| Categoria: Espiritualidade

O que as mortes repentinas nos ensinam

Nada mais certo que a morte e, ao mesmo tempo, nada tão incerto quanto a hora em que ela vem.

O Brasil e o mundo acordaram em choque no dia de hoje, 29 de novembro, com a trágica notícia do acidente aéreo envolvendo a equipe de futebol da Chapecoense. A delegação do clube viajava para a Colômbia, onde disputaria um título sul-americano inédito. O avião que conduzia os jogadores e outros profissionais caiu próximo de Medellín. Segundo as autoridades colombianas, há mais de 70 mortos e apenas 5 sobreviventes.

Poucas palavras servem, na verdade, para um momento como este. Quanta dor não devem estar sentindo neste momento, especialmente os amigos e familiares mais próximos das vítimas! Por eles, por todos os que experimentaram nessa tragédia a perda de seus entes queridos, não nos esqueçamos de oferecer as nossas orações e, se possível, o nosso conforto. Também pelas almas desses jogadores que se vão, rezemos para que recebam de Deus o "repouso eterno" e sejam iluminados pela "luz perpétua", como pedimos na tradicional oração do Réquiem.

De nossa parte, é necessário que tiremos, desses fatos, lições para a nossa vida. Diferentemente dos homens, Deus se comunica conosco não só por meio de palavras e ações, mas também através dos acontecimentos da história.

Por isso, para ajudar-nos a fazer uma verdadeira meditação nesse sentido, nada melhor que recorrer à sabedoria de um doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório, autor da excelente obra de espiritualidade "Preparação para a morte". Transcrevemos abaixo o capítulo 5.º desse livro, que fala sobre a "incerteza da hora da morte".


Incerteza da hora da morte

Santo Afonso Maria de Ligório

Estote parati, quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet.
Estai prevenidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem (Lc 12, 40).

PONTO I

É certíssimo que todos devemos morrer, mas não sabemos quando. "Nada há mais certo que a morte, porém nada mais incerto que a hora da morte" [1]. Meu irmão, estão fixados ano, mês, dia, hora e momento em que terás que deixar este mundo e entrar na eternidade; porém nós o ignoramos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de estarmos sempre bem preparados, nos disse que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite: Sicut fur in nocte, ita veniet (1Ts 5, 2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperamos, virá Ele a julgar-nos: Qua hora non putatis, Filius hominis veniet (Lc 12,40). Diz São Gregório que Deus nos oculta, para nosso bem, a hora da morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer: De morte incerti sumus, ut ad mortem semper parati inveniamur [2]. A morte pode levar-nos em qualquer momento e em qualquer lugar; por isso, se queremos morrer bem e salvar-nos, é preciso, diz São Bernardo que a estejamos esperando em qualquer tempo ou lugar: Mors ubique te exspectat; tu ubique eam exspectabis [3].

Ninguém ignora que deve morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista. Mesmo os anciãos mais decrépitos e as pessoas mais enfermas não deixam de alimentar a ilusão de que hão de viver mais três ou quatro anos. Eu, porém, digo o contrário. Devemos considerar quantas mortes repentinas vemos em nossos dias. Uns morrem caminhando, outros sentados, outros dormindo em seu leito. É certo que nenhum deles julgava morrer tão subitamente, no dia em que morreu. Afirmo, ademais, que de quantos no decorrer deste ano morreram em sua própria cama, e não de repente, nenhum deles imaginava que devia acabar sua vida neste ano. São poucas as mortes que não chegam inesperadas.

Assim, pois, cristão, quando o demônio te provoca a pecar, com o pretexto de que amanhã confessarás, dize-lhe: Quem sabe se não será hoje o último dia da minha vida? Se esta hora, se este momento, em que me apartasse de Deus, fosse o último para mim, de modo que já não restasse tempo para reparar a falta, que seria de mim na eternidade? Quantos pobres pecadores tiveram a infelicidade de ser surpreendidos pela morte ao recrearem-se com manjares intoxicados e foram precipitados no inferno? Sicut pisces capiuntur hamo, sic capiuntur homines in tempore malo: "Assim como os peixes caem no anzol, assim são colhidos os homens pela morte num momento ruim" (Ecle 9, 12). O momento ruim é exatamente aquele em que o pecador ofende a Deus. Diz o demônio que tal desgraça não nos há de suceder; mas é preciso responder-lhe: E se suceder, que será de mim por toda a eternidade?

Afetos e súplicas

Senhor, não é este o lugar em que me devia achar agora, mas sim no inferno, tantas vezes merecido por meus pecados: Infernus domus mea est ( 17, 13). Mas São Pedro me adverte que "Deus nos espera com paciência e amor, não querendo que ninguém se perca, mas que todos se convertam à penitência" (2Pd 3, 9). Por isso, meu Deus, tivestes paciência extremada para comigo e me suportastes. Não quereis que me perca, mas que, arrependido e penitente, me converta a Vós. Sim, meu Senhor, retorno a vós, prostro-me a vossos pés e peço misericórdia. Para me perdoardes, Senhor, é preciso grande e extraordinária misericórdia, porque vos ofendi com pleno conhecimento do que fazia. Outros pecadores também vos ofenderam, mas não dispunham das luzes que me outorgastes. Apesar disso, mandais que me arrependa de minhas culpas e espere o vosso perdão. Pesa-me, meu querido Redentor, de todo o coração de vos ter ofendido e espero o perdão pelos merecimentos de vossa Paixão. Ó meu Jesus, que sois inocente, que quisestes morrer qual réu na cruz e derramar todo o vosso sangue para lavar minhas culpas! O sanguis innocentis, lava culpas poenitentis: "Ó sangue inocente, lavai as culpas de um penitente!"

Ó Pai Eterno, perdoai-me por amor a Cristo Jesus! Atendei-lhe as súplicas agora que, como meu advogado, intercede por mim. O perdão, porém, não me basta, ó Deus digno de amor infinito; desejo ainda a graça de amar-vos. Amo-vos, ó Soberano Bem, e vos ofereço para sempre meu corpo, minha alma, minha vontade, minha liberdade. Doravante, não só quero evitar as ofensas graves, mas também as mais leves, e fugir de toda a má ocasião. Ne nos inducas in tentationem. Livrai-me, por amor de Jesus, de toda ocasião em que possa ofender-vos. Livrai-me do pecado, e castigai-me depois como quiserdes. Aceito todas as enfermidades, dores e perdas que vos aprouver enviar-me, contanto que não perca vosso amor e vossa graça. Petite, et accipietis: Prometestes dar tudo que vos for pedido (Jo 16, 24). Rogo-vos que me concedais somente a perseverança e o vosso amor.

