| Categoria: Espiritualidade

A Lua é só mais um pedaço de terra

Apartado do Evangelho e da verdade, iludido pela secularização e pelo indiferentismo, o Ocidente cruzou a fronteira do espaço para conseguir apenas mais um pedaço de terra. O homem foi até a Lua, mas não conseguiu entrar em seu coração.

O Ofício das Leituras para a memória litúrgica de São Maximiliano Maria Kolbe — mártir religioso, vítima da perseguição nazista — propõe à meditação dos sacerdotes e fiéis que costumam rezá-lo uma importante reflexão. Nesse texto, São Maximiliano fala com tristeza da "doença quase epidêmica que se chama indiferentismo, que se propaga de várias formas", "não só entre os leigos mas também entre os religiosos" [1].

Para responder imediatamente ao problema observado, o santo pede aos católicos uma atenção especial à salvação das almas, a primeira e mais importante das missões da Igreja. "Como a glória de Deus resplandece principalmente na salvação das almas", explica São Maximiliano, "o desejo mais elevado da vida apostólica será procurar a salvação e santificação do maior número possível" [2].

De fato, o indiferentismo religioso, joio que tem minado a educação católica, está na raiz do processo de secularização pelo qual passa o Ocidente. No campo estritamente laical, tal fenômeno se percebe pela exclusão cada vez mais frequente da religião em questões como direitos humanos, por exemplo, sobre as quais a opinião do Magistério parece não valer nada. Também a moda e o estilo de vida denotam esse desprezo pelas virtudes cristãs. Mas é no campo religioso, o qual deveria oferecer uma resistência varonil a esse relativismo da fé, que o indiferentismo tem fincado raízes profundas, perturbando a identidade tanto dos sacerdotes quanto dos fiéis leigos ou religiosos.

Por conta de uma má teologia e compreensão do Concílio Vaticano II, muitas casas de formação sacerdotal e religiosa desenvolveram uma verdadeira "missão às avessas", cujo ideal primário não é a salvação das almas, mas assuntos de ordem temporal, como casa e moradia, saúde e emprego, educação e política — coisas importantes, é óbvio, mas que não constituem o cerne da tarefa da Igreja. Do Corpo de Cristo o povo espera uma libertação para além das questões salariais e empregatícias, para além das fronteiras da técnica. Isso se revela claramente no Brasil, onde muitas pessoas já saíram da linha da pobreza e, ainda assim, continuam a sofrer com a miséria do pecado.

Em uma importante conferência para membros do movimento Comunhão e Libertação, em 1990, o então Cardeal Ratzinger demonstrou, com certa dose de ironia, como a ênfase na realização dos desejos materiais ilude o homem e o afasta da sua verdadeira libertação pessoal:

O pensamento moderno nos fechou cada vez mais no cárcere do positivismo, condenando-nos ao pragmatismo. Este sabe alcançar muitas coisas, sabe viajar à Lua e mesmo mais longe, por espaços incomensuráveis. Não obstante, permanecemos sempre no mesmo lugar, porque não ultrapassamos a verdadeira fronteira do quantitativo e do factível. Alberto Camus descreve o absurdo desta forma de liberdade na figura do imperador Calígula. Este tinha tudo à disposição; entretanto, tudo, para ele, era pouco. Em seu louco desejo de ter sempre mais, e coisas cada vez maiores, ele grita: Quero a Lua; dai-me a Lua. Hoje podemos mais ou menos ter a Lua, mas se não se abrem as fronteiras entre terra e céu, entre Deus e o mundo, a Lua será apenas um pedaço a mais da Terra e o termos chegado lá não nos aproxima um passo sequer da liberdade e da plenitude tão almejadas. (grifos nossos) [3]

As palavras de Ratzinger escandalizam. E não é mesmo isso, uma escravização pelo fascínio da técnica, o que tem ocorrido em nossa sociedade? Apartado do Evangelho e da verdade, iludido pela secularização e pelo indiferentismo, o Ocidente cruzou a fronteira do espaço para conseguir apenas mais um pedaço de terra. Mas o homem continua angustiado por não saber o sentido de sua existência, por não saber de onde veio nem para onde vai, por não saber quem é e quem deve ser no seu breve tempo de existência. O homem foi até a Lua, mas não conseguiu entrar em seu coração.

A Igreja, com seus sacramentos, é o único "meio de transporte" que pode conduzir o ser humano até o seu coração, onde habita a Trindade Divina. Não há nada de errado em lutar por terra, casa e moradia. A Igreja só não pode esquecer, pondera Ratzinger, que a libertação fundamental "consiste em nos manter dentro do horizonte do eterno e em fazer-nos sair dos limites de nosso saber e de nosso poder" [4]. Se o homem precisa de fé para manter-se homem, "a própria fé, em toda a sua grandeza e amplitude, é sempre a reforma essencial de que precisamos" [5].

Peçamos, portanto, a São Maximiliano e à Virgem Santíssima, nossa Mãe e Auxiliadora, a graça de uma fé renovada contra o indiferentismo e o relativismo de nossos dias.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Das Cartas de São Maximiliano Maria Kolbe (O. Joachim Roman Bar, O.F.M. Conv., ed. Wybór Pism, Warszawa, 1973, 41-42; 226).
  2. Ibidem.
  3. Joseph Ratzinger, Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. 3.ª ed., Petrópolis: Editora Vozes, 2006, pp. 80-81.
  4. Ibidem.
  5. Ibidem.

| Categorias: Espiritualidade, Santos & Mártires

Santa Clara, a virgem esposa de Cristo

Como experimentou Santa Clara, a união com o Corpo de Jesus alcança plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana.

