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A Santa Missa e as quatro lições mais importantes de nossa infância
Espiritualidade

A Santa Missa e as quatro lições
mais importantes de nossa infância

A Santa Missa e as quatro lições mais importantes de nossa infância

Poder dizer a Deus “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado”, na Santa Missa, não é só um privilégio único para uma simples criatura. É um ato constantemente transformador.

Michael P. FoleyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Novembro de 2018Tempo de leitura: 13 minutos
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Uma das questões do velho Catecismo de São Pio X era: “Para que fins se oferece o Santo Sacrifício da Missa?” A resposta era dada em quatro partes:

  1. “para honrar a Deus como convém, e sob este ponto de vista o sacrifício é latrêutico;
  2. para lhe dar graças pelos seus benefícios, e sob este ponto de vista o sacrifício é eucarístico;
  3. para aplacá-lo, dar-lhe a devida satisfação pelos nossos pecados, para sufragar as almas do Purgatório, e sob este ponto de vista o sacrifício é propiciatório;
  4. para alcançar todas as graças que nos são necessárias, e sob este ponto de vista o sacrifício é impetratório” (n. 657).

Adoração, ação de graças, petição e satisfação: a menção desses quatro fins está presente em muitos missais antigos e é ainda uma lição corriqueira de qualquer catequese tradicional sobre a Missa. O que geralmente se deixa de lado, no entanto, é a relação que guardam esses fins com nossas próprias vidas concretas como seres humanos. Como exatamente essas quatro coisas se relacionam com o nosso bem-estar psicológico, emocional e espiritual?

Uma forma de tratar esta questão é ter em mente as quatro coisas mais importantes que nós aprendemos a dizer quando somos crianças: “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me”. Essas quatro simples expressões não só são capazes de colocar tanto jovens quanto adultos no caminho da felicidade humana; elas também proporcionam uma útil analogia para o que acontece em cada Sacrifício da Missa.

Lições para a vida

A tragédia da linguagem após o Éden é que um veículo originalmente projetado para denominar corretamente a realidade (como vemos em Adão com os animais) tornou-se mais frequentemente um meio de a manipular ou obscurecer. Dizer “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” pode ser um ato de tremenda dissimulação e até exploração, mas me parece evidente que, quando um bom pai passa tais palavras a seu filho, não é para equipá-lo com ferramentas de manipulação.

Por mais que falemos da importância de ensinar nosso filhos a “dizer” por favor e obrigado, nossa meta final é fazê-los dizer essas coisas e realmente senti-las. Quando uma mãe faz o seu filho se desculpar com a própria irmã por puxar-lhe o cabelo, ela normalmente não fica satisfeita com um “desculpe-me” frio e um olhar desafiador e obstinado. Obviamente, seu objetivo é fazer o menino entender que o que ele fez é errado, a fim de que ele possa sentir um arrependimento verdadeiro do que fez e procurar corrigir a injustiça, não simplesmente pronunciar uma sequência específica de sons verbais. A mesma coisa vale para as três outras coisas que instruímos nossos filhos a “dizer”.

Implícito, portanto, no objetivo de educar crianças que digam “eu te amo”, “obrigado”, “por favor” e “desculpe-me” está algo maior do que um hábito trivial de boas maneiras, ou uma conformidade e submissão sem sentido a convenções sociais. De alguma forma, a ideia é transformar uma jovem mente no tipo de pessoa que seja amoroso, agradecido, deferente e, quando necessário, contritamente determinado a fazer reparos. Talvez porque essas qualidades não sejam apenas escolhas dignas em si mesmas, mas também conduzam à aquisição de outras virtudes.

Alguém que sabe a importância do arrependimento, por exemplo, também sabe a importância de perdoar (o que não é pouca coisa); e alguém verdadeiramente agradecido mais facilmente se inclina a ser generoso para com os outros. Certamente, uma das razões pelas quais tanto crentes quanto não crentes acham o servo impiedoso da parábola (cf. Mt 18, 23-34) tão repreensível é o fato de ele violar tão grosseiramente ambos esses princípios do senso comum.

Por trás dessas expressões simples, portanto, reside uma antropologia moral saudável, um esboço amplo do que seja viver bem. Idealmente falando,

  • uma pessoa capaz de dizer “eu te amo” com sinceridade é capaz de compromisso, devoção e autossacrifício;
  • uma pessoa capaz de dizer “obrigado” com sinceridade reconhece, como veremos, o dom imerecido da própria existência e o seu débito para com um mundo mais amplo que ela não criou;
  • uma pessoa capaz de dizer “por favor” com sinceridade confessa sua dependência de uma realidade fora de si mesma e rejeita o princípio de que “a verdade é relativa”, transcendendo o egoísmo debilitante que faria dela, na expressão de Walter Scott, um vil “desgraçado, concentrado todo em si mesmo”; e, finalmente,
  • uma pessoa capaz de dizer com sinceridade “desculpe-me” (ou “perdão”, para ofensas maiores) está fazendo o difícil mas crucial ingresso no mundo do autoconhecimento, sem desculpas nem disfarces, apresentando a coragem de reconhecer as próprias faltas e a resolução de corrigi-las.

Ao contrário, uma pessoa que não tenha sido educada nesses quatro ditos e nas disposições por trás deles, foi gravemente injustiçada, porque não foi estimulada ou a superar o próprio egoísmo ou, o que acaba sendo a mesma coisa, a entender a realidade da condição humana.

Os quatro fins da Missa

Curiosamente, esse caminho quadriforme guarda uma semelhança formidável com a teologia tradicional da Santa Missa. Sendo mais específico, dizer “eu te amo” em casa é análogo ao ato de adoração que acontece na Missa, “obrigado” à ação de graças, “por favor” à petição, e “desculpe-me” à satisfação.

Quando Nosso Senhor se ofereceu na cruz como um sacrifício vivo, aquele sacrifício incluía um ato infinito de adoração a seu Pai, de ação de graças a Ele, de petição ou de impetração por nossa causa, e de satisfação (ou propiciação, expiação) pelos pecados da humanidade. Esses quatro componentes, por sua vez, são representados por Cristo através da ação do sacerdote em cada Missa. E nós, os fiéis, assistimos à Missa para tomar parte e ser enriquecidos por esses fins.

Nossos próprios atos de devoção não são, é claro, idênticos aos de Nosso Senhor. A expiação de Cristo, por exemplo, não incluía “desculpe-me” da mesma forma que a nossa, porquanto Ele não tinha nada por que ser perdoado. Mas nossa frágil tentativa de compensar os próprios fracassos em um ato de expiação torna-se eficaz pela liberalidade infinita de nosso Deus crucificado e ressuscitado, sendo profunda, portanto, a diferença entre os dois atos.

As quatro perturbações do espírito

Uma razão pela qual essa analogia é significativa, portanto, é o fato de ela indicar que o sacrifício da cruz — e por extensão o do altar — contribui poderosamente para a perfeição sobrenatural de nosso potencial natural para o bem, assim como para a restauração de nossa natureza após a Queda.

Para demonstrá-lo, só precisamos considerar o substrato emocional básico do ser humano, à luz das quatro perturbationes da alma: alegria, desejo, medo e tristeza. Essa útil classificação foi empregada por Cícero (cf. De finibus bonorum et malorum, 3, 10; Tusculanae Disputationes, 4, 6), o qual tomou-a emprestada dos estoicos, e depois seria usada por pensadores cristãos como Santo Agostinho (cf. Confissões, X, 14, 22).

As quatro emoções a que Cícero faz referência guardam uma interessante relação com as quatro expressões que discutimos e com as quatro finalidades da Missa — não que elas se encaixem perfeitamente uma na outra da mesma forma, mas bons atos de adoração, ação de graças, petição e restituição contrita levam à perfeição nossos instintos mais básicos de alegria, desejo, medo e tristeza.

Desejo

No plano natural, por exemplo, o puro desejo pessoal é humanizado e sublimado pelo ato simples e sincero de dizer “por favor”. Ao invés de arrebatar o que queremos, nós reconhecemos um limite de propriedade e humildemente pedimos que esse limite seja redesenhado, com o que trocamos a brutalidade da coerção pela gentileza da cortesia. A súplica consiste, portanto, em uma sublimação do desejo, não no sentido corrompido de Freud de suprimir a libido, mas no sentido genuíno de tornar o desejo sublime ou elevado.

É esse sentido de sublimidade que encontra sua mais alta expressão na Missa, onde o desejo pessoal é aperfeiçoado sobrenaturalmente no pedido altruísta que aí fazemos não apenas por nós mesmos, mas por todos os homens. Quão longe isso está do materialismo da “oração de Jabes” na moda (cf. 1Cr 4, 10), em que cristãos são encorajados a rezar pelas ninharias desta vida como se não trouxessem dentro de si nenhum desejo de eternidade. A Missa, ao contrário, existe seja para expandir e reordenar nossos desejos a fim de que bens maiores tenham prioridade sobre bens menores, por um lado, seja para transcender também a eles, por outro.

Isso fica particularmente claro nas orações da coleta do Missal tridentino para os Domingos depois de Pentecostes, o período do ano litúrgico correspondente ao tempo da Igreja. As coletas refletem um foco recorrente em reorientar e aumentar o desejo dos fiéis. Além de pedir que sejam atendidos nossos pedidos, por exemplo, as orações pedem por uma mudança no que queremos:

  • Fac nos amare quod praecipis, “fazei-nos amar os preceitos da vossa lei” (13.º Domingo);
  • Insere pectoribus nostris amorem tui nominis, “infundi no nosso coração o amor do vosso nome” (6.º Domingo);
  • Fac eos, quae tibi sunt placita, postulare, “fazei que vos peçam [aqueles que vos invocam] o que vos apraz” (9.º Domingo), etc.

E, uma vez que nossos desejos tenham se convertido ou se voltado para esses bens maiores, a Igreja vai além e declara que Deus superará até mesmo esses bens e nos dará, como é dito na coleta do 11.º Domingo, quod oratio non praesumit, “o que não ousamos esperar da pobreza das nossas orações”.

Toda essa teologia do desejo, da impetração e da transcendência talvez em nenhum outro lugar esteja mais bela e sucintamente expressa do que na coleta para o 5.º Domingo depois de Pentecostes:

Ó Deus, que preparastes para os que vos amam bens invisíveis, infundi nos nossos corações o fogo do vosso amor, e fazei que, amando-vos em todas e sobre todas as coisas, alcancemos o efeito das vossas promessas, que superam toda a nossa esperança.

Seria necessário um ensaio adicional para desvelar os diferentes pressupostos dessa coleta no que diz respeito ao télos da mente humana e a sua relação com a ordem criada e o seu Criador. Basta-nos dizer que o “por favor” do desejo humano está sendo transposto aqui para um nível completamente novo.

Medo e tristeza

Medo e tristeza, por outro lado, são ambos responsáveis pelo ato de pedir desculpas e fazer reparações, mas só se esses atos forem genuínos. Um pedido imperfeito de desculpas tem como motivo único o medo: “Estou pedindo desculpas a você não porque eu esteja verdadeiramente arrependido do que fiz, mas porque tenho medo do que você fará a mim caso eu não lhe peça desculpas”. O pedido perfeito de desculpas, ao contrário, traz consigo o sentimento de tristeza: “Eu vejo que te machuquei de alguma forma e fiquei realmente entristecido com isso”.

Um pedido de desculpas perfeito, no entanto, também envolve o medo, não o medo da represália, como no caso anterior, mas o medo de ser afastado da pessoa amada. Santo Tomás distingue dois tipos de temores:

  • o servil, como o de um escravo que tem medo de ser punido por seu senhor; e
  • o nobre ou filial (cf. Suma Teológica, II-II, q. 19; também I-II, q. 67, a. 4, ad 2; II-II, q. 7, a. 1), como o de um marido que teme fazer algo a sua esposa pelo medo de ela perder o respeito que tem para com ele, não pelo medo de que ela venha a agredi-lo pelo que ele fez.

Ainda que o temor servil tenha sua importância nesta vida (sendo inclusive suficiente para fazer um ato de contrição, mesmo imperfeito), ele é obviamente inferior ao temor filial, motivado mais por amor do que por mera autopreservação.

Assim se dá com a propiciação no culto divino, que pressupõe uma tristeza pelas injustiças que cometemos e um medo de ofender o Deus a quem amamos e que tanto fez por nossa causa.

Sim, o temor envolvido pode muitas vezes ser apenas o de ir para o inferno, aquele pressentimento de que, se eu dormir no domingo ao invés de ir à Missa estarei cometendo um pecado mortal; e esse medo, por mais ignóbil que pareça, pode me levar à Missa e até abrir-me às graças que podem ser obtidas ali. Mas, como Santo Agostinho observou ironicamente uma vez, “as pessoas que têm medo de pecar por causa do inferno têm medo não do pecado, mas do fogo”. Assim como o homem emocionalmente maduro é motivado pelo medo nobre mais do que pelo servil, também o homem espiritualmente maduro teme mais o poder destruidor intrínseco ao pecado e o efeito que este tem na amizade com o seu Criador do que o julgamento extrínseco que o espera ao final desta vida.

Alegria

Finalmente, o sentimento de alegria acompanha os atos sinceros de dizer “eu te amo” e “obrigado”. De fato, o amor nem sempre vem acompanhado de uma alegria eufórica; muitas vezes, os compromissos do amor trazem consigo tristeza e sofrimento. Entretanto, mesmo que pareça estranho, até a dor do amor é melhor do que a falta dele (assumindo que estejamos falando de um amor bem ordenado, não do de concupiscência) e é só através do amor que a verdadeira alegria pode ser experimentada.

A mesma coisa vale para a gratidão, ainda que não nos seja mais tão fácil reconhecê-lo como antes. Para pensadores como Immanuel Kant, ter de dizer “obrigado” é uma ocasião mais de tristeza que de alegria, porque, em sua avaliação, gratidão envolve dívida, e esta é uma ameaça à autonomia pessoal, o fundamento da filosofia kantiana e da democracia liberal moderna.

Tal visão legalista ignora, no entanto, o efeito libertador que os laços humanos têm sobre o indivíduo. Para os antigos, a resposta apropriada ao difícil trabalho de interdependência humana era a pietas, aquela nobre devoção à própria família, à própria terra e, em última medida, ao próprio Deus. Esse era um “débito” que as pessoas eram felizes em ter, pois residia em uma abundância de bens que elas tinham consciência de ter recebido imerecidamente. O ato de lembrar esses benefícios, por sua vez, era uma fonte de feliz gratidão. Nas palavras de Sêneca, “o homem mais ingrato de todos é o que esqueceu um benefício… não é possível que um homem se torne agradecido se veio a perder por completo a memória” (De beneficiis, 3, 1).

A gratidão, portanto, não é apenas um importante componente do caráter moral de alguém; trata-se de um sintoma de conformação à realidade, isto é, a habilidade de lembrar devidamente os reais benefícios que alguém recebeu de benfeitores reais, e de reagir a essas verdades da forma apropriada.

E, seria desnecessário dizer, tudo isso aponta de maneira especial para a ação de graças que prestamos a Deus na Missa, esse ato supremo de anamnesis instituído pelo próprio Senhor, de lembrar e então representar o maior bem já recebido pela humanidade na história. Não sem razão o Aquinate vê a gratidão como uma virtude enraizada no amor, um amor que propositalmente não deve ter limites (cf. Suma Teológica, II-II, q. 106, a. 6, ad 2). Quão belo e apropriado, enfim, as últimas palavras da Missa, tanto no antigo quanto no novo rito, serem simplesmente: “Graças a Deus”!

Conclusão

Nossa comparação entre as quatro finalidades da Missa e as quatro grandes coisas que aprendemos na infância dá-nos ensejo a uma última ideia sobre a importância do sacrifício eucarístico. Pensar na “assistência” à Missa como um fardo legalista imposto a nós pela Igreja é tão empobrecedor quanto pensar em boas maneiras como meros caprichos e apêndices do pátrio poder.

Ainda que de modo algum sejam o suficiente, as boas maneiras são um instrumental orientando-nos para a ordem criada e, quando são incorporados da maneira correta, eles nos ajudam a atingir nosso pleno potencial como seres humanos. De modo similar, a adoração, a ação de graças, os pedidos e a satisfação que nós realizamos na Missa orientam-nos para o Criador de nossa natureza, fazendo-nos desenvolver não apenas nossas potências naturais, mas nossa capacidade de participar na natureza do próprio Deus.

Ser capaz de dizer “perdão”, “eu te amo”, “por favor” e “obrigado” a nosso Pai celeste, por meio de seu Filho e sob o auxílio de seu Espírito, não é só um privilégio único para uma simples criatura; é um ato constantemente transformador. E por esse dom só o que nos resta é dizer: Deo gratias.

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As Têmporas de Pentecostes
Liturgia

As Têmporas de Pentecostes

As Têmporas de Pentecostes

As Têmporas de inverno têm uma característica especial: são três dias de penitência dentro da Oitava de Pentecostes. Os católicos são chamados a jejuar e abster-se de carne ao mesmo tempo que adoram, em festa, o divino Espírito Santo.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Junho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Toda mudança de estação é uma oportunidade para reavivar o costume das Quatro Têmporas

Como já explicamos com mais detalhes noutra oportunidade, as Têmporas são celebrações litúrgicas instituídas para santificar o ano civil e dar graças a Deus pelos frutos da terra. Antes da reforma de Paulo VI, elas eram tempos especiais de vigília e oração, durante os quais novos sacerdotes eram dados à Igreja e o jejum e a abstinência de carne eram obrigatórios.

As Têmporas, normalmente, pedem o roxo na liturgia, mas não as de Pentecostes.

Dizemos que era assim antes de 1970 não porque as Têmporas tenham sido abolidas de fato. Hoje, está sob o encargo das conferências episcopais e das dioceses determinar o tempo e o modo de celebração delas. Como isso não aconteceu em lugar nenhum, no entanto, e a própria Igreja arrancou as Têmporas do calendário litúrgico, desobrigando os católicos de jejuar nesses dias, o resultado prático não foi muito diferente de uma extinção.

Por ser um costume que incutia nos fiéis a necessidade premente da mortificação e praticamente formava a identidade da religião católica, só podemos lamentar que tenha se perdido. Mas o momento é mais do que oportuno para resgatar tradições como essa em família. Com as igrejas fechadas e as Missas suspensas em muitas dioceses, os lares católicos, que já deveriam ser, naturalmente, o primeiro lugar em que as pessoas são educadas sobre a própria fé, tornaram-se praticamente o único refúgio da Igreja nesses tempos de pandemia.

As Têmporas de outono-inverno (no hemisfério sul), por sua vez, têm uma característica toda especial. Embora a mudança de estação só aconteça no dia 21 de junho, a Igreja havia determinado há muito tempo que elas fossem celebradas sempre na quarta, sexta-feira e sábado da semana seguinte a Pentecostes. Considerando que no calendário antigo essa solenidade tinha uma Oitava própria (outra perda que só nos resta lamentar), os fiéis encontravam-se na inusitada situação de fazer penitência em meio a uma verdadeira festa: de fato, na liturgia os sacerdotes tinham de usar paramentos vermelhos (e não o roxo típico das celebrações penitenciais), entoar o Glória, a sequência Veni Creator e o Credo. 

Tratava-se de uma situação litúrgica atípica, sim, mas que nos deveria fazer pensar. O escritor medieval Sicardo de Cremona († 1215), comentando a respeito dessa estranha junção de um jejum e uma festa, dizia:

Presta atenção em que o jejum de hoje das Quatro Têmporas não derroga a solenidade do Espírito Santo, senão que a ilumina; porque os deleites do Espírito Santo trazem consigo o desgosto pelos prazeres carnais, e porque, tirado dos Apóstolos o Esposo, eles deviam jejuar, como o Senhor havia predito (cf. Mt 9, 15). Assim, repletos do Espírito Santo, eles começaram a jejuar espontaneamente (Mitrale, VII, 11: PL 213, 383).

“Os deleites do Espírito Santo trazem consigo o desgosto pelos prazeres carnais”, isto é, quando estamos na graça de Deus e passamos a saborear as coisas espirituais, ao mesmo tempo é necessário que, num verdadeiro exercício da virtude da penitência, desprezemos as coisas da carne.

De fato, nós tendemos a esquecer isso, mas há uma penitência escondida na verdadeira alegria cristã e, ao mesmo tempo, uma alegria escondida no coração de quem faz penitência! Nesta vida, não podemos separar completamente as duas realidades, pois quem ama a Deus deve necessariamente aborrecer o pecado e lutar contra ele. Isso coloca-nos em situação permanente de vigilância: ao me alegrar por alguma coisa — por uma solenidade litúrgica, por exemplo —, não posso esquecer da tristeza que ronda todos os que perdem a Deus, e que esse risco é muito real e próximo de mim. Não está escrito, afinal, que “o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8)? E porventura diz a glosa ou algum outro versículo que os demônios tiram folga em dias de festa? Não é mais lógico pensar, ao contrário, que o que eles querem é justamente se aproveitar de qualquer desleixo de nossa parte para nos atacar com ainda mais força? 

Essa meditação deveria ser suficiente para derrubar qualquer objeção à penitência em dias de alegria, sejam eles a Oitava de Pentecostes ou própria Páscoa que os católicos vivemos todas as semanas, nos domingos. 

À luz da solenidade de Pentecostes, vale a pena ainda insistir um pouco mais nessa oposição entre carne e espírito, tão falada pelo Novo Testamento. Precisamos tomar consciência da guerra que se trava todos os dias dentro de nós, e na qual está em jogo a própria permanência do Espírito Santo em nossas almas. Santo Tomás de Aquino lembra que para vencer a concupiscência importa “trabalhar muito”, já que estamos falando de um “inimigo familiar, que está dentro de nós”, e acrescenta:

Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne (De decem praeceptis, XI).

Unamos, portanto, a nossas súplicas ao divino Espírito Santo, o jejum e a abstinência de carne nesses dias de Têmporas. 

E não nos esqueçamos de os oferecer não só por nossa própria causa, mas também pelo aumento e santificação do clero no mundo inteiro. Era costume da Igreja, nesses três dias, proceder à ordenação de novos sacerdotes, e todo o povo fiel se unia em oração por eles. No escondimento de nossas casas, transformemos esse antigo e piedoso hábito em devoção privada, rezando em família a Ladainha de todos os santos, a Passio Domini ou uma outra oração qualquer pelos sacerdotes.

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Vivamos a Oitava de Pentecostes!
Liturgia

Vivamos a Oitava de Pentecostes!

Vivamos a Oitava de Pentecostes!

Em 1970, ao ver abolida a Oitava de Pentecostes, o próprio Papa Paulo VI teria chorado… Verídica ou não a história, este pode ser um bom ano para intensificarmos essa Oitava como prática devocional, apesar de sua supressão litúrgica.

Pe. Raymond J. de SouzaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Há cinquenta anos, o Papa São Paulo VI chorou. Assim diz a tão difundida — mas não confirmada — história sobre o dia em que o Papa Paulo VI foi até a sua capela privada para celebrar a Santa Missa na segunda-feira depois do Pentecostes. Ele ficou surpreso ao ver que estavam separados para ele os paramentos verdes para o Tempo Comum, em vez dos vermelhos usados na Oitava de Pentecostes.

O Papa ficou assustado, e o cerimoniário de plantão relatou que a Oitava havia sido abolida. Desconcertado, o Pontífice quis saber quem havia feito aquilo.

“O senhor, Santidade”, respondeu o cerimoniário. E o Santo Padre chorou.

Giovanni Battista Montini, o Papa Paulo VI, governou a Igreja de 1963 a 1978.

Independentemente da veracidade dessa história, a perda da Oitava de Pentecostes é motivo de tristeza. Depois de cinquenta anos, as lágrimas têm pouca serventia. É melhor compreender por que ela é importante e o que pode ser feito a esse respeito.

A oração pública da Igreja tem aspectos litúrgicos e devocionais. Algumas partes da Tradição são uma combinação de ambos — como a “primeira novena” entre a Quinta-feira da Ascensão e o Domingo de Pentecostes ou, mais recentemente, a novena da Divina Misericórdia, que começa na Sexta-feira da Paixão e continua ao longo da Oitava de Páscoa.

Este pode ser um bom ano para intensificarmos a prática devocional da Oitava de Pentecostes, apesar de sua supressão litúrgica em 1970. Nos últimos anos, tem crescido o interesse por ela, uma consequência positiva do “enriquecimento mútuo” desejado por Bento XVI entre as formas ordinária e extraordinária do Rito Romano. Neste ano em que a vida devocional substituiu em grande medida a vida litúrgica, seria muito conveniente observar a Oitava de Pentecostes com orações diárias e devoções ao Espírito Santo

As Oitavas são muito respeitadas na Tradição da Igreja. Elas ampliam uma festa importante para uma semana inteira (oito dias, pois a própria festa conta como o primeiro dia) e muitas a coroam com outra festa no oitavo dia, também chamada de “oitava”.

O Natal possui uma Oitava, que começa no dia 25 de dezembro e termina em 1.º de janeiro. O oitavo dia é marcado por outra festa, outrora a do Santo Nome de Jesus e hoje a Solenidade de Maria, Mãe de Deus. A maternidade divina de Maria é uma oitava apropriada para o Natal. 

A Oitava de Páscoa é tão importante que não são permitidas outras festas dentro dela, e seu oitavo dia é outro domingo, atualmente o Domingo da Divina Misericórdia.

Com o passar dos anos, outras festas foram elevadas à condição de oitava. Por exemplo, os católicos ingleses podem se perguntar por que São Thomas More, escrevendo para a sua filha Meg na véspera de sua execução, refere-se àquele dia como a “vigília de Pedro”. Ele foi executado em 6 de julho de 1535, oitavo dia da Solenidade de São Pedro e São Paulo, que então era considerada uma extensão daquela solene festa apostólica. 

Por volta da década de 1950, o calendário litúrgico tinha dezoito (!) Oitavas, e era urgente fazer uma poda. Porém, a árvore mal sobreviveu, já que o Venerável Papa Pio XII suprimiu todas elas, exceto a do Natal, a da Páscoa e a de Pentecostes, que sobreviveu por mais quinze anos.   

Ainda há sinais de Oitavas no calendário revisado. O oitavo dia da Solenidade da Assunção (15 de agosto) é a festa de Maria Rainha (22 de agosto): o quarto e o quinto mistérios gloriosos do Rosário claramente fazem parte de uma mesma realidade. É possível até identificar Oitavas ocultas, como a que existe entre Santa Maria Madalena (22 de julho) e Santa Marta (29 de julho), que provavelmente surgiu da tradição (não inconteste) de que Maria Madalena era irmã de Marta.  

Há resquícios da Oitava de Pentecostes, cujas orações no Ofício Divino São John Henry Newman considerava as mais “grandiosas” de todo o ano. O ponto culminante da Oitava suprimida ainda é o Domingo da Santíssima Trindade. O Espírito Santo nos dá a capacidade de professar que Jesus é o Senhor (cf. 1Cor 12, 3) e de clamar “Aba! Pai!” (Rm 8, 15; Gl 4, 6). Portanto, é apropriado que a Solenidade da Santíssima Trindade suceda a descida do Espírito Santo.

Resta ainda uma curiosa anotação no Missal Romano que diz o seguinte: nos lugares em que “é costume ou obrigação dos fiéis” assistir à Missa na “segunda ou mesmo na terça” depois de Pentecostes, os textos da Missa do Domingo de Pentecostes podem ser repetidos. Trata-se de uma referência à Baviera e à Áustria, onde esses dias já foram feriados civis. Na Inglaterra, era a Segunda-feira de Pentecostes, um eco da Oitava de Páscoa, particularmente da Segunda-feira de Páscoa.

Em 2018, o Papa Francisco determinou a obrigatoriedade de uma nova festa na segunda-feira depois de Pentecostes: Maria, Mãe da Igreja. Alguns alegaram que isso tornou impraticável qualquer vestígio da Oitava de Pentecostes, pois foi removida a opção de repetir a Missa de Pentecostes naquele dia ou até a de celebrar uma Missa votiva do Espírito Santo. Trata-se de uma objeção fraca, pois “Mãe da Igreja” é um título mariano inextricavelmente ligado à vinda do Espírito Santo. É Ele quem cobre Maria na Anunciação em Nazaré, e ela está mais uma vez presente em Pentecostes, quando o Espírito desce sobre a Igreja nascente. 

Em vez disso, pode-se dizer que, com o próprio Pentecostes, a nova festa mariana, o Domingo da Trindade e a sua vigília, quatro dos oito dias da Oitava já estão cobertos. Missas votivas do Espírito Santo poderão preencher o restante, se não forem impedidas por uma festa obrigatória.

Mas isso só se aplica às orações que o sacerdote usa na Santa Missa. Há plena liberdade para orações devocionais feitas em privado ou com familiares e amigos. Ladainhas do Espírito Santo, atos de consagração ao Espírito Santo, imagens do Espírito Santo para adornar o lar, o canto do Veni, Creator Spiritus e do Veni, Sancte Spiritus — podemos fazer tudo isso para vivenciar a Oitava de Pentecostes.

Esta época de pandemia, em que a oração nos lares se tornou mais regular e mais criativa, é um período ideal para fazermos exatamente isto — a novidade pode ser usada para se recuperar uma tradição antiga. — Vinde, Espírito Santo!

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Posso “reconfessar” os meus pecados?
Doutrina

Posso “reconfessar” os meus pecados?

Posso “reconfessar” os meus pecados?

Um pecado já confessado e devidamente perdoado não precisa ser acusado de novo no sacramento da Confissão, isso é certo. Mas essa prática é possível? E, mais do que isso, será que é conveniente? O que ensina a Igreja?

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Um pecado já confessado e perdoado pode ser novamente acusado no sacramento da Confissão? 

Antes de respondermos à pergunta, observemos desde já que não se está pondo em questão aqui se a absolvição do pecado anteriormente confessado aconteceu ou não aconteceu. Que fique bem claro: se uma pessoa se aproximou do tribunal da Penitência, arrependida, acusou ao sacerdote seus pecados e ele, pelo poder das chaves, traçou sobre elas o sinal da Cruz, pronunciando a fórmula de absolvição, perdoados estão esses pecados dessa pessoa, e não há o que discutir. 

Alguém até pode pensar ou dizer: “não consigo me livrar dessa culpa”, “não me sinto perdoada por Deus”, “estou condenada”, mas, nesse caso, é preciso pedir aos nossos fantasmas que se calem e ouçam a voz da Igreja. “Reconfessar” os próprios pecados por não se crer perdoado (e quando não há nada, é claro, que permita duvidar da validade da primeira confissão) seria um flagrante ultraje à misericórdia divina, pois pelas palavras do sacramento Deus realmente opera uma transformação na alma do penitente. Embora essa transformação interna reverbere muitas vezes no corpo, trazendo leveza e bons sentimentos, não é necessário sentir-se perdoado ao deixar o confessionário; basta que tenhamos fé.

Muito bem, um pecado já confessado e perdoado não precisa ser acusado de novo no sacramento da Confissão, não é obrigatório fazê-lo e ponto final [1]. Mas nossa pergunta inicial não era quanto à necessidade dessa prática, senão quanto à sua possibilidade e conveniência.

A resposta talvez impressione alguns, mas sim, é perfeitamente possível repetir os pecados já confessados em uma confissão posterior, e não por “complexo de culpa” ou angústia parecida, mas para ganhar de Deus mais graças no caminho da santidade.

Compreendamos primeiro a ordem em que se dá a nossa reconciliação com Deus na Confissão. Não é que Ele esteja segurando uma “lista” de nossos pecados e, à medida que os vamos confessando, Ele os vai riscando um a um e… (passe de mágica!) estamos perdoados. Não, o sacramento apaga os pecados porque infunde a graça de Deus em quem o recebe; ele é sinal e realidade, opera o que significa (cf. STh III 62, 1): este é o efeito principal de todo sacramento. O da Penitência, porém, juntamente com o do Batismo, são chamados “sacramentos de mortos”, pois têm o poder de restituir completamente à alma a vida da graça que fôra perdida. (Os demais sacramentos chamam-se “de vivos”, pois devem ser recebidos sempre em estado de graça.)

Lembremo-nos agora, com o Catecismo da Igreja Católica (§ 1472), que

o pecado tem uma dupla consequência. O pecado grave priva-nos da comunhão com Deus e, consequentemente, nos torna incapazes da vida eterna; esta privação se chama “pena eterna” do pecado. Por outro lado, todo pecado, mesmo venial, acarreta um apego prejudicial às criaturas que exige purificação, quer aqui na terra, quer depois da morte, no estado chamado “purgatório”. Esta purificação liberta da chamada “pena temporal” do pecado

Perdoados então os pecados mortais, resta-nos expiar a “pena temporal” devida pelo pecado. Aqui na terra, ela pode ser eliminada de vários modos: ao se rezar uma oração indulgenciada, ao se realizar uma obra de caridade qualquer e, também — com o que voltamos a nossa questão inicial —, ao se receber com as devidas disposições os sacramentos da Igreja.

Portanto, para que “recontar” em confissão as faltas graves de que já nos acusamos, senão para ir eliminando esses resquícios que delas ficaram? (Ou seremos tão cegos a ponto de achar que nossos pecados passados não deixaram “marcas” em nossas vidas?) Dando-nos uma razão teológica para essa prática, Santo Tomás de Aquino explica ainda que:

Também na segunda absolvição o poder das chaves perdoa algo da pena, porque esta segunda absolvição aumenta a graça, e quanto mais graça se recebe, menos impureza do pecado anterior fica e menos pena a purificar. Disso resulta que também na primeira absolvição se perdoa a alguém mais ou menos pena, de acordo com sua disposição para receber as graças, podendo ser tão grande a disposição, que em virtude da contrição desapareça toda a pena [...]. Igualmente, não há dificuldade em admitir que por sucessivas confissões desapareça toda a pena, de maneira que fique totalmente sem castigo um pecado pelo qual já satisfez a paixão de Cristo (Suppl. 18, 2 ad 4). 

Que fique bem claro, portanto, mais uma vez: a acusação reiterada de um pecado não se faz aqui por desconfiança da misericórdia de Deus, mas sim para fortalecer no próprio coração o arrependimento das culpas passadas, ajudar-nos a evitá-las no futuro e, também, abreviar o nosso purgatório na outra vida.

Existe outra razão, ainda, por que essa prática é conveniente, e ela diz respeito às chamadas “confissões devocionais”, que as pessoas mais piedosas fazem frequentemente com vistas não tanto a acusar pecados mortais recentes (pois não mais os cometem), mas procurando livrar-se de suas faltas veniais e aumentar o fervor de sua devoção. O Pe. Antonio Royo Marín (Teología de la Perfección Cristiana, n. 309) explica que, nesses casos,

é mais fácil do que se crê a invalidade da absolvição por falta de verdadeiro arrependimento, ocasionado pela própria insignificância dessas culpas e pelo espírito de rotina com que são confessadas. Por isso, tendo em vista a validade das absolvições, é preferível não se acusar das faltas ligeiras das quais não haja vontade de livrar-se a todo custo — já que não é obrigatória a acusação das faltas veniais, e seria irreverência e grande abuso acusar-se sem arrependimento nem propósito de emenda —, fazendo recair a dor e o propósito sobre algum pecado grave da vida passada do qual a pessoa volte a se acusar ou sobre alguma falta atual pela qual exista dor de verdade e o sério propósito de não voltar a cometê-la.

Nessa situação, a nova confissão de um pecado passado funciona também como uma forma de “garantia”, para que não venhamos a receber invalidamente o sacramento da Confissão. Embora a falta em questão já tenha sido perdoada, a graça sacramental atua aqui sobre as sequelas que ela deixou, curando-as e dando forças à alma para seguir no combate contra o mal — que, como sabemos, dura até a morte.

(Cabe deixar um último conselho a respeito dessa prática: ao acusar-se de um pecado devidamente confessado e do qual já se recebeu o perdão, é preciso dizer expressamente que se trata de uma falta do passado já confessada, sob o risco de induzirmos em erro o sacerdote a respeito do tempo em que foi praticado o pecado.)

Por fim, essas considerações todas devem aumentar em nós a gratidão a Deus e o amor por esse sacramento que Ele, em sua misericórdia, nos deixou à disposição. Pela fé no poder das chaves, exercido todas as vezes que o padre diz: “Eu te absolvo dos teus pecados”, temos a segurança de estar recebendo do próprio Cristo o abraço que nós, como filhos pródigos, tanto precisamos receber.

Notas

  1. Notemos o que diz a esse respeito o atual Código de Direito Canônico: “O fiel tem obrigação de confessar, na sua espécie e número, todos os pecados graves, de que se lembrar após diligente exame de consciência, cometidos depois do batismo e ainda não diretamente perdoados pelo poder das chaves da Igreja nem acusados em confissão individual” (Cân. 988, §1).

Recomendações

  • Pe. Antonio Royo Marín, Teología moral para seglares. 3.ª ed., Madri: BAC, 1995, vol. 2, pp. 270-271.

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Ladainha do Sagrado Coração de Jesus
Oração

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Nas 33 invocações desta litania em honra ao Sagrado Coração de Jesus, uma para cada ano de sua santíssima vida na terra, temos um verdadeiro guia de meditação para este mês de junho e, no fundo, para toda a nossa vida cristã.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Junho de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Em 1899, o Papa Leão XIII aprovou esta Ladainha do Sagrado Coração de Jesus para uso público. Sua estrutura constitui, na verdade, uma síntese de várias outras litanias que remontam ao século XVII. A versão final delas, aprovada pela Sagrada Congregação para os Ritos, perfaz um total de 33 invocações ao Coração divino de Nosso Senhor, um para cada ano de sua santíssima vida.

Quem recita devotamente esta oração lucra indulgências parciais (cf. Enchr. Indulg., conc. 22). Para acessar a versão latina da ladainha, clique aqui.


Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Coração de Jesus, Filho do Pai eterno, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, templo santo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do Céu, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e de amor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, cheio de bondade e de amor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, no qual o Pai põe todas as suas complacências, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, de cuja plenitude todos nós participamos, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, desejado das colinas eternas, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, paciente e de muita misericórdia, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, rico para todos que vos invocam, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, propiciação por nossos pecados, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, saturado de opróbrios, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, esmagado de dor por causa dos nossos pecados, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, feito obediente até a morte, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, transpassado pela lança, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, fonte de toda consolação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, vítima dos pecadores, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, salvação dos que em vós esperam, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, esperança dos que morrem em vós, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, delícias de todos os santos, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós, Senhor.

V. Jesus, manso e humilde de coração,
R. Fazei o nosso coração semelhante ao vosso.

Oremos:
Deus eterno e todo-poderoso, olhai para o Coração do vosso diletíssimo Filho e para os louvores e satisfações que Ele, em nome dos pecadores, vos tem tributado; e, deixando-vos aplacar, perdoai aos que imploram a vossa misericórdia, em nome de vosso mesmo Filho, Jesus Cristo, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém.

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