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A oração de um carmelita para a Quaresma

Precisamos “mergulhar”, “descer sempre mais”, “fazer uma viagem” ao interior de nossa alma, porque, se estamos em estado de graça, é aí que mora o Senhor.

É uma especialidade da Ordem do Carmo fazer-nos entrar em contato com Deus no mais íntimo de nosso ser — experiência que é, na verdade, fundamental para a fé cristã, e que foi condensada por Santo Agostinho na famosa frase de suas Confissões: "Eis que estavas dentro, e eu fora" (X, 27, 38). Santa Teresa d'Ávila comparava a alma do justo, por exemplo, a um jardim onde Deus encontra as suas delícias; Santa Teresinha do Menino Jesus, por sua vez, cantava a alegria de ter encontrado "o Céu na terra" — nada menos que Deus morando em seu coração; e Santa Elisabete da Trindade não tomou este nome senão para honrar a inabitação trinitária em si.

A Quaresma, tempo de profunda interiorização, nada mais é que um resgate sempre necessário, portanto, do que precisamos fazer por toda a nossa vida: "mergulhar", "descer sempre mais", "fazer uma viagem" para dentro de nossa alma, até encontrarmos Aquele que é mais íntimo que o que há de mais íntimo de nós, para usar outra expressão agostiniana (cf. Confissões, III, 6, 11).

Um outro carmelita que compreendeu, viveu e transmitiu essa verdade foi o Beato Francisco Palau, sacerdote espanhol do século XIX e beatificado em 1988. São de sua pena, a propósito, as expressões "mergulhar" e "descer sempre mais", colhidas da seguinte oração para a Quaresma, a qual compartilhamos com todos os nossos visitantes:

Senhor,
nesta Quaresma,
tempo de mergulhar no meu interior,
de revisão e de conversão,
ensina-me a descer sempre mais
até onde Tu te encontras: o meu coração.

Como "descer" até aí?
Pelo silêncio, encontrando tempo para rezar,
pela leitura da Tua Palavra que tanto me quer dizer,
pelos Sacramentos,
especialmente a Confissão e a Santa Missa.

Também pela aceitação das contrariedades,
o peso das circunstâncias e da monotonia da vida…
com os olhos postos em Ti.

Senhor, Tu que estás no meu íntimo,
ajuda-me nesta Quaresma,
a fazer uma viagem ao meu interior,
para aí me encontrar conTigo!

Que possamos, pela intercessão do bem-aventurado Francisco Palau, transformar essa brevíssima prece em um verdadeiro "projeto de vida": procurando a Deus, de fato, pelo silêncio, pela leitura da Palavra de Deus, pelos Sacramentos e pela aceitação das contrariedades, seguramente estaremos no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Por que o Filho de Deus quis ter um pai humano?

Longe de representar uma simples “adoção”, a paternidade de São José foi para o menino Jesus uma verdadeira “escola de virilidade”.

São José foi verdadeiramente pai de Jesus: não pai biológico, porque não lhe deu a vida natural; mas também não simplesmente "pai adotivo" ou "pai nutrício", como se simplesmente lhe outorgasse um nome, um abrigo, alimentos e só. Muito mais do que isso, convinha que Cristo, humano que era, fosse realmente educado por um homem [1], inspirando-se em seu exemplo de masculinidade e paternidade para amadurecer totalmente e, chegando à idade adulta, entregar-se pela redenção da humanidade inteira.

Dada portanto a nobre e difícil missão que tinha diante de si, é razoável imaginar o patriarca da Sagrada Família como um homem jovem, na plenitude de suas forças físicas, de modo que, "se parte da iconografia mais recente tende a representá-lo com os traços de um velho, devemos pensar que é menos para sublinhar o número dos seus anos do que para dar uma idéia das suas virtudes, em especial da sua prudência e da maturidade do seu caráter" [2].

Tampouco se deve pensar em São José como um homem de aspecto efeminado, como se a virgindade e a pureza de alma fossem incompatíveis com a virilidade masculina. Ao contrário — ensina-nos a experiência —, só um homem verdadeiramente forte, capaz de submeter as suas paixões ao império da razão, pode enfrentar com igual vigor os grandes desafios e as lidas do dia-a-dia.

