No Breviário de São Pio V, as vidas dos Apóstolos Simão e Judas são resumidas numa única lição com menos de sessenta palavras. Observa-se que São Simão foi chamado de “Cananeu, e também o Zelote”; alguns Padres da Igreja achavam que o termo “Cananeu” se referia a Caná da Galileia, onde o Senhor transformou água em vinho, mas é apenas uma helenização do termo hebraico qanna’i (zeloso). São Tadeu, mais comumente chamado de Judas, foi o autor de uma das sete Epístolas Católicas. Depois da Ascensão, o primeiro foi evangelizar o Egito e o segundo a Mesopotâmia; depois se encontraram na Pérsia, onde continuaram a pregar o Evangelho e foram finalmente martirizados.  

O Breviário Romano pré-tridentino, por outro lado, apresenta um relato muito mais elaborado das vidas deles após a Ascensão do Senhor. Conta-se que São Simão pregou o Evangelho em muitos lugares, que não são especificados nem nomeados. Quando São Tiago Menor foi morto em 62 d.C., Simão foi escolhido pelos outros Apóstolos para sucedê-lo como bispo de Jerusalém. Depois de governar a igreja-mãe do cristianismo por muitos anos e de chegar à idade de cento e vinte anos, foi torturado e crucificado pelo Imperador Trajano. Na verdade, estas histórias derivam da vida de um santo diferente com um nome semelhante: Simeão de Jerusalém, mencionado por Eusébio de Cesareia (ca. 260-340) no livro terceiro de sua “História Eclesiástica”:

Cap. XI. — Após o martírio de Tiago e a destruição de Jerusalém que logo se seguiu, ouviu-se dizer que os Apóstolos e demais discípulos do Senhor que ainda viviam, vindos de diferentes lugares, se reuniram para deliberar em comum, junto com os que eram mais próximos do Senhor por parentesco segundo a carne (de fato, muitos deles estavam vivos), quem merecia ocupar o posto de Tiago. Todos então decidiram unanimemente que Simão, filho do Cléofas de que se fala nos Evangelhos [cf. Mt 27, 56; Mc 15, 40.47; 16, 1; Jo 19, 25], era digno da sé episcopal [de Jerusalém]. Crê-se que Simão era primo [paterno] do Salvador, pois Cléofas, como atesta Hegesipo, era irmão de São José (PG 20, 216B–217A).

Cap. XXXII. — O qual [Hegesipo], falando de certos hereges, acrescenta que, por aqueles tempos, Simão foi acusado por eles e submetido durante muitos dias, pelo fato de ser cristão, a vários tipos de tortura, causando admiração [por sua paciência] tanto ao magistrado como aos soldados e ministros; por fim, selou a vida com o mesmo gênero de suplício que o Senhor. Mas o melhor é ouvir da boca de quem o escreve: “Alguns desses hereges”, diz, “delataram Simão, filho de Cléofas, por ser da estirpe de Davi e cristão. Assim, tendo já cento e vinte anos, Simão foi martirizado no reinado de Trajano Augusto, sendo Ático legado consular à frente da administração da Síria (PG 20, 282C–283A).

Em sua famosa Legenda Áurea, o Beato Tiago de Varazze diz que a confusão entre Simeão de Jerusalém e o Apóstolo Simão foi notada por Eusébio, Santo Isidoro e São Beda, o Venerável. Portanto, na reforma tridentina do Breviário o erro foi corrigido; a história de São Simeão de Jerusalém foi separada da do Apóstolo e a ele foi dada uma festa própria no dia 18 de fevereiro. 

Em cada um dos Evangelhos sinóticos, quando os evangelistas apresentam os nomes dos doze Apóstolos, Simão e Judas aparecem juntos no final da lista, antes de Judas Iscariotes. São Mateus (10, 3-4) e São Marcos (3, 18) chamam Judas de Tadeu, mas São Lucas (6, 16) o chama de Judas. São João não fornece uma lista de nomes dos Doze, mas narra no capítulo 14 que Judas, “não o Iscariotes”, perguntou a Cristo na Última Ceia: “Senhor, qual é a causa por que te hás-de manifestar a nós, e não ao mundo?” (Jo 14, 22). É com o nome Tadeu que ele é mencionado no Communicantes do Cânon Romano, e por este nome ele também passou a ser associado a uma das mais amadas histórias da tradição cristã: a lenda do Rei Abgar e a pintura da Sagrada Face de Edessa.

Escultura do Santuário de São Judas Tadeu, em Baltimore (EUA).

Tal como registrou Eusébio na “História Eclesiástica” (I, 13), o Rei Abgar de Edessa sofria de uma doença incurável de algum tipo; tendo ouvido falar das muitas curas operadas pelo Senhor durante seu ministério terreno, enviou-lhe uma carta pedindo que viesse a Edessa para curá-lo. Por carta, o Senhor respondeu que não iria pessoalmente, mas depois de sua Ressurreição um de seus discípulos seria enviado para curá-lo. No devido tempo, o Apóstolo Tomé enviou um dos setenta discípulos, um certo Tadeu, para realizar esse ministério. Eusébio apresenta o que alega ser o texto das duas cartas, que, segundo ele, foram guardadas nos arquivos públicos em Edessa. O relato é repetido de uma forma muito mais elaborada numa obra apócrifa do início do século V, “A Doutrina de Addai”, na qual o nome do discípulo enviado ao Rei Abgar aparece como Addai, ao invés de Tadeu. 

No final do século V, o assim chamado Decreto Gelasiano, na seção “sobre livros a serem ou não aceitos” (ou seja, quais podem ser usados na liturgia), já nota o caráter espúrio das cartas trocadas entre Cristo e o Rei Abgar. (Posteriormente, o próprio decreto seria atribuído de modo espúrio ao Papa Gelásio I, e comumente é designado com o nome dele.) Como é o caso de muitos escritos apócrifos, a rejeição formal não diminuiu em nada a popularidade da história, que continuou a ser ornamentada em diversos aspectos. “A Doutrina de Addai” simplesmente acrescenta que o mensageiro de Abgar pintou uma imagem do rosto de Cristo para levá-la de volta ao rei; na época do Beato Tiago, a lenda dizia que, ao receber a resposta de Cristo, o Rei Abgar enviou um pintor para fazer uma imagem da face do Senhor num pedaço de tecido. Porém, o pintor foi incapaz de fazê-lo “por causa da luminosidade excessiva que vinha do rosto dele”. Portanto, o Senhor mesmo pegou o tecido e o encostou no rosto, deixando uma impressão da imagem no pano, que em seguida foi levado a Abgar. Até hoje a Sagrada Face de Cristo é objeto de grande veneração, especialmente entre os cristãos bizantinos. É conhecida como Sagrado Mandílio, palavra que deriva do termo siríaco mandil — tecido. Embora Eusébio diga claramente que o Tadeu da lenda de Abgar é um dos setenta discípulos, e não um dos doze Apóstolos, a Legenda Áurea e o Breviário Romano de 1529 o identificam com o Apóstolo chamado de Tadeu nos Evangelhos de Mateus e Marcos, e de Judas nos de Lucas e João. Por causa da associação com a lenda do Rei Abgar, às vezes ele é retratado segurando uma imagem da face do Senhor.         

Afresco retratando a Sagrada Face de Edessa.

Na modernidade, surgiu uma nova devoção a São Judas como padroeiro das causas impossíveis. A origem dela, porém, é um tanto obscura. Há muitas variantes da seguinte oração para pedir a intercessão dele, e até hoje é costume relativamente comum agradecer-lhe publicamente a intercessão com a publicação de uma mensagem de agradecimento em algum jornal.  

São Judas Tadeu, glorioso Apóstolo, fiel servo e amigo de Jesus! O nome de Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, foi causa de que fôsseis esquecido por muitos, mas agora a Igreja vos honra e invoca por todo o mundo como patrono dos casos desesperados e dos negócios sem remédio.

Rogai por mim, que estou tão desolado. Eu vos imploro, fazei uso do privilégio que tendes de trazer socorro imediato, onde o socorro desapareceu quase por completo.

Assisti-me nessa grande necessidade, para que eu possa receber as consolações e o auxílio do céu em todas as minhas necessidades, tribulações e sofrimentos, particularmente (mencionar pedido), e que eu possa bendizer a Deus convosco e com todos os eleitos por toda a eternidade.

Eu vos prometo, ó bendito São Judas Tadeu, lembrar-me sempre deste grande favor e nunca deixar de vos louvar e honrar como meu patrono especial e poderoso, e fazer tudo que estiver ao meu alcance para espalhar a vossa devoção por toda a parte. Amém.

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