Santa Clara é popularmente conhecida pela sua pobreza evangélica e fidelidade à Ordem fundada por seu amigo e pai espiritual, São Francisco de Assis. Também é costume invocá-la para trazer o Sol em dias muito chuvosos. Há um outro aspecto da religiosidade dessa santa, no entanto, que passa quase despercebido pelas pregações a seu respeito: o seu matrimônio espiritual com Cristo.

Clara tinha um jeito todo particular de se dirigir a Jesus. Em uma carta à sua amiga Santa Inês de Praga, por exemplo, pode-se notar com que amor e confiança a discípula de Francisco vivia sua vocação esponsal. " Amando-o, és casta, tocando-o, serás pura, deixando-te possuir por Ele, és virgem" [1]. São palavras mesmo espetaculares — possivelmente escandalosas para alguns —, que revelam, por um lado, a ternura própria das esposas a seus esposos e, por outro, o amor esponsal de Jesus, o noivo das almas, que, embora "possuindo" o corpo de sua amada, não o agride nem viola sua dignidade. Ao contrário, na união com o Corpo de Jesus alcança-se plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana, como pôde experimentar Santa Clara e inúmeros outros santos.

É preciso distinguir, é claro, o matrimônio espiritual do matrimônio comum entre um homem e uma mulher. Este, apesar da sacramentalidade, envolve certamente a relação carnal e consiste em algo terreno, que não terá continuidade no Céu. Aquele, por sua vez, diz respeito a uma realidade da vida de oração, em cujo grau máximo de união com Deus ocorre uma espécie de "matrimônio" espiritual pela comunhão total da alma do orante com a Pessoa de Nosso Senhor. É desse último que Santa Clara fala em suas cartas e outros escritos místicos e ao qual foi totalmente fiel até o termo de sua vida neste mundo.

O Papa Bento XVI, em uma de suas catequeses, recorda que, assim "como Clara e as suas companheiras, inúmeras mulheres ao longo da história ficaram fascinadas pelo amor a Cristo que, na beleza da sua Pessoa divina, enche o seu coração". Elas se apaixonaram por um homem que, de maneira especial, olhou-as em sua profundidade, sabendo acolhê-las e protegê-las das ciladas do mundo. O amor esponsal de Jesus tem a virtude de revelar às almas o seu conteúdo mais sagrado. Foi esse amor, aliás, o que redimiu Santa Maria Madalena de suas impurezas para torná-la um vaso puro e cristalino, como insistem alguns autores espirituais. Dela, São Francisco de Sales testemunha: "Não lhe é dado o nome de virgem, mas a verdade é que o merece pela perfeita pureza em que viveu depois da conversão" [2].

Note-se, por isso, que Clara não estava exagerando nem sendo audaciosa ao apresentar a pureza do amor esponsal de Jesus. De fato, Ele não só não agride como também restaura o que foi agredido pela violência do pecado.

A cultura contemporânea, na contramão do que propõe a espiritualidade cristã, dissemina exatamente o oposto do amor restaurador. Trata-se, ao contrário, de impor uma lascividade agressiva tanto às mulheres quanto aos homens, que os reduz a animais dominados pelos instintos e pelas paixões. Isso gera a insegurança afetiva, os desarranjos familiares, a opressão de um sexo sobre o outro, as ideologias de gênero e por aí vai. Na verdade, tanto as mulheres vão perdendo a sua natural feminilidade, para se adaptarem aos estereótipos da moda, quanto os homens se tornam menos viris, desorientados pela propaganda gay e antimasculina. As famílias não têm mais pai nem mãe, e por isso delegam suas responsabilidades ao Estado usurpador e autoritário.

Como seria bom se homens e mulheres, de acordo com a vocação específica de cada um, se espelhassem no amor esponsal entre Jesus e suas almas esposas. Tal esforço tornaria os namoros mais castos e os casamentos menos conflituosos, pois nem esposa nem esposo procurariam apenas um corpo para ser usado e descartado, mas uma pessoa com quem pudessem compartilhar toda a existência sem correr o risco de uma separação. A alegria de um matrimônio depende da maneira e da ordem em que a família ama a Deus e a si mesma.

Peçamos a intercessão de Santa Clara de Assis neste dia para que ela, amparada em seu Amado Esposo, limpe o céu nublado que turva a visão das famílias e as impede de ver a luz restauradora do amor de Cristo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santa Clara, Primeira Carta: FF, 2862.
  2. São Francisco de Sales, X, 86. Sermão no dia de Santa Maria Madalena.

| Categoria: Espiritualidade

Três meios para chegar à verdadeira humildade

A humildade é como o cimento que sustenta a base de um edifício; sem ela, é impossível manter-se de pé na vida espiritual.

Um dos obstáculos mais graves à vida de oração é a soberba. Esse vício, definido pelos manuais de ascética como um apetite desordenado pela própria excelência, costuma aparecer muito entre os principiantes na intimidade com Deus. O demônio os incita a um falso fervor tão grande a ponto de eles se acharem melhores e superiores aos outros. E, quando veem essa suposta superioridade ameaçada pela virtude de um amigo ou pessoa qualquer, não perdem a oportunidade para murmurar contra seus êxitos e obras.

A Igreja recomenda vivamente às vítimas desse mal o remédio da humildade. Em seus manuais, o Padre Antonio Royo Marín trata-a como "uma virtude derivada da temperança, que nos inclina a coibir ou moderar o desordenado apetite da própria excelência, dando-nos o justo conhecimento de nossa pequenez e miséria principalmente com relação a Deus" [1]. Embora não seja a maior de todas as virtudes, ela é fundamental para o progresso na santidade, pois coloca o sujeito no caminho da verdade e da justiça.

É humilde, portanto, aquele que tem conhecimento pleno de si mesmo e sabe perfeitamente que dele não pode sair nada de bom, a não ser que Deus o permita. "A verdade nos autoriza ver e admirar os bens naturais e sobrenaturais que Deus quis depositar em nós; mas a justiça nos obriga a glorificar não a beleza de uma paisagem contemplada em uma pintura, e sim o artista que a pintou", exemplifica o Padre Royo Marín [2]. Pode-se pensar também no testemunho do então Cardeal Joseph Ratzinger, ao apresentar-se pela primeira vez como Papa na sacada da Basílica de São Pedro: um "pobre e humilde servo da vinha do Senhor", que se sentia consolado por considerar que "Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes".

A humildade é necessária sobretudo para remover os obstáculos naturais à graça: " Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes" (Tg 4, 6). De fato, Santa Teresa tem razão quando compara essa virtude ao cimento que sustenta todo o edifício espiritual. Por isso, sem desconsiderar o seu grau de dificuldade, os aspirantes à santidade devem se esforçar por serem humildes, andando sempre pelas vias da verdade e da justiça.

O Padre Royo Marín indica três principais "meios para se chegar à verdadeira humildade". Ei-los abaixo.

1. Pedir incessantemente a Deus

Como todo dom de Deus, a humildade também é uma graça que somente Ele pode conceder aos que a desejam e lha suplicam. Há uma ladainha escrita pelo Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, que pode ser recitada todos os dias nesta intenção:

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser infamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

2. Pôr os olhos em Jesus Cristo, modelo incomparável de humildade

O Padre Royo Marín recorda que foi o próprio Cristo quem "nos convidou a pôr os olhos n'Ele, quando nos disse com tanta suavidade e doçura: 'sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração' ( Mt 11, 29)" [3]. Desse modo, o grande teólogo da vida interior indica quatro pontos sobre Cristo como temas para nossa meditação:

  1. a vida oculta, quando Ele se humilhou no seio da Virgem Maria e se fez Filho de um simples carpinteiro;
  2. a vida pública, com sua dedicação aos pobres e serviço aos mais simples;
  3. a paixão, ocasião em que lavou os pés dos discípulos e deixou-se ser humilhado e açoitado pela nossa salvação; e
  4. a Eucaristia, ápice de sua entrega com o ocultamento também da natureza humana, e por todas as descortesias e ofensas que aceita no Sacrário.

3. Esforçar-se por imitar Maria, Rainha dos humildes

Finalmente, o Padre Royo Marín recorda o modelo daquela que sempre se considerou a pobre e humilde escrava do Senhor. "Apenas fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas mais próprias de uma mulher no pobre casebre de Nazaré, aparece no calvário como mãe do grande fracassado…" Estas são apenas algumas das características lembradas pelo padre para apresentar a humildade de Nossa Senhora. Assim, afirma que "sob seu olhar maternal a alma há de praticar a humildade de coração para com Deus, para com o próximo e para consigo mesma" [4].

Essas são dicas valiosas do Padre Royo Marín que devem urgentemente ser colocadas em prática por todo fiel cristão. O orgulho, mais do que os pecados contra a castidade, ofendem diretamente o Coração de Jesus, pois demonstram uma atitude de altivez em relação à Providência divina. Lembrem-se que o demônio não pecou contra o sexto mandamento, mas contra o primeiro. De nada adianta ser puro como um anjo, mas soberbo como um diabo [5].

Busquemos, portanto, a humildade para que todas as nossas outras virtudes brilhem ainda mais pela graça de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. A. Royo Marín, Ser ou Não Ser Santo: Eis a Questão. Trad. port. de Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 274.
  2. Id., p. 277.
  3. Id., 280.
  4. Id., 283.
  5. Vale a pena destacar que, embora a Virgem de Fátima tenha alertado com especial atenção contra os "pecados da carne" — e o próprio Santo Tomás reconheça "que o diabo alegra-se muito com a luxúria porque este pecado é de adesão extrema", sendo "difícil ao homem livrar-se dele" (S. Th. I-II, q. 73, a. 5, ad 2) — é a soberba, e não a impureza sexual, o mais grave de todos os pecados (cf. S. Th., II-II, q. 162, a. 5).

| Categoria: Espiritualidade

Um puxão de orelhas nos católicos sonolentos

“Onde falta vontade enérgica, não há homem perfeito”. Escutem os católicos sonolentos que esperam sentados a vinda da Terra Prometida.

Pelágio foi um monge católico, oriundo da Bretanha e contemporâneo de Santo Agostinho, que defendia a autossuficiência da natureza humana em relação à luta contra o pecado. Segundo ele, o homem não precisaria do auxílio da graça para ser santo, mas apenas de uma força de vontade e fidelidade ao exemplo de Cristo na Cruz. Isso, por si só, bastaria para que qualquer cristão alcançasse as mais altas moradas do Castelo Interior.

Apesar de condenada pelo XV Sínodo de Cartago, em 418, essa heresia, chamada posteriormente de pelagianismo, suscitou ainda outros defensores nos anos seguintes. Um deles, João Cassiano, desenvolveu uma espécie de "semipelagianismo", defendendo a primazia da ação humana sobre a intervenção divina, isto é, a graça pode auxiliar o gênero humano no cultivo das virtudes, mas a iniciativa é sempre do homem. O Magistério da Igreja precisou intervir outra vez, e, em 526, as doutrinas de Cassiano também foram condenadas e consideradas heréticas pelo colégio episcopal.

