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O homem precisa de fé para manter-se homem

O primeiro realista é aquele que acredita, pois viver de fé abre o ser humano à verdadeira grandeza do mundo. Aquele que tem fé enxerga para além das ninharias desta vida.

É conhecida por quase todos os católicos aquela expressão com que São Paulo fala da justificação do homem: "O justo vive pela fé" ( Rm 1, 17). Com essa expressão, retirada do livro do profeta Habacuc, o apóstolo das gentes queria manifestar aos cristãos de sua época a importância da fidelidade à aliança com Deus. Como solenemente afirmou o Concílio de Trento, a "fé é princípio da salvação humana, fundamento e raiz de toda a justificação; sem ela é impossível agradar a Deus e chegar a ser filhos Seus" [1].

O mundo moderno, erigido sobre os ideais iluministas e anticlericais, inverteu esse pensamento paulino, de modo que hoje é quase comum encontrar pessoas indiferentes à religião, senão até hostis. A fé virou sinônimo de alienação e injustiça. Para o mundo moderno, apóstolo do humanismo, a religiosidade seria apenas um limite, uma espécie de prisão que impede o homem de alçar voo e descobrir sua verdadeira natureza.

Agora livre dos códigos e preceitos morais, pensa-se, o homem moderno pode finalmente contribuir para a criação de um mundo melhor: ele não vive mais de fé; vive da realidade que o circunda e que precisa urgentemente ser transformada. E que belo será este mundo, que bela será a Nova Atlântida que há de vir dos escombros de uma época de trevas e ignorância, à qual o homem esteve tanto tempo aprisionado. Assim bradavam os humanistas com otimismo estridente, assim ainda falam hoje os inimigos da religião. E vieram as duas grandes guerras, o nazismo, os gulags e toda a sorte de (ir)realizações que o homem moderno, o homem orgulhosamente sem fé, conseguiu produzir.

Que teria dado errado? A verdade parece ser uma só: a crença equivocada do homem moderno de que, para encontrar sua verdadeira natureza, ele teria de voar, a fim de contemplar-se de cima para baixo. E o que encontrou foi apenas o seu "eu exterior", pelo qual acabou desgraçadamente se apaixonando: aquele homem cafajeste, cuja única pretensão é satisfazer o próprio ego, não importando os meios nem os fins.

Em sua obra monumental Dois amores e duas cidades, livro obrigatório para quem deseja entender o que aconteceu com a civilização ocidental após a loucura nominalista, Gustavo Corção recorda que o motor da história não é a economia, como erroneamente pensava Karl Marx, mas a maneira e em que ordem o homem ama as coisas e se ama a si mesmo. O que ocorreu na idade moderna foi precisamente a desordem completa do amor, de sorte que as pessoas tomaram como principal de si mesmas a "vida exterior" e as coisas que poderiam torná-la mais confortável, esquecendo-se, por completo, de se prepararem para a vida eterna. Para descobrir o corpo, o homem decidiu perder a alma. E não poderia haver material mais explosivo que o amor desordenado por si mesmo.

Se é, portanto, no "eu exterior" que se forma o amor-próprio, fonte de todos os pecados, o homem, então, não necessita voar para descobrir quem ele é; precisa, antes, de um mergulho na intimidade de seu ser, lá no interior intimo meo de Santo Agostinho, onde se encontra a razão de sua existência, o "eu interior". Em suma, trata-se de uma espécie de socratismo cristão, isto é, a regra do "conhece-te a ti mesmo" vivida em Deus.

Ocorre que esse mergulho nas profundezas do próprio ser está para além das forças humanas. A experiência dos últimos séculos só tem comprovado isso nas tantas e tantas filosofias vãs que ora reduziram o homem ao animalesco, ora o colocaram no pedestal do mundo, quase como um deus ou super-homem.

Necessita-se de uma luz. E é aí que deve entrar a fé, virtude sobre a qual muito escreveu o Papa Francisco no início de seu pontificado.

A humanidade precisa da luz da fé para atravessar a sua escuridão mais íntima e encontrar tanto a própria identidade quanto aquela "Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" [2]. Porque a fé é mais que um arrepio do corpo, ela nos concede um fundamento novo, a prova das realidades invisíveis, que é aquela rocha firme sobre a qual o homem deve edificar a sua casa, sem risco de que desmorone tudo ao primeiro vento: as frustrações pessoais, o tédio da vida corrente, uma situação irremediável etc. É por isso que Bento XVI, com toda a razão, dizia que o primeiro realista é aquele que acredita, pois viver de fé abre o ser humano à verdadeira grandeza do mundo; aquele que tem fé enxerga para além das ninharias desta vida.

Na mesma obra já citada, Gustavo Corção assevera que "a sorte de uma civilização depende dos valores transformados em ideais no firmamento cultural dessa civilização" [3]. Em que pesem todos os erros cometidos pelos homens medievais, eles só souberam preservar o Ocidente e levá-lo adiante porque antes nutriam uns pelos outros aquela familiaridade própria de quem deseja ver o amigo no Céu. A base cultural da Idade Média era a fé e a busca da salvação, de modo que seus homens tinham a peito o estandarte da cruz e lutavam aqui na terra para construir sua casa na morada celeste. O Ocidente contemporâneo, em sentido inverso, morre dia após dia porque se esqueceu de suas raízes, julgou desnecessária a vida interior e passou a viver apenas de aparência e tolerância. Uma civilização que não sabe quem é, não tem por que lutar.

