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O mundo está em chamas

“O mundo está em chamas”, diz Santa Teresa Benedita da Cruz, “o incêndio poderia pegar também em nossa casa, mas, acima de todas as chamas, ergue-se a Cruz que não pode ser queimada”.

Dos Escritos Espirituais de Santa Teresa Benedita da Cruz, virgem e mártir:

"Saudamo-te, Cruz santa, nossa única esperança!", assim a Igreja nos faz dizer no tempo da paixão, dedicado à contemplação dos amargos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O mundo está em chamas: a luta entre Cristo e o anticristo encarniçou-se abertamente, por isso, se te decides por Cristo, pode te ser pedido também o sacrifício da vida.

Contempla o Senhor que pende do lenho diante de ti porque foi obediente até a morte de Cruz. Ele veio ao mundo não para fazer a sua vontade, mas a do Pai. Se queres ser a esposa do Crucificado deves renunciar totalmente à tua vontade e não ter outra aspiração senão a cumprir a vontade de Deus.

À tua frente o Redentor pende da Cruz despojado e nu, porque escolheu a pobreza. Quem quer segui-lo deve renunciar a toda posse terrena. Estás diante do Senhor que pende da Cruz com o coração despedaçado; Ele derramou o sangue de seu Coração para conquistar o teu coração. Para poder segui-lo em santa castidade, o teu coração deve ser livre de toda aspiração terrena; Jesus Crucificado deve ser o objeto de todo o teu anseio, de todo o teu desejo, de todo o teu pensamento.

O mundo está em chamas: o incêndio poderia pegar também em nossa casa, mas, acima de todas as chamas, ergue-se a Cruz que não pode ser queimada. A Cruz é o caminho que conduz da terra ao céu. Quem a abraça com fé, amor e esperança é levado para o alto, até o seio da Trindade.

O mundo está em chamas: desejas extingui-las? Contempla a Cruz – do Coração aberto jorra o sangue do Redentor, sangue capaz de extinguir também as chamas do inferno. Através da fiel observância dos votos, torna o teu coração livre e aberto; então, poderão ser despejadas neles as ondas do amor divino; sim, a ponto de fazê-lo transbordar e torná-lo fecundo até os confins da terra.

Através do poder da Cruz, podes estar presente em todos os lugares da dor, em toda parte para onde te levar a tua compassiva caridade, aquela caridade que haures do Coração divino e que te torna capaz de espargir, por toda parte, o seu preciosíssimo sangue para aliviar, salvar, redimir.

Os olhos do Crucificado fixam-te a interrogar-te, a interpelar-te. Queres estreitar novamente com toda seriedade a aliança com Ele? Qual será a tua resposta? "Senhor, aonde irei? Só tu tens palavras de vida".

Ave Crux, spes unica!

Edith Stein, Vita, Dottrina, Testi inediti, Roma, pp. 127-130.

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Jovens crucificados para chegarem ao Céu

O martírio de um padre na França, exatamente um dia antes do início da Jornada na Cracóvia, deve servir de farol a todos os jovens católicos sedentos de uma verdadeira conversão. A alegria cristã sempre começa com a cruz.

Um dia antes que começasse, na Cracóvia, a 31.ª edição da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), a notícia sobre a morte do padre francês Jacques Hamel, covardemente assassinado dentro de uma igreja por militantes do Estado Islâmico, chocou o mundo inteiro. Misteriosa coincidência entre dois eventos aparentemente tão paradoxais impõe-nos ao pensamento a paixão, morte e ressurreição de Cristo, que é o que também deve viver a Igreja no fim dos tempos, após a sua própria via crucis.

De fato, a Igreja Católica nunca escondeu de seus fiéis o destino que está obrigada a percorrer até o retorno de Jesus. Nestas linhas contundentes do Catecismo, afirma-se claramente o itinerário do Corpo Místico de Cristo: "A Igreja não entrará na glória do Reino senão através dessa última Páscoa, em que seguirá o Senhor na sua morte e ressurreição" (n. 677). Isso significa que a cruz, embora tenha perdido o seu sentido para muitos cristãos, é uma condição inevitável no seguimento de Cristo, condição que, apesar de dolorosa, deve ser abraçada com alegria e esperança na salvação eterna.

São João Paulo II, que viveu o seu martírio silencioso ao longo de quase 26 anos de pontificado, entregou aos jovens justamente uma cruz como símbolo para a JMJ. Com este gesto, o papa desejava fazê-los comprometerem-se a uma vida de coragem autêntica, disposta a sacrificar-se santamente por aquele "mundo melhor" que não é outra coisa senão o Céu.

Foi por isso que, em 2004, o já moribundo pontífice aconselhava a juventude a não se ocupar "apenas da organização prática da Jornada Mundial da Juventude", mas a cuidar, "em primeiro lugar, da sua preparação espiritual, numa atmosfera de fé e de escuta da Palavra de Deus" [1]. A santidade de vida depende obrigatoriamente de nosso grau de amizade com Jesus, que cresce no cultivo da vida interior e cujos efeitos também incidem positivamente na ordem temporal por meio das virtudes, sobretudo a da caridade.

