| Categoria: Espiritualidade

Sou tão pecador, a santidade é mesmo para mim?

Nosso Senhor, quando desceu a este mundo, não veio para os justos, mas para os pecadores.

Quantas vezes, examinando a nossa consciência, não nos angustiamos com as ofensas que já cometemos contra Deus! Talvez sejam pecados passados, e até já confessados; podem ser quedas que experimentamos ainda agora em nossa caminhada... Em um instante, porém, parece que todos os nossos erros vêm à tona e sentimo-nos frágeis e impotentes diante do mal, incapazes de levantar a cabeça e seguir em frente, rumo ao Céu.

Quando observamos as Sagradas Escrituras e a Tradição da Igreja, no entanto, encontramos um grande alívio para a nossa alma. É a certeza de que não estamos sozinhos. As tristezas e interrogações que acometeram os grandes santos e santas de Deus são capazes de lançar uma luz extraordinária no nosso próprio sofrimento. Basta ler um pouco de suas histórias e de seus escritos para que imediatamente sejamos consolados e o nosso coração seja apaziguado. Mais do que isso, a grande família dos servos de Deus nos precede no Céu. Por isso, o que ela tem a oferecer-nos é muito maior do que algumas letras impressas nas páginas de algum livro antigo. Nossa união com os santos – ensina-nos o Catecismo da Igreja Católica (§ 946-962) – é uma verdadeira comunhão espiritual. Como "nada nos pode separar do amor de Deus" (Rm 8, 38), eles intercedem por nós e verdadeiramente nos auxiliam em nossos combates nesta terra.

Assim, quem está com a consciência manchada pelo pecado é chamado a recordar, por exemplo, o Salmo 50, composto por ninguém menos que Santo Davi, o rei do Antigo Testamento.

Nesta obra-prima da literatura religiosa, o salmista aflito pede que a misericórdia de Deus apague o seu pecado, o qual está sempre diante dele. Oferecemos abaixo a tradução que consta na Liturgia das Horas. Aproveite para rezar com o Autor Sagrado:

"Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia!
Na imensidão de vosso amor, purificai-me!
Lavai-me todo inteiro do pecado,
e apagai completamente a minha culpa!

Eu reconheço toda a minha iniquidade,
o meu pecado está sempre à minha frente.
Foi contra vós, só contra vós, que eu pequei,
e pratiquei o que é mau aos vossos olhos!

Mostrais assim quanto sois justo na sentença,
e quanto é reto o julgamento que fazeis.
Vede, Senhor, que eu nasci na iniquidade
e pecador já minha mãe me concebeu.

Mas vós amais os corações que são sinceros,
na intimidade me ensinais sabedoria.
Aspergi-me e serei puro do pecado,
e mais branco do que a neve ficarei.

Fazei-me ouvir cantos de festa e de alegria,
e exultarão estes meus ossos que esmagastes.
Desviai o vosso olhar dos meus pecados
e apagai todas as minhas transgressões!

Criai em mim um coração que seja puro,
dai-me de novo um espírito decidido.
Ó Senhor, não me afasteis de vossa face,
nem retireis de mim o vosso Santo Espírito!

Dai-me de novo a alegria de ser salvo
e confirmai-me com espírito generoso!
Ensinarei vosso caminho aos pecadores,
e para vós se voltarão os transviados.

Da morte como pena, libertai-me,
e minha língua exaltará vossa justiça!
Abri meus lábios, ó Senhor, para cantar,
e minha boca anunciará vosso louvor!

Pois não são de vosso agrado os sacrifícios,
e, se oferto um holocausto, o rejeitais.
Meu sacrifício é minha alma penitente,
não desprezeis um coração arrependido!

Sede benigno com Sião, por vossa graça,
reconstruí Jerusalém e os seus muros!
E aceitareis o verdadeiro sacrifício,
os holocaustos e oblações em vosso altar!" (Sl 50, 3-21)

Esse belo texto bíblico merece uma meditação profunda, porque descreve de modo exato a situação em que se encontram muitas almas, atormentadas pelas "cabeçadas na parede" que deram durante a vida.

O que fazer com os nossos pecados?

A primeira coisa a fazer com os nossos pecados é indicada por Santa Teresinha do Menino Jesus: devemos lançar todos eles na fornalha ardente do amor de Deus [1]. Diante do mal que cometeu, o cristão deve dar o passo do rei Davi, que reconheceu a sua iniquidade e implorou o perdão divino. O pecador verdadeiramente arrependido, comenta Orígenes, "se inquieta e se aflige devido ao seu pecado". Ao contrário, "há quem, depois de ter pecado, se sinta completamente tranquilo e não se preocupe com o seu pecado nem tocado pela consciência do mal cometido, mas viva como se nada tivesse acontecido. Sem dúvida, esse não poderia dizer: Tenho sempre consciência do meu pecado (Sl 50, 5)" [2].

