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O perigo das 'grandes amizades'

O verdadeiro amigo não se importa em ser deixado de lado, nem vê o outro como propriedade, mas se importa somente com a salvação da alma do próximo.

A caridade fraterna é parte imprescindível da espiritualidade cristã. Sem ela, cairíamos com facilidade na tentação do individualismo, algo, infelizmente, tão difundido em nossa época. Tamanha é a sua importância que não poucos santos dedicaram verdadeiros tratados ao assunto. Também enxergamos isso na liturgia. Neste Tempo Pascal, por exemplo, lemos por três vezes no Evangelho o capítulo da vida de Jesus em que Ele, dirigindo-se aos apóstolos, chama-os de amigos: "Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (Jo 15, 15). A bem da verdade, uma autêntica vida espiritual é aquela que se adquire na intimidade com Cristo. Essa intimidade nos ajuda a perceber o Seu amor, a aceitá-lo em nossos corações e, mais importante, a retribuí-lo amando o próximo.

"Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos" (Jo 15, 13). Assim diz Jesus aos seus discípulos, numa das páginas mais belas do Evangelho de São João. Trata-se de um discurso sincero, que brota de um coração livre. Jesus ama de verdade. O Seu amor é benevolente e beneficente, pois não deseja outra coisa senão o bem de seus irmãos e possui verdadeira eficácia. Não pede nada em troca. Antes, entrega-se diligentemente para que o outro seja capaz de entrar no céu. O bem que Jesus nos dá é o bem da salvação eterna.

Todos são chamados a essa espécie de amizade. Um bom amigo é capaz de inspirar atitudes santas, afastando o risco dos ambientes depravados e promíscuos. "Quem o achou, descobriu um tesouro" (Eclo 6, 14). Quantos não conheceram a Igreja e seus sacramentos por meio de uma sólida amizade? Os testemunhos são numerosos. Neste sentido, seria oportuno que fizéssemos um adequado exame de consciência: temos procurado a amizade daqueles que estão afastados da Igreja, oferecendo nossa atenção e auxílio? Que tipo de exemplos oferecemos a nossos amigos? Escândalos? Comodismo? Egoísmo? O amparo de Nossa Senhora pode ser uma grande força para crescermos neste aspecto.

A amizade, quando bem orientada, também é um dos alicerces da vida contemplativa, de modo que não se pode alcançar esse grau de oração sem um prudente discernimento sobre o significado da caridade fraterna. Parece óbvio a qualquer um que almeje a santidade os perigos que existem no relacionamento com quem se dedica ao pecado. Tudo ameaça ruir se não se coloca logo um ponto final. Não que seja proibido o contato com essas pessoas. A regra cristã exige justamente o contrário. Mas para levá-las a Deus. A cumplicidade com o erro está fora de cogitação. Todavia, há outro risco nessa seara, tanto mais perigoso pois menos evidente, que pode igualmente causar sérios estragos para o progresso espiritual. É preciso afastá-lo com firmeza e determinação, ainda que custe. Falamos das grandes amizades.

É natural que, no trato com as várias pessoas de nosso ambiente, afeiçoemo-nos a umas mais que a outras. De fato, somos propensos a querer estar perto de quem comunga de nossos interesses pessoais e gostos. Isso parte sobretudo da personalidade de cada indivíduo. Notem a advertência da Sagrada Escritura: "Dá-te bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil" (Eclo 6, 6). Uma regra salutar. Há amigos para os momentos de recreação, mas não muitos para a tempestade. Prova-se uma amizade pelo fogo da tribulação.

Contudo, tais amizades, se não forem guiadas pelo espírito da oração e da ascese, podem converter-se em graves obstáculos ao crescimento no amor a Deus. Em seu Caminho de Perfeição, Santa Teresa d'Ávila faz toda uma ponderação quanto às grandes amizades, desde os aspectos mais externos — como manifestações efusivas de afetividade — aos recônditos do coração — como o medo de não ser correspondido. "Essas grandes amizades", alerta, "poucas vezes servem para se ajudarem mutuamente a crescer no amor divino". Mais grave que isso: "O demônio as estimula para introduzir partidos nas ordens", avisa a Santa.

Um olhar pouco sóbrio pode, a princípio, achar muito rígido o que diz Santa Teresa. Afinal, que poderia existir de maldade no relacionamento entre dois grandes amigos? Nada, desde que as duas partes estejam orientadas para a busca da santidade. Desde que as duas partes tenham um coração indiviso, isto é, voltado somente para Deus. Não é, porém, o que frequentemente acontece. Santa Teresa fala de "danos muito notórios à comunidade". Ela os elenca: "O sentir o agravo feito à amiga, o desejar com que presenteá-la, o buscar tempo para conversar com ela, muitas vezes mais para dizer-lhes coisas descabidas e quanto lhe quer bem, que para falar no amor de Deus".

Escravidão. Eis a palavra certa para definir tais gêneros de amizade. E não é, por acaso, assim que se sentem aqueles que são aparentemente desprezados por seus amigos mais próximos, com quem tanto gostam de estar? Não se sentem atraiçoados? Um rancor nasce em seus peitos como se tudo fosse desabar. Ora, isso é o sinal mais palpável da perniciosidade desses relacionamentos. A vontade de amar a Deus enfraquece e, aos poucos, vai se instalando uma frouxidão espiritual nociva, que pode conduzir a graves abismos. Tornamo-nos reféns de nossas paixões. Tornamo-nos escravos.

A verdadeira amizade, ensina Santa Teresa, é aquela nutrida pelas almas chamadas à perfeição: "Desejam ardentemente que o amigo tenha amor a Deus". Não há outra preocupação. Não se enxerga o amigo como propriedade. A correção fraterna, o cuidado pela conversão, a presença nos momentos de dificuldade serão todos dedicados ao crescimento da santidade. E isso feito de forma desinteressada, pois "há grande cegueira neste desejo de sermos amados". Teresa conclui: "Melhor amizade será esta que dizer toda sorte de ternuras que não se usam, nem hão de se usar nesta casa. Tais são, por exemplo: 'minha vida', 'minha alma', 'meu bem' e outras semelhantes com que se chamam ora a umas pessoas, ora a outras".

Em nossas amizades, devemos ser como que faróis, não freios, para a caminhada de nossos amigos rumo à santidade. Às vezes, acontece de sermos solicitados somente nos momentos de dificuldade, na hora das lágrimas. Quase nunca para os momentos de recreação e divertimento. Que importa? Mais vale uma amizade para as lágrimas que para as gargalhadas, pois "há amigo que só o é para a mesa, e que deixará de o ser no dia da desgraça" (Eclo 6, 10).

Peçamos a Deus, com o auxílio da Virgem Maria, o dom desta verdadeira amizade: a amizade que leva os outros para o céu!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

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O pedido esquecido de Nossa Senhora

Quase 100 anos após a aparição da Virgem em Fátima, a humanidade ainda teima em ignorar os seus apelos à conversão e à penitência.

Quando Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos de Fátima, a 13 de maio de 1917, ela fez-lhes uma pergunta: "Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser mandar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?" Na ocasião, os jovens Francisco, Jacinta e Lúcia responderam que sim, assumiram o pedido da Virgem Maria e toda a sua vida se transformou em uma verdadeira entrega a Deus, pelo resgate das almas.

Impossível não se lembrar do episódio da Anunciação, quando o Céu, de um modo nunca antes visto, dependeu da liberdade de uma única criatura para descer sobre a Terra. Às palavras do anjo, dizendo que Maria Santíssima conceberia e daria à luz o próprio Filho de Deus, ela prontamente respondeu: "Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38). Naquele momento, também ela, de modo muito singular, assumia para si a missão de "suportar todos os sofrimentos", "em ato de reparação (...) e de súplica pela conversão dos pecadores" – missão que o profeta do templo resumiria na famosa expressão: "Uma espada traspassará a tua alma" (Lc 2, 35).

É essa a missão a que se referiu o Papa Bento XVI em 2010, quando peregrinou à cidade de Fátima. "Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída" [1], disse ele na ocasião. De fato, ainda hoje, Nossa Senhora dirige a toda a humanidade o mesmo apelo que fez aos três pastorinhos na Cova da Iria. "Rezai, rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores", dizia ela. "Muitas almas vão para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas".

Às portas do centenário das aparições da Virgem em Portugal, a hora é propícia para um profundo exame de consciência. O terceiro segredo de Fátima revelou a visão de um Anjo "apontando com a mão direita para a terra" e clamando, com voz forte: "Penitência, Penitência, Penitência!" Diante desse quadro, a pergunta a ser feita é: A humanidade realmente tem se penitenciado? O que tem sido feito para atender aos pedidos de Nossa Senhora?

É preciso bater no peito e reconhecer o quão pouco foi feito pelo homem moderno para corresponder aos apelos da Mãe de Deus.

Primeiro, por parte daquelas pessoas que, mesmo se assumindo "católicas", não só rejeitaram o conteúdo de Fátima – que, por ser uma revelação particular, não obriga ao assentimento nenhum fiel católico [2] –, mas abandonaram totalmente as próprias verdades da fé. Também em Fátima, Bento XVI chamou a atenção para o fato de que "muitos dos nossos irmãos vivem como se não houvesse um Além, sem se importar com a própria salvação eterna" [3]. Sem dúvidas, este é o grande mal deste século: que o homem viva como se Deus não existisse, totalmente alheio às realidades eternas e aos cuidados da sua alma.

Para que acontecesse uma efetiva mudança no mundo e os corações fossem elevados ao Alto, porém, Nossa Senhora indicou o caminho da penitência. Entra aqui a necessidade do exame por parte daqueles que crêem, mas ainda se encontram "estacionados" na vida espiritual. De fato, é muito comum ver pessoas instigadas pelas aparições da Virgem em Fátima, Lourdes, La Salette... Mas, quantas dessas pessoas despendem os mesmos esforços e as mesmas horas para cumprir os desejos de Deus, expressos pela boca de Maria Santíssima?

De fato, ela disse: "Rezem o Terço todos os dias". Mas, quantas são as famílias que se têm dedicado à oração do Santo Terço? E quantas o têm rezado diariamente, como pediu Nossa Senhora?

Ela também disse: "Sacrificai-vos pelos pecadores". Ora, quantos têm verdadeiramente jejuado e feito penitências pela conversão do mundo? Quantos têm se levantado de madrugada ou feito vigílias em família para rezar pelas almas que mais precisam?

Ela disse: "Não ofendam mais a Deus, Nosso Senhor, que já está muito ofendido". E qual tem sido a conduta das pessoas? Será que têm se preocupado em adquirir verdadeira santidade de vida? Como está vivendo a juventude católica, que se reúne nos grupos de oração, vai às Missas e estuda a sua fé? Como têm vivido aqueles que, por sua vida, deveriam brilhar como "a luz do mundo" (Mt 5, 14) e espalhar por todos os cantos "o bom odor de Cristo" (2 Cor 2, 15)?

