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Lembre-se de quem você é

O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma "determinada determinação" de tornar-se santo como o Pai é santo

A filiação divina é o fundamento da vida cristã. O ministério público de Jesus inicia-se com estas palavras: "Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição" (Mt 3, 17). Essa é a novidade trazida pela encarnação de Cristo. Ao entregar seu único filho, a fim de que por Ele se operasse a redenção do gênero humano, Deus manifestou sua profunda essência paterna. Diferentemente do que apregoava Ário, nunca houve um tempo em que Deus não foi pai. Com efeito, é seu querer fazer que o homem atinja a perfeição cristã, conduzindo-o pelo caminho do amor, da fé e da esperança, até o dia em que o reunirá "e o apertará sobre seu seio" (cf. Is 40, 10-17).

O reconhecimento da paternidade divina, por sua vez, exige uma urgente mudança de vida. O homem não pode verdadeiramente declarar-se filho de Deus sem uma determinada determinação — como dizia Santa Teresa d'Ávila — de tornar-se santo como o Pai é santo [1]. Não pode servir a dois senhores. A santidade deve ser nossa única meta nesta vida. Todavia, para que possamos atingi-la, é necessário o auxílio da graça. Amamos com o amor de Deus. A lógica da santidade cristã, portanto, é esta: Deus me ama (pela fé, cremos no seu amor), eu amo Deus (pela caridade, devolvo seu amor a Ele e ao próximo). E isso se realiza mediante a esperança. Esperamos em Deus a purificação de nossas faltas para que possamos urgentemente amá-lO "em espírito e em verdade" (Jo 4, 24). Pois "quem pôs a sua esperança em Cristo vive dela, e traz já em si mesmo algo do gozo celestial que o espera" [2].

A consciência de que, pelo batismo, somos filhos de Deus — e, por isso, chamados a uma dignidade superior — revela-nos a nós mesmos. Assim, quem se esquece da paternidade divina, esquece sua própria identidade. No clássico-infantil O rei leão, enxergamos essa realidade, de maneira alegórica, na cena em que o pai de Simba, Mufasa, aparece nas nuvens para recordar a condição real do filho. Após um olhar profundo para o lago onde vê o rosto do pai — que poderíamos encarar como o olhar profundo para nossa alma —, Simba escuta a vós de Mufasa, que lhe diz: "You have forgotten me, / you have forgotten who you are and so forgotten me. / Look inside yourself. / You are more than what you have become. / You are my son. / Remember who you are. — Você se esqueceu de mim, / você esqueceu quem você é e se esqueceu de mim / Olhe para dentro de você. / Você é muito mais do que pensa que é. / Você é meu filho. / Lembre-se de quem você é". Guardadas as devidas proporções, as palavras do personagem infantil ajudam-nos a recordar a exortação de um grande santo da Igreja, a saber, São Leão Magno: "Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e corpo és membro" [3].

De fato, Deus nos ama. É justamente essa a razão pela qual, na oração do Pai-Nosso, Jesus se dirige a Ele não só pelo pronome "Pai"; Ele diz "Abba, Pai", que em hebraico significa "papai". Com esta expressão, Jesus demonstra seu livre abandono, sua confiança filial. Faz-se como uma criança. "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem" (Lc 11, 13). Mesmo no pecado, Deus não nos abandonou à própria sorte, não deixou a ovelha perdida. Ao contrário, enviou seu próprio Filho para nos revelar a sua face e tornar-nos participantes de sua glória.

"Na tarde desta vida, aparecerei diante de vós de mãos vazias" [4]. Nesta frase, com a qual Santa Teresinha do Menino Jesus fez sua livre oferenda ao amor misericordioso, encerra-se toda a doutrina da filiação divina. Quem tem a Deus por Pai não pode ser outra coisa senão uma alma confiante. Ela, embora saiba o valor dos méritos, não procura ser amada por eles, mas unicamente pela graça do Pai. Não procura recompensas nem honrarias. Procura somente o amor. Sabe-se uma pequena ave, um fraco passarinho que, ficando em seu posto, não se aflige "se nuvens escuras vierem esconder o Astro de Amor", pois "sabe que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia ser eclipsado um só instante" [5]. Assim, voa para seu querido Sol nas asas de suas irmãs águias.

Os grandes santos da Igreja, a exemplo de Santa Teresinha, foram forjados sobretudo pela paternidade divina. Eles receberam o amor do Pai e, acolhendo-o em seu coração, sentiram a força para levar a mensagem salvífica até os confins do mundo. Em especial, mais do que qualquer outro santo, a Virgem Maria soube acolher a paternidade de Deus-Pai para ser a Mãe de Deus-Filho e, desse modo, cooperar para a redenção do gênero humano. Benditos são, portanto, aqueles que acreditam no amor de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Mt 5, 1-12.
  2. FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Falar com Deus: meditações para cada dia do ano. Vol. 7º: Festas litúrgicas e Santos (2). Índices. Julho-dezembro — 3ª ed. — São Paulo: Quadrante, 2005, pág. 186
  3. Catecismo da Igreja Católica, 2784
  4. Teresa de Lisieux, Oferenda ao amor misericordioso
  5. Manuscrito B, 5r

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Rasgai os corações, e não os estômagos

A Deus não agradam os jejuns e as abstinências, se o coração humano estiver longe de Si

Ao falar sobre a virtude da abstinência, Santo Tomás de Aquino cuida de distingui-la da simples "privação absoluta de alimentos" que, em si, "não designa nem uma virtude, nem um ato virtuoso, mas algo indiferente" [1]. Deixar de comer, pura e simplesmente, não significa nada. "Uma questão de alimento não nos aproxima de Deus; se não o comermos, não teremos nada de menos e, se o comermos, não teremos nada a mais" ( 1 Cor 8, 8), confirma o Apóstolo.

