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São João Clímaco e a escada do Paraíso

O que a vida e a obra de um monge eremita do século VI têm a ensinar ao homem do século XXI?

No último dia 30 de março, a Igreja no mundo inteiro recordava a memória de São João Clímaco. Do século VI, esse monge do Oriente é conhecido especialmente por sua obra "Escada do Paraíso", na qual explica a vida monástica, desde o abandono do mundo até a perfeição na caridade.

De onde tirou sustento para escrever uma obra tão robusta? A resposta está em seu profundo amor a Deus, desde a mais tenra idade. Com apenas 16 anos, João tornou-se monge no monte Sinai, onde foi discípulo do sábio abade Martírio. Aí, entregue à oração e aos cuidados deste mestre espiritual, pôde dedicar-se ao ofício de sábio, àquele que Santo Tomás identifica como "o mais perfeito, o mais sublime, o mais útil e o mais bem-aventurado" de todos os estudos humanos [1].

Com cerca de 20 anos, João elegeu a vida eremítica, passando a habitar no sopé do monte Sinai. Queria entregar-se a Deus na solidão. O fato, porém, é que muitas pessoas o procuravam, querendo uma direção espiritual, e ele próprio tinha que visitar os mosteiros ao redor, dando conselhos aos demais irmãos monges. Uma pessoa sábia é procurada naturalmente em uma sociedade minimamente sadia, pois todos reconhecem a sua importância e a superioridade de seu ofício entre todos os demais. Movido pela caridade, então, João passava aquilo que tinha aprendido do próprio Deus aos seus próximos.

Foi justamente por insistência de um irmão vizinho do mosteiro de Raito que nasceu a sua "Escada do Paraíso" ( Κλίμαξ, em grego) – de onde vem o seu nome, Clímaco. Nessa obra, o santo compara o progresso na vida espiritual a uma escada, com três partes: a primeira diz respeito ao abandono do mundo, a fim de voltar ao estado da infância evangélica; a segunda é um importante subsídio para o reconhecimento e a cura das chamadas "doenças espirituais"; a terceira, por sua vez, é propriamente o caminho dos perfeitos.

Em toda a obra de João Clímaco, porém, o seu foco não é outro senão o amor, como ele próprio revela, ao associar o combate espiritual à figura do "fogo" [2] e concluir o seu tratado com as palavras de São Paulo: "Agora subsistem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é a caridade" ( 1 Cor 13, 13). A metáfora da escada para a vida espiritual é muito conveniente e encontra amparo nas próprias Sagradas Escrituras (cf. Gn 28, 11-19). Pode, porém, passar a falsa impressão de algo fatigante e cansativo e uma imagem de autossuficiência – como se fosse possível alguém ascender a Deus pelas próprias forças.

Entretanto, se é verdade que "é necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus" ( At 14, 22), a "escada do Paraíso", antes de ser subida pelos homens, foi descida pelo próprio Deus. Foi o Senhor quem se inclinou ao homem e inclinou a escada dos céus, para que ele a pudesse subir mais facilmente – Ele, que "humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz" (Fl 2, 8). De fato, antes que o homem desse o primeiro passo em direção ao Altíssimo, Ele mesmo saiu dos altos céus e veio em seu auxílio, com a Sua graça. Por isso, a resposta do homem a essa misericórdia de Deus só pode ser o amor – o amor de quem sobe uma escada firmando os "braços cansados" e "os joelhos vacilantes" (Is 35, 3), com o coração ansioso em contemplar o Senhor e possui-Lo plenamente na eternidade.

Pode haver quem se pergunte sobre a validade das lições de São João Clímaco para o homem de hoje. O Papa Bento XVI, ao falar sobre esse importante místico da Igreja, se pergunta se "o itinerário existencial de um homem que viveu sempre na montanha do Sinai, numa época muito distante, pode ter alguma atualidade para nós". A sua resposta é que "aquela vida monástica é apenas um grande símbolo da vida batismal, da vida do cristão. Mostra, por assim dizer, com caracteres grandes, o que nós escrevemos no dia-a-dia com caracteres pequenos".

Todos, pois, são chamados à santidade, como conclamou o Concílio Vaticano II [3]. A "escada do Paraíso" é o itinerário para todos os cristãos, chamados que são ao amor. Que São João Clímaco, do Céu, ajude o homem do século XXI a atingir o clímax da caridade, como ele alcançou.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Summa contra os Gentios, I, 2
  2. Escada do Paraíso, 1, 18: PG 88, 636
  3. Cf.Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, 39-42

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A verdadeira alegria Pascal

A certeza de ser amado por um Amor que não passa

Os extremos da Quaresma são marcados por duas alegrias: a do Carnaval e a da Páscoa. A primeira é uma alegria carnal que, nos dias atuais, chega a ser pecaminosa. E, mesmo nas décadas passadas, quando se festejava apenas a "joie de vivre" (a alegria da vida), como dizem os franceses, a festa do Carnaval era marcada por uma alegria mundana.

Todavia, festejar a vida biológica, criada por Deus, de certa forma, é salutar. Comemorar a alegria do dia a dia, as coisas simples e boa que confortam a vida é sinal de saúde. A ausência desse júbilo, por conseguinte, pode significar uma doença, um desequilíbrio.