Nesses encontros mundiais, a Igreja também se manifesta como aquele "abraço de Deus no qual os homens aprendem também a abraçar os seus irmãos, descobrindo neles a imagem e semelhança divina, que constitui a verdade mais profunda do seu ser, e que é a origem da liberdade genuína" [2]. A reunião de jovens de tantas nacionalidades ao redor do Santo Padre, o Papa Francisco, dá testemunho da universalidade da fé cristã, da confiança no depósito da fé católico, apostólico e romano.

Ao mesmo tempo, porém, seria um erro grave pensar que a força do cristão depende de grandes aglomerações de pessoas, quando a Igreja é uma realidade muito mais interior que exterior. A força do cristianismo vem de católicos que, a exemplo do padre Jacques Hamel, derramam o seu sangue pela salvação das almas, vivem como os cristãos primitivos, muitas vezes numa Igreja das catacumbas, mas enraizados em Cristo e firmes na fé (cf. Cl 2, 7). Essa é a autêntica força cristã.

Com uma secularização tão agressiva nos dias de hoje, não se trata de pessimismo nenhum pensar numa Igreja Católica simplificada, como profetizava o então padre Joseph Ratzinger, já no final da década 1960. O martírio do sacerdote Jacques Hamel justamente no contexto da JMJ é sugestivo porque expulsa a ilusão dos números e da alegria efêmera que pode tomar conta dos corações, levando-os a uma falsa segurança e triunfalismo. Os cristãos precisam preparar-se para o martírio, seja branco ou vermelho, porque o "Reino não se consumará [...] por um triunfo histórico da Igreja, segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal, que fará descer do Céu a sua Esposa" [3].

Apoiada no exemplo do profeta Jeremias, que ainda muito jovem aceitou dedicar-se à vocação para a qual Deus o chamou, a Igreja desafia os jovens desta época a abraçarem a cruz como remédio para a idolatria e defesa contra "a tentação de pensar nos mitos de fácil sucesso e do poder", quando é forte a proposta de "aderir a concepções evanescentes do sagrado que apresentam Deus sob a forma de energia cósmica, e de outras maneiras que não estão em sintonia com a doutrina católica" [4]. A Igreja os convida a serem verdadeiros adoradores de Cristo, que é a Rocha sobre a qual podem construir o seu futuro e um mundo mais justo e solidário, combatendo a corrupção, as ameaças contra a família e a vida, a pornografia, o sexo desregrado etc [5]. E, finalmente, a Igreja os motiva a não terem medo de remar contra a corrente, a serem uma minoria santa que, apesar disso, têm a força necessária para derrubar os tantos Golias deste e dos próximos séculos.

Nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens também contam com o auxílio indispensável da "medianeira de todas as graças", a Virgem Santíssima. Ela, mais do que qualquer outra criatura, uniu-se à Paixão de Jesus para corredimir a humanidade de seus pecados, num momento em que a Igreja parecia pequena, humilhada e derrotada com as quedas de seu Esposo. Era naquele momento, no entanto, que o Corpo Místico de Cristo estava mais forte, pois vencia o pecado com a pureza de seu próprio sangue. E assim continuaria a vencer por mais dois mil anos através de mártires como o padre Jacques Hamel, que, acompanhados pela Mãe Dolorosa, puseram-se ao pé da Cruz para remir o mundo.

Para que a JMJ não fique no passado como apenas mais um encontro juvenil, destinado a compor álbuns de fotos no Facebook, os jovens da Jornada devem repetir o caminho de Maria e dos demais santos. Só assim serão capazes de alcançar o único "mundo melhor" verdadeiro e duradouro, que é a vida eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa São João Paulo II, Mensagem para a XX Jornada Mundial da Juventude (06 de agosto de 2004), n. 1.
  2. Papa Bento XVI, Discurso na visita à Catedral de Santiago de Compostela (06 de novembro de 2010).
  3. Catecismo da Igreja Católica, n. 677.
  4. Papa São João Paulo II, op. cit., n. 5.
  5. Idem.

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Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho

Foi para salvar o homem de seus pecados que o próprio Deus se submeteu a humilhações e a uma execução pública.

De uma antiga homilia no grande Sábado Santo:

"Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.

Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade."

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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A bondade que todo cristão deveria ter

Se é certo que bondade não significa frouxidão, firmeza também não significa estupidez

O mês dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Jesus pede necessariamente uma meditação sobre a bondade de Deus. Não por acaso um famoso escritor espiritual do século XIX dizia que "a bondade se mostra o melhor paladino do preciosíssimo Sangue" [1]. É que na raiz do sacrifício redentor, bem como de todo o mistério da encarnação, marcado por tanta angústia e sofrimento, não poderia estar outra coisa senão a infinita compaixão que o Senhor tem de Seus filhos, sobretudo daqueles mais necessitados de Sua misericórdia.

