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A fé não tão bíblica dos protestantes
Doutrina

A fé não tão bíblica dos protestantes

A fé não tão bíblica dos protestantes

Nem tudo o que crêem e professam os filhos de Lutero encontra um fundamento sólido e explícito nas Sagradas Escrituras.

Trent HornTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2017
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Quando católicos e protestantes discutem sobre aquilo que os divide, os segundos vira e mexe lançam aos primeiros a seguinte pergunta: “Onde a Bíblia diz isso?” No entanto, pouquíssimas vezes os protestantes aplicam esse mesmo critério, o da “sola Scriptura”, às suas próprias crenças. Se o fizessem, perceberiam que muitas delas vêm, não da Bíblia, mas de alguma tradição teológica recebida seja dos pais, seja de um pastor.

Vejamos apenas três exemplos de tradições protestantes que não se baseiam nas Escrituras.


1.º) Em que trecho a Bíblia afirma que nós não somos purificados de nossos pecados depois da morte?

A pergunta mais frequentes que nos costuma ser feita é esta: “Onde a Bíblia fala do Purgatório?” Os protestantes que partem do princípio de que a doutrina católica sobre a vida eterna deveria estar explicitamente fundamentada nas Escrituras raramente aplicam esse mesmo critério às suas próprias crenças sobre a vida após a morte. O autor protestante William Edward Fudge escreve a esse propósito:

Ao falarem dos Novíssimos, os reformadores nunca constroem sua escatologia sobre os fundamentos da Escritura [...]. Lutero e Calvino rejeitaram a doutrina da Igreja Católica Romana referente ao Purgatório, por exemplo, não porque tenham estudado a Bíblia a fundo e descoberto que o Purgatório é estranho à escatologia bíblica, mas porque se tratava de uma doutrina claramente incompatível com a ideia de justificação que eles acharam na Bíblia [1].

Os protestantes costumam acreditar que todo cristão, imediatamente depois da morte, se une com Cristo, razão por que não seria necessário nenhum tipo de purificação. No entanto, os trechos que eles citam a favor desta doutrina, como por exemplo Fl 1, 23 (“Desejaria desprender-me para estar com Cristo, o que seria imensamente melhor”) e 2Cor 5, 8 (“Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor”) não sobrevivem a um exame mais atento.

Dizer, por exemplo: “Quando estou trabalhando no meu escritório, estou longe de minha família” não significa que eu estarei em casa com minha família no exato momento em que for embora do escritório (eu poderia muito bem ter de passar horas no trânsito). Do mesmo modo, o desejo de estar com Cristo não é prova de que não haverá um processo de purificação antes de realizarmos este desejo. De fato, a passagem de 2Cor 5, 10 nos ensina que podemos, sim, estar separados de nossos corpos e, ao mesmo tempo, não estar em casa com o Senhor: “Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo”.


2.º) Onde a Bíblia diz que devemos aceitar Jesus como nosso Senhor e Salvador pessoal?

Os protestantes que se opõem à Missa e aos sacramentos, por não terem fundamento bíblico nem serem necessários, costumam afirmar que tudo o que precisamos fazer, no final das contas, é aceitar Jesus como nosso Senhor e Salvador e confessar nossos pecados diretamente a Deus, em de vez de confessá-los a um sacerdote.

Sem levar em consideração o fato de que a Missa e os sacramentos estão, sim, presentes na Bíblia, é importante notar que a ideia segundo a qual a fé deve estar baseada unicamente numa relação pessoal e de tipo afetivo com Jesus não tem, na verdade, nenhuma base bíblica [2].

Isso não significa que seja errado pedir a Jesus que tenha conosco uma relação pessoal; significa tão-somente que esta crença protestante, uma das mais importantes, não se encontra, ao fim e ao cabo, nas Escrituras. A Bíblia, além disso, nunca nos manda confessar os nossos pecados a Jesus Ressuscitado, ainda que quase todos os cristãos não vejam problema nenhum em fazê-lo. É por isso que os partidários da “sola Scriptura” deveriam, pelo menos, repensar a própria fé com respeito a esses pontos — ou talvez repensar a própria fé na “sola Scriptura.

A Confissão, por Egbert van Heemskerck.

Os protestantes costumam citar ainda 1Jo 1, 9 para defender a ideia de que só devemos confessar os nossos pecados a Deus (e não a um sacerdote), já que ali se diz: “Se reconhecemos [em grego, homologōmen, de homologeō] os nossos pecados, (Deus aí está) fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniqüidade”. Acontece, porém, que este trecho não diz que só devemos confessar os nossos pecados a Deus. O contexto desta passagem diz respeito mais ao que confessamos ou dizemos aos outros homens do que às coisas que confessamos a Deus.

O versículo anterior: “Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” e o versículo seguinte: “Se pensamos não ter pecado, nós o declaramos mentiroso e a sua palavra não está em nós” retratam os fiéis falando entre si. De fato, com exceção de Hb 13, 15, o termo homologeō nunca é empregado para descrever o ato de confessar algo a Deus; nos escritos de São João, é utilizado sempre com o sentido de “confessar uma crença a outro homem”. Ora, nunca é demais lembrar que, tanto no sacramento da Confissão quanto no da Unção dos Enfermos, o sacerdote não perdoa e cura diretamente; antes, ele é o meio através do qual Deus nos comunica o perdão e a cura.

Muitos protestantes estariam de acordo com isto no caso, por exemplo, do Batismo, uma vez que, tal como os católicos, eles negam de costume a validade do “auto-Batismo”. Ora, quem crê na regeneração batismal sabe muito bem que, embora Deus seja o único que pode apagar os pecados, Ele não age sozinho na hora de fazê-lo no Batismo. Com efeito, Deus atua por meio de outros fiéis, que batizam em nome dEle. Este mesmo princípio se aplica ao caso em que Deus se serve de um ministro para perdoar os pecados na Confissão.


3.º) Em que lugar a Bíblia diz que a revelação se encerrou com o fim da era apostólica?

Os protestantes afirmam também que a Palavra de Deus se reduz ao que está registrado nas Escrituras, de maneira que não houve nenhuma nova revelação depois de ter sido escrito o último livro da Bíblia. Os católicos aceitam que a revelação pública, ou seja, o depósito da fé, terminou com a morte do último Apóstolo (isto inclui os Apóstolos e seus companheiros, como São Marcos e São Lucas). Nós, porém, não concordamos com a ideia de que esta verdade só pode ser conhecida unicamente pelas Escrituras. Os protestantes que têm uma atitude cética com respeito à Sagrada Tradição deveriam perguntar-se a si mesmos por que motivos acreditam que a revelação pública acabou, já que as Escrituras por si sós não o garantem.

Há no entanto quem diga que essa verdade se baseia em Jd 3, onde se fala da “fé, confiada de uma vez para sempre aos santos” — o que por si mesmo não prova que a revelação pública tenha terminado de vez. O apologista protestante John MacArthur defende que a palavra grega traduzida aqui por “confiada” designa “uma ação completa no passado e sem continuidade”. Ele afirma ainda que a expressão “de uma vez para sempre” (em grego, hapax) equivale a “nada mais precisa ser acrescentado à fé que já foi transmitida ‘de uma vez para sempre’”. Ora, isso implicaria que a “fé” já fora definitivamente transmitida antes mesmo de Judas escrever sua carta, o que, noutras palavras, significa que o ensinamento de Judas a respeito da conclusão da revelação pública não faz parte, ele mesmo, da revelação pública contida nas Escrituras.

Aí também se confunde a expressão “confiar a fé” com o conceito de revelação pública. Jesus confiou “a fé” de uma vez para sempre aos Apóstolos, mas a revelação pública da fé continuou durante décadas, enquanto eram escritos os livros do Novo Testamento. Ora, não há nenhuma evidência bíblica explícita de que essa revelação tenha acabado depois da morte do último Apóstolo (e nem de que tenha continuado, não já por décadas, mas por séculos).

Católicos e protestantes estão de acordo quanto ao fato de a revelação pública ter-se concluído, sim, na era apostólica da Igreja. O Catecismo ensina que “já não se há de esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (n. 66). Os católicos, não obstante, crêem nesta verdade baseados na autoridade do Magistério, que preserva o conteúdo da Palavra de Deus em suas duas formas: escrita (Bíblia) e não escrita (Tradição) — e não, como fariam os protestantes, baseados apenas no ensinamento das Escrituras.

Por isso, quando um protestante perguntar: “Onde a Bíblia diz isso?”, você deve, com toda caridade, perguntar de volta: “Onde a Bíblia diz que tudo o que nós, cristãos, devemos crer precisa estar escrito na Bíblia?” Assim, você poderá mostrar como outras crenças protestantes estão enraizadas, não nas Escrituras, mas em tradições — humanas ou divinas.

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Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”
Doutrina

Eucaristia:
“até os demônios crêem, e tremem”

Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”

“Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: ‘Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?’”

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Junho de 2019
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A “rotina” pode fazer com que, muitas vezes, percamos um pouco a noção do que sejam a Santa Missa, a Eucaristia e a recepção da Comunhão sacramental. Os abusos litúrgicos que acontecem, aos montes, em tantas de nossas paróquias também acabam não contribuindo muito para fazer brilhar o mistério que aí se realiza. O seguinte testemunho do Mons. Charles Pope (tradução e grifos nossos), no entanto, talvez nos ajude a considerar melhor a grandeza do que estamos a celebrar nesta semana de Corpus Christi:

Foi quase 15 anos atrás, na velha igreja de Santa Maria, aqui no Distrito de Columbia, celebrando Missa em latim (na Forma Extraordinária do Rito Romano). Era uma Missa solene [...na qual] algo bem interessante estava prestes a acontecer.

Como vocês devem saber, a antiga Missa em latim é celebrada ad orientem (isto é, voltada ao “leste litúrgico”). O padre e todo o povo voltam-se para a mesma direção. O que isso significa para o celebrante, na prática, é que o povo fica às suas costas. Era o momento da consagração. Nessa hora, o padre deve fazer uma leve inclinação, com seus antebraços sobre a mesa do altar e a Hóstia em seus dedos.

Também como deve ser, as veneráveis palavras da consagração foram ditas em voz baixa, mas clara: Hoc est enim Corpus meum (“Isto é o meu Corpo”). A sineta tocava enquanto eu me ajoelhava.

Mas atrás de mim notei uma espécie de perturbação; uma voz agitada ou como um sussurro veio dos primeiros bancos atrás de mim, à minha direita, e então um gemido ou murmúrio. “O que foi isso?”, eu me perguntei. Não se parecia mesmo com um som humano; parecia mais o grunhido de um grande animal, como um javali ou um urso, juntamente com um resmungão que também não parecia humano. Elevei a Hóstia e novamente me perguntei: “O que foi isso?” Silêncio, então. Como celebrante na antiga Missa latina, não me era fácil virar para olhar. Mas eu ainda pensava: “O que foi isso?”

Era o momento da consagração do cálice. Mais uma vez eu me inclinei levemente, pronunciando clara e distintamente, mas em voz baixa: Hic est enim calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti; mysterium fidei; qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum. Haec quotiescumque feceritis in mei memoriam facietis (“Tomai e bebei dele todos vós, pois este é o Cálice do meu Sangue, do Sangue da nova eterna aliança, mistério da fé, o qual será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados. Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim”).

Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: “Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?” De repente irrompeu um ruído como de uma briga e alguém saiu gemendo como se tivesse sido machucado. As portas se abriram e fecharam. Depois, silêncio.

[...] Eu não podia virar para olhar pois estava elevando o Cálice bem acima da minha cabeça. Mas eu percebi naquele instante que uma pobre alma atormentada pelo demônio havia se deparado com Cristo na Eucaristia e não podia suportar sua presença real sendo exibida para todos verem. Vieram-me à mente, então, as palavras da Escritura: “Até os demônios crêem, e tremem” (Tg 2, 19).

[...] Mas assim como São Tiago usou essas palavras para recriminar a pouca fé de seu rebanho, também eu tinha com o que me acusar. Por que um homem perturbado pelo demônio estava mais consciente da Presença Real e mais impressionado por ela do que eu estava? Ele ficou movido em um sentido negativo e fugiu. Por que não estava eu mais movido do que ele, em um sentido positivo? E quanto aos outros fiéis, que estavam nos bancos? Eu não duvido de que todos ali acreditávamos, com a inteligência, na Presença Real. Mas é algo bem diferente e muito mais belo ser movido até as profundezas da própria alma! É tão fácil ficarmos sonolentos na presença do Divino, esquecendo-nos da Presença milagrosa e impressionante que está à nossa disposição.

Registre-se que, naquele dia, quase 15 anos atrás, ficou ainda mais claro para mim que eu segurava em minhas mãos o Senhor da glória, o Rei dos céus e da terra, o justo Juiz e Dominador dos reis da terra. — Estaria o Senhor verdadeiramente presente na Eucaristia? — É melhor que você acredite, pois até os demônios o fazem!

Ao ler o relato desse sacerdote, é inevitável que nos venham à mente os inúmeros trechos do Evangelho em que os demônios reagem de modo muito similar à presença de Nosso Senhor. Em comentário a essas passagens, os Doutores da Igreja nos ensinam que, embora não tenham fé divina e sobrenatural, os maus anjos têm um certo conhecimento da divindade de Cristo, e por isso não lhe podem ser indiferentes. Santo Agostinho diz, por exemplo, que Jesus se manifestou aos demônios “não enquanto vida eterna e luz que ilumina os piedosos, mas por certos efeitos temporais de seu poder e por sinais ocultos de sua presença, mais perceptíveis aos espíritos angélicos, mesmo que malignos, do que à fraqueza humana” [1]; e São Jerônimo, por sua vez, que “tanto os demônios como o Diabo mais suspeitavam do que compreendiam que Ele era o Filho de Deus” [2].

Ou seja, os mesmos espíritos malignos que dois mil anos atrás reagiam com fúria e gritos à presença do Deus feito carne, são retratados respondendo com igual ódio e indignação à presença real de Jesus na Eucaristia. Que o fato acima seja verídico ou não, é o de menos: ninguém é obrigado a crer nas palavras de um padre. Mas ao ensino do Senhor e da sua Santa Igreja de que, “sim, na Eucaristia está verdadeiramente o mesmo Jesus Cristo que está no Céu e que nasceu, na terra, da Santíssima Virgem Maria” [3] — nisto sim, todos estamos obrigados a crer, por fidelidade a Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar.

“Problemático” falar disso, não? Pouco “ecumênico”, alguém diria. Mas não é de hoje: as palavras de Cristo sobre sua presença no Santíssimo Sacramento, desde o discurso do pão da vida até as recentes manifestações magisteriais sobre a Eucaristia, sempre foram uma grande “pedra de tropeço”. — Que haja quem acredite piamente que o próprio Deus, Criador do céu e da terra, se fez homem, já é grande absurdo… — assim pensa o mundo. — Agora, que haja, nesse grupo já seleto de pessoas, um grupo mais ousado ainda a ponto de proclamar que Deus, além de se fazer homem, ainda se esconde sob a aparência de um simples pedaço de pão, é escândalo em cima de escândalo.

Aquele grupo que crê na Encarnação são os cristãos; este grupo que crê também na transubstanciação são os católicos. De modo que, se para o mundo, os cristãos já são loucos, para os próprios cristãos, nós, católicos, somos o ápice da loucura. Por crermos na Eucaristia, os protestantes nos têm por fanáticos e idólatras, que se prostram diante de uma “bolacha”; por causa desse dogma em especial, somos “como que o lixo do mundo, a escória de todos” (1Cor 4, 13).

E como os católicos somos chamados a reagir a tudo isso? Com luto, lágrimas e depressão? Não, muito pelo contrário!

Neste dia de Corpus Christi, somos convocados, isso sim — principalmente por se tratar de dia de preceito —, a tomar as ruas de nossas cidades e, cheios de fé, proclamar nosso amor ao Santíssimo Sacramento com orações, cantos e muita alegria. Alegria principalmente por saber que o mesmo Jesus de Nazaré, que caminhou entre os homens dois mil anos atrás, continua realmente vivo em nossas igrejas, “habitando no meio de nós” todas as vezes que o sacerdote católico pronuncia as veneráveis palavras da consagração: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. Alegria por saber que, assim como Cristo, cabeça da Igreja, teve de passar por sua via crucis recebendo o desprezo do mundo, agora é a vez dos católicos, enquanto membros do seu corpo, passarem pela mesma execração pública.

Mas, ainda que nos ataquem com virulência, que nos chamem de idólatras e caçoem de nossa santa religião — mesmo se com isso os zombadores acabem se assemelhando aos demônios do Evangelho, e da história acima contada —, só o que nos deve encher o coração é um profundo desejo de que todos, sem exceção, venham a desfrutar um dia da mesma dádiva que nós, católicos, temos a graça de possuir… porque deve ser uma tremenda miséria entrar em um templo cristão e não ver, ao fundo, ocupando o centro de todas as atenções, a presença eucarística de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Referências

  1. De Civitate Dei IX, 21, citado por Santo Tomás de Aquino, Catena aurea (In Matth., c. VIII, l. 8). Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 323.
  2. Id., p. 323.
  3. Catecismo de São Pio X, n. 595.

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Silêncio, a especialidade de Deus
Espiritualidade

Silêncio, a especialidade de Deus

Silêncio, a especialidade de Deus

Quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Pe. Raul PlusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2019
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À alma que quer ouvir os chamamentos divinos é necessário o recolhimento, em primeiro lugar, por causa da discrição de Deus.

Deus age sempre da mesma maneira: apraz-lhe ocultar-se. Só o descobrem os que estão atentos.

Às vezes as pessoas acham estranho que tantos cheguem a duvidar da existência de Deus. Acaso não prova a Criação que haja um Criador? Sim, certamente, mas se a razão afirma que Deus existe, a experiência não o percebe. O soberano Senhor oculta-se atrás das causas segundas. Ele, que é a causa total, não quer ser a causa única. Desde o seu distante quartel general ele tudo dirige; mas os homens, em contato sensível apenas com os intermediários, esquecem o chefe supremo de quem tudo depende. Toda causa segunda seria de uma indigência absoluta se Deus não lhe desse o poder de produção; mas como essa causa aparece em primeiro plano, o homem não vê mais do que a ela. É preciso refletir para descobrir a Deus.

Deus põe em tudo esta sublime discrição. Ele passeia por sua obra em todo tempo e lugar, mas procede como no Paraíso terrestre: sua marcha é silenciosa, e é preciso estar atento para perceber seu passo, que quase não faz barulho na areia, ali, muito perto, atrás do pequeno bosque.

Se tal discrição divina é palpável na ordem natural, quanto mais patente é, todavia, na ordem sobrenatural!

O Verbo decide vir à terra para encarnar-se. Credes que o fará impondo-se pelo brilho e pela pompa, e proclamando de certo modo: “Atenção! Entendei bem quem é que vos fala!”? De maneira alguma. Uma virgenzinha de quinze ou dezesseis anos, em uma pequena e insignificante aldeia de um pequeno país. Chama-se Maria; ninguém a conhece, salvo algumas amigas de seu povoado, Nazaré. Estando um dia em oração, recebe a proposta de chegar a ser Mãe de Deus. Duas palavras de aceitação: Ecce… Fiat! “Eis aqui… Faça-se!” — Neste mesmo instante o Verbo se faz carne.

Durante nove meses permanece oculto no seio de sua mãe como todo filho de homem… Vai nascer. Discretamente, sem publicidade alguma.

Ele tem de partir por causa do censo. Já sabeis o restante: o nascimento no campo, a manjedoura à meia-noite. Escutai: “Enquanto, sob um céu puro e no silêncio da terra, a noite estava na metade do seu curso, em segredo, longe do tumulto dos homens, o Verbo eterno do Pai assume a natureza humana e aparece aos homens, enquanto nos céus ressoava o hino: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”.

Observemos as expressões: “No silêncio da terra, à noite, em segredo, longe do tumulto”. Eis aqui Deus.

E Deus age de igual maneira ao longo de toda a história evangélica: trinta anos de vida oculta; quando fala, não é para se anunciar, mas para dar testemunho do Pai; para semear seus ensinamentos, escolhe, de preferência, os humildes povoados à beira do caminho; quando vai ensinar coisas de maior profundidade, limita voluntariamente o seu auditório: Nicodemos e a mulher do poço de Jacó, o discurso antes e depois da Ceia. Quando mostra uma única vez algo de sua glória, não leva consigo mais do que três testemunhas. Se seus milagres podem granjear-lhe em excesso o favor das multidões, desaparece, como depois da multiplicação dos pães, ou manda guardar silêncio o agraciado. Recorre a seu poder de taumaturgo apenas para confirmar sua palavra. Os Apóstolos realizarão obras de mais brilho do que as suas.

Nada mais silencioso e, ao mesmo tempo, discreto do que a transubstanciação e a presença eucarística! Pronunciam-se algumas palavras, e a substância do pão já não existe. Jesus aí está sobre o altar, e na obscuridade do tabernáculo irá permanecer dia após dia, sem buscar atrair ruidosamente atenção! Se o vão visitar, é bom; mas, se não vai ninguém, tampouco reclama: tudo passa como se Ele não estivesse ali. Ter-se-ia notado alguma mudança no bairro, se o Salvador do mundo não se encontrasse ali abaixo, na igrejinha no fim da rua?

Levam uma criança à igreja. Vão-na batizar. O que significa isto? Que a SS. Trindade irá entrar nessa alma pequenina. Ouvi-o bem: a SS. Trindade, Deus, o Ser supremo, e no entanto quem pensa na importância desse ato?

Quando um rei, um imperador ou um chefe de Estado vai a uma cidade, quantos preparativos! quantas distinções! quanta gente em movimento! Mas aqui, nada.

Quanta discrição, por parte do Salvador, no governo da Igreja! No Evangelho, a grande personagem é o Pai. Uma vez concluída a Redenção, a grande personagem é o Espírito Santo, e já o dissemos antes: Spiritus docebit vos, “o Espírito vos há-de ensinar”. Nosso Senhor, como Mestre, “fracassa” com os Apóstolos. Depois de três anos de convívio, fogem todos no momento da agonia, um o trai, outro o nega. Será preciso que desça o Espírito Santo. Só então os medrosos do Horto das Oliveiras serão valentes e saberão enfrentar o martírio. Quanta sede tem Jesus de fazer-se pequeno, de evitar aparecer! Durante a sua vida, eclipsa-se diante do Pai; depois de sua morte, fa-lo-á diante do Espírito Santo.

Há mais, porém. A Igreja que Ele estabeleceu na terra e à qual confiou as chaves do Reino de Deus, não a irá governar senão por meio de outra pessoa; não aparecerá senão o seu Vigário. Ele está ali, evidentemente, por seu Espírito Santo, preservando a Igreja de todo erro, dando aos chefes escolhidos luz e força. Mas aqui também, quantas gentes passarão ao lado da Igreja de Jesus Cristo sem reconhecer a Jesus Cristo! E isso, sem dúvida, por culpa da insignificância ou da indignidade de um grande número de seus membros, mas também porque a boa semente nem sempre germina com êxito em meio à cizânia, e o Senhor estima, mais do que os brilhantes triunfos de uma divindade da Igreja que se imponha a todos, os humildes esforços de uma Igreja divina, cuja divindade aparece apenas aos que refletem mais ou aos que são mais puros.

Se esta é a maneira habitual de Deus agir, não será preciso tê-la em conta quando se trata de uma obra realizada nas profundezas da alma, ou seja, dos convites da graça?

Jesus ressuscitado entrou no Cenáculo sem que ruído algum denunciasse a sua chegada. Com maior razão, quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. Está a alma em estado de graça? Deus se encontra já no coração da praça. Ali, convida incessantemente à fidelidade. Não espereis estrépito, mas gemitus, dirá S. Paulo, uma humilde e silenciosa modulação o mais serena possível. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Ah! razão tem de sobra o autor [1] que descreve assim a ação de Deus em nossos corações: “Da mesma maneira que a água impregna a esponja docemente e sem ruído, o divino Espírito penetra sem violência na alma disposta a recebê-lo. Não se impõe; propõe-se. As visita forçadas repugnam à sua infinita delicadeza. Sua voz é doce, amiga do recolhimento e da paz. Para escutá-la, é preciso que se faça silêncio no interior”.

Referências

Notas

  1. O Pe. Augusto Drive, 4.º Diretor Geral do Apostolado da Oração, em seu excelente opúsculo Wes Dieu sous la conduite de Marie (nota do autor).

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Pornografia: um problema de saúde pública
Sociedade

Pornografia:
um problema de saúde pública

Pornografia: um problema de saúde pública

Finalmente a sociedade está se dando conta de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2019
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Enquanto uns poucos especialistas isolados, claramente comprometidos com certas agendas, insistem em defender a indústria pornográfica, o resto da sociedade está se dando conta rapidamente de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Mês passado, por exemplo, um relatório elaborado no Reino Unido descrevia como o consumo de pornografia estava transformando as escolas em “campos de batalha”, onde as meninas se sentem impelidas a comportar-se como atrizes pornô e os rapazes vêem a vida com base no lixo que consomem online. Testemunhos como este são norma entre os adolescentes:

Tudo o que a gente vê nas redes sociais está reforçando o que há de pior na “cultura jovem”. Imagens de mulheres em poses provocativas com mensagens do tipo: “É assim que toda mulher quer ser vista”… Um amigo meu queria que a namorada se vestisse como uma atriz pornô e fizesse o que faz uma atriz pornô. A pornografia está muito acessível. A gente vê rapazes assistindo a vídeos no celular dentro de sala de aula e até nos ônibus.

Além do que, outro grande estudo, divulgado mês passado, detalha a destruição causada na nossa cultura pela pornografia e confirma o consenso crescente de que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública. O estudo, que entrevistou 6.463 estudantes (2.633 homens e 3.830 mulheres), entre 18 e 26 anos, indica que quase 80% deles já foram expostos à pornografia (cifra que eu julgo até muito baixa). Os efeitos disto são enormemente preocupantes. Um dos resultados da pesquisa evidencia o que temos alertado há já algum tempo: a pornografia atua como uma droga, e os usuários tendem a procurar conteúdos cada vez mais pesados e hard-core, a fim de satisfazer o próprio vício. Eis o que o estudo diz:

Tolerância/intensificação: Os efeitos adversos mais comuns da pornografia, reconhecidos pelos próprios usuários, são: a necessidade de estímulos mais prolongados (12%) e de estímulos sexuais mais numerosos (17,6%) para poder chegar ao orgasmo, e uma diminuição do prazer sexual (24,5%) […]. O presente estudo também sugere que a exposição prematura pode estar associada a uma potencial dessensibilização a estímulos sexuais, como indicado pela necessidade de estímulos mais prolongados e numerosos para alcançar o orgasmo durante o consumo de material explícito, e também pelo decréscimo generalizado da satisfação sexual. Constataram-se ainda várias mudanças de padrão no consumo de pornografia durante o período de exposição: escolha de um gênero diferente de material explícito (46%), uso de materiais que não concordam com a própria orientação sexual (60,9%) e a necessidade de utilizar conteúdos mais extremos, isto é, violentos (32%).

Curiosamente, o estudo também chegou à conclusão de que 10,7% dos homens e 15,5% das mulheres confessaram assistir diariamente a filmes pornôs e reconheceram estar viciados, sem que haja, na prática, nenhuma diferença na taxa de adicção entre homens e mulheres. Via de regra, quem está viciado em pornografia demora para admitir que está com problema; por isso, é bastante alto o número de usuários dispostos a reconhecer que se sentem viciados em pornografia.

Mesmo entre os que não se consideram viciados, o estudo indica que são comuns sintomas típicos de abstinência: 51% já tentaram parar ao menos uma vez, dos quais 72,2% já experimentaram um ou mais sintomas de crise de abstinência, incluindo solidão, perda de libido, insônia, irritabilidade, ansiedade, tremedeiras, impulsos agressivos, depressão, sonhos eróticos e distúrbios de atenção.

Como era de esperar, quanto mais cedo uma pessoa é exposta à pornografia, maiores são as chances de ela sofrer alguns de seus efeitos negativos, sendo maiores as probabilidades entre os que foram expostos aos 12 anos ou antes. E tenhamos em mente que a idade média em que os jovens descobrem a pornografia continua a cair e encontra-se, atualmente, na faixa dos 11 anos. Os autores do estudos sugerem, cautelosos, que futuras pesquisas poderão indicar os prejuízos a longo prazo causados em adultos expostos à pornografia ainda muito cedo. Com efeito, a maioria dos participantes do estudo afirmou que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública, com muitas consequências negativas para a sociedade, mas se negou a apoiar qualquer política que restrinja o acesso a esse tipo de material. Os vícios, como toda a gente sabe, são difíceis de superar.

Como eu já disse antes e continuarei a dizer até as pessoas caírem em si: a pornografia é o inimigo número um das nossas comunidades, das nossas igrejas, das nossas famílias e dos nossos casamentos. Muitos cristãos têm treinado para as próximas batalhas nesta guerra cultural; muitas comunidades têm-se preparado para os perigos externos do totalitarismo secular. No entanto, a pornografia, infiltrando-se em nossos lares pelas telas de qualquer aparelho conectado à rede, está envenenando os relacionamentos e espaços de que vamos precisar, se quisermos sobreviver ao massacre cultural que enfrentaremos nos próximos anos.

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Quem não se recolhe, não escuta o Espírito Santo
Espiritualidade

Quem não se recolhe,
não escuta o Espírito Santo

Quem não se recolhe, não escuta o Espírito Santo

“Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida” a doce voz do Espírito Santo “e as insinuações do seu amor”.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Junho de 2019
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“O homem espiritual não se move principalmente a realizar alguma coisa pelo movimento de sua própria vontade, senão pelo instinto do Espírito Santo.”

(Pe. Antonio Royo Marín)

Depois de termos falado da “vida na carne” em seu sentido mais literal, por assim dizer, ou seja, de quem vive na lama do pecado mortal e vai se arrastando miseravelmente, dia após dia, até a condenação eterna, é chegado o momento de falarmos sobre a “vida na carne” que levam inclusive os que se encontram em estado de graça. A ideia aqui é darmos um passo a mais, deixando de lado o fosso e olhando para as pessoas que já entraram no “castelo interior” de suas almas.

Sim, porque ainda que o pecado grave continue sendo “uma tragédia possível para todos”, “para as almas fervorosas ou desejosas de sê-lo, o problema constante não é a luta contra o pecado, mas o esforço positivo pela perfeição” [1].

Ou seja, os cristãos precisamos tomar consciência de que não basta observar os Mandamentos: o jovem rico, depois de dizer ao Senhor que não matava, não cometia adultério, não furtava, não mentia etc., teve ainda de ouvir do Mestre: “Uma coisa te falta” (Mc 10, 21). Jesus fixou nele o olhar e amou a sua vida, mas não é suficiente deixar, ainda que sob o impulso do Espírito Santo, de fazer as coisas erradas; é preciso invocar o auxílio do mesmo Espírito também para fazer as coisas certas, e fazê-las bem.

Afastemos aqui, desde já, um grande erro: o de acharmos que a intervenção divina na história cessou com a vinda de Cristo, ou que se limita à vida de alguns poucos escolhidos, a uma “casta” separada para chegar à sétima morada, e pronto. A muitos parecerá “presunção”, de fato, esse clamor pelo Espírito, para que nos oriente e ilumine os caminhos que devemos seguir, mas o pe. Antonio Royo Marín garante que, considerando que a terceira Pessoa da Santíssima Trindade habita na alma do justo,

se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida [2].

Essa doutrina é confirmada por ninguém menos que Santo Tomás de Aquino, o qual explica que os filhos de Deus, que se deixam mover pelo Espírito Santo, “são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” [3].

Ainda que seja um exemplo tomado das alturas, olhemos para como São José, pensando em abandonar em segredo a Santíssima Virgem, foi visitado pelo Anjo e decidiu desposá-la. Sua primeira ideia não era pecaminosa; era a postura correta e que se esperava de um “homem justo”. A santidade, no entanto, pede que sejamos não apenas justos, no sentido mais comezinho da palavra, mas que ajamos sobrenaturalmente. Foi o que fez São José, preterindo sua primeira resolução e dispondo-se a seguir o conselho do Anjo. Não o tivesse feito, em que apuros não teriam ficado Maria e seu divino Filho? E a obra de nossa salvação, que riscos não teria corrido?

Também a nós é pedido que sigamos, no caminho da perfeição, algo mais do que a justiça simplesmente humana, sob pena de levarmos uma vida “na carne”, e não no Espírito: “A maior parte das pessoas religiosas, mesmo as boas e virtuosas, não seguem em sua conduta particular e na dos outros senão a razão e o bom senso, no qual muitos deles se sobressaem. Essa regra é boa, mas não é suficiente para a perfeição cristã” [4].

É por isso que, só para citar o exemplo de algo que faziam todos os santos, o Beato Carlos da Áustria, “antes de qualquer escolha importante, [...] retirava-se para a capela, sozinho, para poder ponderar a sua decisão diante do Santíssimo e ‘rezar a seu respeito’, como costumava dizer” [5]. Era um homem que tinha fé menos em cálculos humanos que no Espírito, o qual não só “nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer”, como dá todas as forças necessárias para que ponhamos mãos à obra.

A essas iluminações e forças que a terceira Pessoa da Trindade transmite a nossas almas a teologia mística dá o nome de graças atuais, e é da fidelidade a elas que depende o grande negócio da nossa salvação eterna. O Santo Cura d’Ars dizia que, “se se perguntasse aos condenados: por que estais no inferno?, eles responderiam: por ter resistido ao Espírito Santo; e se se perguntasse aos santos: por que estais no céu?, estes responderiam: por haver escutado o Espírito Santo” [6].

Mas — batamos uma vez mais nessa tecla, porque há muitos falando do Espírito, mas poucos vivendo nEle — quem poderá escutar a voz de Deus sem oração, sem “retiro” e sem recolhimento? Quem poderá sentir-lhe as inspirações estando no barulho de uma rave? Como poderá ser guiado pelo Espírito Santo quem o que faz é deixar-se conduzir, a todo momento, pelas solicitações do mundo? Como ouvirá a voz do doce Hóspede da alma quem o que faz é atender aos impulsos da própria carne? Como perceberá o toque suave da graça quem não é capaz de desligar, por alguns minutos que seja, as notificações do seu smartphone, as séries da sua Netflix ou as músicas de seu serviço de streaming?

Se deixássemos de lado todas as coisas da terra” — atentemo-nos de novo ao que diz o Pe. Royo Marín — “e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida” a voz de Deus “e as insinuações do seu amor”. Se não o ouvimos, portanto, nostra culpa, nostra maxima culpa: falta-nos “uma vida cristã seriamente vivida”; falta-nos deixarmos de lado as coisas da terra. Exemplo sumamente perfeito desse recolhimento tão necessário foi o de Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado: antes de seu ministério público,

quarenta dias de deserto precedidos de trinta anos de silêncio. A este preço se salva o mundo. Recolher-se, e somente depois de recolher-se, dar-se. A “solidão” é quem nos julga. Não sejamos jamais “o vagabundo que nunca está em casa”. E recordemos sempre que “mede-se o valor de uma pessoa pela capacidade de isolamento que nela existe” [7].

Convençamo-nos de uma vez que não há outra forma de nos tornarmos cristãos de verdade senão silenciando e rezando; senão se recolhendo e, depois, entregando-se; senão correspondendo, em tudo o que fizermos — e não apenas em uma área específica da nossa vida, e não apenas indo à Missa aos domingos, e não apenas realizando este ou aquele ato de piedade —, às graças atuais com que Deus quer nos fazer santos, e grandes santos.

Se nos parece demasiado alta a meta, não nos deixemos desanimar! Exorcizemos de nossos corações a tristeza com que o jovem rico deixou a famosa cena evangélica; inflamemo-los diante do nobre ideal que Deus nos coloca diante dos olhos; combatamos com todas as forças esse espírito de tibieza, essa pusilanimidade, esse “ânimo pequeno” e falta de “ambição” espiritual, que pouco a pouco vai debilitando e paralisando, até a inércia — isso quando não faz voltar à vida velha nos pecados mortais... pois é certo que, na vida espiritual, quem não avança inevitavelmente recua.

Referências

  1. Pe. Raul Plus, La fidelidad a la gracia, trad. esp. de A. de Miguel Miguel, [s.l.: s.n.], 1951, p. 59.
  2. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana (n. 638), 14.ª ed., Madri: BAC, 2015, p. 781.
  3. Santo Tomás de Aquino, Super Epistulam ad Romanos, c. VIII, l. 3.
  4. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit. (n. 637), p. 780.
  5. Giovanna Brizi, A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2014, p. 41.
  6. Apud Pe. Raul Plus, op. cit., p. 6.
  7. Id., p. 36.

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