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A fé católica não é autoajuda

O ser humano precisa de mais que arrepios e lágrimas para deixar-se pregar em uma cruz, para beijar leprosos ou para viver o celibato sacerdotal.

Há uma noção geral, nos dias de hoje, de que a fé religiosa seria apenas um sentimento. Daí que muitos pregadores, inclusive católicos, se esforcem amiúde para tocar os corações e arrancar lágrimas do público que devotamente acode às suas pregações, à procura de alguma solução para seus problemas, mais temporais que propriamente sagrados: a conta a pagar, o namoro que terminou, a inveja da vizinha, e por aí vai…

Esse tipo de vivência religiosa não deixa de gerar um problema: uma fé puramente sentimental, por mais "fervorosa" que seja, não exige obediência a qualquer revelação objetiva, dado que sua motivação parte propriamente de uma experiência particular, que pode variar segundo as diferentes condições e circunstâncias da pessoa. A consequência disso é lógica: se a fé é tão somente expressão de um sentimento ou de uma experiência íntima, como sugerem alguns teólogos modernos, então qualquer sentimento ou experiência religiosa são válidos. Como dizer, portanto, que o "batismo no Espírito Santo" é mais verdadeiro que as manifestações do terreiro de umbanda ou que as bênçãos de Alá?

Note-se, por isso, uma coisa: não é estranha a má vontade com que muitos olham para o fenômeno religioso, uma vez que ele se torna mais um delírio de mulheres apaixonadas do que atitude de gente sensata. O ser humano é por natureza um ser racional; ele naturalmente procura saber as causas dos fenômenos que se apresentam diante de seus olhos. Se a causa da fé é apenas um "um movimento do coração" — e não um dom gratuitamente dado por Deus, pelo qual o homem move racionalmente a sua vontade às verdades eternas —, iniciada está a marcha para o ateísmo, cujo primeiro passo foi dado 500 anos atrás por um monge agostiniano chamado Martinho Lutero.

Lutero foi quem primeiro mudou o conceito de fé, associando-o a "uma atitude interior" ou "disposição do sujeito", pela qual ele se relaciona subjetivamente com o conteúdo da Revelação. Em sua tradução da Carta aos Hebreus, o pai do protestantismo traduziu ὑπόστασις ("hipóstase") , o termo grego utilizado por São Paulo para definir a fé, por firmeza: "Fé é: permanecer firmes naquilo que se espera, estar convencidos daquilo que não se vê" (11, 1). Embora essa interpretação não seja de todo errada, ela não reflete o sentido mais profundo da palavra "hipóstase", tal como os Santos Padres e a Escolástica sempre a entenderam e ensinaram aos fiéis: "A fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão-de vir, mas estão ainda totalmente ausentes; ela dá-nos algo" [1].

Todavia, o subjetivismo de Lutero acabou prevalecendo na exegese bíblica, o que ocasionou, nos séculos seguintes, toda uma amálgama de heresias e contestações da Tradição, da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja, conforme denunciou São Pio X: "Neste caminho os protestantes deram o primeiro passo; os modernistas o segundo; pouco falta para o completo ateísmo" [2].

Qual seria, então, a definição correta de fé? Ora, o texto exato da Carta aos Hebreus é este: "A fé é 'hipóstase' das coisas que se esperam; prova das coisas que não se vêem". A palavra "hipóstase", aqui, quer dizer substância, isto é, "o que está debaixo". Esta é, portanto, a tradução correta do ensinamento de São Paulo, de acordo com os manuscritos da Igreja primitiva: " Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium". A fé, neste sentido, é algo mais que um sentimento; trata-se de um contato concreto e efetivo com as realidades divinas, uma relação com o ser, com a substância de Deus. E é por essa razão, ou seja, pela autoridade do ser de Deus, que o homem move racionalmente a sua vontade para o conteúdo das verdades reveladas.

O homem é movido pela fé porque ela o coloca efetivamente diante das maravilhas da eternidade, de modo que seu agir passa concretamente a ter outro fundamento. É por esse novo fundamento que tantos santos se entregaram ao martírio ou abandonaram todos os bens temporais para assumirem um estilo de vida totalmente austero. Ninguém pode mover-se a renúncias e sacrifícios tão eminentes apenas por um sentimento ou disposição interior. De fato, o ser humano precisa de mais que arrepios e lágrimas para deixar-se pregar em uma cruz, para beijar leprosos ou para viver o celibato sacerdotal.

Com efeito, pode-se enquadrar a fé dentro de um dos três gêneros de conhecimento humano. Há o conhecimento por meio da evidência direta, como também por meio de demonstração racional. A fé divina, por sua vez, pertence àquele conhecimento por testemunho de alguém; neste caso, o testemunho inequívoco da própria pessoa de Cristo. Pela evidência direta e por meio de demonstração racional, o homem consegue demonstrar a existência de Deus, como fizeram os primeiros filósofos pagãos ou mesmo cristãos na chamada Teodiceia. É preciso, no entanto, que Deus ilumine a razão humana a fim de que ela chegue àquele novo fundamento do Deus Uno e Trino e das "provas" de suas promessas: "Se alguém disser que a fé divina não se distingue do conhecimento natural de Deus e da moral, e que, portanto, para a fé divina não se requer que a verdade revelada seja crida por causa da autoridade de Deus que revela, seja anátema" [3].

Eis aí, portanto, o que devem fomentar os pregadores católicos. Eles devem ensinar os fiéis a pedirem o dom da fé divina, pela qual a experiência concreta com o fundamento de Deus torna-se acessível. É preciso buscar antes o Deus das consolações que as consolações de Deus. Se os santos choravam quando ouviam falar da Paixão de Cristo, não era simplesmente por um sentimento piedoso, mas pelo conhecimento fundamental de que as chicotadas contra o Salvador tinham como causa primeiríssima os pecados da humanidade.

Em última análise, a fé também é o início da vida eterna. Não é para espantar, portanto, que o inimigo de Deus queira iludir os cristãos, afastando-os da verdadeira fé e, por conseguinte, daquele fundamento, daquela substância que os leva a abandonar tudo pelo Reino dos Céus. Por isso, longe de buscar aplausos e lágrimas copiosas, o que o pregador católico deve colocar no coração dos fiéis é aquele desejo por um fundamento novo, incentivando-os a viverem inteiramente da graça, e não a partir de sentimentos, que são efêmeros. Foi esta experiência de fé verdadeira que arrancou Edith Stein do ateísmo e a colocou no Carmelo para tornar-se a mártir Santa Teresa Benedita da Cruz. Que teria acontecido se, em lugar do Livro da Vida, de Santa Teresa d'Ávila, a então Edith Stein houvesse lido alguns dos tantos livros de "autoajuda cristã" que circulam por aí?

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi (30 de novembro de 2007), n. 7.
  2. Papa São Pio X, Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis (8 de setembro de 1907).
  3. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius, Sobre a Fé, (24 de abril de 1870), cân. 2.

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Não esqueçam a oração de São Miguel Arcanjo!

Ainda que não seja mais recitada ao final das Missas, como acontecia antigamente, a oração a São Miguel Arcanjo continua sendo um auxílio poderoso “na batalha contra as forças das trevas e contra o espírito deste mundo”.

Depois de receber em 1884 uma visão terrível de forças diabólicas prestes a serem soltas na Terra, o Papa Leão XIII escreveu de próprio punho a oração a São Miguel, ordenando que ela fosse recitada logo em seguida a todas as Missas rezadas no rito latino. A oração ao Arcanjo tornou-se parte das chamadas "orações leoninas", as quais foram deixadas de lado pela reforma litúrgica da década de 1960.

Em 1994, porém, o Papa São João Paulo II fez notar a ausência dessa oração e pediu que ela fosse novamente recitada pelos fiéis. Foi no dia 24 de abril, no Vaticano, depois da tradicional oração do Regina Caeli:

"Que a oração nos fortaleça para aquela batalha espiritual de que fala a Carta aos Efésios: 'Fortalecei-vos no Senhor e no poder da sua virtude' ( Ef 6, 10). É a essa mesma batalha que se refere o Livro do Apocalipse, colocando diante de nossos olhos a imagem de São Miguel Arcanjo (cf. Ap 12, 7). Tinha certamente bem presente diante de si essa cena o Papa Leão XIII, quando, no final do século passado, introduziu em toda a Igreja uma oração especial a São Miguel: 'São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate contra a maldade e as ciladas do demônio…'

Ainda que hoje essa oração não seja mais recitada ao término da celebração eucarística, convido todos a não esquecê-la, mas a recitá-la para obter a ajuda na batalha contra as forças das trevas e contra o espírito deste mundo."

Curiosamente, uma década apenas depois que essa oração deixou de ser recitada nas paróquias após as Missas, o bem-aventurado Papa Paulo VI reconhecia, com pesar, as vitórias que Satanás e suas forças estavam obtendo sobre a Igreja. Em uma homilia no dia 29 de junho de 1972, ele alertava:

" Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Subsiste a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se a confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrermos a ele e lhe pedirmos se tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, que já somos os donos e os mestres [dessa fórmula]. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam, em vez disso, serem abertas à luz.

[...]

Na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los. Como aconteceu isso? Confiamo-vos um nosso Pensamento: houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é o Diabo."

A oração a São Miguel foi composta pelo Papa Leão XIII no dia 13 de outubro de 1884, exatamente 33 anos antes do Milagre do Sol, em Fátima. Seguem a versão latina original da oração e a sua tradução portuguesa:

Sancte Michael Archangele, defende nos in proelio, contra nequitiam et insidias diaboli esto praesidium. Imperet illi Deus, supplices deprecamur: tuque, Princeps militiae caelestis, Satanam aliosque spiritus malignos, qui ad perditionem animarum pervagantur in mundo, divina virtute, in infernum detrude. Amen.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede nosso refúgio contra a maldade e as ciladas do demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos, e vós príncipe da milícia celeste, pelo Divino Poder, precipitai no inferno a Satanás e a todos os espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.

Fonte: Church Militant | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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“Eu, Irmã Faustina, estive nos abismos do Inferno”

“Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe.”

Um dos argumentos de que mais se servem os inimigos da Igreja para pôr em questão a verdade do inferno diz respeito à misericórdia divina. "Se Deus é misericordioso", dizem, "não condenará ninguém a fogo nenhum, quanto mais eternamente."

O primeiro problema por trás dessa forma de pensamento é, sobretudo, a falta de fé. Se Jesus Cristo realmente é Deus, como crê e ensina desde o princípio a Igreja Católica, e se foi Ele próprio quem disse, conforme consignado inúmeras vezes no Evangelho, que existe o "inferno" (cf. Mt 11, 23; 23, 33; Lc 12, 5; 16, 23), o "fogo eterno" (cf. Mt 18, 8; 25, 41), a "geena" (cf. Mt 5, 22ss; 10, 28; Mc 9, 43ss), ou o "castigo eterno" (cf. Mt 25, 46), a única resposta possível do ser humano é crer em suas palavras. O próprio Deus falou; a segunda Pessoa da Santíssima Trindade se pronunciou, Ele que nec falli nec fallere potest, isto é, "não se engana nem nos pode enganar" [1]. Ou aceitamos por isso a verdade do inferno, ou então estamos brincando quando dizemos crer em Deus, em Jesus e na sua Igreja. Quem escolhe da doutrina que o próprio Senhor revelou somente aquilo que lhe agrada, pondo de lado o que lhe desagrada, não é em Deus que crê, mas em si mesmo; não é católico, mas herege.

É claro que a teologia pode explicar a doutrina do inferno e demonstrar, àqueles que já crêem, a razoabilidade desse ensinamento de Nosso Senhor. O Deus cristão, afinal de contas, é também λόγος ("logos"); o que Ele faz não nasce do puro arbítrio, como acreditam os voluntaristas, os fideístas ou os muçulmanos. Ao mesmo tempo, porém, àqueles que estão do lado de fora, nenhuma explicação será suficiente para que creiam. Se essas pessoas, resistindo, não derem seu assentimento de fé à autoridade de Deus revelante, aceitando em sua totalidade o depositum fidei que a Igreja custodia e anuncia, todo e qualquer esforço argumentativo será em vão.

Nesse sentido, a visão de Santa Faustina Kowalska, descrita a seguir, serve menos para convencer os descrentes que para confirmar, no coração dos católicos mornos ou vacilantes, a veracidade da doutrina católica de sempre sobre o inferno. Pode-se muito bem, é verdade, duvidar dessa revelação privada que recebeu a Apóstola da Misericórdia, assim como se pode duvidar da visão do inferno de Fátima e de outros tantos fenômenos místicos semelhantes por que passaram os santos da Igreja [2]. O que não pode questionar, ao menos quem foi batizado na fé da Igreja e enche a boca para se dizer "católico", é que o inferno existe e a condenação eterna é uma possibilidade real e terrível, confirmada pelos Evangelhos, pela Tradição e pelo Magistério — ainda que, na verdade, os teólogos avessos a essas revelações privadas (aprovadas pela Igreja!) sejam, na maioria das vezes, justamente os hereges que rechaçam essa parte, incômoda, da doutrina católica.

Quem tem fé, entretanto, na vida eterna (e talvez até seja devoto da Divina Misericórdia), atente-se bem às palavras dessa santa religiosa, que recebeu de Deus o privilégio de visitar o inferno: "Estou escrevendo isso por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há Inferno, ou que ninguém esteve lá e não sabe como é"; "Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe". O testemunho de Santa Faustina é dirigido a nós, homens céticos e incrédulos do século XXI!

Escutemos o apelo que a Misericórdia Divina nos faz e, temendo a principal pena do inferno, que é "a perda de Deus", aprendamos a evitar o pecado, que nos faz viver a amargura e a infelicidade ainda nesta vida.

Hoje conduzida por um Anjo, fui levada às profundezas do Inferno. É um lugar de grande castigo, e como é grande a sua extensão. Tipos de tormentos que vi: o primeiro tormento que constitui o Inferno é a perda de Deus; o segundo, o contínuo remorso de consciência; o terceiro, o de que esse destino já não mudará nunca; o quarto tormento, é o fogo, que atravessa a alma, mas não a destrói; é um tormento terrível, é um fogo puramente espiritual aceso pela ira de Deus; o quinto é a contínua escuridão, um horrível cheiro sufocante e, embora haja escuridão, os demônios e as almas condenadas vêem-se mutuamente e vêem todo o mal dos outros e o seu; o sexto é a continua companhia do demônio; o sétimo tormento, o terrível desespero, ódio a Deus, maldições, blasfêmias. São tormentos que todos os condenados sofrem juntos, mas não é o fim dos tormentos. Existem tormentos especiais para as almas, os tormentos dos sentidos. Cada alma é atormentada com o que pecou, de maneira horrível e indescritível. Existem terríveis prisões subterrâneas, abismos de castigo, onde um tormento se distingue do outro. Eu teria morrido vendo esses terríveis tormentos, se não me sustentasse a onipotência de Deus. Que o pecador saiba que será atormentado com o sentido com que pecou, por toda eternidade. Estou escrevendo isso por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há Inferno, ou que ninguém esteve lá e não sabe como é.

Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe. Sobre isso não posso falar agora, tenho ordem de Deus para deixar isso por escrito. Os demônios tinham grande ódio contra mim, mas, por ordem de Deus, tinham que me obedecer. O que eu escrevi dá apenas a pálida imagem das coisas que vi. Percebi, no entanto, uma coisa: o maior número das almas que lá estão, é justamente daqueles que não acreditavam que o Inferno existisse. Quando voltei a mim, não podia me refazer do terror de ver como as almas sofrem terrivelmente ali e, por isso, rezo com mais fervor ainda pela conversão dos pecadores; incessantemente, peço a misericórdia de Deus para eles. "Ó meu Jesus, prefiro agonizar até o fim do mundo nos maiores suplícios a ter que Vos ofender com o menor pecado que seja."

[...]

Hoje ouvi as palavras: No Antigo Testamento, Eu enviava Profetas ao Meu povo com ameaças. Hoje estou enviando-te a toda a humanidade com a Minha misericórdia. Não quero castigar a sofrida humanidade, mas desejo curá-la estreitando-a ao Meu misericordioso Coração. Utilizo os castigos, apenas quando eles mesmos Me obrigam a isso, e é com relutância que a Minha mão empunha a espada da justiça. Antes do dia da justiça estou enviando o dia da Misericórdia. Eu respondi: "Ó meu Jesus, falai Vós mesmo às almas, porque as minhas palavras são insignificantes. [3]

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius (24 de abril de 1870), III: DS 3008.
  2. A expressão "Pode-se muito bem", aqui, deve ser lida de acordo com as orientações do Catecismo da Igreja Católica a esse respeito: "No decurso dos séculos tem havido revelações ditas 'privadas', algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é 'aperfeiçoar' ou 'completar' a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja." (§ 67)
  3. Diário de Santa Faustina, n. 741 e 1588.

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Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus

Em 1928, o Papa Pio XI entregou uma oração urgente a toda a Igreja: o ato de reparação ao Sagrado Coração de Jesus. Aprenda a rezá-lo e conheça a teologia por trás dessa importante prática de piedade.

Neste ano de 2017, as duas mais importantes nações lusófonas do mundo experimentam o privilégio de um Jubileu Mariano: em Portugal, por um lado, celebra-se o primeiro centenário das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima; no Brasil, por outro, comemoram-se os 300 anos do encontro, nas águas do Rio Paraíba, da imagem milagrosa da Virgem de Aparecida.

Dentre as várias formas pelas quais o site do Padre Paulo Ricardo deseja ajudar seus alunos e visitantes a viverem bem esse tempo de graça, destaca-se a prática dos "primeiros sábados do mês", uma devoção ensinada por Nossa Senhora à Irmã Lúcia cuja finalidade é reparar os pecados cometidos contra o seu Imaculado Coração. Para entender mais exatamente em que consiste esse piedoso exercício, vale a pena conferir a "A Resposta Católica" que temos a este respeito.

Mas os cristãos, particularmente os de nossa época, podem ser levados a perguntar: o que significa, afinal de contas, esta palavra — "reparação"?