"Só Deus é bom" (Mc 10, 18). Essas são as palavras que Cristo dirige ao jovem rico quando este O interroga sobre o caminho para a vida eterna. O jovem desejava uma orientação acerca do que é preciso ser feito para se alcançar a coroa do Céu. Reconhecendo a Sua sabedoria e a autoridade com que pregava, o rapaz Lhe diz: "Bom mestre, que farei para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17). A resposta de Jesus, embora induza o leitor desatento a questionar a Sua divindade, transmite um ensinamento assaz importante: toda bondade tem como origem a Santíssima Trindade. Jesus, portanto, é um "bom mestre" não porque ensina coisas proveitosas, mas porque Sua doutrina vem da fonte da verdade, do Criador de tudo o que é bom e belo.

O homem, enquanto criatura de Deus, participa de Sua bondade num grau ainda maior que os demais seres existentes, pois é o único criado à Sua "imagem e semelhança" (Gn 1, 26). Mais: como ser que ainda caminha para a perfeição, é convidado por Deus a crescer em bondade, a fim de unir-se à família trinitária.

A mancha do pecado original, porém, provocou uma desordem tão profunda no coração humano, que suas ações ficaram dramaticamente inclinadas para o mal, de modo que aquele chamado de Deus à perfeição acontece de ser não somente negligenciado, mas até ignorado. Essas más inclinações, por sua vez, só podem ser superadas na medida em que o homem se dedicar à vida interior, ou seja, a uma intimidade generosa com a Pessoa de Cristo.

Eis aqui, então, um problema demasiado difícil para os homens modernos que desejam ser bons como pede o Senhor.

De muitos modos, esta época não tem favorecido a virtude da bondade. Há como que uma guerra acirrada contra qualquer coisa que lembre a caridade, a continência, a fidelidade, a sinceridade, a temperança e tantos outros hábitos bons. Veja-se, por exemplo, a maneira como os "heróis" costumam ser apresentados nos filmes, novelas e outros programas de entretenimento vulgar. A sua figura é tão estereotipada e cheia de afetações que chega a causar asco em qualquer espírito viril e sensato, ao passo que os "vilões" aparecem muito mais interessantes: são inteligentes, charmosos, bem-sucedidos, fortes etc. Isso quando os papéis não se misturam, com heróis "pilantras" e vilões "piedosos". Trata-se de uma estratégia realmente perversa de inversão de valores.

Os efeitos dessa confusão não poderiam ser mais desastrosos. Muitos, influenciados pela mentalidade moderna e pretendendo afastar qualquer sombra de fraqueza, adotam um discurso tão rude e severo, que são incapazes de transmitir compaixão ou misericórdia. Para uma alma cristã, poucas coisas há que sejam tão trágicas quanto essa. O rosto do cristianismo termina desfigurado, transformado em uma caricatura de "moralismo".

É preciso entender que a bondade é um atributo divino e, sem ela, nenhum cristão pode realmente exercer um ministério eficaz. Isso já deveria ser claro para os católicos, dada a quantidade de passagens da Sagrada Escritura e do Magistério que se referem ao amor e à misericórdia de Deus por Suas criaturas. Aliás, foi justamente a Sua bondade que Ele fez passar diante de Moisés, proclamando: "O Senhor, o Senhor [YHWH, YHWH] é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade" ( Ex 34, 6).

É neste sentido que Dom Chautard escreve em seu famosíssimo livro A alma de todo apostolado uma página toda dedicada à busca da bondade. "Quanto mais o coração estiver unido a Jesus Cristo, tanto mais se tornará participante da qualidade principal do coração divino e humano do redentor, da sua bondade, indulgência, benevolência e compaixão", diz o monge trapista [2]. Disto se conclui que a evangelização não depende tanto da eloquência e dos métodos do evangelizador, apesar de serem elementos importantes, mas do grau de unidade com que esse mesmo evangelizador se relaciona com Jesus. Um missionário cheio do Espírito Santo irradia a bondade de Deus e convence os corações, até os mais duros, ainda que a mensagem cristã contrarie seus estilos de vidas e desejos.

Essa certeza deve ser acolhida plenamente pelos católicos, e, de maneira especial, por aqueles que, em seus apostolados, ainda insistem numa retórica agressiva e demasiado violenta. Se é certo que bondade não significa frouxidão, firmeza também não significa estupidez. Aqui, portanto, cabe o sábio conselho de São Josemaría Escrivá: "Sê intransigente na doutrina e na conduta. — Mas suave na forma. — Maça poderosa de aço, almofadada. — Sê intransigente, mas não sejas cabeçudo" [3].

