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As três conversões e o amor esponsal

A vida espiritual não é uma “linha reta”, mas uma escada ascendente, em que somos chamados a progredir continuamente no amor a Deus. Ninguém faz planos para viver de salário mínimo eternamente.

O início da vida espiritual é marcado por um sentimento de profunda gratidão para com Deus. O recém convertido medita sobre sua vida passada e percebe o quanto o Senhor o amou, mesmo não sendo ele merecedor de tamanha graça, dada a quantidade de misérias nas quais costumava chafurdar. Esta relação é a do servo com o Senhor. Trata-se de um amor inicial, por meio do qual a pessoa abandona aqueles pecados mais grosseiros, à procura de uma vida mais em conformidade com os mandamentos da Lei Divina.

O processo de conversão segue para a segunda fase. Muitos autores espirituais escreveram sobre esse período de transição, cuja meta é a amizade com Deus [1]. A pessoa passa por um período de aridez — ou noite escura dos sentidos, como dizia São João da Cruz —, que nada mais é do que uma purificação do amor, a fim de que ela vença o egocentrismo e as próprias paixões. Há o convite a um relacionamento mais íntimo com Jesus, o qual deseja chamar-nos "amigos".

A segunda conversão é o tempo da generosidade: Deus nos dá a oportunidade de subir a escada da salvação, atrás do verdadeiro motivo para nossa existência, isto é, a coroa do céu. Quando Padre Paulo Ricardo iniciou a campanha #ProjetoSegundaMorada, ele pensava justamente na necessidade de progredirmos no amor a Deus, por meio de uma entrega mais determinada à Sua vontade. Ninguém faz planos para viver de salário mínimo eternamente. Neste sentido, também o amor a Deus não pode se resumir a algumas formalidades. De fato, mostramos nosso amor quando agimos por gratuidade, não por causa de uma dívida a ser paga. É na segunda conversão, portanto, que se inicia o grande combate contra os pecados veniais e contra aquelas imperfeições que danificam nossa fraternidade com a Pessoa de Cristo.

Notem: há uma enorme diferença entre a dedicação do empregado ao patrão e a dedicação do amigo ao outro. Enquanto o primeiro age por interesse, ainda que seja legítimo e justo, o segundo faz o bem pelo amado, mesmo que este não possa retribuir. Deus não quer nosso amor simplesmente porque Ele nos consola com Sua graça e providência; temos de nos converter ao ponto de chegarmos à conclusão de que valeria a pena viver para Cristo ainda que não houvesse um Céu. Isso explica o porquê de Deus permitir a chamada aridez espiritual neste período do caminho para a perfeição. Ele se esconde para que o procuremos com determinada determinação.

Os escritores espirituais falam também de uma terceira conversão. A primeira, como vimos, é identificada pelo amor de gratidão: o servo ama seu senhor. No segundo estágio, por sua vez, o servo é convidado a tornar-se amigo de seu senhor, demonstrando uma capacidade de amar independentemente dos benefícios desse amor. Já a terceira conversão consiste no amor esponsal.

Infelizmente, o contexto supersexualizado no qual vivemos gera certa confusão no entendimento deste tipo de amor, sobretudo quando se refere aos homens. Como um homem pode ter um amor esponsal por Jesus? Trata-se de uma questão aparentemente muito capciosa, mas que, na verdade, diz respeito ao mais íntimo do ser humano.

O pecado original corrompeu a alma humana, tornando-a refém do diabo. Pelo batismo, no entanto, essa infeliz condição é anulada através da graça santificante, a qual Deus infunde no coração do homem para que ele viva segundo seu organismo espiritual. Deus quer habitar dentro de nosso interior, pois, como diz Santo Agostinho, Ele é " interior intimo meo et superior summo meo — maior do que o que há de maior em mim e mais íntimo do que o que há de mais íntimo em mim" [2]. Vejam: Deus quer possuir definitivamente nossa alma, ainda que sejamos criaturas mesquinhas, facilmente seduzidas pelas paixões profanas.

É disso que se trata o amor esponsal: uma união total e incorruptível com nosso criador. No texto do Cântico do Cânticos, lemos a declaração de amor de Jesus a sua Igreja, que somos nós. Esse amor consiste numa entrega apaixonada até o sacrifício na cruz, pelo que fica clara agora a comparação do apóstolo entre o amor de marido e mulher e o amor de Jesus pela Igreja (cf. Ef 5, 25. 29. 32). Somos chamados a ocupar todos os espaços de nossas vidas com a presença de Deus; isso significa um amor exclusivo, pois não se pode servir a dois senhores: ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro (Mt 6, 24). O jovem rico cumpria os dez mandamentos, mas não correspondeu ao chamado de Jesus porque possuía muitas riquezas (cf. Mt 19, 22).

A realidade do amor esponsal ilumina outros mistérios do cristianismo como o próprio celibato dos padres e dos religiosos. Em consequência da responsabilidade de suas vocações, eles são chamados a uma continência ainda mais perfeita para que tenham a Deus como único amor de seus corações. A desistência e os escândalos que ocorrem dentro do ambiente clerical deve-se justamente à falta de vivência desse amor por Jesus e pela Igreja.

O amor esponsal está na raiz de uma vida santa. Por isso o primeiro mandamento ensina logo o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo. Quem possui esse amor sabe enxergar no outro um filho também amado pelo Senhor. Porque viviam esse amor, os santos foram os que mais fizeram bem à humanidade, procurando no semelhante Aquele que habita dentro de cada um nós, a grande descoberta de Santo Agostinho. Lembremo-nos sempre: Ele está dentro de nós, não fora!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. GARRIGOU-LAGRANGE, Reginald. As 3 vias e as três conversões. 4a. Rio de Janeiro: Editora Permanência, 2011, 104p.
  2. Santo Agostinho, Confissões, III, 6, 11.

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Milagres Eucarísticos: o que são e como começaram?

Manifestações sobrenaturais relacionadas ao sacramento da Eucaristia são tão antigas quanto a própria Igreja. E estão acontecendo até os dias de hoje.

As páginas dos Evangelhos estão repletas de milagres: multiplicações de pães, ordens sobre as forças da natureza, curas de cegos e paralíticos, ressurreições de mortos etc. Quem lê tudo isso simplesmente com os olhos da carne diz que Jesus Cristo foi um grande taumaturgo; quem se atenta para o modo como Ele operava todas essas maravilhas, no entanto, é obrigado admitir que esse homem era o próprio Deus.

Homens antes de Cristo operaram milagres, é verdade — Moisés, por exemplo, fez descer várias pragas sobre o Egito, e muitos prodígios realizados por Elias estão todos narrados no Primeiro Livro dos Reis —, mas nenhum deles fazia tais coisas por força própria. Ninguém pode fazer milagres a não ser Deus: para que alguém os opere, precisa antes ter recebido a força d'Ele. Foi assim com Moisés, foi assim com Elias e foi assim com todos os patriarcas e profetas do Velho Testamento. De Jesus, ao contrário, d'Ele próprio, "saía uma força que curava a todos" (Lc 6, 19).

Além disso, ninguém antes de Cristo jamais disse ser o Bom Pastor, o Pão do Céu ou o Filho de Deus. Em nenhum profeta do Antigo Testamento alguém lê frases como: "Antes que Abraão fosse, eu sou" (Jo 9, 58), "Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14, 6), ou ainda "Eu e o Pai somos um" (Jo 10, 30). Por isso, os milagres de Cristo atestam também a verdade da Sua pregação. "Se este ensinamento não fosse verdadeiro — ensina Santo Tomás de Aquino —, não poderia ter sido confirmado por milagres feitos pelo poder divino" [1].

Também os chamados milagres eucarísticos são todos realizados para comprovar a verdade da doutrina cristã. Trata-se, sem dúvida, de um milagre típico deste tempo em que vivemos — o tempo da Igreja, da economia sacramental —, mas seu fundamento está nas próprias palavras do Senhor: "A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida" (Jo 6, 55). Quando instituiu a Eucaristia, Cristo não queria fazer uma mera refeição, ou instaurar um memorial simbólico: Ele não disse, ao tomar o pão, "isto representa o meu corpo", mas "isto é o meu corpo"; nem sugeriu, ao tomar o vinho, que aquele líquido lembraria o Seu sangue, mas afirmou solenemente: "este é o cálice do meu sangue" (cf. Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 14-23; 1 Cor 11, 23-25).

O testamento de Cristo é forte e pode parecer até excessivo. — Crer que Ele foi concebido de uma virgem, que ressuscitou dos mortos, é até "tolerável"; mas que Se faça presente, todos os dias, num pedaço de pão? — Naturalmente, esse escândalo não foi diferente em outros tempos. Muitas vezes, pessoas dentro da própria Igreja foram tentadas a perguntar ao Senhor: "Isto é muito duro. Quem o pode suportar?" (Jo 6, 60). É por isso que Deus operou e continua a operar inúmeros milagres eucarísticos, para mostrar aos homens que Ele é fiel às suas palavras, e que o sacramento da Comunhão não é um faz de conta, mas a Sua presença viva e real, nos altares do mundo inteiro.

Os primeiros milagres eucarísticos

O primeiro relato que se tem de um milagre ligado a este sacramento se encontra em um escrito de São Cipriano de Cartago, ainda em meados do 3.º século.

Em um texto chamado De lapsis ("Dos lapsos", lit.) — sobre a readmissão, na Igreja, daqueles que negaram a Cristo na hora do martírio —, o santo relata alguns exemplos de como Deus castigou pessoas que se aproximaram indignamente da Santa Comunhão.

Depois de narrar o episódio impressionante de uma criança que, após ter comido um pouco de pão oferecido aos ídolos, começou a vomitar entrando em contato com o sangue do Senhor, ele prossegue em sua pregação:

"Uma mulher adulta e de idade avançada, que se introduziu secretamente em nosso meio enquanto celebrávamos o sacrifício, tomando para si não um alimento, mas uma espada, e recebendo em sua boca e coração como que um veneno letal, começou a se sentir sufocada e a debater-se depois de ter comido e, sendo pressionada não mais pela perseguição, mas por seu delito, desmaiou palpitando e tremendo. O crime de sua consciência dissimulada não ficou oculto nem sem punição por muito tempo. Aquela que tinha enganado o homem sentiu a vingança divina.

Outra mulher, que tentou abrir com suas mãos indignas a arca de Deus, na qual estava encerrado o Santo do Senhor, foi detida por um fogo que surgia de dentro e não ousou aproximar-se.

Um outro, que, manchado de pecado, ousou tomar parte com os outros no sacrifício celebrado pelo sacerdote, não conseguiu comer e trazer nas mãos o Santo do Senhor, porque, ao abri-las, viu que carregava cinzas." [2]

Por que episódios como esses aconteceram?

Porque, no tempo de São Cipriano, alguns pastores começaram a admitir qualquer um à Comunhão, banalizando o sacramento da Eucaristia. Eles diziam que não era preciso fazer penitência pelos pecados passados e que todos, independentemente da vida que levavam, podiam aproximar-se da mesa eucarística. Por isso, para mostrar que quem come e bebe indignamente o Corpo do Senhor realmente come e bebe a própria condenação, como sempre ensinou a Igreja, desde os tempos de São Paulo (cf. 1 Cor 11, 29), Deus realizou milagres desse gênero, a fim de incentivar os fiéis ao respeito e à reverência devidos ao Santíssimo Sacramento do altar.

Conta-se um relato parecido relacionado a São João Crisóstomo († 407), bispo de Constantinopla. Um homem levou a sua esposa, que pertencia à seita do arianismo, à igreja do bispo. Mesmo em heresia, a mulher entrou na procissão e recebeu a hóstia consagrada, guardando-a nas mãos até que chegasse em casa. Quando pôs a partícula na boca para comer, ela percebeu, para a sua surpresa, que a hóstia tinha se petrificado. Impressionada com o acontecimento, a mulher correu sem demora em direção ao santo, mostrou-lhe a pedra com as marcas dos seus dentes e implorou a absolvição de seus pecados.

Acreditaste porque me viste?

Séculos mais tarde, as pessoas começaram a questionar outros aspectos da Eucaristia, principalmente o da presença real de Cristo no sacramento.

Foi então que começaram a surgir os grandes e mais conhecidos milagres eucarísticos, alguns preservados até os dias atuais: em Lanciano, no século 8.º; em Ferrara, em 1171; em Santarém, em Orvieto e em Paris, nos anos 1200; em Siena, em 1730 etc. Em alguns destes, as hóstias consagradas sangravam; em outros, elas se transformavam em carne humana, e a aparência do vinho, em sangue. Em outras ocasiões ainda, a hóstia simplesmente levitava, ou era preservada por um longo período de tempo.

Fatos semelhantes acontecem com bastante frequência no mundo inteiro, ainda hoje. Tome-se como exemplo o que aconteceu na cidade de Chirattakonam, no sul da Índia, em 5 de maio de 2001, quando uma figura de Nosso Senhor coroado de espinhos foi vista em uma hóstia exposta no ostensório. O pároco do lugar, Frei Johnson Karoor, dá o seu testemunho:

"Abri a igreja para a celebração da missa, me preparei e fui abrir o Tabernáculo para ver que coisa tinha acontecido à Eucaristia que estava no Ostensório. Imediatamente reparei que nela estava figurado um rosto humano. Fiquei muito perturbado e pedi aos fiéis que se ajoelhassem e começassem a rezar. Pensava que só eu via o rosto e perguntei ao coroinha que coisa ele via no Ostensório. Ele respondeu: 'Vejo a figura de um homem.' Notei que os fiéis olhavam fixamente o Ostensório. Começamos a adoração e a figura do homem, com o passar do tempo era cada vez mais nítida. Não tive a coragem de falar nada e comecei a chorar."

A intenção de tantos prodígios é clara: manifestar aos homens a verdade da transubstanciação; mostrar que, quando o sacerdote pronuncia, na própria pessoa de Cristo (in persona ipsius Christi), as palavras da consagração, o pão não é mais pão, e o vinho já não é vinho, mas o corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor. Os olhos de quem presencia ou lê um milagre eucarístico devem dirigir-se, portanto, a cada celebração da Santa Missa: a partir de tantos fatos extraordinários, somos chamados a enxergar, com os olhos da fé, a ação maravilhosa de Deus na celebração "ordinária" do sacramento.

No mais famoso milagre eucarístico já testemunhado pela Igreja, em Lanciano, a carne e o sangue vivos de Cristo apareceram nas mãos de um monge que duvidava. Ao chamar os fiéis para admirarem o que acabava de acontecer, ele não se envergonhou em dizer que "o Santo Deus quis desvendar-se e tornar-se vísivel" a fim de "confundir a minha incredulidade". Uma vez curado desse mal, porém, o monge deveria renovar e fazer crescer todos os dias a sua fé. Lanciano não se repetiria mais. O milagre de toda Missa, no entanto, continuaria a acontecer diariamente, e ele precisava colher os frutos desses santos mistérios.

É por isso que todas as pessoas são chamadas a ir além dos milagres. Quando ficamos impressionados com o corpo de um santo incorrupto ou com alguma hóstia preservada de um milagre eucarístico, Jesus nos repete as mesmas palavras que dirigiu certa vez a São Tomé: "Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem ter visto!" (Jo 20, 29). Felizes os que deram crédito às palavras de Cristo, mesmo sem terem visto milagre nenhum! Felizes os que ouvem as palavras do sacerdote na Missa e sabem que o próprio Deus está presente ali, porque não nos engana e nem pode enganar-Se! Felizes os que são capazes de afirmar, com o Catecismo de São Pio X, o motivo primeiro de nossa fé: "Eu acredito que no Sacramento da Eucaristia está verdadeiramente presente Jesus Cristo, porque Ele mesmo o disse, e assim no-lo ensina a Santa Igreja" [3].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Sugestões

Referências

  1. Suma Teológica, III, q. 43, a. 4.
  2. De lapsis, 26 (PL 4, 486-487).
  3. Catecismo de São Pio X, n. 596.

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Como cultivar amizades santas?

A amizade é um grande dom para o ser humano, mas se não for vivida pelo motivo correto, pode transformar-se em um vício perigoso para a caminhada espiritual. Aprenda a cultivar verdadeiras amizades com dois santos da Igreja Antiga.

No caminho da santidade, os cristãos são chamados a progredir continuamente no amor a Deus. Esse progresso consiste numa espécie de segunda conversão, em que a pessoa, fortalecida pelas virtudes infusas, começa a enxergar o Senhor não mais com o olhar do servo, mas do amigo. Jesus deseja estar ligado a nós por um vínculo de amizade, como se percebe neste discurso d'Ele aos apóstolos: "Non iam servos, sed amicos – Já não vos chamo servos, mas amigos" (Jo 15, 15).

A amizade (do grego philia) é uma das quatro formas de amor. Os homens podem amar de maneira erótica, familiar, fraterna e abnegada. Embora essas quatro dimensões não existam sozinhas — ao contrário, necessitam uma das outras para que não se transformem em ídolos —, cada uma possui características próprias, as quais colaboram para o desenvolvimento de alianças duradouras e íntimas. A amizade, ou caridade fraterna, distingue-se pelo amor ao outro, cujo efeito ultrapassa as barreiras sanguíneas. Aquele que poderia ser chamado de estranho é amado fraternalmente, isto é, como se fosse um irmão.

Santa Teresa d'Ávila elenca a caridade fraterna, ao lado da pobreza e da humildade, como uma das três colunas fundamentais do edifício espiritual. Não é difícil de entender agora o porquê deste ensinamento. Precisamos da amizade para que tenhamos intimidade com Deus, pois quem se relaciona com Ele apenas como servo não é capaz de perscrutar o Seu desejo mais profundo para os homens. O servo nunca se aproxima intimamente de seu senhor, ao passo que o amigo quer estar sempre na sua presença, a fim de dividir suas alegrias e preocupações.

Os santos souberam cultivar o dom da amizade em suas vidas, buscando a presença de Deus no coração de seus irmãos. E isso os motivou ainda mais a buscar a santidade. Bento XVI explica: "Quando se encontram duas almas puras e inflamadas pelo mesmo amor a Deus, elas haurem da amizade recíproca um estímulo extremamente forte para percorrer o caminho da perfeição" [1]. É o que testemunhamos na vida de São Francisco de Assis e Santa Clara, Santa Teresa d'Ávila e São João da Cruz, e tantos outros santos. Eles se amaram de maneira tão bela que se tornaram realmente um só espírito — para usar uma expressão de São Francisco de Sales [2] —, pelo que confirmaram a doutrina de Santo Tomás de Aquino: "A caridade é principalmente a amizade do homem com Deus, e com os seres que Lhe pertencem" [3].

É claro que nem todo tipo de amizade vem de Deus. Infelizmente, o pecado original deixou marcas profundas no ser humano e mesmo um dom nobre como a amizade pode degenerar-se em vício perigosíssimo para alma, se não for purificado pela ação divina. E não estamos falando aqui das más companhias. Estas, como insiste Santa Teresa, nem devem ser mencionadas entre nós. Falamos daquelas grandes amizades que, apesar de serem frutíferas no início, confundem-se com apego afetivo, e se convertem em verdadeiros obstáculos na caminhada espiritual, quando não vividas pelo motivo correto. As duas almas tornam-se dependentes, em um vínculo de senhor e escravo. Não demora muito para que a amizade se transforme em rivalidade.

A reta prudência exige, portanto, que façamos uma sadia distinção entre o amor meramente humano e o amor sobrenatural, a fim de que a amizade verdadeira habite em nossos corações. Santa Teresa faz essa distinção pela observação de como reagem aqueles que amam humanamente e aqueles que amam com amor divino diante do sofrimento de um amigo. Os primeiros, constata a santa, perdem logo a paciência: "Se lhe dói a cabeça [à pessoa amada], parece que nos dói a alma" [4]. Os segundos, por sua vez, veem as provações dos amigos através dos olhos da eternidade, entendendo que cada "tribulação momentânea acarreta para nós um volume incomensurável e eterno de glória" (2 Cor 4, 17).

Eis aí. Os verdadeiros amigos preocupam-se, em primeiro lugar, com a salvação das almas. Eles desejam encontrar-nos no Céu juntamente com Deus, a Virgem Maria, os santos e os anjos. É neste tipo de amizade sobrenatural que tem espaço a chamada correção fraterna. Trata-se de uma preocupação que tem por objeto não somente o bem-estar físico e emocional da pessoa; o amigo preocupa-se sobretudo com a vida da graça, exortando e empurrando seus companheiros de caminhada para a jornada da vida eterna.

Ademais, é preciso ter consciência de que tal tipo de amizade só é possível dentro de um contexto de fé madura, pois aquele que procura amar sobrenaturalmente deve estar preparado para o desprezo e as incompreensões. É possível que aquele que ama não seja correspondido pelo amado. Por isso, exige-se do amante que procure cultivar as amizades pelo motivo certo, de maneira que essa amizade seja alimentada pelo amor abnegado (do grego ágape), o qual provém totalmente de Deus. Aquele que se sabe amado por Deus não teme ser ignorado pelos outros; ama-se a Deus no próximo ainda que não haja o retorno deste, pois já se possui o Amor verdadeiro.

A Igreja celebra no dia 2 de janeiro a memória litúrgica de dois grandes santos, cujo testemunho de amizade e cooperação recíproca causou grande impacto na história do cristianismo: São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno. Unidos pela fé, pela esperança e pela caridade, os chamados padres capadócios — dentre os quais também se inclui São Gregório de Nissa, irmão de São Basílio — venceram a praga do arianismo, fazendo triunfar a doutrina católica no Concílio de Constantinopla. A São Basílio e São Gregório só interessava uma coisa: a conquista da coroa do Céu. Nesta árdua missão, dizia São Gregório sobre o amigo, "ambos lutávamos, não para ver quem tirava o primeiro lugar, mas para cedê-lo ao outro. Cada um considerava como própria a glória do outro", pois eles eram "como uma só alma em dois corpos". São particularmente tocantes estas palavras do santo de Nazianzo:

"A única tarefa e objetivo de ambos era alcançar a virtude e viver para as esperanças futuras, de tal forma que, mesmo antes de partirmos desta vida, tivéssemos emigrado dela. Nesta perspectiva, organizamos toda a nossa vida e maneira de agir. Deixamo-nos conduzir pelos mandamentos divinos estimulando-nos mutuamente à prática da virtude. E, se não parecer presunção minha dizê-lo, éramos um para o outro a regra e o modelo para discernir o certo e o errado" [5].

É este o tipo de amizade à qual estamos, todos nós, chamados a cultivar em nossas relações com os demais. Uma amizade enraizada em Cristo, para cuja Pessoa caminhamos na certeza de que a única felicidade encontra-se na vida eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Audiência Geral (15 de setembro de 2010).
  2. Introdução à vida devota, III, 19.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1.
  4. Caminho de Perfeição, VII, 2.
  5. Oratio 43, in laudem Basilii Magni, 15, 16-17. 19-21 (PG 36, 514-523).

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Pior cego é aquele que não quer ver

Jesus Cristo veio para trazer-nos a luz da vida, mas, de nossa parte, também é preciso querer sair da escuridão das trevas.

"Quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8, 12). Com essas palavras de Nosso Senhor se inicia a famosa obra, atribuída a Tomás de Kempis, Imitação de Cristo. Sobreditas palavras podem ser subestimadas por quem as lê. Algumas frases dos Evangelhos já foram tão escutadas por nós que acabamos não lhes dando a devida atenção. Tudo o que diz o Autor Sagrado, no entanto, é de uma profundidade que precisamos aprender a penetrar, para nosso próprio proveito espiritual.

Depois do advento da energia elétrica e de tantas revoluções tecnológicas, talvez tenhamos perdido um pouco do significado literal de "andar em trevas". Para reproduzir a experiência, talvez seja necessário ir para uma chácara, onde não existem postes de iluminação, e fixar o olhar em direção ao breu que cobre o matagal. Quem viaja à noite de avião também consegue ter alguma ideia do que seja "andar em trevas", se olha pela janela e percebe quantas regiões mais distantes das cidades estão simplesmente "apagadas". É por essa e por outras que as pessoas que moram na zona rural tendem a ir para a cama mais cedo. Apagadas as luzes do astro solar e adensadas as trevas ao redor, nada mais natural que fechar os olhos e dormir. (Muito embora, se você mora em um sítio e está lendo esse texto, certamente está sendo iluminado pela tela do seu celular ou do seu computador.)

A experiência da luz e das trevas exteriores, no entanto, são apenas um recurso de que Nosso Senhor se serve para iluminar as mentes e os corações dos homens. Que estejamos sob as luzes da cidade ou sob o breu de uma fazenda, pouco importa, contanto que tenhamos "a luz da vida".

Para apreciar com o devido cuidado o que seja a "luz da vida", é preciso entender o que significa para a alma humana o seu contrário — as trevas da morte. O autor da Imitação, ainda comentando o versículo do Evangelho de São João, diz que, pelas palavras de Cristo, "somos admoestados à imitação de sua vida e de seus costumes, se queremos ser verdadeiramente iluminados e livres de toda cegueira de coração" [1]. Primeiro, portanto, estávamos nas trevas e na cegueira de coração, e só depois veio o Cristo para nos livrar das duas coisas. Antes o ser humano experimentou o mal da doença para que, depois, Jesus viesse lhe trazer o remédio.

Entendamos, então, o que quer dizer "ser iluminado" (illuminari) e "ser livre de toda cegueira de coração" (omni caecitate cordis liberari).

A luz está para os olhos do corpo assim como Cristo está para os olhos da alma. E que são os olhos da alma, senão a inteligência, por meio da qual conhecemos a Verdade? Santo Tomás de Aquino, ao comentar as palavras de Jesus, "A vida eterna consiste em que conheçam a Ti, único Deus verdadeiro" (Jo 17, 3), afirma que "a bem-aventurança do homem consiste no conhecimento de Deus, que é um ato do intelecto" [2]. "Ser iluminado", portanto, nada mais é do que conhecer a Deus. Assim, o primeiro mal de que veio nos livrar o Salvador foi a ignorância, razão pela qual dizia o profeta Oséias: "O meu povo se perde por falta de conhecimento" (Os 4, 6).

Há, no entanto, um mal maior do que esse, que é a "cegueira do coração". O órgão do coração sempre esteve ligado à virtude da caridade. É por esse motivo, por exemplo, que a Igreja presta culto de adoração ao Sagrado Coração de Jesus: existe nele "um símbolo e uma imagem sensível do infinito amor de Jesus Cristo que nos move a amar-nos uns aos outros" [3]. O amor, por sua vez, reside na vontade. Jesus Cristo também veio nos livrar, portanto, da malícia, e é muito fácil demonstrar por que essa cegueira é ainda pior do que as trevas da inteligência.

Tomemos o exemplo de um homem que mora na China e que nunca ouviu falar de Cristo, mas, mesmo assim, procura cumprir por obras a vontade de Deus, "conhecida por meio do ditame da consciência". O Catecismo ensina que essa pessoa pode conseguir a salvação eterna [4]. Ele é ignorante, mas pode ser salvo por sua boa vontade. Ao contrário, se uma pessoa conhece a Deus mas teima obstinadamente em viver no pecado, é fácil prever qual será o seu destino eterno. O seu conhecimento não lhe serviu de nada, porque a sua vontade é má. Aplica-se a ela aquelas (duras) palavras da Carta aos Hebreus, que diz que tais pessoas " crucificam novamente o Filho de Deus e o expõem a injúrias" (Hb 6, 6).

O Doutor Angélico sugere a mesma ideia quando fala, na Suma Teológica, sobre o pecado do ódio. Uma das objeções a que ele responde é a seguinte: parece que o infiel, que não conhece a Deus, está mais afastado d'Ele do que o crente que O odeia, porque esse pelo menos O conhece. O santo, todavia, rebate dizendo que "a própria infidelidade não é culpável senão na medida em que é voluntária" [5], ou seja, a ignorância só é culposa se uma pessoa tinha as condições de conhecer a Verdade e, mesmo assim, não o fez. Aqui, as próprias trevas da inteligência não parecem tão densas quanto as da malícia humana.

Muito pior do que a cegueira da mente, portanto, é a cegueira do coração, da pessoa que não quer conhecer a Deus, não quer correr atrás das verdades da fé, não quer cumprir os Mandamentos, não quer buscar a vida de santidade. Um comportamento desse tipo pode muito bem ser comparado a uma "depressão espiritual", porque imobiliza o doente, a ponto de fazê-lo recusar o remédio que, uma vez tomado, o levaria à cura. Para continuar na analogia da luz e das trevas, seria mais ou menos como um cego que não quer enxergar — como um Bartimeu que, ouvindo de Cristo a pergunta, "Que queres que eu te faça?" (Mc 10, 51), respondesse, dando de ombros: "Nada, eu nasci assim", ou "Nada, eu sou assim mesmo e quero continuar do jeito que estou".

Contra esse mal terrível — que alguns chamam de "síndrome da Gabriela" — só existe um remédio: querer! Como é Deus mesmo quem inspira em nós o querer e o fazer (cf. Fl 2, 13), peçamos a Ele a graça de querer conhecê-Lo, querer buscá-Lo, querer mudar de vida, querer amá-Lo! Nada pode ser tão trágico quanto um cego que não quer ver.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Sugestão

Referências

  1. Imitação de Cristo, I, 1, 1.
  2. Suma Teológica, I-II, q. 3, a. 4.
  3. Papa Leão XIII, Carta Encíclica Annum Sacrum (25 de maio de 1899), n. 8.
  4. Catecismo da Igreja Católica, n. 847.
  5. Suma Teológica, II-II, q. 34, a. 2, ad 2.

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O que fazer para evitar o purgatório?

Seguindo os passos dos santos, Madre Angélica ensina a importância do “momento presente” para progredir na vida de santidade.

Certa vez, durante um dos muitos programas que apresentou em vida, perguntaram a Madre Angélica — a fundadora do grupo EWTN que morreu no último domingo — o que era necessário fazer para ir direto para o Céu, sem passar pelo purgatório. No vídeo acima, você pode conferir o que ela respondeu.

Segundo Madre Angélica, o segredo para "pular" o purgatório estava em fazer a vontade de Deus no momento presente. A biografia da religiosa, escrita pelo jornalista norte-americano Raymond Arroyo, mostra a "santa obsessão" que essa mulher tinha com o momento presente. Sem chorar pelo passado nem inquietar-se com o futuro, Madre Angélica se lançava com toda determinação aos projetos que Deus colocava diante de si, mesmo que não conseguisse enxergar o destino ao qual ela era levada. "Nós damos o nosso melhor para usar os talentos que possuímos e deixamos os resultados para Deus", ela dizia. "Ficamos em paz sabendo que Ele se compraz com os nossos esforços e que a Sua providência cuidará dos frutos desses esforços."

O raciocínio dessa religiosa não é nada simplório. Ao contrário, encontra-se em pleno acordo com o ensinamento dos santos da Igreja. Para mostrar essa continuidade de pensamento, vamos recorrer a dois santos dos tempos modernos: Santa Teresinha do Menino Jesus e São Josemaría Escrivá.

Comecemos pela carmelita de Lisieux. Há uma poesia de sua autoria, chamada Meu Canto de Hoje, em que Santa Teresinha lembra que só tem "o momento presente" para amar a Deus e cumprir a Sua vontade:

"Minha vida é um instante, um rápido segundo,
Um dia só que passa e amanhã estará ausente;
Só tenho, para amar-Te, ó meu Deus, neste mundo,
O momento presente!..."
[...]
"Se penso no amanhã, temo ser inconstante,
Vejo nascer em meu coração a tristeza e o enfado.
Eu quero, Deus meu, o sofrimento, a prova torturante
Agora, no presente!" [1]

Para entender com profundidade o que Santa Teresinha quer dizer, vale a pena assistir ao vídeo Como progredir na caridade?, do nosso programa "Direção Espiritual". Nele, Padre Paulo explica que o hoje é o único momento com consistência ontológica — o ontem já se foi, o amanhã é incerto —, pelo que devemos amar a Deus no agora, sem preocupar-nos com o que passou ou com o que virá. Trata-se da base para a constante lembrança da morte que a Igreja recomenda aos seus filhos. "Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris — Lembra-te, ó homem, que és pó, e ao pó hás de voltar". Não há nada tão certo quanto a morte e, ao mesmo tempo, nada tão incerto quanto o momento em que ela nos apanhará. Devemos estar sempre preparados e vigilantes.

Ensina também o fundador do Opus Dei, São Josemaría Escrivá, em vários pontos de seus livros:

"A santidade 'grande' está em cumprir os 'deveres pequenos' de cada instante." ( Caminho, 817)

"Esforça-te por corresponder, em cada instante, ao que Deus te pede: deves ter vontade de amá-Lo com obras. - Com obras pequenas, mas sem deixar nem uma." ( Forja, 82)

"Não sejas comodista! Não esperes pelo Ano Novo para tomar resoluções: todos os dias são bons para as decisões boas. 'Hodie, nunc!' - Hoje, agora! Costumam ser uns pobres derrotistas aqueles que esperam pelo Ano Novo para começar, porque, além disso, depois... não começam!" ( Forja, 163)

"A nossa vida - a dos cristãos - deve ser tão vulgar como isto: procurar fazer bem, todos os dias, as mesmas coisas que temos obrigação de viver; realizar no mundo a nossa missão divina, cumprindo o pequeno dever de cada instante." ( Forja, 616)

"'Nunc coepi!' - agora começo! É o grito da alma apaixonada que, em cada instante, quer tenha sido fiel, quer lhe tenha faltado generosidade, renova o seu desejo de servir - de amar! - o nosso Deus com uma lealdade sem brechas." ( Sulco, 161)

"O Senhor tem o direito - e cada um de nós a obrigação - de que O glorifiquemos "em todos os instantes". Portanto, se desperdiçamos o tempo, roubamos glória a Deus." ( Sulco, 508)

"O verdadeiro cristão está sempre disposto a comparecer diante de Deus. Porque, em cada instante - se luta por viver como homem de Cristo -, encontra-se preparado para cumprir o seu dever." ( Sulco, 875)

Ainda mais numerosas são as referências do "santo do quotidiano" à vocação universal à santidade — ser santos no meio do mundo! —, coisa em que a própria Madre Angélica insistia em seus programas na TV. As frases acima, no entanto, são material suficiente para meditação por toda a vida e, principalmente, para o nosso exame diário de consciência.

No fundo, o caminho da perfeição continua sempre o mesmo. Embora a perda de tempo e o vício da curiosidade tenham sido popularizados pelas redes sociais — como o Facebook, o WhatsApp e o Snapchat —, é preciso resistir, não simplesmente como quem jejua durante a Quaresma, mas como alguém que busca verdadeiramente a santidade. Quando nos custar, lembremo-nos de São Josemaría Escrivá — desperdiçar o tempo é roubar glória a Deus! — e comecemos a valorizar a vontade divina não amanhã ou na semana que vem, mas no momento presente, que é o único instante que temos para amá-Lo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Poesias, V, 1.4. In: Obras Completas. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001, pp. 688-689.

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Muito mais do que um memorial

Na Santa Missa, nós não só assistimos a um memorial, mas somos elevados à participação na natureza divina. Não só choramos a morte de Cristo, mas recebemos os frutos de Seu sacrifício de amor em nossa própria vida.

Quem quer que se detenha a contemplar por alguns minutos uma imagem do Senhor Morto — aquela tradicionalmente levada em procissão na noite da Sexta-feira Santa — não pode deixar de trazer à mente a imagem de um funeral. Quando sentimos saudades de alguém que já passou desta para a outra vida, é o seu corpo que vamos visitar no cemitério, como se os restos mortais de quem amamos pudessem, de alguma forma, trazer novamente a presença de quem se foi.

Durante "o grande silêncio" que pairava sobre a Terra naquela fatídica tarde do primeiro Sábado Santo, a religião cristã parecia fadada a um desfecho mais ou menos parecido: com Jesus morto, não restaria nada aos Seus seguidores, senão o luto — as lágrimas pela morte de mais um profeta e por promessas ainda em vista de se cumprirem — e o "amargo consolo" de possuir um cadáver trancado num sepulcro. Os eventos que se seguiram, no entanto, fugiam completamente de quaisquer roteiros humanos. Aquele corpo que mal acabara de ser descido da Cruz, frio, pálido, coberto pelas mais ignominiosas chagas, milagrosamente ressuscitou dos mortos; apareceu várias vezes aos discípulos de Cristo, vivo, resplandecente, glorioso; ascendeu prodigiosamente aos céus, à vista deles; e, por fim, se foi.

A um olhar desatento, essa privação poderia parecer um mal. Sim, o túmulo é uma lembrança "amarga", mas é melhor do que nada. Não é coisa muito dura que Cristo tenha subido aos céus e privado os Seus amigos de Sua presença física? Não seria melhor que ficasse em nosso meio para sempre?

A resposta para essas perguntas precisa ser medida de acordo com outros dados da Revelação. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, diz que, "embora os fiéis, pela ascensão, tenham sido privados da presença corporal de Cristo, sua presença divina é constante entre os fiéis" [1]. Ele mesmo tinha prometido ficar conosco "todos os dias, até a consumação dos tempos" (Mt 28, 20). O que acontece é que muitas vezes nos esquecemos do modo admirável como Cristo permanece em nosso meio. Antes mesmo de morrer, Ele deixou aos que O amam um memorial que é, ao mesmo tempo, Sua presença viva e real. O seu nome é Eucaristia.

Em toda Santa Missa, pelas palavras da consagração — que repetem as que Jesus pronunciou na Última Ceia —, Ele mesmo desce de novo dos céus, escondendo-se sob as aparências do pão e do vinho, para a adoração e o alimento dos fiéis. Ninguém precisa esperar a Sexta-feira Santa para relembrar o sacrifício de Cristo — nem mesmo de uma escultura do corpo do Senhor. Ele está em toda Santa Missa, deitado sobre o altar; Ele está em todo tabernáculo, acessível a quem O quiser adorar.

Essa é uma realidade extraordinária, que deveria fazer arder o nosso coração, mas — como tudo o que é sagrado e grandioso — também corre o risco de ser obscurecida ou até mesmo impiedosamente negada.

É o que acontece quando as pessoas responsáveis pela liturgia, ignorando o devido valor que tem a Santa Missa, pretendem inovar e apresentar "alguma coisa diferente" à comunidade. Num domingo, é um teatro para encenar uma passagem do Evangelho; noutro, uma dança para levar a Bíblia ou as oferendas; noutro, uma campanha de conscientização política sobre o que quer que seja. Enquanto isso, o Senhor dos senhores, o Rei dos reis, o "Assunto dos assuntos", está esquecido na mesa do altar, como se fosse apenas mais um, e não o próprio centro da celebração. É como se fôssemos a um funeral e nos esquecêssemos qual a verdadeira finalidade do que está acontecendo: fazer memória.

Alguém poderá dizer que a Missa não é um funeral. É verdade, não é, mas se trata do memorial da morte do Senhor e da atualização do Seu sacrifício no Calvário, de modo que, diz o Santo Padre Pio de Pietrelcina, é preciso assistir a ela como São João e a Virgem Maria assistiram ao sacrifício da Cruz. Existe, é certo, uma radiante alegria na alma do cristão que vai à Missa, principalmente por saber que Cristo está vivo e ressuscitado. Ao mesmo tempo, porém, ele sabe que isso não lhe dá licença para banalizar. Jesus está em nosso meio verdadeiramente, mas continua sendo Deus, continua devendo ser adorado, respeitado e reverenciado. Ele está verdadeiramente ressuscitado, mas Sua morte na Cruz continua sendo o grande sinal do Seu amor por nós e o grande chamado a que O amemos de volta.

Fixe o seu olhar nesta verdade. Bem perto de você, daqui a pouco, estará sendo celebrado o Santo Sacrifício da Missa. Na pequenina capela que se esconde sob os arranha-céus das grandes cidades, quem vem? Não é nenhum astro musical, nenhuma estrela de cinema, nenhum filósofo ou intelectual, mas o próprio Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade — o Deus feito homem, maior que tudo o que existe e que há de existir.

Ele vem, vem em toda Santa Missa, para nos alimentar, fazendo-nos beber de seu costado ferido pela lança [2]. Ali, nós não só assistimos a um memorial, mas tomamos parte da própria divindade, somos elevados à participação na natureza divina (cf. 2 Pd 1, 4). Não só choramos a morte de Cristo, mas recebemos os frutos de Seu sacrifício de amor em nossa própria vida. Não existe nada maior do que isso, e só quando descobrirmos a grandeza do tesouro que ali se esconde seremos verdadeiramente felizes.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, III, q. 57, a. 1, ad 3.
  2. Cf. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São João, 85, 3 (PG 59, 463).

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Por que vale a pena assistir de novo à “Paixão” de Mel Gibson

A grandeza do filme “A Paixão de Cristo”, de 2004, dificilmente será superada, não só porque é uma produção católica, mas porque se trata de uma verdadeira obra de arte.

A festa da Páscoa ocupa o centro da identidade e da missão da Igreja e tem reflexos não só no interior de seus átrios, mas na própria sociedade que a circunda. Vários dos símbolos integrantes da cultura ocidental, como o crucifixo, possuem um profundo significado místico. Feriados de que hoje as pessoas se servem simplesmente para descansar e festejar, como o Carnaval e o próprio Corpus Christi, mudam de data todos os anos por uma razão religiosa: de meados de março até o começo de abril, os cristãos — e, no Brasil, especialmente os católicos — se preparam para lembrar o evento mais importante de suas vidas: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, no período que é conhecido como Semana Santa.

Mesmo contando com uma data específica no calendário civil e religioso, os discípulos de Cristo são chamados a "fazer memória" da Paixão de seu Mestre sempre, e a razão disso se depreende do próprio significado desse evento: foi por esse fato histórico, ocorrido em Jerusalém, no ano 33 d.C., que a humanidade inteira foi salva de seus pecados e introduzida na própria vida divina. Com a "passagem" de Cristo da morte à ressurreição, todos os homens também são chamados a morrer para o pecado e para uma vida velha, e nascer, ressurgir, para uma vida nova de graça e santidade.

É essa a mensagem universal, contida nos Evangelhos, que é retratada pelo filme de 2004, The Passion of the Christ ("A Paixão de Cristo"), de Mel Gibson, ao qual vale a pena assistir novamente nesta Semana Santa. O filme começa, de fato, com a conhecida descrição de Isaías sobre o Servo Sofredor: "Ele foi ferido por causa de nossas transgressões, esmagado por causa de nossas iniquidades; por suas feridas somos curados" (Is 53, 5). Cristo não morreu por uma causa, não Se entregou simplesmente por uma "mensagem bonita" em que acreditava. Também os que morrem por razões humanas são capazes disso. Jesus de Nazaré morreu para salvar todos os homens e cada um deles em particular. Por esse motivo, a mensagem de "A Paixão de Cristo" toca a todas as pessoas, independentemente do clã a que pertençam.

Alguém pode perguntar o porquê da menção específica à "Paixão" de Mel Gibson, quando tantas outras obras artísticas retratam a vida de Jesus — desde as várias pinturas que hoje temos a um clique na Internet, passando pelos oratórios de Johann Sebastian Bach, até os filmes mais recentes ligados ao mesmo tema, como o lançamento Risen ("Ressurreição", no Brasil), com um foco nos episódios posteriores à Ressurreição. O que traz de novo, afinal, "A Paixão de Cristo"? Por que recomendar esse filme em especial — mesmo doze anos após o seu lançamento?

As respostas para essa pergunta são várias porque a produção de Mel Gibson é extraordinária em muitos sentidos: o realismo com que se representa o sofrimento de Cristo, o cuidado na escolha das personagens e na sua caracterização, o uso do aramaico e do latim para reproduzir os diálogos originais... Há muito sobre o que falar, tanto em relação aos bastidores quanto à exibição em si. Uma característica, no entanto, merece especial atenção: a "catolicidade" do filme, manifesta principalmente na alusão ao sacramento da Eucaristia e no destaque que é dado à figura de Nossa Senhora.

Cumpre falar, antes de qualquer coisa, da experiência pessoal com a fé católica que compartilham os principais envolvidos na produção cinematográfica.

Mel Gibson, o diretor, já falou em várias entrevistas sobre a sua identidade católica — ainda que muitos escândalos tenham obscurecido a sua reputação nos últimos anos. Jim Caviezel, que interpretou Jesus Cristo, revelou que comungava todos os dias antes das gravações. "Nós somos ambos católicos romanos", diz Caviezel, referindo-se a Mel. "Ele arrumou uma missa em latim para mim. Eu também recebia todo dia a comunhão eucarística antes de filmar".

As filmagens propriamente ditas constituíam uma verdadeira batalha espiritual, como confessa o protagonista (as perguntas vão em itálico e os negritos são nossos):

Como era o processo de maquiagem?
Nos períodos piores, demorava das 2h da manhã até as 10h. Precisava ficar curvado, e eles aplicavam a pele em mim. Era torturante, começou a me enfraquecer. Era difícil de engolir a comida, sentia frio o tempo todo, desloquei o ombro, lutei contra a hipotermia, sofri uma infecção no pulmão e uma pneumonia, tinha um corte de 35 centímetros nas minhas costas, esfolados e dores por causa das correntes, dores de cabeça severas e infecções na pele — e, um dia, fui atingido por um raio.

Como aconteceu?
Nós estávamos num penhasco, nos preparando para rodar o Sermão da Montanha e fui atingido por um raio. As pessoas começaram a gritar e me contaram que eu tinha fogo nos dois lados da cabeça e uma luz em volta de mim. Foi assustador.

Quanto você esteve perto de não sobreviver?
Muito perto. Usar a coroa parece desconfortável. Era muito difícil. Tinha dores de cabeça porque os espinhos eram presos por um fio na minha cabeça, já que o vento era demais. E tinha de focar com meu olho fechado, o que me levou a terríveis dores de cabeça também.

Quais foram os efeitos em você?
Foi muito cansativo. Tinha de duas a três horas de sono por noite. Você começa a ficar louco e a entrar em pânico. Não conseguia respirar, estremecia, não tinha paciência. E tive essas dores de cabeça, que me atormentavam.

De quanta força física você precisava para ficar na cruz?
Tinha de ir à academia depois da filmagem porque ia ficar na cruz o dia todo naquela posição estranha. Precisava de força. Finalmente, quando estava na cruz, foi tão ruim que, na hora em que digo, "Senhor, por que me abandonaste?", eu realmente senti aquilo! No subtexto, estava falando: "Você obviamente não se importa se eu faço este filme ou não, quem sabe se você existe?". Mas posso dizer que, passando por tudo isso, compreendi muito profundamente que Ele existe. Eu o amo mais agora do que nunca.

Além da fé católica do diretor e do ator principal do filme, vale lembrar o milagre da "conversão de Judas", que aconteceu no decorrer das filmagens. O italiano Luca Lionello, que interpretou Judas Iscariotes, se converteu à Igreja após o filme, atribuindo à Paixão a sua mudança de vida. Ele era ateu.

É claro que nenhuma dessas características produz necessariamente um bom espetáculo — para tanto, demanda-se talento artístico, além da fé. Essas referências, todavia, põem à luz como que "a alma" do filme, que não consistiu apenas em reproduzir "a arte pela arte", mas em externar o profundo senso religioso de seus realizadores. Além da óbvia alusão ao Novo Testamento, sabe-se, por exemplo, que Gibson lançou mão de algumas mensagens de Nosso Senhor a uma beata católica — a religiosa alemã Anna Catharina Emmerich —, as quais, embora não obriguem à fé, ajudam muito na meditação dos sofrimentos do Redentor.

A "catolicidade" da trama é muito nítida, além disso, na íntima conexão que se dá entre a celebração da Última Ceia e a cena da crucificação. A associação desses dois episódios não vem da cabeça de Mel, mas da doutrina católica, que vê nos dois sacrifícios — o da Eucaristia e o da Cruz — essencialmente o mesmo sacrifício [1], pelo que, quando celebra a Santa Missa, o sacerdote renova a entrega única e definitiva de Cristo e dá a todos os que O comungam colher em suas vidas os frutos de Sua oblação. Por isso, quando comungamos, diz um santo da Igreja [2], é como se nos aproximássemos do próprio Cristo pendente na Cruz para beber do sangue que brota de Seu lado ferido pela lança.

Igualmente notável é o tratamento especial dado à Mãe do Redentor ao longo de toda a história. Alguns críticos de matriz protestante questionaram essa "obsessão" com Maria — as suas aparições seriam "exageradas" e incompatíveis com a narrativa evangélica.

Para nós, católicos, no entanto, não havia surpresa nenhuma: a mesma piedade que fez Mel Gibson mostrar a Virgem das Dores permanentemente ao lado de seu Filho, seja na Sua vida oculta, seja na Sua agonia, não só faz ecoar os Evangelhos (cf. Lc 2, 51; Jo 19, 25-27), como constitui a mesma devoção que desde sempre inspirou os cristãos a cantarem louvores à Mãe de Deus — como no famoso hino medieval Stabat Mater —, a retratarem o seu luto nas inúmeras obras a que se deu o nome de Pietà, e a meditar durante a Quaresma o belíssimo e emocionante encontro entre o Filho e a Sua Mãe na Via Crucis:

Os cristãos sempre veneraram Nossa Senhora com honras e títulos especialíssimos — vide o Concílio de Éfeso e os louvores que o próprio Lutero, fundador do protestantismo, teceu à Mãe de Deus. São os protestantes modernos que tentam "inventar a roda" e talhar um cristianismo à sua própria medida, sem nenhuma referência à Mãe de Jesus ou aos Seus amigos mais íntimos, que são os santos. Nesse sentido, a "Paixão" de Mel Gibson não é um filme mariano porque é exagerado, mas simplesmente porque é verossímil.

Dita verossimilhança salta aos olhos, por exemplo, quando se assiste ao recém-lançado Risen ("Ressurreição"), do diretor Kevin Reynolds — aparentemente, uma tentativa de dar sequência à produção de Mel Gibson, mais restrita à narrativa da Paixão. No filme deste ano, de tendência assumidamente protestante, Nossa Senhora aparece tão somente na cena da crucificação, gritando histericamente no meio de uma multidão amorfa de pessoas. O retrato pode até não configurar propriamente um insulto, mas é de um reducionismo absurdo e revoltante. Tudo bem que o foco do filme tenha sido outro período da vida de Jesus — e, quanto a isso, talvez valha a pena escrever uma resenha especial sobre o filme inteiro —, mas nada justifica um tratamento tão frio e indiferente à Mãe de Deus, quando os próprios Evangelhos ressaltam a sua presença especial aos pés da Cruz, chegando mesmo a sustentar um diálogo com seu Filho (cf. Jo 19, 25-27). Aparentemente, para ignorar a Mãe de Deus, até mutilar indevidamente as Escrituras está valendo.

De qualquer modo, não é necessário servir-se de muitas comparações para concluir que a grandeza da "Paixão" de Mel Gibson dificilmente será superada. Não porque é uma produção católica, mas porque é uma verdadeira obra de arte — e, como toda arte autêntica, põe os seus admiradores em contato com o belo. Quando o tema da obra é o Verbo encarnado, então, ela vai elevada à enésima potência — ao infinito, melhor dizendo, de onde saiu o Cristo que padece por nós no Calvário.

Nesta Semana Santa, vale a pena assistir uma vez mais a The Passion of the Christ e redescobrir o grande mistério da nossa salvação. "De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Creia firmemente nisso e deixe que essa verdade transforme a sua vida.

Por Equipe Christo Nihil Præponere

Referências

  1. Cf. Papa Pio XII, Carta Encíclica Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 59-72.
  2. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São João, 85, 3 (PG 59, 463).

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O que temia São Pedro ao negar Jesus na noite da Quinta-feira Santa?

Como explicar que o corajoso chefe dos apóstolos, que há pouco tinha ferido um homem com a espada no Horto, terminasse negando Jesus no pátio do sumo sacerdote?

"Prometeu morrer por ele, quando não era capaz nem de morrer com ele..."
(Santo Agostinho, Sermão 296, 1)

No Domingo de Ramos, e de novo na Sexta-feira Santa, nós ouvimos e participamos de uma das cenas mais infames da história cristã. Faz-se a leitura do Evangelho (dos Sinóticos no Domingo de Ramos e do Evangelho de São João, como de costume, na Sexta-feira da Paixão) da noite em que Jesus Cristo foi traído por Seus amigos, preso e condenado por autoridades tanto religiosas quanto seculares, torturado e executado como um traidor e revolucionário. Os fiéis participam no desenrolar da história, assumindo os papéis: dos soldados romanos que bateram em Jesus; do povo judeu que O acusou ante Pilatos ("Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo", "Ele agita o povo"); e — na parte mais condenatória do drama — da multidão ainda maior reunida no pretório ("Fora com ele! Solta-nos Barrabás!", "Crucifica-o! Crucifica-o!"). Essas são umas das mais difíceis palavras que temos que pronunciar em toda a liturgia católica, "mea culpa, mea maxima culpa" incluídas.

Em uma espécie de história paralela à principal, somos levados a uma narrativa secreta envolvendo Pedro. Enquanto o processo formal de Jesus acontece, Pedro é submetido a um processo informal. Não estou certo do que os estudiosos têm a dizer sobre isso, mas parece-me que essa história só podia vir à tona por uma acusação do próprio apóstolo, uma confissão que Pedro provavelmente fez aos seus irmãos e que foi obrigado a reviver mais e mais vezes pelo resto de sua vida. Pedro — a pedra! — tinha se quebrado de medo no momento de sua prova.

Mas Pedro estava com medo de quê? Obviamente, diríamos nós, ele estava com medo dos romanos, dos seus soldados, das suas espadas, das suas lanças e das suas cruzes. Estava com medo de que defender o seu amigo lhe custasse a vida. Estava com medo de que os judeus, por meio dos romanos, lhe tirassem a vida, assim como tinham conspirado para tirar a vida de seu mestre.

Mas não era este o mesmo homem que, apenas algumas horas antes, quando Jesus fora confrontado por Judas e por um bando de soldados, "puxou uma espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a ponta da orelha direita" (Jo 18, 10)? Nós geralmente pensamos que esse grupo consistia apenas de alguns homens, mas alguns comentaristas especulam que esse bando de soldados, na verdade, era um batalhão de 200 sob o seu comandante (cf. Jo 18, 12), ou talvez uma legião tão grande quanto 600. O ataque de Pedro ao servo do sumo sacerdote teria exigido dele alguma presença de espírito, para dizer o mínimo. Não acredito que muitos dos que puxaram espadas contra uma legião romana tenham sobrevivido para contar a história.

Se ele não estava com medo de entregar a sua vida, então, do que estava com medo? Por que não correu em defesa de Jesus no pátio, assim como havia feito no horto? No segundo livro de sua trilogia biográfica Jesus de Nazaré, o Papa Bento XVI provê o seguinte comentário:

"A sua vontade de passar às vias de fato, o seu heroísmo, acaba na renegação. Para assegurar-se um lugar perto da fogueira no átrio do palácio do Sumo Sacerdote e possivelmente informar-se sobre os últimos desenvolvimentos do caso de Jesus, Pedro assevera que não o conhece. O seu heroísmo descambou numa mesquinha forma de tática. Deve aprender a esperar a sua hora; tem de aprender a expectativa, a perseverança." [1]

Na perspectiva de Ratzinger, o pecado de Pedro não foi uma falta de coragem, mas um desejo de heroísmo. Ele não temia uma morte violenta per se, mas o tipo de fatalidade que estava, com cada vez mais claridade, para se abater sobre Jesus; uma fatalidade que incluiria não apenas a morte violenta, mas que seria precedida pelo escárnio público e por uma espera prolongada nas mãos de seus apreensores. Não lhe faltou a coragem para tomar iniciativa própria, mas para entregar-se ao auto-abandono e permitir que Deus agisse em seu lugar. Ele queria ser bem sucedido de modo ativo, não passivamente. Ele sabia que tinha a coragem para um momento bem determinado e escolhido de bravata, mas faltavam-lhe a confiança e a perseverança requeridas para lançar a sua sorte, houvesse o que houvesse, no momento que se lhe apresentava.

Um modo óbvio de identificar-se com Pedro e aprender de seu fracasso é refletir sobre a nossa própria tendência de negar a nossa identidade cristã quando somos confrontados com alguma oposição. Talvez no trabalho. Talvez entre os nossos amigos. Talvez quando menos esperamos ser apontados como um deles, ou onde mais somos tentados a negá-lo. Mas outra forma, talvez mais adequada, de nos identificarmos com essa história, é vê-la como uma cartografia bíblica dos desafios concretos que existem em uma vida simultaneamente física e espiritual.

Como Pedro, nós somos confrontados todos os dias com a tarefa de fazer provisões e tomar decisões prudentes para esta vida e a próxima — não simplesmente para uma ou para outra. Esse tem sido desde sempre um esforço das pessoas sensatas. A era moderna tem apresentado um novo desafio à humanidade nesse sentido, graças a um quadro filosófico único na história humana — um "quadro imanente", que James K. A. Smith descreve como "um espaço social construído que situa as nossas vidas inteiramente dentro de uma ordem natural", "o espaço circunscrito do moderno imaginário social que torna impossível a transcendência" [2].

Suspeito que nessa "era secular", mais do que nunca, muitos de nós lutamos com a tendência de Pedro: se queremos que algo seja feito, confiamos em nós mesmos para fazer as coisas naturalmente, ao invés de permitir que Deus faça algo sobrenatural que exceda as nossas capacidades. Nós, assim como Pedro, nos entusiasmamos com a ideia de um Messias, mas não com a de um Servo Sofredor. O problema inicial de Pedro nunca foi ter se omitido em um momento de desafio — ao contrário, parecia ser justamente nesses momentos que ele tomava a frente e chamava a responsabilidade para si, mesmo sem entender completamente o que lhe era pedido. Mesmo quando Jesus fê-lo vislumbrar a Sua divindade, ele quis entesourá-la, fazer uma tenda para ela (cf. Lc 9, 28-36), ainda sem entender que a glória do Senhor só seria totalmente revelada no tempo devido — isto é, na Ressurreição. Até lá, porém, ele estava preso ao "quadro imanente".

O capítulo 21 do Evangelho de São João pinta uma figura diferente de Pedro, que foi atualizada à luz da Ressurreição. Pedro tem a chance de afirmar três vezes o que antes ele tinha negado três vezes, e de reconciliar-se com o Senhor, apesar de suas fraquezas e imperfeições. É com esse pano de fundo que Jesus lhe dá uma lição final de obediência, que mudaria definitivamente a sua perspectiva: "Quando eras jovem, tu mesmo amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te amarrará pela cintura e te levará para onde não queres ir" (Jo 21, 18). Com isso, a perspectiva de Pedro foi alargada: não eram mais as suas concepções, os seus planos, as suas ações ou a sua habilidade de sucesso mundano. Ele aprendia que o seu papel na Igreja — e na sua própria salvação — deveria ser sobrenatural.

O conto apócrifo do Quo vadis toca na mesma questão. A razão natural por que Pedro fugiu de Roma não era o medo de perder a própria vida, mas o temor de que a Igreja se perdesse sem ele. Só um encontro com o Senhor Ressuscitado poderia lembrá-lo que a confiança era necessária, mais do que as conquistas temporais. Depois disso, então, ele seguiria os passos do próprio Cristo e participaria na paradoxal vitória da Cruz, a qual só faz sentido para aqueles que crêem nela. Teremos nós a coragem de fazer o mesmo?

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Præponere

Referências

  1. BENTO XVI, Papa. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a resurreição (trad. de Bruno Bastos Lins). São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 74.
  2. SMITH, James K. A. How (Not) to Be Secular: Reading Charles Taylor. Eedermans, 2014, p. 141.