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A vida doméstica não é uma escravidão
Sociedade

A vida doméstica não é uma escravidão

A vida doméstica não é uma escravidão

Talvez o trabalho não remunerado das mulheres “valha”, de fato, uma quantia obscena de dinheiro, como sugeriu recentemente um jornal norte-americano. Mas existem outras coisas para além disso: coisas feitas por amor e que, por isso, não vêm com um código de barras.

Jane Clark ScharlTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Junho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recentemente, o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo intitulado Women’s Unpaid Labor is Worth $10,900,000,000,000 (“O trabalho não remunerado das mulheres vale 10 trilhões e 900 bilhões de dólares”). Como poderíamos esperar, o texto é cínico e parcial.

Embora o artigo tente se apresentar como resultado de uma simples pesquisa, em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, sobre as contribuições delas para a sociedade — muitas vezes não reconhecidas —, ele acabou assumindo a forma da verborragia comercialista semimarxista que tem dominado a nossa sociedade. Expôs assim um equívoco que está no centro do pensamento americano sobre trabalho, dinheiro e sociedade, a saber: que as coisas só possuem valor se lhes atribuirmos alguma quantia em dólar — e que as pessoas que fazem algo sem serem remuneradas são, por isso, necessariamente exploradas.

Como disse G. K. Chesterton: “[O feminismo] está mesclado com uma ideia confusa segundo a qual as mulheres são livres quando servem aos seus patrões, mas escravas quando ajudam os seus maridos”. O raciocínio feminista presente no artigo do The New York Times é terrivelmente reducionista e ignora por completo os benefícios intangíveis oriundos do assim chamado “trabalho não remunerado” das mulheres — sem dúvida alguma, benefícios para a sociedade, as famílias e os homens, mas em número ainda maior para as mulheres.

Agora, algumas advertências. Primeiro: se alguém espera com justiça ser pago por uma tarefa, mas não o é, estamos diante de um caso intolerável de exploração. Segundo: ao longo da história, as mulheres foram injustamente excluídas da plena participação na sociedade, uma injustiça que ainda existe hoje em algumas sociedades e deve ser enfrentada. Terceiro: as mulheres que escolhem entrar para o mercado de trabalho como funcionárias devem ser recompensadas justamente, tal como os seus equivalentes masculinos. Nada disso, porém, está em questão no artigo do The New York Times.  

O texto poderia ser uma celebração do quanto as mulheres contribuem para a sociedade e de como o seu trabalho abnegado deixa o mundo muito mais belo e alegre, mas não é. Não é sequer uma exposição que pretende lançar luzes sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres. Em vez disso, documenta a enorme contribuição que as mulheres dão à sociedade e sugere que é uma injustiça o fato de não serem remuneradas por essa contribuição.

Vejamos a frase de abertura: “Se as mulheres americanas recebessem um salário mínimo pelo trabalho não remunerado que realizam em casa e no cuidado dos familiares, teriam gerado uma receita de U$ 1,5 trilhão no ano passado”. A frase não menciona quantas famílias foram beneficiadas pelo cuidado das mulheres nem quantos idosos receberam assistência de mulheres em sua vida. Em vez disso, reduz esses atos humanos a uma quantia monetária para sugerir que há algo injusto no fato de as mulheres não serem remuneradas pela prática desses atos de caridade. 

Detalhe de “Um da família”, de Frederick George Cotman.

Este ponto é crucial: são atos de caridade realizados em larga escala por mulheres. Embora, sem dúvida, fosse possível que elas não fizessem algumas dessas coisas (reconheço que às vezes me canso de lavar a louça e organizar a casa), o texto ignora completamente outra possibilidade, a saber: que elas fazem essas coisas por amor.

Todo o mundo que já fez algo por amor sabe que tais tarefas são a sua própria recompensa. Mas algumas pessoas não sabem que transformar um trabalho feito por amor num trabalho remunerável altera, de fato, a natureza dele. Os artistas certamente experimentam isso quando se tornam profissionais: de repente, a arte assume uma natureza laboral. As exigências do mercado começam a ter um peso enorme. E mesmo com o entusiasmo por serem remunerados por seu trabalho criativo, muitos artistas têm a sensação de que algo se perdeu.

É algo que transparece na própria linguagem: as pessoas que fazem artesanato, arte, esporte ou realizam um trabalho sem se preocupar com ganhos financeiros são chamadas de amadoras, que vem de um termo em latim para designar “aquele que ama”. As pessoas que fazem coisas sem expectativa de remuneração são amantes. Por outro lado, “profissional” refere-se a quem faz algo como meio de sobrevivência. Embora, sem dúvida, não haja nada errado em sair do “amadorismo” para o “profissionalismo”, há uma profunda diferença espiritual entre ser amante de uma tarefa e fazê-la como meio de sobrevivência.

O artigo menciona um dia na Islândia, em 1975, quando quase todas as mulheres do país se recusaram a “trabalhar, fazer faxina ou cuidar dos filhos”. O The New York Times exalta o episódio como um momento de coragem em que as mulheres da Islândia assumiram o controle de suas próprias vidas, mostrando a homens preguiçosos e ingratos o quanto a sociedade devia a elas. Na verdade, esse estratagema pueril mais parece um abandono da decência comum. Imagine por um momento que tivesse ocorrido o contrário: se todos os homens do país se recusassem a trabalhar por um dia, independentemente das consequências para seu futuro profissional, ou se não fizessem nada para apoiar as suas famílias. Tal boicote seria rapidamente considerado um gesto imaturo para chamar a atenção e como tal seria condenado. É difícil ter uma visão positiva de uma mãe que se recusa a cozinhar e a cuidar dos próprios filhos por causa de uma manifestação política. Quando se negaram a realizar essas ações, as mulheres da Islândia revelaram inadvertidamente o segredo de boa parte daquilo que consideramos “trabalho feminino”: ele tem raízes no amor e na abnegação.   

O artigo celebra o boicote islandês como um triunfo e observa que “hoje, as mulheres de lá têm uma das taxas mais elevadas de participação na força de trabalho em todo o mundo”. O pressuposto implícito é que, numa sociedade ideal, deveria haver o maior número possível de mulheres na força de trabalho.

É claro que isso deixa sem resposta várias perguntas importantes. Se, assim como os homens, todas as mulheres devem participar da força de trabalho para que uma família possa sobreviver, quem assumirá aqueles atos de caridade — a educação dos filhos, o cuidado dos idosos e a construção de um belo lar? O governo assumirá essa tarefa? Esse trabalho será de algum modo dividido entre homens e mulheres? Quem controlará ou autorizará a divisão de trabalho? E, num nível menos tangível, que efeito terá na qualidade de nossas vidas a “sistematização” daquilo que deveria ser um gesto de amor?  

Finalmente, o que dizer sobre o fato de muitas mulheres preferirem ficar em casa para participar desses pequenos atos de caridade a se envolverem na assim chamada “força de trabalho”? Hoje, levei o nosso filho ao parque, passei numa cafeteria no caminho de volta para casa a fim de comprar um lanche e ajudar esse pequeno negócio durante a crise de coronavírus. Organizei a casa, levei meu bebê para jogar pedras no lago, fiz almoço e jantar para o meu marido. Durante a soneca do meu filho, realizei algumas horas de trabalho pelo qual serei remunerada, mas o restante do meu dia cai na categoria do “trabalho não remunerado” do qual se queixa o artigo do The New York Times.

Então, comparo o meu dia com o do meu marido: ele passa nove horas no escritório doméstico, o menor cômodo da casa, atendendo a telefonemas de trabalho com o seu fone de ouvido. Ele está com teletrabalho agora; numa situação normal, ele teria saído de casa às 6h30min e não teria chegado antes das 17h30min (na melhor das hipóteses).  

O trabalho dele não é ruim. É bem remunerado e tem benefícios. Contudo, eu não trocaria o meu dia não remunerado pelo dia remunerado dele. E não estou sozinha; muitas mulheres adoram a própria capacidade de criar um belo lar para o marido e os filhos. Percebemos que o compromisso dos nossos maridos de irem para o trabalho todos os dias, para que possamos ficar em casa — fora do turbilhão materialista e hipermercantilizado que constitui boa parte da sociedade americana —, é um sacrifício para eles, mas uma bênção para nós.

No ensaio A emancipação da domesticidade, G. K. Chesterton observa algo que poderia — mas não deveria — fazer as feministas tremerem. Diz ele:

A mulher deve ser cozinheira, mas não uma cozinheira competitiva; professora, mas não uma professora competitiva; decoradora de interiores, mas não uma decoradora competitiva; costureira, mas não uma costureira competitiva [...]. Ao contrário do homem, ela pode desenvolver todos os seus talentos [...]. As mulheres não ficavam em casa por serem limitadas; pelo contrário, ficavam em casa para expandir-se. O mundo fora de casa é que era extremamente limitado, um labirinto de caminhos restritos, um manicômio de monomaníacos. Somente graças à limitação e proteção parciais a mulher era capaz de desempenhar cinco ou seis profissões e, desta forma, aproximar-se tanto de Deus como uma criança ao brincar de cem coisas diferentes. A diferença é que as profissões da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeiramente — e quase terrivelmente —  frutíferas.     

Neste trecho Chesterton celebra a maravilhosa capacidade feminina de viver como uma “amadora”, uma amante que dedica sua vida ao que ama justamente por amá-lo, e não porque obtém algum tipo de benefício financeiro. Segundo Chesterton, as mulheres nesse âmbito são verdadeiramente livres de um jeito que os homens empregados na força de trabalho não podem ser.

É possível que o The New York Times esteja certo: talvez o trabalho não remunerado das mulheres “valha” uma quantia obscena de dinheiro. Mas existem outras coisas para além dele: a liberdade das exigências do mercado, a beleza da construção de um lar, a espontaneidade e a diversão nas brincadeiras com os filhos, o amor no cuidado dos vizinhos ou familiares idosos. E nenhuma dessas coisas possui um código de barras.

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O corpo incorrupto de Santa Bernadete de Lourdes
Santos & Mártires

O corpo incorrupto de
Santa Bernadete de Lourdes

O corpo incorrupto de Santa Bernadete de Lourdes

Basta observar o corpo intacto de Bernadete Soubirous, em seu relicário, para ter diante de si todos os eventos extraordinários de Lourdes. Aí, de alguma forma, essa vidente de Nossa Senhora está viva. E suas mensagens ressoam com a mesma clareza daqueles dias...

Pe. Andre RavierTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2021Tempo de leitura: 16 minutos
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Em 1925, camadas muito finas de cera foram colocadas sobre o rosto e as mãos do corpo de Santa Bernadete, a fim de disfarçar-lhe os olhos e o nariz fundos, bem como o tom enegrecido do rosto e das mãos [1]. Mas durante a primeira exumação do corpo, em 1909, o rosto de Bernadete era de um “branco opaco”, não era ainda possível ver profundidade em seus olhos e ela tinha as mãos “perfeitamente intactas”. Só o nariz se encontrava já “dilatado e cheio de rugas”. Bernadete — ou Irmã Marie-Bernard, como era conhecida dentro de seu convento — morrera a 16 de abril de 1879, com 35 anos, na Enfermaria Santa Cruz do Convento de São Gildard, sem que seu corpo fosse embalsamado ou tratado de forma especial.

Nascida em uma família humilde que pouco a pouco caiu na extrema miséria, Bernadete sempre foi uma criança frágil. Desde a mais tenra idade sofria com problemas digestivos e, em 1855, depois de escapar de uma epidemia de cólera, passou a sofrer dolorosos ataques de asma. A má saúde quase lhe custou, de maneira definitiva, o ingresso na vida religiosa. Instada por monsenhor Forcade a aceitar Bernadete, a madre Louise Ferrand, superiora das Irmãs de Nevers, respondeu: “Monsenhor, ela será um pilar de nossa enfermaria.”

Santa Bernadete, em fotografia de 1861 ou 1862.

Por pelo menos três vezes ao longo de sua curta existência Bernadete recebeu os últimos sacramentos. Além da asma, ela foi gradualmente acometida por outras doenças, entre as quais uma tuberculose nos pulmões e um tumor tuberculoso no joelho direito. Na manhã de quarta-feira, dia 16 de abril de 1879, sua dor piorou muito. Pouco depois das 11h, sentindo-se quase asfixiada, Bernadete foi levada para uma poltrona, onde se sentou com os pés sobre um escabelo, em frente a uma lareira ardente. Ela morreu por volta das 15h15min. 

As autoridades civis permitiram que seu corpo ficasse exposto para veneração pública até o sábado, 19 de abril, quando ele foi finalmente “depositado em uma urna funerária de chumbo e de carvalho, selada na presença de testemunhas que assinaram um registro dos eventos”. Entre as testemunhas se encontrava “o juiz de paz Devraine e os agentes policiais Saget e Moyen”. 

As Irmãs de São Gildard, com o apoio do bispo de Nevers, solicitaram permissão às autoridades para sepultar o corpo de Bernadete em uma pequena capela dedicada a São José, no interior do convento em que viviam. A permissão foi concedida em 25 de abril de 1879 e, no dia 30 seguinte, a prefeitura local aprovou a escolha do lugar para o enterro. Imediatamente eles começaram a preparar o túmulo e, em 30 de maio de 1879, com uma cerimônia bastante simples, a urna de Bernadete foi finalmente transferida para a cripta da capela.

Primeira exumação, 22 de setembro de 1909. — No outono de 1909, estava completo o trabalho da comissão episcopal de investigar a reputação de Bernadete quanto à santidade, virtudes e milagres com vistas à canonização. O próximo passo era a primeira “identificação do corpo”, como era chamada, que envolvia tanto a identificação de acordo com a lei civil e canônica quanto a verificação do estado do cadáver.

O corpo foi exumado pela primeira vez numa quarta-feira, 22 de setembro de 1909. Os registros oficiais, que se mantêm nos arquivos de Saint Gildard, tornam possível acompanhar quase que passo a passo os procedimentos de identificação. 

O monsenhor Gauthey, bispo de Nevers, e o tribunal eclesiástico adentraram a capela principal do convento às 8h30min da manhã. Uma mesa foi posta na entrada do santuário, e sobre ela os santos Evangelhos. Uma por uma, as três testemunhas (o Abade Perreau, a madre superiora da Ordem, Marie-Josephine Forestier, e sua representante), os médicos (drs. Jourdan e David), os pedreiros Gavillon e Boue e os carpinteiros Cognet e Mary juraram dizer a verdade. 

O grupo se dirigiu então para o interior da capela. O prefeito e o vice-prefeito fizeram questão de cumprir eles mesmos as formalidades legais da ocasião. Assim que a pedra foi levantada do jazigo, o caixão ficou imediatamente visível. Ele foi carregado para uma sala devidamente preparada para isso e colocado sobre dois cavaletes cobertos por um tecido. A um lado se encontrava uma mesa coberta com um pano branco. O corpo — ou, se fosse o caso, os ossos — de Bernadete devia ser colocado sobre ela. 

A urna de madeira foi desparafusada e a de chumbo aberta, revelando o corpo de Bernadete em estado de perfeita conservação. Não havia sequer traço de mau cheiro. As irmãs que a haviam enterrado trinta anos antes notaram apenas que suas mãos haviam caído levemente para a esquerda. Mas as palavras do cirurgião e do médico, pronunciadas sob juramento, falam por si mesmas: 

O caixão foi aberto na presença do bispo de Nevers, do prefeito da cidade, de seu principal sucessor, de vários canonistas, bem como de nós mesmos. Não notamos nenhum mau cheiro. O corpo se encontrava vestido com o hábito da Ordem à qual pertencia Bernadete. O hábito estava úmido. Apenas o rosto, as mãos e os antebraços estavam descobertos.

A cabeça estava inclinada para a esquerda. O rosto era de um branco opaco. A pele estava grudada nos músculos e estes aderiram aos ossos. As órbitas oculares estavam cobertas pelas pálpebras. As sobrancelhas estavam retas na pele e grudadas às arcadas acima dos olhos. Os cílios da pálpebra direita estavam presos à pele. O nariz estava dilatado e enrugado. A boca se encontrava levemente aberta e era possível ver os dentes ainda no lugar. As mãos, cruzadas sobre o seu peito, estavam perfeitamente preservadas, bem como as unhas. As mãos ainda seguravam um rosário enferrujado. Chamavam atenção as veias nos antebraços.

Como as mãos, os pés estavam enrugados e as unhas dos pés ainda estavam intactas (uma delas foi arrancada quando o cadáver foi lavado). Quando os hábitos foram removidos e o véu foi levantado da cabeça, era possível ver o todo do corpo emurchecido, rígido e esticado em cada membro.

Verificou-se que o cabelo, que havia sido cortado curto, estava preso à cabeça e ainda ligado ao crânio; que as orelhas estavam em um estado de perfeita conservação; e que o lado esquerdo do corpo achava-se levemente mais alto que o direito do quadril para cima.

O estômago cedeu e estava esticado, como o resto do corpo. Ele parecia um papelão quando atingido.

O joelho esquerdo não era tão grande quanto o esquerdo. Sobressaíam-se as costelas, bem como os músculos nos membros.

Achava-se tão rígido o corpo, a ponto de ser possível virá-lo e revirá-lo para ser lavado.

As partes inferiores do corpo haviam se tornado levemente enegrecidas. Isso parece ter sido resultado do carbono, do qual grandes quantidades foram encontradas no caixão.

Como prova de tudo isso, redigimos devidamente a presente declaração, na qual tudo está registrado com veracidade.

Nevers, 22 de setembro de 1909.

Drs. Ch. David, A. Jourdan.

As religiosas procederam à lavagem do corpo e depositaram-no em um novo caixão forrado com zinco e acolchoado com seda branca. Nas poucas horas em que ficou exposto ao ar, o corpo havia começado a enegrecer. O duplo caixão foi fechado, soldado, parafusado e lacrado com sete selos. 

Os trabalhadores mais uma vez colocaram o corpo de Bernadete na sepultura. Eram 17h30min quando todo o processo havia terminado. 

O fato de o corpo de Bernadete ter-se encontrado em estado de perfeita conservação não necessariamente é milagroso. Sabe-se que cadáveres se decompõem menos em certos tipos de solo e gradualmente se mumificam. Deve-se notar, no entanto, que no caso de Bernadete esse estado de mumificação é bastante surpreendente. Suas enfermidades e o estado de seu corpo quando morreu, a umidade na sepultura da capela de São José (seu hábito estava úmido, o rosário oxidado e o crucifixo esverdeado), tudo aparentemente devia conduzir à desintegração de sua carne. Deveríamos alegrar-nos, portanto, de que Bernadete se tenha beneficiado de um fenômeno biológico tão raro. Mas não se trata de um “milagre” no sentido estrito da palavra.

Segunda exumação, 3 de abril de 1919. — Em 13 de agosto de 1913, o Papa Pio X, em consequência de uma decisão da Congregação dos Ritos, autorizou a introdução da causa de beatificação e canonização de Bernadete Soubirous e assinou o decreto de venerabilidade. A guerra estourou e tornou-se impossível retomar o caso novamente de maneira imediata, o que só se deu em 1918, quando já era bispo de Nevers o monsenhor Chatelus. Isso tornou necessária outra identificação do corpo da agora Venerável Bernadete. Pediu-se aos drs. Talon e Comte que procedessem ao exame, que se deu em 3 de abril de 1919, na presença do bispo de Nevers, do comissário de polícia, dos representantes municipais e dos membros do tribunal eclesiástico. 

Tudo se encontrava do mesmo modo quando da primeira exumação. Fizeram-se os devidos juramentos, abriu-se a sepultura, o corpo foi transferido para um novo caixão e enterrado novamente, tudo em atenção à lei canônica e à lei civil. Depois de examinarem o corpo, os médicos se retiraram sozinhos para salas separadas a fim de escreverem seus registros pessoais, sem que pudessem consultar os relatórios um do outro. 

Os dois relatórios coincidiam perfeitamente entre si e também com o relatório de 1909 dos doutores Jourdan e David. Só havia um novo elemento relativo ao estado do corpo: a presença de “manchas de mofo e de uma camada de sal, que parecia ser de cálcio”, e que provavelmente fora resultado da primeira lavagem do corpo, quando da primeira exumação. Citamos a seguir apenas as primeiras linhas do relatório do dr. Comte: 

Quando o caixão foi aberto, o corpo aparentava estar absolutamente intacto e desprovido de mau odor. (Dr. Talon foi mais específico: “Não havia cheiro algum de putrefação e nenhum dos presentes experimentou qualquer desconforto.”) O corpo está praticamente mumificado, coberto com manchas de mofo e notáveis camadas salinas, que parecem ser de cálcio. O esqueleto está completo e seria possível transportá-lo para uma mesa sem qualquer dificuldade. A pele desapareceu em alguns lugares, mas ainda está presente na maior parte do corpo. Algumas das veias ainda estão visíveis.

Às 17h daquele dia o corpo foi enterrado de novo na capela de São José, na presença do bispo, da madre Forestier e do comissário de polícia. 

Terceira exumação, 18 de abril de 1925. — Em 18 de novembro de 1923, o Papa reconheceu a autenticidade das virtudes de Bernadete e estava aberto o caminho para sua beatificação.

Uma terceira e última identificação do corpo era requerida para a sua declaração como beata. As relíquias, que teriam como destino Roma, Lourdes e casas da Ordem, seriam retiradas durante essa exumação.

Os drs. Talon e Comte foram novamente requisitados para examinar o corpo, e seria o dr. Comte, cirurgião, a remover-lhe as relíquias.

A cerimônia se deu em 18 de abril de 1925, quarenta e seis anos e dois dias após a morte de Bernadete. Realizou-se privadamente, como a lei canônica exige que aconteça quando a beatificação ainda não foi declarada. Estavam presentes as religiosas da comunidade, o bispo, os vigários gerais, o tribunal eclesiástico, duas testemunhas “instrumentais”, os dois médicos, o comissário de polícia Mabille e, representando as autoridades municipais, Leon Bruneton.

Às 8h30min, na capela do convento, os dois médicos, cujo trabalho era examinar o corpo para a identificação oficial, e os pedreiros e carpinteiros que deveriam abrir o jazigo e tirar o caixão fizeram os juramentos de rotina sobre os Evangelhos.

“Eu juro e prometo fielmente desempenhar o encargo que me foi designado”, declararam os médicos, “e dizer a verdade nas respostas que der às questões que me forem colocadas e nas declarações escritas sobre o exame do corpo da Venerável Serva de Deus, Irmã Marie-Bernard Soubirous, e na retirada de suas relíquias. Isto prometo e faço voto de cumprir. Ajudem-me Deus e os santos Evangelhos.” Cada um dos operários também fez um juramento: “Com minha mão sobre os Evangelhos de Deus eu juro e prometo fielmente desempenhar o encargo que me foi designado. Ajudem-me Deus e os santos Evangelhos.”

O grupo, então, buscou o caixão de Bernadete na capela de São José em procissão e conduziu-o à capela de Santa Helena.

A seguir algumas passagens do relatório do dr. Comte: 

A pedido do bispo de Nevers, separei e removi a seção posterior da quinta e sexta costelas direitas como relíquias; notei que havia uma massa resistente e dura no tórax, que era o fígado coberto pelo diafragma. Também retirei um pedaço do diafragma e do fígado embaixo dele como relíquias, e posso afirmar que esse órgão estava em um estado notável de preservação. Também removi os dois ossos da patela aos quais a pele estava ligada e os quais estavam cobertos com mais matéria de cálcio aderente.

Por fim, removi os fragmentos musculares direitos e esquerdos da parte externa das coxas. Também esses músculos se encontravam em ótimo estado de preservação e não pareciam estar minimamente putrefeitos

A partir dessa verificação concluí que o corpo da Venerável Bernadete está intacto; o esqueleto, completo; os músculos, apesar de atrofiados, estão bem preservados; só a pele, que murchou, parece ter sofrido os efeitos da umidade no caixão. Ela assumiu uma cor cinzenta e está coberta com manchas de mofo e um número considerável de cristais e sais de cálcio; mas o corpo não parece ter-se putrefeito, nem se verificou qualquer decomposição do cadáver, ainda que isso fosse o normal a se esperar depois de um período tão longo dentro de uma vala escavada na terra.

Três anos depois, em 1928, o dr. Comte publicou um “relatório sobre a exumação da Beata Bernadete” na segunda edição do Bulletin de l’Association medical de Notre-Dame de Lourdes, onde escreveu: 

Eu gostaria de ter aberto o lado esquerdo do tórax para retirar as costelas como relíquias e, então, remover o coração, cuja preservação estou certo de que aconteceu. No entanto, o tronco estava levemente apoiado sobre o braço esquerdo, e teria sido bastante difícil tentar chegar ao coração sem causar muitos danos perceptíveis ao corpo. Como a madre superiora exprimiu o desejo de que o coração da santa fosse mantido com o restante do corpo, e o bispo não insistiu, desisti da ideia de abrir o lado esquerdo do tórax e contentei-me em remover as duas costelas direitas, que estavam mais acessíveis.

O cirurgião ficou particularmente impressionado com o estado de preservação do fígado:

O que me impressionou durante a verificação, é claro, foi o estado de perfeita preservação do esqueleto, dos tecidos fibrosos dos músculos (ainda firmes e flexíveis), dos ligamentos e da pele e, sobretudo, a condição totalmente inesperada do fígado depois de 46 anos. O normal seria que esse órgão, basicamente macio e com tendência a se desintegrar, tivesse se decomposto bem rapidamente ou se enrijecesse e assumisse uma consistência calcária. Apesar disso, quando cortado, ele se encontrava macio e com a consistência praticamente normal. Ressaltei isso a todos que estavam presentes, observando que aquele não parecia ser um fenômeno natural

Concluída a fase cirúrgica, o dr. Comte envolveu o corpo com ataduras, deixando livres apenas o rosto e as mãos. O corpo de Bernadete foi então colocado de volta no esquife, mas descoberto. A essa altura, uma impressão precisa da face foi moldada, a fim de que a empresa Pierre Imans, de Paris, confeccionasse uma máscara de cera clara para ela, tomando como base as impressões e algumas fotos genuínas. O temor era de que, por mais que o corpo se encontrasse mumificado, a coloração enegrecida do rosto e os olhos e o nariz encovados causassem ao público uma impressão desagradável.

Também se fizeram impressões das mãos, pelos mesmos motivos, tomando-se cuidado para não alterar de modo algum a posição delas no caixão.

O corpo foi deixado na capela de Santa Helena, mas as portas de acesso a ela foram fechadas e seladas, a fim de que ninguém entrasse. As religiosas que quisessem rezar perto do corpo de Bernadete só podiam vê-la através de uma divisória de vidro. 

Em 14 de junho de 1925, o Papa Pio XI oficialmente beatificou Bernadete. Mas, como não estivesse pronta a urna para o corpo — a qual estava sendo feita no ateliê da empresa de Armand Caillat Cateland, em Lion —, até o dia 18 de julho não foi possível colocar Bernadete em seu relicário. A cerimônia, ao chegar a data, foi bem simples. Uma vez que as autoridades eclesiásticas se certificaram de que tudo na capela de Santa Helena fora deixado como no dia 18 de abril, as religiosas vestiram o corpo de Bernadete com um novo hábito. O escultor tomou as máscaras de cera, feitas com base nas impressões, e colocou-as sobre o rosto e as mãos. Então o corpo foi trasladado numa maca branca até a sala das noviças. Cantou-se por fim o Ofício das Virgens, e o corpo foi depositado em seu relicário.

Na noite de 3 de agosto, a urna foi cerimonialmente transferida da sala das noviças até a capela do convento de São Gildard. Nos três dias subsequentes, 4, 5 e 6, rezaram-se Missas solenes em honra de Bernadete.

Foi em agosto de 1925 que se iniciaram as longas peregrinações dos amigos de Santa Bernadete. Entre eles sempre houve muitos turistas, movidos por pura curiosidade, e até céticos se unindo à multidão que reza.

O corpo de Santa Bernadete, repousando em seu relicário.

“Mas é esse realmente o corpo de Bernadete?”, eles perguntam. “Se é realmente o corpo dela, então ele não foi embalsamado?”

Respostas suficientes a essas questões encontram-se nos relatórios médicos das três exumações, todas elas realizadas sob o rigor do direito canônico e na presença de autoridades civis e eclesiásticas. Sim, é o corpo de Bernadete — intacto — que se encontra no relicário. “É como se estivesse mumificado”, para citar os médicos. Apenas algumas relíquias foram retiradas. Excelentes máscaras de cera foram colocadas sobre a face e as mãos, moldadas a partir de impressões tiradas diretamente do corpo e respaldadas por documentos fotográficos autênticos. Quem quer que viesse a contestar o estado desse corpo, por mais surpreendente que ele possa parecer, estaria questionando a sinceridade de pessoas cujo testemunho é normalmente considerado de autoridade: médicos, policiais, testemunhas juramentadas e membros do tribunal da Igreja.

Sim, esse é o corpo de Bernadete, na mesma atitude de meditação e oração em que ela viveu. É esse o rosto que se levantou dezoito vezes para avistar a “Senhora de Massabielle”; são essas as mãos que manusearam o rosário antes e durante as aparições; são esses os dedos que, ao arranhar a terra, fizeram aparecer uma milagrosa primavera; são esses os ouvidos que escutaram a mensagem e os lábios que repetiram o nome da Senhora ao padre Peyramale: “Eu sou a Imaculada Conceição”. É esse, também, o coração que carregou tão grande amor a Jesus Cristo, à Virgem Maria e aos pecadores. Basta observar esse corpo no relicário para ter diante de si todos os eventos extraordinários de Lourdes: algo da graça de Massabielle toca a alma de quem quer que o visite.

No metal ao redor do relicário encontram-se gravadas estas palavras: “A Virgem”.

Mas era necessário? Uma voz silenciosa alcança o mais profundo do nosso ser através deste corpo frágil, que parece estar absorto em Deus. Aqui Bernadete está presente. Aqui ela está rezando. Aqui está dando o seu testemunho. Ousamos dizer até: aqui, de alguma forma, Bernadete está viva. E as suas mensagens ressoam com a mesma clareza do primeiro dia: aqui Bernadete está cumprindo, dia após dia, diante de cada peregrino que a visita, a missão que a “Imaculada Conceição” lhe deu em nome de Deus. Bernadete nos lembra que Ele é Amor e não se cansa jamais de chamar-nos, a fim de que saiamos das trevas de nosso pecado para a sua Luz maravilhosa.

Notas

  1. Este texto foi baseado nos documentos presentes nos arquivos do convento de Saint Gildard, da diocese e da cidade francesa de Nevers (N.A.).

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Como entender a sequência das aparições de Jesus Ressuscitado? Após anos de meditação, este sacerdote apresenta uma provável cronologia dos acontecimentos pascais, com base nos Santos Evangelhos e uma pitada de especulação.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Abril de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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[Este texto é de autoria do Mons. Charles Pope. Em sua tradução para a língua portuguesa, foi levemente adaptado, aqui e ali.]

Quando lemos os relatos da Ressurreição no Novo Testamento, temos o desafio de colocar as cenas juntas, de forma que a sequência dos eventos se desenvolva em ordem lógica. Isso se deve a que nenhum Evangelho apresenta todas ou mesmo a maioria das informações. Alguns dados também parecem conflitantes. Mas esses conflitos são, em geral, apenas aparentes, e não conflitos de fato. Outra dificuldade em pôr os fatos lado a lado de maneira coerente é que a sucessão deles não fica clara em alguns relatos. Lucas e João são os mais precisos quanto ao tempo dos eventos descritos, enquanto Mateus e Marcos fornecem poucos parâmetros. Tanto os Atos dos Apóstolos quanto Paulo também oferecem relatos em que a sucessão dos acontecimentos nem sempre fica clara.

Pintura no interior de Saint-Joseph-des-Carmes, igreja parisiense.

Apesar disso, quero propor uma possível e, ouso afirmar, até mesmo provável sequência dos acontecimentos da Ressurreição. O trabalho é meu e não afirmo que o cenário seja certo ou se apóie em alguma autoridade antiga reconhecida [1].

Minha proposta é simplesmente o resultado de mais de 31 anos de oração e meditação sobre os eventos sucedidos nos quarenta dias entre a Ressurreição do Senhor e sua Ascensão. Minhas reflexões baseiam-se o mais solidamente possível na Bíblia, com uma pitada de especulação.

Compreendo que minha proposta irá irritar alguns estudiosos bíblicos modernos que parecem insistir em que seria errado tentar qualquer síntese dos textos, já que os próprios autores não pretenderam fazer uma.

Mesmo assim, prossigo com minha ousadia, na esperança de que o fiel se beneficie com isso e ache a síntese interessante. Considere-a pelo que ela é: a obra de um pastor desconhecido que rezou e procurou seguir com cuidado a sequência dos quarenta dias.

I. A manhã do primeiro dia

  1. Bem cedo pela manhã, um grupo de mulheres, incluindo Maria Madalena, aproxima-se do túmulo para concluir os costumes funerários em honra a Jesus (cf. Mt 28, 1; Mc 16, 1; Jo 20, 1).
  2. Elas veem o sepulcro aberto e ficam alarmadas.
  3. Maria Madalena corre para contar a Pedro e João a notícia sobre prováveis ladrões de túmulo (cf. Jo 20, 2).
  4. As mulheres que permanecem no túmulo encontram um anjo, que lhes declara que Jesus ressuscitou e que elas devem contar isso aos irmãos (cf. Mc 16, 5; Lc 24, 4; Mt 28, 5).
  5. A princípio, as mulheres ficam assustadas e saem da tumba com medo de falar (cf. Mc 16, 8).
  6. Recuperada a coragem, elas decidem ir até os Apóstolos (cf. Lc 24, 9; Mt 28, 8).
  7. Enquanto isso, Pedro e João vão ao túmulo para averiguar a alegação de Maria Madalena. Esta, que segue atrás deles, chega de volta ao túmulo, enquanto Pedro e João ainda estão lá. Pedro e João descobrem o túmulo vazio; eles não encontram nenhum anjo. João acredita na ressurreição. Não sabemos a que conclusão chegou Pedro.
  8. As outras mulheres relatam aos demais Apóstolos o que o anjo na tumba lhes tinha dito. Pedro e João ainda não voltaram do túmulo, e os outros Apóstolos, a princípio, desprezam a história das mulheres (cf. Lc 24, 9-11).
  9. Maria Madalena, demorando-se no túmulo, chora e tem medo. Ao olhar para dentro da tumba, vê dois anjos que lhe perguntam o motivo do choro. Jesus então se aproxima dela por trás. Sem olhar diretamente para Jesus, ela supõe que seja o jardineiro. Quando Ele a chama pelo nome, Maria reconhece-lhe a voz, vira-se e o vê. Cheia de alegria, ela tenta abraçá-lo. É a 1.ª aparição (cf. Jo 20, 16).
  10. Jesus envia Maria de volta aos Apóstolos com a notícia, a fim de prepará-los para seu aparecimento mais tarde naquele dia (cf. Jo 20, 17).
  11. As outras mulheres deixaram os Apóstolos e estão a caminho, possivelmente de volta para casa. Jesus lhes aparece (cf. Mt 28, 9) (depois de ter despedido Maria Madalena). Ele também as envia de volta aos Apóstolos com a notícia de que Ele ressuscitara e os verá em breve. É a 2.ª aparição.

II. A tarde e a noite do primeiro dia

  1. Mais tarde naquele dia, dois discípulos a caminho de Emaús refletem sobre os rumores da Ressurreição de Jesus. Cristo então vem por trás deles, mas eles não conseguem reconhecê-lo. Primeiro, Jesus explica-lhes as Escrituras; em seguida, senta-se à mesa com eles e celebra a Eucaristia [2], que é quando seus olhos se abrem e eles o reconhecem no partir do pão. É a 3.ª aparição (cf. Lc 24, 13-30).
  2. Os dois discípulos voltam naquela mesma noite a Jerusalém e se dirigem aos Onze. No início, aos Apóstolos não acreditam, assim como não tinham acreditado nas mulheres (cf. Mc 16, 13). No entanto, os discípulos continuam a relatar o que vivenciaram. Em algum momento, Pedro se afasta dos outros (talvez para uma caminhada?). O Senhor aparece a Pedro. É a 4.ª aparição (cf. Lc 24, 34; 1Cor 15, 5). Pedro informa os outros dez, que então acreditam. Assim, os discípulos de Emaús (ainda com os Apóstolos) são agora informados (talvez como uma desculpa) de que, de fato, é verdade que Jesus ressuscitou (cf. Lc 24, 34).
  3. Quase ao mesmo tempo, Jesus aparece naquela pequena reunião dos Apóstolos e dos dois discípulos de Emaús. É a 5.ª aparição. Tomé está ausente, embora o texto lucano diga que a aparição foi para “os onze” (o que, provavelmente, é apenas uma forma abreviada de designar os Apóstolos como grupo). Eles se assustam, mas Jesus os tranquiliza e explica-lhes as Escrituras (cf. Lc 24, 36ss).
  4. Há certo debate quanto ao fato de Ele ter ou não aparecido a eles uma segunda vez naquela noite. Os relatos de João e de Lucas têm descrições significativamente diferentes sobre a aparição naquela primeira noite de domingo. É apenas uma recontagem distinta sobre a mesma aparição ou trata-se de uma aparição totalmente independente? Não é possível dizer com certeza. Mesmo assim, uma vez que as descrições são tão diferentes, podemos chamá-la de 6.ª aparição (Jo 20, 19ss), embora seja provavelmente a mesma 5.ª aparição.

III. Intervalo

  1. Não há nenhum relato bíblico sobre aparições de Jesus a alguém durante a semana seguinte. O próximo relato da ressurreição diz: “Oito dias depois”, ou seja, no domingo seguinte.
  2. Sabemos que os Apóstolos disseram a Tomé que tinham visto o Senhor, mas ele se recusou a acreditar (cf. Jo 20, 24).
  3. Os Apóstolos estavam nervosos porque Jesus não aparecera novamente a cada dia? Não o sabemos; não há relatos sobre o que aconteceu nesse intervalo.

IV. Uma semana depois, no segundo domingo

  • Jesus aparece mais uma vez (é a 7.ª aparição) aos Apóstolos reunidos. Desta vez Tomé está com eles. Nosso Senhor chama Tomé à fé, e naquele momento ele professa que Jesus é seu Senhor e seu Deus (cf. Jo 20, 24-29).

V. Segundo intervalo

  • Os Apóstolos tinham recebido instruções para voltar à Galileia (cf. Mt 28, 10; Mc 16, 7), onde veriam Jesus. Eles passaram parte desse intervalo viajando 60 milhas para o norte, viagem que teria levado um tempo considerável. Podemos imaginá-los em viagem para o norte durante esses dias intermediários.

VI. Algum tempo depois

  1. O prazo da próxima aparição é um tanto vago. João diz apenas: “depois disso”. Provavelmente, é uma questão de dias ou de uma semana, na melhor das hipóteses. A cena se passa no mar da Galileia; nem todos estão presentes. Alguns Apóstolos foram pescar, e Jesus os chama da beira do lago. Eles voltam à praia e o veem (é a 8.ª aparição). Pedro tem um diálogo comovente com Jesus e é encarregado de cuidar do rebanho de Cristo (cf. Jo 21).
  2. A aparição aos 500. — De todas as aparições, pode-se pensar que esta teria sido a registrada com mais detalhes, já que foi testemunhada por um grande número de pessoas. Sobre isso, parece que muitos relatos teriam existido e que pelo menos um deles deveria ter entrado nas Escrituras. No entanto, a única coisa que se diz é que ela de fato aconteceu. Paulo a menciona em 1Cor 15, 6: “Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos).” É a 9.ª aparição. Onde isso aconteceu? Como foi? Qual foi a reação? Nós simplesmente não o sabemos. Isso prova mais uma vez que a Bíblia não é um livro de história no sentido convencional. Em vez disso, é um relato altamente seletivo do que aconteceu, não um relato completo. A Bíblia não afirma ser algo que ela não é. E está claro que ela é em um livro seletivo (cf. Jo 20, 30: “Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro”).
  3. A aparição a Tiago. — Aqui, novamente, não temos uma descrição da aparição, mas apenas uma observação de Paulo, que diz que ela de fato aconteceu: “Depois, Ele apareceu a Tiago” (1Cor 15, 7). É a 10.ª aparição. O tempo dessa aparição não fica claro. Sabemos apenas que ela aconteceu depois da aparição aos 500 e antes da aparição final aos Apóstolos.

VII. Os outros quarenta dias

  1. Jesus certamente fez outras aparições aos discípulos. Lucas o atesta nos Atos dos Apóstolos quando escreve: “A eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus” (At 1, 3).
  2. Nesse período, talvez haja uma aparição que possamos atribuir especificamente a este tempo, como registrado por Mateus (cf. 28, 16ss) e Marcos (cf. 16, 14ss). Ela aconteceu no “topo de uma montanha na Galileia”. Marcos acrescenta que eles estavam reclinados à mesa. Refiro-me a esta aparição (período de tempo incerto) como a 11.ª aparição. É aqui que Jesus lhes dá a grande missão de evangelizar. Embora o texto de Marcos pareça indicar que Jesus foi elevado aos céus desta montanha, a conclusão é precipitada, pois Marcos só indica que Jesus ascendeu apenas “depois de ter falado com eles” (Mc 16, 19) [3].
  3. Evidentemente, Jesus também os convocou de volta a Jerusalém, pelo menos ao cabo do período de quarenta dias. Lá eles estariam presentes para a festa de Pentecostes. Podemos imaginar aparições frequentes com instrução contínua, pois Lucas registra que Jesus “ficou com eles”. A maioria dessas aparições e discursos não está registrada. Lucas escreve nos Atos dos Apóstolos: “E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem aí o cumprimento da promessa de seu Pai, ‘que ouvis­tes’ — disse Ele — ‘da minha boca; porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias’” (At 1, 4).

VIII. A aparição final e Ascensão

  • Após quarenta dias de aparições e instruções, temos um relato final da última aparição (a 12.ª) em que Ele os conduz a um lugar perto de Betânia e lhes dá as instruções finais para esperar em Jerusalém até que o Espírito Santo seja enviado. Ele então é levado ao céu à vista deles (Lc 24, 50-53; At 1, 1-11).

Eis aqui uma cronologia possível e, se posso dizer, provável das aparições do Ressuscitado. É uma síntese que tenta coligir todas as informações e apresentá-las em sequência lógica. Há limites para o que podemos esperar dos relatos das Escrituras. Encaixá-las perfeitamente numa sequência lógica não é o que os textos se propõem a fazer. Mesmo assim, essa sequência cronológica pode ser útil e é com esse espírito que a apresento.

Notas

  1. S. Agostinho dedicou-se bastante a este assunto em sua obra De consensu evangelistarum (“Sobre a concordância dos evangelistas”, cujos quatro volumes podem ser lidos na íntegra aqui, em língua espanhola). (Observação feita pelo autor no corpo do texto e deslocada como nota para esta publicação. As notas a seguir são todas de nossa equipe.)
  2. Esta posição é discutível. Não se sabe se a “fração do pão” de que fala S. Lucas é a Eucaristia ou apenas uma refeição normal à maneira judaica. A última hipótese é bastante provável, já que as Escrituras, por um lado, não referem nenhuma Eucaristia celebrada por Cristo além da Última Ceia nem é verossímil, por outro, que o Ressuscitado: (i) tenha realizado a transubstanciação diante de discípulos tão abatidos e (ii), talvez, ainda não suficientemente instruídos sobre o mistério eucarístico, (iii) antes mesmo de reconfirmar a fé dos Apóstolos, os primeiros encarregados de dispensar os sacramentos da Nova Lei. Além disso, o Evangelho deixa claro que, tão-logo foi reconhecido na fração do pão, Cristo desapareceu. Os dois então saíram dali às pressas, talvez — o texto permite supô-lo — sem nem comer do pão partido, o que, se se tratasse da Eucaristia, atentaria contra a dignidade do sacramento e a integridade da celebração.
  3. Neste ponto, o autor parece estar de acordo com bons intérpretes. S. Lucas deixa claro que Cristo ascendeu aos céus no Horto das Oliveiras (cf. 24, 50); portanto, na Judeia. A aparição num monte na Galileia é anterior ao retorno dos Apóstolos a Jerusalém, onde permanecerão até Pentecostes. Eutímio interpreta assim esse trecho de S. Marcos: “Depois de ter falado com eles”, ou seja, “não só estas, mas também todas as palavras de quantas lhes disse desde o dia de sua ressurreição até se completarem os quarentas dias em que aparecia aos discípulos e convivia com eles.” João de Maldonado, SJ, diz abertamente que à aparição no monte galilaico não se seguiu de imediato a Ascensão do Senhor.

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Súplica ardente aos Santos Anjos
Oração

Súplica ardente aos Santos Anjos

Súplica ardente aos Santos Anjos

Os Santos Anjos nos foram dados por Deus como guias e protetores especiais, mas muitas vezes nos esquecemos de rezar a eles. Para este fim, pode ser de grande utilidade esta “Súplica ardente”, recomendada para situações extraordinariamente difíceis.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Abril de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A oração a seguir, muito propagada pela Obra dos Santos Anjos, recebeu aprovação eclesiástica do Vicariato de Roma em 6 de fevereiro de 1997, e é um auxílio poderoso em situações extraordinariamente difíceis — como são as que vivemos.

Consiste essencialmente em súplicas aos Santos Anjos, e de modo especial aos Arcanjos cujos nomes, revelados nas Sagradas Escrituras, conhecemos: São Miguel, São Gabriel e São Rafael. Que os fiéis se dirijam em prece a esses espíritos bem-aventurados, é coisa que não deve impressionar ninguém, especialmente se estamos acostumados a recitar a célebre oração do Santo Anjo. Tampouco nos deve surpreender que eles tenham recebido de Deus o encargo de nos proteger, quando a própria Escritura dá testemunho disto: “O Senhor deu uma ordem a seus anjos, para em todos os caminhos te guardarem” (Sl 90, 11) — sem falar dos incontáveis testemunhos da Tradição a esse respeito. 

Disponibilizamos abaixo, enfim, o texto dessa oração, que pode ser rezada individualmente e em dois coros. Ela também pode ser recitada a partir deste arquivo em formato .pdf.


Deus uno e trino, onipotente e eterno! Antes de suplicarmos aos vossos servos, os Santos Anjos, prostramo-nos diante de vós e vos adoramos, Pai, Filho e Espírito Santo! Bendito e louvado sejais por toda a eternidade! E que todos os anjos e homens, por vós criados, vos adorem, vos amem e vos sirvam, ó Deus santo, Deus forte, Deus imortal!
E vós, Maria, Rainha de todos os anjos, aceitai benigna as súplicas dirigidas aos vossos servos e apresentai-as junto do trono do Altíssimo — vós que sois a onipotência suplicante e medianeira das graças — a fim de obtermos graça, salvação e auxílio. Amém. 

Poderosos Santos Anjos, que por Deus nos fostes concedidos para nossa proteção e auxílio, em nome da Santíssima Trindade nós vos suplicamos:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pelo poderosíssimo nome de Jesus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos por todas as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos por todos os martírios de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela Palavra santa de Deus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pelo Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome do amor que Deus tem por nós, pobres:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome da fidelidade de Deus por nós, pobres:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome da misericórdia de Deus por nós, pobres:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome de Maria, Rainha do Céu e da terra:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos em nome de Maria, vossa Rainha e Senhora:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela vossa própria bem-aventurança:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela vossa própria fidelidade:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos pela vossa luta na defesa do Reino de Deus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Nós vos suplicamos:
Protegei-nos com o vosso escudo! 

Nós vos suplicamos:
Defendei-nos com a vossa espada! 

Nós vos suplicamos:
Iluminai-nos com a vossa luz! 

Nós vos suplicamos:
Salvai-nos sob o manto protetor de Maria! 

Nós vos suplicamos:
Guardai-nos no Coração de Maria! 

Nós vos suplicamos:
Confiai-nos às mãos de Maria! 

Nós vos suplicamos:
Mostrai-nos o caminho que conduz à Porta da Vida: o Coração aberto de Nosso Senhor! 

Nós vos suplicamos:
Guiai-nos com segurança à Casa do Pai celestial! 

Todos vós, nove coros dos espíritos bem-aventurados:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Vós, nossos companheiros especiais, a nós dados por Deus:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

Insistentemente vos suplicamos:
Vinde depressa, socorrei-nos! 

O Sangue Preciosíssimo de Nosso Senhor e Rei foi derramado por nós, pobres.
Insistentemente vos suplicamos: vinde depressa, socorrei-nos! 

O Coração de Nosso Senhor e Rei bate por amor de nós, pobres.
Insistentemente vos  suplicamos: vinde depressa, socorrei-nos! 

O Coração Imaculado de Maria, Virgem puríssima e vossa Rainha, bate por amor de nós pobres.
Insistentemente vos suplicamos: vinde depressa, socorrei-nos! 

São Miguel Arcanjo, vós, príncipe dos exércitos celestes, vencedor do dragão infernal, recebestes de Deus força e poder para aniquilar, pela humildade, a soberba dos poderes das trevas.
Nós vos suplicamos que nos ajudeis a ter uma verdadeira humildade de coração, uma fidelidade inabalável no cumprimento contínuo da vontade de Deus e a fortaleza no sofrimento e na penúria. Socorrei-nos para subsistirmos perante o tribunal de Deus! 

São Gabriel Arcanjo, vós, Anjo da Encarnação, mensageiro fiel de Deus, abri os nossos ouvidos também às suaves exortações e chamadas do Coração amoroso de Nosso Senhor.
Nós vos suplicamos que fiqueis sempre diante do nosso olhar para compreendermos bem a palavra de Deus, a seguirmos e lhe obedecermos e, assim, realizarmos aquilo que Deus quer de nós. Ajudai-nos a estar sempre disponíveis e vigilantes, de modo a que o Senhor, quando vier, não nos encontre dormindo! 

São Rafael Arcanjo, vós, flecha de amor e remédio do amor de Deus,
nós vos suplicamos, feri o nosso coração com o amor ardente de Deus e nunca deixeis que esta ferida sare, para que, também no dia a dia, permaneçamos sempre no caminho do amor e tudo vençamos através do amor!

Socorrei-nos, vós, nossos irmãos grandes e santos, que conosco servis diante de Deus!
Defendei-nos de nós próprios, da nossa covardia e tibieza, do nosso egoísmo e avareza, da nossa inveja e desconfiança, da nossa avidez de fartura, bem-estar e estima pública. 

Desatai em nós as algemas do pecado e do apego às coisas terrenas. Tirai dos nossos olhos as vendas que nós mesmos nos pusemos para não precisarmos ver a miséria ao nosso redor e permanecermos, assim, sossegados numa contemplação e compaixão de nós mesmos.
Cravai no nosso coração o aguilhão da santa inquietude por Deus, para que não cessemos de procurá-lo com ânsia, contrição e amor.

Contemplai o Sangue de Nosso Senhor, derramado por nossa causa!
Contemplai as lágrimas da vossa Rainha, choradas por nossa causa! 

Contemplai em nós a imagem de Deus, que Ele por amor imprimiu na nossa alma e agora está desfigurada por nossos pecados!
Auxiliai-nos a conhecer Deus, adorá-lo, amá-lo e servi-lo! 

Auxiliai-nos na luta contra os poderes das trevas que disfarçadamente nos envolvem e afligem.
Auxiliai-nos para que nenhum de nós se perca e, um dia, nos reunamos todos, jubilosos, na eterna bem-aventurança. Amém. 

Como complemento a essas súplicas, pode-se invocar durante o dia, muitas vezes, os Santos Anjos: 

São Miguel, assisti-nos com os vossos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós! 
São Gabriel, assisti-nos com os vossos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós! 
São Rafael, assisti-nos com os vossos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós!

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Santo Hermenegildo, um mártir entre os convertidos
Santos & Mártires

Santo Hermenegildo,
um mártir entre os convertidos

Santo Hermenegildo, um mártir entre os convertidos

Hermenegildo era filho do rei visigodo da Espanha, mas, pelo apostolado de sua esposa e de um santo bispo, passou a estimar “mais a graça de Deus que a de seu pai”. Por isso ele morreu, perdendo literalmente a cabeça. Mas seu martírio não ficaria sem fruto…

Plinio Maria Solimeo13 de Abril de 2021Tempo de leitura: 6 minutos
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A vida de Santo Hermenegildo (564-585) foi narrada por quatro de seus contemporâneos: João de Biclaro, historiador espanhol; Santo Isidoro de Sevilha, na sua História dos Godos e dos Suevos; São Gregório de Tours, na sua História dos Francos; e o Papa São Gregório Magno, que a conheceu através de peregrinos espanhóis em viagem a Roma e a transcreve nos seus Diálogos.

Os visigodos arianos na Espanha. — A dominação dos visigodos na Espanha durou quase dois séculos. E, sendo eles hereges arianos, reinava a perseguição religiosa contra os católicos. A fé ortodoxa foi então perseguida como nunca antes, nem mesmo na época dos imperadores romanos. “Foi grande milagre, sem dúvida, que o ódio sectário dos conquistadores não lograsse vencer a constância dos católicos, e que a Espanha toda não se visse arrastada a uma apostasia geral. A heresia não logrou senão aumentar o número de mártires” [1].

Do primeiro casamento de Leovigildo, rei dos visigodos da Espanha (569-586), com uma princesa da qual não se guardou o nome, nasceram dois filhos: Hermenegildo e Recaredo. Estes foram educados na doutrina ariana do pai, que se casou em segundas núpcias com Goswinda, viúva do rei Atanagildo da Austrásia, furibundamente ariana.

Em 579 Hermenegildo casou-se com Ingonda, filha de Segisberto da Austrásia e de sua esposa Brunequilda, filha do primeiro casamento de Goswinda. Neta, portanto, de Goswinda, com o casamento Ingonda tornou-se também sua nora.

Como a exemplo de seus pais Ingonda era decididamente católica, Goswinda tomou como ponto de honra pervertê-la para o arianismo. Inicialmente com boas palavras e através de persuasão. Mas como não surtiu efeito, começou a utilizar a força. Assim, um dia quis que ela recebesse o batismo ariano. Ingonda respondeu-lhe: “Basta-me ter sido batizada uma vez e regenerada em nome da Trindade Santíssima, na qual adoro as três Pessoas iguais em um todo. Essa é a crença de minha alma, e jamais dela me apartarei”. Goswinda agarrou-a então pelos cabelos, maltratou-a como pôde, e, com a ajuda de algumas aias, arrastou-a até um tanque, onde lhe ministrou à força um batismo sacrílego. Tratou-se de um arremedo de batismo duplamente inválido: realizado à força e sem invocar a Santíssima Trindade, na qual os arianos não acreditavam por negarem a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hermenegildo abjura da heresia. — Muito penalizado com essa atitude da esposa, o rei Leovigildo enviou o jovem casal para a Bética (correspondente mais ou menos à Andaluzia atual), nomeando Hermenegildo governador. Outros dizem que ele foi para aquela região com o título de rei.

Irritado de um lado com o selvagem tratamento dispensado pela madrasta à sua esposa, e beneficamente influenciado de outro lado pelos habitantes hispano-romanos da Bética — maciçamente católicos e com tensas relações com os visigodos arianos —, Hermenegildo, em decorrência de tal ambiente somado ao apostolado da esposa e de São Leandro, arcebispo de Sevilha, abjurou da heresia ariana, tornando-se sincero católico.

São Leandro, arcebispo de Sevilha, numa pintura de Murillo.

Declaração de guerra do pai ao filho. — Ao saber da conversão do filho, Leovigildo o intimou a comparecer em Toledo na sua presença. Em seguida (580) convocou um concílio de bispos arianos nessa cidade, no qual, para atrair os católicos, foi decretado que dali em diante não seria mais necessário rebatizar-se para passar para o arianismo. Também, a pedido do rei e com o mesmo fim, redigiu-se uma nova profissão de fé. O próprio rei deu um exemplo de tolerância religiosa ao ir junto com os católicos venerar as relíquias dos mártires. Mas estes não se deixaram enganar. Tanto mais que no referido concílio herético o rei visigodo declarou seu intento de unificar a península sob o arianismo. A conversão do filho vinha atrapalhar seus planos [2].

Sabendo da pressão que sofreria em Toledo para renegar a verdadeira fé, Hermenegildo negou-se a comparecer diante do pai. Este viu nessa atitude uma declaração de guerra e preparou seus exércitos para ir-lhe ao encalço.

Por sua vez, para enfrentar o poderoso exército real, Hermenegildo aliou-se com os bizantinos, que dominavam a região sul-oriental da Espanha, e também chamou em sua ajuda Mirão, rei dos suevos da Galícia.

Após comprar a neutralidade de Bizâncio, Leovigildo arrebatou num ímpeto Mérida. Comprou depois Mirão e, livre desses escolhos, preparou-se para o assalto final a Sevilha. Esta lhe resistiu por dois anos (583-584), findos os quais, por falta de víveres e munição, caiu sob o poder real.

Após enviar a esposa e o filho a Constantinopla, para sob a proteção do imperador bizantino ali estarem imunes dos azares da guerra, Hermenegildo fugiu para Córdoba, refugiando-se numa igreja.

Local considerado sagrado já naquela remota época, Leovigildo não quis violar o direito de asilo na igreja. Mandou então seu filho Recaredo falar com o irmão, e este o convenceu a entregar-se ao pai, prometendo-lhe o perdão.

Efetivamente o rei apareceu, abraçou o filho e o levou para Toledo. Mas, pouco depois, mandou-o preso inicialmente para Valência e depois para Tarragona.

No Sábado Santo de 586 o prisioneiro pediu para confessar-se e receber a Sagrada Comunhão de um bispo católico. Mas quem apareceu foi um bispo ariano, que veio dar-lhe a Comunhão e oferecer-lhe a graça paterna, caso abjurasse do catolicismo.

Na prisão, recebe a graça do martírio. — Eis como o Papa São Gregório Magno narra o sucedido: 

Sobreveio a festividade da Páscoa, e naquela noite o pérfido rei Leovigildo enviou um bispo ariano ao cárcere para que seu filho recebesse a comunhão do sacratíssimo corpo de Cristo da mão sacrílega daquele herege, prometendo-lhe, se a aceitasse, de admiti-lo em sua graça. O santo moço, se bem que estivesse atado e afligido no corpo, estava livre e desperto na alma. E, estimando mais a graça de Deus do que a de seu pai, afastou de si o bispo ariano repreendendo-o e dizendo-lhe as palavras que merecia ouvir [3].

Pouco tempo depois o rei mandou um homem chamado Sisberto à prisão, o qual decepou com um machado a cabeça de Hermenegildo.

São Gregório diz que, no silêncio da mesma noite do martírio, ouviu-se sobre o corpo do mártir uma música celestial, e espargiram-se muitas luzes.

“A Apoteose de S. Hermenegildo”, por Francisco Herrera, o Velho.

Um impressionante milagre de São Hermenegildo consistiu na meia-conversão de seu pai. Meia conversão, pois não foi completa com a abjuração pública do arianismo. Com muita dor e arrependimento pelo que havia feito — “mas não de maneira que lhe aproveitasse para alcançar a salvação eterna”, diz o Sumo Pontífice — reconheceu que a fé católica era verdadeira, “mas não se atreveu a declará-lo para não perder o reino”. Entretanto, recomendou a São Leandro seu filho Recaredo, que devia suceder-lhe no trono. Pouco depois morreu. “Essa mudança maravilhosa — narra São Gregório — não teria de modo nenhum se realizado se Hermenegildo não tivesse derramado seu sangue pela verdade” [4].

A pós-história de Santo Hermenegildo. — Seguindo os conselhos de São Leandro, Recaredo governou com prudência seus Estados. Pouco depois de elevado ao trono, abjurou da heresia ariana e se converteu ao catolicismo, sendo acompanhado por todos os visigodos.

No século XVI, o Papa Sixto V concedeu o ofício de Santo Hermenegildo a toda a Espanha. O mesmo foi estendido no século seguinte por Urbano VIII à Igreja universal. Sua festa comemora-se no dia 13 de abril [5].

Alguns historiadores quiseram privar Santo Hermenegildo do título de mártir. Entre eles o próprio São Gregório de Tours, seu contemporâneo, o qual afirmou que o santo não deveria ter-se levantado contra o pai. Ele teria errado “por haver ignorado que, a quem ousa levantar-se contra seu pai, mesmo que este seja herege, espera-o o juízo divino” [6]. Outros acrescentam que sua morte se deveu a uma sublevação política, ainda que as providências tomadas por Leovigildo tenham sido inspiradas pelo ódio à fé católica.

Entretanto, conforme relatam os mesmos historiadores, a condição imposta em quase todas as tentativas de reconciliação feitas pelo rei foi da abjuração de Hermenegildo à fé católica, ao que ele sempre se opôs com tenacidade. E foi por esse motivo que o rei ditou sua sentença de morte. Isso fica muito claro no relato de São Gregório Magno, que narra ainda os milagres ocorridos logo depois do martírio do santo, como prova de que o mesmo foi bem aceito pelo Eterno Padre.

Notas

  1. Edelvives, Editorial Luis Vives, S.A., Zaragoza, 1947, tomo II, p. 443.
  2. Cf. Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., San Hermenegildo, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 121.
  3. Diálogos, apud Pe. Pedro de Ribadeneira, Flos Sanctorum, in Dr. Eduardo Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Editores, Barcelona, 1896, tomo II, p. 62. (Nota da Equipe CNP: Este relato também se encontra na terceira leitura das Matinas do dia 13 de abril, no antigo Ofício Divino.)
  4. Id., ib.
  5. O texto original diz que a festa de S. Hermenegildo se celebra no dia 4 de abril, mas a data correta é 13 de abril, data de sua morte. De todo modo, seu nome não consta atualmente no calendário litúrgico geral, de onde foi tirado devido à importância relativa de sua festa para a Igreja universal — “quia non agitur de Sancto ‘momentum universale revera prae se ferente’” (Calendarium Romanum. Typis Polyglottis Vaticanis, 1969, p. 120) (Nota da Equipe CNP).
  6. R. Jiménez Pedrajas, San Hermenegildo, Gran Enciclopedia Rialp, Ediciones Rialp, S.A., Madrid, 1972, p. 708.

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