"Foi contra vós, só contra vós que eu pequei", ajunta Davi. Com isso, o salmista aponta o destinatário de sua prece e, ao mesmo tempo, o único que lhe pode trazer a reconciliação: Deus. Por isso, quando erramos, não nos basta o conforto humano. Um ombro amigo e as palavras de um psicólogo podem ser muito úteis, mas não substituem a nossa relação íntima com Cristo. Para readquirir a paz da alma, é preciso muito mais do que os ouvidos dos homens, incapazes que são de perdoar os nossos pecados.

"E a Confissão, então, o que é?", alguém pode perguntar. A Confissão – entenda-se, aos sacerdotes da Igreja – é o remédio que o próprio Cristo encontrou para, ao mesmo tempo, dispensar o perdão divino e saciar o nosso anseio por consolo humano. Nas mãos que traçam o sinal da Cruz e dizem: "Eu te absolvo dos teus pecados", estão as próprias mãos do Redentor, porque Ele mesmo prometeu a Sua assistência aos padres da Igreja (cf. Jo 20, 22-23). O protestante que diz se trancar no quarto para "confessar diretamente a Deus" certamente pode ser perdoado, mas nunca receberá o alívio de ouvir da boca de um verdadeiro ministro e representante de Deus, que os seus pecados foram realmente apagados e que a sua alma, agora, passou do vermelho escarlate ao branco da neve (cf. Sl 50, 9).

Este é, pois, o primeiro passo a tomar: arrepender-se, propor-se firmemente a não mais pecar e acusar os próprios pecados diante de Deus e da Igreja.

Mas, para restaurar plenamente a nossa comunhão com Deus, é preciso ir além. A palavra "penitência" – que as pessoas geralmente usam para designar os Pai-nossos e as Ave-Marias que os sacerdotes nos mandam rezar após a Confissão – diz respeito a uma atitude interior, que devemos manter continuamente viva em nosso coração. É por isso que Davi diz que o seu pecado está sempre à sua frente. Devemos ter as nossas faltas a todo momento diante de nós, seja para não as cometermos de novo, seja para lembrarmos que somos sempre necessitados, mendigos da misericórdia do Senhor.

Isso, porém, não significa, de jeito nenhum, "chorar sobre o leite derramado". Há pessoas que, mesmo depois de terem recebido o perdão de Deus – que verdadeiramente absolve os pecados no tribunal do sacramento da Confissão –, ainda ficam remoendo as suas culpas, incapazes que são de se perdoarem a si mesmas.

Para elas, é preciso lembrar a vida dos grandes santos que, antes de se determinarem realmente por Deus, eram em verdade grandes pecadores. Quem nunca ouviu, por exemplo, a história de Santo Agostinho? São Jerônimo, como ele mesmo conta, não era mais virgem depois que começou a seguir a Cristo. Santa Maria Egipcíaca, depois de muitos anos na prostituição, abandonou tudo e viveu uma invejável vida de penitência no deserto... O bem-aventurado Bártolo Longo chegou a ser sacerdote satânico antes de se converter!

Como esses, há tantos outros exemplos, não só na história da Igreja, como nos próprios Evangelhos: afinal, quem foi Maria Madalena, antes de ser santa; quem era Zaqueu, antes de conhecer Nosso Senhor?

Mais importante que o nosso passado, porém, é o que Deus, em Sua providência maravilhosa, reserva para cada um de nós. Por isso, é preciso concordar com Oscar Wilde, quando diz que "todo santo tem um passado e todo pecador tem um futuro" [3].

Você, que lê estas linhas e tem verdadeiramente horror pelos seus pecados, acredite firmemente que Deus quer fazer de você um grande santo. Não se inquiete porque você foi isto ou aquilo, porque tem este ou aquele vício, ou porque já perdeu a sua pureza, ou porque tem tal ou qual defeito. Se caiu, levante-se! "O grave não é que aquele que luta, caia, mas que permaneça caído", já dizia São João Crisóstomo [4]. Não pergunte, portanto: "Sou tão pecador, a santidade é mesmo para mim?", porque Jesus Cristo, Nosso Senhor, quando desceu a este mundo, não veio para os justos, mas para os pecadores (cf. Mt 9, 13). Deixe que o sangue d'Ele, derramado na Cruz, cure e transforme a sua vida.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Últimos Colóquios, Caderno Amarelo, 11 de julho, n. 6.
  2. Homilias sobre os Salmos, apud São João Paulo II, Audiência Geral (8 de maio de 2002), n. 2.
  3. In: Collected Works of Oscar Wilde. Ware: Wordsworth, 2007, p. 568.
  4. Exortação a Teodoro, II, 1. In: ARRARÁS, Felix. João Crisóstomo: vida e martírio (trad. de Henrique Elfes). São Paulo: Quadrante, 1993, p. 170.