A vida do homem é movida por um motor ou causa final, como diria Santo Tomás, ou sentido, como diria Viktor Frankl. Aqui então se aplica a regra física de Newton: uma força produz o movimento de uma massa, que cresce progressivamente em velocidade segundo certa aceleração. Para a humanidade, essa força motora pode ser tanto a força da fé como a força gravitacional da Terra. E esse movimento será tanto mais acelerado quanto mais próximo estiver da força que o atrai. Daí se entende porque o homem medieval construía aquelas belíssimas catedrais voltadas para o Céu e, hoje, o homem moderno está a um passo de abandonar a posição ereta para literalmente voltar a andar sobre quatro patas.

O homem precisa de fé para manter-se homem, para manter-se viril e lidar com as pressões do mundo exterior com honestidade e coragem. Ele precisa então de uma verdadeira psicologia do profundo, voltar-se para seu eu interior, a fim de descobrir o núcleo de sua personalidade, sua substância ou essência, como queiram dizer, a fim de que não se deixe corromper pelos acidentes e apetites desordenados da carne. Enfim, precisa parar de cantarolar Imagine e voltar a recitar os salmos: "Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo" (Sl 22, 4). Deus queira que se convença disso o quanto antes!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. De justificatione, c. 8.
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 1.
  3. Gustavo Corção, Dois amores e duas cidades, Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 1, p. 53.

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As obrigações da nossa Crisma

A recepção do Crisma “impõe a obrigação de vivermos à altura do selo” impresso em nossa alma e da consagração operada por este sacramento.

Sábado da Oitava de Pentecostes

As obrigações da nossa Crisma

Considerai primeiro que a Confirmação é um dos sacramentos que imprimem na alma um selo espiritual chamado "caráter", que é de natureza tal, que a alma em que ele é impresso é consagrada, de certo modo, ao serviço de Deus na qualidade de soldado, assim como o caráter do Batismo, por um lado, é o sinal de nossa pertença ao Povo de Deus e o da Ordem, por outro, nos constitui ministros de Cristo. Por isso, nenhum desses sacramentos pode ser repetido, uma vez ministrados, pois o caráter que eles deixam na alma, sinal de sua consagração a Deus, não pode ser apagado e, por conseguinte, tampouco repetido. Ora, a recepção desses três sacramentos impõe também a obrigação de vivermos à altura do selo por eles impresso na alma e da consagração que eles operam; nesse sentido, o sacramento da Confirmação obriga-nos em particular à observância de toda a disciplina dos soldados de Jesus Cristo e a manter-nos fiéis à bandeira cristã; manda-nos, além disso, combater bravamente ao lado de Nosso Senhor e preferir a morte a desertar ou aliar-se aos inimigos por algum pecado voluntário. Esta é a fidelidade que, como soldados seus, devemos a Cristo; é a isto, pois, que nos obrigamos quando recebemos o caráter da Confirmação.

Considerai, em segundo lugar, que os soldados deste mundo juram observar rigorosamente todas as exigências de sua vocação e as ordens de seus superiores. Eles se expõem a todo tipo de perigo e trabalho, quer em marcha, quer durante um assédio, quer em pleno campo de batalha. Eles suportam frio, calor e todas as inclemências do tempo e das estações; padecem fome, sede, vigílias e todas as outras dificuldades em que o seu estado de vida os põe; e tudo isso por um soldo insignificante. Que lições daqui podem tirar os cristãos, que, pelo sacramento da Crisma, se alistaram como soldados nas fileiras de Cristo! Como devem eles esforçar-se ainda mais por aguentar corajosamente todos os trabalhos e fadigas a que se expõem nesta guerra espiritual, ainda mais porque lutam na presença e sob o estandarte de um tão grande Rei, que lhes tem prometida uma grande recompensa. Mas, oh! os soldados deste mundo — temo — hão de levantar-se um dia em julgamento e condenar-nos por termos feito e sofrido tão pouco na guerra de Cristo, em comparação com o que eles mesmos fizeram e sofreram na guerra do mundo.

Considerai, em terceiro lugar, que tudo o que uma vez por todas foi dedicado e consagrado a Deus permanecerá para sempre dedicado e consagrado ao seu divino serviço; e profanar qualquer coisa a Ele consagrada não é menor crime que um sacrilégio. Portanto, a alma que pela Confirmação foi santificada, dedicada e consagrada a Deus, levando sempre consigo a marca dessa consagração, encontra-se por isso mesmo estritamente obrigada a pertencer-lhe, sendo-lhe sempre fiel e santa — como convém ao que foi consagrado ao seu divino serviço —, na condição de soldado e templo seu.

Lembrai-vos, ó cristãos, que é indelével, tanto nesse quanto no outro mundo, o caráter com que a alma é selada neste sacramento; lembrai-vos que, se vivermos à altura dessa marca, ela irá brilhar, resplandecente, em nossas almas por toda a eternidade, e será um não pequeno acréscimo à nossa glória e felicidade eternas. Mas se nos atrevermos a desonrar e profanar este selo sagrado de Cristo por meio duma vida indigna, e, depois de nos termos comprometido com Ele pela consagração de nossas almas, nos tornarmos rebeldes e desertores, este mesmo selo será causa de condenação para nós no dia do Juízo; ele permanecerá conosco para sempre como sinal da justiça divina, como marca de desgraça, como perpétua acusação contra os réprobos, e um motivo a mais para que a alma um dia consagrada a Deus sofra e seja ainda mais atormentada, por ter-se feito tão má, tão miserável, tão traiçoeira a ponto de O abandonar.

Tenhais, pois, sempre em mente o caráter sagrado de vossa Confirmação, bem como o do Batismo, de sorte que possais honrar as obrigações que neles contraístes. Não temais ante o panorama das batalhas em que vos tereis de envolver, ou das cruzes e asperezas que haveis de suportar nesta refrega, pois a graça e "a paz de Deus, que supera todo entendimento, vos guardará" ( Fil 4, 7) e "não permitirá que sejais provados acima de vossas forças" (1Cor 10, 13); antes, há de conduzir-vos com força à vitória. Em sinal disto, o Bispo deu-vos ao confirmar-vos um golpe no rosto, como manifestação das adversidades que enfrentareis; mas, ao mesmo tempo, transmitiu-vos a paz de Deus, a fim de que compreendais que Ele está convosco sempre, e nunca vos abandonará.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

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Confirmação, o sacramento dos soldados de Cristo

Pelo sacramento da Confirmação, “nós nos convertemos em soldados de Cristo e, armados adequadamente, empenhamo-nos em lutar ao seu lado contra o mundo, a carne e o demônio”.

São Luís de França

Sexta-feira da Oitava de Pentecostes

O sacramento da Confirmação

Considerai antes de tudo que a Confirmação é um sacramento por cuja virtude o fiel, se devidamente disposto, recebe o Espírito Santo juntamente com todos os seus dons e graças, a fim de tornar-se um cristão forte e maduro. Os Apóstolos foram confirmados de um modo maravilhoso pela descida visível do Espírito Santo no dia de Pentecostes; os demais fiéis, no entanto, haviam de ser confirmados por seus ministros, sucessores dos Apóstolos, ou seja, pelos Bispos da Igreja de Deus: "Eles rezaram [...], impuseram-lhes as mãos e receberam o Espírito Santo" ( At 8, 15.17; cf. 19, 6).

Dai graças ao Senhor por esta sagrada instituição, da qual Ele se serve para perpetuar na Igreja o envio de seu Espírito e a comunicação de suas graças. Que dignidade! que alegria é receber o Espírito Santo, Senhor do céu e da terra, fonte inesgotável de toda graça! Ele, que é liberalíssimo em compartilhar os próprios tesouros, os leva consigo onde quer que sopre. Quantos, pois, fazem guerra a si mesmos, quer por rejeitarem este grande meio de receber o Espírito Santo, quer por dele se aproximarem sem as devidas disposições, privando-se assim dos seus benefícios, quer enfim por ousarem pervertê-lo em causa de condenação!

Considerai agora que a graça própria e peculiar deste sacramento é a transmissão de uma fortaleza celeste, quer dizer, de uma força espiritual, um valor e coragem que permitam nos mantenhamos fiéis a Deus e combatamos os inimigos, tanto visíveis como invisíveis, da nossa fé. Por força deste sacramento, convertemo-nos em soldados de Cristo; alistamo-nos nas fileiras desse grande Rei; pomo-nos sob a sua bandeira; somos marcados na fronte com o sinal da sua Cruz, emblema de todas as suas tropas; e, armados adequadamente, empenhamo-nos em lutar ao seu lado contra o mundo, a carne e o demônio.

Oh! quão glorioso é ostentar o título de soldado de Cristo! Quão gratificante é servi-lO! Mas o que lucramos em seguir a Cristo como nosso capitão e ter o seu Santo Espírito para nos guiar, fortalecer, animar e defender? Oh! nobre é a retribuição que um tão grande Rei dá aos que combatem ao seu lado! Pois é Ele mesmo a recompensa, e para todo o sempre: "Sê fiel até a morte", disse Ele, "e te darei a coroa da vida" ( Ap 2, 10).

Considerai por fim que no sacramento da Confirmação a alma é consagrada a Deus de um modo peculiar pela unção derramada por esse Santo Espírito, ao mesmo tempo que a fronte é ungida com o Santo Crisma, uma mistura de óleo e bálsamo solenemente consagrada na Quinta-feira Santa pelos Bispos da Igreja de Deus e guardada nas igrejas com toda a reverência, para ser utilizada apenas na consagração dos objetos mais solenemente dedicados a Deus ou mais estreitamente destinados ao culto divino. Por isso, a Igreja emprega este santo óleo na Confirmação para fazer-nos compreender que nela também nós somos santificados, oferecidos e consagrados solenemente a Deus para sermos templos do seu Espírito; pois assim como a unção e consagração do corpo são sinais externos da unção e consagração invisíveis da alma por obra do Espírito de Deus, assim também todos os demais sacramentos são sinais externos da graça interna.

Cristãos, que pensais dessa consagração de vossas almas? Já vos considerastes a vós mesmos um povo entregue de forma especial a Deus e santificado pelo unção do seu Espírito? Refletistes alguma vez que fostes santificados com a mesma consagração com que se dedicam ao serviço divino os altares e templos de Deus? De agora em diante não vos esqueçais disso, e permiti que vossas vidas manifestem que sois templos vivos do Deus vivo.

Fazei, em conclusão, o propósito de ter em alta conta a graça de vossa Confirmação e de viver à altura do caráter com que fostes selados. Procurai comportar-vos sempre de modo a crescerdes na perfeição cristã e vos tornardes soldados de Cristo. Que não recebais inutilmente tão preciosa graça.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

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O jejum das Quatro Têmporas

Quem já faz sua abstinência de carne às sextas, observando o mandamento da Igreja, tem agora mais um sacrifício para oferecer a Deus, de estação a estação.

As Quatro Têmporas ( Quatuor Tempora, em latim) são celebrações litúrgicas da Igreja, ligadas às mudanças das quatro estações e instituídas para a santificação do ano civil. Eram consideradas tempos especiais de vigília e oração, durante os quais a Igreja procedia à ordenação de novos sacerdotes e recomendava aos católicos o jejum e a abstinência de carne.

Olhando-as a partir do hemisfério sul, temos:

  • as Têmporas da Quaresma, na primeira semana deste tempo litúrgico, marcando o início do outono;
  • as Têmporas de Pentecostes, celebradas na Oitava desta solenidade, marcando o início do inverno;
  • as Têmporas de São Miguel, em setembro, que indicam a passagem da primavera; e
  • as Têmporas do Advento, em dezembro, anunciando a chegada do verão.

Segundo a Legenda Áurea, do bem-aventurado Tiago de Varazze, teria sido o Papa São Leão Magno a estabelecer, no século V, essas comemorações. O Liber Pontificalis faz referência ao Papa Calisto, nos anos 200, mas sua origem, provavelmente, é ainda anterior a isso, datando da época dos Apóstolos.

Havia nelas, em primeiro lugar, uma relação de continuidade com o Antigo Testamento (cf. Zc 8, 19), pois os judeus costumavam jejuar quatro vezes por ano: uma por ocasião da Páscoa; uma antes de Pentecostes; outra antes da Festa dos Tabernáculos, em setembro; e uma última, por fim, antes da Dedicação, que se dava em dezembro. Desde o começo, também, essa instituição serviu como uma forma de "cristianizar" os festivais pagãos que aconteciam em Roma, em torno da agricultura e das estações.

Os dias em que se faziam esses jejuns sazonais eram a quarta, a sexta-feira e o sábado:

  • a quarta, por ser o dia em que o Senhor foi traído por Judas Iscariotes;
  • a sexta, por ser o dia de sua crucificação; e
  • o sábado, por ser o dia em que ele passou no túmulo e no qual os Apóstolos ficaram de luto por sua morte.

Também essa é uma prática imemorial, mencionada, por exemplo, pelo Didaquê, um dos mais antigos escritos cristãos de que se tem notícia.

Da "Cidade Eterna", a observância das Quatro Têmporas se difundiu por todo o Ocidente ainda na Alta Idade Média, sendo confirmada mais tarde pela autoridade de vários pontífices romanos — dentre eles, o Papa São Gregório VII, que reinou na Igreja de 1073 a 1085.

O alcance desse costume foi tão amplo a ponto de influenciar a culinária do Extremo Oriente: o tempurá, prato feito à base de mariscos e vegetais, nasceu no Japão do século XVI graças à atuação de missionários espanhóis e portugueses.

As Têmporas hoje

Uma celebração assim tão importante não poderia simplesmente ser abolida, sem mais nem menos. E de fato não foi, ainda que a sua influência tenha diminuído a olhos vistos.

No Missal de 1962, as Têmporas eram observadas como "férias de segunda classe", dias feriais de especial importância, que se sobrepunham inclusive a certas festas de santos. Cada dia tinha a sua Missa própria. Hoje, no entanto, ficou sob o encargo das conferências episcopais e das dioceses determinar o tempo e o modo de celebração das Quatro Têmporas, de acordo com prescrição da Sagrada Congregação para o Culto Divino. Em 1966, a Constituição Apostólica Paenitemini, do Papa Paulo VI, confirmou todas as sextas-feiras do ano como dias penitenciais, mas, ao mesmo tempo, os jejuns das Têmporas deixaram de ser obrigatórios.

Por que continuar jejuando, afinal, nessas épocas específicas do ano, é novamente o beato Tiago de Varazze que nos explica. O escritor medieval apresenta em sua Legenda Áurea pelo menos oito razões para mantermos essa piedosa tradição, ainda que ela tenha caído no esquecimento em nossos dias. Eis abaixo algumas delas:

  • Resistirmos aos efeitos provocadas pelas estações, "pois a primavera é quente e úmida, o verão quente e seco, o outono frio e seco, o inverno frio e úmido. Jejuamos na primavera para temperar em nós o humor nocivo que é a luxúria; no verão para castigar o calor prejudicial que é a avareza; no outono para temperar a secura do orgulho; no inverno para atenuar o frio da infidelidade e da malícia."
  • Atenuarmos as tendências desordenadas de cada temperamento, pois "o sangue aumenta na primavera, a bílis no verão, a melancolia no outono e a fleuma no inverno. Consequentemente, jejua-se na primavera para debilitar o sangue da concupiscência e da louca alegria, pois o sanguíneo é libidinoso e alegre. No verão, para enfraquecer a bílis do arrebatamento e da falsidade, pois o bilioso é por natureza colérico e falso. No outono, para acalmar a melancolia da cupidez e da tristeza, pois o melancólico é por natureza invejoso e triste. No inverno, para diminuir a fleuma da estupidez e da preguiça, pois o fleumático é por natureza estúpido e preguiçoso."
  • Adquirirmos as virtudes próprias de cada idade da vida, pois "a primavera relaciona-se à infância, o verão à adolescência, o outono à maturidade ou idade viril, o inverno à velhice. Jejuamos então na primavera para conservar a inocência de crianças; no verão para consolidar a força, evitando a incontinência; no outono para recuperar a juventude através da constância e ratificar a maturidade através da justiça; no inverno para ficar velhos com prudência e honestidade e para pagar as ofensas que fizemos ao Senhor nas outras idades."

O rol de motivos por que devemos fazer penitência não se esgota, evidentemente, nestas linhas. Assim como as quatro estações vão se substituindo ano após ano, e sem nenhuma trégua, assim também nós, conscientes da fragilidade de nossa carne e desejosos de reparar os Corações Imaculados de Jesus e de Maria, devemos viver em atitude permanente de mortificação.

É verdade, o termo "morte" pode soar mal aos ouvidos modernos. Muitos gostariam, na verdade, se pudessem, de apagá-lo de quaisquer pregações, homilias ou documentos da Igreja. Nos Evangelhos, entretanto, as palavras de Nosso Senhor não podiam ser mais claras:

"Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me." ( Lc 9, 23)

"Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna." (Jo 12, 24-25)

Por isso, a quem nos vier perguntar, em tom de zombaria, por que queremos morrer observando jejuns e abstinências, respondamos com caridade, mas convictos: nós não somos "masoquistas", só o que queremos é amar a Jesus Cristo, que nos amou primeiro e se entregou por cada um de nós (cf. Gl 2, 20).

É nesse contexto que se insere o jejum das Quatro Têmporas. Nesta sexta e neste sábado, a propósito, já podemos realizar, em nossas casas, as Têmporas de Pentecostes. Viver em família essa tradição pode ser tanto uma forma de testemunho para o mundo moderno, tão dado aos prazeres da carne, quanto uma oportunidade para formar os próprios filhos na escola da santidade. Quem já faz sua abstinência de carne às sextas, observando o mandamento da Igreja, tem agora mais um sacrifício para oferecer a Deus — lembrando sempre que quem ama, longe de contentar-se com o "mínimo" das obrigações, o que mais deseja, na verdade, é dar o "máximo" de si próprio.

Mesmo que doa, portanto, não deixemos de nos doar! Sirva-nos de modelo Santa Jacinta Marto, vidente de Fátima, que tinha o comer alimentos amargos como um de seus "sacrifícios habituais" e que, um dia, interpelada por sua prima para que deixasse de comer as bolotas dos carvalhos, porque amargavam muito, deu-lhe, em sua simplicidade, esta bela lição: "Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores."

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  • Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 236-238.
  • Francis Mershman, Ember Days. The Catholic Encyclopedia, v. 5. New York: Robert Appleton Company, 1909.
  • Michael P. Foley, The glow of the Ember Days. The Latin Mass Magazine, vol. 17:4. Disponível em inglês no Rorate Caeli e em português no Salvem a Liturgia!.

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Como saber se o Espírito Santo está presente em minha alma?

Se são estas as tuas sinceras disposições e determinações, “o Espírito Santo está contigo; mas se, pelo contrário, não te vês assim decidida, não há em teu coração espaço para Ele, pois Satã o está ocupando”.

Quinta-feira da Oitava de Pentecostes

Os sinais da presença do Espírito Santo na alma

Considerai, em primeiro lugar, que a maneira mais segura de sabermos se o Espírito Santo está ou não presente à alma é por seus frutos. O Espírito de Deus nunca está ocioso; Ele é um fogo que sempre queima, sempre se move, sempre tende para o alto. Se nada disto vemos em nossa alma, temos bons motivos para crer que Ele não está em nós. Seus frutos são a caridade, a alegria, a paz, a paciência e muitos outros; ora, se não temos nenhum desses frutos, Ele não está conosco.

Ouve, pois, meu filho: como está a tua fé? firme? viva? Ou antes débil e morta? Ela se manifesta no dia-a-dia? Tens vivido por ela? Qual é a tua esperança? O que pensas das coisas eternas? Que cuidado tens das coisas do espírito? Como é a tua devoção? Como amas a Deus e ao próximo? Alimentas o desejo de progredir diariamente nas veredas de Deus? Se te examinares nestes pontos, ser-te-á fácil julgar se tens ou não o Espírito Santo ao teu lado. E não há mais seguro indício da presença divina do Espírito do que um constante e fervoroso desejo de amar a Deus cada dia mais, de O conhecer e cumprir-Lhe a vontade em todas as coisas. E tu, acaso encontras em ti o desejo de O amar e agradar? Se dizes que sim, então o Espírito de Deus não pode estar longe de ti.

Considerai agora que, sendo infinita a distância que separa o Espírito de Deus do pecado voluntário, outro dos sinais seguros de que o Espírito Santo habita nossa alma é a vontade firme e constante de evitar todo pecado deliberado, com a determinada determinação de nunca mais admitir, sob o aspecto que for, tudo quanto seja pecaminoso. Ó minh'alma, quais as tuas disposições a esse respeito? Estás tu inteiramente empenhada em ser, tanto na vida como na morte, fiel e leal ao teu Deus? Renuncias resolutamente, agora e para sempre, a Satanás e suas obras? É esta a tua constante e assentada decisão de nunca mais transgredir a lei sagrada e os Mandamentos de Deus, seja por honras mundanas ou prazer, por respeito humano, seja por amor ou medo a quanto o mundo pode dar ou subtrair, seja enfim por qualquer outro motivo? Se esta é a tua sincera disposição e determinação, o Espírito Santo está contigo; mas se, pelo contrário, não te vês assim decidida, não há em teu coração espaço para Ele, pois Satã o está ocupando.

Considerai, em terceiro lugar, que aonde quer que o Espírito Santo se dirija Ele convence "o mundo do pecado, da justiça e da sentença" ( Jo 16, 7). Ele convence, pois, a alma do pecado na medida em que a ilumina com a sua presença, fazendo-a compreender a feiúra do pecado, bem como o número e a gravidade de suas próprias faltas, e inspirando-lhe um horror por esse monstro infernal e um desejo de exterminá-lo pela penitência. O Espírito também a faz enxergar manchas onde ela julgava estar limpa, e humilha o seu orgulho convencendo-a de suas várias culpas. Ó alma, sabes já o que é estar convencido do pecado?

Com sua vinda o Espírito Santo convence-a também da justiça de Cristo e de sua lei celestial, da beleza das virtudes e da santidade, do prazer e da felicidade que se sentem ao servir a Deus de perto. Estás convencida, ó alma, disso tudo na prática? Preferes de fato o maná descido do Céu às lentilhas do Egito?

O Espírito Santo, ainda uma vez por sua vinda, convence a alma do falso juízo que ela até agora tem formado, ao seguir o mundo e o príncipe deste mundo, o qual já foi julgado e condenado, e do reto juízo que deve ter de todas as coisas, a fim de livrar-se do julgamento que, caso não o faça, Deus fará recair um dia sobre ela. E tu, ó minh'alma, te vês convencida desse julgamento? Estão os teus juízos acerca da verdade e do erro, da veracidade e da vaidade, do tempo e da eternidade, retificados pelo Espírito Santo? Não tens por acaso, por um perverso engano, seguido o príncipe deste mundo, em vez de Cristo; as máximas mundanas, que não passam de mentiras, em vez do exemplo dos santos, que ponderam todas as coisas na balança da santidade? Que o teu modo de julgar as coisas resista à prova do último grande Julgamento.

Concluí, pois, que é examinando os sinais como os aqui descritos que podeis discernir se o Espírito de Deus está ou não convosco. Se percebeis em vós algum dos indícios de sua presença, rendei-Lhe humildes ações de graças; não vos fieis, porém, de vós mesmos, a fim de não serdes ludibriados por vosso amor-próprio, ou separados do Espírito por causa do vosso orgulho. Se, por outro lado, não sois capazes de perceber as marcas de que Ele vos acompanha, chorai vossa miséria, e não vos deis nenhum descanso; chorai lágrimas de penitência, rezai com fervor, recorrei enfim a todos os meios de O trazer de volta às vossas almas, até que possais ter outra a vez a esperança de O terdes em vossos corações.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

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Como podemos manter conosco o Espírito Santo?

O Espírito Santo “abandona as almas que, não tendo o cuidado de estar recolhidas a seus pés, preferem dissipar-se em distrações e esbanjar com fantasias e pensamentos inúteis o tempo precioso que deveriam passar com Ele”.

Quarta-feira da Oitava de Pentecostes

Sobre os meios de manter o Espírito Santo conosco

Considerai primeiro que uma alma que tenha sido agraciada com a visita do Espírito Santo, se deseja preservar a felicidade que aí encontra, deve ter o cuidado de O tratar da maneira adequada. Com efeito, se ela dá pouca ou nenhuma atenção a esse divino hóspede; se logo dá-Lhe as costas para voltar-se a qualquer divertimento ocioso e inoportuno que se lhe ofereça; se não procura recolher-se para O encontrar; se enfim não ama tratá-lO na intimidade, sem demora O há de perder e afastar de si. Pois a delícia do Espírito Santo é estar com quem ama estar com Ele. Espera esse divino hóspede que correspondamos ao seu amor, e por essa razão abandona as almas que, não tendo o cuidado de estar recolhidas a seus pés, preferem dissipar-se em distrações e esbanjar com fantasias e pensamentos inúteis o tempo precioso que deveriam passar com Ele.

Ó minh'alma, não é este o estado em que tantas vezes te encontras? Dentre as muitas coisas que de hora em hora ocupam-te a mente ao longo do dia, quantas são as proveitosas? quantas as que poderiam pensar-se na presença do Espírito Santo? Como então esperas que Ele permaneça contigo, se tu mesma introduzes tais companhias no cômodo que Lhe está reservado?

Considerai, em segundo lugar, que o Espírito de Deus, assim como não irá habitar numa alma que, deixando de recolher o pensamento, faz dEle pouco caso, tampouco o fará numa alma que não O serve com pureza de intenção e afeto. Ele, só, quer ser o dono do coração em que reside e não permitirá que ali se meta um intruso, pois é um amante ciumento que não tolera rivalidades. Ora, um coração que em seus afetos divide-se entre o Criador e a criatura repele o Espírito Santo: Ele não suportará qualquer divisão; Ele quer apoderar-se sozinho de todo o coração: ou Ele ou ninguém mais o possuirá inteiramente.

Cristãos, se de fato aspirais à felicidade de serdes templo do Espírito Santo, não ergais em vossas almas ídolo nenhum, porque são ídolos todos os afetos desordenados, já que por causa deles ao Criador preferis a criatura; e todos os afetos desse tipo são como redes lançadas aos vossos corações para os apartar de Deus. Tornai inocente o objeto do vosso amor, que deixa de sê-lo sempre que é amado sem a devida subordinação ao amor a Deus; ele torna-se impuro, corrompe o coração, espanta o Espírito de Deus, que não desce senão aos limpos de coração.