Ó Maria, Mãe de misericórdia, rogai por mim, que confio em vós!

PONTO II

O Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida. "Se não vos converterdes, vibrará sua espada" (Sl 7, 13). Vede — diz em outra parte — quantos são os desgraçados que não quiseram emendar-se, e a morte repentina os surpreendeu quando não esperavam, quando viviam despreocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida: Cum dixerint pax, et securitas, tunc repentinus eis superveniet interitus (1Ts 5, 3). Disse-nos também: "Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer" (Lc 13, 5). Por que tantos avisos do castigo antes de infligi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta? Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos — diz Santo Agostinho [4].

É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? "Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te perderás" (Ecle 5, 7). Para salvar-te, meu irmão, deves abandonar o pecado. "E se algum dia hás de abandoná-lo, por que não o deixas desde já?", pergunta Santo Agostinho [5]. Esperas, talvez, que chegue a morte? Mas esse instante não é tempo do perdão, senão da vingança. "No tempo da vingança, te perderás".

Se alguém te deve soma considerável, tratas de assegurar o pagamento por meio de obrigação escrita, firmada pelo devedor, dizendo: Quem sabe o que pode suceder? Por que, então, deixas de usar da mesma precaução, tratando-se da alma, que vale muito mais que o dinheiro? Por que não dizes também: quem sabe o que pode ocorrer? Se perderes aquela soma, não estará ainda tudo perdido e ainda que com ela perdesses todo o patrimônio, ficaria a esperança de o poder recuperar. Mas se, ao morrer, perdesses a alma, então, sim, tudo estaria irremediavelmente perdido, sem esperança de recobrar coisa alguma. Cuidas em arrolar todos os bens de que és possuidor, com receio de que se percam quando sobrevier morte repentina. E se esta morte imprevista te achasse na inimizade para com Deus? Que seria de tua alma na eternidade?

Afetos e súplicas

Ah! meu Redentor, derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para salvar minha alma, e eu, quantas vezes a perdi, confiando em vossa misericórdia! Abusei de vossa bondade para vos ofender; mereci, por isso, que me deixásseis morrer e precipitásseis no inferno. Estamos, pois, como que numa competição. Vós usando piedade comigo, eu vos ofendendo; vós a correr para mim, eu fugindo de vós; vós, dando-me tempo para reparar o mal que pratiquei, eu, valendo-me desse tempo para acrescentar injúria a injúria. Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos.

Ah! meu Jesus! Como podeis amar-me ao ponto de ir à minha procura, quando eu vos repelia? Como cumulastes de tantos benefícios a quem de tal modo vos ofende? De tudo isto vejas quando desejais não me ver perdido. Arrependo-me de ter ultrajado a vossa infinita bondade. Aceitai, pois, esta ovelha ingrata que volta a vossos pés. Recebei-a e ponde-a aos ombros para que não fuja mais. Não quero apartar-me de vós, mas amar-vos e pertencer-vos inteiramente. E desde que seja vosso, gostosamente aceitarei qualquer trabalho. Que desgraça maior poderia afligir-me do que viver sem vossa graça, afastado de vós, que sois meu Deus e Senhor, que me criou e que morreu por mim? Ó malditos pecados, que fizestes? Induzistes-me a ofender a meu Salvador, que tanto me amou.

Assim como vós, meu Jesus, morrestes por mim, assim deverei eu morrer por vós. Morrestes pelo amor que me tendes. Eu deverei morrer de dor por vos ter desprezado. Aceito a morte como e quando vos aprouver enviá-la. Mas, já que até agora pouco ou nada vos hei amado, não quisera morrer assim. Dai-me vida para que vos ame antes de morrer. Para isso, renovai meu coração, feri-o, inflamai-o com o vosso santo amor. Atendei-me, Senhor, por aquela ardentíssima caridade que vos fez morrer por mim. Amo-vos de toda a minha alma. Não permitais que vos perca. Dai-me a santa perseverança. Dai-me o vosso amor.

Maria Santíssima, minha Mãe e meu refúgio, sede minha advogada!

PONTO III

"Estai preparados" — O Senhor não disse que nos preparemos ao aproximar-se a morte, mas que estejamos preparados. No transe da morte, nesse momento cheio de perturbação, é quase impossível pôr em ordem uma consciência embaraçada. Isto nos diz a razão. Nesse sentido Deus também advertiu-nos, dizendo que não virá então perdoar, mas vingar o desprezo que fizéssemos da sua graça (Rm 12, 19). "Justo castigo — disse Santo Agostinho — para aquele que não quis salvar-se quando pôde; agora, quando quer, não o pode" [6]. Dirá todavia alguém: Quem sabe? talvez nesse momento me converta e me salve. Mas quem é tão néscio e se lança num poço dizendo: Quem sabe? atirando-me, talvez fique com vida e não morra? Ó meu Deus, que é isto? Quanto o pecado cega o espírito e faz perder até a razão! Quando se trata do corpo, os homens falam como sábios, e como loucos, quando se trata da alma.

Meu irmão, quem sabe se esta reflexão que lês será o último aviso que Deus te envia? Preparemo-nos sem demora para a morte, a fim de que não nos encontre de improviso. Santo Agostinho disse que o Senhor nos oculta a última hora da vida com o fim de que todos os dias estejamos preparados para morrer: Latet ultimus dies, ut observentur omnes dies [7]. São Paulo nos previne que devemos procurar a salvação não só temendo mas tremendo: Cum metu et tremore vestram salutem operamini (Fl 2, 12). Conta Santo Antonino que certo rei da Sicília, para manifestar a um particular o grande medo com que se sentava no trono, o fez sentar à mesa com uma espada suspensa sobre sua cabeça por um fio delgado, de sorte que o convidado, vendo-se nessa terrível situação, mal podia levar à boca uma migalha de alimento. Todos estamos em semelhante perigo, já que dum instante para outro pode cair sobre nós a espada da morte, resolvendo o negócio da eterna salvação [8].