Um papa comumente relacionado à defesa da Tradição é São Pio X. A sua heroica luta contra o modernismo, "síntese de todas as heresias", tornou-o um grande cavaleiro da fé para muitos católicos. Mas, atenção, a mera defesa dos costumes cristãos não torna ninguém santo. De fato, Pio X foi uma figura notável no Trono de Pedro porque soube conjugar a fidelidade aos princípios com a caridade necessária para com todas as almas, principalmente com a dos "inimigos". É particularmente tocante o relato que Dom Chautard apresenta em A alma de todo apostolado sobre esse grande pontífice:

"A um leigo eminente ouvimos contar o seguinte fato: Falando com S. Pio X, tinha esse leigo, no decurso da conversação, desfechado algumas palavras mordentes sobre um inimigo da Igreja. 'Meu filho, disse-lhe o papa, não aprovo a sua linguagem. Como castigo, ouça esta história. Acabara de chegar a sua primeira paróquia um sacerdote que eu conheci muito bem. Julgou ele do seu dever visitar todas as famílias: judeus, protestantes, até mações, ninguém foi excluído, e o pároco anunciou do púlpito que renovaria a visita todos os anos. Tanto se admiraram disto os colegas dele que se queixaram ao bispo. Este mandou logo chamar o acusado e repreendeu-o com veemência. Excelência, respondeu-lhe modestamente o pároco, Jesus no Evangelho ordena ao pastor que conduza ao aprisco todas as suas ovelhas, oportet illas addúcere. Como lograr esse resultado sem ir à procura delas? De mais a mais, eu nunca transijo com os princípios; limito-me a testemunhar meu interesse e minha caridade a todas as almas, mesmo às desgraçadas, que Deus me confiou. Anunciei essas visitas do púlpito; e se é desejo formal de V.Exª que cesse de as fazer, queira ter a bondade de me dar por escrito essa proibição, a fim de que se saiba que eu apenas obedeço às ordens de V.Exª. Abalado pelo acerto das palavras, o bispo não insistiu. O futuro veio depois dar razão a esse sacerdote que teve a alegria de converter algumas dessas almas desgarradas e impôs às outras grande respeito pela nossa santa religião. O humilde sacerdote veio a ser, por vontade de Deus, o papa que agora lhe dá, meu filho, esta lição de caridade. Seja, pois inabalável nos princípios, mas estenda sua caridade a todos os homens, mesmo que sejam os piores inimigos da Igreja'". [4]

Jesus foi um exemplo de virilidade na conduta com as pessoas de Sua época. Quando necessário, jogou cadeiras e mesas para o alto, admoestou e corrigiu a muitos. Mas, ao mesmo tempo, não deixou de compadecer-Se dos sofrimentos humanos, sobretudo na hora da crucifixão, hora em que Se calou e aceitou todas as humilhações pelo bem da humanidade. Essa é a bondade de Deus, da qual todos os cristãos devem tornar-se fiéis imitadores. Para tanto, não há melhor caminho que o da união com o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado pela remissão dos nossos pecados.

Neste mês de julho, mês do Preciosíssimo Sangue, cada católico aprenda a ser "manso e humilde de coração", pois o Reino dos Céus é dos que assim agem (cf. Mt 5, 5). E que Nossa Senhora das Dores interceda por todos nós aos pés da cruz de Nosso Senhor.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. FÁBER apud CHAUTARD, 2015, p. 114.
  2. CHAUTARD, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: Cultor de Livros, 2015, 252 p.
  3. São Josemaria Escrivá. Caminho, cap. 17, n. 397.
  4. CHAUTARD, op. cit., p. 115.

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Jesus deseja ser consolado por você

Hoje em dia, com tantos ataques à dignidade de Deus, é urgente reaprendermos as práticas reparadoras para consolarmos o Coração de Cristo.

Ainda sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Seu Preciosíssimo Sangue, é preciso tratar agora da necessária reparação às ofensas cometidas contra a honra de Nosso Senhor.

Infelizmente, embora faça parte da Tradição cristã, a prática da reparação não está mais na moda; pouquíssimas homilias ou pregações são dedicadas a esse tema tão importante para o crescimento na fé. Não são poucos, aliás, os que reprovam os sacrifícios de expiação e consolação, sentenciando-os ao passado medieval. Se a misericórdia de Deus é infinita, argumentam, não há por que fazer atos de reparação e desagravo, uma vez que nenhuma falta humana seria grande o suficiente para ofender o Coração de Jesus; afinal, Ele mesmo declarou: "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9, 13).

Outros ainda insistem que, tendo Cristo derramado Seu sangue até a última gota no dia da Paixão, as penitências já não fariam sentido e acabariam atentando contra o único e verdadeiro sacrifício redentor, pois insinuariam, de certo modo, uma insuficiência na Paixão de Cristo pela salvação dos pecadores.

É comum que, diante desse quadro de objeções aparentemente sensatas às práticas de reparação, o fiel leigo — ou mesmo sacerdote — sinta-se dissuadido a realizar qualquer obra de amor pela conversão dos pecadores, pelas almas do purgatório e, mais importante ainda, em desagravo aos ataques contra a dignidade de Deus. Acontece que a história dos santos, inclusive de santos doutores, como Tomás de Aquino e Agostinho, é tão fortemente marcada pelos sacrifícios e por atos de desagravo a Nosso Senhor que não há teologia neste mundo que possa impugnar ou relativizar a sua importância.