Olhando para a personalidade de Jesus Cristo, essas verdades tornam-se-nos ainda mais claras. De fato, só um homem de coragem é capaz de tecer um chicote com suas próprias mãos e servir-se dele para expulsar os vendilhões da casa de Deus (cf. Jo 2, 13-17); só um homem varonil pode suportar, como Cristo suportou, a traição dos próprios amigos, a flagelação na carne, os espinhos na cabeça e os cravos nos membros. Com quem o Filho de Deus encarnado aprendeu a ser homem assim, de modo perfeito, senão com o seu pai virginal, São José?

Nestes tempos em que a masculinidade experimenta uma grande crise, peçamos urgentemente a intercessão do carpinteiro de Nazaré, para que, imitando o seu exemplo, os homens possam enfrentar sem temor o desafio da paternidade, assumir o compromisso de formar os seus filhos e ver, enfim, coroados os seus esforços, nos frutos da boa educação que ministraram.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. A natureza humana exige que as pessoas sejam criadas por um pai e por uma mãe, desenvolvendo-se a partir da complementaridade dos dois sexos. O fato de as famílias ditas "monoparentais" se terem tornado uma realidade comum não as torna normais. Tampouco a chancela do Estado às chamadas "uniões homossexuais" faz com que elas estejam aptas a educar uma criança. "Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade", explica o Cardeal Joseph Ratzinger, "praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano" (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 7). E não é apenas a Igreja Católica que o reconhece. Em 2015, os estilistas criadores da marca Dolce & Gabanna, assumidamente homossexuais, deram declarações públicas contra a adoção de crianças por pares gays.
  2. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 46.

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Um recado do Cardeal Newman aos católicos de Facebook

Se há uma coisa que tem emperrado a nossa vida espiritual, especialmente em tempos de Internet, é a ilusão da autossuficiência.

Se há uma coisa que emperra a nossa vida espiritual, especialmente em tempos de Internet, é a ilusão da autossuficiência. As Escrituras ilustram o seu perigo quando dizem que " Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes" (Tg 4, 6).

O bem-aventurado John Henry Newman, em um de seus "Sermões pregados em diversas ocasiões" — obra recém traduzida para o português e publicada pela editora Molokai —, tem algumas palavras muito adequadas para tratar esse problema. Falamos especialmente de um discurso seu, feito na University Church de Dublin, em 1856, que leva o título "A religião do fariseu, a religião da humanidade". (Aos que lêem em inglês, vale a pena acessar o texto original, aqui.)

Newman inicia a sua pregação com a oração do publicano, na famosa parábola do Evangelho (cf. Lc 18, 9-14): "Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!". Para ele, trata-se da oração cristã por excelência, por constituir, ao mesmo tempo, "uma confissão do pecado e uma oração por misericórdia" [1], coisa que absolutamente todos os membros da Igreja são chamados a repetir. Mesmo estando na glória do Céu, é justamente o fato de terem sido alcançados pela misericórdia de Deus o que os santos cantam dia e noite, como comprova o Apocalipse: "Foste imolado e resgataste para Deus, ao preço do teu sangue homens de toda tribo, língua, povo e raça" (5, 9).

Assim, continua o Cardeal Newman:

" O que é para os santos que estão nos Céus tema de gratidão sem fim é, enquanto estão no mundo, o motivo da sua humilhação perpétua. Qualquer que seja o seu avanço na vida espiritual, nunca deixam de se ajoelhar, nunca deixam de bater no peito, como se o pecado lhes fosse estranho enquanto estavam na carne. Até mesmo Nosso Senhor, o próprio Filho de Deus na natureza humana infinitamente separado do pecado, e mesmo sua Mãe Imaculada, repleta da sua Graça desde os primórdios de sua existência e sem qualquer mancha do pecado original, mesmo eles, como descendentes de Adão, foram no fim submetidos à morte, a punição direta e categórica do pecado. E mais ainda, mesmo o mais favorecido da gloriosa companhia a quem Ele lavou em seu Sangue; eles nunca se esqueceram do que eram por nascimento; confessam, todos juntos, que são filhos de Adão, e da mesma natureza dos seus irmãos, cercados de enfermidades na carne, qualquer que seja a graça concedida a eles e seu aperfeiçoamento. Alguns podem se voltar para eles, mas eles sempre se voltam para Deus; alguns podem falar dos seus méritos, mas eles só falam dos seus defeitos. O jovem sem mácula, o maduro de idade avançada, o que pecou menos, o que se arrependeu mais, o semblante jovem e inocente e os cabelos grisalhos se unem numa mesma ladainha: 'Ó Deus, tende piedade de mim, que sou pecador!'..." [2]

Essas verdades são realmente notáveis na vida dos santos. São Filipe Néri, por exemplo, "quando alguém o elogiava, gritava: 'Vai-te embora, eu sou um diabo e não um santo!', e quando ia comungar, protestava diante do seu Senhor, dizendo-se 'bom para nada além de fazer o mal'" [3].