Neste dia em que a Igreja celebra a memória de Nossa Senhora de Fátima, é urgente lembrar que, no fim das contas, de nada adiantam alardes, previsões e surtos de curiosidade malsã sobre o futuro. "Se não vos converterdes, diz o Senhor, perecereis todos do mesmo modo" (Lc 13, 3). O que Jesus e Maria querem dos homens é que sejam santos, rezem e se mortifiquem – este é o único necessário de que fala Nosso Senhor, todo o mais nos será tirado (cf. Lc 10, 42).

Conversão, penitência e oração: eis, pois, o centro do Evangelho e o núcleo da mensagem de Fátima – e também o de todas as outras recentes aparições da Virgem Maria. Ainda hoje, não existe outra escada por onde subir ao Céu – nem outro caminho para chegar à paz.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Bento XVI, Homilia durante Missa na Esplanada do Santuário de Fátima (13 de maio de 2010).
  2. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 67
  3. Papa Bento XVI, Celebração das Vésperas com os Sacerdotes, Religiosos, Seminaristas e Diáconos (Fátima, 12 de maio de 2010).

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Como cordeiro levado ao matadouro

Mesmo carregando o pesado fardo do pecado e sofrendo as mais terríveis dores até a própria morte, Cristo “ficou calado, sem abrir a boca”.

São João Batista não foi o único a comparar Nosso Senhor a um cordeiro, quando disse a famosa frase: "Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo" (Jo 1, 29). No Antigo Testamento, ao profetizar sobre o servo sofredor, Isaías recorre à mesma analogia, porém, sob outro aspecto: "Oprimido, ele se rebaixou, nem abriu a boca! Como cordeiro levado ao matadouro ou ovelha diante do tosquiador, ele ficou calado, sem abrir a boca" (Is 53, 7).

O grande orador francês Jacques Bossuet, comentando esse exato trecho das Escrituras, tece as seguintes e belas considerações:

"Se um homem se vê incapaz de resistir à violência, ele pode às vezes salvar a si mesmo fugindo; se não pode evitar ser levado como prisioneiro, pode ao menos se defender quando é acusado; ou, se é privado dessa liberdade, pode sempre achar algum alívio na sua angústia, seja reclamando veementemente da injustiça com a qual está sendo tratado, seja gemendo e lamentando por causa de seus sofrimentos. Não no caso de nosso Divino Senhor. Por Sua própria vontade, Ele deixa de lado todos esses poderes; no Filho de Deus, eles foram todos agrilhoados, até mesmo a Sua língua foi amarrada. Quando O acusam, Ele não responde; quando O batem, Ele não murmura, nem mesmo um mínimo gemido ou suspiro, como os fracos e oprimidos proferem, na esperança de revirar alguma piedade nos corações de seus algozes. Ele não abre a boca (Is 53, 7). Mais do que isso, Ele nem mesmo desvia a Sua cabeça dos golpes cruéis que chovem sobre ela; Ele permanece imóvel, não fazendo esforço para fugir de nem uma única pancada." [1]

A imagem passada pelo panegirista é exata: ele não quis dar muita atenção ao fato de que Cristo, sendo Deus, podia fazer cessar todo aquele crime com um simples ato de vontade divina. Também enquanto homem, a Sua humilhação foi perfeita. Tão perfeita, que o profeta, ao falar de Seu silêncio, prefere compará-Lo a um cordeiro mudo que a um ser humano. Qualquer homem – discorre bem Bossuet – procuraria fugir, defender-se ou mesmo gritar contra aqueles que o prendiam. Cristo, não. Ele quis elevar ao extremo a imagem do cordeiro: tirou os pecados do mundo, mas sem gritar nem levantar a voz (cf. Is 42, 2); foi imolado verdadeiramente, mas em silêncio.

O Seu silêncio e paciência são ainda mais admiráveis se se leva em conta, como diz Santo Tomás de Aquino, que as dores que Ele sofreu são as maiores pelas quais um homem poderia passar [2]. Não apenas pelo gênero dolorosíssimo de sua morte, que foi a crucifixão. Os estudiosos modernos têm feito os seus cálculos e não hesitam em concluir que existem métodos de execução mais cruéis do que a morte na cruz. Sem entrar no mérito da questão, porém, não é apenas isso o que faz a paixão de Cristo ser o pior de todos os sofrimentos. É o fato de ser a Sua humanidade perfeitíssima o que tornam soberanamente piores os seus suplícios. Senão, vejamos.

Santo Tomás considera, entre as causas da dor interna do Redentor: "em primeiro lugar, todos os pecados do gênero humano". Essa dor nele "excedeu todas as dores de qualquer pessoa contrita, seja porque proveniente de uma sabedoria e caridade maiores, que fazem aumentar a dor da contrição, seja também porque foi uma dor por todos os pecados ao mesmo tempo" [3]. Em segundo lugar, o Aquinate põe a causa da "perda da vida corporal, que por natureza é horrível à condição humana". Noutro lugar, porém, além de ressaltar a repugnância natural de qualquer homem à morte, ele lembra que "Cristo foi virtuosíssimo. Logo, amou a sua vida de modo superlativo. Por isso, a dor pela perda de sua vida foi máxima" [4].

Como remate, o Doutor Angélico trata de ressaltar "a extensão do sofrimento pela sensibilidade do paciente":

"Porque Cristo tinha uma ótima compleição física, já que seu corpo fora formado milagrosamente por obra do Espírito Santo, (...) nele era agutíssimo nele o sentido do tato, com o qual se percebe a dor. Igualmente a alma, com suas forças interiores, captava de modo intenso todas as causas de tristeza."

Eis, pois, a grandeza da entrega de Cristo. Mesmo carregando o pesado fardo de todos os pecados; mesmo experimentando com agudez singular cada pancada, cada chicote, cada espinho, cada prego; mesmo tendo diante de Si a própria morte, Ele "ficou calado, sem abrir a boca".

Olhemos para o silêncio paciente do Cordeiro de Deus. Consideremos a insignificância dos sofrimentos por que passamos e, ao mesmo tempo, a impaciência com que enfrentamos todos eles; o pequeno ruído que fazem as dores que padecemos e, em contraste, os grandes murmúrios que soltamos diante delas; as cruzes serenas que nos visitam e, por outro lado, as palavras amargas com que as recebemos de Deus.

Por amor, entreguemos também nós a nossa vida, "como cordeiro levado ao matadouro", como "ovelha diante do tosquiador". Sem gritarias. Sem espalhafatos. Porque foi assim que morreu Nosso Senhor. E é também assim que queremos morrer, dia após dia, até o final das nossas vidas (cf. Lc 9, 23).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. BOSSUET, Jacques. The Passion of Jesus Christ. In: Great French Sermons. London: Sands and Co., 1917. p. 80 (tradução nossa).
  2. Suma Teológica, III, q. 46, a. 6.
  3. Comentários às Sentenças de Pedro Lombardo, III, 15, q. 2, a. 3.
  4. Suma Teológica, III, q. 46, a. 6, ad 4.

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Ser radicalmente de Deus

Quando alguém se converte e começa a mudar os próprios hábitos para se conformar à vontade de Deus, o mundo começa a impor-lhe a pecha de “radical”

Quando uma pessoa se converte e começa a mudar os próprios hábitos e comportamentos para se conformar à vontade de Deus, o mundo começa a impor-lhe a conhecida pecha de "radical". Experimente deixar de usar determinadas roupas, parar de fazer alguns comentários maldosos, afastar-se da turminha "descolada" do colégio ou começar a usar algum adereço externo que sinalize que você é católico. Imediatamente, o mundo começará a zombar de você.

Ninguém pense que este é um sintoma exclusivo dos nossos tempos. Na época de Santo Afonso de Ligório, ele alertava para a consequência inevitável de quem se decidia a amar a Deus e desapegar-se do mundo: seria escrachado e ridicularizado publicamente: "É um santo! Vede o santo! Dá-me um pedaço de teu hábito como relíquia! Seria melhor que fosses para o deserto! Por que não entras para um convento?" [1]. Hoje, talvez, as palavras de zombaria sejam diferentes, mas o objetivo do mundo é sempre o mesmo: perseguir as almas dos que querem levar uma vida santa e fazer com que sintam vergonha de serem justos, como sentia Agostinho, antes de sua conversão: "Pudet non esse impudentem – Eu me envergonhava de ser honesto" [2].

Por que é assim?, alguém se pode perguntar. "Talvez digas: Não faço ninguém sofrer: procuro só a salvação de minha alma e por que então ser perseguida?", ao que Santo Afonso responde:

"Porque é regra que todo aquele que serve a Deus seja perseguido. (...) Os que levam uma vida perversa não podem ver que outros vivam santamente, porque a conduta destes é uma reprovação perene de seu perverso proceder" [3].

Algumas palavras das Escrituras podem ajudar a entender esse fenômeno. Primeiro, uma profecia do próprio Senhor: "Recordai-vos daquilo que eu vos disse: 'O servo não é maior do que o seu senhor'. Se me perseguiram, perseguirão a vós também" (Jo 15, 20). De fato, que fez Jesus àqueles que O perseguiam? Que mal praticou Nosso Senhor para que fosse tão desprezado pelos de Seu tempo, recebendo de Seus algozes bofetões, cusparadas, açoites e espinhos? Nenhum mal Ele fez, na verdade. "Ele jamais cometeu injustiça, mentira nunca esteve em sua boca" (Is 53, 9). Mesmo assim, foi incriminado, injustiçado e castigado como o pior dos criminosos. A Cruz de Cristo, além de sinal da nossa salvação, é a ilustração exata de como os bons são tratados neste mundo: como ladrões e miseráveis.

E por que é assim? Porque, como adverte São Tiago, a amizade do mundo é inimizade de Deus (cf. Tg 4, 4). Os mundanos injuriam e espreitam os santos porque estes não amam o mundo como eles. Zombam e caçoam dos justos por não serem loucos e mundanos como eles são.

A sua loucura, porém, acaba com a sua morte. Diante do tribunal de Deus, de nada valem os prazeres, as honras e as riquezas com que foram cumulados os homens nesta Terra, mas tão somente as suas almas. E então? Como será o seu julgamento? Como agirão na presença d'Aquele que tanto insultaram e desprezaram em vida? Perguntarão, certamente: "Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede, forasteiro ou nu, doente ou preso, e não te servimos?" (Mt 25, 44). E Ele lhes responderá: Todas as vezes que zombastes dos santos, caçoastes dos justos e humilhastes os pobres, "foi a mim que o fizestes". Todas as vezes que matastes com a vossa língua os que queriam viver a castidade, todas as vezes que ristes de quem queria ir à Missa todos os dias e até os apelidastes maliciosamente de "papa-hóstias", todas as vezes que tentastes arrefecer a piedade de quem rezava o Terço, todas as vezes que humilhastes os vossos filhos só porque eles queriam viver a virtude... Foi a mim, Jesus Cristo, que o fizestes. Então, cumprir-se-á a palavra do Evangelho: "Aquele que me renegar diante dos homens, também eu o renegarei diante de meu Pai que está nos céus" (Mt 10, 33).