Passados tantos anos desde a condenação do pelagianismo e do semipelagianismo, a doutrina da Igreja tem consciência bem sólida da necessidade da graça para o bom desempenho humano não só em assuntos espirituais como em qualquer outro campo em que o homem possa intervir. De fato, não há nada que o ser humano faça de bom que não tenha como origem e termo a Providência divina. Mutatis mutandis, um político precisa tanto da graça sobrenatural para tomar decisões corretas quanto um sacerdote para administrar sua paróquia. Não é preciso muita teologia para perceber como a classe política brasileira está, no sentido exato da palavra, desgraçada.

Não restam dúvidas, portanto, de que o pelagianismo é um erro. Existe, por outro lado — e é para isso que se deve chamar atenção, pois, em parte, disto depende a vitória dos que desejam a santidade —, um perigo de ordem psicológica puramente natural para o cristianismo, como explica o padre Royo Marín, que é a falta de energia de caráter, ou seja, o desejo insuficiente e moroso de busca pela união de amor com Deus [1]. O sujeito quer ser santo, mas não coopera efetivamente com Deus nesse processo, impedindo-O de atuar livremente em sua natureza. Trata-se, portanto, de uma falta de disposição para corresponder às inúmeras iniciativas e inspirações divinas do Senhor.

Notem que esse comportamento é, por assim dizer, quase a antítese do pelagianismo: neste se rejeita a graça por conta de uma soberba, isto é, querer conquistar o Céu pelas próprias forças; naquele se rejeita a graça porque não se tem entusiasmo nem determinação para empreender uma empresa tão grande quanto a perfeição cristã. Em suma, esses pobres covardes acham que a santidade é para apenas alguns eleitos de Deus que nasceram imaculados e que, se acaso Deus os quiser santos, Ele os fará sem qualquer cooperação humana.

Ora, Pelágio estava mesmo errado quando defendeu a autossuficiência para a perfeição cristã. Mas a condenação da Igreja às suas doutrinas não inclui, de maneira alguma, aquela vibração interior do cristão que se deixa generosamente mover por Deus. "Onde falta vontade enérgica", diz o padre Royo Marín, "não há homem perfeito" [2]. A graça, portanto, ainda supõe a natureza, elevando-a, aperfeiçoando-a e colocando-a a seu serviço. Vale lembrar que o mesmo São Paulo que se regozija em suas fraquezas porque lhe basta a graça de Deus, é o São Paulo que compara a vida cristã a uma corrida, na qual se corre por uma coroa incorruptível ( 1Cor 9, 24). Como nos esportes, atividade que exige garra, disciplina e determinação, também a vida de oração necessita dessa disposição interior do homem.

Em uma radiomensagem de 1942, com um tom bastante enfático e varonil, como costumam ser as exortações de um bom pai de família, o então Sumo Pontífice Pio XII convocou o orbe católico a uma nova cruzada pela restauração da sociedade que, já naquela época, definhava sob os erros políticos e filosóficos da moda:

O preceito da hora presente não é lamento, mas ação; não lamento sobre o que foi ou o que é, mas reconstrução do que surgirá e deve surgir para o bem da sociedade. Pertence aos membros melhores e mais escolhidos da cristandade, penetrados por um entusiasmo de cruzados, reunirem-se em espírito de verdade, de justiça e de amor, ao grito de "Deus o quer", prontos a servir, a sacrificar-se, como os antigos cruzados. Se então se tratava da libertação da terra santificada pela vida do Verbo de Deus encarnado, hoje trata-se, se assim podemos falar, de uma nova travessia, superando o mar dos erros do dia e do tempo, para libertar a terra santa espiritual, destinada a ser a base e o fundamento das normas e leis imutáveis para as construções sociais de interna e sólida consistência.

Atenção para estas palavras: a nova cruzada " pertence aos membros melhores e mais escolhidos da cristandade". O atleta que deseja ser membro da seleção principal de seu time, deve, como manda o treinador, submeter-se a uma pesada e constante série de exercícios e dieta rigorosa, a fim de que seu corpo esteja melhor preparado para a disputa. Também no combate espiritual só resistem os mais bem preparados, os melhores e mais empenhados da milícia de Deus. Daí a ênfase de Pio XII. Seu discurso, mais do que retórica apaixonada, é um apelo à vivacidade, um puxão de orelhas nos católicos sonolentos que esperam sentados a vinda da Terra Prometida.

Não é pelagianismo levar uma vida regrada segundo as tradicionais práticas de mortificação e ascese. "Com uma vontade enérgica pode-se chegar à plena possessão de si mesmo, ao domínio e emancipação das paixões, à plena liberação das malsãs influências exteriores" [3]. Se a primeira condição para a santidade é o acolhimento humilde das iniciativas de Deus, a segunda é essa resposta generosa que remove todos os obstáculos de ordem natural à graça santificante. Para ser inteiramente santo, é preciso ser homem por inteiro.

A exortação de Pio XII é atualíssima e precisa, mais que em tempos passados, ser correspondida pelos católicos. Contra a armadilha de uma falsa misericórdia, que amolece o caráter e suga a energia dos bons combatentes de Cristo, deve-se levantar uma nova Igreja Militante, de cujo exemplo de santidade e amor ao Evangelho emanem raios de luz sobre as trevas deste século. Que o Ano Santo de Nossa Senhora apresse logo o surgimento e triunfo dessa nova cristandade.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. A. Royo Marín, Ser ou Não Ser Santo: Eis a Questão. Trad. port. de Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 41.
  2. Id., p. 42.
  3. Id., ibid.

| Categoria: Espiritualidade

Seja um presente para os outros!

Os consultórios e confessionários já estão cheios de pessoas reclamando de que não são amadas por ninguém. Não seja mais um. Abra seu coração ao verdadeiro amor de Deus e descubra como é bom se doar sem pedir nada em troca.

A baixa autoestima é um problema que frequentemente aparece nas clínicas de psicologia como também nas direções espirituais. Por uma série de motivos — histórico familiar, personalidade melancólica, problemas de relacionamento social etc. —, muitas pessoas julgam-se a si mesmas de maneira pejorativa, pelo que acabam procurando ajuda psicológica ou espiritual, por conta também do sofrimento que essa condição humilhante acarreta.

As pessoas que têm baixa autoestima tendem a formar juízos severos sobre tudo o que fazem; suas qualidades são sempre vistas como inferiores às dos outros, ao passo que seus defeitos, por menores que sejam, ganham a proporção de um Golias. É como se vivessem sob o olhar vigilante de um juiz terrível 24 horas por dia.

Esse problema, por si só angustiante, pode tornar-se pior quando leva ao chamado perfeccionismo ou, como diriam os manuais de ascética, ao apetite desordenado pela própria excelência. Trata-se de uma busca insensata pela perfeição, cujo motor é o desejo de ser aceito e receber elogios, de modo que, se estes não vêm, a decepção e o repúdio por si mesmo só aumentam. Em suma, a pessoa sempre se enxerga como um fracasso.

Em sua Noite Escura, São João da Cruz adverte contra esse mal dizendo como, muitas vezes, os perfeccionistas "manifestam a Deus os grandes anseios que têm de que lhes tire suas imperfeições e faltas, mais para se verem em paz sem o mal-estar que elas causam do que por Deus" [1]. É que, tomados por um desordenado desprezo por si mesmos, veem a santidade como meio, não como meta, para alcançarem graça diante de Deus e dos homens. E, por isso, acabam se frustrando a cada falta cometida, percebendo o quanto são incapazes de amar.

Pessoas perfeccionistas ou com baixa autoestima têm uma visão errada do amor; não o veem como um dom gratuito, mas como algo que deve ser meritoriamente conquistado. Para as almas sedentas de santidade, essa distorção do amor é uma tentação grave, da qual o diabo se serve frequentemente e que pode arruinar muitos principiantes na vida de oração.

Com efeito, o primeiro remédio contra a baixa autoestima é a aceitação total e incondicional do amor de Deus. Na Última Ceia, Jesus expressou o máximo de seu amor rebaixando-se à condição de servo para lavar os pés de seus discípulos. Lavar os pés, para a cultura da época, era símbolo de serviço e submissão aos convidados de uma família. Quando os hóspedes chegavam, o anfitrião mandava seu servo lavar-lhes os pés, como gesto de acolhida ou cortesia. Pedro, perfeito conhecedor das tradições de sua cultura e percebendo o significado do gesto de Jesus, logo O censura, dizendo: "Senhor, Tu vai lavar-me os pés!" [...] "Não, nunca me lavarás os pés!" ( Jo 13, 7-8).

Pedro ainda pensava como um perfeccionista: o amor deve ser merecido. Por isso repreende Cristo e não permite que lhe lave os pés. Jesus, então, responde: "Se não te lavar, não terás parte comigo" ( Jo 13, 8). É essa resposta de Jesus, cheia de misericórdia e sinceridade, que provoca a abertura de Pedro e a sua aceitação do amor. "Senhor, então não só os pés, mas também as mãos e a cabeça", diz comovido o príncipe dos apóstolos (Jo 13, 9).

Os que desejam crescer na vida de oração devem repetir aquelas palavras de Pedro. De fato, ninguém, por si mesmo, é merecedor do amor de Deus e trata-se de um dever de humildade reconhecê-lo. Mas, assim mesmo, o Senhor quer manifestar seu carinho aos seus filhos, acolhendo-os em suas fraquezas e tornando-os merecedores em Cristo. Semelhante a São Pedro, São Paulo também descobriu isso após sua conversão, de modo que suas preces partiam justamente de suas fraquezas: "Mas Ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo." (2 Cor 12, 9).

Notem que não há qualquer sinal de baixa autoestima nas palavras de São Paulo. Ele se sabe pequeno diante de Deus ao mesmo tempo em que reconhece a própria pequenez como seu maior dom. É por meio dela que o Senhor age em sua vida e na vida dos outros. É na sua fraqueza que ele se torna um presente para os demais irmãos de comunidade. Doa-se gratuitamente porque toda cobrança de afetos e reconhecimento perde sentido, uma vez que ele já possui o máximo amor; já teve seus pés, mãos e cabeça lavados por Jesus.

Outra, porém, é a atitude de Judas. Como todos os demais apóstolos, ele também teve seus pés lavados. Jesus o amou concretamente e em público para que não houvesse dúvida. Judas, no entanto, recusa-se a acreditar naquele amor e mantém-se resoluto em seu erro porque perdera a fé. Para o traidor, que passara boa parte de sua vida procurando um messias que lhe trouxesse libertação temporal, o discurso de Cristo sobre a vida eterna era "duro" demais; Judas cobra de Cristo um falso amor que Deus não lhe pode conceder.

Na verdade, a atitude de Judas é a de todos aqueles que desejam desesperadamente receber o amor do mundo sem se darem conta de que já possuem o amor mais sublime, que é o de Deus. É esse desejo desordenado que está na raiz de toda baixa autoestima e perfeccionismo. Querer ser amado merecidamente pelas coisas exteriores e temporais é um desvio gravíssimo, que só pode gerar frustrações e desespero. Daí a diferença gritante entre Pedro e Judas diante do pecado. Este se condena à forca porque não vê mais solução para o crime que cometera, ao passo que aquele, certo de que o Senhor o ama ainda mais na fraqueza, arrepende-se frutuosamente e inicia outra vez sua caminhada.

A fé no amor de Deus, "fundamento das coisas que se esperam, prova das coisas que não se veem" (Hb 11, 1), dá liberdade às pessoas para amarem umas às outras sem qualquer cobrança; pela fé, o cristão torna-se como que um presente para os irmãos. As pessoas com baixa autoestima, portanto, precisam, mais do que todas as outras, deixar-se lavar por Cristo para que, assim como São Pedro, possam irradiar a alegria do Evangelho e se tornar verdadeiros presentes. Esse acolhimento do amor de Deus pela fé é a mais eficaz e necessária das terapias.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Jesús Martí Ballester. São João da Cruz: "Noite escura" lida hoje. São Paulo: Paulus, 1993, p. 40.

Recomendação

| Categoria: Espiritualidade

À procura de paz interior? Experimente sair do Facebook!

Sacerdote revela por que decidiu abandonar o mundo do Facebook e do Twitter, e adverte: “Todos os católicos deveriam, pelo menos, começar a incluir o uso das mídias sociais em seus exames de consciência.”

Durante anos fui um viciado em mídias sociais, checando regularmente meu celular à procura de atualizações no Facebook e no Twitter (estou muito velho para Snapchat) e compartilhando minha sabedoria mundo afora. Eu gostava de ganhar "curtidas" e retweets, tanto quanto qualquer outra pessoa (talvez mais).

Sim, eu olhava com desdém para posts de gatinhos e pensava que selfies eram narcisistas e irritantes. Mas, de forma geral, nunca me perguntei sobre a importância das mídias sociais como um todo. Não de um ponto de vista católico, pelo menos. Afinal de contas, elas não são a principal forma de comunicação hoje em dia? Não é necessário, aliás, que os católicos estejam presentes nelas para poder evangelizar? Isto não poderia ser visto, enfim, como parte do meu ministério enquanto padre, como um tipo de "paróquia cibernética"?

Como quer que seja, encontrei-me recentemente com um amigo seminarista que decidiu há uns dois anos parar de usar o Facebook. Ele confessou que sua vida, sobretudo como católico, melhorou muito desde então. E desafiou-me a seguir o seu exemplo.

Minha reação imediata foi fechar-me na defensiva, à semelhança de um viciado em jogos cuja esposa lhe pede que tente parar de apostar por um tempo. E o que me surpreendeu foi justamente essa reação interna. Afinal, por que a simples ideia de abandonar as redes sociais pareceu-me tão amedrontadora? Será que eu estava tão viciado assim em "curtidas" e retweets?

Enquanto eu pensava em excluir minhas contas de Facebook e de Twitter, as pessoas com quem conversei a respeito levantaram-me inúmeras objeções; dentre elas, apenas duas pareciam ter algum peso. As redes sociais, em primeiro lugar, são plataformas de comunicação, e é por isso que a Igreja não deve estar fora do Facebook e do Twitter, assim como São Paulo não fugiu do Areópago. Em segundo lugar, elas constituem um meio de manter contato com pessoas a que eu não teria acesso de outra forma.

Estes dois argumentos fizeram-me hesitar por um instante. Foi então que me perguntei pelo número de pessoas que verdadeiramente se convertem por causa de um tweet. Suspeito que não sejam muitas. Na verdade, é possível que mais gente se afaste da fé por causa das "guerras" intestinas travadas entre católicos on-line. As mídias sociais não são favoráveis a meio-termos e à moderação; antes, pelo contrário, tendem a acentuar o lado menos agradável da comunicação, e são os comentários mais escandalosos que costumam ganhar maior número de "curtidas".

Quem usa mídias sociais está constantemente exposto à tentação, como os jornalistas, a dar demasiada atenção ao que é escandaloso e polêmico, e isto vai na contramão do que São Paulo disse aos filipenses: "Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos" (Fl 4, 8).

Quanto à segunda objeção, é preciso lembrar que é natural perder contato com as pessoas ao mudarem as circunstâncias que nos unem a elas. Seria inútil tentar congelar, numa espécie de "câmara criogênica" para amigos de Facebook, todo e qualquer relacionamento. De fato, um amigo de Facebook anunciou há poucas semanas que estava de volta à plataforma, e eu sequer havia notado que ele tinha deixado de usá-la. Isso diz tudo.

Quanto a mim, a razão básica que me levou a sair do mundo do Facebook e do Twitter foi a necessidade, frequentemente sublinhada por Bento XVI, do recolhimento interior. As mídias sociais costumam fazer-nos boiar na superfície, num comprometimento leviano com o mundo. Elas favorecem a escravidão ao momentâneo, à moda passageira, às controvérsias atuais. Elas militam contra a centralidade da Palavra, levando-nos a dar uma excêntrica atenção às puras palavras, como um balbuciar de Babel.

Como Bento XVI observou em 2005: "Deixemo-nos 'contagiar' pelo silêncio de São José! Temos tanta necessidade disso, num mundo muitas vezes demasiado ruidoso, que não favorece o recolhimento, nem a escuta da voz de Deus [...]. Cultivemos o recolhimento interior, para acolher e conservar Jesus em nossa vida."

Ora, o Facebook e o Twitter nunca me ajudaram a cultivar esse tipo de recolhimento, nunca me tornaram capaz de enraizar-me nas profundezas da presença de Deus em mim mesmo. Por isso, eles deviam sair de minha vida. Talvez nem todos passem por isso, mas creio que todos os católicos deveriam, pelo menos, começar a incluir o uso das mídias sociais em seus exames de consciência.

Excluí minhas contas de Facebook e de Twitter numa Sexta-feira Santa, e duvido que que meus "amigos" e "seguidores" se sintam abandonados ou, privados agora de meus posts e tweets, invadidos por uma sensação de abandono. A verdade é que a maior parte deles nem mesmo vai notar a minha ausência. (Nem mesmo quando eu morrer — mas isto fica para outro dia, assim espero.)

Se estou com saudades das mídias sociais? Bem, estou escrevendo este artigo durante uma pequena pausa depois da Páscoa em Whitby e preciso ser honesto: queria muito tirar uma foto da Abadia da cidade e postá-la para que todos se alegrassem comigo por encontrar-me num lugar tão bonito, enquanto os outros estão sentados em seus escritórios. Mas não havia maneira. Por fim, não tirei foto alguma e fiquei a apreciar a vista.

Por Pe. David Palmer | Fonte: Catholic Herald | Tradução e adaptação: Equipe CNP

| Categoria: Espiritualidade

Aprenda a rezar a Coroa do Preciosíssimo Sangue de Cristo

Nesta devoção, acompanhamos Nosso Senhor da circuncisão até a Cruz, meditando sobre cada uma das sete principais efusões de seu Preciosíssimo Sangue.

Esta devoção consiste em sete mistérios, durante os quais se medita sobre as sete principais efusões do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É possível acrescentar livremente, ao fim de cada mistério, Pai-nossos, Ave-Marias e outras jaculatórias piedosas ( como as que constam na Ladainha do Preciosíssimo Sangue). Assim como na recitação do Santo Rosário, porém, só o que não se deve perder de vista é a contemplação das verdades eternas contidas em cada mistério. Através desse conhecimento, somos chamados a aumentar o nosso amor ao Sangue bendito que nos conquistou a salvação.

A versão da Coroa que tornamos disponível abaixo foi retirada, ipsis litteris, de um pequeno devocionário publicado pela editora Canção Nova, cuja aquisição recomendamos a todos.

— Iniciar rezando um Creio, um Pai-nosso, e um Glória.

1. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na circuncisão.
Bendito e adorado para sempre seja Jesus, que nos salvou com seu Preciosíssimo Sangue. Bendito e exaltado seja o Sangue de Jesus, agora e sempre e por toda a eternidade (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

2. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na agonia no Horto das Oliveiras (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

3. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na flagelação (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

4. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou na coroação de espinhos (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

5. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou no caminho do Calvário (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

6. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou pregado à cruz (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

7. Pai de misericórdia, eu vos ofereço os méritos do Preciosíssimo Sangue que Jesus, vosso amadíssimo Filho e nosso Redentor, derramou da ferida de seu lado (repetir 7 vezes).
Glória ao Pai…

Ao final, rezar uma Salve Rainha.

Do "Devocionário ao Preciosíssimo Sangue de Jesus",
Ed. Canção Nova, São Paulo, 2007, pp. 56-58.

| Categoria: Espiritualidade

Podemos adorar o Preciosíssimo Sangue de Cristo?

É correto adorar o Sangue de Cristo? Em que se baseiam os católicos para honrar algo tão “estranho”, ao menos à mentalidade atual, como o sangue de um homem?

Podemos adorar o Preciosíssimo Sangue de Cristo?

A pergunta pode parecer ociosa a quem tenha fé católica, mas oferece-nos, em todo o caso, a oportunidade de esclarecer alguns mal-entendidos que hoje circulam, mesmo entre os fiéis, a respeito desta e de outras práticas devocionais tão caras ao povo cristão. A pergunta adquire ainda maior interesse se abordada neste mês de julho, em que a Igreja procura estimular no coração de seus filhos o culto ao Sangue do Redentor, cuja propagação experimentou fortes incrementos a partir da primeira metade do século XVIII. Para responder-lhe na ordem adequada e, desse modo, acordar em nosso ânimo a honra e estima em que devemos ter o culto ao caríssimo preço da nossa Redenção, convém repassar em primeiro lugar o que a fé católica nos ensina sobre a adoração devida a Cristo [1].

1.º) É ponto pacífico que devem adorar-se com a mesma adoração tanto a humanidade quanto a divindade de Nosso Senhor. Trata-se de uma verdade revelada e definida pela autoridade da Igreja em mais de uma ocasião [2].

A razão teológica que a corrobora é bastante clara. De fato, a honra em que consiste a adoração é dirigida própria e primariamente à totalidade da pessoa, e não a seus pés e mãos, por exemplo, a não ser na medida em que por tais membros ela é honrada como um todo. Ora, em Cristo há uma única pessoa, na qual se encontram unidas duas naturezas. Portanto, a ele deve tributar-se uma só adoração. Mas como a pessoa do Verbo encarnado subsiste em duas naturezas, inseparáveis e indivisas, a causa desta única adoração é dupla: de um lado, a divindade tem de ser adorada em si e por si mesma; a humanidade, de outro, por encontrar-se hipostaticamente unida ao Verbo divino. Eis porque decretou o II Concílio de Constantinopla:

Se alguém diz que Cristo é adorado em duas naturezas, introduzindo com isto duas adorações […], sem venerar com única adoração o Deus Verbo encarnado junto com a sua carne, como a Igreja de Deus recebeu por tradição desde o início: seja anátema. [3]

2.º) Disto se segue que a humanidade de Cristo pode e deve ser adorada com adoração de latria, consistente num ato da virtude da religião pelo qual manifestamos a Deus, em sinal de submissão, a honra e a reverência que ele merece em razão de sua infinita excelência como Senhor e Criador de todas as coisas.

A razão disso, como dissemos acima, é que a honra da adoração se dirige à pessoa como um todo. Ora, visto que a pessoa a que está unida a humanidade de Cristo é divina, também a essa humanidade se deve a mesma adoração com que é honrado o Verbo que a assumiu. Nesse sentido, "adorar a carne de Cristo nada mais é do que adorar o Verbo de Deus encarnado" [4]. Há que ter em mente, contudo, que este culto latrêutico é prestado à humanidade do Senhor em razão, não de si mesma, mas da divindade a que ela está unida. É por isso que diz São João Damasceno: "Tendo-se encarnado o Deus Verbo, adora-se a carne de Cristo, não por si mesma, mas por ter-se unido a ela segundo a hipóstase o Verbo de Deus" [5].

3.º) Nada disso impede — antes, pelo contrário, autoriza-o — que prestemos o mesmo culto de adoração com que honramos a pessoa do Filho de Deus encarnado tanto às suas imagens quanto às partes de sua nobilíssima natureza humana. Não porque esse culto nelas se encerre e termine, mas porque por meio delas se dirige e chega à própria pessoa do Verbo: nas imagens, tendendo ao objeto por elas representado; nas partes do corpo do Senhor, adorando ao Deus que delas se serviu para nos redimir.

É por esse motivo que a Igreja sempre teve em alta conta a devoção ao Sacratíssimo Coração de Jesus, que, por "estar unido hipostaticamente à pessoa do Verbo de Deus" e ser "o índice natural […] da sua imensa caridade para com o gênero humano", merece que lhe seja tributado o culto de adoração a que têm direito todos os "membros adoráveis do corpo" de Nosso Senhor [6].

Fica assim patente que, do mesmo modo que a partir "do elemento corpóreo que é o Coração de Jesus Cristo e do seu natural simbolismo" [7] é legítimo adorar a excelentíssima caridade do Filho de Deus feito homem, assim também é verdadeiro, santo, oportuno e piedoso o costume tantas vezes secular de oferecer as devidas homenagens de adoração ao Preciosíssimo Sangue que o Verbo encarnado foi impelido a derramar por amor a nós, "desde o oitavo dia do seu nascimento, e depois, com superabundância, na agonia do horto (cf. Lc 22, 43), na flagelação e na coroação de espinhos, na subida ao Calvário e na crucifixão, e, enfim, da ampla ferida do seu lado" [8], da qual nasceu a Igreja e manaram os sacramentos da Nova Aliança. Porque se o objeto deste culto é, efetivamente, o Sangue físico e material do Salvador, enquanto inseparavelmente unido à divina pessoa do Filho encarnado e preço sensível do nosso resgate, o seu motivo não é senão a infinita dignidade do Verbo divino a que este Sangue se encontra unido segundo a hipóstase, além do valor inestimável de sua vida, entregue em holocausto de amor para reparar a justiça divina, ultrajada pelo pecado, e resgatar da sujeição à morte eterna todos quantos haviam de deixar-se alvejar pela Seiva adorável sem a qual não pode haver Redenção.

Que ao longo deste mês de julho possamos dar ouvidos à paternal advertência de São Pedro, que nos manda viver "com temor durante o tempo da vossa peregrinação. Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum" (1Pd 1, 17ss).

Deixando-nos reformar intimamente pela graça que nos foi conquistada ao preço da vida do Homem-Deus, glorifiquemos ao Senhor no nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20) e lhe tributemos todos os dias o preito de nossa devoção e gratidão, a ele que nos remiu por seu Sangue adorável e vive e reina à direita do Pai pelos séculos dos séculos. Amém.

Recomendações

Referências

  1. As explicações aqui apresentadas baseiam-se em Tomás de Aquino, S. Th. III, q. 25, aa. 1-2 e R. Garrigou-Lagrange, De Christo Salvatore. Turim: Pontificium Institutum "Angelicum", 1945, pp. 379-382.
  2. Cf., por exemplo, Concílio de Éfeso, Carta "Τοῦ σωτῆρος ἡμῶν" (= 3.ª carta de Cirilo de Alexandria a Nestório), de nov. 430, n. 8 (DH 259); Vigílio, Constituição "Inter innumeras sollicitudines", de 14. mai. 553, n. 5 (DH 420); Pio VI, Constituição "Auctorem fidei", de 28 ago. 1764, nn. 61․63 (DH 2661․2663).
  3. II Concílio de Constantinopla, 8.ª sessão, de 2 jun. 553, cân. 9 (DH 431).
  4. Tomás de Aquino, S. Th. III, q. 25, a. 2, resp. (v. também S. Th. III, q. 58, a. 3, ad 1; III Sent., d. 9, q. 1, a. 2, ql. 1․4, ad 1; Ad Galatas, c. 4, l. 4.). Trad. port. coordenada por Carlos-Josaphat P. de Oliveira. 2.ª ed., São Paulo: Loyola, 2002, p. 386.
  5. De fide. orth., 4․3 (PG 94, 1105B).
  6. Pio XII, Encíclica "Haurietis Aquas", de 15 mai. 1956, n. 12 (AAS 48 [1956] 316). Trad. port. da Poliglota Vaticana. São Paulo: Paulus, 1998 (col. "Documentos da Igreja", vol. 5), p. 749.
  7. Id., n. 58 (AAS 48 [1956] 343), p. 780.
  8. João XXIII, Carta Apostólica "Inde a primis", de 30 jun. 1960, n. 10 (AAS 52 [1960] 548).