Mas não era um simples exagero retórico, uma questão de "etiqueta", esse comportamento tão usual na história dos seguidores de Cristo. A humildade não é uma máscara que os santos colocam para disfarçar o que realmente são. Muito ao contrário, como ensinava Santa Teresa d'Ávila às suas irmãs, ser humilde é "andar na verdade" [4]: em primeiro lugar, a verdade de que somos criaturas e só por isso já nos encontramos infinitamente distantes de Deus, como diz o salmista: "Diante da vossa presença, não é justo nenhum dos viventes" (Sl 142, 2); em segundo lugar, a verdade de que somos pecadores — "todos pecaram e estão privados da glória de Deus" (Rm 3, 23) — e, com as nossas faltas, só o que fazemos é aumentar ainda mais o abismo que nos separa do Criador.

Assim, se procuramos levar uma vida correta, se nos esforçamos por cumprir os Mandamentos, se conseguimos praticar esta ou aquela virtude, nada disso é por mérito nosso, mas unicamente por graça de Deus. É Ele quem nos inspira, diz o Apóstolo, "o querer e o fazer" ( Fl 2, 13).

Isso precisa entrar em nossa cabeça o quanto antes, para que afastemos de uma vez por todas todo ranço de "pelagianismo prático" de nossa vida [5]. Não adianta nada reconhecermos, na teoria, que Deus é o "sumo Bem", que só a Ele devemos servir e adorar, que não devemos viver para nós mesmos, se continuamos a levar, na prática, o mesmo estilo pagão e autossuficiente de sempre: sem reservar um tempo para fazer oração, sem cumprir os nossos deveres de estado, sem fazer durante o dia algum tipo de mortificação etc. Ora, se Deus é realmente a fonte de todo o nosso bem, por que não recorremos a Ele e não procuramos cumprir o que nos manda, inclusive nas pequenas coisas do dia-a-dia? Desde quando basta, para sermos bons católicos, ir à Missa aos domingos e rezar uma ou outra Ave-Maria durante o dia, ao mesmo tempo em que gastamos na TV, no Facebook ou no WhatsApp o resto do tempo que Deus nos dá — muitas vezes até, sob o pretexto de "estarmos evangelizando" na Internet?

A verdade é que não alcançaremos a santidade enquanto continuarmos sentados em frente a um computador, vivendo um catolicismo cômodo de Facebook; enquanto continuarmos comprando livros e mais livros para a nossa biblioteca, na ilusão de sermos salvos pela "alta cultura"; enquanto acharmos que tudo ficará bem quando o mundo for simplesmente conservador. Não foi para fundar um grupo nas redes sociais, uma sociedade literária ou uma agremiação política que Cristo veio a este mundo. Continua sendo necessário entrarmos na Igreja, e nela perseverarmos, para alcançarmos a salvação [6]. Nas palavras do beato John Henry Newman:

"As nossas realizações seculares não nos valerão de nada se não se subordinarem à religião. O conhecimento do Sol, da Lua e das estrelas, da Terra e de seus três reinos, dos clássicos ou da História, nada disso nos levará para o Céu. Podemos dar 'graças a Deus' porque não somos como os analfabetos e os estúpidos; mas aqueles a quem desprezamos, se tudo o que souberem for pedir a misericórdia dEle, então sabem o que se deve saber para obter o Céu, muito mais do que todas as nossas letras e toda a nossa ciência." [7]

Tomar consciência de todas essas verdades também nos ajuda a ter, em relação ao próximo, uma atitude de muito mais caridade — virtude a qual muitas pessoas parecem ter esquecido na hora de usar a Internet. Talvez por não estarem face a face com quem se encontra do outro lado da tela, os usuários das redes sociais sentem-se livres para escrever em suas linhas do tempo todo tipo de ofensa e xingamento aos outros, por motivos muitas vezes os mais banais. A essas pessoas, a Imitação de Cristo dá um conselho importante: "Ainda quando vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem. Nós todos somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo" [8].

Em todo o sermão de que falamos, o Cardeal Newman procura contrapor à religião cristã, marcada pela figura do publicano, a religião do fariseu, das pessoas "autossuficientes", dos que "estão muito contentes consigo mesmos e acham que seu mérito é muito elevado" [9]. A diferença fundamental entre as duas está justamente na ação sobrenatural: esta é esteticamente até agradável, está repleta de "bons modos", mas é imanente, humanista, mundana; aquela, no entanto, reúne pessoas de todos os tipos, as quais se esvaziam e se deixam redimir por Deus.

Por isso, você, que lê estas linhas, não deixe de fazer hoje a experiência do desespero… de si próprio! É a experiência fundamental que conduziu todos os santos a Cristo e que deve mover também a nossa conversão, dia após dia. Não somos capazes de amar a Deus com nossas próprias forças. Baseando-nos tão-somente em nossos esforços, não vai dar certo. Ele manda que trabalhemos, mas somos preguiçosos; que sejamos castos, mas somos infiéis; que sejamos pacientes, mas nos irritamos facilmente; que rezemos e nos lembremos dEle, mas sempre nos esquecemos. Se pararmos para meditar um pouco sobre a nossa miséria, veremos que a graça de Deus é necessária para absolutamente tudo em nossa vida. Sejamos menos autossuficientes, pois, e abramos o nosso coração para esta verdade que Cristo proclama no Evangelho: "Sem Mim, nada podeis fazer"(Jo 15, 5). Que Ele seja o nosso tudo, porque nós, definitivamente, não somos nada.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 27.
  2. Ibid., p. 28.
  3. Ibid., p. 29.
  4. Sextas Moradas, 10, 7.
  5. Reginald Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, 11. ed., Madrid: Palabra, 2007, p. 448.
  6. Catecismo da Igreja Católica, 846.
  7. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 38.
  8. Imitação de Cristo, l. 1, c. 2.
  9. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 32.

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Fomos criados para o amor

Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma e que lhe faz dizer do fundo do coração: “Estou ferida de amor”?

Neste texto recolhido do Ofício das Leituras de hoje, terça-feira da 1.ª semana do Tempo Comum, São Basílio Magno lembra-nos que a vocação cristã é ao amor. Fomos criados por Deus para amá-lO, é o que está escrito desde o princípio na natureza do nosso ser e, não obstante todos os artifícios do homem moderno para apagar dos corações e das consciências o nome santíssimo de Jesus, só O amando seremos verdadeiramente realizados.

Sendo assim, a missão dos pastores da Igreja não é outra senão "suscitar a centelha do amor divino" escondida no coração de cada ser humano. O que deve fazer cada sacerdote, cada bispo — e até cada pai de família, que "apascenta" o pequeno rebanho de seus filhos — é ignem mittere in terram, "lançar fogo sobre a terra", como queria o próprio Filho de Deus humanado (Lc 12, 49).

Peçamos a este santo bispo da Igreja antiga, São Basílio, aclamado no mundo inteiro como "magno", que nos ajude a viver o chamado de Cristo em toda a sua grandeza. Certos de que "o amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições", simplesmente procuremos amá-lO, não nos limitando ao cumprimento de regras. Nossa fé não é um "manual de boas maneiras", mas um relacionamento de amor com Deus.

Da Regra mais longa, de São Basílio Magno, bispo
(Resp. 2,1: PG 31, 908-910)

Possuímos inata capacidade de amar

O amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições. Não aprendemos de outrem a alegrar-nos com a luz, ou a desejar a vida, ou a amar os pais ou educadores. Assim — ou melhor, com muito mais razão —, não se encontra o amor de Deus na disciplina exterior. Mas, quando é criado, o ser vivo, isto é, o homem, a força da razão foi, como semente, inserida nele, uma força que contém em si a capacidade e a inclinação de amar. Logo que entra na escola dos divinos preceitos, o homem toma conhecimento desta força, apressando-se em cultivá-la com ardor, nutri-la com sabedoria e levá-la à perfeição, com o auxílio de Deus.

Sendo assim, queremos provar vosso empenho em atingir este objetivo. Pela graça de Deus e contando com as vossas preces, nós nos esforçaremos, segundo a capacidade dada pelo Espírito Santo, por suscitar a centelha do amor divino escondida em vós.