Trata-se da eternidade. "Se a árvore cair para o norte ou para o sul, em qualquer lugar onde cair aí ficará" (Ecle 11,3). Se na morte nos acharmos na graça de Deus, qual não será a alegria da alma vendo que tudo está seguro, que já não pode perder a Deus e que, para sempre, será feliz? Mas, se a morte surpreende a alma em estado de pecado, que desespero se apoderará do pecador ao dizer: "Então erramos" (Sb 5, 6), e para minha desgraça já não há remédio em toda a eternidade! Foi este receio que fez exclamar o bem-aventurado João de Ávila, apóstolo da Espanha, quando lhe anunciaram a aproximação da morte: "Oh! se tivesse um pouco mais de tempo para me preparar para a morte!" [9]. Foi por isso que o abade Agatão, ainda que morresse depois de haver exercido a penitência durante muitos anos, dizia: "Que será de mim? Quem conhece os juízos de Deus?" [10] Também Santo Arsênio tremia à vista da morte e, perguntando-lhe os seus discípulos a causa, respondeu: "Meus filhos, já não é novo em mim esse temor: tive-o sempre, em toda a minha vida" [11]. Mais que ninguém tremia o Santo Jó, dizendo: "Que será de mim quando Deus se levanta para me julgar, e que lhe direi se me interrogar? ( 31, 14).

Afetos e súplicas

Ó meu Deus! Quem me tem amado mais do que vós? E quem vos desprezou e ofendeu mais do que eu? Ó sangue, ó chagas de Cristo, sois minha esperança! Pai Eterno, não olheis meus pecados. Fitai as chagas de Jesus Cristo; contemplai vosso Filho muito amado, que morre de dor por mim e vos implora que me perdoeis. Pesa-me do íntimo de minha alma, meu Criador, de vos ter ofendido. Criastes-me para que vos ame, e vivi como se me tivésseis criado para vos ofender. Pelo amor de Jesus Cristo, perdoai-me e dai-me a graça do vosso amor.

Se outrora resisti à vossa santa vontade, agora já não quero resistir, mas fazer tudo o que me ordenais. Ordenais que deteste os ultrajes que voz fiz: detesto-os de todo o coração. Ordenais que me resolva a não vos tornar a ofender; pois bem, faço o firme propósito de antes perder mil vezes a vida do que a vossa graça. Ordenais que vos ame de todo o coração; pois bem, de todo o coração vos amo e a nada quero amar senão a vós. De hoje em diante, sereis o único amado de minha alma, o meu único amor. Peço-vos o dom da perseverança, e de vós o espero obter. Pelo amor de Jesus Cristo, fazei com que vos seja sempre fiel e possa dizer com São Boaventura: "Um só é meu amado; um só é meu amor". Não quero que minha vida sirva para vos desagradar, senão para chorar as ofensas que vos fiz e para vos amar muito.

Ó Maria, minha Mãe, intercedei por todos os que a vós se recomendam e rogai também a Jesus por mim!

Referências

  1. Essa citação, atribuída por Santo Afonso a um autor antigo de pseudônimo "Idiota", encontra-se ipsis litteris em um opúsculo de autor incerto intitulado De excellentia SS. Sacramenti et de dignitate sacerdotum, "Sobre a excelência do Santíssimo Sacramento e a dignidade dos sacerdotes" (PL 184, 991).
  2. Moralia in Iob, l. 12, c. 38, n. 43 (PL 75, 1006).
  3. Meditationes piissimae de cogn. hum. conditionis, c. 3, n. 10 (PL 184, 491).
  4. Sermo 22, c. 3, n. 3 (PL 38, 150).
  5. Cf. Confessiones, l. 8, c. 12, n. 28 (PL 32, 762); Possidius, Vita S. Augustini, c. 27 (PL 32, 57).
  6. De libero arbitrio, l. 3, c. 18, n. 52 (PL 32, 1296).
  7. Sermo 39, c. 1, n. 1 (PL 38, 241).
  8. Summa theol., pars IV, tit. 14, c. 8, par. 3 (IV, Veronae 1740, col. 818).
  9. Mugnos L., Vita dell'apostolico predicatore il P. M.o Giovanni d'Avila, l. 3, c. 23 (Milano 1667, 400-401).
  10. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 161 (PL 73, 793).
  11. Cf. Vitae Patrum, l. 3, n. 163 (PL 73, 794).

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“O satanismo aumenta porque se reza pouco”, diz exorcista

O satanismo está em alta. A razão, para este exorcista da Itália, é que “abandonamos a fé, as pessoas rezam pouco e de forma errada, muitas vezes”.

O satanismo está aumentando. A razão? "Abandonamos a fé, as pessoas rezam pouco e de forma errada, muitas vezes". As palavras de alerta são do padre italiano Ermes Macchioni, exorcista da diocese de Reggio Emilia, em entrevista a La Fede Quotidiana.

O sacerdote afirma que "o satanismo, com as consequências terríveis que traz consigo, efetivamente está em crescimento, e isso deveria levar-nos a fazer um exame de consciência":

"Cada vez mais, parece que perdemos a fé, a sociedade vive de modo pagão e podemos dizer que está em curso uma tentativa, ainda que difusa, de eliminar Deus da vida pública para substituí-lo pelo próprio 'eu'. Hoje o ser humano se sente autorreferencial, pensa que não precisa de Deus. Tudo isso leva a formas de idolatria, como o dinheiro, o sucesso, o poder custe o que custar, o sexo desordenado e contra o projeto de Deus, a pornografia... Além disso, reza-se muito pouco e mal ainda por cima."

Mas por que se reza mal? O padre Ermes explica que tem notado muitas "adaptações pessoais" às orações. "Cada um acrescenta, retira e coloca o que bem entender", muitas vezes "sem levar em consideração a rica bagagem da Igreja e da sua Tradição".

A declaração desse exorcista faz-nos lembrar um adágio antigo, que vemos repetido no Catecismo da Igreja Católica (§ 1124), segundo o qual "lex orandi, lex credendi", isto é, "a lei da oração é a lei da fé". A liturgia católica, os sacramentos que celebramos, todos eles estão de acordo, adequam-se, por assim dizer, àquilo em que cremos — em atenção especial Àquele em quem cremos, "que não se engana nem nos pode enganar". Os fiéis, por sua vez, são chamados a aderir a essa fé, renunciando às suas opiniões privadas, aos seus gostos pessoais, a fim de entrar na unidade da Igreja. E isso transforma — ou pelo menos deveria transformar — todo o modo como eles rezam.

O que se percebe com muita frequência, no entanto, é justamente o que afirma o pe. Macchioni: as pessoas têm substituído Deus por uma religião "autorreferencial", na qual o objeto de suas preocupações, em última instância, são elas mesmas. Levamos as nossas vidas de maneira muito despreocupada, fazendo pouco caso dos Mandamentos, dos Sacramentos e do próximo, e gastamos todo o tempo que possuímos pensando só em nós mesmos. Quando as coisas começam a não dar certo, é então que nos voltamos para Deus. Mas seria por acaso essa "conversão" para chorarmos os nossos pecados? Para traçarmos um projeto de mudança de vida? Para nos comprometermos de verdade com Deus e com a sua Igreja? Não, de modo nenhum! Voltamo-nos para Deus... tão somente a fim de que Ele nos sirva. Nossa fé não é a Fé da Igreja, com "f" maiúsculo, virtude sobrenatural infundida por Deus em nossas almas. Cremos sim, mas em nós mesmos. Dizemo-nos cristãos, mas seguimos, na verdade, a religião do próprio "eu". Rezamos o "Pai nosso", mas é da boca para fora que dizemos: "Seja feita a vossa vontade", já que é a nossa vontade própria o que queremos ver satisfeita.

O que isso tem a ver com o aumento do satanismo? A resposta é: tudo! Todas as vezes, de fato, que o verdadeiro Deus é substituído em nossos corações, é em direção ao seu inimigo que caminham as nossas almas. Vale a pena lembrar, nesse sentido, uma lição de Santo Tomás de Aquino, na qual ele explica por que Satanás é cabeça de todos os maus, assim como Cristo é cabeça da Igreja:

"Cabe ao que governa conduzir os governados a seu fim. O fim do demônio é fazer a criatura racional voltar as costas para Deus. Por isso, desde o princípio, tentou remover o homem da obediência ao mandamento divino. Voltar as costas para Deus tem razão de fim enquanto é desejado sob a aparência de liberdade, segundo Jr 2, 20: 'Há muito quebraste teu jugo, rompeste teus laços, dizendo: Não servirei'. Portanto, enquanto pelo pecado alguns são levados a esse fim, incidem sob o regime e governo do demônio. E por isso ele é chamado sua cabeça."

Assim, para que o satanismo cresça no mundo, não é necessário — como muitos poderiam pensar — filiar-se a uma seita demoníaca e prestar culto aberto e declarado ao príncipe das trevas. Nós sabemos que, infelizmente, existem muitas pessoas que fazem isso, mas elas definitivamente não constituem a maioria do mundo — e estão longe de sê-lo. O problema maior são aquelas pessoas que foram batizadas, sentam-se nos bancos de nossas igrejas (às vezes, participam da Missa todos os domingos até!), mas têm vendidas as suas almas, pelo pecado mortal, ao inimigo de Deus. A expressão pode assustar, mas é exatamente isso o que diz Santo Tomás, quando comenta a petição dominical "Não nos deixeis cair em tentação": "Ser tentado é humano", ele diz, "mas consentir é ter parte com o diabo."

Sempre portanto que, dando ouvidos aos apelos de nossa carne, cedemos àquele pecado de impureza na Internet, cobiçamos a mulher que está caminhando na rua, odiamos o próximo com olhares fulminantes, palavras e até agressões, é o reino de Satanás que vem a nós, e é para o inferno que se encaminha a nossa alma, caso não nos arrependamos e não procuremos depressa o sacramento da Confissão. A razão disso é bem simples: Deus e o diabo não podem conviver juntos na mesma casa, ou, para utilizar a linguagem do Evangelho, "ninguém pode servir a dois senhores" (Mt 6, 24).

Há muitos todavia que lêem estas linhas — e Deus queira que não seja você uma dessas pessoas —, para as quais tudo o que aqui vai escrito não passa de "letra morta". No fundo de seus corações, esses indivíduos já declararam a Deus o seu "Não servirei". No começo, elas até se incomodavam com uma ou outra coisa errada que, sabendo ser má, se envergonhavam de cometer e de contar a alguém que praticaram. Depois, no entanto, adquirido o mau hábito, elas não só começaram a dormir tranquilamente em seus pecados, como passaram a incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo, numa tentativa patética de apagar de suas consciências o peso enorme que carregam todos aqueles que vivem sob o jugo do demônio.

Lá no fundo, no entanto, elas sabem que estão procurando a felicidade onde ela não existe; sabem que serão em vão todos os seus esforços para se verem livres de Deus. Dentro de seus corações permanece o chamado de Cristo à sua alma, silencioso mas audível, convidando-as à conversão e a uma autêntica mudança de vida.

Sim, é possível mudar de vida e, com a graça de Deus, começar tudo de novo! Se você ainda não tem vida de oração, comece agora mesmo a cultivá-la, pedindo Àquele que é todo-poderoso as graças necessárias para levar, de agora em diante, uma vida totalmente diferente da que você tem levado até este momento. Se as suas orações até aqui têm sido tão somente pedidos fúteis de riquezas, conforto e felicidade passageira neste mundo, mude o foco da sua oração e comece a rezar bem! Deus quer atender às nossas orações, mas Ele, muito mais do que nós, sabe o que nos é conveniente e não nos dará senão o que nos ajudar a conseguir a nossa eterna salvação. Peçamos insistentemente a Ele, portanto: "Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu", pois só assim conseguiremos opor resistência ao terrível avanço do mal que vemos no mundo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Comunhão e métodos anticoncepcionais

A contracepção no casamento leva à “contracepção na comunhão”: ambos os sacramentos podem ser profanados e tornar-se igualmente infrutíferos.

Por Robert B. Greving | É um enigma: por que tantos católicos recebem a Eucaristia — que é a fonte de toda graça e o sinal de comunhão com a Igreja Católica — e ainda apoiam e praticam a contracepção, o aborto e relações antinaturais como o "casamento" homossexual, coisas que estão todas em oposição direta com os ensinamentos da Igreja? Como pode existir uma incoerência tão grande?

Essa divisão entre a Comunhão eucarística e os seus frutos na vida pública pode estar acontecendo devido a uma separação, em muitos católicos, da "comunhão" conjugal e dos seus frutos na vida privada, isto é, dentro do casamento. Dizendo de modo mais claro, a contracepção no casamento leva à "contracepção na comunhão": ambos os sacramentos podem ser profanados e tornar-se igualmente infrutíferos.

Em vários lugares Nosso Senhor traça paralelos entre o Matrimônio e o nosso relacionamento com Ele. Sob essa perspectiva, além de ser um sacramento, o casamento existe para mostrar-nos como deveria ser o nosso relacionamento com Jesus: uma relação de abertura e de compromisso exclusivo e total. Se comparamos o que acontece a um casal que faz uso de métodos contraceptivos, com o que acontece a um católico que comunga nessas condições, chegamos a uma conclusão bem interessante.