Considerai finalmente que, para mantermos o Espírito Santo presente em nossa alma, de modo que Ele deseje ali habitar como em seu templo, devemos não apenas manter limpo e imaculado este templo, pois "se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá" ( 1Cor 3, 17), mas ainda empenhar-nos em fazer dele uma casa de oração, como deve ser a casa de Deus. Temos de retirar-nos aí com frequência, para adorar em espírito e verdade o Espírito da Verdade. Temos de aplicar as três potências da alma — vontade, memória e inteligência — à tarefa de aí conversarmos na oração mental com o Deus que as criou; o culto a Deus, para o dizer numa palavra, deve ser constante neste seu templo. É esse o meio de O mantermos conosco e transformarmos nossas almas em remanso seu para sempre.

Disso tudo podeis concluir o quão proveitoso é lançar mão de todos esses meios, a fim de entreter essa visita soberana e como "fixá-la" na alma. Dai-Lhe a plena posse de vossa memória e entendimento, atendendo à sua presença com profundo recolhimento; deixai-O, pois, assenhorear-se de vossa vontade mediante a simplicidade de intenção e a pureza de coração e afeto; desse modo, Ele estará convosco para sempre.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

| Categoria: Espiritualidade

Sobre os dons do Espírito Santo

Aprenda nesta meditação “o quanto se devem estimar esses dons celestes”, os dons do Espírito Santo, “dos quais o menor é ainda mais precioso do que tudo o que o mundo nos pode oferecer”.

Terça-feira na Oitava de Pentecostes

Sobre os dons do Espírito Santo

Considerai em primeiro lugar os dons preciosos que o Espírito de Deus traz consigo onde quer que se encontre, e os tesouros concedidos às almas em que Ele faz a sua morada. O profeta Isaías enumera sete dons admiráveis do Espírito Santo ao chamar-Lhe "Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de conselho e de fortaleza, Espírito de ciência e de piedade [...], Espírito de temor do Senhor" ( Is 11, 2s). Oh! quão preciosos e admiráveis são decerto esses dons! Oh! quão rica é a alma que toma posse de tais tesouros pela vinda do Espírito Santo!

Mas qual é a sabedoria concedida pelo Espírito Santo? Não é a sabedoria deste mundo, a qual não passa de tolice aos olhos de Deus, pois ela, ao mesmo tempo que se esquece do Senhor e da eternidade, não busca senão os bens terrenos e a satisfação dos desejos passageiros deste mundo. Tampouco é a sabedoria dos filósofos, que se ocupam do curso das estrelas e dos segredos da natureza, enquanto rejeitam procurar a verdade em sua fonte; eles, com efeito, não estão seriamente empenhados em conhecer nem a Deus nem a si mesmos. A única sabedoria digna desse nome é a que consiste no conhecimento e amor de Deus, a que tende continuamente para Ele e esforça-se por encontrá-lO em todas as coisas.

Considerai agora quão preciosos são os dons comunicados à alma pelo Espírito de Deus. O dom de entendimento, que abre os olhos da alma para a luz de Deus e fá-la contemplar as verdades divinas à sua luz própria; que lhe revela com clareza como são vãs e transitórias todas as honrarias deste séculos, as riquezas, os prazeres, e a convence assim de que nada é mais verdadeiramente digno de sua afeição do que os bens eternos. Com o auxílio dessa luz, o fim de nossa criação, a dignidade de uma alma imortal, a natureza de nossa peregrinação terrestre, os quatro Novíssimos, assim como outras tantas verdades cristãs, tudo isso lança raízes profundas na alma e exerce uma influência maravilhosa em nossas vidas.

E quando, como estrangeiros e viajantes cá embaixo, acossados por um sem número de fortes e astutos inimigos, somos compelidos a tomar o caminho que nos leva à verdadeira pátria, passando por muitas dificuldades e perigos, o Espírito de Deus vem em nosso socorro com dois outros dons admiráveis, a saber, o dom de conselho, para mostrar-nos o caminho, descobrir-nos os ardis dos inimigos e conduzir-nos sãos e salvos por todos os perigos, e o dom de fortaleza, também chamado "força e coragem celeste", para animar-nos a enfrentar as oposições mundanas, a carne e o demônio, e para ajudar-nos a sair vitoriosos de todas as batalhas. Oh! quão feliz é o peregrino que conta conta com tal guia, com tal conselheiro, con tão poderoso ajudante e protetor!

Considerai, em terceiro lugar, os demais dons que o Espírito Santo transmite à alma em que habita: o dom de conhecimento, que a educa e instrui em toda virtude, em todo dever, em cada passo que ela deve dar em direção a Deus e à vida eterna; o dom de piedade, que a torna fervorosa no serviço de Deus, de maneira que ela cresça em vigor e presteza no cumprimento de seus divinos Mandamentos; e, por fim, o dom de temor do Senhor, a que as Escrituras chamam "começo da sabedoria" (cf. Pr 9, 10), e que infunde na alma horror a tudo quanto ofende a Deus, fazendo-a temer mais o desagradá-lO do que qualquer outro mal. Acaso pode comparar-se com estes qualquer um dos tesouros da terra?

Concluí enfim o quanto se devem estimar esses dons celestes, dos quais o menor é ainda mais precioso do que tudo o que o mundo nos pode oferecer. Quão rica, pois, é a alma que deles saber tirar proveito, deixando-se acompanhar pelo Espírito de Deus, que é a fonte de todo bem e o único que nos pode comunicar dons tão excelentes.