A alegria da vida cotidiana, porém, é ligada antes de tudo à parte animal do homem que sente prazer ao encontrar um bem, muitas vezes material. Santo Tomás de Aquino ensina que este tipo de prazer está ligado a um bem, enquanto a tristeza a um mal. A alegria do homem é sempre correspondente ao bem que se está festejando. Assim, se o bem é passageiro, a alegria também o será.

Apesar de efêmeras, as alegrias deste mundo não são necessariamente más. E quando existe o saudável ordenamento no homem, elas serão indicações das alegrias eternas. Existem coisas que libertam o homem da tristeza, como um banho quente e um copo de vinho, diz Santo Tomás de Aquino. Todavia, por causa do pecado original, as alegrias mundanas tendem a substituir a alegria de Deus.

Do outro lado da Quaresma existe a alegria pascal. Ela não é baseada na bios, mas sim, na zoe, que é a vida eterna, a "outra" vida. E a verdadeira alegria espiritual reside nela.

Quando Jesus, a cabeça, ressuscita, introduz a humanidade na vida divina. Seu corpo ressuscitado não tem mais somente a vida biológica, embora muitos confundam ressurreição com reviver, Ele não voltou à vida antiga, mas sim, a Sua vida divina (Ele é Deus) transbordou para Sua humanidade e Ele começou a participar da vida de Deus. Esta é a alegria pascal: encontrar a nova vida, a zoé, que está em cada um.

No dia em que se celebrou o Sábado Santo, a Igreja recordou também os 500 anos do batizado de Santa Teresa de Jesus, uma grande mulher que alcançou o ápice da santidade e deu a conhecer ao mundo tantas nuances da vida espiritual que a tornam deveras especial.

Santa Teresa de Jesus, após 20 de vivência de oração intensa, de profunda amizade com Deus, ao adentrar na sétima morada, descobriu um mundo completamente novo. Antes, ela cria que os fenômenos místicos que experimentava eram oriundos do céu, porém, quando mergulhou na última morada, entendeu que tudo estava dentro dela. Entendeu que é no homem interior que habita a Trindade, e passou a viver da Trindade dentro dela.

Embora o seu corpo estivesse sofrendo muito, ela tinha paz e a alegria espiritual durante todo o tempo. Ela não era capaz de pecar, pois já estava enraizada no Amor, já gozava da plena liberdade daqueles que amam.

São Paulo, em sua Carta aos Gálatas (cap. 5), ao listar os frutos do Espírito Santo, aponta também a alegria. É justamente a alegria que vivia Santa Teresa, a alegria espiritual. Santo Tomás de Aquino afirma que a alegria é a consequência mais óbvia do amor.

O amor-caridade produz naquele que ama duas situações: a primeira é a constatação de que Deus é a fonte de todo bem. Portanto, alegrar-se com tal bem-aventurança é motivo de grande alegria. A segunda, provém do fato de que a alegria é a reação diante de um bem presente e possuído, que não suporta a ausência. A alegria é estar na presença do Sumo Bem.

A alegria pascal é muito diferente da alegria do carnaval. De nada adiantam as alegrias efêmeras, com prazo de validade. Melhor são aquelas que não passam. E não passam porque Aquele que as inspira também não passa.

Esta alegria está ao alcance de todos, e claro, estando nas últimas moradas a vivência é plena, completa, como Santa Teresa. Mas, aos outros, basta estar em estado de graça, em amizade com Deus, para experimentar a alegria de se saber amado e amar Aquele que não passará. Amar e servir. Esta é a verdadeira alegria espiritual.

As duas alegrias, portanto, são muito distintas. A primeira é passageira, mas a segunda, é a alegria dos santos e que a todos é permitido gozar. É por isso que, na Páscoa, a Igreja canta à Virgem Maria, a alegria do seu coração:

Regina coeli, laetare, Alleluia!
(Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia!)


Quia quem meruisti portare, Alleluia!

(Porque aquele que merecestes carregar em vossos braços. Aleluia!)


Resurrexit, sicut dixit, Alleluia!

(Ressuscitou como disse, aleluia!)

A alegria de Nossa Senhora por saber que Aquele que ela amava não estava ausente e que a pedra fechando o sepulcro não havia sido o ponto final. Jesus morreu em sua natureza humana, é verdade, mas continuava vivo como Deus. A grande alegria de ver que no meio da maior tragédia, embora tudo diga o contrário, permanece a certeza de ser amado.

Ao receber o cadáver de Seu Filho em seus braços, não teria o demônio tentado Maria? Sim, mas ela não vacilou, pois tinha certeza da presença do Deus-amor diante da catástrofe iminente.

Assim, que os próximos cinquenta dias sejam, para cada um de nós, dias de grande alegria espiritual. A certeza de que se é amado por um amor que não passa.

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Um grande silêncio reina sobre a terra

Não podendo o homem, por si mesmo, ascender à companhia de Deus, Ele mesmo desce à companhia dos mortos, para, com Sua graça, torná-los santos

Hódie siléntium magnum in terra est. Assim começa uma antiga homilia de Sábado Santo. "Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos."

Jesus, ao mesmo tempo em que tem o Seu corpo no sepulcro, desce com Sua alma aos abismos – como confessamos no Credo, Ele "desceu à mansão dos mortos". Não podendo o homem, por si mesmo, ascender à companhia de Deus, Ele próprio descende à companhia dos mortos, para, com Sua graça, fazê-los santos.

Cumpre-se, hoje, mais uma profecia: "Quanto a ti, meu povo, por causa da aliança que contigo fiz, selada com sangue, vou libertar teus cativos desta cisterna sem água" ( Zc 9, 11). O seu povo são os justos do Antigo Testamento que, pela dívida do pecado original, jazem "cativos" e sedentos na "cisterna sem água" das profundezas; a aliança "selada com sangue" é o sacrifício que Ele consuma na Cruz e, também, a causa de sua descensão. Se os méritos da paixão de Nosso Senhor se aplicam aos vivos pela graça dos Sacramentos, aplicam-se aos mortos pela descida de Cristo aos infernos. Sim, Ele desce aos infernos. Não ao inferno dos condenados, de onde nem mesmo Deus, o autor da liberdade, os pode tirar; mas ao "seio de Abraão", o lugar onde os santos Patriarcas esperam, aflitos, o dia de sua libertação. Desce aos infernos, para aspergir com Seu sangue os filhos de Adão e instaurar a nova Páscoa. Desce aos infernos para dar aos homens aquilo que, desde o príncipio, Ele lhes havia preparado.

"Vosso pai Abraão – disse Jesus, certa vez, aos judeus – exultou por ver o meu dia. Ele viu e se alegrou" (Jo 8, 56). Ei-lo, é hoje o Seu dia. Exultemos e alegremo-nos com os santos Patriarcas, porque também nós fomos conduzidos, pela assombrosa descida do Verbo ao mundo, da morte à vida, das trevas à luz, do pecado à graça, dos infernos ao Céu.

"Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos". Enquanto Ele não ressuscita dentre os mortos, porém, silentium magnum in terra manet. "Um grande silêncio reina sobre a terra".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Aquela Via-Sacra no Coliseu

Há 10 anos, no Coliseu, Joseph Ratzinger convidava todos os fiéis católicos a um sério exame de consciência diante da Paixão de Cristo, na Via Sacra

O Coliseu é um dos cartões postais mais famosos da Cidade de Roma. Construído por volta do ano 70 d.C., a mando do imperador romano Vespasiano, o local é frequentemente associado aos mártires cristãos. Em 1741, o papa Bento XIV declarou-o sagrado e consagrou-o à Paixão de Cristo. E desde 1964, graças a um costume iniciado por Paulo VI, o Coliseu é o lugar onde os papas se reúnem com os fiéis de Roma para meditar as 14 estações da Via Crucis.

Embora não exista nenhuma evidência histórica que confirme os relatos de martírios dentro do Coliseu, o simbolismo é inequívoco. O cristianismo nasceu debaixo da bota do Império Romano e foi regado a sangue durante um longo período. Portanto, não se pode considerar inadequada a relação entre o maior ícone dos romanos e os mártires do cristianismo. Deveras, o Coliseu é o palco adequado para reviver os momentos finais da paixão do Senhor, sobretudo as suas três quedas, que nada mais são do que as quedas do seu Corpo Místico: a Igreja.

A Tradição ensina que assim como Cristo viveu a sua páscoa, também a Igreja deverá entrar na glória do Reino por meio de uma paixão, morte e ressurreição [1]. Diz o Catecismo: "O Reino não se consumará, pois, por um triunfo histórico da Igreja segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal". Como será isso? Mais uma vez o Catecismo responde: "A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o 'mistério da iniquidade', sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade."

O Catecismo fala abertamente em apostasia. Ao longo da história da Igreja, grandes foram as perseguições seculares, ora de governos iníquos, ora de ideologias anticristãs. Mas o real inimigo da fé está, e sempre esteve, dentro da própria Igreja: "A maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja" [2]. As heresias, os cismas, a rebeldia contra o Magistério e contra o papa foram, na sua maior parte, iniciadas por padres e bispos. Ário, Nestório, Pelágio, Lutero et caterva. Todos sacerdotes e heresiarcas. Todos semeadores de joio no meio do trigal.

É dentro deste contexto que se compreendem aquelas severas advertências do Cardeal Joseph Ratzinger, durante a Via Sacra de 2005. No Coliseu, diante dos holofotes do mundo todo, falou-se de uma "uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados." Falou-se da Igreja e do horror que nos causava a sujeira do seu vestido e do seu rosto. "Somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos", lamentava-se.

Em sua meditação, escrita a pedido do então pontífice São João Paulo II, Ratzinger apontou três pontos graves na crise da Igreja. O primeiro diz respeito à Eucaristia: "Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento, da sua presença, frequentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra". Desde a Reforma Litúrgica de 1969, é perceptível uma abusiva e errônea aplicação dos decretos conciliares que, sob os augúrios de uma criatividade sem freios, tende a minimizar o quanto pode os gestos de reverência e adoração. O jargão mais ouvido é este: "A Eucaristia deve ser comida, não adorada". A Hóstia Santa revela todo o despojamento de Jesus, entregando-se ao homem não mais como homem, mas como alimento salvífico. Trata-se do próprio Jesus na aparência do pão e do vinho. Dominus est (Jo 21, 7). Como, destarte, não adorá-la? Como não se ajoelhar, não honrá-la com incensos e perfumes? Ora, responde Santo Agostinho, "não só não pecamos adorando-a, mas pecaríamos se não a adorássemos" [3]. É justamente porque não nos preparamos devidamente, adorando-a "em espírito e verdade" (Jo 4, 23), que a recebemos como se se tratasse de mero pedaço de pão.

Segundo ponto: "Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele!" Virou moda entre os teólogos modernos "repensar" a teologia. Repensar a ressurreição. Repensar o pecado. Repensar a encarnação. E nem é preciso dizer que esse "repensar" significa esvaziar todo o conteúdo espiritual de Cristo, tornando-o um personagem do passado, que nada mais tem a dizer-nos, senão "exemplos" morais e ideológicos. Um Cristo assim não só não faz sentido, como se torna desprezível.

Por fim: "Quanta soberba, quanta autossuficiência! Respeitamos tão pouco o sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas!" Em quantos lugares os confessionários foram substituídos por salinhas e escritórios para atendimento psicológico. O sacramento com que Cristo nos perdoa e nos insere de novo em sua amizade é reduzido a conselhos mundanos, não raras vezes, pautados em filosofias liberais e pecaminosas. "Tudo isto está presente na sua paixão", ponderou na época o futuro Bento XVI, "a traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração."

Não obstante, esses pecados dentro da Igreja, longe de tolher a esperança cristã, desvendam a face do Cristo que sofre continuamente por nós. Ele, como no caminho do Calvário, não fica eternamente no chão. Levanta-se mais uma vez para nos levantar definitivamente. É sempre d'Ele a última palavra. "Vós erguer-Vos-eis. Vós levantastes-Vos, ressuscitastes e podeis levantar-nos também a nós. Salvai e santificai a vossa Igreja. Salvai e santificai a todos nós", rezava Ratzinger na nona estação. Vale recordar que o símbolo maior do Império Romano é hoje a tradicional casa dos cristãos, na celebração da Paixão de Cristo. Deus venceu o imperador!

Que esta Sexta-Feira Santa leve-nos a meditar todos esses pontos elencados pelo Papa Emérito — a nossa recepção da Sagrada Eucaristia, os pecados do clero e os abusos contra a confissão —, para que recebamos de Cristo a necessária purificação do nosso coração.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Catecismo da Igreja Católica, 675-677
  2. Encontro do Papa Bento XVI com os jornalistas durante o voo para Portugal.
  3. In Ps., 98,9; PL 37,1264.

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O carpinteiro de Nazaré

Muitos são os “ventos doutrinários” que balançam “o pequeno barco da humanidade”, impedindo-o de enxergar o Deus escondido no pobre carpinteiro

Deus feito carne. Esse é Jesus, o filho do carpinteiro, a quem alguns fariseus lançam olhares de dúvida e de suspeita, como se estivessem a tratar com algum charlatão ou sujeito de índole perigosa (cf. Mt 13, 54-58). De fato, há de repetir-se inúmeras vezes, Cristo é o messias "inesperado", aquele que entra na cidade santa, montado em um pequeno jumento, despido de qualquer pompa ou ornamento cintilante. E, no entanto, é rei. Ele não vem com o chicote, pronto a levantar guerra contra o Estado, também não vem matar a fome, tampouco instaurar uma nova ordem política. Ele vem para nos mostrar a face de Deus. Tudo o mais — a paz, o amor, a libertação — é fruto desta realidade: o Deus que, fazendo-se carne de nossa carne, sangue de nosso sangue, vem habitar no meio de nós, a fim de dar cumprimento ao "o ano da misericórdia do Senhor, um dia de vingança para o nosso Deus" (Lc 4, 19).

Essa misericórdia de Deus — que também é vingança — não consiste na banalização do mal, "não é uma graça barata" [1], por assim dizer, em que tudo encontra a sua justificação sem arrependimento. Consiste, ao contrário, no Deus que vem sofrer na pele as dores da humanidade, mormente as chagas provenientes do pecado, que arrastam o homem para o campo de concentração do demônio: o inferno. Trata-se da paixão de Cristo. A vingança de Deus é, portanto, a sua morte e ressurreição, a vitória sobre o plano diabólico, trazendo à luz a beleza da verdade e o rosto destrutivo do príncipe das trevas. Deus vinga-se com a luz. Ele desmascara a mentira do demônio com Seu próprio sangue, lavando nossos olhos e libertando-nos da cegueira espiritual, tal qual fez com o cego Bartimeu: "Vai, a tua fé te salvou" ( Mc 10, 52).

Salvos pela graça de Deus, tornamo-nos propriedade d'Ele, posto que deixamos de ser escravos do demônio para habitarmos na casa do Senhor. No batismo, somos introduzidos no Corpo de Cristo, de sorte que, a partir deste momento, devemos "viver, trabalhar e morrer para produzir frutos para o homem-Deus, glorificá-Lo em nosso corpo e fazê-Lo reinar em nossa alma" [2]. Existe uma vocação específica e, a um só tempo, universal para todos os cristãos, que culmina, de um modo ou de outro — dependendo de cada chamado — para a santificação dos homens. Diz-nos São Luís Maria Grignon de Montfort:

"Jesus Cristo que receber alguns frutos de nossas mesquinhas pessoas: quer receber nossas boas obras, porque as boas obras lhe pertencem exclusivamente: ' Creati in operibus bonis in Christo Iesu – Criados em Jesus Cristo para as boas ações' (Ef 2, 10)." [3]

Contudo, numa época em que a ameaça do mal parece se enraizar no coração do homem de tal maneira, que se põe em perigo até mesmo a sobrevivência da espécie, torna-se cada vez mais difícil encontrar um coração solícito à graça de Deus e às suas responsabilidades. Recorda-nos São Josemaria Escrivá, as crises mundiais que enfrentamos não são outra coisa, senão crise de santos [4]. Como nos dias em que Cristo pisou neste chão, ainda em nossa época existem os fariseus que O cobrem com olhares de suspeita e receio: "Não é o filho do carpinteiro?" Assim, diz-nos as Sagradas Escrituras, "o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Mt 8, 20), porque o coração do velho Adão se encontra ocupado pelas seduções dos ídolos: a tentação de substituir Jesus por algum conceito próprio, uma ideia original, com a qual me sinto realizado e bem-sucedido.

As causas desta nova espiritualidade sem Deus são muitas: vêm desde um egocentrismo desmedido — em que somos reduzidos a meros objetos de consumo — a um projeto político, que nos torna massa de manobra para fins ideológicos — iguais aos que varreram o planeta nos dois últimos séculos. Jesus não tem onde repousar a cabeça, pois muitos são os "ventos doutrinários" que chacoalham "o pequeno barco do pensamento de muitos cristãos", jogando-o de um extremo ao outro [5].

Por outro lado, Jesus não deixa de estender-nos a sua mão: "Aí onde estão nossos irmãos, os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores — aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo" [6]. E é isto que nos torna Seus discípulos: a fé no Deus que é vivo e apresenta-se a nós com vestes de um pobre e humilde carpinteiro de Nazaré.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cardeal Joseph Ratzinger, Homilia na Santa Missa "Pro Eligendo Romano Pontifice", 18 de abril de 2005
  2. São Luís Maria Grignon de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Santíssima, n. 75
  3. Idem
  4. São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 301
  5. Cardeal Joseph Ratzinger, Homilia na Santa Missa "Pro Eligendo Romano Pontifice", 18 de abril de 2005
  6. São Josemaria Escrivá, Homilia pronunciada no campus da Universidade de Navarra, 8 de outubro de 1967

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O apostolado exige a vida de oração

O homem não pode abandonar o próximo, como também não pode, a pretexto de uma vida ativa, esquecer-se de Deus

Jesus é nosso modelo de serviço e humildade. Despojando-se de sua condição divina, o Filho de Deus desce até o abismo em que se encontra o ser humano para resgatá-lo do pecado. Nesta atitude, revela-se toda a dinâmica do agir de Deus: Ele vem sofrer conosco, faz-se presente no meio de nós, a fim de que o imitemos no trato com nossos irmãos, sobretudo com os mais necessitados.

Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem possui uma natural inclinação a fazer o bem. Não se aquieta diante de uma situação de evidente injustiça. Assim como diz Jesus "Eu vim para servir" (Mc 10, 45) —, quer também servir a um propósito importante, tornar-se útil à sociedade. Esse desejo de serviço, por sua vez, exprime-se melhor na vida dos santos, os maiores imitadores de Cristo. Como não se recordar, por exemplo, do testemunho de Madre Teresa de Calcutá, que passou a vida cuidando dos mais pobres e doentes?, do zelo de São João Bosco pela juventude?, da caridade de São Francisco de Assis e das obras de misericórdia de Irmã Dulce? Todos esses santos foram homens e mulheres inflamados pelo primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

O mundo exige a presença de cristãos capazes de santificar as realidades mais marginalizadas do cotidiano. O homem não pode, a pretexto de uma vida ascética, esquecer-se da necessidade dos outros. Todavia, uma má interpretação desse último preceito pode conduzir à negação de outro igualmente importante: o homem não pode, a pretexto de uma vida ativa, esquecer-se de Deus. Isso significa que somente almas de vida interior, isto é, pessoas de profundo espírito de oração e contemplação, podem, de fato, santificar as realidades mais marginalizadas do cotidiano. Os santos que mencionamos anteriormente foram heroicos em suas atividades apostólicas não muito pela ousadia, mas porque souberam solidificar seus projetos na rocha da oração. Quando perguntavam a Madre Teresa qual era seu segredo para conseguir cuidar dos leprosos, ela respondia: "Eu rezo".

Há um materialismo nos dias de hoje, que, no plano dos projetos pastorais e caritativos, tende a relativizar a importância da ascese, considerando-a algo secundário ou, muitas vezes, irrelevante. Com efeito, para tornar-se servidor da humanidade, o homem deixa de servir a Deus. Isso revela como também os projetos pastorais podem ser bezerros de ouro. Cristo, antes de iniciar seu ministério público, antes de curar e alimentar os pobres, foi ao deserto jejuar e fazer penitência. Mais ainda: passou 30 anos escondido no silêncio da casa de sua Mãe. E ninguém, em são juízo, diria que Ele deixou de salvar almas durante esse tempo de escondimento e oração. Ao contrário, "Jesus Cristo deu mais glória a Deus Pai pela sua submissão a Maria durante trinta anos do que lhe teria dado se convertesse toda a Terra operando os maiores prodígios." [1] Um verdadeiro serviço aos homens exige um verdadeiro serviço a Deus.

João Paulo I, meditando sobre a aplicação do Concílio Vaticano II, ponderava assim:

"Falar, propor coisas belíssimas, desenhar programas é demasiado fácil; o difícil é fazer, cumprir. Não tendes a impressão de que hoje estamos supermultiplicando reuniões, congressos, comissões para discutir e programar? Não será caso de reduzir um pouco tanta pesquisa, investigação e debate, para dedicar um pouco mais de tempo a rezar, a refletir um pouco mais, em silêncio, e depois arregaçar as mangas e pôr mãos à obra? Não será esta, porventura, a melhor maneira de vivermos o 'pós-Concílio' e de nos situarmos equilibradamente entre tradições e renovação?" [2]

O cristão procura preocupar-se com o homem em sua integridade: espírito, alma e corpo. Não faz parte do cristianismo aquela teologia já várias vezes condenada que, "diante da urgência dos problemas", acentua "unilateralmente a libertação das escravidões de ordem terrena e temporal, dando a impressão de relegar ao segundo plano a libertação do pecado e portanto de não atribuir-lhe praticamente a importância primordial que lhe compete" [3].

A eficácia pastoral depende dessa consciência sobre o pecado e, sobretudo, do auxílio da graça. O homem é apenas um instrumento da providência divina. É a graça de Deus que realiza todos os prodígios manifestados na vida dos santos. É a graça de Deus que liberta a humanidade tanto das mazelas espirituais quanto das materiais. Santa Teresinha não foi menos caridosa, rezando pela conversão de um ladrão condenado à morte, do que São Francisco de Assis, alimentando alguns mendigos. A maior obra de caridade que um padre pode fazer por alguém é ouvir a sua confissão. Esta é a humildade de Cristo: Ele veio para servir ao homem integralmente. Veio para conduzi-lo a Jerusalém Celeste, à morada dos santos e dos anjos, à casa de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. São Luis Maria Grignon de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 18
  2. Andrea Tornielli e Alessandro Zangrado, João Paulo I - O Papa do sorriso. São Paulo: Quadrante, 2000, p. 69
  3. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, n. 1

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Para muito além dos filmes de terror

O risco de pecar, perder a própria alma e ser condenado ao fogo do inferno é um drama muito mais terrível – e real – que qualquer conto de terror

Os "filmes de terror" dividem opiniões. Muitos não gostam, porque, depois que assistem, não conseguem dormir à noite. Alguns, impulsionados por uma curiosidade malsã, lançam-se de cabeça nas tramas cinematográficas, chegando a entrar no abismo sem fundo do ocultismo. Entre os dois extremos, há quem simplesmente assista às histórias, prevenido por um sadio ceticismo – não dando crédito a qualquer coisa que veja – e por uma dose de "senso comum" – sem preconceitos ou dogmas materialistas. Afinal, como escrevia Chesterton, "quando se trata de testemunho humano, há uma sufocante enxurrada de testemunhos em favor do sobrenatural" [1].

De fato, é inegável que os "filmes de terror" ajudam a colocar o homem diante de realidades espirituais. Gostos à parte, algumas produções do gênero têm o costume de abordar temas bastante caros à doutrina católica. O diretor do clássico "O Exorcista" ( The Exorcist, 1973) – única película de terror a ser indicada ao Oscar de melhor filme –, por exemplo, confessa ter feito o filme não para ser uma história "de terror", mas para retratar "o mistério da fé". Mesmo sendo agnóstico, William Friedkin explica que, na trama, "o objetivo do demônio não é a menina, mas o sacerdote que está perdendo a fé". O filme fez tanto sucesso nos Estados Unidos, que chegou mesmo a suscitar vocações para a vida sacerdotal.

Mais recentemente, "O Ritual" ( The Rite, 2011), estrelado por Anthony Hopkins, também está baseado na "crise vocacional" de um diácono que, depois de lidar com o ministério de um padre exorcista, acaba se tornando um católico devoto e fiel. A sua emocionante profissão de fé ao final da história ilustra como o contato com o mal pode conduzir as almas a um encontro com Cristo. Não se trata de dar primazia ou "importância excessiva" ao inimigo de Deus. É que, em um mundo materialista como o nosso, em que as realidades sobrenaturais são encaradas com desdém ou desprezo, tomar consciência da força efetiva do mundo espiritual – mesmo que em sua dimensão maligna – pode ser um primeiro passo para se aproximar de Nosso Senhor.

Algumas coisas, no entanto, ainda estão fora do lugar. O demônio existe, é verdade. As possessões, os rituais de exorcismo, o poder da água benta também são reais. Ao lado disso, porém, existem coisas como "tentação", "pecado" e "inferno" – e essas realidades não só estão vivas e ativas no mundo, como são muito mais graves e têm efeitos muito mais devastadores do que qualquer possessão diabólica. O problema é que ninguém fala sobre elas, nem nos cinemas, nem nos livros da moda e, tragicamente, nem nos púlpitos de nossas igrejas.

Alegações (fúteis) para não falar sobre o "pecado" ou o "inferno" são muitas. Alguns padres e teólogos, desejosos de agradarem o mundo, dizem que não se pode pregar certos conteúdos porque "causam medo" nas pessoas. A julgar pelo parecer deles, seria preciso censurar, talvez, o próprio Senhor, cujos discursos estão cheios dessas palavras "amedrontadoras": só nos Evangelhos Sinóticos, os termos "pecado", "inferno", "castigo eterno" e "fogo eterno" constam mais de 15 vezes; "Satanás" e "demônio", então, somam 42 referências. "Por isso hoje, quando se põe em dúvida a realidade demoníaca, é necessário fazer referência (…) à fé constante e universal da Igreja e à sua maior fonte: o ensinamento de Cristo", diz o documento Fé Cristiana y Demonología, da Congregação para a Doutrina da Fé. "Com efeito, a existência do mundo demoníaco se revela como um dado dogmático na doutrina do Evangelho e no coração da fé vivida."

Não é que todos os padres que deixam de falar sobre esses assuntos sejam descrentes, hereges ou apóstatas. Não se trata disso, absolutamente. Uma fé que se hiberna e não é alimentada por atos concretos, porém, que fim terá? Como crê em Deus, por exemplo, quem vive como se Ele não existisse, sem ter uma vida de oração e de intimidade com Ele? Como crê na presença real de Cristo na Eucaristia quem não se ajoelha diante do Santíssimo ou não é capaz de fazer uma simples genuflexão quando passa em frente a um sacrário? Do mesmo modo, como uma sociedade pode odiar o pecado, combater o demônio e evitar o inferno, se a sua existência é ignorada no dia a dia das pessoas e se quem deveria falar sobre eles está sempre evitando o assunto?

É verdade que a pregação sobre a morte, o juízo e o inferno causa temor nas pessoas, o que não é uma coisa necessariamente ruim. Santo Tomás de Aquino, quando fala sobre o temor, inclui-o na seção prima secundae da Suma Teológica, no tratado sobre as paixões (cf. I-II, q. 41-44). O medo é, pois, uma paixão – um "sentimento", na linguagem vulgar. Isso quer dizer que, em si, é uma realidade neutra, nem boa, nem má. Não é verdade, portanto, que as pessoas não devam sentir medo de nada. Se Deus colocou o temor no homem, isso tem algum sentido, alguma finalidade.

A chave para compreender esse "sentimento" está em sua íntima relação com o amor, como o próprio Doutor Angélico ensina: " Todo temor vem de que amamos alguma coisa" [2], e também Santo Agostinho: "Não há outra causa de temor senão a de perdermos o objeto amado quando possuído, ou não possuí-lo quando esperado" [3]. Se não tememos as coisas certas, é porque não amamos as coisas certas – ou, talvez, até as amemos, mas na ordem errada.

Uma pessoa que possui muitos bens e tem o coração preso às suas propriedades, por exemplo, tem medo de perdê-los. Um profissional bem-sucedido que ama seu posto, teme ser despedido. Um artista de nome que ama seu sucesso, teme que sua fama seja denegrida, e os exemplos não cessam. O mesmo pode acontecer com relação às pessoas. Na família, marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs, justamente porque se amam, têm medo de que aconteça algo aos de seu próprio sangue, e os exemplos, novamente, são muitos.

Acontece que, para que todos esses amores não se transformem em idolatria, é preciso haver uma ordem [4], na qual Deus vem em primeiro lugar. "Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e com todas as tuas forças" ( Dt 6, 5). Isso significa que, de todos os temores do homem, o maior deve ser o de perder a Deus. Por causa da graça que está em sua alma, o cristão deve estar disposto a abandonar tudo: seus bens, seu emprego, sua fama e mesmo a sua própria família, como está escrito no Evangelho: "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim" (Mt 10, 37).

Neste sentido, é preciso dizer que os "filmes de terror" – mesmo os mais equilibrados – geralmente inculcam nas pessoas um temor bobo e vazio. Zumbis não existem, assassinos em série não chegam para todos, e demônios, por sua vez, não saem por aí querendo possuir todo o mundo. Eles estão, é verdade, "como um leão a rugir, à procura de quem devorar" ( 1 Pd 5, 8). Para tanto, esses anjos decaídos não precisam do alarde de uma possessão. Quando um rapaz deita com sua namorada antes do casamento – ou com a mulher do outro, dentro do casamento –, quando um infeliz mata por vingança os seus desafetos, quando um jovem rebelde destrata o seu pai ou a sua mãe, aí está o demônio devorando as almas.

Portanto, que ninguém se engane. O risco de pecar, perder a própria alma e ser condenado ao fogo do inferno é um drama muito mais terrível – e real – que qualquer conto de terror.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Ortodoxia, IX
  2. Summa Theologiae, I-II, q. 43, a. 1
  3. De Diversis Quaestionibus, XXXIII
  4. Cf. Summa Theologiae, II-II, q. 26, a. 1

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Lembre-se de quem você é

O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma "determinada determinação" de tornar-se santo como o Pai é santo

A filiação divina é o fundamento da vida cristã. O ministério público de Jesus inicia-se com estas palavras: "Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição" (Mt 3, 17). Essa é a novidade trazida pela encarnação de Cristo. Ao entregar seu único filho, a fim de que por Ele se operasse a redenção do gênero humano, Deus manifestou sua profunda essência paterna. Diferentemente do que apregoava Ário, nunca houve um tempo em que Deus não foi pai. Com efeito, é seu querer fazer que o homem atinja a perfeição cristã, conduzindo-o pelo caminho do amor, da fé e da esperança, até o dia em que o reunirá "e o apertará sobre seu seio" (cf. Is 40, 10-17).

O reconhecimento da paternidade divina, por sua vez, exige uma urgente mudança de vida. O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma determinada determinação — como dizia Santa Teresa d'Ávila — de tornar-se santo como o Pai é santo [1]. Não pode servir a dois senhores. A santidade deve ser nossa única meta nesta vida. Todavia, para que possamos atingi-la, é necessário o auxílio da graça. Amamos com o amor de Deus. A lógica da santidade cristã, portanto, é esta: Deus me ama (pela fé, cremos no seu amor), eu amo Deus (pela caridade, devolvo seu amor a Ele e ao próximo). E isso se realiza mediante a esperança. Esperamos em Deus a purificação de nossas faltas para que possamos urgentemente amá-lO "em espírito e em verdade" (Jo 4, 24). Pois "quem pôs a sua esperança em Cristo vive dela, e traz já em si mesmo algo do gozo celestial que o espera" [2].

A consciência de que, pelo batismo, somos filhos de Deus — e, por isso, chamados a uma dignidade superior — revela-nos a nós mesmos. Assim, quem se esquece da paternidade divina, esquece sua própria identidade. No clássico-infantil O rei leão, enxergamos essa realidade, de maneira alegórica, na cena em que o pai de Simba, Mufasa, aparece nas nuvens para recordar a condição real do filho. Após um olhar profundo para o lago onde vê o rosto do pai — que poderíamos encarar como o olhar profundo para nossa alma —, Simba escuta a vós de Mufasa, que lhe diz: "You have forgotten me, / you have forgotten who you are and so forgotten me. / Look inside yourself. / You are more than what you have become. / You are my son. / Remember who you are. — Você se esqueceu de mim, / você esqueceu quem você é e se esqueceu de mim / Olhe para dentro de você. / Você é muito mais do que pensa que é. / Você é meu filho. / Lembre-se de quem você é". Guardadas as devidas proporções, as palavras do personagem infantil ajudam-nos a recordar a exortação de um grande santo da Igreja, a saber, São Leão Magno: "Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e corpo és membro" [3].

De fato, Deus nos ama. É justamente essa a razão pela qual, na oração do Pai-Nosso, Jesus se dirige a Ele não só pelo pronome "Pai"; Ele diz "Abba, Pai", que em hebraico significa "papai". Com esta expressão, Jesus demonstra seu livre abandono, sua confiança filial. Faz-se como uma criança. "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem" (Lc 11, 13). Mesmo no pecado, Deus não nos abandonou à própria sorte, não deixou a ovelha perdida. Ao contrário, enviou seu próprio Filho para nos revelar a sua face e tornar-nos participantes de sua glória.

"Na tarde desta vida, aparecerei diante de vós de mãos vazias" [4]. Nesta frase, com a qual Santa Teresinha do Menino Jesus fez sua livre oferenda ao amor misericordioso, encerra-se toda a doutrina da filiação divina. Quem tem a Deus por Pai não pode ser outra coisa senão uma alma confiante. Ela, embora saiba o valor dos méritos, não procura ser amada por eles, mas unicamente pela graça do Pai. Não procura recompensas nem honrarias. Procura somente o amor. Sabe-se uma pequena ave, um fraco passarinho que, ficando em seu posto, não se aflige "se nuvens escuras vierem esconder o Astro de Amor", pois "sabe que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia ser eclipsado um só instante" [5]. Assim, voa para seu querido Sol nas asas de suas irmãs águias.

Os grandes santos da Igreja, a exemplo de Santa Teresinha, foram forjados sobretudo pela paternidade divina. Eles receberam o amor do Pai e, acolhendo-o em seu coração, sentiram a força para levar a mensagem salvífica até os confins do mundo. Em especial, mais do que qualquer outro santo, a Virgem Maria soube acolher a paternidade de Deus-Pai para ser a Mãe de Deus-Filho e, desse modo, cooperar para a redenção do gênero humano. Benditos são, portanto, aqueles que acreditam no amor de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Mt 5, 1-12.
  2. FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Falar com Deus: meditações para cada dia do ano. Vol. 7º: Festas litúrgicas e Santos (2). Índices. Julho-dezembro — 3ª ed. — São Paulo: Quadrante, 2005, pág. 186
  3. Catecismo da Igreja Católica, 2784
  4. Teresa de Lisieux, Oferenda ao amor misericordioso
  5. Manuscrito B, 5r