A participação na Eucaristia através da Comunhão e as relações conjugais existem ambas para ser atos que geram vida, atos fecundos. Ambas envolvem grandes riscos e exigem grande fé das pessoas envolvidas. Em ambas, deve haver uma comunhão de carne (cf. Mc 10, 8; Jo 6, 53s). Conta-se que G. K. Chesterton tinha o momento da Comunhão em tão alta conta, que chegava mesmo a suar quando entrava na fila para comungar.

Santo Tomás de Aquino ensina que, mesmo havendo uma quantidade de graça infinita nos sacramentos, isso não significa que as pessoas recebam uma quantidade infinita de graça. A quantidade de graça que alguém recebe depende da preparação, da disposição, da atenção e da ação de graças com que a pessoa se aproxima do sacramento. Uma disposição essencial que deveria estar presente, tanto no Matrimônio quanto na Comunhão, é a de abertura e de auto-entrega. Trata-se de um ato de fé no esposo que se recebe.

Nosso Senhor faz isso na Eucaristia. Assim como entregou o seu corpo por nós na Cruz, Cristo está entregando o seu corpo a nós na Eucaristia, sem reservas, sem o pedir de volta, querendo, mais do que podemos imaginar, que emerja a Vida desse encontro.

O casal aberto à vida no ato conjugal sabe que está entregando o controle sobre suas vidas. Eles estão fazendo a maior aposta natural que existe. Crianças mudam vidas (para usar uma expressão leve). Elas roubam seus planos, sua agenda, suas metas. Reviram por completo o modo como você lida com o mundo. Tornam você materialmente mais pobre. Nos supermercados e nas festas, rendem-lhe olhares surpresos e talvez até maldosos. Ter mais de 2 filhos nos dias de hoje torna aberta a temporada de comentários sarcásticos e de sobrancelhas arqueadas. O mesmo acontece, porém, com qualquer um que leve uma vida em Cristo.

Ambas as coisas aterrorizam e impõem medo. Mas ambas, também, constituem a nossa maior felicidade.

Nossa oração antes, seja do ato conjugal seja da recepção da comunhão, deveria ser: "Tornai-me aberto, Senhor, para a vida que Vós desejais que venha dessa união."

Mas não é assim com o casal que usa métodos anticoncepcionais. Na melhor das hipóteses, o que eles estão dizendo é: "Eu te amo; eu quero ser um contigo; eu quero dar-me a ti e quero que te dês a mim, mas…". Mas o quê? "Mas eu não quero que venha nada disso. Eu não quero a vida que é fruto natural do ato. Eu quero a aparência de união, mas não o risco. Eu quero o show da entrega e do compromisso, mas não a prova". Em muitos casos, o que está implícito não é "Eu quero dar-me a ti e que te dês a mim", mas sim "Eu quero ser saciado". E isso é o oposto da auto-entrega: é ser calculista.

Outra forma de ver esse problema é a partir do que disse Nosso Senhor: "O que quer que façais ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes" ( Mt 25, 40). Se isso é verdade em relação ao menor entre nós, como estamos tratando o Senhor presente em nosso cônjuge? Se agimos diretamente para tornar estéril a união conjugal, não estamos tornando estéril também, em certo sentido, nossa união com o Senhor? Católicos que usam contraceptivos e ainda assim recebem a Comunhão podem até amar nosso Senhor e desejar estar com Ele. Trata-se de um amor, todavia, que vem sempre com um "mas". "Mas não o suficiente para obedecer a Ti nos ensinamentos da Tua Igreja; não o suficiente para dar a Ti o controle sobre o meu corpo e sobre os frutos dos meus atos."

Peter Kreeft apontou, em certa ocasião, a zombaria diabólica do mantra abortista, que perverte as palavras de Nosso Senhor quando defende o aborto dizendo: "Esse é o meu corpo". Guardadas as devidas proporções, é isso o que diz um católico que usa anticoncepcionais. A resistência aberta ainda está ali, conscientemente ou não: "Esse é o meu corpo".

Isso se aplica igualmente aos homens. Eles não podem livrar-se da culpa que têm dizendo: "É ela quem quer". Pôncio Pilatos tentou lavar as mãos pela morte de Nosso Senhor usando a mesma desculpa. Não funcionou para ele.

A Igreja é o corpo de Cristo. Os seus ensinamentos são os ensinamentos de Cristo. Se alguém não acredita nisso, então está simplesmente fazendo uma encenação na Missa, um teatro. Como católicos, nós acreditamos que corpo e alma estão verdadeiramente unidos um ao outro, ainda que de modo misterioso. Acreditamos na ressurreição da carne. Usar anticoncepcionais e receber a Comunhão é erguer uma barreira não só ao esposo do seu corpo, mas também ao esposo da sua alma.

Imagine um casal em que a esposa, aberta à vida, descobrisse que o marido, por conta própria e sabendo que contrariava os desejos de sua mulher, tivesse feito uma vasectomia… Quão devastada não se sentiria essa mulher! Pois bem, o mesmo acontece quando um católico que usa anticoncepcionais recebe a Comunhão… Quão ferido fica Nosso Senhor! Ao não receberem toda a graça que poderiam, toda a graça que Ele morreu para nos dar, esses católicos vivem vidas truncadas, divididas, mutiladas. Não surpreende, depois, que as mesmas pessoas não vejam problema nenhum em apoiar — conscientes ou não — o aborto, a perversão do casamento e a destruição da família. Elas tornaram estéreis, afinal, tanto a vida de sua família quanto a sua vida de fé.

A vida da Igreja, física e espiritualmente, depende da fecundidade das famílias católicas. A fecundidade de nossas famílias depende da fecundidade de nossas Comunhões. As duas coisas não podem andar separadas. Como diz Nosso Senhor, "não separe o homem o que Deus uniu".

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere


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As lágrimas da Corredentora

Neste dia em que lembramos as aparições de Nossa Senhora em La Salette, recordemos também as lágrimas que derramou a Virgem das Dores enquanto pendia na Cruz o seu Filho muito amado.

Neste dia em que lembramos as aparições de Nossa Senhora em La Salette, recordemos também as lágrimas que derramou a Virgem das Dores " dum pendebat Filius", enquanto pendia na Cruz o seu Filho muito amado.

Ali, no madeiro bendito de que nos veio a salvação, duas almas santas se uniam em sacrifício: enquanto a carne de Cristo sofria a paixão, sua mãe padecia de compaixão; enquanto Jesus derramava propiciamente o seu sangue, Maria Santíssima deitava as suas lágrimas, chorando tudo o que nossa indiferença e dureza de coração nos tornam incapazes de chorar.

Ouçamos com atenção esta homilia do Padre Paulo Ricardo, proferida no último dia 15 de setembro, na Paróquia Cristo Rei, em Várzea Grande (MT), e aprendamos com a santíssima Mãe das Dores a chorar os nossos crimes, que tanto têm ofendido o coração de seu divino Filho.

Para fazer download deste áudio, clique aqui.

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Por que o silêncio é tão importante?

Todos os grandes santos, místicos e doutores espirituais observavam e recomendavam o silêncio como um meio seguro para a santidade. Mas por quê? O que há de tão especial na prática do silêncio?

Silêncio. Trata-se de uma palavra ao mesmo tempo atrativa e aterrorizante, capaz de sugerir, de um lado, paz e recolhimento, e de outro, medo e solidão.

Ainda que alguns considerem atrativa a ideia do silêncio, a verdade é que a maioria de nós não se dá muito bem com o recolhimento absoluto. Você já experimentou sentar-se sozinho em um cômodo só para ouvir sons nos quais nunca tinha reparado antes? O tique-taque do relógio. O barulho do ar se movendo pela tubulação. O som da geladeira ligada. Um cortador de grama trabalhando a distância. Tudo junto parece formar um quadro até mesmo um pouco irritante.

Mas talvez o que mais nos amedronte no silêncio é o fato de termos que ficar sozinhos com nossos próprios pensamentos. Ao nos recolhermos de verdade, passamos a ouvir o movimento agitado de pensamentos invadindo as nossas mentes. Nossas ansiedades e aspirações mais profundas, as questões dolorosas e situações difíceis que enfrentamos, tudo parece vir como que borbulhando para a superfície de nossa consciência, deixando-nos desconfortados.

Nós temos medo desse enfrentamento com o mais íntimo de nosso ser, dessa luta com a complexidade de nossos corações. Por isso, nossa tendência natural é abafar o silêncio com constante barulho. Quando estamos sozinhos no carro, ligamos o rádio. Em casa, deixamos a TV sempre ligada, nem tanto para assistirmos ao que está passando, só para manter uma confortante "trilha sonora" de fundo. Uma pausa no serviço ou a espera numa fila é sempre preenchida com compulsivas olhadelas no celular. Queremos tudo, menos o silêncio.

Todavia, apesar de sua natureza inquietante, são inúmeros os santos que aconselham o silêncio como uma prática necessária e indispensável para crescer na verdadeira santidade.

"No silêncio e no recolhimento progride a alma devota, e aprende os segredos das Escrituras", diz a Imitação de Cristo. "Guarda-te de falar muito", adverte São Doroteu de Gaza, "pois isso faz fugirem os pensamentos devotos e a lembrança de Deus". São Maximiliano Kolbe, por sua vez, declarava: "O silêncio é necessário, absolutamente necessário, na verdade. Onde não há silêncio, falta a graça de Deus". E muitos outros exemplos poderiam ser dados.

Ao longo dos séculos, muitas ordens religiosas colocaram esse conselho em prática, incluindo não poucas prescrições de silêncio em suas regras de vida. Talvez a mais famosa e estrita dessas ordens seja a dos Cartuxos, cuja disciplina de recolhimento é tão famosa que acabou transformada em documentário.

Não resta dúvida, portanto: todos os grandes santos, místicos e doutores espirituais prescreveram o silêncio como um meio seguro para a santidade. Mas por quê? O que há de tão especial no silêncio?

É importante entender que o silêncio, como todos os outros instrumentos da vida espiritual, não é um fim em si mesmo. Trata-se de um meio — um método para vir a conhecer Jesus Cristo. O silêncio é necessário porque nossos intelectos se encontram feridos e debilitados após a Queda. A comunhão com Deus, nosso Criador, acontecia fácil e naturalmente, assim como nos é fácil ver e ouvir. Tínhamos constantemente a consciência da sua presença. Mas o pecado rompeu essa comunhão e prejudicou nossa habilidade de conhecer a Deus no nível mais profundo de nosso ser.

Nosso intelecto débil, uma vez no controle da situação, vive agora uma tempestade caótica de pensamentos, sentimentos e emoções — assim como uma agitada nuvem de mosquitos em uma noite quente de verão. Acalmar essa tempestade espiritual e emocional é incrivelmente difícil, e a única forma de conseguir isso é encarando o problema de frente, coisa que só conseguimos fazer quando nos recolhemos o suficiente para ouvir quão perturbadas nossas almas realmente são. É verdade, isso pode ser assustador, e muitos de nós preferiríamos não fazê-lo — mas isso é absolutamente necessário para nosso progresso espiritual.

Além disso, o silêncio é necessário para escutarmos as moções do Espírito Santo e para recebermos e preservamos a graça. Deus não grita. Ele fala calma e suavemente, como o "murmúrio de uma leve brisa" (cf. 1Rs 19, 12). Os chamados do Espírito Santo jamais serão ouvidos em nossa agitação ou ativismo, mas tão somente na calmaria e no recolhimento do coração.

O silêncio também nos ajuda a preservar as graças que Deus nos manda. Assim como os mergulhadores são cuidadosos e diminuem a velocidade de seus movimentos para não desperdiçarem suas preciosas reservas de oxigênio, almas santas falam com cuidado e prudência, a fim de perservarem seu "reservatório" de graça.

Como praticar o silêncio

Agora, você deve estar se perguntando como é possível para um leigo com trabalho, e talvez até família, praticar a virtude do silêncio. Certamente sua esposa não iria gostar se, ao invés de falar com ela, você começasse a gesticular com mímicas, como se fosse um monge! Mas, ainda que a prática do silêncio para quem vive no mundo seja diferente do modo como a vive um religioso, mesmo assim ela é possível e aconselhável. Aqui vão algumas sugestões práticas.

A primeira forma de praticar o silêncio é fugir de conversas frívolas, já que "no muito falar não faltará o pecado" (Pr 10, 19). Por isso, nunca fale simplesmente por falar. As mídias sociais de modo particular encorajam o desperdício de palavras. Já vi no Facebook pessoas reclamando da cutícula, discutindo seus problemas digestivos e até postando frases enigmáticas para implorar por atenção (algo como "Eu não sei se vou aguentar mais" etc). Se você se sente tentado a começar uma coisa desse tipo, não faça. Use a boca (e os dedos, no caso) apenas quando tiver alguma coisa útil a dizer.

Segundo, o silêncio pode ser praticado freando nossas línguas quando sentimos vontade de reclamar. A reclamação é o oposto da gratidão e da ação de graças, e constitui, na verdade, um pecado. É tão fácil reclamar de uma comida, de uma pessoa rude, ou do mau tempo. Mas será que isso contribui com o bem-estar de alguém? Segure sua língua, a menos que você tenha algo louvável a dizer.

Terceiro, podemos praticar o silêncio evitando compartilhar nossa opinião sobre qualquer assunto. Sempre que alguma crise emerge no cenário nacional ou internacional, parece que todo o mundo, em todo lugar, imediatamente tem de emitir sua opinião infalível sobre o tema em questão. Mas a verdade é que muitos de nós não entendemos tão a fundo assim todos esses acontecimentos, e o mundo não tem necessidade de mais palpites. Seja sábio e guarde sua opinião para si próprio.

Quarto, podemos resistir à compulsão de preencher todo momento vago que surge com algum barulho. Se estiver dirigindo, tente deixar o rádio ou a música desligado. Se está em casa, desligue a TV. Evite ficar inconscientemente conferindo o seu celular enquanto estiver no elevador ou em alguma fila. A vida é repleta de momentos em que podemos ficar em silêncio. Abrace-os.

Finalmente, podemos manter silêncio quando sentimos vontade de criticar os outros. É muito fácil perceber os erros dos outros! Mais fácil ainda é repassar aos outros essas coisas, verdadeiras ou não, destruindo as pessoas e manchando suas reputações só para sentirmos que somos melhores. Manter o silêncio quando temos mania de criticar é difícil, mas também é muito saudável.

"A língua é um fogo, um mundo de iniquidade", diz São Tiago. Ela "está entre os nossos membros e contamina todo o corpo; e sendo inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa vida" ( Tg 3, 6). Palavras têm poder, ainda que sejam ditas em voz baixa, e o que dizemos ecoará para a eternidade. Embora não sejamos monges enclausurados, podemos aprender a praticar o silêncio cada um no estado para o qual Deus o chamou, segurando nossas línguas sabiamente a fim de ouvirmos a voz de Cristo e conhecê-lO melhor.

Fonte: The Catholic Gentleman | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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Os três graus da virtude da vigilância

Ao comentar três parábolas do Evangelho de São Mateus, Padre Paulo Ricardo põe diante de nossos olhos os três graus da virtude da vigilância, à luz das “Moradas”, de Santa Teresa d’Ávila.

No fim desta semana que se passou — a 21.ª do Tempo Comum —, a liturgia da Igreja propôs à nossa meditação a virtude da vigilância. É no decorrer do Evangelho segundo São Mateus que Nosso Senhor nos narra estas três parábolas, todas com o mesmo tema, mas cada uma o abordando de forma distinta:

  1. a primeira é a do servo mau (cf. Mt 24, 42-51), que vendo demorar o seu senhor, começa a "bater nos companheiros, a comer e a beber com os bêbados", parábola que ilustra a imprudência dos que vivem em pecado mortal;
  2. a segunda é a das virgens imprevidentes (cf. Mt 25, 1-13), que não entraram na festa de casamento porque estavam sem óleo, história que ilustra a imprudência dos que não rezam;
  3. a terceira é a dos talentos (cf. Mt 25, 14-30), que foram enterrados por um servo mau e preguiçoso, imagem da imprudência das almas tacanhas, que não se dispõem a fazer frutificar os dons que receberam de Deus.

Curiosamente, essa mesma progressão feita por Jesus pode ser lida à luz das Moradas, de Santa Teresa d'Ávila. Foi o que fez Padre Paulo Ricardo ao comentar essas parábolas, nas homilias de semana passada (n.ºs 309, 310 e 311). Decidimos reunir todas nesta publicação de nosso Blog, para tornar mais fácil a procura e a divulgação deste precioso material:

Não se esqueça de divulgar essas reflexões com seus amigos e familiares. Ajude-nos a evangelizar!

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O mundo está em chamas

“O mundo está em chamas”, diz Santa Teresa Benedita da Cruz, “o incêndio poderia pegar também em nossa casa, mas, acima de todas as chamas, ergue-se a Cruz que não pode ser queimada”.

Dos Escritos Espirituais de Santa Teresa Benedita da Cruz, virgem e mártir:

"Saudamo-te, Cruz santa, nossa única esperança!", assim a Igreja nos faz dizer no tempo da paixão, dedicado à contemplação dos amargos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O mundo está em chamas: a luta entre Cristo e o anticristo encarniçou-se abertamente, por isso, se te decides por Cristo, pode te ser pedido também o sacrifício da vida.

Contempla o Senhor que pende do lenho diante de ti porque foi obediente até a morte de Cruz. Ele veio ao mundo não para fazer a sua vontade, mas a do Pai. Se queres ser a esposa do Crucificado deves renunciar totalmente à tua vontade e não ter outra aspiração senão a cumprir a vontade de Deus.

À tua frente o Redentor pende da Cruz despojado e nu, porque escolheu a pobreza. Quem quer segui-lo deve renunciar a toda posse terrena. Estás diante do Senhor que pende da Cruz com o coração despedaçado; Ele derramou o sangue de seu Coração para conquistar o teu coração. Para poder segui-lo em santa castidade, o teu coração deve ser livre de toda aspiração terrena; Jesus Crucificado deve ser o objeto de todo o teu anseio, de todo o teu desejo, de todo o teu pensamento.

O mundo está em chamas: o incêndio poderia pegar também em nossa casa, mas, acima de todas as chamas, ergue-se a Cruz que não pode ser queimada. A Cruz é o caminho que conduz da terra ao céu. Quem a abraça com fé, amor e esperança é levado para o alto, até o seio da Trindade.

O mundo está em chamas: desejas extingui-las? Contempla a Cruz – do Coração aberto jorra o sangue do Redentor, sangue capaz de extinguir também as chamas do inferno. Através da fiel observância dos votos, torna o teu coração livre e aberto; então, poderão ser despejadas neles as ondas do amor divino; sim, a ponto de fazê-lo transbordar e torná-lo fecundo até os confins da terra.

Através do poder da Cruz, podes estar presente em todos os lugares da dor, em toda parte para onde te levar a tua compassiva caridade, aquela caridade que haures do Coração divino e que te torna capaz de espargir, por toda parte, o seu preciosíssimo sangue para aliviar, salvar, redimir.

Os olhos do Crucificado fixam-te a interrogar-te, a interpelar-te. Queres estreitar novamente com toda seriedade a aliança com Ele? Qual será a tua resposta? "Senhor, aonde irei? Só tu tens palavras de vida".

Ave Crux, spes unica!

Edith Stein, Vita, Dottrina, Testi inediti, Roma, pp. 127-130.

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Jovens crucificados para chegarem ao Céu

O martírio de um padre na França, exatamente um dia antes do início da Jornada na Cracóvia, deve servir de farol a todos os jovens católicos sedentos de uma verdadeira conversão. A alegria cristã sempre começa com a cruz.

Um dia antes que começasse, na Cracóvia, a 31.ª edição da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), a notícia sobre a morte do padre francês Jacques Hamel, covardemente assassinado dentro de uma igreja por militantes do Estado Islâmico, chocou o mundo inteiro. Misteriosa coincidência entre dois eventos aparentemente tão paradoxais impõe-nos ao pensamento a paixão, morte e ressurreição de Cristo, que é o que também deve viver a Igreja no fim dos tempos, após a sua própria via crucis.

De fato, a Igreja Católica nunca escondeu de seus fiéis o destino que está obrigada a percorrer até o retorno de Jesus. Nestas linhas contundentes do Catecismo, afirma-se claramente o itinerário do Corpo Místico de Cristo: "A Igreja não entrará na glória do Reino senão através dessa última Páscoa, em que seguirá o Senhor na sua morte e ressurreição" (n. 677). Isso significa que a cruz, embora tenha perdido o seu sentido para muitos cristãos, é uma condição inevitável no seguimento de Cristo, condição que, apesar de dolorosa, deve ser abraçada com alegria e esperança na salvação eterna.

São João Paulo II, que viveu o seu martírio silencioso ao longo de quase 26 anos de pontificado, entregou aos jovens justamente uma cruz como símbolo para a JMJ. Com este gesto, o papa desejava fazê-los comprometerem-se a uma vida de coragem autêntica, disposta a sacrificar-se santamente por aquele "mundo melhor" que não é outra coisa senão o Céu.

Foi por isso que, em 2004, o já moribundo pontífice aconselhava a juventude a não se ocupar "apenas da organização prática da Jornada Mundial da Juventude", mas a cuidar, "em primeiro lugar, da sua preparação espiritual, numa atmosfera de fé e de escuta da Palavra de Deus" [1]. A santidade de vida depende obrigatoriamente de nosso grau de amizade com Jesus, que cresce no cultivo da vida interior e cujos efeitos também incidem positivamente na ordem temporal por meio das virtudes, sobretudo a da caridade.

Nesses encontros mundiais, a Igreja também se manifesta como aquele "abraço de Deus no qual os homens aprendem também a abraçar os seus irmãos, descobrindo neles a imagem e semelhança divina, que constitui a verdade mais profunda do seu ser, e que é a origem da liberdade genuína" [2]. A reunião de jovens de tantas nacionalidades ao redor do Santo Padre, o Papa Francisco, dá testemunho da universalidade da fé cristã, da confiança no depósito da fé católico, apostólico e romano.

Ao mesmo tempo, porém, seria um erro grave pensar que a força do cristão depende de grandes aglomerações de pessoas, quando a Igreja é uma realidade muito mais interior que exterior. A força do cristianismo vem de católicos que, a exemplo do padre Jacques Hamel, derramam o seu sangue pela salvação das almas, vivem como os cristãos primitivos, muitas vezes numa Igreja das catacumbas, mas enraizados em Cristo e firmes na fé (cf. Cl 2, 7). Essa é a autêntica força cristã.

Com uma secularização tão agressiva nos dias de hoje, não se trata de pessimismo nenhum pensar numa Igreja Católica simplificada, como profetizava o então padre Joseph Ratzinger, já no final da década 1960. O martírio do sacerdote Jacques Hamel justamente no contexto da JMJ é sugestivo porque expulsa a ilusão dos números e da alegria efêmera que pode tomar conta dos corações, levando-os a uma falsa segurança e triunfalismo. Os cristãos precisam preparar-se para o martírio, seja branco ou vermelho, porque o "Reino não se consumará [...] por um triunfo histórico da Igreja, segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal, que fará descer do Céu a sua Esposa" [3].

Apoiada no exemplo do profeta Jeremias, que ainda muito jovem aceitou dedicar-se à vocação para a qual Deus o chamou, a Igreja desafia os jovens desta época a abraçarem a cruz como remédio para a idolatria e defesa contra "a tentação de pensar nos mitos de fácil sucesso e do poder", quando é forte a proposta de "aderir a concepções evanescentes do sagrado que apresentam Deus sob a forma de energia cósmica, e de outras maneiras que não estão em sintonia com a doutrina católica" [4]. A Igreja os convida a serem verdadeiros adoradores de Cristo, que é a Rocha sobre a qual podem construir o seu futuro e um mundo mais justo e solidário, combatendo a corrupção, as ameaças contra a família e a vida, a pornografia, o sexo desregrado etc [5]. E, finalmente, a Igreja os motiva a não terem medo de remar contra a corrente, a serem uma minoria santa que, apesar disso, têm a força necessária para derrubar os tantos Golias deste e dos próximos séculos.

Nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens também contam com o auxílio indispensável da "medianeira de todas as graças", a Virgem Santíssima. Ela, mais do que qualquer outra criatura, uniu-se à Paixão de Jesus para corredimir a humanidade de seus pecados, num momento em que a Igreja parecia pequena, humilhada e derrotada com as quedas de seu Esposo. Era naquele momento, no entanto, que o Corpo Místico de Cristo estava mais forte, pois vencia o pecado com a pureza de seu próprio sangue. E assim continuaria a vencer por mais dois mil anos através de mártires como o padre Jacques Hamel, que, acompanhados pela Mãe Dolorosa, puseram-se ao pé da Cruz para remir o mundo.

Para que a JMJ não fique no passado como apenas mais um encontro juvenil, destinado a compor álbuns de fotos no Facebook, os jovens da Jornada devem repetir o caminho de Maria e dos demais santos. Só assim serão capazes de alcançar o único "mundo melhor" verdadeiro e duradouro, que é a vida eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa São João Paulo II, Mensagem para a XX Jornada Mundial da Juventude (06 de agosto de 2004), n. 1.
  2. Papa Bento XVI, Discurso na visita à Catedral de Santiago de Compostela (06 de novembro de 2010).
  3. Catecismo da Igreja Católica, n. 677.
  4. Papa São João Paulo II, op. cit., n. 5.
  5. Idem.