Antes de mais nada, nós dele recebemos antecipadamente a força e a capacidade de pôr em prática todos os mandamentos que Deus nos deu. Por isso não nos aflijamos como se nos fosse exigido algo de incomum, nem nos tornemos vaidosos pensando que damos mais do que havíamos recebido. Se usarmos bem destas forças, levaremos uma vida virtuosa; no entanto, mal empregadas, caíremos no pecado.

Ora, o pecado se define como o mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito do Senhor.

O mesmo diremos da caridade. Ao recebermos o mandamento de amar a Deus, já possuímos capacidade de amar, plantada em nós desde a primeira criação. Não há necessidade de provas externas: cada qual por si e em si mesmo pode descobri-la. De fato, nós desejamos, naturalmente, as coisas boas e belas, embora, à primeira vista, algumas pareçam boas e belas a uns e não a outros. Amamos também, sem ser necessário que nos ensinem nossos parentes e amigos e temos espontaneamente grande amizade por nossos benfeitores.

O que haverá, pergunto então, de mais admirável do que a beleza divina? Que coisa pode haver mais suave e deliciosa do que a meditação da magnificência de Deus? Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma liberta de toda impureza e que lhe faz dizer do fundo do coração: Estou ferida de amor? É na verdade totalmente indescritível o fulgor da beleza de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Amar ao próximo primeiro

O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos preceitos, mas o amor do próximo é o primeiro na ordem da execução.

"O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos preceitos", evidentemente, "mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução": é o que ensina Santo Agostinho, no Ofício das Leituras deste dia 3 de janeiro. A razão disso é bem simples e consta das próprias Escrituras: "Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê" (1Jo 4, 20).

Atentos à preciosa lição deste santo padre da Igreja, disponhamos o nosso coração ao serviço do próximo, na certeza de que, servindo à carne que o próprio Deus assumiu para a nossa salvação, seremos elevados à plena participação da natureza divina (cf. 2Pd 1, 4) e alcançaremos vitória sobre as paixões de nossa própria carne.

Do Tratado sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo
(Tract 17, 7-9: CCL 36, 174-175)

O duplo preceito da caridade

Veio o Senhor, mestre da caridade, cheio de caridade, cumprir prontamente a palavra sobre a terra (cf. Rm 9, 28 Vulg.), como dele foi anunciado, e sintetizou a lei e os profetas nos dois preceitos da caridade.

Recordai comigo, irmãos, quais são esses dois preceitos. É preciso que os conheçais profundamente, de tal modo que não vos venham à mente só quando vo-los lembramos, mas os conserveis sempre bem gravados em vossos corações. Recordai-vos em todo momento de que devemos amar a Deus e ao próximo: a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, e de todo o nosso entendimento; e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22, 37-39).

Esses dois preceitos devem ser sempre lembrados, meditados, conservados na memória, praticados, cumpridos. O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos preceitos, mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução. Pois, quem te deu esse duplo preceito do amor não podia ordenar-te amar primeiro ao próximo e depois a Deus, mas primeiramente a Deus e depois ao próximo.

Entretanto, tu que ainda não vês a Deus, merecerás vê-lo se amas o próximo; amando-o purificas teu olhar para veres a Deus, como afirma expressamente São João: "Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê" ( 1Jo 4, 20).

Ouviste o mandamento: Ama a Deus. Se me disseres: "Mostra-me a quem devo amar", que responderei senão o que disse o mesmo São João: "A Deus, ninguém jamais viu" ( Jo 1, 18)? E para pensares que está absolutamente fora de teu alcance ver a Deus, o mencionado apóstolo afirma: "Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus" (1Jo 4, 16). Ama, pois, o teu próximo e procura no teu íntimo a origem deste amor; lá verás a Deus o quanto agora te é possível.

Começa, portanto, a amar o próximo. Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa o pobre sem abrigo; quando encontrares um nu, cobre-o, e não dês as costas ao teu semelhante (cf. Is 58, 7).

Procedendo assim, o que alcançarás? "Então brilhará a tua luz como a aurora" ( Is 58, 8). Tua luz é o teu Deus; ele é a aurora que despontará sobre ti depois da noite desta vida. Essa luz não conhece princípio nem ocaso, porque existe eternamente.

Amando o próximo e cuidando dele, vais percorrendo o teu caminho. E para onde caminhas senão para o Senhor Deus, para Aquele que devemos amar com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, de toda a nossa mente? É certo que ainda não chegamos até junto do Senhor; mas já temos conosco o próximo. Ajuda, portanto, aquele que tens ao lado, enquanto caminhas neste mundo, e chegarás até junto daquele com quem desejas permanecer para sempre.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O Natal de Cristo e o nosso natal

Embora cada cristão tenha sido chamado num momento diferente para fazer parte da Igreja, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal, também nasce com Cristo neste Natal.

"A geração de Cristo é a origem do povo cristão", diz São Leão Magno, no Ofício das Leituras deste dia 31 de dezembro, "o Natal da Cabeça é também o natal do Corpo". O Verbo eterno de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, nasceu uma segunda vez, na humanidade, para nos fazer nascer uma vez mais, na fonte batismal, para a vida divina. "Embora cada um tenha sido chamado num momento determinado para fazer parte do povo do Senhor, e todos os filhos da Igreja sejam diversos na sucessão dos tempos, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal", explica ainda o Papa Leão, "também nasceu com ele neste Natal".

Nasce nesta Oitava, portanto, não só o Cristo, mas cada cristão em particular. Celebrar essa solenidade não significa simplesmente recordar um acontecimento do passado, mas algo que toca concretamente a nossa própria história. Puer natus est nobis, "um menino nasceu" verdadeiramente, não para servir de enfeite nos presépios, não para trazer um feriado de fim de ano, não para entrar nas páginas frias dos livros de história; nasceu sim, mas "para nós", para nos salvar, para mudar e transformar por completo a nossa vida.

Ao passarmos em família ou em amigos as festividades deste fim de ano, não nos esqueçamos dessas verdades que dão sentido não só ao Natal e ao Ano-Novo, mas a toda a nossa existência.

Dos Sermões de São Leão Magno, papa
(Sermo 6 in Nativitate Domini, 2-3, 5: PL 54, 213-216)

O Natal do Senhor é o Natal da paz

O estado de infância, que o Filho de Deus assumiu sem considerá-la indigna de sua grandeza, foi-se desenvolvendo com a idade até chegar ao estado de homem perfeito e, tendo-se consumado o triunfo de sua paixão e ressurreição, todas as ações próprias do seu estado de aniquilamento que aceitou por nós tiveram o seu fim e pertencem ao passado. Contudo, a festa de hoje renova para nós os primeiros instantes da vida sagrada de Jesus, nascido da Virgem Maria. E enquanto adoramos o nascimento de nosso Salvador, celebramos também o nosso nascimento.

Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão; o Natal da Cabeça é também o natal do Corpo.

Embora cada um tenha sido chamado num momento determinado para fazer parte do povo do Senhor, e todos os filhos da Igreja sejam diversos na sucessão dos tempos, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal, crucificada com Cristo na sua Paixão, ressuscitada na sua Ressurreição e colocada à direita do Pai na sua Ascensão, também nasceu com ele neste Natal.

Todo homem que, em qualquer parte do mundo, acredita e é regenerado em Cristo, liberta-se do vínculo do pecado original e, renascendo, torna-se um homem novo. Já não pertence à descendência de seu pai segundo a carne, mas à linhagem do Salvador, que se fez Filho do homem para que nós pudéssemos ser filhos de Deus.

Se ele não tivesse descido até nós na humildade da natureza humana, ninguém poderia, por seus próprios méritos, chegar até ele.

Por isso, a grandeza desse dom exige de nós uma reverência digna de seu valor. Pois, como nos ensina o santo Apóstolo, "nós não recebemos o espírito do mundo, mas recebemos o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons da graça que Deus nos concedeu" ( 1Cor 2, 12). O único modo de honrar dignamente o Senhor é oferecer-lhe o que ele mesmo nos deu.

Ora, no tesouro das liberalidades de Deus, que podemos encontrar de mais próprio para celebrar esta festa do que a paz, que o canto dos anjos anunciou em primeiro lugar no nascimento do Senhor?

É a paz que gera os filhos de Deus e alimenta o amor; ela é a mãe da unidade, o repouso dos bem-aventurados e a morada da eternidade; sua função própria e seu benefício especial é unir a Deus os que ela separa do mundo.