Algum protestante, lendo estas linhas escritas por São Paulo, talvez se arrisque a usar o "livre exame" das Escrituras, a fim de condenar os jejuns quaresmais dos católicos: "Por que, afinal, eles deixam de comer carne, e de fazer isto ou aquilo? Afinal, não está escrito...?" Sim, a sua alegação seria perfeitamente bíblica, assim como foram bíblicas as palavras com que o demônio tentou Jesus no deserto (cf. Mt 4, 1-11). Ora, não foi o próprio Cristo a advertir que, quando o Noivo fosse tirado de Seus discípulos, eles jejuariam (cf. Mc 2, 20)? Para este caso, pois, assim como para tantos outros, vale a observação do Aquinate: "A letra do Evangelho também mata, se faltar a graça interior da fé que cura" [2].

É claro que o jejum é importante. Mas, hoje – assim como em outros momentos da história do povo de Deus –, são muitas as pessoas que se privam de alimentos, sem praticar de verdade a virtude da abstinência.

O povo de Israel, por exemplo, se queixava diante de Deus, no Antigo Testamento: "Por que foi que jejuamos e tu nem olhaste? Nós nos humilhamos totalmente e nem tomaste conhecimento", ao que o Senhor respondeu, pela boca do profeta Isaías: "Acontece que, mesmo no dia de jejum, só cuidais dos vossos interesses e continuais explorando os trabalhadores. Acontece que jejuais criando caso, brigando e esmurrando" ( Is 58, 3-4). Assim, mais do que abster-se de comida, é importante fazê-lo "como é necessário, ou seja, com alegria interior; e para o que é necessário, ou seja, para a glória de Deus, não para a sua glória pessoal" [3].

Santo Agostinho insistia, em seus sermões sobre a Quaresma, que de nada adiantava deixar de comer carne, se esta fosse tão somente substituída por outros pratos suculentos:

"Que ninguém, sob o pretexto de abstinência, pretenda mudar os prazeres, ao invés de cortá-los, procurando, por exemplo, comidas caras, porque não come carne, ou licores raros, porque não bebe vinho. Nem faça com que, sob o pretexto de domar a carne, se aumente o prazer. 'Todos os alimentos são, sem dúvida, puros para os puros' (cf. Tt 1, 15), mas para ninguém é puro o excesso" [4].

Os mesmos conselhos dos santos valem para o nosso tempo, quando muitos transformam a Quarta-Feira de Cinzas – e, do mesmo modo, a Sexta-Feira Santa e toda a Quaresma – em ocasião para encher a barriga de "bacalhoada" e frutos do mar, ao invés de dirigir o seu coração a Deus; quando decidem estender indefinidamente as folias carnavalescas – que, em grande parte, já constituem, em si, ocasião de pecado –, ao invés de se arrependerem dos seus pecados; quando preferem "curtir o feriado" a saírem de sua comodidade e fazerem penitência. Definitivamente, não é este o sentido da abstinência de carne pedida pela Igreja. Para estas pessoas, a frase do Apóstolo é bastante apropriada: "Uma questão de alimento não nos aproxima de Deus". Um pedaço de carne de boi que se deixa de comer em um ou outro dia do ano não é capaz, por si só, de purificar o coração de ninguém.

Ao contrário, aquilo que se faz externamente – jejuns, orações e esmolas – deve ser o resultado de uma verdadeira conversão interior, de um autêntico voltar-se a Deus. "Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes" (Jl 2, 12-13).

O significado do jejum e da abstinência está profundamente ligado àquelas palavras do Deuteronômio: "Não só de pão vive o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor" ( Dt 8, 3). O cristão penitente deixa de usufruir das criaturas, se priva de finos manjares e boas bebidas – que, em si, nada tem de ilícitos –, porque quer voltar o coração ao seu Criador. Dizendo "não" aos prazeres permitidos, ele também fortalece a sua alma para rejeitar os prazeres proibidos e oferece, com o seu sacrifício, uma reparação a Deus pelos seus pecados.

"Rasgai o coração, e não as vestes", diz o profeta. Que, nesta Quaresma, sejamos capazes de chorar as nossas faltas, que tanto ofendem a Majestade Divina, e que nossas penitências sejam todas realizadas com espírito de amor – com o espírito dos santos, que abraçavam qualquer sofrimento e carregavam qualquer cruz só para consolar o Sacratíssimo Coração do seu Deus.

Uma santa e penitente Quaresma a todos!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Summa Theologiae, II-II, q. 146, a. 1
  2. Summa Theologiae, I-II, q. 106, a. 2
  3. Summa Theologiae, II-II, q. 146, a. 1, ad 4
  4. Sermo 205, 2

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Os três pregos da cruz

​O desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus

O sorriso de Madre Teresa de Calcutá, sempre presente em toda e qualquer circunstância de sua vida, mesmo durante aqueles períodos de "noite escura", dos quais a bem-aventurada se lembrava com angústia em suas cartas, ainda hoje é capaz de impressionar. Quem olha para a imagem da beata enxerga o rosto de uma pessoa que, deixando-se consumir totalmente pelo fogo divino, fez desta nossa peregrinação terrestre um ato contínuo de amor e entrega a Deus. Ou seja, encontrou a felicidade, completando na própria carne as dores que faltaram aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1, 24).

Certamente, um modelo de vida semelhante pode causar, não obstante admirações, grandes perplexidades. Ainda mais em uma sociedade que já não sabe lidar com o sofrimento. Como é possível ser feliz na dor? A resposta a essa pergunta está na cruz. A alegria do homem é fazer a vontade de Deus. Contudo, por se tratar de algo nem sempre fácil — ao contrário, consiste muitas vezes em um verdadeiro martírio —, o cumprimento dessa vontade exige um desprendimento heroico acerca de todo e qualquer apego, seja material seja afetivo. O exemplo primordial de abnegação vem, sobretudo, de Cristo no Horto das Oliveiras. Suando sangue, o Senhor diz: "Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua" ( Lc 22, 42).

Na vida de todos os santos se constata essa atitude do Jesus agonizante que, mesmo sofrendo, se regozija por cumprir o desejo do Pai. A confiança em Deus desperta no ser humano o dom do olhar sobrenatural, o qual ilumina o caminho para a verdadeira glória do céu. Como costumava dizer Santa Teresa d'Ávila, esta vida é como uma noite ruim, numa ruim pousada [1]. Nossa meta definitiva é, verdadeiramente, a eterna casa do Pai. Aqui, somos somente estrangeiros. Por isso São Paulo e Silas, dentro da prisão, mesmo diante da possibilidade da morte, cantavam um hino a Deus (cf. At 16, 25). Eles estavam convictos daquilo que Nossa Senhora também prometera em Lourdes a Santa Bernadette: "Não lhe prometo a felicidade neste mundo, somente no outro" [2].

Com efeito, o desapego das coisas puramente terrenas deveria ser uma meta para todo cristão decidido a agradar somente a Deus. "Quem me dera não estar atado senão por três pregos, nem ter outra sensação em minha carne que a Cruz" [3]. Era o que constantemente pedia São Josemaria Escrivá em suas meditações diárias. Neste propósito, o santo do cotidiano em nada menosprezava as obrigações e responsabilidades diárias do homem perante a sociedade. É fato que um verdadeiro cristão deve agir bem em todas os ambientes, transformando-os em ocasião de adoração perpétua a Deus. O que São Josemaria pedia era a graça de enxergar tudo como oportunidade de oblação ao Senhor, a sempre lembrar-se de que o fim de todas as nossas ações só pode ser um: o encontro com Jesus.

Foi este pensamento que encantou a então filósofa ateia Edith Stein, e a fez abandonar suas raízes judias para tomar o hábito das carmelitas. Ela compreendeu a ciência da cruz, por assim dizer, descobrindo o significado salvífico e redentor da paixão de Cristo. "O que nos salvará não serão as realizações humanas, mas a paixão do Cristo, na qual quero ter parte" [4]. Com estas palavras, a futura santa Teresa Benedita da Cruz renunciava ao seu prestigioso nome, à sua posição ao lado de um dos maiores filósofos modernos — Edmund Husserl —, aos seus bens materiais, a fim de alcançar a sétima morada, isto é, a plena conformação à vontade divina. A 2 de agosto de 1942, irmã Teresa cumpria seu desejo de tomar parte na paixão de Cristo, oferecendo-se em holocausto, durante o martírio no campo de concentração nazista, em Auschwitz.

Na homilia de sua canonização, o Papa João Paulo II assim descreveu o itinerário de conversão da santa [5]:

O amor de Cristo foi o fogo que ardeu a vida de Teresa Benedita da Cruz. Antes ainda de se dar conta, ela foi completamente arrebatada por ele. No início, o seu ideal foi a liberdade. Durante muito tempo, Edith Stein viveu a experiência da busca. A sua mente não se cansou de investigar e o seu coração de esperar. Percorreu o árduo caminho da filosofia com ardor apaixonado e no fim foi premiada: conquistou a verdade; antes, foi por ela conquistada. De facto, descobriu que a verdade tinha um nome: Jesus Cristo, e a partir daquele momento o Verbo encarnado foi tudo para ela. Olhando como Carmelita para este período da sua vida, escreveu a uma Beneditina: "Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus".

A beleza do sorriso de Madre Teresa, o canto de Silas e São Paulo, a santificação no meio do mundo de São Josemaria Escrivá, o martírio de Santa Teresa Benedita da Cruz. Todas essas realidades, cuja eloquência do testemunho não nos deixa indiferentes, têm sua origem e fim no desprendimento das coisas da terra. Quem coloca seu coração em Deus transmite a luz de Cristo em sua face e atrai os outros para o céu — "Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim", escreve São Paulo aos Gálatas (2, 20).

A única coisa que deve nos prender a este mundo são os três pregos da cruz. Essa é a nossa meta cristã.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Cf. Caminho, n. 703
  2. AV. 78. A impressionante história de Nossa Senhora de Lourdes.
  3. Caminho, n. 151.
  4. MIRIBEL, Elisabeth de. Edith Stein: como ouro purificado pelo fogo. 4 ed. Aparecida: Editora Santuário, 1998, pág. 63.
  5. Homilia do Papa João Paulo II na cerimônia de canonização de Edith Stein.

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Qual deve ser a medida do amor próprio?

Nosso Senhor mandou que amássemos ao próximo como a nós mesmos. Muita gente, no entanto, se perde, porque se ama mal.

Nosso Senhor, perguntado pelos fariseus sobre qual era o maior mandamento da Lei, foi taxativo: "'Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!' Esse é o maior e o primeiro mandamento" ( Mt 22, 37-38). Com isso, Ele recordava a vocação do ser humano sobre a terra: este foi chamado não para gozar de prazeres, acumular riquezas ou ser elevado aos olhos do mundo, mas tão somente para amar a Deus e cumprir com a Sua santa vontade, de modo que se pode dizer – com referência à parábola da figueira estéril – que o homem que não vive para Deus "está ocupando inutilmente a terra" (Lc 13, 7).

O segundo mandamento, acrescentou ainda Jesus, "é semelhante a esse: 'Amarás ao teu próximo como a ti mesmo'" ( Mt 22, 39). Os mandamentos são semelhantes porque também o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26) – e, por isso, deve ser amado. São, pois, dois mandamentos, mas, curiosamente, três objetos a amar: Deus, a si mesmo, e ao próximo. Santo Agostinho, questionando-se sobre a diferença desses números, oferece uma resposta valiosa e ensina com qual medida deve o homem amar-se a si mesmo:

"Mas, se há três objetos do nosso amor, porque há apenas dois mandamentos? Vou dizer-te: Deus não julgou necessário encarregar-te de te amares a ti próprio porque não há ninguém que não se ame a si mesmo. Mas muita gente se perde porque se ama mal. Ao mandar-te amá-Lo com todo o teu ser, Deus deu-te a regra segundo a qual deves amar. Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser. Com efeito é nele que te encontrarás, evitando assim perderes-te em ti. […] Deste modo é-te dada a regra segundo a qual deves amar-te: ama Aquele que é maior do que tu e amar-te-ás a ti mesmo." [1]

O amor a si mesmo não é mandamento porque, escreve Agostinho, "não há ninguém que não se ame a si mesmo". As palavras do santo de Hipona são convenientemente explicadas por Santo Tomás de Aquino, que, ao responder se "os pecadores amam-se a si mesmos", esclarece: "Todos os homens, bons e maus, amam-se a si mesmos, na medida em que amam a própria conservação" [2]. Não há virtude nessa espécie de amor, já que até os animais agem de modo semelhante: quando veem alguma ameaça à sua vida ou à sua integridade física, eles fogem, pois "amam", por assim dizer, "a si mesmos", agem buscando "a própria conservação".

Quando Santo Agostinho adverte, porém, que "muita gente se perde porque se ama mal", está fazendo referência aos pecadores, que amam a si mesmos desordenadamente. Santo Tomás diz, com acerto, que:

"Nem todos os homens pensam ser o que eles são, pois o principal no homem é a alma racional e o que é secundário é a natureza sensível e corporal: a primeira é chamada pelo Apóstolo de 'homem interior', e a segunda de 'homem exterior' (cf. 2 Cor 4, 16). Os bons apreciam em si mesmos, como principal, a natureza racional, ou o homem interior, e por isso consideram-se como sendo o que são. Mas os maus creem que o principal neles é a natureza sensível e corporal, ou o homem exterior. Por essa razão, não se conhecendo bem a si mesmos, eles não se amam verdadeiramente, mas amam somente o que julgam ser. Ao contrário, os bons, conhecendo-se verdadeiramente a si mesmos, amam-se de verdade." [3].

Os maus invertem a realidade e se preocupam apenas com o "homem exterior", em detrimento de suas almas e de sua salvação eterna. Eles querem a felicidade, mas procuram-na nos lugares errados. Abandonam a Deus, "fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água" ( Jr 2, 13). O seu amor próprio, então, não é amor coisíssima nenhuma, porque, ignorando o que realmente são, eles acabam por lançar a sua alma no inferno. Com razão, pois, diz o salmista que "aquele que ama a iniquidade odeia a sua alma" (Sl 10, 6).

Quem vive, por exemplo, no pecado da fornicação, normalmente acha que está fazendo bem para si mesmo, pois está sentindo prazer, agradando a sua carne e, afinal, "a gente se ama tanto, qual o problema?" A realidade, no entanto, é que, violando o sexto mandamento, ele não está só condenando a si mesmo, mas também a alma daquela pessoa a quem tanto diz amar (e, no entanto, não está disposto nem ao compromisso, nem à família, nem aos filhos, mas tão somente à sua satisfação sexual). Ora, que espécie de amor é esse, que prefere o próprio prazer ao bem eterno do próximo, que joga o destino e a vida seus e do outro na lata de lixo?

Algumas pessoas, por outro lado, querem fazer bem a si mesmas comprando tudo o que veem pela frente, como se a sua felicidade estivesse em uma casa na praia, em um carro importado ou em um prêmio de loteria. A verdade é que, tendo tudo isso, muitas se esquecem de Deus e perdem a própria salvação. Por isso, adverte Nosso Senhor: "Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?" ( Mc 8, 36).

Como, então, amar direito a si mesmo? Santo Agostinho ensina a real medida do amor próprio ordenado: " Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser". Nesta terra, o que de mais valioso o ser humano possui é a sua alma; e a vontade de Deus, que é a de "que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" (1 Tm 2, 3-4), é a única que pode nos salvar de nós mesmos.

Se um louco, andando na rua, começasse a cortar partes do próprio corpo, imediatamente alguém chamaria um médico e com razão aquele indivíduo seria colocado totalmente aos seus cuidados, para que não mais se destruísse. O homem, com seu amor próprio desordenado, é semelhante a esse louco que se mutila e se destrói, sem sequer perceber o que está fazendo. Para que seja curado, é preciso que ele se entregue – "com todo o seu ser" – a quem sabe o que é bom para ele. Se aos médicos humanos as pessoas se confiam com segurança, pois sabem que eles vão fazer o melhor, quanto mais devem confiar em Deus, que, não precisando, deu provas mais do que suficientes de Seu grande amor para conosco!

Confiemos n'Ele e entreguemo-nos à Sua divina vontade, seguindo o conselho de Santo Agostinho: "Ama Aquele que é maior do que tu e amar-te-ás a ti mesmo."

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Santo Agostinho, Sermão inédito sobre a carta de São Tiago, apud Evangelho Quotidiano
  2. Suma Teológica, II-II, q. 25, a. 7
  3. Idem

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O valor da vocação

A fidelidade à própria vocação é o único caminho seguro para alcançar a verdadeira felicidade

Nos campos de concentração nazistas, onde o ser humano era reduzido a uma existência deplorável, Viktor Frankl descobriu algo importante: o homem, quando possui uma razão para sua vida, é capaz de suportar as piores dores e humilhações. Isso explica o porquê de tantas pessoas, mesmo sob difíceis condições, entregarem-se a uma vocação, cujos resultados nem sempre são o dinheiro ou o prazer, mas a chacota e a incompreensão da sociedade.

Quem se dedica a uma vocação — seja ao sacerdócio ou à vida religiosa, seja ao matrimônio ou ao celibato laical —, dedica-se a um chamado interior. Não se trata de uma escolha arbitrária, pautada em interesses econômicos ou sentimentais. É, antes, uma entrega total, uma resposta ao projeto de Deus para aquele indivíduo. Por isso, no exercício de sua vocação, ele não procurará tanto o sucesso pessoal — embora isso também possa existir —, mas a perfeita realização de seu chamado.

O mundo moderno, marcado por uma mentalidade particularmente materialista, já não crê na vocação e, por esse motivo, escandaliza-se quando um jovem recém-formado ou uma bela moça decidem abandonar tudo (família, emprego, namoro etc.) para viverem o sacerdócio ou a vida religiosa. Inúmeros seminaristas, ao revelarem sua vocação para outras pessoas, tiveram de ouvir estas perguntas: "Você é assexuado?", "vai apenas estudar e depois sair, né?", "não gosta de trabalhar?". Na verdade, o que se esconde por detrás dessas questões é a indignação de quem não consegue buscar outra coisa, a não ser dinheiro e prazer. Não se concebe que alguém, sobretudo um jovem, possa renunciar ao sexo e ao bem-estar econômico por um projeto que, na concepção neopagã, já não tem espaço dentro da civilização. É justamente o que Bento XVI explicava aos sacerdotes, durante o Ano-Sacerdotal: "O celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade" [1].

O mesmo vale para o matrimônio quando vivenciado segundo o projeto originário de Deus, isto é, homem, mulher e filhos. Notem: quantos casais desejam, hoje, gerar muitos filhos, ter relações abertas à vida, lutar contra o fim da lei do divórcio e outras distorções perniciosas do casamento? Uma família numerosa gera tanto escândalo quanto um jovem celibatário, porque apesar de viverem suas vocações em diferentes estados, expressam uma única e verdadeira adesão vocacional. Ambos deram um "sim" definitivo, entregando-se de todo coração ao projeto de Deus. O casal, na fidelidade e vivência indissolúvel do matrimônio; o seminarista, no amor casto e, ao mesmo tempo, fecundo pela Igreja e Nosso Senhor Jesus Cristo. Por esta razão, ensina o Catecismo da Igreja Católica, matrimônio e ordem são dois sacramentos de missão [2]. Importa, em primeiro lugar, salvar as almas dos que estão ao nosso lado do que alcançar a própria satisfação.

E é nesta doação incondicional de si mesmo que se revela e se experimenta a graça vocacional. "Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á" ( Mt 16, 25). Dinheiro e prazer, os dois grandes bezerros de ouro de todas as épocas, são incapazes de trazer a felicidade plena. Ao contrário, aquele que se deixa levar por suas seduções, torna-se um escravo. Escravo das dívidas, das trapaças, da prostituição, escravo do pecado e da corrupção. É como naquele diálogo entre Jesus e a samaritana sobre a água do poço: "Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede" (Jo 4, 13). A pessoa que vive sua vocação, porém, encontra a face de Cristo em todas as circunstâncias, mesmo que venha a padecer sofrimentos, "dores de cabeças", perseguições e desprezo — "Mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede".

O Concílio Vaticano II, meditando sobre "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem" [3], foi firme ao afirmar que "todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade" [4]. Trata-se de um chamado universal. A santidade é, prestem atenção, o horizonte para o qual todos devemos caminhar. É a nossa verdadeira vocação. Neste sentido, é urgente uma redescoberta do valor vocacional, a fim de que todos experimentem dessa água que o próprio Cristo tem a oferecer-nos: "Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna" ( Jo 4, 14). Maria é o melhor modelo de confiança no projeto divino, dizendo o seu fiat.

Diante das provações do mundo, é preciso coragem para assumir o chamado de Deus. Meditemos sempre nesta exortação de um santo que muito pregou sobre vocação: "Por que não te entregas a Deus de uma vez..., de verdade..., agora!?" [5].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Bento XVI, Vigília por ocasião do Encontro Internacional de Sacerdotes (10 de junho de 2010).
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 1534.
  3. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), n. 1.
  4. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 39.
  5. São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 902.

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A correção que leva para o céu

A primeira preocupação de um coração enamorado por Cristo é a de levar seus irmãos para o céu

Uma resposta inequívoca sai da boca de Jesus, quando provado pelos fariseus sobre qual seria o principal mandamento da Lei divina: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. O amor fraterno constitui um princípio basilar do cristianismo. O homem retribui a solicitude de Deus, amando-O no irmão, isto é, ajudando os outros em suas necessidades, sobretudo espirituais, a fim de que levem uma vida marcada pela santidade pessoal, voltada para o céu. Trata-se da lógica do amor: Deus nos ama e nós o amamos de volta por meio da caridade — pois "todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes" (Mt 25, 40).

Essa caridade, por sua vez, não se resume a uma preocupação meramente terrena, não significa tão somente um zelo pelo bem físico e material da pessoa, embora isso também seja necessário. A primeira preocupação de um coração enamorado por Cristo é a de levar seus irmãos para o céu. Neste sentido, faz-se imprescindível uma atenção para os modelos de vida que não correspondem às máximas do Evangelho. A chamada correção fraterna é uma prática recomendada várias vezes no Novo Testamento. Na carta aos hebreus, vemos São Paulo dizer: "Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras" (Hb 10, 24). Nos livros sapienciais também está escrito: "Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber" (Pr 9, 8-9). Finalmente, é o próprio Jesus quem nos convida a cuidar da alma de nosso próximo: "Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão" (Mt 18, 15). E esse "ganhar teu irmão" significa verdadeiramente ganhá-lo para Deus.

Em uma sociedade cada vez mais secularizada, onde se vive muito mais voltado para as coisas da terra que para as do céu, surge evidentemente a tentação do materialismo, a qual conduz para um isolamento pessoal, mesmo dentro da Igreja. Quando a pregação dos pastores demonstra uma preocupação maior com "as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária", aí também se revela uma espécie de anestesia espiritual, que tende a considerar a fé como um dado secundário ou, muitas vezes, irrelevante para o desenvolvimento humano [1]. Ora, não seria isso exatamente uma das raízes da crise institucional que se apresenta hoje no seio da Igreja? [2] Lembra-nos o Papa Bento XVI: "Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro" [3]. Nas páginas do Evangelho é Jesus mesmo quem nos exorta a "buscar as coisas do alto" em primeiro lugar — "e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo" (Mt 6, 33).

Com efeito, é mister que os cristãos do mundo moderno digam não ao indiferentismo, à tendência de querer "adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem" [4]. O exemplo dos santos, sobretudo daqueles que preferiram o martírio a negar as verdades cristãs, impele-nos a isso. "O nosso amor pelo próximo — escrevia Santa Teresa Benedita da Cruz — é a medida do nosso amor a Deus" [5]. Trata-se de uma decisão: com Cristo ou contra Cristo. Não há neutralidade nesse caso. É justamente o que recorda São João Paulo II, na sua encíclica dedicada particularmente aos bispos, Veritatis Splendor [6]:

O martírio desautoriza como sendo ilusório e falso, qualquer «significado humano» que se pretenda atribuir, mesmo em condições «excepcionais», ao ato em si próprio moralmente mau; mais ainda, revela claramente a sua verdadeira face: a de uma violação da «humanidade» do homem, antes ainda em quem o realiza do que naquele que o padece.