Por D. Richard Challoner — Liturgia Latina | Tradução: Equipe CNP

| Categoria: Espiritualidade

Onde não está o Espírito de Deus, está Satanás

“Assim como nada pode ser mais ditoso que possuir o Espírito Santo em nossa alma, nada pode ser mais terrível do que estar sem esse divino Hóspede. Onde não está o Espírito de Deus, aí está Satanás.”

Segunda-feira na Oitava de Pentecostes

Da alegria de ter o Espírito Santo na alma

Consideremos, em primeiro lugar, com que ditoso hóspede se entretém a alma, quando tem dentro de si o Espírito Santo. Ele é chamado na Escritura de Paráclito ( Qui diceris Paraclitus), nome que significa, ao mesmo tempo, "consolador" e "intercessor": consolador, por causa das graças e consolações que Ele comunica à alma, tornando doces, em sua peregrinação mortal, todas as suas cruzes e trabalhos, e ajudando-a a superar todas as dificuldades e oposições; e intercessor, por suplicar para ela o espírito de oração, que Ele mesmo inspira, ensinando-a a rezar, agindo com ela e nela.

Ele é chamado o dom do Altíssimo por excelência ( altissimi donum Dei), o maior presente que Deus nos pode conceder. Afinal, o que pode Ele nos dar que seja maior do que Ele mesmo? Ele é dom que abarca, pois, todos os outros.

Ele é chamado de fonte viva ( fons vivus), ou fonte de água viva, jorrando para a vida eterna, revigorando o homem interior, amenizando o fogo da concupiscência, extinguindo toda sede pelas coisas deste mundo, e regando a alma com uma corrente perene de graças.

Ele é chamado de fogo ( ignis), pelas chamas vivas de amor com que incendeia a alma; de unção da alma (spiritalis unctio), por difundir com doçura a Si mesmo por toda a alma, dando-lhe força e vigor. Ó, que mais pode querer a alma que com um tal hóspede se entretém? Não se antecipa nela, em certa medida, a alegria do Céu, tendo dentro de si o Rei dos céus com todas as suas graças?

Consideremos, em segundo lugar, os frutos benditos que produz na alma a presença do Espírito Santo, tais como os enumera São Paulo (cf. Gl 5, 22-23) e ensina a Tradição da Igreja:

  1. A caridade — que abrange o amor de Deus, por sua própria bondade infinita, e o amor do próximo, em Deus e por Deus —, fruto tão notável nos primeiros cristãos depois que eles receberam o Espírito Santo, ao ponto de os Atos dos Apóstolos dizerem que, por seu amor a Deus, "a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma" (At 4, 32).
  2. A alegria, provinda do testemunho de uma boa consciência (cf. 2Cor 1, 12), bem como de percebermos a presença desse divino Hóspede, e experimentarmos a sua doçura.
  3. A paz com Deus, com nosso próximo e conosco mesmos, uma paz que não é concedida aos perversos.
  4. A paciência em suportar cruzes e adversidades, as quais torna leves e suaves este Espírito celeste.
  5. A benignidade, ou gentileza, em aliviar os aflitos.
  6. A bondade, que é como uma vontade de comunicar tudo que há de bom ao nosso próximo.
  7. A longanimidade, que é a disposição de sofrer com perseverança, sem desanimar, a fim de vencer o mal com o bem.
  8. A mansidão em conter a própria cólera e suportar injúrias.
  9. A fidelidade a todos os nossos compromissos, seja com Deus seja com nosso próximo.
  10. A modéstia, moderação em todas as coisas, regulando todo movimento seja do nosso corpo seja da nossa alma.
  11. A continência, que é temperança em refrear todas as nossas inclinações desordenadas.
  12. A castidade, que preserva seja o corpo seja a alma das impurezas da luxúria.

Ó que frutos felizes são estes! E quão feliz é a alma na qual o Espírito de Deus produz todos estes frutos! Ó alma minha, traz este Espírito celeste para dentro de tua casa interior, entretém-te aí com Ele, e todos estes frutos serão teus!

Consideremos em terceiro lugar que, assim como nada pode ser mais ditoso que possuir o Espírito Santo em nossa alma, nada pode ser mais miserável do que estar sem esse divino Hóspede. Onde não está o Espírito de Deus, aí está Satanás. E, ai de nós!, pode haver miséria maior que ser possuído por Satanás? "Se alguém não tem o Espírito de Cristo", diz o Apóstolo, "não pertence a Cristo." ( Rm 8, 9). Se não pertence a Ele, a quem pertence então? Que lugar poderia ele tomar no Corpo de Cristo ou no seu Reino?

Ó, quão verdadeiro é o que a Igreja canta nestes tempos, em sua súplica ao divino Espírito: Sine tuo numine, nihil est in homine, nihil est innoxium, isto é, sem a luz da divindade, nada há no homem, nada que seja inocente (em nossa tradução litúrgica: "Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele"). Temamos, pois, a miséria de ficar sem Ele, e fujamos de todos os males que O possam afastar de nós.

Não negligenciemos, por fim, nada que esteja em nosso poder, pelo qual devemos procurar para nossa alma a alegria de ser um templo do Deus vivo e de ter aí o Espírito Santo, não apenas como um visitante, mas fazendo morada definitiva em nós, tanto no tempo como na eternidade.

Por Dom Richard Challoner — Meditations | Tradução e adaptação: Equipe CNP