Por isso, que ninguém tema ser odiado pelo mundo ou tachado de "radical". À parte a conotação negativa que ganhou essa palavra, o seu real significado está ligado à ideia de raízes: quanto mais profundas, por assim dizer, as "raízes" de uma pessoa, mais radical ela será. Antes de elevar-se acima de todas as outras espécies de sua região, o cedro do Líbano lança fundo as suas raízes e, depois, cresce majestosamente. A sua estatura chega a ser comparada pelo Autor Sagrado ao progresso do homem virtuoso: "O justo crescerá como a palmeira, como o cedro do Líbano se elevará" (Sl 91, 13).

É para isso que o homem foi colocado sobre a Terra. Quando chamou os Seus discípulos, Nosso Senhor não pretendia recrutar funcionários para uma empresa ou colaboradores para uma ONG piedosa [4]. Ele queria homens que entregassem tudo o que tinham e, por fim, a própria vida. Assim fez São Pedro, no início de sua vocação (cf. Lc 5, 11), até a sua morte, quando foi crucificado em Roma. Seguindo os seus mesmos passos, também os outros Apóstolos viveram o Evangelho na radicalidade: levaram até o martírio o seu amor a Jesus.

Assim, também nós, sejamos radicais no seguimento de Cristo. Alegremo-nos nas perseguições, pois diz o Senhor: "Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus" (Mt 5, 10). Felizes, realmente felizes, são aqueles que podem cantar com Jesus crucificado: "Mais numerosos que os cabelos da cabeça, são aqueles que me odeiam sem motivo; meus inimigos são mais fortes do que eu; contra mim eles se voltam com mentiras!" (Sl 68, 5).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Pe. Saint-Omer. Escola da Perfeição Cristã, p. 53
  2. Confissões, II, 9: PL 32, 682
  3. Pe. Saint-Omer. Escola da Perfeição Cristã, p. 54
  4. Cf. Papa Francisco, Santa Missa com os Cardeais na Capela Sistina, 14 de março de 2013

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Enxugar as chagas da Igreja (II)

Não há nada de estranho nas provações que sofremos. Elas nos estimulam à entrega paciente e à ação por meio da graça divina.

A conhecida poesia de Santa Teresa d'Ávila encerra um ensinamento importantíssimo sobre Deus e nossos sofrimentos. Exorta a estrofe: " Nada te turbe / nada te espante; / tudo passa. Deus não muda; / a paciência obtém tudo; / quem possui Deus / nada lhe falta / só Deus basta". Teresa d'Ávila sintetizou nesse pequeno trecho todo o segredo do agir cristão diante das contrariedades. Quem se reconhece amado por Deus, sabe também lidar pacientemente com as provações. E a fonte dessa paciência é nada mais que a virtude da esperança. A figura deste mundo passa, mas a promessa de Deus é uma rocha inabalável. Não há nada de estranho no "fogo da provação" que se alastra entre nós, diz São Pedro; trata-se, antes, de motivo de júbilo: "Alegrai-vos por participar dos sofrimentos de Cristo, para que possais também exultar de alegria na revelação da sua glória" (1 Pd 4, 12-13).

Essa certeza da salvação, assegurada pela esperança na providência divina, ajuda-nos a compreender outro ponto precioso do Cristianismo: os sofrimentos da Igreja. Como já se disse anteriormente, a Igreja também é chamada a viver a Paixão de Cristo. Não existe Cristianismo sem Cruz. Uma comunidade cristã sem Cruz é uma comunidade muito distante das páginas do Evangelho. É uma aberração! O verdadeiro cristão é aquele que segue o caminho do Calvário, que se põe aos pés de Deus não mais para falar "sempre de si" ou "de suas mesquinhas preocupações", mas para "interessar-se pelas preocupações do Salvador" [1]. De fato, não sabemos a razão da existência do mal. Por que Deus, Todo-Poderoso, permite que seus filhos sofram? Por que não abrevia, com Sua misericórdia, as fadigas desta vida, levando-nos logo para a morada eterna? Isso sempre será um mistério. O que podemos dizer, acompanhados pelo Catecismo da Igreja, é que Deus, "em sua providência toda-poderosa, pode extrair um bem de um mal, mesmo moral, causado por suas criaturas" [2]. E a Cruz é a maior prova disso. Deus manifesta sua grandeza na Redenção.

Assim, pede-nos São Pedro: "Os que sofrem segundo a vontade de Deus entreguem suas vidas ao Criador, que é fiel, e dediquem-se à prática do bem" ( 1 Pd 4, 19). A exortação é clara. A paciência nas provações não significa se acomodar e esperar uma intervenção divina. Significa tornar-se instrumento da graça de Deus. Entregar-se e agir. Eis o que nos pede o primeiro papa. Eis o que fizeram todos os santos nos momentos de grandes provações da Igreja. Entregaram suas vidas ao Criador, confiando em Sua fidelidade, e dedicaram-se diligentemente à restauração de todas as coisas em Cristo. Fala-nos alto o testemunho de São Francisco de Assis que, após ouvir o chamado de Deus: "Vai e reconstrói a minha Igreja", assumiu a eminente responsabilidade de viver as três virtudes evangélicas — a pobreza, a castidade e a obediência — de maneira radical e irrepreensível. O caráter irrevogável de seu apostolado deitou raízes tão profundas que ainda hoje se podem colher os frutos.

Outro santo a quem podemos recorrer como fonte de inspiração para nossa vida apostólica é São João Maria Vianney [3]. Há uma porção de elementos dignos de nota em seu ministério, e sobre os quais iremos meditar posteriormente. Detenhamo-nos primeiro nestes dois: oração e mortificação. Duas palavras fora de moda e mal compreendidas atualmente. Mas que, contempladas através dos olhos do Cura d'Ars, ganham uma importância fundamental. Esses dois elementos — oração e mortificação — foram as grandes pilastras do empreendimento espiritual de Vianney. "O meu rosário pode mais que cem sermões", dizia.

Quando foi designado pároco de Ars, o Vigário Geral de São João Maria Vianney disse-lhe o seguinte: "É uma paróquia pequena, onde não há muito amor a Deus. Deverá levá-lo para lá". Na época, Ars era apenas uma aldeia da região de Dombes, a 35 quilômetros de Lião, na França. Fora um lugar de verdadeiro fervor cristão. Mas as loucuras da Revolução Francesa não a pouparam dos ataques à fé católica. Aos poucos, o vilarejo esfriou e caiu em desgraça. A ignorância religiosa alastrou-se por quase todos os costumes: profanação do domingo, bailes, bebedeiras, blasfêmias etc. Tudo isso estava presente no cotidiano dos paroquianos. E estava também presente nas meditações do novo pároco.

Vianney não mediu esforços. Como primeiro ato para recuperação daquelas almas, consagrou-as à Virgem Santíssima, àquela que sempre fora seu grande amor mesmo antes de conhecê-la. Logo pela manhã, ainda com os primeiros raios de sol bastante tímidos, já se podia ver o sacerdote, com sua lamparina, dirigindo-se da casa paroquial à igreja. Ia para rezar e pedir a conversão de seus fiéis. Entre lágrimas, o santo implorava ao bom Deus: "Concedei-me a conversão de minha paróquia. Consinto em sofrer quanto quiserdes, durante toda a minha vida… Sim, durante cem anos as dores mais atrozes, contanto que se convertam". E assim prosseguia entre terços, liturgia das horas e Sacrifício Eucarístico.

A mortificação foi a segunda arma do santo. Era preciso açoitar o velho Adão, dizia, para conseguir a salvação de seu rebanho e a própria. Impôs-se penitências severas. Todas as noites, durante uma hora, rasgava seu corpo com a disciplina, uma pequena corda com pedacinhos de chumbo, ferro e pregos na ponta. O cilício também não faltava. Ademais, fazia jejuns frequentes, com uma dieta à base de batatas, muitas vezes, já bolorentas. Pouco dormia. E, ainda assim, nos momentos em que se permitia descansar, fazia-o em um chão duro com a cabeça repousada em um "travesseiro" de madeira. Anos mais tarde, admitiria ter exagerado: "Quando se é jovem, cometem-se muitas imprudências". Contudo, "independentemente das penitências concretas a que se sujeitava o Cura d'Ars, continua válido para todos o núcleo do seu ensinamento: as almas custam o sangue de Cristo" [4]. Por isso, cada um de nós deve "contribuir com a sua parte para o 'alto preço' da redenção" [5].

Embora nem todos sejam chamados a penitências tão duras quanto às de São João Maria Vianney, há, sim, uma quantidade enorme de renúncias que podemos fazer em nosso dia a dia, como forma de expiação e reparação ao Sagrado Coração de Jesus. O Cura d'Ars elenca algumas delas:

Meu amigo, o demônio não faz muito caso da disciplina e de outros instrumentos de penitência. O que o põe em debandada são as privações no comer, no beber e no dormir. Nenhuma coisa o faz temer tanto como isso. Por outro lado, nada é tão agradável a Deus como isso. Ah, como tenho experimentado essas coisas.

O santo pároco de Ars enfrentou pacientemente as provações de sua comunidade, abandonando-se à esperança divina, cuja força emanava precisamente de sua oração e mortificação. Não seria, portanto, esse o caminho a seguir em face das provações que enfrentamos na Igreja de hoje? Não deveríamos rezar mais, confiar mais em Sua graça, por meio também do oferecimento diário de nós mesmos, em vez de perdermos tempo precioso, sobretudo na Internet, em discussões vazias e murmurações diabólicas? No testemunho dos santos de todos os séculos encontramos as respostas para essas e outras indagações. Meditemos um pouco nestes pontos e façamos um sincero exame de consciência antes de partirmos para as próximas questões. Como dizia Santa Teresa d'Ávila: "A paciência obtém tudo".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. MIRIBEL, Elisabeth de. Edith Stein: como ouro purificado pelo fogo. 4. ed. Aparecida: Editora Santuário, 1998, pp. 148
  2. Catecismo da Igreja Católica, 312
  3. TROCHU, Francis. O Cura d'Ars; GHÉON, Henri. O Cura d'Ars. São Paulo: Quadrante, 1998.
  4. Bento XVI, Carta para a proclamação do Ano Sacerdotal, 16 de junho de 2009
  5. Idem

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São João Clímaco e a escada do Paraíso

O que a vida e a obra de um monge eremita do século VI têm a ensinar ao homem do século XXI?

No último dia 30 de março, a Igreja no mundo inteiro recordava a memória de São João Clímaco. Do século VI, esse monge do Oriente é conhecido especialmente por sua obra "Escada do Paraíso", na qual explica a vida monástica, desde o abandono do mundo até a perfeição na caridade.

De onde tirou sustento para escrever uma obra tão robusta? A resposta está em seu profundo amor a Deus, desde a mais tenra idade. Com apenas 16 anos, João tornou-se monge no monte Sinai, onde foi discípulo do sábio abade Martírio. Aí, entregue à oração e aos cuidados deste mestre espiritual, pôde dedicar-se ao ofício de sábio, àquele que Santo Tomás identifica como "o mais perfeito, o mais sublime, o mais útil e o mais bem-aventurado" de todos os estudos humanos [1].

Com cerca de 20 anos, João elegeu a vida eremítica, passando a habitar no sopé do monte Sinai. Queria entregar-se a Deus na solidão. O fato, porém, é que muitas pessoas o procuravam, querendo uma direção espiritual, e ele próprio tinha que visitar os mosteiros ao redor, dando conselhos aos demais irmãos monges. Uma pessoa sábia é procurada naturalmente em uma sociedade minimamente sadia, pois todos reconhecem a sua importância e a superioridade de seu ofício entre todos os demais. Movido pela caridade, então, João passava aquilo que tinha aprendido do próprio Deus aos seus próximos.

Foi justamente por insistência de um irmão vizinho do mosteiro de Raito que nasceu a sua "Escada do Paraíso" ( Κλίμαξ, em grego) – de onde vem o seu nome, Clímaco. Nessa obra, o santo compara o progresso na vida espiritual a uma escada, com três partes: a primeira diz respeito ao abandono do mundo, a fim de voltar ao estado da infância evangélica; a segunda é um importante subsídio para o reconhecimento e a cura das chamadas "doenças espirituais"; a terceira, por sua vez, é propriamente o caminho dos perfeitos.

Em toda a obra de João Clímaco, porém, o seu foco não é outro senão o amor, como ele próprio revela, ao associar o combate espiritual à figura do "fogo" [2] e concluir o seu tratado com as palavras de São Paulo: "Agora subsistem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é a caridade" ( 1 Cor 13, 13). A metáfora da escada para a vida espiritual é muito conveniente e encontra amparo nas próprias Sagradas Escrituras (cf. Gn 28, 11-19). Pode, porém, passar a falsa impressão de algo fatigante e cansativo e uma imagem de autossuficiência – como se fosse possível alguém ascender a Deus pelas próprias forças.

Entretanto, se é verdade que "é necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus" ( At 14, 22), a "escada do Paraíso", antes de ser subida pelos homens, foi descida pelo próprio Deus. Foi o Senhor quem se inclinou ao homem e inclinou a escada dos céus, para que ele a pudesse subir mais facilmente – Ele, que "humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz" (Fl 2, 8). De fato, antes que o homem desse o primeiro passo em direção ao Altíssimo, Ele mesmo saiu dos altos céus e veio em seu auxílio, com a Sua graça. Por isso, a resposta do homem a essa misericórdia de Deus só pode ser o amor – o amor de quem sobe uma escada firmando os "braços cansados" e "os joelhos vacilantes" (Is 35, 3), com o coração ansioso em contemplar o Senhor e possui-Lo plenamente na eternidade.

Pode haver quem se pergunte sobre a validade das lições de São João Clímaco para o homem de hoje. O Papa Bento XVI, ao falar sobre esse importante místico da Igreja, se pergunta se "o itinerário existencial de um homem que viveu sempre na montanha do Sinai, numa época muito distante, pode ter alguma atualidade para nós". A sua resposta é que "aquela vida monástica é apenas um grande símbolo da vida batismal, da vida do cristão. Mostra, por assim dizer, com caracteres grandes, o que nós escrevemos no dia-a-dia com caracteres pequenos".

Todos, pois, são chamados à santidade, como conclamou o Concílio Vaticano II [3]. A "escada do Paraíso" é o itinerário para todos os cristãos, chamados que são ao amor. Que São João Clímaco, do Céu, ajude o homem do século XXI a atingir o clímax da caridade, como ele alcançou.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Summa contra os Gentios, I, 2
  2. Escada do Paraíso, 1, 18: PG 88, 636
  3. Cf.Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964, 39-42

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A verdadeira alegria Pascal

A certeza de ser amado por um Amor que não passa

Os extremos da Quaresma são marcados por duas alegrias: a do Carnaval e a da Páscoa. A primeira é uma alegria carnal que, nos dias atuais, chega a ser pecaminosa. E, mesmo nas décadas passadas, quando se festejava apenas a "joie de vivre" (a alegria da vida), como dizem os franceses, a festa do Carnaval era marcada por uma alegria mundana.

Todavia, festejar a vida biológica, criada por Deus, de certa forma, é salutar. Comemorar a alegria do dia a dia, as coisas simples e boa que confortam a vida é sinal de saúde. A ausência desse júbilo, por conseguinte, pode significar uma doença, um desequilíbrio.

A alegria da vida cotidiana, porém, é ligada antes de tudo à parte animal do homem que sente prazer ao encontrar um bem, muitas vezes material. Santo Tomás de Aquino ensina que este tipo de prazer está ligado a um bem, enquanto a tristeza a um mal. A alegria do homem é sempre correspondente ao bem que se está festejando. Assim, se o bem é passageiro, a alegria também o será.

Apesar de efêmeras, as alegrias deste mundo não são necessariamente más. E quando existe o saudável ordenamento no homem, elas serão indicações das alegrias eternas. Existem coisas que libertam o homem da tristeza, como um banho quente e um copo de vinho, diz Santo Tomás de Aquino. Todavia, por causa do pecado original, as alegrias mundanas tendem a substituir a alegria de Deus.

Do outro lado da Quaresma existe a alegria pascal. Ela não é baseada na bios, mas sim, na zoe, que é a vida eterna, a "outra" vida. E a verdadeira alegria espiritual reside nela.

Quando Jesus, a cabeça, ressuscita, introduz a humanidade na vida divina. Seu corpo ressuscitado não tem mais somente a vida biológica, embora muitos confundam ressurreição com reviver, Ele não voltou à vida antiga, mas sim, a Sua vida divina (Ele é Deus) transbordou para Sua humanidade e Ele começou a participar da vida de Deus. Esta é a alegria pascal: encontrar a nova vida, a zoé, que está em cada um.

No dia em que se celebrou o Sábado Santo, a Igreja recordou também os 500 anos do batizado de Santa Teresa de Jesus, uma grande mulher que alcançou o ápice da santidade e deu a conhecer ao mundo tantas nuances da vida espiritual que a tornam deveras especial.

Santa Teresa de Jesus, após 20 de vivência de oração intensa, de profunda amizade com Deus, ao adentrar na sétima morada, descobriu um mundo completamente novo. Antes, ela cria que os fenômenos místicos que experimentava eram oriundos do céu, porém, quando mergulhou na última morada, entendeu que tudo estava dentro dela. Entendeu que é no homem interior que habita a Trindade, e passou a viver da Trindade dentro dela.

Embora o seu corpo estivesse sofrendo muito, ela tinha paz e a alegria espiritual durante todo o tempo. Ela não era capaz de pecar, pois já estava enraizada no Amor, já gozava da plena liberdade daqueles que amam.

São Paulo, em sua Carta aos Gálatas (cap. 5), ao listar os frutos do Espírito Santo, aponta também a alegria. É justamente a alegria que vivia Santa Teresa, a alegria espiritual. Santo Tomás de Aquino afirma que a alegria é a consequência mais óbvia do amor.

O amor-caridade produz naquele que ama duas situações: a primeira é a constatação de que Deus é a fonte de todo bem. Portanto, alegrar-se com tal bem-aventurança é motivo de grande alegria. A segunda, provém do fato de que a alegria é a reação diante de um bem presente e possuído, que não suporta a ausência. A alegria é estar na presença do Sumo Bem.

A alegria pascal é muito diferente da alegria do carnaval. De nada adiantam as alegrias efêmeras, com prazo de validade. Melhor são aquelas que não passam. E não passam porque Aquele que as inspira também não passa.

Esta alegria está ao alcance de todos, e claro, estando nas últimas moradas a vivência é plena, completa, como Santa Teresa. Mas, aos outros, basta estar em estado de graça, em amizade com Deus, para experimentar a alegria de se saber amado e amar Aquele que não passará. Amar e servir. Esta é a verdadeira alegria espiritual.

As duas alegrias, portanto, são muito distintas. A primeira é passageira, mas a segunda, é a alegria dos santos e que a todos é permitido gozar. É por isso que, na Páscoa, a Igreja canta à Virgem Maria, a alegria do seu coração:

Regina coeli, laetare, Alleluia!
(Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia!)


Quia quem meruisti portare, Alleluia!

(Porque aquele que merecestes carregar em vossos braços. Aleluia!)


Resurrexit, sicut dixit, Alleluia!

(Ressuscitou como disse, aleluia!)

A alegria de Nossa Senhora por saber que Aquele que ela amava não estava ausente e que a pedra fechando o sepulcro não havia sido o ponto final. Jesus morreu em sua natureza humana, é verdade, mas continuava vivo como Deus. A grande alegria de ver que no meio da maior tragédia, embora tudo diga o contrário, permanece a certeza de ser amado.

Ao receber o cadáver de Seu Filho em seus braços, não teria o demônio tentado Maria? Sim, mas ela não vacilou, pois tinha certeza da presença do Deus-amor diante da catástrofe iminente.

Assim, que os próximos cinquenta dias sejam, para cada um de nós, dias de grande alegria espiritual. A certeza de que se é amado por um amor que não passa.

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Um grande silêncio reina sobre a terra

Não podendo o homem, por si mesmo, ascender à companhia de Deus, Ele mesmo desce à companhia dos mortos, para, com Sua graça, torná-los santos

Hódie siléntium magnum in terra est. Assim começa uma antiga homilia de Sábado Santo. "Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos."

Jesus, ao mesmo tempo em que tem o Seu corpo no sepulcro, desce com Sua alma aos abismos – como confessamos no Credo, Ele "desceu à mansão dos mortos". Não podendo o homem, por si mesmo, ascender à companhia de Deus, Ele próprio descende à companhia dos mortos, para, com Sua graça, fazê-los santos.

Cumpre-se, hoje, mais uma profecia: "Quanto a ti, meu povo, por causa da aliança que contigo fiz, selada com sangue, vou libertar teus cativos desta cisterna sem água" ( Zc 9, 11). O seu povo são os justos do Antigo Testamento que, pela dívida do pecado original, jazem "cativos" e sedentos na "cisterna sem água" das profundezas; a aliança "selada com sangue" é o sacrifício que Ele consuma na Cruz e, também, a causa de sua descensão. Se os méritos da paixão de Nosso Senhor se aplicam aos vivos pela graça dos Sacramentos, aplicam-se aos mortos pela descida de Cristo aos infernos. Sim, Ele desce aos infernos. Não ao inferno dos condenados, de onde nem mesmo Deus, o autor da liberdade, os pode tirar; mas ao "seio de Abraão", o lugar onde os santos Patriarcas esperam, aflitos, o dia de sua libertação. Desce aos infernos, para aspergir com Seu sangue os filhos de Adão e instaurar a nova Páscoa. Desce aos infernos para dar aos homens aquilo que, desde o príncipio, Ele lhes havia preparado.

"Vosso pai Abraão – disse Jesus, certa vez, aos judeus – exultou por ver o meu dia. Ele viu e se alegrou" (Jo 8, 56). Ei-lo, é hoje o Seu dia. Exultemos e alegremo-nos com os santos Patriarcas, porque também nós fomos conduzidos, pela assombrosa descida do Verbo ao mundo, da morte à vida, das trevas à luz, do pecado à graça, dos infernos ao Céu.

"Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos". Enquanto Ele não ressuscita dentre os mortos, porém, silentium magnum in terra manet. "Um grande silêncio reina sobre a terra".

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