De qualquer modo, vale a pena esclarecer o equívoco daqueles que se opõem aos atos de reparação, a fim de que não reste qualquer dúvida sobre o assunto.

De fato, a misericórdia de Deus é infinita e cobre uma multidão de pecados. Falta nenhuma é capaz de superar o tamanho desse amor. Contudo, esse mesmo Deus, infinito em sua bondade, quis estabelecer uma relação com Sua criatura, quis tornar-se sua família e seu amigo. Ele não é um deus longínquo ou uma divindade pagã alheia às necessidades de suas criaturas, como acreditavam as antigas civilizações. Deus nos amou por primeiro, estabeleceu como que uma pedagogia, manifestando-se por meio de inúmeros profetas, até a plenitude dos tempos, quando enviou seu Filho unigênito, para que n'Ele todas as coisas fossem recapituladas (cf. Hb 1, 1-2).

Entende-se, pois, que Ele nos ama como amigo e que, por isso, somos chamados a dar uma resposta de amor, porque "a caridade é amizade do homem com Deus" [1]. Somente por meio dessa resposta o homem se realiza enquanto pessoa humana e torna-se aquilo que é chamado a ser. O desprezo pelo sagrado, porém, destrói a vocação e ratifica uma indiferença com relação Àquele de quem recebemos tudo.

Ora, se a amizade é o meio pelo qual Deus decidiu nos salvar, é óbvio que aqueles que O recusam põem em xeque a própria salvação, e não por uma limitação da misericórdia divina, que é infinita, mas por uma escolha trágica do indivíduo. Essa escolha, no entanto, pode ser atenuada justamente pela reparação que os irmãos desses infelizes oferecem a Deus, repetindo as palavras de Cristo na cruz: "Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Ademais, Cristo mesmo desejou os nossos sacrifícios pela redenção da humanidade ao fundar Sua Igreja como membro de Seu Corpo. Esse corpo místico também é objeto da Paixão, como atestam estas palavras de São Paulo: "Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja" (Cl 1, 24). Quando meditamos os sofrimentos de São Pio de Pietrelcina, cujas mãos se dignaram experimentar as próprias chagas do Senhor, ou as humilhações de Santa Bernadette, que teve de escutar da Madre Superiora que "não servia para nada", não há como não perceber a presença viva e atuante de Jesus carregando o madeiro até o calvário, pois, como diz São Paulo, "à medida que os sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa consolação por Cristo" (2 Cor 1, 5).

Note-se ainda o episódio do Horto das Oliveiras (cf. Mc 14, 32s). O mesmo Jesus, que tantas vezes se retirou para orar sozinho no deserto, aparece assustado, com Sua alma triste até a morte e com o desejo de ser consolado por Seus discípulos. Não se trata de uma carência afetiva, é certo, mas de um grande mistério: o Deus que se fez homem completo para redimir os demais e ensiná-los o caminho para o verdadeiro amor. Na Cruz se espelham todas as dores da humanidade. Portanto, a reparação às ofensas contra Jesus também nos une aos padecimentos de todo o gênero humano: "Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição" (2 Cor 1, 4). Quem ousaria pensar numa escola de amor melhor e mais eficaz do que essa?

É possível agora entender o que Jesus pretendia ensinar quando disse não querer "sacrifício", mas "misericórdia". O sacrifício ao qual Ele se referia era aquele baseado unicamente na lei; tratava-se de um ato legalista. As penitências reparadoras, por outro lado, têm como gênese o amor verdadeiro à Pessoa de Jesus, como explica o Papa Pio XI: "Quando a caridade dos fiéis se entibia, a caridade de Deus se apresenta para ser honrada com culto especial" [2]. A misericórdia não contraria as penitências, antes as incentiva.

A Igreja aprovou, ao longo de sua história, os mais variados tipos de mortificação e penitência, desde o jejum à abstinência de carne nas sextas-feiras. Algumas almas mais generosas, como São João Maria Vianney, São Josemaria Escrivá, São João Paulo II etc., não tiveram medo de dormir no chão — para experimentarem a frieza do calabouço onde Cristo ficou preso —, de flagelar-se com a disciplina — para sentirem os chicotes rasgarem as costas de Jesus —, ou de usar o cilício, para se unirem à Paixão redentora que foi coroada de espinhos. Existem, além disso, as práticas espirituais das "comunhões reparadoras" ou da chamada "hora santa" e também as sempre recomendáveis obras de misericórdia: dar de comer aos pobres, visitar os doentes, vestir os nus, dar bom conselho etc.

Recorde-se, porém, que a melhor prática de reparação às ofensas contra Deus é aquela em que nossa vontade é contrariada para conformar-se amorosamente à vontade do Criador, pois "quanto mais perfeitamente corresponda ao sacrifício do Senhor nossa oblação e sacrifício [...], tantos mais abundantes frutos de propiciação e de expiação para nós e para os demais perceberíamos" [3]. Neste sentido, que grande ocasião é o nosso cotidiano, cheio de contratempos e de frustrações, para amar e consolar o Coração de Jesus.

Nossa época exige dramaticamente atos de reparação às ofensas cometidas todos os dias contra o dulcíssimo Coração de Jesus. Isso ficou claro nas inúmeras aparições de Maria no último século e, em especial, na mensagem de Fátima, cujo centenário se aproxima. Naquela ocasião, Maria Santíssima escolheu três inocentes crianças para sofrerem pela conversão dos pecadores. Que testemunho belíssimo deram Lúcia, Jacinta e Francisco ao nosso século, que perde mais tempo cuidando do corpo em academias e clínicas de estética do que com a alma. Loucos! São João Maria Vianney mesmo disse que se as pessoas condenadas tivessem ao menos um segundo para poderem livrar-se do fogo eterno, o inferno estaria vazio. Ah, se os homens usassem o tempo que têm disponível para amar a Deus. Mas, desgraçadamente, esse tempo é gasto com bobagens, blasfêmias, pornografia e outras monstruosidades.

É tempo de misericórdia, proclamou o Papa Francisco. É tempo de dobrarmos nossos joelhos no chão, batermos no peito e clamarmos: "Miserere nobis, Domine, quia peccatores sumus — Tende piedade de nós, Senhor, porque somos pecadores".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1
  2. Pio XI, Carta Encíclica Miserentissimus Redemptor (8 de maio de 1928), n. 2.
  3. Ibid., n. 8.

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Um Deus que ama com coração humano

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus permite-nos caminhar para a santidade não mais como ideal longínquo, mas como realidade e meta de todo o gênero humano

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, da qual se costuma fazer memória no mês de junho, pertence ao patrimônio mais íntimo da fé cristã e, por isso, não pode ser simplesmente ignorada como se se tratasse de uma piedade popular qualquer. É isso que procurou ensinar o Papa Pio XII na sua belíssima encíclica Haurietis Aquas, cujo aniversário de 60 anos de publicação comemoramos recentemente.

Pio XII viu a necessidade de estabelecer algumas balizas com relação ao culto do Sagrado Coração depois que se começou a espalhar em alguns ambientes católicos a estranha ideia de que esta celebração, embora tão incentivada pelo Magistério, seria apenas um acréscimo às já inúmeras outras festas litúrgicas ou que ela atrapalharia o ensino da doutrina social da Igreja por fomentar "uma devoção sensível não enformada em altos pensamentos e afetos, e, portanto, mais própria para mulheres do que para pessoas cultas" [1].

É claro que o Santo Padre não podia silenciar a respeito de tão grave assunto, sendo o Coração de Cristo "o índice natural ou o símbolo da sua imensa caridade para com o gênero humano" [2]. E, assim, no dia 16 de maio de 1956, 18º ano de seu pontificado, o venerável servo de Deus Pio XII mandava publicar a encíclica Haurietis Aquas para defender e exaltar "a singular importância que o culto ao coração sacratíssimo de Jesus adquiriu na liturgia da Igreja, na sua vida interna e externa, e também nas suas obras" [3].

De maneira bastante objetiva, a encíclica de Pio XII retoma a doutrina acerca da união hipostática de Cristo para fundamentar a razão pela qual os católicos não só podem como devem adorar o Seu Coração e prestar-Lhe as devidas homenagens. Jesus, por meio de Sua encarnação, redimiu toda a humanidade, tomando para si não "um corpo ilusório e fictício", "como já no primeiro século da era cristã ousaram afirmar alguns hereges", mas a carne humana em todas as suas dimensões, exceto no pecado [4]. Com efeito, no Seu Coração existem três tipos de amor, com os quais ama o Pai e o gênero humano: o amor divino, o amor espiritual e o amor sensível.

Essa novidade da fé cristã — um Deus que ama também com amor humano — enche-nos de esperança, pois, agora sabemos, também nós podemos amá-Lo verdadeiramente com o auxílio de Sua graça. Não precisamos mais de sacrifícios de cabritos e novilhos, porque a Nova Aliança foi selada "com o sangue sacrossanto daquele que esses animais pacíficos e privados de razão [...] prefiguravam: 'o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo'" (cf. Jo 1, 29; Hb 9, 18-28; 10, 1-17) [5]. No dia da Paixão, "o coração de Cristo, unido hipostaticamente à pessoa divina do Verbo, sem dúvida deve ter palpitado de amor e de qualquer outro afeto sensível" [6]. "Esses sentimentos", esclarece Pio XII, "eram tão conformes e estavam tão em harmonia com a vontade humana, transbordante de caridade divina, e com o próprio amor infinito que o Filho tem com o Pai e com o Espírito Santo, que jamais se interpôs a mínima oposição e discórdia" entre eles [7].

De fato, a mancha do pecado original perverteu as paixões humanas, inclinando-as para os vícios. Essa condição lamentável impedia o homem de prestar um culto verdadeiro a Deus, entregando-se de todo coração ao Pai Santíssimo que está no Céu. O coração do homem estava como que dividido pela criatura e pelo Criador.

Com a encarnação de Cristo, por outro lado, a natureza humana é redimida e as palavras do profeta se cumprem: "Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne" (Ez 36, 26).

Eis aí! Em Cristo, o novo Adão, a humanidade recebe uma nova vida pela qual agora pode prestar um culto verdadeiro a Deus e amá-Lo devotamente. Por isso a contemplação do Sagrado Coração ocupa um lugar especial na Liturgia da Igreja, porque é por meio dessa contemplação que os homens podem ordenar as suas paixões, configurando-as à Paixão do Coração de Cristo, que é também um coração humano. O Catecismo explica assim:

"Quem crê em Cristo torna-se filho de Deus. Esta adoção filial transforma-o, dando-lhe a possibilidade de seguir o exemplo de Cristo. Torna-o capaz de agir com retidão e de praticar o bem. Na união com o seu Salvador, o discípulo atinge a perfeição da caridade, que é a santidade. Amadurecida na graça, a vida moral culmina na vida eterna, na glória do céu." [8]

No nosso curso sobre o protestantismo, enfatizamos a importância da communicatio idiomatum para compreender o modo como Deus operou a redenção da humanidade. Houve uma espécie de comunicação entre os idiomas divino e humano, de modo que aquilo que era próprio da carne também passou a ser próprio da Pessoa divina de Cristo: "[...] a humildade foi assumida pela majestade; a fraqueza, pelo poder; a mortalidade, pela eternidade; e, para pagar o débito da nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível [...]" [9]. A carne de Cristo é, portanto, instrumento de salvação. E mais especificamente no seu Coração transpassado, sinal e símbolo vivo de seu amor por nós, encontramos o caminho para a perfeição, pois, na humanidade de Jesus, a santidade deixa de ser apenas um ideal para tornar-se realidade e meta de todo o gênero humano.

É do coração de Jesus, aliás, que correm os rios de sangue e água, nos quais os Padres da Igreja sempre identificaram a fonte dos sacramentos, cujo efeito em nossas almas nada mais é que o da santificação.

Ora, é do Coração Sacratíssimo de Jesus que haurimos com gáudio, segundo as palavras do profeta, as inumeráveis "riquezas celestiais que nas almas dos fiéis infunde o culto tributado ao sagrado coração, purificando-os, enchendo-os de consolações sobrenaturais, e excitando-os a alcançar toda sorte de virtudes" [10].

Vêem-se logo os motivos de Pio XII para exaltar e defender esta devoção tão sagrada, que encerra em si mesma todo o tesouro da nossa redenção. Não há como negar, a verdade é uma só: o Coração de Jesus é o grande oceano das graças de Deus; n'Ele — e somente n'Ele — é que devemos navegar!

Sagrado Coração de Jesus,
tende piedade de nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Pio XII, Carta Encíclica Haurietis Aquas (16 de maio de 1956), n. 6.
  2. Ibid., n. 12.
  3. Ibid., n. 11.
  4. Ibid., n. 21.
  5. Ibid., n. 18.
  6. Ibid., n. 22.
  7. Idem.
  8. Catecismo da Igreja Católica, n. 1709.
  9. Leão Magno, Carta Lectis dilectionis tuae, ao bispo Flaviano de Constantinopla (13 de junho de 449), cap. 3 (DH 293).
  10. Papa Pio XII, op. cit., n. 2.

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Homilia de Missa Votiva do Preciosíssimo Sangue de Cristo

Não foi por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que fomos resgatados de nossa vã maneira de viver, mas pelo precioso sangue de Cristo.

O calendário da liturgia antiga dedicava o dia 1.º de julho à Festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo após a reforma litúrgica, no entanto, é bastante salutar que mantenhamos viva esta devoção, cuja origem consta nas próprias Escrituras:

"Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo." ( 1 Pd 1, 18)

Para saber em que consiste esse culto e como podemos vivê-lo de maneira plena, divulgamos a você esta homilia especial feita pelo Padre Paulo Ricardo durante Missa votiva do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor — Missa rezada na manhã de hoje, na Paróquia Cristo Rei, de Várzea Grande (MT).

Escute e aprofunde-se no mistério do sangue precioso que comprou a nossa salvação:

Para fazer download desta homilia, basta clicar aqui.

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Como fazer do Pai Nosso uma arma espiritual?

Se nem todos podem realizar um ritual de exorcismo como o dos filmes, todos os cristãos podem, sem exceção, rezar a Oração do Senhor. E isso não é pouca coisa.

Por Pe. Dwight Longenecker | Tradução: Equipe CNP — Certa vez, durante uma palestra conduzida por um importante autor e psiquiatra cristão, três mulheres entusiasmadas lhe contaram que havia uma seita de bruxas em sua cidade e elas queriam saber o que fazer para acabar com isso.

O médico era uma pessoa de renome e, ao mesmo tempo, de grande espiritualidade. Ele disse com calma: "Pela minha experiência, na maioria dos casos, tudo o que é necessário para livrar um lugar do mal é reunir um grupo de cristãos fiéis e rezar em silêncio, repetindo todos juntos a oração do Pai Nosso e concentrando-se na frase 'Livrai-nos do mal'." Ele sorriu e deu sequência à sua fala. "Isso geralmente funciona. Alguém tem mais alguma pergunta?"

Acredito que as senhoras ficaram um pouco desapontadas. Talvez elas quisessem fazer um exorcismo dramático cheio de cabeças girando, levitações, água benta e sinais extraordinários. É verdade que, não raramente, muitas situações exigem um exorcismo. Nesses casos, só um exorcista treinado pode realizar o ritual adequado, contando com a autorização do bispo local.

Todos os cristãos batizados e confirmados, porém, são chamados a ser soldados na batalha espiritual, e um uso consciente da Oração do Senhor pode ser um instrumento bem prático e concreto para derrotar o demônio e libertar um lugar ou uma pessoa da influência maligna.

Às vezes nós nos esquecemos que uma dimensão importante do ministério do Senhor era a Sua batalha contra Satanás. Imediatamente depois de ser batizado, Jesus é enviado ao deserto para confrontar o pai da mentira. Logo depois, vemo-Lo expulsando demônios; curando os doentes do corpo, da mente e do espírito; e, finalmente, através de Sua paixão e ressurreição, esmagando de uma vez por todas a antiga serpente.


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Nesse ínterim, Ele também nos dá o Pai Nosso como uma arma na guerra, deixando nessa oração três expressões intimamente relacionadas à batalha que nós devemos travar com a Sua ajuda.

A primeira dessas expressões é o pedido "Perdoai-nos as nossas ofensas". Antes de qualquer coisa, nós pedimos perdão por nossos pecados, e isso está ligado com a ação de perdoarmos os outros. Quando dizemos, "assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido", nós estamos agindo como canais do perdão de Deus, que flui através de nós em direção ao próximo.

O primeiro passo consiste, pois, em rezar o Pai Nosso bem devagar, com uma ênfase nessas duas frases. Quando fazemos isso depois de um bom exame de consciência, a Oração do Senhor se converte em um poderoso ato de contrição. Santo Tomás de Aquino ensina, por exemplo, que os nossos pecados veniais podem realmente ser perdoados no Pai Nosso, se a nossa oração incluir "um movimento de detestação dos pecados". É claro que, se a nossa consciência nos acusa de um pecado mortal, o nosso ato de contrição não basta, e devemos recorrer ao sacramento da Reconciliação.

Ao rezar uma segunda vez a Oração do Senhor, focamo-nos no pedido "Não nos deixeis cair em tentação", pedindo, desta vez, que não sejamos enganados pelas vozes que pretendem nos levar ao pecado. Por "tentação", nós não falamos simplesmente da atração que temos para o pecado, referimo-nos também à tentação ativa que o demônio coloca diante de nós. Em outras palavras, "Senhor, defendei-nos dos ataques do mal" ou "Mantende-nos a salvo das contínuas armadilhas do mal. Dirigi-nos para perto da luz e para longe da escuridão".

Essa segunda vez rezando está claramente ligada à terceira, quando damos ênfase à última petição, "Livrai-nos do mal". Essa é a petição final e mais poderosa de libertação, porque, afinal, é nisso que consiste uma oração "de cura e libertação": livrar uma pessoa da escravidão do mal. É muito simplista imaginar que a escravidão ao demônio só se dê sob a forma da possessão diabólica. Muitas pessoas sofrem como escravas do mal: algumas estão presas a vícios, comportamentos sexuais obsessivos ou outros pecados particulares; outras são escravas das drogas, de maus relacionamentos; e outras ainda são escravas de sua auto-estima negativa, de hábitos destrutivos, de depressão, do medo e da ansiedade. Em todas essas dificuldades pode haver uma dimensão espiritual. Maus espíritos podem agir sobre uma pessoa prejudicando a saúde do seu corpo e do seu espírito.

De maneira bem prática e serena, então, podemos lutar contra o mal por meio de um uso consciente e intencional da Oração do Senhor: (1) para recebermos e darmos perdão, (2) para não cairmos em tentação e (3) para sermos libertos dos poderes malignos que nos acorrentam.

Finalmente, o Pai Nosso pode ser usado ainda não só para nós mesmos, mas como uma intercessão pelos outros. É inclusive um ato de misericórdia rezar pelo próximo que está escravizado pelo pecado, pedindo ao Senhor que o liberte.

Essa oração nos une com a oração de Jesus. Foi assim que Ele rezou e era isso o que Ele pedia. Acredito que esse aspecto do Pater Noster seja o mais importante e, no entanto, é o mais negligenciado de todos. Quando essa oração é rezada com simplicidade, serenidade e reflexão, nós unimos as nossas orações às de Cristo e a nossa vontade à d'Ele pela salvação do mundo e pela libertação das almas.

Fonte: Pantheos | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere