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Precisamos falar sobre censura no Facebook

Saiba como a maior comunidade virtual do mundo está se alinhando ao globalismo e por que cristãos e conservadores podem estar com os dias contados no Facebook.

No dia 18 de julho de 2017, sem apresentar nenhuma explicação, o Facebook simplesmente tirou do ar mais de 20 páginas católicas de sua comunidade. E, do mesmo modo como foram desativadas, assim também elas voltaram, sem mais nem menos. Um verdadeiro "apagão". Dentre as páginas atingidas por esse corte repentino, estão algumas de grande expressão, como "Papa Francisco Brasil", com 3,8 milhões, e "Nossa Senhora cuida de mim", com 3,1 milhões de seguidores.

O Brasil não foi o único país afetado pela medida. Algumas páginas católicas dos Estados Unidos também foram removidas, e o bloqueio chegou a ser noticiado inclusive pela agência Fox News.

O grupo ACI falou com o Facebook e, de acordo com um porta-voz da rede, "o incidente foi ocasionado acidentalmente por um mecanismo de detecção de spam na plataforma". O deputado Flavinho garante que entrou em contato com o diretor central da plataforma no Brasil, segundo o qual tudo não passou de um "erro técnico". A informação repassada pelo parlamentar, no início da tarde de ontem (19), é que "o que gerou todo este bloqueio foi a palavra Amém". O uso excessivo da expressão, especialmente nos comentários das páginas católicas, teria sido identificado como atividade suspeita, gerando o "apagão" de dois dias atrás.

Verdadeira ou não a explicação que corre até o momento sobre este caso, a censura no Facebook é um tema premente. Precisamos falar sobre este assunto para entender não só os padrões dessa comunidade virtual, mas também a situação política para a qual caminhamos e o lugar que nós, cristãos, temos neste "admirável mundo novo" que querem construir.

Os Padrões da Comunidade de Mark Zuckerberg

Antes de mais nada, o Facebook é uma comunidade que, como qualquer outra, é regida por algumas normas, políticas de conduta que devem ser aceitas por todos os que nela ingressam. São os chamados "Padrões da Comunidade", que ajudam "a entender os tipos de compartilhamentos permitidos no Facebook e os tipos de conteúdos que podem ser denunciados e removidos". Entre estes últimos, alguns são proibidos por razões muito evidentes: é o caso de postagens relacionadas a "atividades criminosas" ou "exploração e violência sexual", e também de materiais que exibam "nudez" ou "violência e conteúdo gráfico". (Ainda que, nós sabemos, muitos absurdos ainda passem pelo crivo dos censores, sem maiores problemas.)

Outro item importante, porém, e que está gerando bastante discussão ultimamente, é o chamado "discurso de ódio". Segundo o próprio Facebook:

O Facebook remove discursos de ódio, o que inclui conteúdos que ataquem diretamente as pessoas com base em: raça, etnia, nacionalidade, religião, orientação sexual, gênero ou identidade de gênero, ou deficiências graves ou doenças.

Organizações e pessoas dedicadas a promover o ódio contra grupos protegidos não têm a presença permitida no Facebook. Levando em conta nossos padrões, precisamos que a nossa comunidade denuncie esse tipo de conteúdo para nós.

Os que estão acostumados com nosso conteúdo começam a enxergar já aqui o problema que os cristãos poderão ter com essas diretrizes claramente ideológicas do Facebook: no mundo fictício de Mark Zuckerberg, as categorias "orientação sexual" e "identidade de gênero" são perfeitamente válidas para caracterizar um discurso de ódio. (Não há tempo para explicar em detalhes o perigo dessas expressões, mas em nosso site nós possuímos abundante material sobre o assunto. A aula Sexo ou gênero? pode ser uma ótima introdução a esse respeito.)

O que aconteceria, então, cabe perguntar, se alguém publicasse em sua linha do tempo, por exemplo, que "os libertinos, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, [...] ninguém desses terá parte no Reino de Deus" ( 1Cor 6, 10)? Ou que, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, "os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados" e "não podem, em caso algum, ser aprovados" (§ 2357)? Essa orientação moral, que critica abertamente certas "orientações sexuais", poderia ser qualificada como "discurso de ódio"?

Quanto à "identidade de gênero", como o Facebook lidaria com a figura de um Walt Heyer, por exemplo — dois de cujos textos já traduzimos aqui neste espaço —, que abandonou o transgenderismo para viver de acordo com o seu sexo biológico e, agora, escreve ajudando as pessoas justamente a saírem deste mundo? Atitudes assim também poderiam ser interpretadas como "discurso de ódio"?

Enfim, como serão tratados os compartilhamentos de vídeos e textos, que temos aos montes, afirmando categoricamente que "a teoria de gênero é uma farsa"? Com que régua serão medidas essas publicações que põem em xeque as próprias políticas da comunidade zuckerberguiana?

Quem decide o que é "discurso de ódio"?

A essas perguntas muito simples se somam ainda muitas outras interrogações, dentre as quais destacamos as seguintes, muito oportunas, feitas pelo ensaísta conservador Bernardo Pires Küster:

No meio da documentação que é apresentada por Bernardo neste vídeo, há um texto, publicado pelo próprio Facebook, no qual um diretor da rede tenta responder "quem deve decidir o que é discurso de ódio em uma comunidade global online".

Neste texto, fica bem claro que o Facebook tem ciência de que certas restrições podem parecer uma "censura". Justamente por isso, a rede de Zuckerberg está fazendo grandes investimentos na análise de conteúdo. "Ao longo do próximo ano", eles garantem, "acrescentaremos 3 mil pessoas ao time de operações de nossa comunidade ao redor do mundo, além das 4,5 mil que possuímos atualmente."

A grande preocupação com relação a essas medidas, porém, tem a ver não tanto com a quantidade de pessoas trabalhando na área, mas com a qualidade do serviço a ser prestado. Ao mesmo tempo em que o Facebook se compromete, por exemplo, "a confrontar o preconceito (bias, em inglês) onde quer que ele exista", os funcionários da rede sem nenhum pudor recomendam, para este debate sobre liberdade de expressão, dois sites financiados por ninguém menos que o metacapitalista George Soros e a fundação internacional MacArthur — esta última notória defensora da causa do aborto na América Latina. Os sites se chamam Free Speech Debate e Dangerous Speech Project, e essa informação é pública (basta acessar aqui e aqui).

Trocando em miúdos, é com grupos alinhados à esquerda mundial que o Facebook pretende definir os contornos do chamado "discurso de ódio". Odioso será o que os movimentos feministas, LGBTs e ambientalistas considerarem como tal. Por esse motivo, cristãos e conservadores de um modo geral estão com os dias contados no Facebook. Escrever "Amém" nos comentários de publicações católicas será, em questão de pouco tempo, o menor de nossos problemas.

Uma estratégia para silenciar cristãos

Entender isso é importante, como já dito, não só para sobrevivermos no Facebook. Desde agora, na verdade, antes mesmo que alguma medida mais drástica seja tomada em relação a nós, precisamos articular novos meios de manter contato com as pessoas, de fornecer informações a elas e de promover nossos apostolados virtuais.

Por isso, a todos que estamos excessivamente dependentes, de um modo ou de outro, desta ferramenta, está na hora de começar a pensar em outras alternativas: um bom começo pode ser fortalecer nossas listas de e-mails, investir na criação de redes independentes e forçar os usuários a visitarem as nossas próprias plataformas. O conhecido site católico norte-americano Church Militant começou a fazer isso há um tempo, e está tendo sucesso.

Ninguém se iluda pensando, no entanto, que só na Internet tentarão calar-nos a boca. A comunidade global do Facebook é apenas um instrumento do movimento globalista, a serviço da implantação sistemática de uma Nova Ordem Mundial, com novas leis, novos valores e novos comportamentos a serem estabelecidos, à revelia dos verdadeiros interesses das pessoas comuns. Neste mundo que eles planejam fundar — do qual, novamente, o Facebook não passa de "miniatura" —, o lugar de os cristãos expressarem livremente as suas opiniões é tão-somente a sacristia de suas igrejas. No espaço público, ao contrário, suas posições morais poderão facilmente ser qualificadas como "discurso de ódio".

Em um mundo cada vez mais avesso não só aos verdadeiros ensinamentos de Jesus Cristo, mas até mesmo aos princípios mais básicos da lei natural, não poderia ser diferente. A própria existência dos cristãos é um incômodo tremendo, praticamente intolerável, pois a verdade é que somos os únicos a resistir, com a fé e com nossos velhos hábitos, à ditadura do discurso único que destroça tanto as soberanias nacionais quanto — o que é ainda pior — as consciências dos que vivem à nossa volta.

Não é que todos estejam de acordo com o que querem impor um Mark Zuckerberg, um George Soros ou uma Organização das Nações Unidas. No Brasil, por exemplo, a maior parte da população é relativamente conservadora em temas morais. No fundo, o brasileiro médio ainda é religioso e, se tiver a oportunidade de dizer o que pensa, sem coação, sobre o aborto e o "casamento" gay, por exemplo, são poucos os que se manifestarão favoráveis a essas pautas progressistas. O problema é acharmos que simplesmente não temos opção; que todas essas revoluções morais são "inevitáveis". As pessoas olham para a grande mídia, para os seus professores universitários, e pensam consigo: ou eu aceito e fico bem com todos, ou então serei perseguido e ostracizado. E é assim que bilionários sem moral, do conforto burguês de seus escritórios, têm o mundo inteiro em suas mãos e dizem a todos tranquilamente o que pensar, o que querer e como agir.

A história recente da humanidade, com tantas revoluções promovidas por pequenos grupos — insignificantes numericamente, mas poderosos econômica e culturalmente —, só confirma o que disse certa vez o grande jurista brasileiro José Pedro Galvão de Sousa: o que estamos presenciando não é a "rebelião das massas"; é a rebelião, isso sim, das minorias.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Papa Emérito: “O Senhor não abandona a sua Igreja”

“O Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo que, em alguns momentos, o barco esteja quase tão cheio ao ponto de afundar.”

Vai traduzido abaixo, em português, o significativo tributo do Papa emérito Bento XVI a seu amigo e conterrâneo recém falecido, o Cardeal Joachim Meisner. A morte deste fiel servo da Igreja se deu a 5 de julho, as palavras de Ratzinger foram escritas no dia 11 e tornadas públicas no dia 15 de julho, por seu secretário pessoal, Dom Georg Gänswein, durante a Missa de Exéquias pela alma do Cardeal (a seguir também o vídeo, em alemão).

Que a sua alma, pela misericórdia de Deus, descanse em paz.

Tributo do Papa Bento XVI por ocasião da Missa de Exéquias do Cardeal Joachim Meisner, em 15 de julho de 2017

Cidade do Vaticano
11 de julho de 2017

Nesta hora em que a Igreja de Colônia, assim como os fiéis vindos de lugares mais distantes, dão adeus ao Cardeal Joachim Meisner, uno-me a vós de coração e em pensamentos, lisonjeado por ceder ao desejo do Cardeal Woelki e dirigir-vos uma palavra de reflexão.

Quando recebi por telefone, na última quarta-feira, a notícia de que o Cardeal Meisner havia morrido, a princípio eu não quis acreditar. Nós nos havíamos falado no dia anterior. Era notável a satisfação em sua voz por estar descansando, depois de haver participado, no domingo anterior (25 de junho), da beatificação de Dom Teófilo Matulionis, em Vilnius, na Lituânia. O seu amor e a sua gratidão pelas igrejas vizinhas no Oriente, que resistiram ao sofrimento dos tempos de perseguição comunista, transformaram-lhe a vida. Por isso, certamente não foi por acaso a última visita de sua vida ter sido feita a um confessor da fé nesses países.

O que me impressionou particularmente nas últimas conversas com o Cardeal, agora em casa, foi a serenidade, a alegria interior e a confiança que ele havia encontrado. Todos sabemos o quanto foi difícil para ele, cura das almas e pastor apaixonado que era, deixar o seu ofício, e isto justamente em um tempo no qual a Igreja tem necessidade premente de pastores que se oponham à ditadura do zeitgeist ("espírito dos tempos") e que estejam inteiramente determinados a agir e pensar desde uma perspectiva de fé. Todavia, o que mais me impressionou foi que, no último período de sua vida, ele havia aprendido a confiar, vivendo cada vez mais a partir da convicção de que o Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo que, em alguns momentos, o barco esteja quase tão cheio ao ponto de afundar.

Havia duas coisas que, neste período final de sua vida, faziam com que ele se sentisse cada vez mais feliz e confiante:

- Ele frequentemente me relatava que, em primeiro lugar, enchia-o de profunda alegria experimentar, no sacramento da Penitência, como pessoas jovens, sobretudo rapazes, aproximavam-se para experimentar a misericórdia do perdão, o dom de efetivamente ter encontrado a vida, que só Deus lhes podia dar.

- A segunda coisa, que sempre o comovia e deixava feliz, era o aumento perceptível da adoração eucarística. Para ele, esse foi o tema central da Jornada Mundial da Juventude em Colônia — o fato de ter havido adoração, um silêncio, no qual o Senhor sozinho falou aos corações. Algumas autoridades pastorais e litúrgicas eram da opinião de que um silêncio assim na contemplação do Senhor, com um número tão grande de pessoas, não levaria a lugar algum. Outros ainda opinavam que a adoração eucarística enquanto tal estaria ultrapassada, porque o Senhor gostaria de ser recebido no pão eucarístico, e não de ser contemplado. Mas o fato é que uma pessoa não pode comer desse pão simplesmente como uma forma de se alimentar; receber o Senhor no sacramento da Eucaristia inclui todas as dimensões de nossa existência. Essa recepção tem que ser adoração, e isso foi algo que se tornou, ao mesmo tempo, cada vez mais claro. Aquele período de adoração eucarística na Jornada de Colônia tornou-se um evento interior que permaneceu inesquecível, e não apenas para o Cardeal. A partir de então, ele tinha tinha aquele momento sempre presente diante de si, como uma grande luz.

Quando, em sua última manhã, o Cardeal Meisner não apareceu para a Missa, ele foi encontrado morto em seu quarto. O breviário havia escorregado de suas mãos: ele morreu enquanto rezava, com o rosto voltado para o Senhor, em conversa com Ele. A arte de morrer, que lhe foi dada, novamente demonstrou o modo como ele havia vivido: com o rosto voltado para o Senhor e em diálogo com Ele. Por isso, confiemos a sua alma à bondade de Deus. Senhor, nós vos agradecemos pelo testemunho de vosso servo, Joachim. Deixai-o agora interceder pela Igreja de Colônia e por todo o mundo! Descanse em paz!

Tradução do alemão: Dom Michael Campbell, Bispo de Lancaster (Inglaterra)
Tradução do inglês: Equipe Christo Nihil Praeponere

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Membros pecadores de uma Igreja imaculada

No seio da Santa Igreja Católica, inúmeros são os pecadores, mas não existe um só pecado.

Incorporados à Igreja, todos nós, pobres, somos enriquecidos pela graça de Cristo.

Por Pe. Maurílio Teixeira-Leite Penido — Uma das causas comuns de apostasia [da fé] é o horror provocado pelos desfalecimentos humanos no seio da Igreja. A religião parece fonte de imoralidade, ou, pelo menos, não corresponder, na prática, ao que ensina em teoria.

E se o escândalo provoca apostasias, maior ainda o número de conversões que ele faz abortar: "Eu, agregar-me aos católicos? Por que, se eles não valem mais do que os outros — muitos deles até valem menos? Eu, ajoelhar-me aos pés de um padre, pecador ele também, talvez mais do que eu?" Tanto mais ferinas as críticas quanto maiores as pretensões da Igreja: ela se diz divina, santa, imaculada? Pois mostre-nos o que vai de tudo isso na vida cotidiana!

Escândalo ilógico, digamo-lo imediatamente. Jamais foi prometido por Cristo que a graça supriria o esforço pessoal. Os talentos que o Mestre nos dá, ele exige que os façamos frutificar; não se substituirá jamais a nosso livre arbítrio.

Deveria até confirmar a fé, o fato de que uma sociedade composta de homens fracos, falíveis, sujeitos às mesmas paixões que os demais, não haja todavia descambado na mais absoluta corrupção, mas antes mantenha rígidos os princípios de moral puríssima e os pratique, em que pesem os numerosos e indisfarçáveis desfalecimentos individuais. A Igreja produziu até um tipo novo, original, de homem: o Santo. Tão novo, tão original que Bergson se abalançou a atribuir ao Santo uma essência diversa da nossa. Porém somos assim feitos que menos nos impressionam as virtudes do que os desfalecimentos. E por isso vemos tantos e tantos abandonarem a fé, porque encontraram um padre cúpido ou devasso, ou simplesmente malcriado; porque tal carola não passa de grandíssimo patife; porque tal senhora misseira, e até beata, é a pior língua da localidade.

Em nossa época este escândalo revestiu forma peculiar; apresenta-se como reivindicação de justiça social. Embora os Papas hajam condenado não apenas o comunismo senão ainda os abusos do capitalismo, é infelizmente verdade que aquele que não se contenta de louvores teóricos às encíclicas, mas procura aplicá-las na prática, incorre muitas vezes na ira dos chamados bem-pensantes que lhe assacam as pechas de socialista, comunista, etc. Donde ser o catolicismo acusado de querer perpetuar as injustiças sociais, de ser o derradeiro baluarte do capitalismo burguês.

Apostasias ilógicas, repetimos, pois não distinguem entre a mensagem divina que merece nossa crença e seus portadores humanos, talvez menos dignos. Por ser portador desta mensagem, o mau padre merece ainda ser ouvido e obedecido, embora não faça o que prega. Porventura recusaríeis precioso tesouro, sob pretexto que vos é trazido por um homem esfarrapado e imundo? pergunta Catarina de Sena [1]. Nem deixa de ser verdadeira a religião porque muitos dos seus adeptos não a praticam. Tão medíocre a humanidade, apesar da religião, que seria sem religião?

Ademais, com suma injustiça olvidaríamos o que de sublime houve e há na Igreja: aquela plêiade de mártires, de confessores, de virgens, que nos causa justo orgulho; a multiplicidade de obras e instituições; as miríades de almas tiradas do lodo; os incontáveis atos de bondade, de misericórdia, de justiça; as inúmeras tentações vencidas. Quantos e quantos atestam que na religião e nela só, encontram força para não resvalar, para cumprir o dever a todo custo? Além dos grandes santos, há os incontáveis "pequenos" santos, que vivem de cotidiano heroísmo cristão.

Na Encíclica " Mit brennender Sorge", o Papa Pio XI fez valer uma outra consideração, ao aludir à exploração pelos nazistas, dos escândalos da Igreja:

A divina missão que a Igreja cumpre entre os homens e deve cumprir por meio de homens, pode ser dolorosamente obscurecida pelo que de humano, talvez de demasiadamente humano, desponta por vezes qual cizânia entre o trigo do reino de Deus. Quem conhece a frase do Salvador acerca dos escândalos e dos que os dão, sabe como a Igreja e cada indivíduo deve julgar sobre o que foi e é pecado. Todavia, quem, fundando-se sobre esses lamentáveis contrastes entre fé e vida, palavra e ação, atitude externa e sentir interior de alguns ou mesmo de muitos, esquece ou passa sob silêncio o imenso cabedal de esforço genuíno em prol da virtude, o espírito de sacrifício, o amor fraterno, o heroísmo de santidade de tantos membros da Igreja, este manifesta injusta e reprovável cegueira. E quando vemos que a severa medida com que se julga a odiada Igreja é deixada de lado em relação a outras sociedades que são próximas dos juízes pelo interesse ou o afeto, evidencia-se, então, que essas lamentações de um tão decantado sentimento de pureza, se revelam semelhantes às daqueles que, na frase do Salvador, vêem a palha no olho alheio e não percebem a trave no próprio olho. [2]

De fato, maior direito nos assistira de gemer sobre a inépcia de alguns hierarcas e a mediocridade da maioria dos católicos, se começássemos por gemer sinceramente sobre nossa própria inépcia e mediocridade, muito maiores ainda…

Todavia, não se nos aquieta inteiramente o espírito. Afigura-se-nos a Igreja qual realidade híbrida, plasmada de crimes hediondos e de virtudes inigualáveis — e não já, como afirma o Apóstolo: "Sem mácula, sem ruga, mas santa e irrepreensível".

Como resolver a antinomia?

[...] " A Igreja é sem pecado mas não sem pecadores". Se é verdade que ela conserva em seu seio pecadores sem-número, é igualmente verdade que não abriga nenhum pecado, nem mesmo sombra de pecado. E como poderia abrigá-lo se, longe de consentir ao pecado ela lhe tem ódio, repele-o com sua energia?

Estranho, por definição, à Santa Igreja, o pecado é seu maior, seu único adversário; ela persegue-o sem dar tréguas. Impossível, pois, falar em "pecados da Igreja". A Igreja não tem pecado algum; têm-no seus filhos; ela, em vez de aceitá-lo, esforça-se por todos os meios para exterminá-lo. À semelhança de seu Esposo — o Cordeiro inocente mas imolado — a Igreja pena, geme, implora perdão, não pelas faltas que houvera cometido, mas pelas nossas. "Nem é sua culpa se alguns de seus membros sofrem de chagas ou doenças; por eles ora a Deus todos os dias: 'Perdoai-nos as nossas dívidas' e incessantemente com fortaleza e ternura materna trabalha pela sua cura espiritual" [3].

Pelo que tem de mais seu — o livre arbítrio — exulou da Igreja, o pecador, para fazer-se servo de Satanás. Donde dizemos, com razão, que está em vias de se perder. Vamos, pois, excluir os pecadores da Igreja? De todo; não nos despenhamos na heresia. O Corpo Místico encerra verdadeiramente membros pecadores, excluindo-lhes, porém, os pecados. Suponhamos, na videira, um sarmento dotado de vontade livre. Poderia abrir-se à seiva que da cepa constantemente lhe corre; mas poderia também obstar a esse influxo vivificante, permanecendo ainda ligado à videira, embora como sarmento estéril, ou mesmo seco e morto.

Assim, os pecadores permanecem no Corpo Místico pelo que ainda de santo conservaram: os caracteres sacramentais, a fé e a esperança, o influxo que tanto a Alma incriada como a criada — embora não mais neles habitem — continuam a sobre eles exercer: remorsos, incitamentos à penitência, assistência a sermões, obras de misericórdia, educação religiosa da prole, cumprimentos de certos preceitos de Deus e da Igreja, etc. Tudo isso é santo ainda — posto que tal santidade seja insuficiente para a salvação eterna. E por esta santidade imperfeita, ineficaz, permanecem os pecadores vinculados à Santa Igreja. Mas a malícia de seu pecado está fora da Igreja, nem a pode de modo algum inquinar.

Entretanto, objetará alguém, a Igreja não é uma entidade fantástica ou extramundana. Existe concretamente, no espaço e no tempo, desdobra-se na história, encarna-se nos homens, que são pecadores. Logo, pelo menos estes pecados estão na Igreja e a maculam.

Sim, contestamos, a Igreja é uma realidade concreta; vive no mundo, porém não é do mundo; por conseguinte permanece santa. Santa nos seus membros santos; santa ainda nos seus membros pecadores, pelo que neles sobrevive, apesar de tudo, dos valores cristãos. Mas a zona tenebrosa, onde campeia o pecado — e que em muitos batizados é o principal — se encontra totalmente fora da Igreja.

Quem peca, trai a Igreja; corta-se ocultamente do Corpo Místico, na medida em que peca. Tanto assim que ainda o justo, templo do Espírito Santo e habitáculo da caridade de Cristo — por isso mesmo a caminho do céu — se porventura resvala no pecado venial, não recebe a seiva vivificante nesse cantinho da sua alma. Somente quando agimos virtuosamente, agimos na qualidade de membros do Corpo Místico.

Justos e pecadores pertencem, pois, à Igreja, na proporção exata em que abrigam em si maiores ou menores elementos de santidade: na medida em que vivemos pela Igreja somos santos, e pecadores na medida em que a traímos.

Não é que o mesmo homem esteja, a um tempo, dentro e fora da Igreja; mas o mesmo homem pode pertencer ou parcialmente ou totalmente à Igreja. Em cada justo e em cada pecador passa uma linha divisória, separando invisivelmente o santo — que é da Igreja — do pecaminoso — que é do mundo e do maligno. Os híbridos de santidade e pecado somos nós, e não a Igreja. Justo e pecadores encontram-se ambos dentro do Corpo Místico, porém acham-se inteiramente divididos, aqueles menos estes mais. E dessa divisão íntima tomamos alguma consciência ao sentirmos a luta que se trava em nós, entre o homem animal e o espiritual, entre o cristão e o adepto do mundo.

Resume-se a obra da santificação no áspero combate para alargar as fronteiras da Igreja dentro de nosso coração. De sorte que não sejamos apenas parcialmente de Cristo, senão completamente; que nos deixemos invadir totalmente pela santidade da Igreja sem lhe vedar o mínimo rincão do nosso ser. Está, pois, de pé a conclusão: no seio da Santa Igreja, inúmeros são os pecadores, mas não existe um só pecado.


Do livro " O Mistério da Igreja", do Pe. Maurílio Teixeira-Leite Penido,
2. ed. Vozes: Petrópolis, 1956, pp. 242-251.

Referências

  1. "Vós sabeis bem que, se uma pessoa imunda e mal vestida vos trouxesse um grande tesouro do qual viesse a vida, por amor do tesouro e do senhor que vo-lo mandou, vós não odiaríeis o portador, não obstante ser ele um esfarrapado e um imundo." (O Diálogo, CXX)
  2. Papa Pio XI, Carta Encíclica Mit brennender Sorge (14 de março de 1937), n. 19.
  3. Papa Pio XII, Carta Encíclica Mystici Corporis (29 de junho de 1943), n. 68.

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Rompendo o “Silêncio” com o Esplendor da Verdade

Quem quer assistir ao filme “Silêncio”, de Martin Scorsese, arme-se antes com a encíclica “Veritatis Splendor”, de São João Paulo II. Nunca antes as palavras do grande “João de Deus” foram tão necessárias, para a Igreja e para o mundo.

Agora que já se foi a primeira efervescência em torno de Silêncio, o filme baseado na obra homônima de Shusaku Endo, gostaríamos de tecer algumas considerações sobre a totalidade da produção de Martin Scorsese.

Em nossa primeira manifestação a respeito do filme, traduzimos um texto em inglês, de autoria de John Horvat II, ao qual demos um título categórico: "Silêncio", uma trágica negação da graça de Deus. À época, tivemos contato com alguns outros textos, escritos por católicos, principalmente de língua inglesa, mas as críticas todas iam praticamente no mesmo sentido: no final da história, o que sobressai, mais que o testemunho da fé pela qual deram a vida os mártires japoneses, é uma tentativa patética de justificar, de algum modo, a apostasia dos traidores.

De nossa parte, a impressão que tivemos, assistindo à produção de Scorsese, foi a mesma.

A primeira hora de filme retrata, de fato, cenas belíssimas e emocionantes (de chorar mesmo): uma comunidade cristã vivendo "nas catacumbas" por causa das perseguições, sedenta por sinais de fé, que se confessa, que comunga, que reza, que quer se entregar a Deus. A crucificação dos japoneses Ichizo e Mokichi, e o canto de louvor que este último eleva a Deus enquanto morre, constituem como que o clímax desse primeiro trecho da história. Na confissão de Kichijiro (a primeira), reconhecendo a sua miséria diante da misericórdia divina, cada um de nós pode ver a si mesmo e deplorar juntamente com ele a fraqueza de nossa carne.

Quando, porém, o protagonista da trama, Padre Rodrigues, interpretado por Andrew Garfield, diz ao mártir Mokichi que não há problema algum em pisar na imagem de Nosso Senhor (o fumi-e, como era chamado, em japonês), o filme muda totalmente de rumo. A partir disso, é como se o tom fúnebre com o qual se encerra a trama já começasse a tocar: era só uma questão de tempo para que Rodrigues imitasse Ferreira (Liam Neeson) e se rendesse, no final, passando o resto de seus dias como um apóstata.

A questão que vimos alguns levantando foi: esses fatos realmente se passaram, houve cristãos que traíram a sua fé e o filme simplesmente retrata o que aconteceu, sem a pretensão fabular de transmitir uma "moral da história". Só porque os protagonistas de Silêncio são traidores, não quer dizer que Scorsese esteja incentivando as pessoas a traírem a sua fé.

É claro que não, devemos dizer. Filmes não precisam ser, como alguém comentou aqui, um "catecismo de perguntas e respostas". A arte deve trabalhar com possibilidades, mais que com preceitos e "comandos". Acontece porém que, até na forma como um artista escolhe retratar o bem e o mal, a verdade e a mentira, a beleza e a feiúra, existe um componente moral que não pode ser ignorado. Nesse sentido, o que Scorsese faz em Silêncio é ainda pior do que faz o Padre Ferreira para arrastar Rodrigues à apostasia: o diretor não incentiva as pessoas a traírem a fé porque, na verdade, não existe sequer traição, no sentido próprio do termo. Se é a própria voz de Cristo que manda Rodrigues pisar no fumi-e, como vai retratado na trama, o ato de apostatar é relativo: tanto faz resistir ou ceder, ser mártir ou apóstata; o que importa é morrer como Padre Rodrigues, segurando um crucifixo. Se Judas Iscariotes tivesse um desses na mão enquanto se suicidava, estaria no Céu com os outros Apóstolos.

Um dos comentaristas que se irritaram com nosso primeiro texto captou bem essa mensagem moral de Silêncio quando escreveu aqui, em tom crítico, que "na vida certas escolhas dolorosas, pelo fato mesmo de serem dolorosas, não envolvem a opção fundamental da pessoa". Mal sabia ele (ou sabia?) que estava a apoiar uma tese já há muito condenada pelo Magistério da Igreja: a teoria da… (e atenção, porque a expressão é exatamente a mesma) "opção fundamental".

Cuidadosamente examinada pelo Papa São João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor, de 1993, essa teoria constitui uma chave de leitura perfeita para o filme Silêncio. Com ela, alguns teólogos dão a entender que os "comportamentos concretos" de uma pessoa não influiriam na sua "opção fundamental": assim, por mais pecados que viesse a cometer, se alguém tivesse se decidido a crer em Cristo — ou a "fazer o bem", genericamente —, poderia se salvar do mesmo modo, sem muita dificuldade (quase como o "Pecca fortiter sed crede fortius" [1], de Martinho Lutero). Explica-nos melhor o Papa Wojtyla:

Deste modo, chega-se a introduzir uma distinção entre a opção fundamental e as escolhas deliberadas de um comportamento concreto, uma distinção que, nalguns autores, assume a forma de uma separação, já que eles restringem expressamente o "bem" e o "mal" moral à dimensão transcendental própria da opção fundamental, qualificando como "justas" ou "erradas" as escolhas de comportamentos particulares "intramundanos", isto é, referentes às relações do homem consigo próprio, com os outros e com o mundo das coisas. Parece assim delinear-se, no interior do agir humano, uma cisão entre dois níveis de moralidade: por um lado, a ordem do bem e do mal que depende da vontade, e, por outro, os comportamentos determinados, que são julgados como moralmente justos ou errados, somente em função de um cálculo técnico da proporção entre bens e males "pré-morais" ou "físicos", que efetivamente resultam da ação. E isto até ao ponto de um comportamento concreto, mesmo escolhido livremente, ser considerado como um processo simplesmente físico, e não segundo os critérios próprios de um ato humano. O resultado a que se chega, é reservar a qualificação propriamente moral da pessoa à opção fundamental, subtraindo-a total ou parcialmente à escolha dos atos particulares, dos comportamentos concretos.

[...]

Pela lógica das posições acima descritas, o homem poderia, em virtude de uma opção fundamental, permanecer fiel a Deus, independentemente da conformidade ou não de algumas das suas escolhas e dos seus atos determinados com as normas ou regras morais específicas. Devido a uma opção originária pela caridade, o homem poderia manter-se moralmente bom, perseverar na graça de Deus, alcançar a própria salvação, mesmo se alguns dos seus comportamentos concretos fossem deliberada e gravemente contrários aos mandamentos de Deus, reafirmados pela Igreja. [2]

A primeira consequência dessa forma de pensamento é fácil de prever: abole-se conceito de pecado mortal. Só pecaria gravemente contra Deus quem atentasse contra a sua "opção fundamental", talvez por uma carta renunciando expressamente a Cristo ou através um pacto com Satanás. Nessa lógica, o beijo de Judas, por exemplo, não teria sido suficiente para condená-lo ao inferno; uma traição só não seria ainda um adultério completo; um único roubo não bastaria para qualificar um ladrão. Quantas infidelidades formariam um pecado mortal, ficaria a cargo desses mesmos teólogos descobrir…

A resposta da Igreja a essa teoria absurda não poderia ser outra senão um anátema de São João Paulo II:

Na verdade, o homem não se perde só pela infidelidade àquela opção fundamental, pela qual ele se entregou total e deliberadamente a Deus. Em cada pecado mortal cometido deliberadamente, ele ofende a Deus que deu a lei e torna-se, portanto, culpável perante toda a lei (cf. Tg 2, 8-11); mesmo conservando-se na fé, ele perde a "graça santificante", a "caridade" e a "bem-aventurança eterna". A graça da justificação — ensina o Concílio de Trento —, uma vez recebida, pode ser perdida não só pela infidelidade que faz perder a mesma fé, mas também por qualquer outro pecado mortal.

[...]

Há-de evitar-se reduzir o pecado mortal a um ato de "opção fundamental" — como hoje em dia se costuma dizer — contra Deus, entendendo com isso quer um desprezo explícito e formal de Deus e do próximo, quer uma recusa implícita e não reflexa do amor. Dá-se, efetivamente, o pecado mortal também quando o homem, sabendo e querendo, por qualquer motivo escolhe alguma coisa gravemente desordenada. Com efeito, numa escolha assim já está incluído um desprezo do preceito divino, uma rejeição do amor de Deus para com a humanidade e para com toda a criação: o homem afasta-se de Deus e perde a caridade. A orientação fundamental pode, pois, ser radicalmente modificada por atos particulares. Podem, sem dúvida, verificar-se situações muito complexas e obscuras sob o ponto de vista psicológico, que influem na imputabilidade subjetiva do pecador. Mas, da consideração da esfera psicológica, não se pode passar para a constituição de uma categoria teológica, como é precisamente a da "opção fundamental", entendendo-a de tal modo que, no plano objetivo, mudasse ou pusesse em dúvida a concepção tradicional de pecado mortal. [3]

Mas, dados esses esclarecimentos, voltemos ao filme de Scorsese. Há algo de bom que se pode colher dele? A resposta é sim. Qualquer narrativa da vida dos mártires é capaz de nos colocar diante da mesma pergunta: o que faríamos nós, que com tanta facilidade traímos a Nosso Senhor no dia a dia, diante da perseguição e da morte? Testados em nossa fé, agiríamos nós como os santos ou como Kichijiro? Cada um faça, diante de Deus, o seu exame de consciência.

O que não se pode ignorar é a grande confusão em que pode entrar uma pessoa mal formada, ao sair de uma sessão de Silêncio. O relativismo moral dos nossos tempos não permite que tratemos esse filme com um simples dar de ombros, como se a arte não tivesse sua influência, para o bem e para o mal, sobre a forma de pensar e de agir das pessoas. Quem quer assistir ao Silêncio perturbador de Scorsese, portanto, arme-se antes com o "Esplendor da Verdade", de São João Paulo II. Nunca antes as palavras do grande "João de Deus" foram tão necessárias — para a Igreja e para o mundo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta a Melâncton, 1.º de agosto de 1521.
  2. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor, 6 de agosto de 1993, n. 65, 68.
  3. Ibid., n. 68, 70.

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O que os católicos devem fazer para ajudar os homossexuais?

É na Igreja dos santos, e não nas boates e festas mundanas, que os homossexuais podem viver a plena felicidade. E é dever dos católicos convencê-los disso!

O fenômeno da homossexualidade já não pode ser ignorado por nenhuma esfera da sociedade. O tema já se tornou praticamente onipresente, especialmente no mundo das artes e das comunicações, a ponto de as pessoas se sentirem quase que impelidas a aceitar a propaganda LGBT promovida pela mídia.

É verdade, a prática homossexual existe desde o pecado original. O que há de novo na contemporaneidade é a tentativa de se construir uma "cultura gay", em que a homossexualidade seja vista como uma fonte positiva de comportamento, ainda que sua prática "esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de um grande número de pessoas" [1].

São incontáveis, de fato, os testemunhos de rapazes e moças que se encontram escravos de suas próprias paixões porque adotaram ingenuamente esse estilo de vida em que o sexo se torna um deus. Joseph Sciambra é um caso notável. Em seu livro Swallowed by Satan ("Engolido por Satanás", sem tradução para o português), o ex-ator homossexual conta como a pornografia e a propaganda do movimento LGBT quase o mataram.

Aos 19 anos, Sciambra saiu à procura de experiências mais "ousadas" que aquelas que via nos filmes eróticos. Frequentando um bairro gay de São Francisco, nos Estados Unidos, o então rapaz engatou um relacionamento com um homem mais velho, que o conduziu para a indústria pornográfica. Depois de envolver-se com o ocultismo e gravações cada vez mais violentas, Sciambra desenvolveu sérios problemas de saúde e se viu às portas do inferno. Uma vez recuperado do trauma e reconciliado com a graça de Deus, o rapaz decidiu iniciar seu apostolado para ajudar outros homossexuais a lidarem de maneira sadia com a própria sexualidade, longe das promessas de felicidade da cultura LGBT. É chocante um vídeo divulgado em seu site, no qual ele elenca uma série de atores pornográficos que morreram por causa do HIV.

De maneira idêntica à narrada acima, outros tantos homossexuais estão aprisionados pela cultura gay, que os trata como objetos de prazer. E o exemplo mais triste dessa desordem é o famoso caso do "clube do carimbo", a prática de transmitir HIV propositalmente a outras pessoas — que se tornou moda nas casas noturnas dedicadas a esse público.

A resposta católica à homossexualidade

A dificuldade da maior parte dos católicos com relação a esse tema é não saber distinguir a pessoa com tendências homossexuais — esta deve ser acolhida e amada generosamente — e a "cultura gay" — uma ideologia que tem como motor as paixões e as frustrações de muitos homossexuais. Essa falta de conhecimento da moral da Igreja conduz a muitos desentendimentos. Por isso, não há nada mais urgente que uma resposta clara dos católicos à homossexualidade, a fim de que as pessoas que experimentam essa tendência não se sintam seduzidas por um estilo de vida autodestrutivo.

A grande diferença entre a perspectiva católica e a "cultura gay" é que esta última define a identidade humana a partir de seu apetite concupiscível, ao passo que aquela entende que a "pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual" [2]. A Igreja recusa-se "a considerar a pessoa meramente como um 'heterossexual' ou um 'homossexual'" porque sabe precisamente que a identidade fundamental de todo e qualquer homem é a de "ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna" [3]. É dessa autêntica antropologia, radicada no íntimo do coração humano, que se pode desenvolver um verdadeiro serviço às pessoas com atração pelo mesmo sexo.

As pessoas com tendências homosssexuais podem, certamente, contribuir de maneira positiva para a sociedade por meio de um testemunho louvável e coerente, chegando mesmo à santidade. Não faltam exemplos de homossexuais que demonstram, e.g., um carinho imenso por seus familiares, zelando e cuidando deles no tempo da velhice. A Igreja reconhece essas virtudes, sublinhando, porém, que elas não derivam de uma vivência desordenada da sexualidade, mas procedem justamente daquela "semente divina" que está depositada no coração dos homens e por meio da qual eles são chamados à comunhão com Deus [4].

De fato, a homossexualidade é um desafio e implica uma séria renúncia. Trata-se mesmo de uma cruz. Porque a "atividade homossexual não exprime uma união complementar, capaz de transmitir a vida", as pessoas que a ela se entregam "reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência" [5]. E isso as impede de atingir a maturidade ideal como também torna menos eficazes as suas virtudes humanas, que poderiam evoluir mais perfeitamente se não fossem deturpadas pela perniciosidade de um comportamento desordenado. Notem que a mesma crítica é válida para heterossexuais que não vivem a vocação ao matrimônio, preferindo a masturbação e as relações efêmeras.

Neste sentido é que a fé católica defende "uma particular solicitude pastoral" para com os homossexuais, a fim de que eles não sejam "levados a crer que a realização concreta de tal tendência nas relações homossexuais seja uma opção moralmente aceitável" [6]. Os homossexuais necessitam encontrar um ambiente discreto, seguro e amoroso, onde possam compartilhar seus dramas íntimos sem o risco de serem expostos à humilhação pública ou, pior, ao isolamento.

O papel da família

Infelizmente, algumas situações de preconceito injusto e má vontade existem no seio da família e em outros ambientes sociais, de sorte que muitos jovens com atração pelo mesmo sexo acabam procurando refúgio no mundo LGBT.

A Igreja mesmo deplora "firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas", ao mesmo tempo em que defende "um programa pastoral autêntico", por meio do qual esses jovens, sobretudo, possam ser ajudados "em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual" [7]. É desta forma que "a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento" [8]. É evidente que os pais devem favorecer o diálogo com os filhos para que eles não caiam em falsas promessas ideológicas.

Os homossexuais, assim como qualquer pessoa, são chamados a crescer no amor a Deus e ao próximo, até que estejam totalmente configurados aos sentimentos de Cristo. E isso depende também da ajuda de boas amizades, que os motivem a adquirir mais e mais virtudes humanas e sobrenaturais, de modo que o seu agir já não seja em função da carne, mas da conquista de uma coroa incorruptível. É na Igreja dos santos, não nas boates e noitadas, que os homossexuais podem viver a plena felicidade. E é dever dos católicos convencê-los disso!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, 1 de out. 1986, n. 9.
  2. Ibidem, n. 16.
  3. Ibidem, n. 2.
  4. Concílio Vaticano II, Const. Past. Gaudium et Spes, 7 de dez. 1965, n. 3.
  5. Congregação para a Doutrina da Fé, op. cit., n. 7.
  6. Ibidem, n. 3.
  7. Ibidem, n. 15.
  8. Ibidem.

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Anticatolicismo na Inglaterra: a história de terror que empequenece a Inquisição

A repressão religiosa contra cristãos provocou na Inglaterra mais mortes do que na Espanha, onde “morreram acusadas de heresia menos pessoas do que em qualquer país da Europa”.

“Prisão e morte dos dez membros da cartuxa de Londres", de Vicente Carducho.

A Inquisição Espanhola permanece até os dias de hoje como a representação máxima de intolerância religiosa no imaginário popular. A "lenda negra", sob cujos alicerces se construiu a propaganda holandesa e inglesa, em muito contribuiu para confirmar esta idéia, escondendo debaixo do tapete os dados que demonstram que a perseguição religiosa durante os séculos XVI e XVII no resto da Europa alcançou cifras assustadoras. Dizer que a Inquisição era um dos tribunais europeus que mais garantias processuais oferecia, muito mais do que a justiça civil, significa literalmente que em alguns países a intolerância religiosa foi praticada sem freios nem obstáculos legais.

A queima de católicos orquestrada por Calvino (somente em Genebra mandou executar, num espaço de vinte anos, a 5% da população), a caça às bruxas na Alemanha, a guerra civil vivida na França… Todos os reinos do período protagonizaram exemplos de barbárie de todo tipo. Mas o que tornou especialmente chamativo o caso inglês, nos reinados de Henrique VIII e Isabel Tudor, é que do êxito em liquidar o Catolicismo dependia, de forma direta, a sobrevivência da monarquia. Isabel I era fruto de um matrimônio — o de Henrique VIII e Ana Bolena — que dera início a um cisma na Igreja, o que a convertia numa bastarda, caso fracassasse a causa anglicana.

A Rainha Virgem não poupou violência para manter-se no poder e reduzir a cinzas o ressurgimento do Catolicismo que Filipe II e sua esposa inglesa, Maria Tudor, sonharam em meados do século XVI.


Mesmo com a total discrepância entre o reinado de Maria Tudor e o terror da época de sua irmã Elizabeth, que perseguiu sistematicamente os católicos na Inglaterra, quem foi que recebeu da história o epíteto de "sanguinária"?

Ninguém menos que Maria I, evidentemente. E isso pelo simples fato de ela ser… católica [1]. É o que Padre Paulo Ricardo explica neste trecho de uma aula exclusiva sobre a Inquisição:


Um banho de sangue por intolerância religiosa

Henrique VIII deu início à perseguição aos católicos em 1534 com o Ato de Supremacia, que o elevava a chefe absoluto da Igreja da Inglaterra e declarava traidores a quantos simpatizassem com o Papa de Roma. Uma longa lista de altos cargos da Igreja rejeitaram a medida e foram devidamente executados, entre eles Thomas More e o bispo John Fisher. Todas as propriedades da Igreja passaram a mãos reais.

Em 1535, em plena onda de repressão, foram esquartejados os monges da Cartuxa de Londres com o seu prior, John Houghton, à frente. Foram enforcados e mutilados na tristemente célebre praça de Tyburn, como exemplos contra uma ordem caracterizada por sua austeridade e simplicidade. O balanço final foi de 18 homens, todos reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica como verdadeiros mártires. Do mesmo modo, o fracasso de uma rebelião católica contra o Rei terminou, em 1537, com a condenação à morte de outras 216 pessoas, 6 abades, 38 monges e 16 sacerdotes.

O sofrimento mudou de bando por um tempo com a subida ao trono de Maria Tudor, após o falecimento de seu único irmão homem, Eduardo VI. A "rainha sanguinária" nunca se esqueceria de que, com o divórcio de seus pais, em 1533, teve de renunciar ao título de princesa e de que, um ano depois, uma lei do Parlamento inglês a excluiu da sucessão em favor da princesa Isabel. Sob o reinado de Maria e seu marido, Filipe II de Espanha, foram executados por heresia quase 300 homens e mulheres entre fevereiro de 1555 e novembro de 1558. Muitos daqueles perseguidores fizeram parte da traumática infância de Maria, a começar por Thomas Cranmer, que, sendo arcebispo de Cantuária, autorizou o divórcio de Henrique VIII e Catarina de Aragão.

A morte prematura de Maria trouxe ao poder sua irmã Isabel, em 1558. A esposa de Filipe II a nomeou herdeira em seu testamento com a esperança de que ela abandonasse o protestantismo, sem suspeitar de que aquilo implicaria a ruína do Catolicismo nas Ilhas Britânicas. Em pouco tempo, Isabel virou às avessas os esforços do anterior reinado e se entregou a uma caça a católicos por todo o país. Como explica María Elvira Roca Barea, em seu livro "Imperiofobia e Leyenda Negra" (sem tradução para o português), as perseguições aos católicos ingleses provocaram mil mortos, entre religiosos e leigos, em contraste com o que se passou na Espanha, onde "morreram acusadas de heresia menos pessoas do que em qualquer país da Europa" [2].

O sistema inglês de denúncias vicinais

O reinado de Isabel I começou com o restabelecimento do Ato de Supremacia, que tornava obrigatória a assistência aos serviços religiosos do novo culto. Em caso de falta, as sanções iam da flagelação à morte. Não por acaso, o Estado promovia um sistema de delações de modo que os que não denunciavam seus vizinhos poderiam parar eles mesmo na prisão. O alvo eram não apenas os católicos, mas também os calvinistas, quakers, batistas, congregacionalistas, luteranos, menonitas e outros grupos religiosos que, na maioria dos casos, se viram forçados a fugir para a América. Só em tempos de Carlos II de Estuardo mais de 13.000 quakers foram encarcerados e seus bens, expropriados pela Coroa.

Em 1585, o Parlamento estabeleceu um prazo de quarenta dias para que os sacerdotes católicos, sob ameaça de morte, deixassem o país e se proibiu a celebração da Missa inclusive de forma privada. Não obstante, a repressão aumentou com o fracasso da Grande Armada de Filipe II em 1588 e o sistema de delação chegou a níveis "nunca sonhados pela Inquisição". Como assinala Roca Barea, o sistema de espionagem vicinal permitiu um estrito controle individual e dos movimentos e viagens de conhecidos, parentes e viajantes. Em questão de dez anos, a repressão conseguiu apagar definitivamente o Catolicismo da Inglaterra.

Toda uma série de supostos complôs católicos, sempre confusos e baseados em rumores, justificaram que a Coroa recrudescesse a repressão de forma periódica. O grande incêndio de Londres em 1666 foi imputado aos católicos e desencadeou uma nova perseguição. Entre 1678 e 1681, uma suposta conjuração atribuída a Titus Oates deu lugar a ferozes caças.

Paralelamente a estes acontecimentos, a Irlanda serviu-se do Catolicismo como forma de resistência ao domínio inglês. A religião era tão-só um fator a mais na guerra por manter a Inglaterra a uma distância prudencial, mas intensificou a violência e o ódio ao ponto de converter o conflito em um banho de sangue. Estima-se que um terço da população irlandesa sofreu as consequências mortais do envolvimento da Irlanda na guerra civil de 1636 entre monarquistas e republicanos ingleses. Oliver Cromwell não teve nunca piedade dos rebeldes irlandeses vinculados ao Catolicismo, confissão pela qual sentia certa antipatia pessoal.

Por César Cervera — ABC História | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas do Tradutor

  1. Na mesma linha da crítica feita pelo Padre Paulo Ricardo ao tratamento que a historiografia protestante dispensou a Maria I da Inglaterra, a filha católica de Henrique VIII, leia-se um excelente artigo publicado já há um tempo em The Telegraph, pelo escritor Gerald Warner. Dele destacamos o seguinte: "Maria I queimou, de acordo com o Livro dos Mártires, de John Fox, 284 hereges protestantes, cifra que, dada a fonte, certamente não foi subestimada. Enquanto isso, estimativas do número de execuções realizadas por Henrique VIII variam de 57 aos 72 mil alegados nas Crônicas de Raphael Holinshed (...). Então, por que é Maria chamada de 'sangrenta', e não o seu pai, quando as execuções ordenadas por ele excederam as de suas filha em mais de 56 mil, para dizer o mínimo? Por que não 'Henrique, o Sangrento'? Obviamente, porque ele foi o fundador da Igreja da Inglaterra."
  2. Para um exame detalhado do que foi a Inquisição Espanhola, reportamos os nossos visitantes e alunos à aula de que dispomos, em nosso site, especificamente sobre esse tema. Segundo o historiador Edward Peters, estima-se que o número de penas capitais cominadas pelo Santo Ofício na Espanha, ao longo de 250 anos, não tenha ultrapassado a casa dos 3 mil. Se as mil execuções de que fala María Elvira Roca Barea forem verdadeiras, portanto, trata-se de uma cifra evidentemente menor que os números da Inquisição Espanhola; proporcionalmente falando, porém, o reino de Elizabeth foi quase duas vezes mais sangrento, numa razão de 22 para 12 execuções anuais.

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O fim do mito sobre o “Papa de Hitler”

Por 60 anos, a verdade sobre a batalha do Papa Pio XII contra o nazismo tem sido suprimida. Mas novas evidências tornam inegável o seu heroísmo.

Passou despercebido pela imprensa mundial, mas uma notável reviravolta ocorreu recentemente nos estudos sobre o Holocausto. Quase dois anos atrás, a Fundação Internacional Wallenberg, um instituto de pesquisa histórica, iniciou um "projeto modesto": marcar as "Casas da Vida" — lugares onde judeus eram protegidos durante a guerra — com uma placa memorial. Foram encontradas mais de 500 casas como essas na Itália, França, Hungria, Bélgica e Polônia. Eduardo Eurnekian, presidente da fundação, escreveu que, "para nossa surpresa, descobrimos que a esmagadora maioria das Casas da Vida eram instituições relacionadas à Igreja Católica, incluindo conventos, mosteiros, internatos, hospitais etc".

Em Roma apenas, quase 4.500 pessoas encontraram refúgio em igrejas, conventos, mosteiros e internatos. Em Varsóvia, a Igreja de Todos os Santos protegeu judeus. Isso é notável porque a pena para poloneses que abrigassem judeus era o campo de extermínio ou, mais provavelmente, a execução sumária.

Que uma fundação nomeada após Raoul Wallenberg encontre uma colaboração católica tão ampla para salvar a vida de judeus, é coisa muitíssimo apropriada. Wallenberg foi um diplomata sueco em Budapeste durante a guerra. Ele e Angelo Rotta, o núncio papal, salvaram 120 mil dos 150 mil judeus da cidade. Wallenberg foi preso pela Guarda Vermelha e nunca mais visto.

As notícias sobre as Casas da Vida só são surpreendentes porque a verdade sobre a Igreja e o povo judeu na II Guerra Mundial tem sido escondida. Vários ajudantes do Papa da época da guerra, Pio XII, reconhecem que trabalharam para resgatar judeus sob instruções diretas do pontífice. Eles ainda incluíram dois futuros papas — Mons. Angelo Roncalli (João XXIII) e Mons. Giovanni Battista Montini (Paulo VI). Pio XII mesmo protegeu judeus tanto no próprio Vaticano como em Castel Gandolfo.

Este é um bom momento para marcar o testemunho da Igreja contra o nazismo. Oitenta anos atrás, a 14 de março de 1937, Pio XI publicou Mit Brennender Sorge ("Com grande preocupação), uma encíclica, propositalmente escrita em alemão, condenando o nazismo. "Quem quer que exalte a raça, ou o povo, ou o Estado, e divinize-os a um nível idolátrico, perverte a ordem do mundo criado por Deus", escreveu o Papa.

O secretário de Estado de Pio XI era o Cardeal Pacelli, futuro Pio XII. Ele distribuiu secretamente o texto, que ajudara a redigir, dentro da Alemanha. Quatro anos antes, ele havia negociado uma concordata entre a Santa Sé e a Alemanha, não para apaziguar o nazismo, mas para ter algum meio de conter os nazistas através de um tratado internacional. O regime referia-se a ele como um "amante de judeus". Pacelli fez mais de 50 protestos contra a política nazista, nos dias que antecederam a aprovação da Lei de Concessão, que garantiu a Hitler o poder para decretar leis sem a aprovação do Reichstag. Pacelli foi considerado tão anti-nazista que o III Reich tentou impedir a sua eleição como papa em 1939.

A história pessoal de Pacelli é importante. Ele era um amante da cultura germânica — e, igualmente, da cultura judaica — desde sua juventude. Como núncio na Bavária durante a breve república comunista de 1919, demonstrou sua coragem pessoal, permanecendo em seu posto. Sua simpatia e amizade com judeus, incluindo o grande maestro Bruno Walter, era bem conhecida, e ele concedeu auxílios discretos a muitos. A pedido de Walter, conseguiu a liberdade de um músico, Ossip Babrilowitsch, preso em um massacre (pogrom) enquanto a Bavária estava sob o domínio comunista. Em segurança na América, Gabrilowitsch tornou-se o diretor e fundador musical da Orquestra Sinfônica de Detroit. Walter, por sua vez, tornou-se católico.

Antes da guerra, Pacelli assumiu riscos extraordinários para ajudar a oposição alemã. Ele sabia que os generais estavam planejando um ataque contra Hitler, e fez com que notícias de suas intenções chegassem ao governo britânico.

Em uma situação de grande dificuldade, Pio XII fez o que ninguém mais fez para salvar a vida de judeus durante a guerra. Ele bem sabia o que realmente estava acontecendo ao povo judeu. Naquela época, muitos estavam na defensiva, incluindo um diplomata britânico que escreveu sobre "estes judeus queixosos". Nem o Reino Unido, nem a América facilitaram a fuga de judeus para o exílio — o Kindertransport foi uma abençoada exceção.

Nos anos da guerra, Pio XII atuou diretamente na Itália e por meio de diplomatas papais na Romênia, Hungria, Eslováquia e outros lugares. Não surpreendentemente, dadas as circunstâncias, não há nenhum número exato daqueles que foram salvos pelo Papa ou pela Igreja de um jeito ou de outro. Talvez tenha sido algo entre 500 e 860 mil.

As declarações de Pio XII tanto antes como durante a guerra eram inequivocamente hostis ao nazismo. Os Aliados podiam querer mais, mas o preço seria o fim de todo o bem que o Papa podia fazer. Os nazistas entendiam os pronunciamentos dele muito bem. Um plano para sequestrá-lo em 1944 foi apenas evitado pela improvável intervenção do general da SS Karl Wolff.

O Papa foi também completamente claro sobre os males do comunismo e da viciosa perseguição religiosa dos stalinistas. Mas não disse nada sobre isso durante a guerra. Os diplomatas aliados no Vaticano entenderem isso, pois só preservando a neutralidade da Santa Sé o Papa podia conceder refúgio a milhares de judeus em casas religiosas na Itália e mesmo no Vaticano. Isso também lhe permitiu manter contatos a fim de que informações sobre os prisioneiros de guerra e do Holocausto pudessem chegar aos Aliados.

Tudo isso era conhecido durante e após a guerra, inclusive por judeus. Albert Einstein, que escapou do regime nazista, disse em 1940: "Somente a Igreja permaneceu firmemente do outro lado da campanha de Hitler para suprimir a verdade… Eu sou obrigado, portanto, a confessar que agora louvo sem reservas o que uma vez eu desprezei".

Chaim Weizmann, primeiro presidente de Israel, e Isaac Herzog, líder dos rabinos de Israel, prestaram igualmente generosos tributos a Pacelli. Israel Zolli, chefe dos rabinos de Roma, tornou-se católico e, em homenagem ao Papa, tomou o nome cristão de "Eugênio". Depois da morte de Pio XII em 1958, Golda Meir, então ministra israelita das relações exteriores, escreveu: "Nós choramos um grande servo da paz".

Os nazistas odiavam a Igreja. Milhares de padres católicos foram aprisionados, especialmente em Dachau, o "campo dos padres". É verdade que alguns bispos seguiram uma política de apaziguamento: o Cardeal Adolf Bertram de Breslau supostamente teria ordenado um missa de Requiem para Hitler, em 1945. Alguns católicos traíram judeus e chegaram a massacrá-los, como em Jedwabne, em 1941. Mas outros, notavelmente o bispo Clemens August von Galen, de Münster, e o bispo Konrad von Preysing, de Berlim, fizeram tudo que podiam para resistir ao nazismo. O agente de Preysing e cura da Catedral de Berlim, Bernhard Lichtenberg, foi judicialmente morto e agora é reconhecido como um mártir.

Passados quase 60 anos, no entanto, desde a morte de Pio XII, sua reputação tem sido manchada. Exemplo recente foi uma reportagem da BBC que relacionou a oração silenciosa do Papa Francisco em Auschwitz a um ato de reparação pelo silêncio da Igreja Católica. A corporação estava simplesmente repetindo aquilo que se tornou a visão comum sobre Pio XII e a Igreja durante a guerra. (Como se chegou a esse equívoco é uma longa história, que já foi contada aqui no site outras vezes.)

Deixemos, entretanto, a última palavra para o próprio Papa Pio XII. Em 1943, ele escreveu: "Chegará o momento em que documentos não publicados sobre esta terrível guerra serão tornados públicos. Então, a tolice de todas as acusações se tornarão tão claras como a luz do dia. Sua origem não é a ignorância, mas o desprezo pela Igreja". Naquela época, o Papa estava se referindo à propaganda nazista. Mas suas palavras se aplicam igualmente bem às calúnias maliciosas contra ele lançadas nos últimos 60 anos.

Fonte: Catholic Herald | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

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Cristãos perseguidos na Europa: um relatório assustador

​Os cristãos na Europa enfrentam, atualmente, uma dupla perseguição: são alvo de extremistas islâmicos, muitas vezes vindo de fora, mas também dos próprios compatriotas, que não querem mais saber de Deus.

"Na Europa ocidental hoje, tanto a liberdade religiosa quanto a liberdade de consciência se encontram ameaçadas".

Embora não fizesse parte da discussão, nem fosse divulgado durante a coletiva de imprensa final, um documento distribuído aos bispos italianos pelo Cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana e também do Conselho das Conferências Episcopais Europeias, põe o dedo sobre a ferida da perseguição religiosa na Europa. E isso a partir de um ponto de vista privilegiado: o do Observatório sobre a Intolerância e a Discriminação contra os Cristãos, sediado em Viena, na Áustria.

A preocupação do Cardeal Bagnasco não é nova. Já há algum tempo o Cardeal denuncia a construção de uma ordem mundial sem Deus, a qual se reflete, por exemplo, no recente caso de eutanásia infantil praticado na Bélgica. Essa sua preocupação traduziu-se no relatório entregue aos bispos italianos, provavelmente com o objetivo de alargar a visão dos problemas de todo o continente.

O documento contém uma síntese eficaz dos 1.800 casos de discriminação contra os cristãos na Europa, foi redigido por Martin Kugler, diretor do Observatório, e circulou entre os bispos que se reuniram em Roma, de 23 a 25 de janeiro passado, para o encontro de inverno do Conselho Episcopal Permanente.

Entre os episódios de discriminação religiosa relatados desde 2010, estão incluídos:

Martin Kugler nota que "as restrições às objeções de consciência religiosamente motivadas atingem sempre mais os profissionais médicos e os farmacêuticos em diversos Estados membros da União Europeia, entre os quais a França, a Noruega, o Reino Unido e a Suécia", e que a preocupação é que a adoção "de uma linha dura de imposição de posições relativistas termine inibindo, a longo prazo, uma adaptação razoável das crenças religiosas".

O relatório destaca alguns casos dignos de nota. Na Itália, destacam-se o furto e os atos de vandalismo ocorridos na Igreja de Santa Helena, em Messina, no último dia 3 de julho; e a estátua de São Petrônio em Bolonha pichada na sua base com as palavras "Allah Akbar", no dia 26 de junho.

Na França se assinalou, obviamente, o assassinato do padre Jacques Hamel, no último dia 26 de julho.

Na Alemanha, mencionem-se o furto, no mesmo mês de junho, da relíquia do Papa João Paulo II da Catedral de Colônia; os atos de vandalismo na Basílica de Bonn, onde um homem de 24 anos provocou grandes danos à cripta, ao tabernáculo e ao sarcófago dos santos Casio e Florenzio, patronos da cidade; a destruição de quatro cruzes de madeira postas em alguns pontos altos da região Bad Tölz-Wolfratshausen, em um período que vai de maio a agosto.

Na Espanha, apontam-se os dois incêndios dolosos ocorridos em duas igrejas de Narón, entre 10 e 11 de junho.

E, depois, há os casos que afetam o direito à objeção de consciência. Na Bélgica, um lar de idosos foi multado em 6 mil euros por ter negado a eutanásia a um homem de 74 anos que sofre de câncer no pulmão. Na Itália, uma Ordem religiosa feminina foi condenada a pagar 25 mil euros a um professor por ter suspenso o seu vínculo de trabalho com base na incompatibilidade de sua orientação sexual com o ethos da escola católica.

As discriminações afetam, contudo, também os refugiados cristãos. O Observatório sublinha que, na Suécia, refugiados convertidos do Islã ao cristianismo testemunham ter sofrido espancamentos, ameaças, atos de intimidação e exclusão social nos alojamentos para refugiados.

Na Alemanha, 14 jovens iranianos cristãos foram obrigados a fugir dos campos de refugiados de Schloss Holte-Stukenbrock, depois de serem ameaçados de morte durante meses por um grupo de muçulmanos que vivem na caravana.

Assim, os cristãos europeus — os poucos que ainda restam — estão como que "entre a cruz e a espada", por assim dizer: são ameaçados, de um lado, pelos inimigos que vêm de fora, trazendo uma outra cultura e colonizando o continente com uma nova religião; e são hostilizados, de outro, pelos seus próprios compatriotas, que abandonaram a fé cristã e querem vê-la cada vez mais extinta da esfera pública. Cumprem-se, de um novo modo, as palavras do Autor Sagrado: "Se eu saio para os campos, eis os mortos à espada; se eu entro na cidade, eis as vítimas da fome!" ( Jr 14, 18). Que Deus tenha misericórdia da Europa.

Com informações de ACI Stampa | Tradução e adaptação: Equipe CNP