Assim, aqueles que "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo" ( Jo 1, 13), ofereçam ao Pai a concórdia dos filhos que amam a paz, e todos os membros da família adotiva de Deus se encontrem naquele que é o Primogênito da nova criação, que não veio para fazer a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou. Pois a graça do Pai não adotou como herdeiros pessoas que vivem separadas pela discórdia ou oposição, mas unidas nos mesmos sentimentos e no mesmo amor. É preciso que tenham um coração unânime os que foram recriados segundo a mesma imagem.

O Natal do Senhor é o natal da paz. Como diz o Apóstolo, Cristo é a nossa paz, ele que de dois povos fez um só (cf. Ef 2, 14); judeus ou gentios, "em um só Espírito, temos acesso junto ao Pai" (Ef 2, 18).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O mundo inteiro espera a resposta de Maria

O Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

O mistério da natividade do Senhor, que estamos prestes a celebrar, está indissociavelmente ligado à maternidade divina de Maria, como Padre Paulo Ricardo explicou na homilia do último domingo.

Os santos da Igreja bem o sabiam e, por isso, sempre que se dirigiam a Deus em agradecimento pela Encarnação do Verbo, cantavam ação de graças igualmente pelas maravilhas que o Todo-Poderoso operou em Maria. Foi por meio de seu "sim", afinal, que Ele escolheu vir ao mundo e salvar o gênero humano; o Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

Às vésperas do Natal, nada mais útil para nossa vida interior que meditar sobre essas verdades da nossa fé. A seguir, deixamos a você uma preciosa reflexão, da boca de São Bernardo de Claraval, em que ele descreve com belos detalhes a espera do mundo inteiro pela resposta de Maria, durante o episódio da Anunciação. Para um estudo teológico mais profundo a esse respeito, recomendamos a todos os nossos alunos e internautas que consultem a questão 30 da terceira parte da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, que é também de grande riqueza.

Essa meditação de São Bernardo faz parte do Ofício das Leituras de ontem, dia 20 de dezembro.

Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, de São Bernardo, abade
(Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4, [1966], 53-54)

O mundo inteiro espera a resposta de Maria

Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem — tu ouviste — mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia.

Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.

Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.

E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça.

Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar tua piedade pela palavra.

Abre, ó Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! se tardas e ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Por que o milagre de São Januário é tão importante?

O mundo inteiro está falando do sangue de São Januário. Mas você sabe, afinal, em que consiste o milagre da sua liquefação e o que ele realmente significa?

Não é a primeira vez que o milagre da liquefação do sangue de São Januário vira notícia recentemente. Em 21 de março de 2015, dia incomum para a ocorrência do fenômeno, os restos sanguíneos do padroeiro de Nápoles se dissolveram à vista do Papa Francisco, conforme também nós reportamos aqui. Agora, no último dia 16 de dezembro, o que causou estranheza mundo afora foi justamente a ausência do milagre, a qual, como já dito, "sempre esteve ligada a momentos nefastos da história da cidade" italiana.

Considerando toda a atenção que se vem dando a este acontecimento de caráter realmente sobrenatural, transcrevemos abaixo uma pequena matéria, publicada no blog português Senza Pagare, que descreve de modo bem resumido em que consiste este milagre e qual é, afinal, a sua importância.

No passado dia 16 de dezembro, ao contrário do habitual, não aconteceu o milagre da liquefação do sangue de S. Januário, em Nápoles.

Este milagre acontece 3 vezes por ano: 19 de setembro, dia de S. Januário; 16 de dezembro, porque nesse dia, em 1631, foi feita uma procissão com as relíquias de S. Januário que impediu a iminente erupção do vulcão Vesúvio; no sábado que antecede o primeiro domingo de maio, dia da primeira trasladação do corpo do santo.

As datas da liquefação do sangue de São Januário são celebradas com grande pompa e esplendor.

As relíquias são expostas ao público, e se a liquefação não se verifica imediatamente, iniciam-se preces coletivas. Se o milagre tarda, os fiéis convencem-se de que a demora se deve aos seus pecados. Rezam então orações penitenciais, como o salmo " Miserere".

Quando o milagre ocorre, o Clero entoa um solene Te Deum, a multidão irrompe em vivas, os sinos repicam e toda a cidade rejubila.

Entretanto, sempre que nas datas costumeiras o sangue não se liquefaz, isso significa o aviso de tristes acontecimentos vindouros, segundo uma antiga tradição nunca desmentida.

O sangue de São Januário está recolhido em duas ampolas de vidro, hermeticamente fechadas, protegido por duas lâminas de cristal transparente. A ampola maior possui 60 cm cúbicos de volume; a menor tem capacidade de 25 cm cúbicos. Em geral, o sangue endurecido ocupa até a metade da ampola maior; na menor, encontra-se disperso em fragmentos.

A liquefação do sangue produz-se espontaneamente, sob as mais variadas circunstâncias, independentemente da temperatura ou do movimento, o sangue passa do estado pastoso ao fluido e, até, fluidíssimo. A liquefação ocorre da periferia para o centro e vice-versa. Algumas vezes, o sangue liquefaz-se instantânea e inteiramente, ou, por vezes, permanece um denso coágulo em meio ao resto liquefeito. Varia o colorido: desde o vermelho mais escuro até o rubro mais vivo. Não poucas vezes surgem bolhas e sangue fresco e espumante sobe rapidamente até o topo da ampola maior.

Trata-se verdadeiramente de sangue humano, comprovado por análises espectroscópicas.

Há algumas peculiaridades, que constituem outros milagres dentro do milagre liquefação, há uma variação do volume: algumas vezes diminui e outras vezes aumenta até o dobro. Varia também quanto à massa e quanto ao peso. Em janeiro de 1991, o Professor G. Sperindeo fazendo uso, com o máximo cuidado, de aparelhos de alta precisão, encontrou uma variação de cerca de 25 gramas. O peso aumentava enquanto o volume diminuía. Esse acréscimo de peso contraria frontalmente o princípio da conservação da massa e é absolutamente inexplicável, pois as ampolas encontram-se hermeticamente fechadas, sem possibilidade de receber acréscimo de substâncias do exterior.

A notícia escrita mais antiga e segura do milagre consta de uma crônica do século XIV. Desde 1659, estão rigorosamente anotadas todas as liquefações, que já perfazem mais de dez mil!

Quanto à chave de interpretação com que devemos ler esse milagre (ou, no caso, a ausência dele), é a reação dos próprios fiéis napolitanos que nos ensina: " Se o milagre tarda, os fiéis convencem-se de que a demora se deve aos seus pecados". É a luta contra os nossos pecados, portanto, o que nos deve preocupar de modo especial ao sabermos que São Januário não quis operar o seu costumeiro milagre diante do povo de Nápoles.

Mais do que traçar conjecturas sobre o que acontecerá no mundo, mais do que perguntar que tipo de desgraça pode se abater sobre a humanidade, o momento presente pede oração e penitência. E essa é a mensagem não apenas do sangue de San Gennaro (como o chamam os italianos) ou da aparição de Nossa Senhora em Fátima, cujo centenário está às portas, mas de toda a revelação cristã. "Se não vos converterdes", afinal, diz o próprio Senhor, "perecereis todos do mesmo modo" (Lc 13, 3).

Essas palavras são muito sérias. O cristianismo é coisa muitíssimo séria. Mas, pelo visto, poucos de nós estão dispostos a emendar-se de vida e atender aos apelos que o próprio Céu nos tem feito com tanta insistência, especialmente nas últimas décadas. Nossos pecados se multiplicam indefinidamente, levando-nos para longe da presença de Deus, como mostrou a Virgem de Fátima aos três pastorinhos, e nós ficamos a pensar em que tipo de catástrofe se irá suceder aqui ou acolá, este ano ou ano que vem, preocupados com desastres físicos e materiais. Quando vamos acordar e perceber que a pior tragédia de todas se chama perdição das almas e já está acontecendo há muito tempo? Quando vamos abrir os olhos da fé, afinal, para enxergarmos o mundo sobrenatural à nossa volta e tomarmos então consciência verdadeira da situação em que nos encontramos?

Repitamos com o venerável bispo norte-americano Fulton Sheen uma verdade mais do que necessária para tempos conturbados como os nossos: " Se as almas não forem salvas, nada se salvará". As almas, as almas cuja salvação sempre foi a lei suprema da Igreja, as almas cujo preço foi o próprio sangue de Cristo derramado na Cruz: são elas a nossa meta, porque são elas a meta de Deus! Que eventos como o milagre de São Januário — ou o silêncio de São Januário — sirvam para lembrar-nos desta realidade e ressuscitem aqueles que estão na morte do pecado para a vida sobrenatural da graça.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere