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O que os católicos devem fazer para ajudar os homossexuais?

É na Igreja dos santos, e não nas boates e festas mundanas, que os homossexuais podem viver a plena felicidade. E é dever dos católicos convencê-los disso!

O fenômeno da homossexualidade já não pode ser ignorado por nenhuma esfera da sociedade. O tema já se tornou praticamente onipresente, especialmente no mundo das artes e das comunicações, a ponto de as pessoas se sentirem quase que impelidas a aceitar a propaganda LGBT promovida pela mídia.

É verdade, a prática homossexual existe desde o pecado original. O que há de novo na contemporaneidade é a tentativa de se construir uma "cultura gay", em que a homossexualidade seja vista como uma fonte positiva de comportamento, ainda que sua prática "esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de um grande número de pessoas" [1].

São incontáveis, de fato, os testemunhos de rapazes e moças que se encontram escravos de suas próprias paixões porque adotaram ingenuamente esse estilo de vida em que o sexo se torna um deus. Joseph Sciambra é um caso notável. Em seu livro Swallowed by Satan ("Engolido por Satanás", sem tradução para o português), o ex-ator homossexual conta como a pornografia e a propaganda do movimento LGBT quase o mataram.

Aos 19 anos, Sciambra saiu à procura de experiências mais "ousadas" que aquelas que via nos filmes eróticos. Frequentando um bairro gay de São Francisco, nos Estados Unidos, o então rapaz engatou um relacionamento com um homem mais velho, que o conduziu para a indústria pornográfica. Depois de envolver-se com o ocultismo e gravações cada vez mais violentas, Sciambra desenvolveu sérios problemas de saúde e se viu às portas do inferno. Uma vez recuperado do trauma e reconciliado com a graça de Deus, o rapaz decidiu iniciar seu apostolado para ajudar outros homossexuais a lidarem de maneira sadia com a própria sexualidade, longe das promessas de felicidade da cultura LGBT. É chocante um vídeo divulgado em seu site, no qual ele elenca uma série de atores pornográficos que morreram por causa do HIV.

De maneira idêntica à narrada acima, outros tantos homossexuais estão aprisionados pela cultura gay, que os trata como objetos de prazer. E o exemplo mais triste dessa desordem é o famoso caso do "clube do carimbo", a prática de transmitir HIV propositalmente a outras pessoas — que se tornou moda nas casas noturnas dedicadas a esse público.

A resposta católica à homossexualidade

A dificuldade da maior parte dos católicos com relação a esse tema é não saber distinguir a pessoa com tendências homossexuais — esta deve ser acolhida e amada generosamente — e a "cultura gay" — uma ideologia que tem como motor as paixões e as frustrações de muitos homossexuais. Essa falta de conhecimento da moral da Igreja conduz a muitos desentendimentos. Por isso, não há nada mais urgente que uma resposta clara dos católicos à homossexualidade, a fim de que as pessoas que experimentam essa tendência não se sintam seduzidas por um estilo de vida autodestrutivo.

A grande diferença entre a perspectiva católica e a "cultura gay" é que esta última define a identidade humana a partir de seu apetite concupiscível, ao passo que aquela entende que a "pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual" [2]. A Igreja recusa-se "a considerar a pessoa meramente como um 'heterossexual' ou um 'homossexual'" porque sabe precisamente que a identidade fundamental de todo e qualquer homem é a de "ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna" [3]. É dessa autêntica antropologia, radicada no íntimo do coração humano, que se pode desenvolver um verdadeiro serviço às pessoas com atração pelo mesmo sexo.

As pessoas com tendências homosssexuais podem, certamente, contribuir de maneira positiva para a sociedade por meio de um testemunho louvável e coerente, chegando mesmo à santidade. Não faltam exemplos de homossexuais que demonstram, e.g., um carinho imenso por seus familiares, zelando e cuidando deles no tempo da velhice. A Igreja reconhece essas virtudes, sublinhando, porém, que elas não derivam de uma vivência desordenada da sexualidade, mas procedem justamente daquela "semente divina" que está depositada no coração dos homens e por meio da qual eles são chamados à comunhão com Deus [4].

De fato, a homossexualidade é um desafio e implica uma séria renúncia. Trata-se mesmo de uma cruz. Porque a "atividade homossexual não exprime uma união complementar, capaz de transmitir a vida", as pessoas que a ela se entregam "reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência" [5]. E isso as impede de atingir a maturidade ideal como também torna menos eficazes as suas virtudes humanas, que poderiam evoluir mais perfeitamente se não fossem deturpadas pela perniciosidade de um comportamento desordenado. Notem que a mesma crítica é válida para heterossexuais que não vivem a vocação ao matrimônio, preferindo a masturbação e as relações efêmeras.

Neste sentido é que a fé católica defende "uma particular solicitude pastoral" para com os homossexuais, a fim de que eles não sejam "levados a crer que a realização concreta de tal tendência nas relações homossexuais seja uma opção moralmente aceitável" [6]. Os homossexuais necessitam encontrar um ambiente discreto, seguro e amoroso, onde possam compartilhar seus dramas íntimos sem o risco de serem expostos à humilhação pública ou, pior, ao isolamento.

O papel da família

Infelizmente, algumas situações de preconceito injusto e má vontade existem no seio da família e em outros ambientes sociais, de sorte que muitos jovens com atração pelo mesmo sexo acabam procurando refúgio no mundo LGBT.

A Igreja mesmo deplora "firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas", ao mesmo tempo em que defende "um programa pastoral autêntico", por meio do qual esses jovens, sobretudo, possam ser ajudados "em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual" [7]. É desta forma que "a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento" [8]. É evidente que os pais devem favorecer o diálogo com os filhos para que eles não caiam em falsas promessas ideológicas.

Os homossexuais, assim como qualquer pessoa, são chamados a crescer no amor a Deus e ao próximo, até que estejam totalmente configurados aos sentimentos de Cristo. E isso depende também da ajuda de boas amizades, que os motivem a adquirir mais e mais virtudes humanas e sobrenaturais, de modo que o seu agir já não seja em função da carne, mas da conquista de uma coroa incorruptível. É na Igreja dos santos, não nas boates e noitadas, que os homossexuais podem viver a plena felicidade. E é dever dos católicos convencê-los disso!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, 1 de out. 1986, n. 9.
  2. Ibidem, n. 16.
  3. Ibidem, n. 2.
  4. Concílio Vaticano II, Const. Past. Gaudium et Spes, 7 de dez. 1965, n. 3.
  5. Congregação para a Doutrina da Fé, op. cit., n. 7.
  6. Ibidem, n. 3.
  7. Ibidem, n. 15.
  8. Ibidem.

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Anticatolicismo na Inglaterra: a história de terror que empequenece a Inquisição

A repressão religiosa contra cristãos provocou na Inglaterra mais mortes do que na Espanha, onde “morreram acusadas de heresia menos pessoas do que em qualquer país da Europa”.

“Prisão e morte dos dez membros da cartuxa de Londres", de Vicente Carducho.

A Inquisição Espanhola permanece até os dias de hoje como a representação máxima de intolerância religiosa no imaginário popular. A "lenda negra", sob cujos alicerces se construiu a propaganda holandesa e inglesa, em muito contribuiu para confirmar esta idéia, escondendo debaixo do tapete os dados que demonstram que a perseguição religiosa durante os séculos XVI e XVII no resto da Europa alcançou cifras assustadoras. Dizer que a Inquisição era um dos tribunais europeus que mais garantias processuais oferecia, muito mais do que a justiça civil, significa literalmente que em alguns países a intolerância religiosa foi praticada sem freios nem obstáculos legais.

A queima de católicos orquestrada por Calvino (somente em Genebra mandou executar, num espaço de vinte anos, a 5% da população), a caça às bruxas na Alemanha, a guerra civil vivida na França… Todos os reinos do período protagonizaram exemplos de barbárie de todo tipo. Mas o que tornou especialmente chamativo o caso inglês, nos reinados de Henrique VIII e Isabel Tudor, é que do êxito em liquidar o Catolicismo dependia, de forma direta, a sobrevivência da monarquia. Isabel I era fruto de um matrimônio — o de Henrique VIII e Ana Bolena — que dera início a um cisma na Igreja, o que a convertia numa bastarda, caso fracassasse a causa anglicana.

A Rainha Virgem não poupou violência para manter-se no poder e reduzir a cinzas o ressurgimento do Catolicismo que Filipe II e sua esposa inglesa, Maria Tudor, sonharam em meados do século XVI.


Mesmo com a total discrepância entre o reinado de Maria Tudor e o terror da época de sua irmã Elizabeth, que perseguiu sistematicamente os católicos na Inglaterra, quem foi que recebeu da história o epíteto de "sanguinária"?

Ninguém menos que Maria I, evidentemente. E isso pelo simples fato de ela ser… católica [1]. É o que Padre Paulo Ricardo explica neste trecho de uma aula exclusiva sobre a Inquisição:


Um banho de sangue por intolerância religiosa

Henrique VIII deu início à perseguição aos católicos em 1534 com o Ato de Supremacia, que o elevava a chefe absoluto da Igreja da Inglaterra e declarava traidores a quantos simpatizassem com o Papa de Roma. Uma longa lista de altos cargos da Igreja rejeitaram a medida e foram devidamente executados, entre eles Thomas More e o bispo John Fisher. Todas as propriedades da Igreja passaram a mãos reais.

Em 1535, em plena onda de repressão, foram esquartejados os monges da Cartuxa de Londres com o seu prior, John Houghton, à frente. Foram enforcados e mutilados na tristemente célebre praça de Tyburn, como exemplos contra uma ordem caracterizada por sua austeridade e simplicidade. O balanço final foi de 18 homens, todos reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica como verdadeiros mártires. Do mesmo modo, o fracasso de uma rebelião católica contra o Rei terminou, em 1537, com a condenação à morte de outras 216 pessoas, 6 abades, 38 monges e 16 sacerdotes.

O sofrimento mudou de bando por um tempo com a subida ao trono de Maria Tudor, após o falecimento de seu único irmão homem, Eduardo VI. A "rainha sanguinária" nunca se esqueceria de que, com o divórcio de seus pais, em 1533, teve de renunciar ao título de princesa e de que, um ano depois, uma lei do Parlamento inglês a excluiu da sucessão em favor da princesa Isabel. Sob o reinado de Maria e seu marido, Filipe II de Espanha, foram executados por heresia quase 300 homens e mulheres entre fevereiro de 1555 e novembro de 1558. Muitos daqueles perseguidores fizeram parte da traumática infância de Maria, a começar por Thomas Cranmer, que, sendo arcebispo de Cantuária, autorizou o divórcio de Henrique VIII e Catarina de Aragão.

A morte prematura de Maria trouxe ao poder sua irmã Isabel, em 1558. A esposa de Filipe II a nomeou herdeira em seu testamento com a esperança de que ela abandonasse o protestantismo, sem suspeitar de que aquilo implicaria a ruína do Catolicismo nas Ilhas Britânicas. Em pouco tempo, Isabel virou às avessas os esforços do anterior reinado e se entregou a uma caça a católicos por todo o país. Como explica María Elvira Roca Barea, em seu livro "Imperiofobia e Leyenda Negra" (sem tradução para o português), as perseguições aos católicos ingleses provocaram mil mortos, entre religiosos e leigos, em contraste com o que se passou na Espanha, onde "morreram acusadas de heresia menos pessoas do que em qualquer país da Europa" [2].

O sistema inglês de denúncias vicinais

O reinado de Isabel I começou com o restabelecimento do Ato de Supremacia, que tornava obrigatória a assistência aos serviços religiosos do novo culto. Em caso de falta, as sanções iam da flagelação à morte. Não por acaso, o Estado promovia um sistema de delações de modo que os que não denunciavam seus vizinhos poderiam parar eles mesmo na prisão. O alvo eram não apenas os católicos, mas também os calvinistas, quakers, batistas, congregacionalistas, luteranos, menonitas e outros grupos religiosos que, na maioria dos casos, se viram forçados a fugir para a América. Só em tempos de Carlos II de Estuardo mais de 13.000 quakers foram encarcerados e seus bens, expropriados pela Coroa.

Em 1585, o Parlamento estabeleceu um prazo de quarenta dias para que os sacerdotes católicos, sob ameaça de morte, deixassem o país e se proibiu a celebração da Missa inclusive de forma privada. Não obstante, a repressão aumentou com o fracasso da Grande Armada de Filipe II em 1588 e o sistema de delação chegou a níveis "nunca sonhados pela Inquisição". Como assinala Roca Barea, o sistema de espionagem vicinal permitiu um estrito controle individual e dos movimentos e viagens de conhecidos, parentes e viajantes. Em questão de dez anos, a repressão conseguiu apagar definitivamente o Catolicismo da Inglaterra.

Toda uma série de supostos complôs católicos, sempre confusos e baseados em rumores, justificaram que a Coroa recrudescesse a repressão de forma periódica. O grande incêndio de Londres em 1666 foi imputado aos católicos e desencadeou uma nova perseguição. Entre 1678 e 1681, uma suposta conjuração atribuída a Titus Oates deu lugar a ferozes caças.

Paralelamente a estes acontecimentos, a Irlanda serviu-se do Catolicismo como forma de resistência ao domínio inglês. A religião era tão-só um fator a mais na guerra por manter a Inglaterra a uma distância prudencial, mas intensificou a violência e o ódio ao ponto de converter o conflito em um banho de sangue. Estima-se que um terço da população irlandesa sofreu as consequências mortais do envolvimento da Irlanda na guerra civil de 1636 entre monarquistas e republicanos ingleses. Oliver Cromwell não teve nunca piedade dos rebeldes irlandeses vinculados ao Catolicismo, confissão pela qual sentia certa antipatia pessoal.

Por César Cervera — ABC História | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas do Tradutor

  1. Na mesma linha da crítica feita pelo Padre Paulo Ricardo ao tratamento que a historiografia protestante dispensou a Maria I da Inglaterra, a filha católica de Henrique VIII, leia-se um excelente artigo publicado já há um tempo em The Telegraph, pelo escritor Gerald Warner. Dele destacamos o seguinte: "Maria I queimou, de acordo com o Livro dos Mártires, de John Fox, 284 hereges protestantes, cifra que, dada a fonte, certamente não foi subestimada. Enquanto isso, estimativas do número de execuções realizadas por Henrique VIII variam de 57 aos 72 mil alegados nas Crônicas de Raphael Holinshed (...). Então, por que é Maria chamada de 'sangrenta', e não o seu pai, quando as execuções ordenadas por ele excederam as de suas filha em mais de 56 mil, para dizer o mínimo? Por que não 'Henrique, o Sangrento'? Obviamente, porque ele foi o fundador da Igreja da Inglaterra."
  2. Para um exame detalhado do que foi a Inquisição Espanhola, reportamos os nossos visitantes e alunos à aula de que dispomos, em nosso site, especificamente sobre esse tema. Segundo o historiador Edward Peters, estima-se que o número de penas capitais cominadas pelo Santo Ofício na Espanha, ao longo de 250 anos, não tenha ultrapassado a casa dos 3 mil. Se as mil execuções de que fala María Elvira Roca Barea forem verdadeiras, portanto, trata-se de uma cifra evidentemente menor que os números da Inquisição Espanhola; proporcionalmente falando, porém, o reino de Elizabeth foi quase duas vezes mais sangrento, numa razão de 22 para 12 execuções anuais.

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O fim do mito sobre o “Papa de Hitler”

Por 60 anos, a verdade sobre a batalha do Papa Pio XII contra o nazismo tem sido suprimida. Mas novas evidências tornam inegável o seu heroísmo.

Passou despercebido pela imprensa mundial, mas uma notável reviravolta ocorreu recentemente nos estudos sobre o Holocausto. Quase dois anos atrás, a Fundação Internacional Wallenberg, um instituto de pesquisa histórica, iniciou um "projeto modesto": marcar as "Casas da Vida" — lugares onde judeus eram protegidos durante a guerra — com uma placa memorial. Foram encontradas mais de 500 casas como essas na Itália, França, Hungria, Bélgica e Polônia. Eduardo Eurnekian, presidente da fundação, escreveu que, "para nossa surpresa, descobrimos que a esmagadora maioria das Casas da Vida eram instituições relacionadas à Igreja Católica, incluindo conventos, mosteiros, internatos, hospitais etc".

Em Roma apenas, quase 4.500 pessoas encontraram refúgio em igrejas, conventos, mosteiros e internatos. Em Varsóvia, a Igreja de Todos os Santos protegeu judeus. Isso é notável porque a pena para poloneses que abrigassem judeus era o campo de extermínio ou, mais provavelmente, a execução sumária.

Que uma fundação nomeada após Raoul Wallenberg encontre uma colaboração católica tão ampla para salvar a vida de judeus, é coisa muitíssimo apropriada. Wallenberg foi um diplomata sueco em Budapeste durante a guerra. Ele e Angelo Rotta, o núncio papal, salvaram 120 mil dos 150 mil judeus da cidade. Wallenberg foi preso pela Guarda Vermelha e nunca mais visto.

As notícias sobre as Casas da Vida só são surpreendentes porque a verdade sobre a Igreja e o povo judeu na II Guerra Mundial tem sido escondida. Vários ajudantes do Papa da época da guerra, Pio XII, reconhecem que trabalharam para resgatar judeus sob instruções diretas do pontífice. Eles ainda incluíram dois futuros papas — Mons. Angelo Roncalli (João XXIII) e Mons. Giovanni Battista Montini (Paulo VI). Pio XII mesmo protegeu judeus tanto no próprio Vaticano como em Castel Gandolfo.

Este é um bom momento para marcar o testemunho da Igreja contra o nazismo. Oitenta anos atrás, a 14 de março de 1937, Pio XI publicou Mit Brennender Sorge ("Com grande preocupação), uma encíclica, propositalmente escrita em alemão, condenando o nazismo. "Quem quer que exalte a raça, ou o povo, ou o Estado, e divinize-os a um nível idolátrico, perverte a ordem do mundo criado por Deus", escreveu o Papa.

O secretário de Estado de Pio XI era o Cardeal Pacelli, futuro Pio XII. Ele distribuiu secretamente o texto, que ajudara a redigir, dentro da Alemanha. Quatro anos antes, ele havia negociado uma concordata entre a Santa Sé e a Alemanha, não para apaziguar o nazismo, mas para ter algum meio de conter os nazistas através de um tratado internacional. O regime referia-se a ele como um "amante de judeus". Pacelli fez mais de 50 protestos contra a política nazista, nos dias que antecederam a aprovação da Lei de Concessão, que garantiu a Hitler o poder para decretar leis sem a aprovação do Reichstag. Pacelli foi considerado tão anti-nazista que o III Reich tentou impedir a sua eleição como papa em 1939.

A história pessoal de Pacelli é importante. Ele era um amante da cultura germânica — e, igualmente, da cultura judaica — desde sua juventude. Como núncio na Bavária durante a breve república comunista de 1919, demonstrou sua coragem pessoal, permanecendo em seu posto. Sua simpatia e amizade com judeus, incluindo o grande maestro Bruno Walter, era bem conhecida, e ele concedeu auxílios discretos a muitos. A pedido de Walter, conseguiu a liberdade de um músico, Ossip Babrilowitsch, preso em um massacre (pogrom) enquanto a Bavária estava sob o domínio comunista. Em segurança na América, Gabrilowitsch tornou-se o diretor e fundador musical da Orquestra Sinfônica de Detroit. Walter, por sua vez, tornou-se católico.

Antes da guerra, Pacelli assumiu riscos extraordinários para ajudar a oposição alemã. Ele sabia que os generais estavam planejando um ataque contra Hitler, e fez com que notícias de suas intenções chegassem ao governo britânico.

Em uma situação de grande dificuldade, Pio XII fez o que ninguém mais fez para salvar a vida de judeus durante a guerra. Ele bem sabia o que realmente estava acontecendo ao povo judeu. Naquela época, muitos estavam na defensiva, incluindo um diplomata britânico que escreveu sobre "estes judeus queixosos". Nem o Reino Unido, nem a América facilitaram a fuga de judeus para o exílio — o Kindertransport foi uma abençoada exceção.

Nos anos da guerra, Pio XII atuou diretamente na Itália e por meio de diplomatas papais na Romênia, Hungria, Eslováquia e outros lugares. Não surpreendentemente, dadas as circunstâncias, não há nenhum número exato daqueles que foram salvos pelo Papa ou pela Igreja de um jeito ou de outro. Talvez tenha sido algo entre 500 e 860 mil.

As declarações de Pio XII tanto antes como durante a guerra eram inequivocamente hostis ao nazismo. Os Aliados podiam querer mais, mas o preço seria o fim de todo o bem que o Papa podia fazer. Os nazistas entendiam os pronunciamentos dele muito bem. Um plano para sequestrá-lo em 1944 foi apenas evitado pela improvável intervenção do general da SS Karl Wolff.

O Papa foi também completamente claro sobre os males do comunismo e da viciosa perseguição religiosa dos stalinistas. Mas não disse nada sobre isso durante a guerra. Os diplomatas aliados no Vaticano entenderem isso, pois só preservando a neutralidade da Santa Sé o Papa podia conceder refúgio a milhares de judeus em casas religiosas na Itália e mesmo no Vaticano. Isso também lhe permitiu manter contatos a fim de que informações sobre os prisioneiros de guerra e do Holocausto pudessem chegar aos Aliados.

Tudo isso era conhecido durante e após a guerra, inclusive por judeus. Albert Einstein, que escapou do regime nazista, disse em 1940: "Somente a Igreja permaneceu firmemente do outro lado da campanha de Hitler para suprimir a verdade… Eu sou obrigado, portanto, a confessar que agora louvo sem reservas o que uma vez eu desprezei".

Chaim Weizmann, primeiro presidente de Israel, e Isaac Herzog, líder dos rabinos de Israel, prestaram igualmente generosos tributos a Pacelli. Israel Zolli, chefe dos rabinos de Roma, tornou-se católico e, em homenagem ao Papa, tomou o nome cristão de "Eugênio". Depois da morte de Pio XII em 1958, Golda Meir, então ministra israelita das relações exteriores, escreveu: "Nós choramos um grande servo da paz".

Os nazistas odiavam a Igreja. Milhares de padres católicos foram aprisionados, especialmente em Dachau, o "campo dos padres". É verdade que alguns bispos seguiram uma política de apaziguamento: o Cardeal Adolf Bertram de Breslau supostamente teria ordenado um missa de Requiem para Hitler, em 1945. Alguns católicos traíram judeus e chegaram a massacrá-los, como em Jedwabne, em 1941. Mas outros, notavelmente o bispo Clemens August von Galen, de Münster, e o bispo Konrad von Preysing, de Berlim, fizeram tudo que podiam para resistir ao nazismo. O agente de Preysing e cura da Catedral de Berlim, Bernhard Lichtenberg, foi judicialmente morto e agora é reconhecido como um mártir.

Passados quase 60 anos, no entanto, desde a morte de Pio XII, sua reputação tem sido manchada. Exemplo recente foi uma reportagem da BBC que relacionou a oração silenciosa do Papa Francisco em Auschwitz a um ato de reparação pelo silêncio da Igreja Católica. A corporação estava simplesmente repetindo aquilo que se tornou a visão comum sobre Pio XII e a Igreja durante a guerra. (Como se chegou a esse equívoco é uma longa história, que já foi contada aqui no site outras vezes.)

Deixemos, entretanto, a última palavra para o próprio Papa Pio XII. Em 1943, ele escreveu: "Chegará o momento em que documentos não publicados sobre esta terrível guerra serão tornados públicos. Então, a tolice de todas as acusações se tornarão tão claras como a luz do dia. Sua origem não é a ignorância, mas o desprezo pela Igreja". Naquela época, o Papa estava se referindo à propaganda nazista. Mas suas palavras se aplicam igualmente bem às calúnias maliciosas contra ele lançadas nos últimos 60 anos.

Fonte: Catholic Herald | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

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Cristãos perseguidos na Europa: um relatório assustador

​Os cristãos na Europa enfrentam, atualmente, uma dupla perseguição: são alvo de extremistas islâmicos, muitas vezes vindo de fora, mas também dos próprios compatriotas, que não querem mais saber de Deus.

"Na Europa ocidental hoje, tanto a liberdade religiosa quanto a liberdade de consciência se encontram ameaçadas".

Embora não fizesse parte da discussão, nem fosse divulgado durante a coletiva de imprensa final, um documento distribuído aos bispos italianos pelo Cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana e também do Conselho das Conferências Episcopais Europeias, põe o dedo sobre a ferida da perseguição religiosa na Europa. E isso a partir de um ponto de vista privilegiado: o do Observatório sobre a Intolerância e a Discriminação contra os Cristãos, sediado em Viena, na Áustria.

A preocupação do Cardeal Bagnasco não é nova. Já há algum tempo o Cardeal denuncia a construção de uma ordem mundial sem Deus, a qual se reflete, por exemplo, no recente caso de eutanásia infantil praticado na Bélgica. Essa sua preocupação traduziu-se no relatório entregue aos bispos italianos, provavelmente com o objetivo de alargar a visão dos problemas de todo o continente.

O documento contém uma síntese eficaz dos 1.800 casos de discriminação contra os cristãos na Europa, foi redigido por Martin Kugler, diretor do Observatório, e circulou entre os bispos que se reuniram em Roma, de 23 a 25 de janeiro passado, para o encontro de inverno do Conselho Episcopal Permanente.

Entre os episódios de discriminação religiosa relatados desde 2010, estão incluídos:

Martin Kugler nota que "as restrições às objeções de consciência religiosamente motivadas atingem sempre mais os profissionais médicos e os farmacêuticos em diversos Estados membros da União Europeia, entre os quais a França, a Noruega, o Reino Unido e a Suécia", e que a preocupação é que a adoção "de uma linha dura de imposição de posições relativistas termine inibindo, a longo prazo, uma adaptação razoável das crenças religiosas".

O relatório destaca alguns casos dignos de nota. Na Itália, destacam-se o furto e os atos de vandalismo ocorridos na Igreja de Santa Helena, em Messina, no último dia 3 de julho; e a estátua de São Petrônio em Bolonha pichada na sua base com as palavras "Allah Akbar", no dia 26 de junho.

Na França se assinalou, obviamente, o assassinato do padre Jacques Hamel, no último dia 26 de julho.

Na Alemanha, mencionem-se o furto, no mesmo mês de junho, da relíquia do Papa João Paulo II da Catedral de Colônia; os atos de vandalismo na Basílica de Bonn, onde um homem de 24 anos provocou grandes danos à cripta, ao tabernáculo e ao sarcófago dos santos Casio e Florenzio, patronos da cidade; a destruição de quatro cruzes de madeira postas em alguns pontos altos da região Bad Tölz-Wolfratshausen, em um período que vai de maio a agosto.

Na Espanha, apontam-se os dois incêndios dolosos ocorridos em duas igrejas de Narón, entre 10 e 11 de junho.

E, depois, há os casos que afetam o direito à objeção de consciência. Na Bélgica, um lar de idosos foi multado em 6 mil euros por ter negado a eutanásia a um homem de 74 anos que sofre de câncer no pulmão. Na Itália, uma Ordem religiosa feminina foi condenada a pagar 25 mil euros a um professor por ter suspenso o seu vínculo de trabalho com base na incompatibilidade de sua orientação sexual com o ethos da escola católica.

As discriminações afetam, contudo, também os refugiados cristãos. O Observatório sublinha que, na Suécia, refugiados convertidos do Islã ao cristianismo testemunham ter sofrido espancamentos, ameaças, atos de intimidação e exclusão social nos alojamentos para refugiados.

Na Alemanha, 14 jovens iranianos cristãos foram obrigados a fugir dos campos de refugiados de Schloss Holte-Stukenbrock, depois de serem ameaçados de morte durante meses por um grupo de muçulmanos que vivem na caravana.

Assim, os cristãos europeus — os poucos que ainda restam — estão como que "entre a cruz e a espada", por assim dizer: são ameaçados, de um lado, pelos inimigos que vêm de fora, trazendo uma outra cultura e colonizando o continente com uma nova religião; e são hostilizados, de outro, pelos seus próprios compatriotas, que abandonaram a fé cristã e querem vê-la cada vez mais extinta da esfera pública. Cumprem-se, de um novo modo, as palavras do Autor Sagrado: "Se eu saio para os campos, eis os mortos à espada; se eu entro na cidade, eis as vítimas da fome!" ( Jr 14, 18). Que Deus tenha misericórdia da Europa.

Com informações de ACI Stampa | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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As pessoas mais difíceis de converter. Seria você uma delas?

Esta matéria é sobre um tipo difícil de converter, que acha que conhece a Cristo, que já vive o Evangelho e que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Seria você, por acaso, uma dessas pessoas?

As pessoas mais difíceis de converter não são os que estão no mundo, mas os próprios católicos.

Ninguém se escandalize com isso, porque essa situação já foi denunciada várias vezes por pregadores de outros séculos. O pe. António Vieira, por exemplo, dizia que, "antigamente, batizavam-se os que eram convertidos; hoje, é preciso converter os que são batizados". Se a situação era assim no seu tempo, o século XVII, quanto mais em nossa época, em que a TV, a Internet e os meios de comunicação de uma forma geral são os maiores responsáveis por "formar" (ou deformar) as mentes das pessoas! Nunca foi tão fácil ser mundano, render-se aos encantamentos do mundo e esquecer-se de Deus, de nossa alma e das verdades eternas!

No entanto, este que é um verdadeiro drama — o de perder a Deus pelo pecado e deixar escapar pelas mãos a própria salvação — só é vivido verdadeiramente por quem tem fé. Aqueles que não a têm já estão entregues, rendidos, derrotados. E é deles principalmente que falamos quando nos referimos às pessoas mais difíceis de converter. É a católicos sem fé que queremos atingir com estas linhas.

Cumpre dizer, antes de mais nada, que não queremos pintar um quadro horrendo para os outros, enquanto mascaramos a nossa própria condição. Nossa santificação, o trabalho de nossa conversão, não é, evidentemente, obra de um dia ou de uma semana. Nós, que caminhamos por este vale de lágrimas, devemos estar sempre conscientes de que a presença da Santíssima Trindade em nós, pela graça, vai encerrada "em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós" (2Cor 4, 7). Não é nossa pretensão criar uma "casta" de iluminados dentro da Igreja, nem instituir algum tipo de "alfândega" para limitar as pessoas que atravessam a soleira de nossos templos. Essa exortação é mais um "convite à penitência comum", pois é assim que deve ser a correção fraterna feita a pecadores por… pecadores [1]. Em outras palavras, Cristo veio ao mundo para salvar os delinquentes e nós somos os primeiros deles (cf. 1Tm 1, 15)!

Partamos, porém, sem mais delongas, a uma breve descrição de como vive a maior parte de nossos autodenominados católicos.

Crêem eles, porventura? Talvez nos artigos do Creio, se tomados de modo simples; desdobrado o conteúdo que ali se encontra, certamente encontraremos muitos negando, por exemplo, a existência dos demônios ou da condenação eterna. Eles certamente não se negarão a repetir os artigos do Creio, um por um, quando se levantarem no domingo, durante a Missa, para rezá-lo; mas é que eles vão à Missa com tanta irregularidade, que muitas vezes sequer se dão conta de que estão tropeçando em uma e outra parte da oração.

Mas o que acontece quando alguém lhe mostra que faltar à Missa aos domingos é pecado mortal? E que é preciso confessar-se, portanto, antes de aproximar-se novamente da Sagrada Comunhão? Neste momento, o tipo a que nos referimos imediatamente desconversa, dá de ombros, tenta dizer alguma coisa para se desculpar e leva a sua vida do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. No próximo domingo em que for à Missa, talvez daí a um mês — ou mesmo durante a semana, quando sentir vontade —, ele entrará tranquilamente na procissão para receber Jesus Eucarístico, sem nenhum escrúpulo ou remorso de consciência.

Esse exemplo é ainda muito simples, porque faz referência apenas ao preceito dominical. Se fosse tratado, no entanto, o problema do sexto mandamento, certamente a resistência seria ainda maior. Onde já se viu não poder comungar, por exemplo, quem usa anticoncepcionais? Ou quem dorme com o namorado ou a namorada? Ou quem assiste a vídeos pornográficos ou cai no pecado da masturbação? Ou até, e aqui se rasgam definitivamente as vestes, quem consente em maus pensamentos e já pratica o adultério com os outros no coração?

Esse tipo, porém, é empedernido, é teimoso. Quer participar das cerimônias católicas, mas sem levar muito a sério a Igreja da qual diz fazer parte. Quer ser ativo na liturgia, participar das pastorais e dos movimentos, mas isso é o bastante. Ele traça uma linha para demarcar o limite da sua entrega: até aqui eu vou, até aqui eu sou católico, até aqui eu obedeço à Igreja. Ir além — ele já estabeleceu, ex cathedra, em sua mente — é "moralismo", "radicalismo", "extremismo".

Por que é tão difícil mudar a cabeça de pessoas assim, é muitíssimo fácil de perceber. Diferentemente de quem vive no mundo, despreocupado de tudo e desligado de qualquer prática religiosa, esse tipo de católico acha que conhece a Cristo, acha que já vive o Evangelho, acha que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Se estivesse fora, assumisse a sua ignorância e entrasse na Igreja com a intenção de aprender e reformar as próprias opiniões, certamente produziria muito mais frutos do que no atual estado em que se acha.

Muito apropriadas nesse sentido são as palavras do bem-aventurado John Henry Newman, durante um discurso a pessoas de várias religiões:

"Ninguém deveria entrar na Igreja sem o firme propósito de aceitar a sua palavra em todas as matérias de doutrina e moral, e isso por ela vir diretamente do Deus da Verdade. Tu deves enfrentar a matéria e calcular os gastos (cf. Lc 14, 28). Se não te aproximas com esse espírito, tu sequer deverias aproximar-te: grandes e pequenos, instruídos e ignorantes, todos devem vir para aprender. Se tens essa disposição, dificilmente algo dará errado, pois tens uma boa base; do contrário, se vens com qualquer outra intenção, é melhor que esperes até que te tenhas livrado dela. Tu deves vir à Igreja, eu te digo, para aprender; deves vir, não para trazeres a ela tuas próprias noções, mas com a intenção de ser sempre um aprendiz; deves vir com a intenção de tomá-la como parte de tua herança e de jamais apartar-te dela. Não venhas como para um experimento; não venhas como para arrumar assentos em uma capela, ou bilhetes para uma conferência; vem a ela como para tua casa, para a escola de tua alma, para a Mãe dos Santos e vestíbulo dos céus." [2]

A recomendação que o Cardeal Newman faz em seu discurso é importante porque lembra que existe, na Igreja Católica, uma identidade substancialmente diferente do protestantismo, religião muito comum na Inglaterra de sua época (e, agora, cada vez mais, também no Brasil). Enquanto entre os protestantes cada cristão é, por assim dizer, o seu próprio papa, a única e verdadeira Igreja de Cristo é una. Isso significa que um católico, quando crê, não é no que quer, mas no que recebeu de outrem; quando leva uma vida moral, não é com base em suas próprias ideias, mas nos ensinamentos de uma autoridade; quando reza, não é conforme a sua cabeça, mas de acordo com o modo como Deus mesmo manifestou que quer ser cultuado. Nós não inventamos a nossa própria religião; vivemos (ou melhor, esforçamo-nos por viver) a religião que Deus mesmo instituiu.

Ser católico exige, portanto, em primeiríssimo lugar, uma autêntica mudança de mentalidade. Sem isso, não estaremos seguindo a Igreja, mas tão somente o nosso próprio "eu", como diz Santo Tomás de Aquino:

"É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade." [3]

Se a Igreja lhe diz, por exemplo, com a sua autoridade dada pelo próprio Cristo (cf. Mt 16, 18), que tal coisa é pecado, e você, ao invés de acatar, desconversa, diz que "não é bem assim" e tenta se justificar, é muito triste dizê-lo, mas seu catolicismo é superficial, não passa de um verniz, de uma fachada. Você não acredita na Igreja, mas em você mesmo. Sua opinião conta muito mais que a religião a qual você diz seguir. Seria muito mais honesto abandonar de vez essa peça farsesca que você encena e procurar a igreja protestante mais próxima e que mais se adequa aos seus gostos e posições.

Abra os olhos de uma vez por todas, pare de tentar mentir para si mesmo e de ficar se defendendo com insultos. Não chame os outros de "moralistas" só porque não compartilham do "código moral" inventado por você; não chame os outros de "radicais" só porque não são superficiais como você; não chame os outros de "extremistas" só porque você se contenta com uma vida morna e levada de qualquer modo. Converta-se, mude de mentalidade e honre as águas do santo Batismo com que a Igreja o banhou! Foi a ela, afinal, não a você, que Cristo confiou as chaves do Reino dos céus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 33, a. 5.
  2. John Henry Newman, Faith and Doubt. In: Discourses to Mixed Congregations, p. 231.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 3.

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A dúvida respondida por São João Paulo II

Na primeira metade de seu pontificado, devido a sérias controvérsias suscitadas na Igreja, São João Paulo II se viu obrigado a confirmar a Tradição católica de não ordenar mulheres.

Depois dos agitados anos 1960, quando a Igreja também se viu questionada pelas revoluções mundo afora, o problema relativo à ordenação de mulheres já não era uma novidade para os teólogos. O tema estava entre os principais assuntos discutidos nas academias, sobretudo após a iniciativa dos anglicanos de incluírem entre os seus sacerdotes também as mulheres. Foi aí que o então Sumo Pontífice Paulo VI, exercendo o ministério petrino de confirmar os irmãos na fé, publicou a Declaração Inter Insigniores, com a qual dirimia qualquer dúvida acerca da Tradição católica. A Igreja "não se considera autorizada a admitir as mulheres à ordenação sacerdotal", explicou o Santo Padre na época. Todavia, o debate estava longe de acabar ali.

As discussões continuaram a fervilhar nos anos seguintes com cada vez mais veemência e caráter reivindicatório. A seu favor, os defensores das ordenações femininas argumentavam que a decisão de Jesus de escolher apenas homens para o ministério apostólico baseava-se somente em um contexto sociológico e que, por isso, tal decisão seria disciplinar, como no caso do celibato dos padres. Ao contrário da doutrina, que não pode ser contestada pelo fiel católico, a disciplina, embora deva ser obedecida enquanto estiver em vigor, pode ser ab-rogada. E era esse o desejo deles.

Em 1978, assume o trono de São Pedro o cardeal polonês Karol Wojtyla. É durante o seu governo que o Papa será desafiado a dar uma resposta definitiva para a questão. O estopim da queda de braço ocorreu nos Estados Unidos, em 1979, na Catedral de Washington. Na ocasião, a irmã Therese Kane, então presidente da US Leadership of the Women Religious, havia sido escolhida para representar as freiras no encontro com o Santo Padre. Foi durante a sua fala que ela explodiu a bomba:

"Nós temos ouvido a poderosa mensagem de nossa Igreja, dirigida à dignidade e à reverência de todas as pessoas [...]. A Igreja deve responder oferecendo a possibilidade de as mulheres, como pessoas, serem incluídas em todos os ministérios."

A mensagem da irmã Therese Kane ganhou o mundo e não podia passar despercebida dentro dos círculos católicos. Apesar do constante ensinamento do Magistério sobre o assunto, a força daquele gesto desencadeou uma nova onda de discussões que exigiram do Papa uma posição inequívoca. E foi o que ele fez, já mesmo na ocasião da visita aos Estados Unidos, explicando repetidas vezes que a Igreja não possuía a faculdade de ordenar mulheres. "Chamando só homens como seus apóstolos, Cristo agiu de maneira totalmente livre e soberana. Fez isto com a mesma liberdade com que, em todo o seu comportamento, pôs em destaque a dignidade e a vocação da mulher", explicou novamente o Santo Padre, agora em 1988, na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (n. 26). No mesmo documento, São João Paulo II ainda esclareceu que:

"Se Cristo, instituindo a Eucaristia, a ligou de modo tão explícito ao serviço sacerdotal dos apóstolos, é lícito pensar que dessa maneira ele queria exprimir a relação entre homem e mulher, entre o que é 'feminino' e o que é 'masculino', querida por Deus, tanto no mistério da criação como no da redenção. É na Eucaristia que, em primeiro lugar, se exprime de modo sacramental o ato redentor de Cristo Esposo em relação à Igreja Esposa. Isto se torna transparente e unívoco, quando o serviço sacramental da Eucaristia, no qual o sacerdote age 'in persona Christi', é realizado pelo homem. É uma explicação que confirma o ensinamento da Declaração Inter Insigniores, publicada por incumbência do Papa Paulo VI para responder à interrogação sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial."

A intervenção clara de São João Paulo II serviu para tranquilizar "muitas consciências que, em boa fé, se deixaram agitar talvez não tanto pela dúvida, como pela insegurança. Elas "encontraram a serenidade graças ao ensinamento do Santo Padre", como observaria o cardeal Ratzinger anos depois.

Por outro lado, algumas oposições ao ensinamento constante do Magistério ordinário da Igreja não cessaram e se fizeram ainda mais atrevidas, chegando ao cúmulo de ordenações clandestinas. O desafio estava lançado à Santa Sé e São João Paulo II não o deixaria sem resposta. No dia 22 de maio de 1994, data em que se celebrava a Solenidade de Pentecostes, o Santo Padre mandou publicar a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis:

"Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja." (grifos nossos)

A definição de São João Paulo II, apesar de clara, ainda foi objeto de dúvidas entre alguns prelados e fiéis. Questionava-se se a declaração possuía caráter dogmático. Em forma de dubium, chegou à Congregação para a Doutrina da Fé a seguinte questão: "Se a doutrina, segundo a qual a Igreja não tem faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, proposta como definitiva na Carta Apostólica Ordinatio sacerdotalis, deve ser considerada pertencente ao depósito da fé." A resposta da mesma congregação foi: "Afirmativa". Roma locuta!

Toda esta controvérsia nos ensina como a Igreja costuma usar o instrumento do dubium (plural dubia) para esclarecer alguma dificuldade interpretativa que possa surgir de um documento magisterial. Ensinar com clareza o caminho de Deus é um grande ato de misericórdia e de caridade para os fiéis. Afinal, não há nada mais importante para as ovelhas do que ouvir, com clareza, a voz do bom pastor e dele receber a vida eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Os católicos e a intolerância religiosa

Uma reflexão genuinamente católica sobre “intolerância religiosa”, escrita por um bispo e membro da Academia Brasileira de Letras.

Neste ano de 2016, o Exame Nacional do Ensino Médio formulou como proposta de redação o tema "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil". Embora ciente do viés notavelmente tendencioso com que o assunto foi apresentado, a pretensão de nossa equipe é contribuir sinceramente com esse debate, oferecendo uma reflexão genuinamente católica a esse respeito.

Para tanto, publicamos a seguir trecho de um precioso discurso de Dom Francisco de Aquino Corrêa. Para quem não o conhece, trata-se de um bispo brasileiro que governou a Arquidiocese de Cuiabá de 1921 a 1956 e que ocupou, no mesmo período, um honroso lugar de prestígio na Academia Brasileira de Letras.

Não obstante elevada a linguagem com que se pronuncia o purpurado, a mensagem que ele transmite não só é inteligível, como de grande utilidade para orientar a moderna discussão sobre "intolerância religiosa". Não deixem de apreciar:

Senhores!

Aprendi com os velhos mestres escolásticos que um dos recursos mais frequentes nas justas cavalheirescas do espírito há de ser a distinção lógica dos termos: assim aconselhavam eles no final dum conhecido hexâmetro didático: distingue frequenter. Onde quer que se insinue a confusão, aí se impõe ela. E, não raro, nos dá, deveras, a sensação dum raio de sol em plena treva. Ora, um dos vocábulos mais confusos da linguagem polêmica é precisamente a intolerância. Tanto assim que podemos distingui-la, não em duas, mas em três espécies, que, para maior clareza ou efeito gráfico e mnemônico, designarei por três pês: intolerância de pessoas, de palavras e de pensamentos.

Nada mais anticristão do que a intolerância de pessoas. Basta abrir os evangelhos: Jesus levou nesse terreno a tolerância a tal auge que escandalizou os fariseus, pois, afrontando-lhes embora a indignação e o desprezo, achegou-se aos publicanos e pecadores. E máxime em pritaneus acadêmicos, como o nosso, é que se ela impõe, como já fazia notar, com a costumada lepidez, o saudoso confrade Carlos de Laet: "Neste habitáculo das letras, escreveu ele, a tolerância de pessoas não é somente uma virtude, mas uma exigência impreterível, para a serenidade em nossos debates, mesmo naqueles que mais nos escandescem, isto é, os da questão ortográfica".

Não é, portanto, essa, a intolerância, de que se possa acusar o catolicismo, porque ninguém menos católico, nem mais intolerável, do que um católico intolerante para com as pessoas.

Em segundo lugar, vem a intolerância de palavras, compreendendo-se nesta expressão toda a intolerância no modo de expor ou defender a doutrina. E esta igualmente, longe de praticar, há de condená-la quem quer que se preze de verdadeiro católico. Mestre das controvérsias católicas, investido oficialmente nesse título pelo Papa reinante, é S. Francisco de Sales. E é ele próprio quem nos diz que o polemista, que se enfada, torna suspeita a sua causa. A luz da verdade, ensina ainda ele, não se dardeja aos olhos do adversário, com perigos de cegá-lo: faz-se-lhe alvorecer de mansinho. E tamanho era o seu cavalheirismo, que desejara tratar os contendores, não somente com luvas, mas luvas perfumadas. E aqui vem a propósito aquelas duas palavras com que os livros santos definem a ação da Providência no governo do mundo: fortiter e suaviter, as quais bem se podem aplicar ao floreio elegante da dialética, na mão dos paladinos da causa católica: firmeza na verdade, gentileza no defendê-la. Fortiter in re, suaviter in modo.

Esta firmeza na verdade nos leva naturalmente a considerar a terceira classe de intolerância, que é a do pensamento. E esta, sim, meus Senhores, devo confessar-vos que o catolicismo não somente a professa, mas dela faz timbre nas armas heráldicas do seu apostolado, outra coisa não sendo ela, senão a intolerância do erro. E não há condescendências nem amizades que valham a justificar a adoção do erro, um só que seja. Já dizia Aristóteles que, com ser amigo e admirador de Platão, não deixava de o ser, e muito mais, da verdade: Amicus Plato, sed magis amica veritas.

Muitos, todavia, nem com essa intolerância se conformam, e a razão se me antolha óbvia: é que não admitem a verdade integral dos dogmas do cristianismo. Diante destes, a situação dos católicos continua a ser aquela mesma de Jesus em presença de Pilatos: ante a convicção com que o Cristo falava da verdade, que viera revelar ao mundo, pergunta-lhe o procurador da Judéia, com um sorriso de humorismo, que bem se lhe adivinha nos lábios: "E que vem a ser a verdade?" Quid est veritas? (Jo XVIII, 38).

E, efetivamente, para os que vêem na doutrina católica, a par de algumas verdades, não poucas superstições e crendices, nada mais insuportável que a presunção com que a proclamamos e defendemos contra tudo que lhe repugne. Mas, por outro lado, se o católico, convencido como deve estar dessas verdades, a ponto de, no dizer de Pascal, deixar-se degolar por elas, não praticasse essa intolerância daria bem triste prova da sua convicção, ou, melhor, documentaria a sua incoerência. Tolerar ideias contraditórias é próprio só de espíritos que ainda não se firmaram na verdade. Há de se, pois, fazer justiça aos católicos, reconhecendo, ao menos, a coerência da sua atitude: verdade e erro não se toleram entre si, repelem-se: hurlent de se trouver ensemble.

O que vos eu acabo de expor, não é meu, nem novo: acha-se já admiravelmente cristalizado, há 16 séculos, naquela fórmula clássica de Santo Agostinho, que assim reza: "Amai aos homens, destruí os erros, certos, mas não soberbos de possuir a verdade, e lutando, mas sem paixões, por ela!" Diligite homines, interficite errores: sine superbia de veritate praesumentes, sine saevitia pro veritate certantes.

Não se pense, entretanto, que tudo no cristianismo sejam dogmas: ao lado destes, existem aí também não poucas teses incertas e duvidosas. A intolerância, de que falamos, circunscreve-se aos domínios do dogma; fora daí, há liberdade de pensamento. É o que lapidarmente, como costumava, fixou o mesmo Santo Agostinho neste brocardo, que tão de molde vem ao nosso assunto: "No dogma, unidade; na dúvida, liberdade; em tudo, caridade". In certis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas.

Nem será por demais frisar melhor aqui esta liberdade de pensamento, para que se não cuide que, em se tratando de dogmas, desapareça ela, de todo em todo, o que seria falso. Basta, para isso, distinguir na fé o seu ato e o seu objeto. O ato de fé é sempre livre, essencialmente livre, tão livre que sem liberdade não pode existir a fé: ou se crê livremente, ou não se crê. Daqui a estultícia da fábula do "crê ou morre!" O objeto da fé, este sim, é que exclui a livre escolha, não podendo ser outro que a verdade.



Dom Francisco de Aquino Corrêa, Mensagem aos Homens de Letras (Proferida na Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1937). Em: Discursos, vol. II, tomo II, Brasília, 1985, pp. 176-178.

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Absurdo querer amar Jesus sem a Igreja

Cristo fundou e remiu uma só Igreja, e é a ela que devem permanecer unidos todos os que se querem aproximar d’Ele.

Em uma das primeiras homilias de seu pontificado, o Papa Francisco recordou a todo o povo de Deus que "é uma dicotomia absurda querer amar Jesus sem a Igreja". A afirmação – que, na verdade, foi retirada do documento Evangelii Nuntiandi, do bem-aventurado Papa Paulo VI [1] – vai na contramão do senso mundano comum, para o qual seria preciso "mais Deus e menos religião", "mais Jesus e menos Igreja".

Protestos desse tipo são frutos de um particular ódio às instituições, que passam a ser vistas como agentes promotores de conflitos e divisões. Quando se fala de religião, o imaginário de muitas pessoas não consegue ir muito além dos noticiários de TV: a visão que se tem é a de vários grupos antagônicos e barulhentos, constantemente brigando por "dízimo" e "fiéis", mais preocupados com prestígio pessoal e crescimento financeiro que com uma verdadeira busca do Bem e da Verdade.

Entendida desse modo, religião realmente "não salva ninguém". Dizer, entretanto, que Jesus veio ao mundo para deixar que a Sua Palavra simplesmente corresse nas mãos de um sem número de pessoas, dizendo coisas vagas, absurdas e ao mesmo tempo dissonantes entre si, é algo que põe em xeque a própria credibilidade da Revelação.

Ora, não é verdade que "Deus não pode enganar-Se nem enganar-nos" (nec falli nec fallere potest) [2]? Contemplando, porém, a multidão de seitas que se multiplicam indefinidamente, todas dizendo pregar o Cristo, a que conclusão chegar senão que a Sua mensagem se desvirtuou?

A resposta está justamente na Igreja – que não é uma "pessoa jurídica" registrada em cartório, nem uma casinha de tijolos facilmente passível de ser derrubada pelo vento, mas a "Igreja una, santa, católica e apostólica", a única fundada por Jesus (cf. Mt 16, 18) e fora da qual não se pode achar a salvação:

"Todo o nervo da controvérsia entre católicos e protestantes reside numa questão fundamental, cuja solução definitiva decide o êxito da pendência multissecular. Onde se acha o verdadeiro cristianismo? Onde a Igreja genuína fundada pelo Salvador? Cristo instituiu um magistério vivo, infalível, autêntico, uma Igreja visível, hierárquica, indefectível, depositária incorruptível dos seus ensinamentos, encarregada de os transmitir, na sua pureza primitiva, às gerações de todos os tempos? Ou, pelo contrário, quis o divino Salvador que a sua doutrina, embalsamada nas letras mortas de um livro, flutuasse à mercê do arbítrio e das incertezas da interpretação individual; que, sem vínculo orgânico, sem harmonia de fé, sem unidade de moral, sem coesão de governo, se pulverizasse a sua Igreja, no decurso dos tempos, em mil seitas contraditórias – vasto acervo de pedras que mais assemelhassem a montão ruinoso de sistemas humanos que à majestade harmônica de um templo divino?

Se assim é, o protestantismo tem razão. Mas se, ao invés, é verdadeira a primeira hipótese, só a Igreja Católica, Apostólica, Romana reúne os verdadeiros caracteres da instituição divina de Cristo. Essa é a Igreja da qual está escrito que é coluna e firmamento da verdade; essa a Igreja, cujos ensinamentos e decisões deverão ser ouvidas pelos fiéis sob pena de serem considerados como pagãos e pecadores; essa a Igreja, que nas promessas divinas tem o penhor de imortalidade: contra ela não hão de prevalecer as portas do inferno, com ela estará o Salvador todos os dias até à consumação dos séculos." [3]

Unida a seu Salvador, a Igreja existe neste mundo para viver e atualizar a vida de Cristo, desde o Seu nascimento até a Sua morte na Cruz. No fim, para elevar à perfeição a semelhança entre Cristo e a Igreja, também esta ressuscitará, vivendo para sempre junto de Seu Esposo, no Céu.

Nela, de fato, tudo aponta para Cristo: o Batismo salva as pessoas e as coloca no caminho da salvação; a Eucaristia atualiza a presença do Redentor, que é oferecido diariamente para a adoração e o alimento dos fiéis; o Papa é o "vigário de Cristo" que, nos passos de São Pedro, foi constituído para ser pescador de homens (cf. Mt 4, 19); os Santos, no Céu, intercedem pelos santos da terra, que vivem neste mundo visível com os olhos fixos nas realidades invisíveis (cf. 2 Cor 4, 18) – lá onde a sua vida está escondida com Cristo, em Deus (cf. Cl 3, 3).

Quando se nega, portanto, todas essas coisas – os Sacramentos, o primado do Papa e a comunhão dos santos –, não impressiona que se parta para o abandono de Cristo.

Primeiro, porque foi Ele próprio quem disse aos Apóstolos: "Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos rejeita, a Mim rejeita" (Lc 10, 16), isto é, "tudo o que é dito pelos santos apóstolos deve ser aceito, porque quem os escuta, escuta a Cristo. Inevitável é, pois, a pena dos hereges, que rejeitam as palavras dos apóstolos" [4].

Segundo, porque a Igreja é o corpo místico de Cristo (cf. Cl 1, 24). Ora, como é possível amar a cabeça e desprezar o corpo? A caminho de Damasco, o temente Saulo de Tarso descobriu que a experiência com Deus está intimamente ligada à pessoa de Jesus Cristo, e esta, por sua vez, é indissociável da Igreja (cf. At 9, 4-5). Cristo está realmente presente naqueles que O amam e comungam de Seu Corpo e Sangue, na Eucaristia, como Ele mesmo prometeu: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada" (Jo 14, 23); "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" (Jo 6, 53).

Além disso, sem a Igreja, Jesus figuraria apenas como um homem do passado, uma personagem distante da história, com a qual a modernidade sequer precisaria ter contato. Suas histórias não passariam de algumas lendas contidas em páginas amareladas, que as pessoas às vezes escutam para se entreter umas com as outras. A missão de Nosso Senhor, porém, não admite esse tipo de tratamento. Ele realmente veio para salvar todos os homens e comprá-los, todos, com o Seu sangue derramado na Cruz. Não se limitou a ensinar algumas lições bonitas e instruir os homens de Seu tempo, mas agiu efetivamente para dar vida divina a toda a humanidade (cf. 2 Pd 1, 4) e conduzi-la ao Céu.

Para tanto, Ele mesmo instituiu os Sacramentos, através dos quais o Seu sangue redentor é aspergido sobre os seres humanos: no Batismo, eles nascem; na Confirmação, crescem; na Eucaristia, se alimentam; na Penitência, se renovam e purificam; na Unção, se fortalecem; e, na Ordem e no Matrimônio, se santificam. Por meio dessas sete "portas de salvação", pessoas de todos os tempos e lugares podem dizer que estão verdadeiramente em comunhão com Cristo, atestando o cumprimento da Sua promessa de que permaneceria com os Seus discípulos todos os dias, até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 19-20).

A esta única Igreja Cristo se uniu; por esta única Igreja ofereceu o Seu sacrifício de amor (cf. Ef 5, 25). É, pois, também a ela que deve permanecer unido quem quer que se queira aproximar de Nosso Senhor.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (8 de dezembro de 1975), n. 16.
  2. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius (24 de abril de 1870), III: DS 3008.
  3. FRANCA, Leonel. A Igreja, a Reforma e a Civilização. 5ª. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1948.
  4. São Cirilo apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Lucam, X, 4.