Tão ausente de nossas homilias, meditações e orações quanto as verdades do pecado e do inferno, as palavras "reparação", "satisfação" e "desagravo", todas elas sinônimas, foram relegadas por muitos teólogos como "peças de museu", pertencentes a uma doutrina arqueológica, da qual o homem moderno deveria desfazer-se de uma vez por todas, já que não serviria mais, dizem eles, às necessidades "práticas" do mundo atual.

A verdade, porém, é que "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre" (Hb 13, 8). Se os primeiros cristãos completavam na sua carne o que faltava à paixão de Cristo, conforme o testemunho da própria Escritura (cf. Cl 1, 24), quem somos nós para agir de outra forma ou ainda sugerir o contrário? Afirmar levianamente que o Evangelho poderia mudar com os tempos, ou que parte dele se tornou "ultrapassada", é indício, na verdade, de uma grande petulância, quando não de uma tremenda falta de fé. Ora, se Jesus de Nazaré é verdadeiramente Deus e homem — como sempre acreditou a Igreja —, se Ele é, de fato, "a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai", como diz o Catecismo (§ 65), como poderia a sua revelação ser considerada insuficiente, incompleta ou adaptável? Estariam por acaso "fora de moda" os ensinamentos do próprio Deus? Será que somos tão soberbos a ponto de pretendermos corrigir o que Ele mesmo e os seus Apóstolos não só pregaram como viveram?

Se ainda resta, portanto, um pouquinho de fé que seja na cabeça de nossos contemporâneos, para confirmar o dever que temos de reparar as ofensas cometidas por nós mesmos contra Deus, nada melhor do que recordar o ensinamento sólido do Magistério da Igreja sobre esse assunto.

A seguir, você encontra alguns trechos preciosos da encíclica Miserentissimus Redemptor [1], com a qual o Papa Pio XI deu à Igreja universal a belíssima oração do "Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus" (que também se encontra logo abaixo). Neste documento, o Santo Padre responde, com a Tradição e as Sagradas Escrituras, aos principais obstáculos que geralmente são colocados à prática da reparação, ajudando nossa inteligência a compreender a teologia por trás dessa sadia devoção popular.

Ora, ainda que a copiosa Redenção de Cristo abundantemente nos tenha "perdoado todos os nossos pecados" (cf. Col 2, 13), em virtude daquela admirável disposição da divina Sabedoria, pela qual se deve completar em nossa carne o que falta às tribulações de Cristo por seu Corpo, que é a Igreja (cf. Col 1, 24), aos louvores e satisfações que Cristo, em nome dos pecadores, ofereceu a Deus, não só podemos como, ainda mais, devemos acrescentar também os nossos próprios louvores e satisfações.

[...] Mas como podem estes atos expiatórios consolar a Cristo, que reina ditosamente nos céus? "Dá-me um coração que ame e entenderás o que digo", respondemos com estas palavras de Santo Agostinho, tão convenientes a este ponto.

Com efeito, quem ama verdadeiramente a Deus, se considera os fatos passados, vê e contempla a Cristo trabalhando em favor do homem, sofrendo, suportando as mais duras penas, quase desfeito sob o peso da tristeza, de angústias e opróbrios "por nós homens e para a nossa salvação", "esmagado por nossas iniquidades" ( Is 53, 5) e curando-nos com suas chagas. Ora, quanto mais profundamente penetram as almas piedosas estes mistérios, mais claro veem que os pecados e crimes dos homens, em qualquer tempo perpetrados, foram a causa de que o Filho de Deus se entregasse à morte; e ainda agora esta mesma morte, com suas mesmas dores e tristezas, de novo Lhe é infligida, já que cada pecado renova a seu modo a Paixão do Senhor: "Novamente crucificam o Filho de Deus e O expõe a vilipêndios" (Hb 6, 6). E se por causa também dos nossos pecados futuros, por Ele previstos, a alma de Cristo padeceu aquela tristeza de morte, não há dúvida de que algum consolo Cristo recebeu também de nossa futura, mas também prevista, reparação, quando "o anjo do céu Lhe apareceu" (Lc 22, 43) para consolar seu Coração oprimido de tristeza e angústias. Por isso, podemos e devemos consolar aquele Coração Sacratíssimo, incessantemente ofendido pelos pecados e pelas ingratidões dos homens, por este modo admirável, mas verdadeiro, pois, como se diz na Sagrada Liturgia, o mesmo Cristo, pelos lábios do salmista, se queixa a seus amigos de ter sido abandonado: "Impropério e miséria esperou meu coração: e busquei quem compartilhasse da minha tristeza e não houve ninguém; busquei quem me consolasse e não encontrei" (Sl 69, 21).

Acrescenta-se que a Paixão expiatória de Cristo se renova e, de certo modo, continua e se completa em seu Corpo Místico, que é a Igreja, já que, servindo-nos outra vez das palavras de Santo Agostinho ( In Ps., 86), "Cristo padeceu quanto devia padecer, e nada falta à medida de sua Paixão. A Paixão, pois, está completa, mas na Cabeça; faltava ainda a Paixão de Cristo no Corpo". Nosso Senhor mesmo se dignou declará-lo quando, ao aparecer a Saulo, "que respirava ameaças e morte contra o discípulos" (At 9, 1), lhe disse: "Eu sou Jesus, a quem persegues" (At 9, 5), significando claramente que nas perseguições contra a Igreja é a Cabeça divina da Igreja a quem se atinge e impugna. E isso com razão, porque Jesus Cristo, que ainda padece em seu Corpo Místico, deseja ter-nos por sócios na expiação, e isto no-lo exige nossa própria incorporação a Ele: pois sendo como somos "corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros" (1Cor 12, 27), é necessário que o que padece a Cabeça, padeçam-no com Ela os seus membros (cf. 1Cor 12, 26).

Quão necessárias sejam, especialmente em nossos tempos, a expiação e a reparação, é coisa clara a quem olhe e contemple este mundo que, como dissemos no início, "está sob poder do mal" ( 1Jo 5, 19). De todas as partes chega a Nós o clamor de povos que gemem, cujos príncipes ou governantes se congregaram e conspiraram juntos contra o Senhor e sua Igreja (cf. Sl 2,2). Por essas regiões vemos atropelados todos os direitos divinos e humanos; demolidos e destruídos os templos, os religiosos e as religiosas expulsos de suas casas, afligidos com ultrajes, tormentos, cárceres e fome; multidões de meninos e meninas arrancadas do seio da Madre Igreja e induzidos a renunciar e blasfemar contra Jesus Cristo e a cometer também os mais horrendos crimes da luxúria; todo o povo cristão duramente ameaçado e oprimido, colocado a todo instante em ocasião de, ou apostatar da fé, ou padecer uma terrível morte. Tudo isso é tão triste que nestes acontecimentos parece prenunciar-se "o princípio daquelas dores" que precederiam "o homem de pecado que se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é cultuado" (2Ts 2, 4).

E ainda é mais triste, veneráveis irmãos, que entre os próprios fiéis, lavados no Batismo com o sangue do Cordeiro Imaculado e enriquecidos com a graça, haja tantos homens de toda classe que, com inacreditável ignorância das coisas divinas e envenenados de falsas doutrinas, vivem longe da casa do Pai uma vida repleta de vícios; uma vida, pois, não iluminada pela luz da verdadeira fé, nem reconfortada pela esperança da felicidade futura, nem aquecida e fomentada pelo calor da caridade, de modo que eles parecem verdadeiramente jazer na escuridão e na sombra da morte. Ademais, aumenta cada vez mais entre os fiéis a negligência da disciplina eclesiástica e daquelas antigas instituições em que toda a vida cristã se funda e pela qual a sociedade doméstica é governada e se defende a santidade do matrimônio; totalmente menosprezada ou depravada com lisonjas de bajulação a educação das crianças, até mesmo negado à Igreja o poder de educar a juventude cristã; o esquecimento deplorável da modéstia cristã na vida e principalmente no vestido da mulher; a cobiça desenfreada das coisas perecíveis, o desejo desproporcional das honrarias mundanas; a difamação da autoridade legítima e, finalmente, o desprezo da palavra de Deus, de maneira que a fé é destruída ou é posta à beira da ruína.

Formam o cúmulo destes males tanto a preguiça e a negligência dos que, dormindo ou fugindo como os discípulos, vacilantes na fé, miseravelmente desamparam a Cristo oprimido de angústias e rodeado dos sequazes de Satanás, quanto a deslealdade dos que, à imitação do traidor Judas, ou temerária e sacrilegamente comungam, ou desertam para os acampamentos inimigos. Deste modo, inevitavelmente se nos apresenta ao espírito a ideia de que se aproximam os tempos preditos por Nosso Senhor: "E, ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos se esfriará" ( Mt 2, 24). [...]

Ato de Reparação ao Sacratíssimo Coração de Jesus

Dulcíssimo Jesus, cuja infinita caridade para com os homens é por eles tão ingratamente correspondida com esquecimentos, friezas e desprezos, eis-nos aqui prostrados na Vossa presença, para Vos desagravarmos, com especiais homenagens, da insensibilidade tão insensata e das nefandas injúrias com que é de toda parte alvejado o Vosso amorosíssimo coração.

Reconhecendo, porém, com a mais profunda dor, que também nós mais de uma vez cometemos as mesmas indignidades, para nós, em primeiro lugar, imploramos a Vossa misericórdia, prontos a expiar não só as próprias culpas, senão também as daqueles que, errando longe do caminho da salvação, ou se obstinam na sua infidelidade, não Vos querendo como pastor e guia, ou, conculcando as promessas do batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da Vossa santa lei.

De todos estes tão deploráveis crimes, Senhor, queremos nós hoje desagravar-Vos, mais particularmente da licença dos costumes e imodéstia do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência, da violação dos dias santificados, das execrandas blasfêmias contra Vós e Vossos Santos, dos insultos ao Vosso Vigário e a todo o Vosso clero, do desprezo e das horrendas e sacrílegas profanações do Sacramento do divino amor e, enfim, dos atentados e rebeldias das nações contra os direitos e o Magistério da Vossa Igreja.

Oh! Se pudéssemos lavar com o próprio sangue tantas iniqüidades!

Entretanto, para reparar a honra divina ultrajada, Vos oferecemos, juntamente com os merecimentos da Virgem Mãe, de todos os santos e almas piedosas, aquela infinita satisfação, que Vós oferecestes ao eterno Pai sobre a cruz, e que não cessais de renovar todos os dias sobre nossos altares.

Ajudai-nos Senhor, com o auxílio da Vossa graça, para que possamos, como é nosso firme propósito, com a vivência da fé, com a pureza dos costumes, com a fiel observância da lei e caridade evangélicas, reparar todos os pecados cometidos por nós e por nosso próximo, impedir, por todos os meios, novas injúrias de Vossa divina Majestade e atrair ao Vosso serviço o maior número de almas possíveis.

Recebei, ó benigníssimo Jesus, pelas mãos de Maria santíssima reparadora, a espontânea homenagem deste nosso desagravo, e concedei-nos a grande graça de perseverarmos constantes, até à morte, no fiel cumprimento de nossos deveres e no Vosso santo serviço, para que possamos chegar todos à pátria bem-aventurada, onde Vós com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais por todos os séculos dos séculos.

Amém.

Introdução por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. A tradução portuguesa apresentada neste post encontra-se disponível aqui. Limitam-nos a fazer apenas algumas pequenas correções de detalhe, a fim de que o texto em português se ajustasse melhor tanto ao teor quanto à forma do original latino.

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A oração de um carmelita para a Quaresma

Precisamos “mergulhar”, “descer sempre mais”, “fazer uma viagem” ao interior de nossa alma, porque, se estamos em estado de graça, é aí que mora o Senhor.

É uma especialidade da Ordem do Carmo fazer-nos entrar em contato com Deus no mais íntimo de nosso ser — experiência que é, na verdade, fundamental para a fé cristã, e que foi condensada por Santo Agostinho na famosa frase de suas Confissões: "Eis que estavas dentro, e eu fora" (X, 27, 38). Santa Teresa d'Ávila comparava a alma do justo, por exemplo, a um jardim onde Deus encontra as suas delícias; Santa Teresinha do Menino Jesus, por sua vez, cantava a alegria de ter encontrado "o Céu na terra" — nada menos que Deus morando em seu coração; e Santa Elisabete da Trindade não tomou este nome senão para honrar a inabitação trinitária em si.

A Quaresma, tempo de profunda interiorização, nada mais é que um resgate sempre necessário, portanto, do que precisamos fazer por toda a nossa vida: "mergulhar", "descer sempre mais", "fazer uma viagem" para dentro de nossa alma, até encontrarmos Aquele que é mais íntimo que o que há de mais íntimo de nós, para usar outra expressão agostiniana (cf. Confissões, III, 6, 11).

Um outro carmelita que compreendeu, viveu e transmitiu essa verdade foi o Beato Francisco Palau, sacerdote espanhol do século XIX e beatificado em 1988. São de sua pena, a propósito, as expressões "mergulhar" e "descer sempre mais", colhidas da seguinte oração para a Quaresma, a qual compartilhamos com todos os nossos visitantes:

Senhor,
nesta Quaresma,
tempo de mergulhar no meu interior,
de revisão e de conversão,
ensina-me a descer sempre mais
até onde Tu te encontras: o meu coração.

Como "descer" até aí?
Pelo silêncio, encontrando tempo para rezar,
pela leitura da Tua Palavra que tanto me quer dizer,
pelos Sacramentos,
especialmente a Confissão e a Santa Missa.

Também pela aceitação das contrariedades,
o peso das circunstâncias e da monotonia da vida…
com os olhos postos em Ti.

Senhor, Tu que estás no meu íntimo,
ajuda-me nesta Quaresma,
a fazer uma viagem ao meu interior,
para aí me encontrar conTigo!

Que possamos, pela intercessão do bem-aventurado Francisco Palau, transformar essa brevíssima prece em um verdadeiro "projeto de vida": procurando a Deus, de fato, pelo silêncio, pela leitura da Palavra de Deus, pelos Sacramentos e pela aceitação das contrariedades, seguramente estaremos no caminho da perfeição.

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Por que o Filho de Deus quis ter um pai humano?

Longe de representar uma simples “adoção”, a paternidade de São José foi para o menino Jesus uma verdadeira “escola de virilidade”.

São José foi verdadeiramente pai de Jesus: não pai biológico, porque não lhe deu a vida natural; mas também não simplesmente "pai adotivo" ou "pai nutrício", como se simplesmente lhe outorgasse um nome, um abrigo, alimentos e só. Muito mais do que isso, convinha que Cristo, humano que era, fosse realmente educado por um homem [1], inspirando-se em seu exemplo de masculinidade e paternidade para amadurecer totalmente e, chegando à idade adulta, entregar-se pela redenção da humanidade inteira.

Dada portanto a nobre e difícil missão que tinha diante de si, é razoável imaginar o patriarca da Sagrada Família como um homem jovem, na plenitude de suas forças físicas, de modo que, "se parte da iconografia mais recente tende a representá-lo com os traços de um velho, devemos pensar que é menos para sublinhar o número dos seus anos do que para dar uma idéia das suas virtudes, em especial da sua prudência e da maturidade do seu caráter" [2].

Tampouco se deve pensar em São José como um homem de aspecto efeminado, como se a virgindade e a pureza de alma fossem incompatíveis com a virilidade masculina. Ao contrário — ensina-nos a experiência —, só um homem verdadeiramente forte, capaz de submeter as suas paixões ao império da razão, pode enfrentar com igual vigor os grandes desafios e as lidas do dia-a-dia.

Olhando para a personalidade de Jesus Cristo, essas verdades tornam-se-nos ainda mais claras. De fato, só um homem de coragem é capaz de tecer um chicote com suas próprias mãos e servir-se dele para expulsar os vendilhões da casa de Deus (cf. Jo 2, 13-17); só um homem varonil pode suportar, como Cristo suportou, a traição dos próprios amigos, a flagelação na carne, os espinhos na cabeça e os cravos nos membros. Com quem o Filho de Deus encarnado aprendeu a ser homem assim, de modo perfeito, senão com o seu pai virginal, São José?

Nestes tempos em que a masculinidade experimenta uma grande crise, peçamos urgentemente a intercessão do carpinteiro de Nazaré, para que, imitando o seu exemplo, os homens possam enfrentar sem temor o desafio da paternidade, assumir o compromisso de formar os seus filhos e ver, enfim, coroados os seus esforços, nos frutos da boa educação que ministraram.

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Notas e Referências

  1. A natureza humana exige que as pessoas sejam criadas por um pai e por uma mãe, desenvolvendo-se a partir da complementaridade dos dois sexos. O fato de as famílias ditas "monoparentais" se terem tornado uma realidade comum não as torna normais. Tampouco a chancela do Estado às chamadas "uniões homossexuais" faz com que elas estejam aptas a educar uma criança. "Inserir crianças nas uniões homossexuais através da adoção significa, na realidade", explica o Cardeal Joseph Ratzinger, "praticar a violência sobre essas crianças, no sentido que se aproveita do seu estado de fraqueza para introduzi-las em ambientes que não favorecem o seu pleno desenvolvimento humano" (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 7). E não é apenas a Igreja Católica que o reconhece. Em 2015, os estilistas criadores da marca Dolce & Gabanna, assumidamente homossexuais, deram declarações públicas contra a adoção de crianças por pares gays.
  2. Michel Gasnier. José, o silencioso. São Paulo: Quadrante, 1995, p. 46.

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Um recado do Cardeal Newman aos católicos de Facebook

Se há uma coisa que tem emperrado a nossa vida espiritual, especialmente em tempos de Internet, é a ilusão da autossuficiência.

Se há uma coisa que emperra a nossa vida espiritual, especialmente em tempos de Internet, é a ilusão da autossuficiência. As Escrituras ilustram o seu perigo quando dizem que " Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes" (Tg 4, 6).

O bem-aventurado John Henry Newman, em um de seus "Sermões pregados em diversas ocasiões" — obra recém traduzida para o português e publicada pela editora Molokai —, tem algumas palavras muito adequadas para tratar esse problema. Falamos especialmente de um discurso seu, feito na University Church de Dublin, em 1856, que leva o título "A religião do fariseu, a religião da humanidade". (Aos que lêem em inglês, vale a pena acessar o texto original, aqui.)

Newman inicia a sua pregação com a oração do publicano, na famosa parábola do Evangelho (cf. Lc 18, 9-14): "Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!". Para ele, trata-se da oração cristã por excelência, por constituir, ao mesmo tempo, "uma confissão do pecado e uma oração por misericórdia" [1], coisa que absolutamente todos os membros da Igreja são chamados a repetir. Mesmo estando na glória do Céu, é justamente o fato de terem sido alcançados pela misericórdia de Deus o que os santos cantam dia e noite, como comprova o Apocalipse: "Foste imolado e resgataste para Deus, ao preço do teu sangue homens de toda tribo, língua, povo e raça" (5, 9).

Assim, continua o Cardeal Newman:

" O que é para os santos que estão nos Céus tema de gratidão sem fim é, enquanto estão no mundo, o motivo da sua humilhação perpétua. Qualquer que seja o seu avanço na vida espiritual, nunca deixam de se ajoelhar, nunca deixam de bater no peito, como se o pecado lhes fosse estranho enquanto estavam na carne. Até mesmo Nosso Senhor, o próprio Filho de Deus na natureza humana infinitamente separado do pecado, e mesmo sua Mãe Imaculada, repleta da sua Graça desde os primórdios de sua existência e sem qualquer mancha do pecado original, mesmo eles, como descendentes de Adão, foram no fim submetidos à morte, a punição direta e categórica do pecado. E mais ainda, mesmo o mais favorecido da gloriosa companhia a quem Ele lavou em seu Sangue; eles nunca se esqueceram do que eram por nascimento; confessam, todos juntos, que são filhos de Adão, e da mesma natureza dos seus irmãos, cercados de enfermidades na carne, qualquer que seja a graça concedida a eles e seu aperfeiçoamento. Alguns podem se voltar para eles, mas eles sempre se voltam para Deus; alguns podem falar dos seus méritos, mas eles só falam dos seus defeitos. O jovem sem mácula, o maduro de idade avançada, o que pecou menos, o que se arrependeu mais, o semblante jovem e inocente e os cabelos grisalhos se unem numa mesma ladainha: 'Ó Deus, tende piedade de mim, que sou pecador!'..." [2]

Essas verdades são realmente notáveis na vida dos santos. São Filipe Néri, por exemplo, "quando alguém o elogiava, gritava: 'Vai-te embora, eu sou um diabo e não um santo!', e quando ia comungar, protestava diante do seu Senhor, dizendo-se 'bom para nada além de fazer o mal'" [3].

Mas não era um simples exagero retórico, uma questão de "etiqueta", esse comportamento tão usual na história dos seguidores de Cristo. A humildade não é uma máscara que os santos colocam para disfarçar o que realmente são. Muito ao contrário, como ensinava Santa Teresa d'Ávila às suas irmãs, ser humilde é "andar na verdade" [4]: em primeiro lugar, a verdade de que somos criaturas e só por isso já nos encontramos infinitamente distantes de Deus, como diz o salmista: "Diante da vossa presença, não é justo nenhum dos viventes" (Sl 142, 2); em segundo lugar, a verdade de que somos pecadores — "todos pecaram e estão privados da glória de Deus" (Rm 3, 23) — e, com as nossas faltas, só o que fazemos é aumentar ainda mais o abismo que nos separa do Criador.

Assim, se procuramos levar uma vida correta, se nos esforçamos por cumprir os Mandamentos, se conseguimos praticar esta ou aquela virtude, nada disso é por mérito nosso, mas unicamente por graça de Deus. É Ele quem nos inspira, diz o Apóstolo, "o querer e o fazer" ( Fl 2, 13).

Isso precisa entrar em nossa cabeça o quanto antes, para que afastemos de uma vez por todas todo ranço de "pelagianismo prático" de nossa vida [5]. Não adianta nada reconhecermos, na teoria, que Deus é o "sumo Bem", que só a Ele devemos servir e adorar, que não devemos viver para nós mesmos, se continuamos a levar, na prática, o mesmo estilo pagão e autossuficiente de sempre: sem reservar um tempo para fazer oração, sem cumprir os nossos deveres de estado, sem fazer durante o dia algum tipo de mortificação etc. Ora, se Deus é realmente a fonte de todo o nosso bem, por que não recorremos a Ele e não procuramos cumprir o que nos manda, inclusive nas pequenas coisas do dia-a-dia? Desde quando basta, para sermos bons católicos, ir à Missa aos domingos e rezar uma ou outra Ave-Maria durante o dia, ao mesmo tempo em que gastamos na TV, no Facebook ou no WhatsApp o resto do tempo que Deus nos dá — muitas vezes até, sob o pretexto de "estarmos evangelizando" na Internet?

A verdade é que não alcançaremos a santidade enquanto continuarmos sentados em frente a um computador, vivendo um catolicismo cômodo de Facebook; enquanto continuarmos comprando livros e mais livros para a nossa biblioteca, na ilusão de sermos salvos pela "alta cultura"; enquanto acharmos que tudo ficará bem quando o mundo for simplesmente conservador. Não foi para fundar um grupo nas redes sociais, uma sociedade literária ou uma agremiação política que Cristo veio a este mundo. Continua sendo necessário entrarmos na Igreja, e nela perseverarmos, para alcançarmos a salvação [6]. Nas palavras do beato John Henry Newman:

"As nossas realizações seculares não nos valerão de nada se não se subordinarem à religião. O conhecimento do Sol, da Lua e das estrelas, da Terra e de seus três reinos, dos clássicos ou da História, nada disso nos levará para o Céu. Podemos dar 'graças a Deus' porque não somos como os analfabetos e os estúpidos; mas aqueles a quem desprezamos, se tudo o que souberem for pedir a misericórdia dEle, então sabem o que se deve saber para obter o Céu, muito mais do que todas as nossas letras e toda a nossa ciência." [7]

Tomar consciência de todas essas verdades também nos ajuda a ter, em relação ao próximo, uma atitude de muito mais caridade — virtude a qual muitas pessoas parecem ter esquecido na hora de usar a Internet. Talvez por não estarem face a face com quem se encontra do outro lado da tela, os usuários das redes sociais sentem-se livres para escrever em suas linhas do tempo todo tipo de ofensa e xingamento aos outros, por motivos muitas vezes os mais banais. A essas pessoas, a Imitação de Cristo dá um conselho importante: "Ainda quando vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem. Nós todos somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo" [8].

Em todo o sermão de que falamos, o Cardeal Newman procura contrapor à religião cristã, marcada pela figura do publicano, a religião do fariseu, das pessoas "autossuficientes", dos que "estão muito contentes consigo mesmos e acham que seu mérito é muito elevado" [9]. A diferença fundamental entre as duas está justamente na ação sobrenatural: esta é esteticamente até agradável, está repleta de "bons modos", mas é imanente, humanista, mundana; aquela, no entanto, reúne pessoas de todos os tipos, as quais se esvaziam e se deixam redimir por Deus.

Por isso, você, que lê estas linhas, não deixe de fazer hoje a experiência do desespero… de si próprio! É a experiência fundamental que conduziu todos os santos a Cristo e que deve mover também a nossa conversão, dia após dia. Não somos capazes de amar a Deus com nossas próprias forças. Baseando-nos tão-somente em nossos esforços, não vai dar certo. Ele manda que trabalhemos, mas somos preguiçosos; que sejamos castos, mas somos infiéis; que sejamos pacientes, mas nos irritamos facilmente; que rezemos e nos lembremos dEle, mas sempre nos esquecemos. Se pararmos para meditar um pouco sobre a nossa miséria, veremos que a graça de Deus é necessária para absolutamente tudo em nossa vida. Sejamos menos autossuficientes, pois, e abramos o nosso coração para esta verdade que Cristo proclama no Evangelho: "Sem Mim, nada podeis fazer"(Jo 15, 5). Que Ele seja o nosso tudo, porque nós, definitivamente, não somos nada.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 27.
  2. Ibid., p. 28.
  3. Ibid., p. 29.
  4. Sextas Moradas, 10, 7.
  5. Reginald Garrigou-Lagrange, Las tres edades de la vida interior, 11. ed., Madrid: Palabra, 2007, p. 448.
  6. Catecismo da Igreja Católica, 846.
  7. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 38.
  8. Imitação de Cristo, l. 1, c. 2.
  9. John Henry Newman, Sermões pregados em diversas ocasiões, 1. ed., São Paulo: Molokai, 2016, p. 32.

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Fomos criados para o amor

Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma e que lhe faz dizer do fundo do coração: “Estou ferida de amor”?

Neste texto recolhido do Ofício das Leituras de hoje, terça-feira da 1.ª semana do Tempo Comum, São Basílio Magno lembra-nos que a vocação cristã é ao amor. Fomos criados por Deus para amá-lO, é o que está escrito desde o princípio na natureza do nosso ser e, não obstante todos os artifícios do homem moderno para apagar dos corações e das consciências o nome santíssimo de Jesus, só O amando seremos verdadeiramente realizados.

Sendo assim, a missão dos pastores da Igreja não é outra senão "suscitar a centelha do amor divino" escondida no coração de cada ser humano. O que deve fazer cada sacerdote, cada bispo — e até cada pai de família, que "apascenta" o pequeno rebanho de seus filhos — é ignem mittere in terram, "lançar fogo sobre a terra", como queria o próprio Filho de Deus humanado (Lc 12, 49).

Peçamos a este santo bispo da Igreja antiga, São Basílio, aclamado no mundo inteiro como "magno", que nos ajude a viver o chamado de Cristo em toda a sua grandeza. Certos de que "o amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições", simplesmente procuremos amá-lO, não nos limitando ao cumprimento de regras. Nossa fé não é um "manual de boas maneiras", mas um relacionamento de amor com Deus.

Da Regra mais longa, de São Basílio Magno, bispo
(Resp. 2,1: PG 31, 908-910)

Possuímos inata capacidade de amar

O amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições. Não aprendemos de outrem a alegrar-nos com a luz, ou a desejar a vida, ou a amar os pais ou educadores. Assim — ou melhor, com muito mais razão —, não se encontra o amor de Deus na disciplina exterior. Mas, quando é criado, o ser vivo, isto é, o homem, a força da razão foi, como semente, inserida nele, uma força que contém em si a capacidade e a inclinação de amar. Logo que entra na escola dos divinos preceitos, o homem toma conhecimento desta força, apressando-se em cultivá-la com ardor, nutri-la com sabedoria e levá-la à perfeição, com o auxílio de Deus.

Sendo assim, queremos provar vosso empenho em atingir este objetivo. Pela graça de Deus e contando com as vossas preces, nós nos esforçaremos, segundo a capacidade dada pelo Espírito Santo, por suscitar a centelha do amor divino escondida em vós.

Antes de mais nada, nós dele recebemos antecipadamente a força e a capacidade de pôr em prática todos os mandamentos que Deus nos deu. Por isso não nos aflijamos como se nos fosse exigido algo de incomum, nem nos tornemos vaidosos pensando que damos mais do que havíamos recebido. Se usarmos bem destas forças, levaremos uma vida virtuosa; no entanto, mal empregadas, caíremos no pecado.

Ora, o pecado se define como o mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito do Senhor.

O mesmo diremos da caridade. Ao recebermos o mandamento de amar a Deus, já possuímos capacidade de amar, plantada em nós desde a primeira criação. Não há necessidade de provas externas: cada qual por si e em si mesmo pode descobri-la. De fato, nós desejamos, naturalmente, as coisas boas e belas, embora, à primeira vista, algumas pareçam boas e belas a uns e não a outros. Amamos também, sem ser necessário que nos ensinem nossos parentes e amigos e temos espontaneamente grande amizade por nossos benfeitores.

O que haverá, pergunto então, de mais admirável do que a beleza divina? Que coisa pode haver mais suave e deliciosa do que a meditação da magnificência de Deus? Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma liberta de toda impureza e que lhe faz dizer do fundo do coração: Estou ferida de amor? É na verdade totalmente indescritível o fulgor da beleza de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere