| Categoria: Igreja Católica

Católico e protestante debatem em avião

Em voo rumo ao Rio, um jovem católico se assenta ao lado de um senhor protestante. Não demora muito para que os dois, respeitosamente, entrem em choque.

Em um voo para o Rio de Janeiro, um jovem católico se assenta ao lado de um senhor protestante. Ambos estão vestidos simples e modestamente: camisa por dentro da calça social e sapatos pretos. Trocam breves cumprimentos, afivelam seus cintos, enquanto os demais passageiros se aconchegam em suas poltronas. O piloto inicia os procedimentos para decolagem, e as aeromoças dão as instruções para a segurança dos tripulantes. "Desliguem todos os seus equipamentos eletrônicos; coloquem suas poltronas na posição vertical", pede uma delas, falando ao microfone. Sentindo que a aeronave já estava no ar, o rapaz católico traça o sinal da cruz, sob o olhar surpreso do senhor protestante.

— Você é católico? — pergunta o senhor, dando início a um colóquio sobre imagens, santos, Maria, celibato etc.

— Sim, sou — responde o jovem.

— Como vocês, católicos, podem adorar imagens, se no livro de Êxodo, capítulo 20, Deus o proíbe?

— Deus não proíbe as imagens, mas a idolatria. Em Êxodo, 25, duas páginas à frente do capítulo que o senhor mencionou, Deus pede a Moisés que faça duas imagens de Querubins para a Arca da Aliança. — E o católico prossegue: — Ora, Deus não é esclerosado. Nós, católicos, temos imagens como um ícone, um sinal que nos remete para os céus. Num tempo de tanto ateísmo, as imagens são muito importantes para nos lembrar da existência de Deus.

— Não concordo com isso — rebate o protestante —, assim como não concordo com o celibato dos padres. Pedro se casou, você sabia?

— Sim, mas Pedro, como vocês, protestantes, costumam dizer, não é o caminho, a verdade e a vida. Esse caminho é Jesus. E Ele não se casou. Os padres seguem o exemplo de Cristo.

— Mas, quanto a Maria — insiste o senhor —, Jesus disse que todo aquele que faz a vontade do Pai é seu irmão e sua mãe.

Todos os anos, na festa da Apresentação de Nossa Senhora, a Igreja proclama justamente esse Evangelho, pois se trata de um elogio de Jesus a sua Mãe. Mais do que todos, Ela é a "bem-aventurada porque acreditou", a que realmente soube cumprir a vontade do Pai (cf. Lc 1, 45). Antes de ser Mãe de Jesus na carne, ela foi Mãe na fé. O Espírito Santo diz pela boca de Santa Isabel: "A que devo a honra de vir a mim a Mãe de meu Senhor?" (Lc 1, 43). Jesus não contradiz o Espírito Santo.

Ainda não satisfeito com as explicações do jovem, embora extremamente surpreendido com o conhecimento bíblico que ele demonstrara, o protestante acusa:

— Essa é a interpretação da sua Igreja. Infelizmente, a Bíblia pode ser interpretada de várias formas.

— Concordo com o senhor — torna a responder o católico, pronto para finalizar a disputatio —, mas a livre interpretação da Bíblia foi algo inventado por Martinho Lutero, o fundador da sua religião. Nós, católicos, seguimos a Tradição Apostólica. Cremos naquilo que os cristãos sempre acreditaram, não em fábulas de homens quaisquer.

A conversa estende-se por mais alguns minutos. Vendo a eloquência dos argumentos católicos, o protestante "baixa a guarda", por assim dizer, a fim de prestar atenção às palavras daquele jovem que demonstrava tanta convicção em sua fé, que falava com tanto amor da Virgem Maria, dos santos e, sobretudo, de Jesus Cristo. De repente, a Igreja Católica já não parecia o monstro pintado pelos pastores evangélicos. O debate agora era uma conversa entre aluno e catequista. O protestante queria conhecer aquela beleza escondida, o patrimônio cristão de séculos, amputado pela ruptura luterana.

De fato, no imaginário protestante comum, a Igreja Católica é, na melhor das hipóteses, uma Igreja como as demais, não a unica Christi Ecclesia, como reafirmou o Concílio Vaticano II [1]. Desde cedo, por causa de um proselitismo demasiado agressivo, muitos evangélicos são ensinados a considerar a religião católica uma seita, uma espécie de sincretismo pagão. Ademais, é-se criado um estereótipo. Por isso, certa feita, disse mui acertadamente o venerável Fulton Sheen: "Talvez não haja nos Estados Unidos uma centena de pessoas que odeiem a Igreja Católica; mas há milhões de pessoas que odeiam aquilo que erroneamente supõem ser a Igreja Católica." O senhor protestante odiava uma falsa Igreja Católica; odiava o espantalho, porque desconhecia o corpo verdadeiro. Posto, no entanto, diante da verdadeira fé cristã, não pôde senão exprimir sua perplexidade. O castelo de cartas havia ruído. Embaraçado com a descoberta, o senhor protestante questiona o jovem católico:

— Vejo que você é um rapaz que ama a Jesus Cristo, que dedica sua vida à Igreja. Você é diferente da maioria dos católicos que conheci. Gostaria de entender, então, por que grande parte dos católicos são relaxados. Digo, por que vão à missa mal vestidos, as mulheres com decotes e minissaias, os rapazes com bermudas ou as calças caídas, se lá está presente Jesus, como você me explicou? Nós, protestantes, sempre vamos ao culto com boas roupas, bem vestidos, pois queremos entregar nosso melhor para Deus. Por que essa diferença?

Silêncio na aeronave. Agora era a vez do jovem católico abaixar a cabeça em sinal de lamentação. Que poderia responder ele? Que poderia dizer em favor de seus irmãos católicos? Acaso não era verdade — para nossa vergonha — o que o senhor protestante observara?

— Os doze apóstolos — respondeu o jovem, depois de pensar um pouco — testemunharam por três anos a pregação, os milagres e, principalmente, o amor de Cristo pelo homem. Na cruz, no entanto, restaram umas poucas mulheres e apenas um apóstolo. Um discípulo o traiu, outro ainda o negou, e os nove demais se esconderam por medo… A Igreja de ontem se parece muito com a Igreja de hoje. É forçoso reconhecer, mas, mesmo nos maus exemplos, ela é apostólica.

O diálogo entre esses dois personagens elucida muito bem a situação em que muitos cristãos, sejam católicos, sejam protestantes, se encontram hoje. Já falamos, ao menos um pouco, das razões que levam os evangélicos a se afastarem do catolicismo. A propaganda hostil contra a Igreja, com base na famosa falácia do espantalho — isto é, a criação de uma caricatura para substituir o que é original —, é uma delas. Mas seria bastante desonesto culpar somente o proselitismo pela evasão de fiéis. Na história do cristianismo, o contra-testemunho sempre foi uma pedra de tropeço. É preciso, por isso, um mea culpa.

Existe uma tendência dentro da Igreja, hoje em dia, de se reduzir a espiritualidade a alguns chavões bonitos, mas vazios. Certa filosofia da calça jeans, por exemplo, tem feito muitos confundirem a Celebração da Santa Missa com a barraca de peixe da feira. Vai-se à Eucaristia como se se tratasse de algo qualquer, sem o devido decoro ou a mínima reverência. Jovens que rezam e zelam pela casa de Deus são achincalhados e segregados em suas comunidades. Performances de dança e peças de teatro encenadas na frente do Santíssimo, ao contrário, são consideradas expressões da universalidade. Um jovem de roupa social é "careta", outro, mostrando a roupa de baixo, é "descolado". A lista de contradições é comprida e cansativa. Sem mais delongas, recordemos o que São Paulo insistentemente ensinava: "Os que exercem bem o ministério, recebem uma posição de estima e muita liberdade para falar da fé em Cristo Jesus" (1 Tm 3, 13). Nada mais que o óbvio. Se os ateus, os agnósticos, os protestantes etc. não enxergarem a piedade e o zelo dos católicos pelo bem mais sublime da fé, como poderão crer?

Falta formação. Apascentar as ovelhas de Cristo com a ciência e a doutrina (cf. Jr 3, 15). Lembrar-se de que além de mãe, a Igreja é mestra. Mater et Magistra, como dizia São João XXIII. Os maus exemplos visíveis em tantas comunidades são, na sua maioria, decorrentes da falta de conhecimento. Seria simples farisaísmo responsabilizar o laicato por tais abusos, quando muitos deles são feitos com a reta intenção de agradar a Deus. Não, a responsabilidade é de outro departamento. É serviço do clero ensinar a fé e a moral, segundo a Tradição. É serviço dos padres abrir os tesouros da Igreja para todos. Quem tem acesso a esse conteúdo, por conseguinte, não só muda de vida, como também contribui para o crescimento espiritual dos demais. Cria-se um círculo virtuoso. E ainda que custe o descanso e o tempo, só assim se formam "pastores com o 'cheiro das ovelhas', pastores no meio do seu rebanho, e pescadores de homens" [2]. Vale recordar o que diz o Concílio Vaticano II, acerca da missão dos bispos:

"No exercício do seu múnus de ensinar, anunciem o Evangelho de Cristo aos homens, que é um dos principais deveres dos Bispos, chamando-os à fé com a fortaleza do Espírito ou confirmando-os na fé viva. Proponham-lhes na sua integridade o mistério de Cristo, isto é, aquelas verdades que não se podem ignorar sem ignorar o mesmo Cristo. E ensinem-lhes o caminho que Deus revelou para ser glorificado pelos homens e estes conseguirem a bem-aventurança eterna." [3]

Não se está exigindo — atentem-se — nem o uso de véus, nem de saias, nem a comunhão de joelhos, tampouco missas em latim. Essa não é a questão. Apenas se faz um chamado ao bom senso. Salta aos olhos a indiferença que dia sim, dia também, se faz presente em tantas paróquias. Em alguns casos, torna-se mesmo difícil distinguir entre uma matinée e uma Missa, dada a quantidade de pirotecnia, firulas e vestimentas, no mínimo, indecorosas presentes na celebração.

A Igreja Católica é a mais sublime de todas as instituições porque é a perpetuação da encarnação de Cristo na Terra. Mas, para um protestante acostumado a imaginar o espantalho construído por seu pregador, o mau exemplo de tantos católicos torna quase impossível o encontro dessa verdade. Para cada espantalho filosófico, há uma porção de espantalhos ambulantes.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, n. 8
  2. Papa Francisco, Homilia da Quinta-Feira Santa, 28 de março de 2013
  3. Concílio Vaticano II, Decreto Christus Dominus, 28 de outubro de 1965, n. 12

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Os seis eixos pastorais de João Paulo I

Em apenas 33 dias de pontificado, João Paulo I foi capaz de levar a mensagem pacificadora de Cristo, sobretudo através de seu sorriso - o sorriso de Deus.

São João Paulo II reinou gloriosamente no Trono de São Pedro por quase 27 anos. Foi o terceiro maior pontificado da história da Igreja. Perde apenas para São Pedro e Pio IX. Considerado conservador demais para uns, inovador demais para outros, o Pontífice polonês soube, como nenhum outro até então, deixar a sua marca: O Papa das multidões, o Papa da Teologia do Corpo, o Papa da família, o Papa do segredo de Fátima, o Papa que derrubou o comunismo, o Papa das Jornadas Mundiais da Juventude… O Papa do Terceiro Milênio. João Paulo II teve a missão de levar o catolicismo adiante, em uma época de ideologias que pareciam já não deixar espaço para a fé cristã. Após sua morte, em abril de 2005, é possível dizer que seus esforços não foram em vão.

Todos os Papas são chamados a uma missão especial: Confirmar seus irmãos na fé. É um dos deveres do Sucessor de Pedro vigiar e zelar para que o rebanho de Cristo não seja assaltado pelos lobos. João Paulo II fez de seu programa de governo uma autêntica cruzada. Na raiz disso, encontra-se outro programa de governo que, dadas as circunstâncias em que foi ceifado, não teve tempo de prosseguir. Ao menos não pelo seu idealizador. Falamos de João Paulo I. O imediato predecessor de Karol Wojtyla, por um desígnio divino, foi Papa por apenas 33 dias. "Ele que despertou na Igreja tão grande alegria e inspirou nos corações dos homens tanta esperança, em tão breve tempo consumou e levou a termo a sua missão", enfatizou João Paulo II, durante sua primeira Audiência Geral, na Sala Paulo VI. Recordando o Papa falecido, o Papa reinante esclareceu que era seu desejo "continuar os temas já iniciados por João Paulo I". Wojtyla falava das catequeses sobre as virtudes. Mas em seu coração, como havíamos de provar, vislumbrava-se o grande projeto de João Paulo I: Trazer a humanidade de volta para o seio da Igreja.

Albino Luciani, o Papa João Paulo I, possuía uma consciência muito clara do "caráter insubstituível da Igreja Católica". "Só nela se encontra a salvação: sem ela perece-se!", ensinava. Assim, logo na sua primeira mensagem apostólica, o Papa que se chamava "humilde e último 'servo dos Servos de Deus'" não hesitou em convocar uma nova evangelização. Para um mundo acostumado ao relativismo, tentado a substituir a Deus pela própria vontade, pensar em uma "nova evangelização" é flertar com o imperialismo. Não era assim que pensava João Paulo I. Sua humildade estava no devido lugar. Não sofria do mal do século, conforme explica G.K. Chesterton: "O mal de que sofremos hoje em dia é a humildade no lugar errado… O homem foi concebido para duvidar de si mesmo, mas não da verdade… O novo cético é tão humilde que duvida até de sua capacidade de aprender" [1]. Na contramão, enquanto o mundo todo duvidava da necessidade da Igreja, da necessidade de voltar-se uma vez mais para Cristo e seus ensinamentos, João Paulo I levantava-se sob esta mesma certeza: A Igreja Católica é garantia de paz e ordem. E essa certeza provinha não de teorias abstratas e sem fundamentos, mas do "encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo." [2]

Afamado já desde o tempo de Cardeal Patriarca de Veneza por sua simplicidade e pobreza, o único e urgente desejo de Albino Luciani era o de levar o patrimônio espiritual da fé a toda a humanidade. Por isso, recomendava ao Orbe Católico [3]:

"Superando as tensões internas, que aqui e além se puderam criar, vencendo as tentações de identificação com os gostos e costumes do mundo, e bem assim as atrações de um fácil aplauso, unidos no único vínculo do amor que deve informar a vida íntima da Igreja como também as formas externas da sua disciplina, os fiéis devem estar prontos a dar testemunho da própria fé diante do mundo: Sempre prontos a responder, para vossa defesa, a todo aquele que vos pergunte a razão da vossa esperança (1 Pd 3, 15)."

João Paulo I deteve-se sobre seis eixos principais na elaboração de seu projeto pastoral. O primeiro deles: "Queremos prosseguir, sem paragens, a herança do Concílio Vaticano II". Pode-se dizer que Luciani foi pioneiro na chamada hermenêutica da continuidade, muito antes que Ratzinger a comentasse naquele famoso discurso aos Cardeais, no natal de 2005. João Paulo I tinha olhos atentos para que certo ímpeto, "generoso talvez mas incauto", não deformasse o conteúdo do Concílio, como também para que "forças exageradamente moderadoras e tímidas" não atrasassem seu "magnífico impulso de renovação e de vida". Sobre a reforma litúrgica, exigia: "Desejaria também que Roma desse bom exemplo em matéria de Liturgia celebrada piedosamente e sem 'criatividades' destoantes… desejaria poder dar a certeza de que todas as irregularidades litúrgicas serão diligentemente evitadas." [4]

Dois outros desejos do Papa: "Queremos conservar intacta a grande disciplina da Igreja, na vida dos sacerdotes e dos fiéis" e "queremos recordar a toda a Igreja que o seu primeiro dever continua sendo o da evangelização". A relação entre esses dois "quereres" é evidente. Uma Igreja apostólica nasce precisamente de uma Igreja disciplinada, consciente de seu chamado à santidade. Quando se perde a dimensão espiritual, perde-se, ipso facto, o significado da missionariedade. A Igreja torna-se tão somente uma ONG piedosa, pois deixa de anunciar a Cristo. [5]

Quarta vontade de João Paulo I: "Queremos continuar o esforço ecumênico, que vemos como a última indicação dos nossos imediatos Predecessores, velando com fé intacta, com esperança invencível e com amor indeclinável pela realização do grande mandamento de Cristo: 'Que todos sejam um ( Jo 17, 21)'". Mas "sem cedências doutrinais", deixa claro. O esforço do Santo Padre vai na direção daquilo que Pio XI esclareceu na Mortalium Animos: "Não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela." [6] Também no mesmo sentido segue o desejo de "prosseguir com paciência e firmeza naquele diálogo sereno e construtivo, que o nunca suficientemente chorado Paulo VI pôs como fundamento e programa de sua ação pastoral".

And last, but not least, a intenção de "favorecer todas as iniciativas louváveis e valiosas, que possam defender e incrementar a paz no mundo conturbado". O Papa, como vigário de Cristo, é também um baluarte da paz. Mesmo com apenas 33 dias de pontificado, João Paulo I foi capaz de levar essa mensagem pacificadora, ora por seus escritos e radiomensagens, ora por seu imenso carisma. Sobretudo, pelo seu sorriso. O sorriso de Deus, como ficou conhecido. Quis a providência divina que seu ímpeto evangélico fosse breve no Trono de São Pedro. Ainda se pode ouvir sua frágil porém decidida voz defender o direito dos mais pobres naquele fatídico 28 de setembro de 1978. Em seu lugar, veio um polonês: João Paulo II. Essa história já conhecemos. Ela nos revela como a firmeza de um Papa por 33 dias é capaz de fortalecer a fé de um Papa por 27 anos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, págs. 53-54
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est, 25 de dezembro de 2005, n. 1
  3. Primeira Radiomensagem de João Paulo I, 27 de agosto de 1978
  4. Papa João Paulo I, Homilia da Missa de tomada de posse da Diocese de Roma, 23 de setembro de 1978, n. 3
  5. Papa Francisco, Homilia da Missa com os Cardeais, 14 de março de 2013
  6. Papa Pio XI, Carta Encíclica Mortalium Animos, 6 de janeiro de 1928, n. 16

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Mensagem de Natal: A alegria do Céu que vem nos visitar

Deus, em Sua felicidade infinita, vem chorar o choro do homem, para que ele, em seus gemidos, possa viver a alegria celeste.

No Natal, é comum que as pessoas se saúdem, desejando às outras um "Feliz Natal". Mas, qual o sentido dessa expressão?

Na verdade, tais votos fazem referência à felicidade do Céu que vem visitar a humanidade. São João da Cruz, em um poema sobre o mistério do Natal, escreve:

"Deus, porém, no presépio
Ali chorava e gemia;
(...)
E a Mãe se assombrava
Da troca que ali se via:
O pranto do homem em Deus,
E no homem a alegria"

Eis, nas palavras do Doutor Místico, o "admirabile commercium" de que falam os latinos: Deus, em Sua felicidade infinita, vem chorar o choro do homem, para que ele, em seus gemidos, possa viver a alegria celeste. Por isso, os anjos, desde o primeiro Natal, não cessam de anunciar aos homens "gaudium magnum – uma grande alegria": "Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é Cristo Senhor!" (Lc 2, 11). Nesta grande festa da Igreja, Deus Se inclina dos céus, como uma mãe que se inclina sobre um berço para resgatar o seu filho que, abandonado a si mesmo, estaria perdido. Inclina-Se para, como uma mãe, colocar o ser humano sob o seu regaço e dar-lhe a salvação.

Ao contemplar o presépio nesta noite, ao ver a Santíssima Virgem diante do indefeso e inerme menino Jesus, possamos enxergar aquilo que Deus fez por todos nós, quando, em Sua infinita misericórdia, veio arrancar-nos da condenação à morte e trazer-nos a alegria do Céu.

Neste tempo do Natal, não temos o direito de falar de solidão. Emanuel, Deus está conosco, Aquele que nos amou de forma perfeita está conosco. "Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; estais comigo com bastão e com cajado; eles me dão a segurança!" (Sl 22, 4). Por isso, somente por isso, o Natal pode ser feliz. Se esquecermos de Jesus, esta festa não será nada mais que um evento social. Mas, se estivermos com Ele, podemos dizer, de coração e de verdade: Um Feliz e Santo Natal!

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Jesus Cristo e o Seu vigário

Jesus governa a Sua Igreja de modo visível e ordinário por meio do Papa, o seu vigário na Terra

Quando Cristo instituiu a Sua Igreja, Ele edificou-a sobre um fundamento visível. É claro que, ao falar desta realidade que toca o Céu e a Terra, a doutrina católica se refere à Igreja como uma comunidade muito maior que o simples conjunto de fiéis presentes neste mundo. Esta paisagem que se contempla aqui é apenas uma pequena porção da comunhão dos santos. A Igreja está presente, sobretudo, no Céu, onde já estão glorificados nosso Senhor e Sua Mãe Santíssima, juntamente com uma multidão incontável de santos e anjos.

No entanto, Jesus, conhecendo a fraqueza e a instabilidade humanas, viu a necessidade de deixar à Igreja um pastor que "fizesse as suas vezes" na Terra. Ele construiu uma estrutura sólida, a fim de que os fiéis cristãos mantivessem a unidade da fé e não se perdessem. Nas palavras de Pio XII, "o divino Redentor governa o seu corpo místico de modo visível e ordinário por meio de seu vigário na terra" [1]. Este vigário é sucessor do apóstolo Pedro, a quem foram confiadas as chaves do Reino dos céus [2].

Neste ponto, surge uma indagação: como explicar que, de acordo com São Paulo, Cristo seja a cabeça do Corpo, que é a Igreja [3], e, ao mesmo tempo, haja nela um chefe reconhecidamente venerado e respeitado, a ponto de ser chamado de Papa?

Esta parece ser uma questão espinhosa. Os protestantes vêm à baila com novas acusações infundadas de "idolatria", como se ao sucessor de São Pedro fosse prestada uma honra devida somente a Jesus. Ora, basta conhecer um pouco de Catecismo para saber que o culto aos santos difere essencialmente do culto prestado a Deus. Note-se que a diferença está radicada na "essência" dos cultos, e não em uma mera gradação. Ou seja, o culto que se presta a Deus não é simplesmente maior que o culto aos santos, mas substancialmente diverso, já que a adoração ( latria) se dirige somente a Deus, e a mais ninguém [4].

Mas, para fazer cessar o falatório antipapista, basta mostrar aos protestantes uma passagem dos Atos dos Apóstolos que relatava que "o povo lhes tributava grandes louvores" [5]. Será que também aos cristãos daquela época cairá a acusação de "idolatria"? Muitos deles – continuam os Atos – "traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles" [6].

A pergunta, no entanto, persiste: se Cristo é a cabeça do povo de Deus e Pedro é seu chefe visível, haveria na Igreja "duas cabeças"? O venerável Papa Pio XII responde, com propriedade:

"Nem se objete que com o primado de jurisdição instituído na Igreja ficava o corpo místico com duas cabeças. Porque Pedro, em força do primado, não é senão vigário de Cristo, e por isso a cabeça principal deste corpo é uma só: Cristo; o qual, sem deixar de governar a Igreja misteriosamente por si mesmo, rege-a também de modo visível por meio daquele que faz as suas vezes na terra; e assim a Igreja, depois da gloriosa ascensão de Cristo ao céu não está educada só sobre ele, senão também sobre Pedro, como fundamento visível." [7]

Ainda de acordo com o imortal ensinamento do Papa Bonifácio VIII, Cristo e Pedro formam uma só cabeça: "A una e única Igreja, portanto, tem um só corpo, uma só cabeça – não duas, como um monstro –, a saber: Cristo e o vigário de Cristo, que é Pedro e o sucessor de Pedro" [8]. E explica o Catecismo de São Pio X que o Romano Pontífice "dirige visivelmente [a Igreja] com a mesma autoridade de Jesus Cristo, que é a cabeça invisível da Igreja" [9].

Não há dúvida de que a fé no primado de Pedro, tal como posta por Jesus e reafirmada pelo Magistério da Igreja, é uma verdadeira pedra de escândalo. Ela mostra a este século orgulhoso que Deus, santo e incorruptível, age no mundo através de homens de carne e osso, com pecados e defeitos; que, nesta vida, desfrutamos o tesouro da graça "em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós" [10].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Mystici Corporis, 39
  2. Cf. Mt 16, 19
  3. Cf. Cl 1, 18
  4. Cf. Dt 6, 13
  5. At 5, 13
  6. At 5, 15
  7. Mystici Corporis, 39
  8. Bula Unam Sanctam, 18 nov. 1302: DS 872
  9. Catecismo de São Pio X, 194
  10. 2 Cor 4, 7

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A rebeldia de um monge

Se a rebelião de Lutero conseguiu dividir a cristandade, a providência de Deus foi muito mais eficaz em Seus santos.

Tratado o doloroso tema da separação entre Cristo e a Igreja ( ver aqui), que não poucas pessoas realizam em nossos tempos, é hora de voltarmos o olhar ao século XVI, quando um monge agostiniano se tornou pioneiro em talhar um “cristianismo" à sua própria medida, desvinculado da autoridade do Papa e da mediação sacerdotal, querida pelo próprio Senhor.

Martinho Lutero, nascido em 1483, na Saxônia, era um rapaz de inteligência aguçada, característica que seus pais e professores identificaram muito cedo, quando ele recebeu o trivium, em Mansfeld. Foi com 21 anos, mal acabara de começar os seus estudos de direito, que o rapaz decidiu fazer-se religioso. Em viagem a Erfurt, onde frequentava a universidade, Lutero foi surpreendido por uma tempestade bastante violenta. Em meio aos raios e trovões que o assustavam, ele invocou o auxílio de Santa Ana e fez uma promessa irrefletida: “Se me ajudares, far-me-ei monge".

De fato, apenas duas semanas depois do incidente, ele batia à porta do convento dos eremitas de Santo Agostinho. Levava uma vida de disciplina e oração, mas, aflito por escrúpulos e por uma ideia muito severa de Deus, não conseguia obter a paz da alma. Escreve Daniel-Rops que “Lutero era um ser intensamente dominado pelo sentimento trágico do pecado" [1]. A sua luta, mais que contra a sensualidade da carne, era contra a soberba da vida. “Os pensamentos hediondos, o ódio a Deus, a blasfêmia, o desespero, eis as grandes tentações", escrevia [2].

Um versículo bíblico em particular inquietava o monge da Saxônia: “Nele [no evangelho] se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: 'O justo viverá pela fé'" [3]. Por muito tempo, Lutero não conseguia ver na “justiça de Deus" senão a justitia puniens, a ira divina pelas faltas do homem. Até que ele descobre que Deus não apenas julga o homem, como também o justifica. Essa visão – que, até aqui, nada tem de errada – levou-o a formular, no entanto, uma nova doutrina. Para responder ao que o atormentava dia e noite, Lutero firma a salvação somente pela fé, eliminando a necessidade da penitência e do combate contra o pecado e deturpando toda a doutrina da graça: se o são ensinamento católico lembrava que a amizade de Deus não pode conviver com o pecado, a sua heresia concebia uma graça pela qual “todas as manchas da alma são como que cobertas por um manto de luz" [4]. O cristianismo deixava de ser a religião da santidade para se transformar num disfarce sutil, uma máscara para cobrir as faltas do homem.

Com o passar do tempo – e o advento da famosa e difícil questão das indulgências –, Lutero uniu à sua sola fide a rejeição do poder pontifício e, em 1520, no auge de sua rebeldia, o livre exame, o pedido de extinção do celibato eclesiástico e a crítica aos próprios Sacramentos, dos quais ele só reconhecia a validade de três. Em 1521, estava assinada a sua excomunhão, mas a cristandade já estava dividida.

Antes de qualquer coisa, é preciso lembrar a gravidade do ato de Lutero, um ato de desobediência que não pode ser desculpado por nenhuma contingência histórica. Ainda que muitas vezes os erros dos membros da Igreja gritem – como gritavam no século XVI e gritam também hoje –, a sua santidade, forjada com o sangue do Cordeiro, fala muito mais alto. Por isso, não se pode olhar para a rebelião dos chamados “reformadores" senão com desconfiança e desaprovação.

Só que, ao mesmo tempo, “como Deus é o criador soberanamente bom das naturezas boas, também é o ordenador soberanamente justo das vontades más, de tal forma que, quando usam mal das naturezas boas, Ele faz bom uso até mesmo das vontades más" [5]. Da vontade má de Lutero, que cedeu às “grandes tentações", caindo no pecado da soberba, o Senhor suscitou a Companhia de Jesus, na qual floresceram homens da estirpe de Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e São José de Anchieta, apóstolo do Brasil; suscitou almas como Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, que levaram a cabo a reforma do Carmelo; suscitou São João de Ávila, São Filipe Néri, São Carlos Borromeu e outros numerosos homens de fibra, que podem com razão ser chamados de “reformadores".

É nas grandes provações que agitam a barca da Igreja que se revelam os fiéis. Se a rebelião de Lutero conseguiu dividir a cristandade, a providência de Deus foi muito mais eficaz em Seus santos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (I). Quadrante, São Paulo. p. 273
  2. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (I). Quadrante, São Paulo. p. 274
  3. Rm 1, 17
  4. Henri Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma (I). Quadrante, São Paulo. p. 277
  5. Santo Agostinho, De Civitate Dei, XI, 17
  6. 1 Cor 11, 19

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Católicos Romanos

“Vamos em frente. Somos romanos”, exortou certa vez São João Paulo II, manifestando a força da cristandade ligada à Sé de Pedro.

Os cartazes que enfeitavam as ruas de Roma, em 2011, por ocasião da beatificação de João Paulo II, diziam, na sua maioria, as seguintes palavras: “ Damose da fa, semo romani". A frase fazia referência a uma alocução do falecido papa, na Sala Paulo VI, em que ele dizia aos fiéis presentes, em dialeto romano: “Vamos em frente. Somos romanos". De modo semelhante exprimia-se São Josemaria Escrivá no seu famoso livro Caminho: “Gosto de que sejas muito romano. E — assim prosseguia o santo do cotidiano — que tenhas desejos de fazer a tua 'romaria', 'videre Petrum', para ver Pedro." [1]

Historicamente, a cidade de Roma concentrou o poder temporal do maior império político já visto na terra. A sede de expansão e domínio fez com que os romanos chegassem até os confins do mundo, por assim dizer, levando consigo sua cultura, organização política e religião. Em meio a isso, emergia a figura imponente do imperador, a cuja pessoa os cidadãos e súditos deveriam prestar culto.

O anúncio de Jesus Cristo insere-se exatamente neste contexto. Deus, por razões misteriosas, quis que a encarnação de seu Filho — o Rei dos reis — coincidisse com o tempo em que outro homem arrogava para si o título de “Augusto". Cristo, por sua vez, encarna-se para anunciar o verdadeiro Evangelho; não aquele que pertencia à linguagem do imperador, mas o Evangelho da Alegria, capaz de encher “o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus" [2]. Dada essa realidade, não foi por acaso que o cristianismo logo se converteu no maior obstáculo para o imperador romano. Os cristãos agora possuíam outra medida, possuíam a glória da salvação eterna, um Deus em cuja face se manifestava o amor à criatura: o amor crucificado e ressuscitado. Com efeito, a ameaça de morte contra aqueles que não prestassem culto a César não mais poderia intimidá-los. Ao contrário, o martírio pelo Deus do amor havia se convertido no maior desejo de seus corações.

Na crucifixão de São Pedro, por conseguinte, Roma é lavada pelo sangue do apóstolo sobre o qual Jesus havia edificado seu Corpo Místico, isto é, a Igreja. Isso marca um ponto importante na história da Cidade Eterna. Ela não mais seria a sede do imperador, aquele que oprimia e subjugava, mas a Cátedra do “Servo dos Servos" de Cristo, o encarregado de “confirmar seus irmãos na fé" (cf. Lc 22, 32). Roma não seria mais o opróbrio das nações, submetendo-as às perversões mundanas, mas o símbolo da libertação, manifestada pelo canto alegre dos cristãos que, a exemplo de seu Senhor, iam para a cruz, entregando-se por amor a Deus. Não seria mais a capital do maior império político já visto nesta Terra, mas a casa dos cristãos, a casa universal, a casa dos filhos de Deus. Não seria mais a Roma de Nero, de Calígula, mas “dos mártires, dos santos" [3].

Assim se compreende a árdua luta empreendida por Santa Catarina de Siena, a fim de que o Santo Padre retornasse a Roma, quando o então papa Gregório XI encontrava-se num exílio em Avinhão. Para que a Igreja pusesse fim à crise que se insurgia entre os fiéis, convinha antes “pôr fim à longa ausência, a esse exílio em Avinhão que privava a Cristandade da sua autêntica capital, consagrada pelo sangue do Apóstolo" [4]. Por isso a santa não economizou palavras ao se dirigir ao seu “Doce Cristo na Terra": “Seja homem, volte para Roma".

Na teologia moderna, infelizmente, não é difícil encontrar a acusação de que a Igreja Católica teria sido fundada por Constantino. Além disso, não faltam aqueles que, dentro da Igreja, estabelecem como que um poder paralelo, a fim de dar início a uma “nova reestruturação e nova divisão eclesiástica do trabalho e do poder religioso", menosprezando a figura do papa ao mesmo tempo em que reduz o Corpo de Cristo à figura de empresa [5]. Ora, é preciso pouco esforço para enxergar o veneno por trás dessas teorias. Basta observar o esfacelamento do protestantismo, perdido em meio a tantas interpretações duvidosas da bíblia, como também o caos daquelas igrejas e Conferências Episcopais, que recusando a autoridade de Roma, acabaram subjugadas pela bota dos governos locais, numa nova espécie de Cesaropapismo. É o caso, por exemplo, da Igreja Ortodoxa, escrava do Kremlin, e de inúmeras igrejas da América Latina.

“A Igreja de Roma preside na caridade", afirmava Santo Inácio de Antioquia. Amemos, portanto, a capital da Cristandade, onde o sol não tem poente, onde se vence refulgente todo erro e todo mal!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Caminho, n. 520.
  2. Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (24 de novembro de 2013), n. 1.
  3. Hino Pontifício.
  4. DANIEL-ROPS. A Igreja da Renascença e da Reforma. São Paulo: Quadrante, 1996, pág. 22
  5. BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Petrópolis: Vozes, 1982, pág. 13. Ver também: O poder paralelo dentro da Igreja I e II.

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A Bíblia leva-nos a Roma

Ao deixar-se conduzir pela Igreja, santos de todos os séculos puderam descobrir suas vocações na prática da leitura orante das Sagradas Escrituras

A prática da Lectio Divina é uma das devoções mais presentes na vida dos santos. Por meio da meditação das Sagradas Escrituras, eles foram capazes de encontrar a face de Jesus, que se revela a cada versículo lido. É por isso que, querendo esmiuçar o valor dos Textos Sacros, São Jerônimo dizia a seus fiéis: “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo" [1]. Quem se põe a escutar a Palavra, escuta, pois, a própria voz de Deus; faz como reza o salmista: “É tua face, Senhor, que eu procuro" (cf. Sl 27, 8-9).

Diferentemente do que acusam os protestantes, a Igreja sempre incentivou a leitura das páginas sagradas. Ao mesmo tempo, os santos padres nunca deixaram de insistir numa leitura dentro da «tradição viva de toda a Igreja». Essa preocupação se deve ao fato de que também a Bíblia, quando mal interpretada, pode conduzir o homem ao erro. Que foram as tentações de Cristo no deserto senão “tentações bíblicas"? Desafiou Satanás: “Se és o Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: 'Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; eles te protegerão com as mãos'" (cf. Sl 90, 11). Quando se perde a dimensão eclesiológica das Sagradas Escrituras, perde-se, por conseguinte, o próprio sentido das Escrituras, pois não seria possível crer em suas palavras se a isso não nos levasse a autoridade da Igreja [2].

Assim se justifica a luta do Magistério contra a doutrina luterana da Sola Scriptura (Somente a Escritura). Trata-se de uma defesa do sentido autêntico da Bíblia, de uma defesa contra reducionismos baratos, manipulações desonestas, fundamentalismos agressivos, que, no mais das vezes, levam grande parte dos cristãos à perda da fé, como também muitos céticos e pagãos a recusarem os ensinamentos evangélicos. Por outro lado, a prática da Lectio Divina, isto é, a leitura das Sagradas Escrituras realizada sob a luz da Tradição, longe de induzir os fiéis a falsas devoções, abre-lhes um caminho seguro para o encontro com Cristo. Isso porque, como definiam os Padres, “a Sagrada Escritura está escrita no coração da Igreja, mais do que em instrumentos materiais" — «Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta». A religião cristã não é a religião do livro mas da Palavra, que é Jesus. Essa Palavra, por sua vez, confiou seu depositum fidei, quer por meio do testemunho oral, quer por meio do testemunho escrito, à tutela de sua Igreja.

Santos de todos os séculos experimentaram essa verdade, descobrindo suas vocações no seio da Igreja orante e intérprete fiel da Revelação [3]:

[...] Certamente não é por acaso que as grandes espiritualidades, que marcaram a história da Igreja, nasceram de uma explícita referência à Escritura. Penso, por exemplo, em Santo Antão Abade, que se decide ao ouvir esta palavra de Cristo: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céus; depois, vem e segue-Me» (Mt 19, 21).

Igualmente sugestivo é São Basílio Magno, quando, na sua obra Moralia, se interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio do fiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for». São Bento, na sua Regra, remete para a Escritura como «norma retíssima para a vida do homem».

São Francisco de Assis – escreve Tomás de Celano – «ao ouvir que os discípulos de Cristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazer alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares de calçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo: Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!».

Scott Hahn, ex-pastor protestante, também experimentou essa verdade, assim como os santos, quando se decidiu por uma escuta da Palavra de Deus, alicerçada na grande Tradição da Igreja. Em seu comovente testemunho de conversão à fé católica, ele e sua mulher, Kimberly Hahn, contam como foram surpreendidos pela fé bíblica da Igreja, sobretudo na Santa Missa [4]:

[...] Então, subitamente, compreendi que era ali o lugar da Bíblia. Aquele era o ambiente no qual esta preciosa herança de família devia ser lida, proclamada e explicada. Depois passamos à liturgia Eucarística, onde todas as minhas afirmações sobre a Aliança encontravam o seu lugar.

Hahn foi um ferrenho opositor do catolicismo durante anos. Como pastor de linha calvinista, ele pregava “que a Missa católica era o maior sacrilégio que um homem podia cometer" [5]. Essa convicção o motivava a converter o maior número de católicos possível, a fim de retirá-los da idolatria. Seus estudos teológicos, por conseguinte, tinham por objetivo principal refutar cada ensinamento católico, mormente a divina liturgia, a autoridade do papa e a devoção à Virgem Santíssima. Nada que a Igreja Católica ensinasse poderia ser considerado bíblico.

Em 1979, poucos meses após a visita de João Paulo II aos Estados Unidos, Kimberly Hahn apresentou ao marido o livro “Sexo e a aliança matrimonial", de John Kippley, que versava sobre a moral católica e a contracepção. A coerência dos argumentos era tão eloquente, que o casal, embora não admitindo ainda a verdade católica, viu-se obrigado a abandonar os métodos anticoncepcionais. Esse foi o primeiro passo para a reviravolta. Scott Hahn descobrira uma nova maneira de enxergar a Aliança de Deus: ela não era apenas um contrato; Deus queria uma família.

Após o episódio, Scott Hahn deu início a um estudo para fundamentar biblicamente as teses da Sola Fide — doutrina protestante que nega o valor meritório das boas obras — e da Sola Scriptura. Ora, a Sola Fide e a Sola Scriptura são como que duas colunas do protestantismo. Toda a fé protestante tem como ponto de partida esses dois preceitos básicos. A sua fundamentação era, portanto, imprescindível para o pastor. Mas qual não foi sua surpresa ao descobrir que ambas as teses luteranas não possuíam nenhum respaldo das Sagradas Escrituras. De fato, a Igreja Católica estava certa! Com efeito, conforme Scott Hahn se aprofundava em seus estudos, um a um iam caindo os dogmas do protestantismo: a proibição do batismo de crianças, a negação das imagens, o repúdio ao culto mariano etc. Scott iniciava o caminho para a Igreja.

Scott Hanh converteu-se à Igreja Católica na páscoa de 1986, mesmo sob forte oposição de amigos e familiares. Anos mais tarde, seria a vez de sua mulher, Kimberly, buscar a comunhão com a Igreja de Cristo, pedindo o batismo e os demais sacramentos da iniciação cristã. Hoje, ambos ministram palestras em todo o mundo, a fim de esclarecer os fundamentos bíblicos da Igreja Católica, bem como a riqueza de sua liturgia. Graças à sua história de conversão, Scott é considerado o “Martinho Lutero às avessas". Ele descobriu que também a Bíblia leva-nos a Roma.

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Referências:

  1. São Jerónimo, Commentarii in Isaiam, Prologus: CCL 73, 1 (PL 24, 17).
  2. Expressão de Santo Agostinho: «Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas» – «Quanto a mim, não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica». Contra Epistulam Manichaei quam vocant fundamenti 5. 6: CSEL 25,197 (PL 42, 176).
  3. Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini (30 de setembro de 2010), n. 48
  4. HAHN; HAHN; Scott; Kimberly. Todos os caminhos levam a Roma - o nosso precurso até o catolicismo. Portugal: Diel, 2013, pág. 118.
  5. Ibidem.

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Há cem anos morria um papa santo

O semblante sereno de Pio X no leito de morte já manifestava a sua entrada no céu

Há cem anos, os grandes sinos da Basílica de São Pedro tocavam pro pontifice agonizante, anunciando ao mundo a morte de um papa santo. Pio X, que durante 11 anos havia governado a Igreja com bondade e sabedoria, partia para a casa do Pai, enquanto o Santíssimo Sacramento era exposto em todas as Basílicas patriarcais de Roma. À Praça de São Pedro logo acorreram milhares de fiéis, dispostos a dar o seu último adeus àquele distinto pontífice. Diante da serenidade com que se apresentava no leito de morte, o médico apenas pôde exprimir estas palavras: “Olhai-o, não está realmente admirável?" [1]

Pio X foi um papa singular sob muitos aspectos. Quando a 20 de julho de 1903 faleceu Leão XIII, as expectativas de que o então patriarca de Veneza, cardeal Giuseppe Melchiorre Sarto, fosse escolhido sucessor de São Pedro eram mínimas. O próprio prelado não cogitava a eleição. Há quem diga que, para a viagem ao conclave do qual sairia papa, tenha comprado passagens de ida e de volta. Além disso, Sarto não almejava o pontificado, sobretudo, por se considerar incapaz de exercer “essa tarefa urgente e dificílima" [2]. Outro fator que pesava contra a sua candidatura era a marca de seu predecessor. Leão XIII era um gênio político, de grande envergadura intelectual. Sarto era apenas um “pároco de aldeia", como gostava de se definir. Mas a providência divina tinha outros planos.

A princípio, tudo parecia convergir para o cardeal Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII, não fosse o veto imposto por políticos austríacos ao seu nome. O Imperador da Áustria tinha esse “direito" segundo um antigo privilégio. Mas embora a Cúria tenha rechaçado a intervenção, dando ainda mais votos ao antigo braço direito do falecido papa, o fato é que Rampolla não foi capaz de obter o número necessário para a eleição. Fez-se verdade o antigo adágio sobre os conclaves: sai cardeal quem entra papa. O prelado começou a cair escrutínio após escrutínio. Em contrapartida, ganhava força o nome de Sarto.

Quando percebeu que seria eleito Sumo Pontífice, o cardeal não pôde esconder seu assombro e angústia diante da vontade de Deus. A sua primeira atitude, por conseguinte, foi de renúncia. O futuro papa considerava o ministério petrino como uma cruz extremamente pesada para os seus ombros. Recolheu-se para rezar numa capela. Banhado em lágrimas, já sabendo que seria inevitável, aceitou a eleição, tomando para si o nome de Pio X, “em memória dos santos pontífices que, no século passado, lutaram corajosamente contra os erros que pululavam" [3].

E tão logo assumiu o trono de São Pedro, o novo papa fez valer a herança de seus pios predecessores, lançando mãos à obra de recristianização das sociedades. A palavra de ordem era esta: “Restaurar todas as coisas em Cristo" [4]. Com efeito, tudo o que concorria para o bem espiritual da Igreja ganhou prioridade em seu pontificado: a defesa da fé, a atenção aos humildes, a piedade popular, os direitos da Igreja etc. Interessava-lhe, sobretudo, o Sacrifício Eucarístico, o que lhe renderia posteriormente a alcunha de “Papa da Eucaristia". Assim, incentivou fortemente a comunhão diária além de permiti-la também a crianças com sete anos de idade. Isso porque, tendo a visão espiritual de um santo, Pio X já previa a tragédia na qual a humanidade cairia anos mais tarde. A respeito da guerra, o papa advertiu: “O desejo da paz certamente está bem presente em cada um e não há ninguém que não a invoque com ardor. Mas querer paz sem Deus é absurdo. Onde não há Deus, não há justiça. Onde não há justiça, em vão nutre-se esperança de paz" [5].

Por conseguinte, à medida que Pio X expunha sua figura à sociedade, quer por meio de suas encíclicas e exortações, quer por meio de seus gestos de bondade, crescia a veneração dos fiéis em torno do pontífice. O historiador Daniel-Rops assim descreve [6]:

“Os católicos admiraram Leão XIII e Pio XI; mas amaram Pio X, o seu sorriso de luz, a sua bondade sem reserva, a sua inesgotável caridade. Já em vida se construíra à volta da sua pessoa uma 'legenda áurea', abundante em pormenores comovedores, palavras exemplares e até narrativas de milagres (...) Mesmo que alguns traços tenham sido embelezados, ainda ficam outros, indiscutíveis, para que a sua figura nos apareça fora de série".

Dada a santidade de Pio X, é possível, então, compreender o seu combate severo às heresias, mormente ao modernismo — “a síntese de todos os erros" [7]. É dever do pastor usar o cajado contra os lobos que atacam o rebanho, pois “não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. E também não se trata de amor, se se deixa proliferar a heresia, a deturpação e o descalabro da fé, como se tivéssemos nós autonomamente inventado a fé" [8]. Era com base nesta consciência que o santo papa não economizava palavras contra os modernistas: “Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja." [9]

A 20 de agosto de 1914, Deus chamava para o sono eterno o “Papa da Eucaristia", que tanto tempo lutara para estabelecer a cruz de Cristo sobre todo o mundo. Pio X não suportara a notícia da guerra que então começava a arrasar dezenas de nações. 40 anos depois ele seria elevado às glórias dos altares pelas mãos de outro Pio: “A santidade, inspiradora e guia de Pio X em todos os seus empreendimentos, brilhou ainda mais fulgurante em suas ações quotidianas. A meta que almejava, unir e restaurar todas as coisas em Cristo, é algo que ele fez se tornar realidade em si mesmo antes de levá-la aos outros" [10].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. DEL VAL, Rafael Merry. O Papa que eu conheci de perto — Memórias de São Pio X. São Paulo: Artpress, 2001, pág. 115.
  2. Pio X, Carta Enc. E Supremi Apostolatus (4 de outubro de 1903), n.3
  3. DANIEL-ROPS. A Igreja das revoluções: um combate por Deus. São Paulo: Quadrante, 2006, pág. 73.
  4. Pio X, Carta Enc. E Supremi Apostolatus (4 de outubro de 1903).
  5. Ibidem, n. 7
  6. DANIEL-ROPS. A Igreja das revoluções: um combate por Deus. São Paulo: Quadrante, 2006, pág. 83.
  7. Pio X, Carta Enc. Pascendi Dominici Gregis (8 de setembro de 1907).
  8. Bento XVI, Homilia de encerramento do Ano Sacerdotal (11 de junho de 2010).
  9. Pio X, Carta Enc. Pascendi Dominici Gregis (8 de setembro de 1907).
  10. Há 60 anos, o Santo Papa Sarto era canonizado in Fratres in unum.