Por outro lado, a correção fraterna exige um procedimento reto, que tenha em vista o bem espiritual da pessoa. Deve-se, por isso, rechaçar toda espécie de moralismo, a fim de que os mandamentos de Deus não sejam resumidos a um conjunto de negações, mas encarados como uma autoestrada que conduz à verdadeira liberdade do ser humano, isto é, a vida eterna. Na correção de um amigo, por conseguinte, o cristão necessita "fazer-se tudo para todos" (1 Cor 9, 22), pois "uns são como crianças recém-nascidas, outros como adolescentes e outros, finalmente, já são efetivamente adultos" [7]. Desse modo, faz-se necessário que o educador pondere "com toda a diligência quais são os que precisam de leite e quais os que carecem de um alimento mais sólido", adaptando "suas palavras à mentalidade e à inteligência dos seus ouvintes" [8]. De fato, é preciso cuidado para não quebrar a cana já rachada e apagar a chama que fumega (cf. Is 42, 3).

O princípio da correção fraterna traz em seu bojo outra verdade fundamental para o cristianismo: a fraternidade em Cristo. Pelo batismo, tornamo-nos todos irmãos. Assim, fazem todo sentido as palavras de São Paulo aos efésios: "Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor" (cf. Ef 4, 1-6). Uma comunidade que não se preocupa com as necessidades básicas do outro está fadada ao fracasso, por mais supostamente piedosa que seja. A verdadeira espiritualidade nunca se fecha em si mesma; ao contrário, leva-nos a enxergar Jesus no outro, ajudando-o a carregar a cruz, tal qual fez o cirineu com Cristo. Também a Virgem Santíssima nas bodas de Caná — "Eles não têm mais vinho" (Jo 2, 3) — dá-nos o modelo de amor ao próximo, como também na sua partida apressada para a casa de Isabel — "Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá" (cf. Lc 1, 39-45) —, a fim de servi-la e ajudá-la.

O amor de Deus pede uma resposta. E esta resposta, é preciso sempre repetir, está no amor aos irmãos: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração (...) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22, 34-40).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Carta Apostólica Porta Fidei (11 de outubro de 2011), n. 2.
  2. AV. 104. Igreja em crise?
  3. Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2012, n. 1
  4. Ibidem.
  5. Homilia do Santo Padre João Paulo II na canonização de Teresa Benedita da Cruz.
  6. João Paulo II, Carta enc. Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 92.
  7. Catecismo da Igreja Católica, n. 24.
  8. Ibidem.

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Cinco conselhos de um santo para 2015

Dicas valiosas de São Josemaría Escrivá para a tarefa mais importante de nossa existência: a salvação da nossa alma.

Todo começo de ano, as pessoas têm o costume de "fazer promessas". Examinam a própria consciência – coisas que fizeram de modo errado ou de que se arrependeram mais tarde –, elegem suas testemunhas – Deus, a própria consciência, a família ou os amigos mais próximos – e fazem sua lista: "Neste ano, vou fazer isto e isto; e deixar isto, isto e aquilo...". Ainda que a pessoa se esqueça do que prometeu nos primeiros dias de janeiro (o que não é nada incomum), os "propósitos de ano novo" são uma boa iniciativa: ilustram o anseio do homem pelo bem e pela perfeição, e ajudam-no a não se conformar com uma vida medíocre, levada "de qualquer modo".

Esta noção de seriedade diante da vida é profundamente cristã. Na famosa parábola dos talentos, Nosso Senhor compara o Reino dos céus a um homem que, tendo viajado para o estrangeiro, deixou seus bens a três servos. Enquanto os dois primeiros trabalharam para multiplicar o que tinham recebido, e foram elogiados por seu senhor, o terceiro, que enterrou na terra o que recebeu, foi repreendido com o apodo de "servo mau e preguiçoso" e jogado nas trevas, onde "haverá choro e ranger de dentes" (cf. Mt 25, 14-30). Deus dá a cada ser humano a oportunidade única de viver - não haverá outra "encarnação", como supõem os espíritas - e espera amorosamente que ele trabalhe e desenvolva os talentos que Ele lhe concedeu. "Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor" (Fl 2, 12), diz também São Paulo.

Que tal ser aconselhado por um santo para fazer sua lista de propósitos para o ano que se iniciou? Abaixo, seguem algumas pérolas de São Josemaría Escrivá, o santo do quotidiano, com recomendações valiosas para o trabalho mais importante de nossa existência: a salvação da nossa alma.

I. Lutar contra os pecados veniais

"Já sei que evitas os pecados mortais. - Queres salvar-te! - Mas não te preocupa esse contínuo cair deliberadamente em pecados veniais, ainda que sintas o chamado de Deus para te venceres em cada caso. - É a tibieza que torna a tua vontade tão fraca." ( Caminho, 327)

"Quem é fiel nas pequenas coisas será fiel também nas grandes, e quem é injusto nas pequenas será injusto também nas grandes" ( Lc 16, 10). Quem quer seguir Nosso Senhor, deve deixar de lado a "mentalidade do salário mínimo" e começar a servi-Lo com maior generosidade. Não nos basta seguir os Dez Mandamentos, o chamado de Cristo é que sejamos santos – ou seja, que O amemos de verdade, por completo.

Quantas vezes Nosso Senhor "incomoda" a nossa consciência, alertando-nos para certas palavras ou atitudes que não correspondem à Sua vontade, mas que muitas vezes tratamos como se não fossem nada ou – pior – dizemos serem "somente" pecados veniais. Santo Anselmo pergunta: "Quem terá a ousadia de dizer: isto é só um pecado venial, e, portanto, não é um grande mal? Se Deus é ofendido, como se poderá afirmar que isso é um pequeno mal?"

Por isso, abandonemos de vez os pecados veniais, " vulpes parvulas, quae demoliuntur vineas - as pequenas raposas que destroem a vinha" (Ct 2, 15).

II. Acordar na hora certa

"Vence-te em cada dia desde o primeiro momento, levantando-te pontualmente a uma hora fixa, sem conceder um só minuto à preguiça. Se, com a ajuda de Deus, te venceres, muito terás adiantado para o resto do dia. Desmoraliza tanto sentir-se vencido na primeira escaramuça!" ( Caminho, 191)

"O minuto heróico. - É a hora exata de te levantares. Sem hesitar: um pensamento sobrenatural e... fora! - O minuto heróico: aí tens uma mortificação que fortalece a tua vontade e não debilita a tua natureza." ( Caminho, 206)

Muitas pessoas têm problemas para dormir; tantas outras, porém, têm o problema oposto: não conseguem levantar-se da cama no outro dia. Às vezes até dormem mais cedo, colocam o despertador para determinado horário, mas, simplesmente não acordam – ou pior, não querem levantar-se! Depois que ativam a "função soneca" do celular, elas cochilam indefinidamente, chegando a perder o horário e deixando de cumprir os seus deveres em casa, na escola ou no trabalho.

É certo: às vezes, a rotina do dia a dia esgota-nos sobremaneira. Todavia, é preciso reconhecer que as perdas de tempo na cama, de manhã, normalmente se devem muito mais à nossa preguiça que ao nosso cansaço físico. Afinal, se aquela hora específica é o momento que tínhamos fixado para acordar, por que adiar para mais tarde?

Em 2015, este pode ser um ótimo propósito para nós: o " minuto heroico", levantar na hora certa, sem negociatas com o celular, "sem hesitar". Além de adiantar muito para o resto do dia, tal prática pode ser feita como verdadeiro exercício de mortificação. E a mortificação - não se pode esquecer - é uma escada imprescindível para subir ao Céu.

III. Fazer alguns minutos diários de meditação

"Meditação. - Tempo certo e a hora certa. - Senão, acabará adaptando-se à nossa comodidade: isso é falta de mortificação. E a oração sem mortificação é pouco eficaz." ( Sulco, 446)

"Um tempo de meditação diária - união de amizade com Deus - é coisa própria de pessoas que sabem aproveitar retamente a sua vida; de cristãos conscientes, que agem com coerência." ( Sulco, 665)

Em um mundo tomado por uma agitação contínua, na qual as pessoas agem quase que "a toque de caixa", falar de rezar chega a parecer conversa de outro mundo – ou da Idade Média. Com tanta coisa para fazer, parece não sobrar tempo para Deus e para o cuidado de nossa vida interior. Levado pelo ritmo frenético do dia a dia, então, quem é ateu vai simplesmente passando a sua curta existência neste mundo, e quem é cristão vai pouco a pouco se tornando materialista, uma espécie de "ateu prático".

O conselho de São Josemaría é um desafio para o homem moderno: "um tempo de meditação diária", com "tempo certo" e "hora certa". Um momento reservado, escolhido, específico, para Deus. É claro que é possível rezar enquanto se trabalha. São Paulo mesmo pede aos cristãos que rezem sem cessar (cf. 1 Ts 5, 17). Isso, no entanto, não pode ser desculpa para deixar de escolher um horário determinado e especial para tratar com Deus. O Cristianismo é a religião do amor. Quando alguém ama, quer estar com a pessoa amada, conversar com ela, desfrutar da sua presença. Ora, como podemos amar a Deus, se não queremos passar alguns poucos minutos diários diante d'Ele?

Em suma, na religião cristã, não se pode descuidar da oração, que é realmente a porta da santidade.

IV. Não esquecer o exame de consciência

"Se lutas de verdade, precisas fazer exame de consciência. - Cuida do exame diário: vê se sentes dor de Amor, porque não tratas Nosso Senhor como deverias." ( Sulco, 142)

"Há um inimigo da vida interior, pequeno, bobo; mas muito eficaz, infelizmente: o pouco empenho no exame de consciência." ( Forja, 109)

"Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento" ( Ef 4, 26), diz o Apóstolo. Trata-se de um conselho importantíssimo para qualquer convivência sadia entre as pessoas. Ora, se é preciso cuidar do relacionamento com os outros, muito mais da nossa intimidade com Deus!

Por isso, um belo propósito para este ano é não deixar que o dia termine sem fazer um diligente exame de consciência. Quem ama, procura sempre melhorar, corrigindo os próprios erros, a fim de agradar a pessoa amada. Um exame bem feito, todos os dias, ao final da noite, além de fortalecer a união com o Senhor, torna mais concreto e responsável o nosso amor a Ele, eliminando as ofensas e imperfeições que atingem o Seu coração. Não se pode, portanto, negligenciar a importância do exame de consciência para a nossa vida espiritual.

V. Perseverar no trabalho

"Deves sentir cada dia a obrigação de ser santo. - Santo!, que não é fazer coisas esquisitas: é lutar na vida interior e no cumprimento heróico, acabado, do dever." ( Forja, 60)

"Obstáculos?... Às vezes, existem. - Mas, em algumas ocasiões, és tu que os inventas por comodismo ou por covardia. - Com que habilidade formula o diabo a aparência desses pretextos para que não trabalhes...!, porque sabe muito bem que a preguiça é a mãe de todos os vícios." ( Sulco, 505)

"'Passou-me o entusiasmo', escreveste-me. - Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor; com consciência do dever, que é abnegação." ( Caminho, 994)

Não é verdade que o trabalho seja um castigo decorrente do pecado original. "O trabalho não é um castigo - ensina o Catecismo da Igreja Católica -, mas a colaboração do homem e da mulher com Deus no aperfeiçoamento da criação visível" (§ 378). Por isso, antes mesmo que o primeiro homem pecasse, Deus o pôs no jardim do Éden "a fim de o cultivar e guardar" (Gn 2, 15). Se a queda desfigurou o trabalho humano – o ser humano passou a comer o pão "com trabalhos penosos" e "com o suor do seu rosto" (cf. Gn 3, 17-19) –, Nosso Senhor, que passou a Sua vida oculta no serviço simples e escondido da carpintaria de Nazaré, devolveu-lhe a beleza e o significado originais. O homem não trabalha simplesmente para cumprir uma pena. Trabalha para ser santo. Para lutar "na vida interior e no cumprimento heroico, acabado, do dever".

O segredo de todos esses conselhos, todavia, está no amor. " Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor", diz o santo do quotidiano. Qualquer propósito para 2015 será em vão se não tiver como motor principal a caridade. Os sentimentos, o "entusiasmo", os arrepios dos primeiros anos de conversão, todas essas coisas passam. Ao contrário, o amor, fundado na vontade firme, na "determinada determinación" de agradar a Deus, permanece. Dia após dia, renovemos as nossas "promessas" de entrega e fidelidade a Ele. E teremos, sem dúvidas, um ano muito melhor do que este que passou.

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O caminho para aproveitar as próprias faltas

Para subir a escada da perfeição, é importante distinguir a boa e a má tristeza pelos pecados cometidos

Há um chamado universal para o homem: o da santidade. Nenhuma pessoa humana está excluída dessa vocação cristã, seja judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos somos "um em Cristo" (cf. Gl 3, 28). O Verbo Divino encarnou-se para manifestar a perfeita humanidade, a qual todos podemos e devemos almejar: "Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra" (Cl 3, 2).

Ao longo da história da Igreja, muitos cristãos foram capazes de renunciar às riquezas temporais, a fim de ganhar uma morada no céu. Porque a santidade não é uma teoria abstrata, mas um dom de Deus àqueles que acolhem a sua graça e se esforçam para identificar-se totalmente com a pessoa de Cristo, também hoje é possível falar em perfeição cristã. A santidade é possível porque se trata da expressa vontade de Deus para o homem. Por isso, repetiu insistentemente o Concílio Vaticano II: "Todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: 'esta é a vontade de Deus, a vossa santificação' (1 Ts 4,3; cf. Ef 1,4)".

A santidade, todavia, não é uma graça barata. Exige esforço. Eis o conselho de São Paulo aos colossenses: "Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria" ( Cl 3, 5). Devido à chaga causada pelo pecado, o homem é constantemente levado a praticar o mal que não quer, pelo que deve recorrer a uma espécie de terapia das doenças espirituais [1]. Com efeito, é preciso, em primeiro lugar, que o homem se abra à graça de Deus, uma vez que não se sobe nenhum degrau da escada da perfeição sem a ajuda divina.

Por causa de uma má compreensão sobre este ponto, muitos têm se perdido no caminho da santidade, deixando-se levar por um neopelagianismo, isto é, a vontade de alcançar o céu pelos próprios esforços [2]. Trata-se de uma artimanha do demônio para minar nossa esperança. Ele nos faz acreditar que já alcançamos grande avanço espiritual e que, por isso, somos irrepreensíveis aos olhos de Deus. Por conseguinte, ao sermos pegos em falta, surpreendemo-nos, pois "pensávamos ser pessoas firmes, decididas e sólidas e, ao ver que não somos nada disso e que demos com o nariz em terra, sentimo-nos perturbados, magoados e descontentes com nossa fragilidade" [3].

Quando a alma se encontra em uma situação como essa, deve saber distinguir entre a boa e a má tristeza causada pela falta cometida. Conforme diz São Paulo à comunidade de Corinto, "a tristeza que é segundo Deus produz uma penitência estável para a salvação; a tristeza do mundo produz a morte" ( 2 Cor 7, 10). Na mesma linha, São Francisco de Sales alerta [4]:

A tristeza pode, pois, ser boa ou má, conforme os efeitos que produza em nós. Mas, em geral, produz mais efeitos maus que bons, porque os bons são apenas dois: a misericórdia — o pesar pelo mal dos outros — e a penitência — a dor de ter ofendido a Deus —, ao passo que os maus são seis: medo, preguiça, indignação, ciúme, inveja e impaciência.

Na jornada pela santidade, portanto, o peregrino deve sempre ter em mente a sua profunda dependência de Deus. É exatamente o que exorta São Josemaría Escrivá: "Deixa que o teu coração transborde em efusões de Amor e de agradecimento ao considerar como a graça de Deus te liberta todos os dias dos laços que te arma o inimigo" [5]. De fato, a consciência de que não somos nada sem o auxílio de Deus e que, longe d'Ele, estaríamos invejando a comida dos porcos, tal qual o filho pródigo, liberta-nos de toda presunção demoníaca e faz-nos enxergar nossos pecados com serenidade e paz de espírito. Essa é a arte de aproveitar as próprias faltas para a edificação de nossa humildade.

O amor próprio, comenta o escritor cristão Joseph Tissot, é o principal impedimento para o progresso na vida cristã. O autor diz [6]:

Essa excessiva ansiedade da pessoa não tanto por curar-se como por saber que está curada, para ficar satisfeita consigo mesma; esses secretos despeitos que a impedem de fazer as pazes com sua consciência, porque é mais cômodo abandoná-la como incorrígivel; essas melancolias em que mergulha; essa incessante e obsessiva contemplação das faltas cometidas e de si própria; essa necessidade de lamentar-se mais diante dos homens do que diante de Deus, com o imperceptível desejo de despertar compaixão… 'todas essas penas se devem a um mesmo pai espiritual que se chama amor-próprio'.

Ora, o caminho da perfeição cristã é como aquele descrito por um monge a um jovem curioso, que desejava saber o que os religiosos faziam dentro do mosteiro: Aqui dentro se cai e se levanta, cai e se levanta, cai e se levanta, até o dia em que seremos definitivamente levantados por Nosso Senhor. Esperamos em Cristo o dia em que Ele nos limpará de toda impureza: "Dar-vos-ei um coração novo e em vos porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne" ( Ez 36, 26). Essa é a virtude da esperança cristã; a esperança da santidade eterna.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Rm 7, 19. Ver também: Curso de Terapia das Doenças Espirituais
  2. Cf. RC. 189: O que é pelagianismo?
  3. TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. São Paulo: Quadrante, 2003, p. 31
  4. Ibidem, p. 24
  5. Caminho, 434
  6. TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. São Paulo: Quadrante, 2003, p. 30