente para fazer um ato de contrição, mesmo imperfeito), ele é obviamente inferior ao temor filial, motivado mais por amor do que por mera autopreservação.

Assim se dá com a propiciação no culto divino, que pressupõe uma tristeza pelas injustiças que cometemos e um medo de ofender o Deus a quem amamos e que tanto fez por nossa causa.

Sim, o temor envolvido pode muitas vezes ser apenas o de ir para o inferno, aquele pressentimento de que, se eu dormir no domingo ao invés de ir à Missa estarei cometendo um pecado mortal; e esse medo, por mais ignóbil que pareça, pode me levar à Missa e até abrir-me às graças que podem ser obtidas ali. Mas, como Santo Agostinho observou ironicamente uma vez, “as pessoas que têm medo de pecar por causa do inferno têm medo não do pecado, mas do fogo”. Assim como o homem emocionalmente maduro é motivado pelo medo nobre mais do que pelo servil, também o homem espiritualmente maduro teme mais o poder destruidor intrínseco ao pecado e o efeito que este tem na amizade com o seu Criador do que o julgamento extrínseco que o espera ao final desta vida.

Alegria

Finalmente, o sentimento de alegria acompanha os atos sinceros de dizer “eu te amo” e “obrigado”. De fato, o amor nem sempre vem acompanhado de uma alegria eufórica; muitas vezes, os compromissos do amor trazem consigo tristeza e sofrimento. Entretanto, mesmo que pareça estranho, até a dor do amor é melhor do que a falta dele (assumindo que estejamos falando de um amor bem ordenado, não do de concupiscência) e é só através do amor que a verdadeira alegria pode ser experimentada.

A mesma coisa vale para a gratidão, ainda que não nos seja mais tão fácil reconhecê-lo como antes. Para pensadores como Immanuel Kant, ter de dizer “obrigado” é uma ocasião mais de tristeza que de alegria, porque, em sua avaliação, gratidão envolve dívida, e esta é uma ameaça à autonomia pessoal, o fundamento da filosofia kantiana e da democracia liberal moderna.

Tal visão legalista ignora, no entanto, o efeito libertador que os laços humanos têm sobre o indivíduo. Para os antigos, a resposta apropriada ao difícil trabalho de interdependência humana era a pietas, aquela nobre devoção à própria família, à própria terra e, em última medida, ao próprio Deus. Esse era um “débito” que as pessoas eram felizes em ter, pois residia em uma abundância de bens que elas tinham consciência de ter recebido imerecidamente. O ato de lembrar esses benefícios, por sua vez, era uma fonte de feliz gratidão. Nas palavras de Sêneca, “o homem mais ingrato de todos é o que esqueceu um benefício… não é possível que um homem se torne agradecido se veio a perder por completo a memória” (De beneficiis, 3, 1).

A gratidão, portanto, não é apenas um importante componente do caráter moral de alguém; trata-se de um sintoma de conformação à realidade, isto é, a habilidade de lembrar devidamente os reais benefícios que alguém recebeu de benfeitores reais, e de reagir a essas verdades da forma apropriada.

E, seria desnecessário dizer, tudo isso aponta de maneira especial para a ação de graças que prestamos a Deus na Missa, esse ato supremo de anamnesis instituído pelo próprio Senhor, de lembrar e então representar o maior bem já recebido pela humanidade na história. Não sem razão o Aquinate vê a gratidão como uma virtude enraizada no amor, um amor que propositalmente não deve ter limites (cf. Suma Teológica, II-II, q. 106, a. 6, ad 2). Quão belo e apropriado, enfim, as últimas palavras da Missa, tanto no antigo quanto no novo rito, serem simplesmente: “Graças a Deus”!

Conclusão

Nossa comparação entre as quatro finalidades da Missa e as quatro grandes coisas que aprendemos na infância dá-nos ensejo a uma última ideia sobre a importância do sacrifício eucarístico. Pensar na “assistência” à Missa como um fardo legalista imposto a nós pela Igreja é tão empobrecedor quanto pensar em boas maneiras como meros caprichos e apêndices do pátrio poder.

Ainda que de modo algum sejam o suficiente, as boas maneiras são um instrumental orientando-nos para a ordem criada e, quando são incorporados da maneira correta, eles nos ajudam a atingir nosso pleno potencial como seres humanos. De modo similar, a adoração, a ação de graças, os pedidos e a satisfação que nós realizamos na Missa orientam-nos para o Criador de nossa natureza, fazendo-nos desenvolver não apenas nossas potências naturais, mas nossa capacidade de participar na natureza do próprio Deus.

Ser capaz de dizer “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado” a nosso Pai celeste, por meio de seu Filho e sob o auxílio de seu Espírito, não é só um privilégio único para uma simples criatura; é um ato constantemente transformador. E por esse dom só o que nos resta é dizer: Deo gratias.

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Crescendo na fé com as encíclicas do Papa Pio XII
Doutrina

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

O Papa Pio XII escreveu de tudo; suas encíclicas podem ser lidas com grandes proveito espiritual; e nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido e meditado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2019
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Há 60 anos, mais exatamente no dia 9 de outubro de 1958, morria Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, que serviu a Igreja como Papa Pio XII, de 1939 a 1958. Embora haja muita agitação envolvendo Papas mais recentes (principalmente após o Vaticano II), as pessoas raramente se dão ao trabalho de aprender a respeito dos Papas anteriores ao Concílio.

A imagem de Pio XII já vem se desgastando há um bom tempo com alegações absurdas de cumplicidade com os nazistas — acusações que, mesmo havendo sido abundantemente refutadas, são sempre trazidas à tona de novo para encher novos bolsos jornalísticos. A verdadeira grandeza do homem e o enorme legado que ele deixou à Igreja, no entanto, raramente são objeto de consideração.

É surpreendente a facilidade com que os católicos somos capazes de esquecer os grandes documentos de um Pontífice falecido, como se o seguinte ofuscasse ou até mesmo fizesse calar a obra de seu predecessor. Nossa visão do desenvolvimento da doutrina cristã deve ser não hegeliana (na qual um estágio posterior confronta e suplanta um anterior, só para ser ele mesmo subsumido em uma nova e inesperada síntese), mas newmaniana [1] (na qual tudo o que é importante e veio antes é cultivado e carregado ao longo do tempo, a fim de formar a base do pensamento e da ação subsequentes).

O Papa Pio XII é um exemplo disso. Ele era intelectualmente ousado, estava pronto para lidar com qualquer assunto, dialogava com o pensamento moderno e sempre estava à procura de novas formas para explicar as antigas verdades da fé. Mas ele também era fiel à herança de Leão XIII, Pio X, Bento XV e Pio XI, Papas que sempre estavam em suas referências e dos quais ele se servia como um compositor que escreve um tema com variações.

Summi Pontificatus, de 1939, foi a encíclica inaugural de Pio XII. Com a paz precária que vivia a Europa sendo aniquilada pela blitzkrieg nazista, o Papa apresenta a visão católica dos princípios que mantêm os homens e as nações em unidade e implora ao mundo que retorne à sã doutrina da Igreja sobre as realidades políticas. Ainda que Pio XII voltasse a tratar de questões sociais em muitos documentos ao longo dos quase 20 anos subsequentes, ele não mais escreveu uma encíclica social e, até hoje, a própria Summi Pontificatus é raramente classificada assim, por não conformar-se ao padrão da encíclica Rerum Novarum.

Seu esquecimento é muito de se lamentar, no entanto, pois em muitos de seus parágrafos a Summi Pontificatus articula princípios sociais básicos em linguagem particularmente vigorosa. O Papa enfatiza que a tendência moderna ao estatismo (a “onicompetência” do Estado secular) é um erro pernicioso a se combater, e que o conceito cristão de um Estado fundado nos preceitos da lei natural exige que se dê suporte ao desenvolvimento da excelência moral e religiosa dos seus cidadãos.

Duas encíclicas inovadoras emergiram em 1943: Mystici Corporis Christi e Divino Afflante Spiritu.

Sua Santidade, o Papa Pio XII.

Dos documentos papais dedicados à eclesiologia (o estudo da Igreja enquanto tal), a Mystici Corporis Christi é seguramente o mais importante e deveria ser de leitura obrigatória para todos os católicos. Por que a Escritura chama a Igreja de “corpo” e, em particular, de corpo de Cristo? Qual a diferença entre um corpo físico, um corpo moral e um corpo místico? Como a Igreja foi gerada ao longo do tempo, e como Cristo quis “precisar” de nós, seus membros? Em que consiste nossa união com Cristo, e a união dos outros com Ele? Por que nós devemos amar a Igreja, e qual a melhor forma de fazê-lo? É com essas questões que lida essa meditação cheia de beleza e rica de doutrina.

Divino Afflante Spiritu é normalmente exaltada como uma encíclica que provocou uma “revolução copernicana” na exegese católica, a qual teria abandonado o “literalismo ingênuo” de Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus. Mas esse é apenas (mais) um exemplo daquela interpretação tendenciosa dos documentos da Igreja que se tornou como que a marca registrada dos apparatchiks universitários. Na realidade, uma leitura imparcial mostra que Pio XII queria harmonizar as legítimas descobertas da ciência exegética moderna com as verdades inegociáveis da fé, tais como a inspiração divina e a inerrância de qualquer declaração autoral na Sagrada Escritura. Nesse sentido, o que ele fez foi menos modificar do que aumentar e refinar o pensamento de Leão XIII, lançando as bases para a Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

Célebres, e com razão, são as encíclicas Mediator Dei, de 1947, e Humani Generis, de 1950. Em ambas Pio XII se opôs firmemente às tendências na Igreja que eram, e ainda são, nocivas à saúde do culto e da teologia católicas (já que as duas são inseparáveis).

A Mediator Dei contém um ensinamento positivo substancial sobre a natureza, o propósito e a simbologia eficaz da sagrada liturgia. Quando eu li pela primeira vez essa encíclica, anos atrás, fiquei assombrado com minha profunda ignorância do que acontecia na igreja todos os domingos. Desde então, cresceu em mim a certeza de que a pior aflição que assalta a Igreja pós-conciliar é o esquecimento do que seja o santo Sacrifício da Missa e, em particular, como ele envolve a mim, aqui e agora. Além disso, essa encíclica nos previne contra as próprias tendências litúrgicas que se tornariam dominantes em nossa época, como o antiquarianismo.

O dogma do 4.º Concílio Ecumênico, o de Calcedônia, que proclamou as naturezas divina e humana em Cristo como sendo distintas sem separação e unidas sem confusão, é o objeto da majestosa encíclica Sempiternus Rex Christus, de 1951, escrita por ocasião do 1.500º aniversário daquele Concílio; as encíclicas Evangelii Praecones, de 1951, e Fidei Donum, de 1957, falam da promoção das missões católicas ao redor do mundo, as quais estavam florescendo durante seu pontificado; a encíclica Sacra Virginitas, de 1954, exalta a virgindade consagrada; a encíclica Musicae Sacrae, de 1955, defende a música sacra tradicional e critica a música religiosa secularizada (o que faz desse documento ainda mais relevante hoje do que era 63 anos atrás); a encíclica Haurietis Aquas, de 1956, trata da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com grande intensidade e pureza de fé; a encíclica Miranda Prorsus, de 1957, advertia os católicos de então, hipnotizados que estavam pelo cinema, pela rádio e pela televisão, a tomarem o cuidado de não entregar suas almas à indústria do entretenimento.

Cada uma das encíclicas acima pode ser lida com grande proveito espiritual, estejamos nós sozinhos na tranquilidade de nosso quarto ou reunidos em um grupo de oração e de estudos. E nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido.

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Nove encíclicas que você precisa ler do Papa Pio XI
Doutrina

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Pio XI. Para beber hoje de sua sabedoria, nada é tão importante quanto revisitar o seu magistério como Papa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Fevereiro de 2019
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O último dia 10 de fevereiro marca o 80.º aniversário da morte do Papa Pio XI, que reinou no trono de Pedro de 1922 a 1939. Em um mundo de produção textual instantânea e incessante, talvez não deveríamos surpreender-nos com o fato de alguém que começou seu pontificado há quase um século ser esquecido em grande parte.

Mas Pio XI merece ser mais bem conhecido e mais afetuosamente amado por suas encíclicas esplêndidas, cheias de amor, clareza e coragem. De fato, esses documentos são uma fonte preciosa, não só para o tenso período entre guerras durante o qual esse Papa foi chamado a servir à Igreja de Cristo, mas para todas as épocas.

Achille Ratti veio de uma família humilde, teve a carreira tranquila de um acadêmico com doutorado em Teologia e serviu à Igreja como prefeito da Biblioteca Vaticana. Seus êxitos subsequentes como núncio na Polônia e como arcebispo de Milão fizeram dele uma boa opção para o trono de São Pedro após a morte de Bento XV.

Não demorou muito para que a Igreja e o mundo notassem a fibra de que era feito o novo Pontífice. Sua encíclica inaugural, Ubi Arcano Dei Consilio, de 1922, descrevia a situação do mundo após a Primeira Guerra Mundial com uma argúcia espiritual de que nenhum historiador secular era capaz, e propunha, como única solução cogente que se adotasse de maneira séria a doutrina social católica.

Essa insistência em implementar o magistério social da Igreja — um esforço em articular uma alternativa genuinamente católica ao socialismo crescente, ao fascismo efervescente e ao capitalismo selvagem — ocuparia Pio XI em muitas de suas mais de 30 encíclicas. O velho adágio “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas” parece especialmente pertinente às encíclicas de Pio XI. Hoje, os fiéis enfrentam os mesmos desafios sobre os quais ele escreveu, ainda que a “clave” ou o “andamento” da música tenha mudado.

A próxima encíclica na ordem, e de enorme significado para o magistério da Igreja, foi a amplamente debatida Quadragesimo Anno, promulgada em 1931 por ocasião dos 40 anos da Rerum Novarum de Leão XIII. De todas as encíclicas sociais desde Leão XIII até João Paulo II, nenhuma é tão forte, incisiva e completa quanto esta, com sua análise dos fundos internacionais e das correntes de exploração que dão forma aos mercados econômicos. Já é passada a hora de resgatarmos o patrimônio de nossa fé, retomando as mais ricas fontes da sabedoria social da Igreja, entre as quais merece ser contada indubitavelmente essa encíclica.

O Papa Pio XI.

Característica fundamental do ensinamento de Pio XI foi, também, o reinado de Jesus Cristo sobre todos os homens, sociedades, nações e instituições. Essa visão do primado e do domínio absoluto de Cristo motivava seus pensamentos, desejos, intervenções e conselhos. E é essa visão que permanece altamente relevante para nós. A Igreja Católica só florirá neste período de “pós-modernidade” à medida que conhecer e viver os ensinamentos que o Papa Pio XI tão corajosamente proclamou em sua encíclica Quas Primas, de 1925, uma das mais importantes cartas papais do século XX. Por meio desse documento, Pio XI estabeleceu uma nova festa, em honra a Cristo Rei — uma festa que se tornou familiar aos católicos em todo o mundo, ainda que sua intenção original tenha sido de alguma forma obnubilada pelas mudanças litúrgicas subsequentes.

A clássica encíclica Casti Connubii, de 1930, com sua visão nobre e realista do Matrimônio, é a melhor abordagem jamais promulgada por um Papa ao entendimento católico sobre esse sacramento. Nós corremos o sério risco de interpretar mal o ensinamento seguinte de João Paulo II sobre o casamento se não procurarmos lê-lo à luz da Casti Connubii e em continuidade com ela. Não há melhor encíclica para preparar os noivos católicos ao Matrimônio.

Foi também esse Papa que nos brindou com a Magna Charta da educação cristã da infância e da juventude: a encíclica Divini Illius Magistri, de 1929. Os pais que educam seus filhos em casa notarão com alegria que Pio XI defende essa situação como a norma e o padrão dados por Deus, ao passo que a educação em escolas é a exceção moderna, carregada de perigos para a formação moral e religiosa das crianças.

Isso, evidentemente, não impede o Papa de explicar os princípios que todos os educadores, seja dentro da família, seja numa profissão, devem observar na educação de discípulos cristãos. Essa encíclica tem uma importância particular para os dias de hoje, quando muitos dos males deplorados por Pio XI, como a educação sexual, se tornaram “rotina”. Muito do que ele tem a dizer, também, sobre pedagogia efetiva e a hierarquia dos sujeitos permanece válido e aplicável.

As duas encíclicas de 1937 sobre as aberrações soviética e nazista — Divini Redemptoris e Mit Brennender Sorge — transportam poderosamente o leitor para as eras sangrentas às quais elas foram dirigidas. Apesar de seus aspectos específicos para aquele tempo, há uma filosofia política católica articulada nessas encíclicas que permanece verdadeira para nossa época, bem como um crítica potente de erros que, mesmo tendo sido continuamente refutados pelos fatos, de alguma forma nunca pararam de surgir nas sociedades, seja nas afluentes e ociosas, seja nas pobres e desesperadas.

Na encíclica Ad Catholici Sacerdotii, de 1935, o Papa Pio XI abre o coração a todos os padres do mundo e a todos os que se tornarão sacerdotes. Esse documento é um dos tratados mais apaixonados, eloquentes e equilibrados jamais escritos a respeito da natureza, dos privilégios e das exigências do sacerdócio católico. Por essa razão, sua leitura deveria ser exigida de todos os seminaristas. Pio XI ao mesmo tempo canta elevados elogios a essa magnífica vocação e aponta para suas exigências irrenunciáveis. A impressão que fica, na mente de quem lê a encíclica, é que o estado de vida sacerdotal, assim como o chamado a vivê-la, é um dom sublime e gratuito do Pai das luzes — chamado que mais pessoas deveriam escutar e estado ao qual mais pessoas deveriam aspirar. Eu acredito, na verdade, que a simples leitura dessa encíclica faria aumentar o número de vocações ao sacerdócio.

Eu mencionaria por último a fascinante encíclica sobre o cinema, Vigilanti Cura, de 1936, escrita numa época em que essa forma de entretenimento estava atingindo seu ápice. Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Achille Ratti. Aqui ele lamenta a iniciação à luxúria promovida por muitos filmes e oferece orientações rigorosas para a censura exercida pelos bispos e associações de fiéis leigos, baseada em princípios precisos, sensíveis à arte e moralmente saudáveis. Por isso, se nós pudermos retornar, de uma forma ou de outra, à sanidade singela e cândida de Vigilanti Cura, nós teremos dado um grande passo rumo à santidade.

O ocaso da vida do Papa Pio XI coincidiu com as trevas espessas que fariam irromper a Segunda Guerra Mundial. Em seu leito de morte, Pio XI ofereceu sua vida pela paz no mundo. Suas encíclicas colocam-nos em contato com um Papa de catolicismo inflexível que, justamente por se preocupar genuinamente com seu povo, não permitia que ele errasse por caminhos falsos, mas, ao contrário, apontava repetidamente para o caminho da vida traçado pela experiência e pela tradição católicas. De nossa parte, faríamos muito bem se bebêssemos de sua sabedoria, não nos deixando desviar por “lobos em pele de cordeiro” e evitando os falsos caminhos que o nosso mundo apresenta como os “expedientes inevitáveis” de uma sociedade pós-moderna.

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Discernir a própria vocação ou “fazer o que der na telha”?
Espiritualidade

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Não se resolve o problema da vocação com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para mim, eu preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Fevereiro de 2019
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Há alguns anos nós publicamos aqui uma matéria a respeito do chamado “discernimento vocacional perpétuo”. O texto e a expressão não eram de autoria nossa; pegamo-los emprestados de Michael W. Hannon, que escreve no site norte-americano First Things. Por muito tempo republicamos esta tradução em nossas redes sociais, mas, reavaliando melhor as ideias apresentadas pelo autor, decidimos despublicá-la e, agora, até para a edificação dos que nos lêem, queremos apresentar o porquê dessa atitude.

Expliquemos, em primeiro lugar, o porquê de havermos escolhido esse texto para publicação: a sua crítica é importante para levantar da inércia os homens e mulheres de nossa época, que ficam indefinidamente pensando no que querem ou no que vão fazer de sua vida, sem no entanto tomar uma atitude ou assumir responsabilidades de gente adulta. É essa inércia e indecisão — conectadas a uma espécie de “discernimento vocacional perpétuo” — que fazem nossos jovens trocarem de curso universitário como quem troca de roupa e viverem com os próprios pais até os 30 e 40 anos, quando em outros tempos eles já teriam constituído uma família ou entrado em uma congregação religiosa.

A solução apresentada por Michael Hannon, no entanto, ao mesmo tempo que procura condenar esse extremo de indecisão e imobilidade, pode facilmente levar à precipitação e a uma visão distorcida de “vocação”. No período talvez mais forte do texto, ele chega a dizer que “não necessariamente Deus nos diz o que fazer a respeito das grandes decisões da vida, incluindo a escolha entre a vida religiosa e a vida secular (sic). Ele nos abençoa com algumas opções boas e virtuosas e, então, deixa a decisão para nós”.

Alto lá…! Se por “deixar a decisão para nós” se entende que Deus não viola o nosso livre-arbítrio, não nos obrigando a seguir este ou aquele caminho, sim, está certo. Mas se por isso se entende que Ele não nos indica e não nos inspira com sua graça este ou aquele caminho, então, está errado. A palavra “vocação”, afinal de contas, significa “chamado”. Se é um chamado, há alguém que chama. (Se é um chamado à vida religiosa ainda por cima, ou à vida matrimonial, caminhos de santidade, é Alguém, com “a” maiúsculo, que chama.) Se Deus nos chama, de nossa parte o que precisamos fazer é escutar. Daí a necessidade de discernirmos, sim, nossa vocação pessoal, para além da vocação geral que, é óbvio, todos os batizados têm à santidade.

Também nessa questão há uma confusão séria presente no texto de Michael Hannon. À pergunta: “Se um cristão não deve presumir que Deus irá querer revelar-lhe sobrenaturalmente a sua ‘vocação pessoal’, como então ele deve conhecer a vontade de Deus para a sua vida?”, o autor diz o seguinte:

Eu me arriscaria a dizer que, se ele tem frequentado a igreja semanalmente e recebeu pelo menos uma catequese razoável ao longo do caminho, ele provavelmente já conhece a vontade de Deus para a sua vida. Cristo a resume sucintamente nos Dez Mandamentos, e ainda mais sucintamente em Mt 22, 34-40: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” e “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Nisso, bem como nos mandamentos da Igreja, consiste toda a instrução de que precisamos para alcançarmos a nossa felicidade e chegarmos à salvação eterna.

Sim, é verdade que a vontade de Deus a respeito da humanidade foi revelada de modo definitivo em Nosso Senhor Jesus Cristo, de modo que — como diz uma célebre passagem de S. João da Cruz, presente inclusive no novo Catecismo da Igreja Católica —, “se [...] alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma” (§ 65). Mas isso não significa que não devamos pedir a Deus que nos mostre, na oração (e sem prescindir da humanidade santíssima de Nosso Senhor!), aquilo que Ele tem reservado de modo particular para a nossa vida.

Convém aqui não misturarmos um capítulo importante de Teologia Dogmática com outro capítulo, igualmente necessário, de Teologia Mística. A frase de São João da Cruz, acima, é substancialmente diferente da do monge ucraniano citado por Hannon em seu texto: este, perguntado por um repórter se Deus falava com ele na oração, respondeu: “Ele não fala comigo, porque ele já falou tudo por meio do Evangelho e por meio das obras dos Santos Padres, dos santos”. É óbvio que, se pelo verbo falar se entende o modo como os seres humanos costumam se comunicar, falando com a boca e ouvindo com os ouvidos, Deus não fala com as pessoas a não ser de modo extraordinário.

Mas uma mínima experiência de vida de oração, uma leitura breve de um bom tratado de teologia mística, são suficientes para nos mostrar que Deus fala, sim, conosco, comunicando-nos as suas graças, movendo-nos com o seu Espírito e dizendo, sim, o que devemos ou não fazer, não só em matéria de “vocação pessoal”, mas principalmente nesses casos. Para dispensar longas citações, limitemo-nos a Santo Tomás de Aquino comentando o versículo “Porque os que são movidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8, 14): “Esses são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” (Sup. Rom., c. VIII, l. 3).

— Ah, mas ele era “Santo” Tomás de Aquino… Deus falava interiormente com os santos mesmo… Por que eu deveria supor que Ele falaria comigo? Não seria presunção? — Absolutamente, não. Vejamos o que diz a esse respeito, por exemplo, o padre Antonio Royo Marín (Teología de la Perfección Cristiana, n. 638):

Consideremos com frequência que o Espírito Santo habita dentro de nós mesmos. Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida.

O problema do “discernimento vocacional perpétuo” não se resolve, portanto, com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se existe uma vocação de Deus para nós, precisamos descobri-la no silêncio da oração e através de “uma vida cristã seriamente vivida”. Como diz o Papa Bento XVI, em uma citação feita pelo próprio Michael Hannon ao fim de seu texto: “Ao ouvir a Deus e caminhar com Ele eu me torno realmente eu mesmo. O que importa não é a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida se torna autêntica.”

Existe ainda, é claro, toda uma reflexão teológica sobre a docilidade que devemos ter ao Espírito Santo, assim que tomamos conhecimento da vontade de Deus a nosso respeito. Dela, no entanto, esperamos falar oportunamente noutra ocasião. Por ora, simplesmente procuremos nos libertar dessas ideias errôneas a respeito de vocação e vida de oração. Não tratemos a Deus como um “desconhecido” que falou no passado e agora nos abandonou à nossa própria sorte. Não, a oração cristã é uma via de mão dupla, na qual nós falamos com Deus e Ele responde sim às nossas petições, conforme promessa do próprio Cristo: “Pedi e vos será dado. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem procura, acha. A quem bate, será aberto.” (Mt 7, 7-8)

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Aborto e contracepção, dois “frutos da mesma planta”
Pró-Vida

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

“A cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção.”

Papa São João Paulo II6 de Fevereiro de 2019
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Publicamos abaixo trecho da encíclica Evangelium Vitae, de São João Paulo II, na qual ele afirma, com muita razão, que o aborto e a contracepção são “frutos da mesma planta”.

A lição é importante porque, quando as pessoas pensam no problema do aborto, a solução imediata que muitas vezes lhes vem à mente é justamente ensinar aos jovens como “prevenir” a gravidez, colocando nas suas mãos todos os métodos contraceptivos à disposição no mercado.

Mas, se queremos educar as futuras gerações para o respeito ao outro e para a maturidade, será esse mesmo o caminho que devemos trilhar? Ou não precisaríamos, antes, de uma verdadeira mudança de mentalidade, que começasse dentro de nossas próprias famílias?


Para facilitar a difusão do aborto, foram investidas — e continuam a sê-lo — somas enormes, destinadas à criação de fármacos que tornem possível a morte do feto no ventre materno, sem necessidade de recorrer à ajuda do médico. A própria investigação científica, neste âmbito, parece quase exclusivamente preocupada em obter produtos cada vez mais simples e eficazes contra a vida e, ao mesmo tempo, capazes de subtrair o aborto a qualquer forma de controle e responsabilidade social.

Afirma-se frequentemente que a contracepção, tornada segura e acessível a todos, é o remédio mais eficaz contra o aborto. E depois acusa-se a Igreja Católica de, na realidade, favorecer o aborto, porque continua obstinadamente a ensinar a ilicitude moral da contracepção.

Bem vista, porém, a objeção é falaciosa. De fato, pode acontecer que muitos recorram aos contraceptivos com a intenção também de evitar depois a tentação do aborto. Mas os pseudovalores inerentes à “mentalidade contraceptiva” — muito diversa do exercício responsável da paternidade e maternidade, atuada no respeito pela verdade plena do ato conjugal — são tais que tornam ainda mais forte essa tentação, na eventualidade de ser concebida uma vida não desejada.

De fato, a cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. Certo é que a contracepção e o aborto são males especificamente diversos do ponto de vista moral: uma contradiz a verdade integral do ato sexual enquanto expressão própria do amor conjugal, o outro destrói a vida de um ser humano; a primeira opõe-se à virtude da castidade matrimonial, o segundo opõe-se à virtude da justiça e viola diretamente o preceito divino “não matarás”.

Mas, apesar de terem natureza e peso moral diversos, eles surgem, com muita frequência, intimamente relacionados como frutos da mesma planta. É verdade que não faltam casos onde, à contracepção e ao próprio aborto se vem juntar a pressão de diversas dificuldades existenciais que, no entanto, não podem nunca exonerar do esforço de observar plenamente a lei de Deus. Mas, em muitíssimos outros casos, tais práticas afundam as suas raízes numa mentalidade hedonista e desresponsabilizadora da sexualidade, e supõem um conceito egoísta da liberdade que vê na procriação um obstáculo ao desenvolvimento da própria personalidade. A vida que poderia nascer do encontro sexual torna-se assim o inimigo que se há de evitar absolutamente, e o aborto a única solução possível diante de uma contracepção falhada.

Infelizmente, emerge cada vez mais a estreita conexão que existe, a nível de mentalidade, entre as práticas da contracepção e do aborto, como o demonstra, de modo alarmante, a produção de fármacos, dispositivos intrauterinos e preservativos, os quais, distribuídos com a mesma facilidade dos contraceptivos, atuam na prática como abortivos nos primeiros dias de desenvolvimento da vida do novo ser humano.

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Ela perdoou o assassino do próprio filho e...
Espiritualidade

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

...como recompensa, viu a alma dele ser libertada do Purgatório. “Querida mãe, porque mostraste misericórdia para com meu assassino”, disse-lhe em aparição o filho, “Deus mostrou misericórdia para comigo.”

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2019
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A caridade cristã, aquela misericórdia que Jesus Cristo tanto recomenda no Evangelho, compreende não apenas a assistência corporal dada aos necessitados, mas todo o bem que fazemos ao nosso próximo trabalhando para sua salvação, suportando-lhe os defeitos e perdoando-lhe as ofensas. Todas essas obras de caridade podem ser oferecidas a Deus pelos fiéis defuntos e possuem grande valor satisfatório.

São Francisco de Sales conta que, na cidade de Pádua, onde ele cumpriu parte de seus estudos, havia um costume detestável: os jovens se divertiam passeando pelas ruas à noite, armados com arcabuzes e gritando a todos os que encontravam: “Quem está aí?As pessoas eram obrigadas a responder, sob pena de levarem um tiro. Com isso, muitos eram feridos e até mesmo assassinados.

Aconteceu uma noite de um estudante, não tendo respondido à pergunta, ser acertado na cabeça por uma bala e ficar mortalmente ferido. O autor deste crime fugiu aterrorizado e procurou refúgio na casa de uma boa viúva que ele conhecia e cujo filho era seu companheiro de turma. Ele confessou a ela aos prantos que havia acabado de matar um desconhecido e implorou que lhe desse um abrigo em sua casa. Tomada de compaixão e não suspeitando ter diante de si ninguém menos que o assassino de seu filho, a senhora escondeu o fugitivo em um lugar seguro, onde os oficiais de justiça não seriam capazes de encontrá-lo.

Nem meia-hora havia transcorrido quando um tumulto se ouviu à sua porta. Um cadáver foi carregado e colocado diante dos olhos da viúva. Infelizmente, era seu filho que havia sido morto, e o assassino dele encontrava-se escondido em sua casa. A pobre mãe irrompeu em gritos de dilacerar o coração e, chegando ao esconderijo do assassino, disse-lhe: “Homem miserável! Que te fez o meu filho para que tu o assassinasses assim, de maneira tão cruel?”

O pobre desgraçado, descobrindo que havia matado seu amigo, começou a chorar em alta voz, arrancar os cabelos e apertar as mãos em sinal de desespero. Prostrando-se no chão, ele implorou o perdão de sua protetora e suplicou-lhe que o entregasse ao magistrado, a fim de expiar o crime tão terrível que havia cometido.

A mãe inconsolável lembrou-se naquele momento que era uma cristã e o exemplo de Jesus Cristo, rezando por seus algozes, deu-lhe impulso para realizar um ato heroico. Ela disse que, desde que ele pedisse perdão a Deus e emendasse de vida, ela o perdoaria e retiraria qualquer acusação contra ele.

Esse perdão foi tão agradável a Deus que Ele quis dar à generosa mãe uma prova impressionante disso, permitindo que a alma de seu filho lhe aparecesse, resplendente de glória e dizendo que ele estava prestes a gozar da bem-aventurança eterna. “Deus mostrou misericórdia para comigo, querida mãe”, disse aquela alma bendita, “porque tu mostraste misericórdia para com meu assassino. Por causa do perdão que tu lhe concedeste, eu fui libertado do Purgatório, onde, não fosse a assistência que tu me prestaste, eu teria de passar por longos anos de intenso sofrimento.”

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