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Conheça a história dos monges que cantam e rezam na terra de São Bento

​Depois de 200 anos, a identidade de Núrsia finalmente está completa, graças à presença dos monges que cantam e alegram a cidade com as suas cervejas e os seus conselhos. "É como se, com os monges aqui, tudo fosse dar certo."

No coração da Itália, em meio às montanhas da região da Úmbria, está a pacata cidade de Núrsia ( Norcia, no italiano), com suas estreitas ruas de pedra e paisagens extraordinárias. Famoso por suas linguiças suínas e trufas negras, o povoado de quase 5 mil habitantes é também a terra natal de São Bento, pai da vida monástica.

Por séculos, a comuna de Núrsia contou com a presença de monges beneditinos, que traziam segurança e conforto espiritual aos seus moradores. Mas, em 1810, com a promulgação do Código de Napoleão, os religiosos foram obrigados a deixar o local, sem que lhes fosse dado um prazo para retornar.

Espiritualmente órfãos, os nursini fizeram uma petição e recolheram entre si mais de 4 mil assinaturas, pedindo ao superior de São Bento que enviasse beneditinos de volta à terra do seu fundador. Finalmente, em 2000, o anseio dos moradores locais foi satisfeito e a vida monástica voltou a florescer em Núrsia: com mais dois religiosos, o padre norte-americano Cassian Folsom fundou na comuna o Mosteiro Beneditino Maria Sedes Sapientiae ("Maria, Sede da Sabedoria"), começando o apostolado de trabalho e oração ("Ora et labora") que resume a Regra de São Bento.

"A vida monástica é muito simples e ordinária", explica o prior da comunidade, padre Cassian. "Você levanta, reza, faz o seu trabalho, vai para a cama e, no dia seguinte, faz tudo de novo. São Bento, em certo sentido, é o padroeiro do ordinário, faz encontrar a presença de Deus no ordinário."

Um álbum de louvor a Deus

Há alguns meses, no entanto, a rotina comum dessa discreta casa religiosa ganhou os holofotes do mundo. É que as vozes desses monges foram reunidas no álbum Benedicta, uma excelente produção de canto gregoriano, que chegou a figurar entre os mais vendidos de música clássica.

O que explica tamanho sucesso, na opinião do premiado produtor Christopher Alder, é o transcendente embutido nas canções. ­"O canto que nós gravamos significa algo para eles, e você pode ouvir isso na sinceridade com que eles cantam", ele diz. "Há algo, no melhor sentido, hipnotizante ou meditativo. Quem ouve sente que entra em contato com o passado."

As faixas do CD reúnem orações e antífonas rezadas todos os dias pelos monges e dedicadas à Mãe de Deus. "Eu amo música, e a música, para a vida monástica, é uma parte essencial da nossa oração. O canto faz parte do ar que respiramos e, já que fazemos isso com tanta frequência, a coisa vem naturalmente depois de algumas décadas", ele garante. "Nós cantamos os louvores de Deus nove vezes por dia. Se você soma tudo, são cinco horas, mais ou menos, todos os dias, faça chuva ou faça sol, 365 dias por ano, o tempo todo."

Perguntado se as mesmas canções, interpretadas por artistas pop, obteriam o mesmo resultado, padre Cassian responde vigorosamente que não: "Você tem que acreditar no que está cantando", ele diz. "O canto é uma forma de expressarmos o nosso amor por Deus."

O padre Basil Nixen, regente de coro, aposta na beleza e na serenidade da música para chamar as pessoas a um encontro com Deus. "No fim, nós sempre tentamos agradar a Deus quando cantamos, então agradar às outras pessoas é mais fácil do que agradar à pessoa mais importante", ele afirma, em entrevista à CBS News.

"Para alegrar o coração"

Quando não estão rezando, uma das atividades dos monges é a produção de cervejas. A Birra Nursia, com o lema bíblico: "Ut laetificet cor – Para alegrar o coração" (Sl 103, 15), já é conhecida mundo afora e comercializada em Portugal, na Irlanda e nos Estados Unidos.

"Nós aprendemos a arte dos monges trapistas na Bélgica. Transformamos uma garagem embaixo do mosteiro em sala de fermentação e todos os monges ajudam a engarrafar as cervejas", conta o padre Cassian, em entrevista à Religion & Ethics. "A cerveja é muito boa e tem servido, de um modo extraordinário, como atração para a evangelização porque, mesmo se as pessoas não são de ir à igreja, quase todos gostam de tomar cerveja. Então, eles vêm ao mosteiro por causa da cerveja e logo começam a falar de outras coisas, coisas mais importantes."

"O povo da cidade recorre aos monges quando está com problemas, quando quer conversar com alguém sobre a sua vida familiar", ele diz. "Ter os monges de volta, depois de quase 200 anos, ajuda a completar a identidade da cidade. É como se, com os monges aqui, tudo fosse dar certo."

Introibo ad altare Dei

A música e a cerveja, no entanto, são aspectos apenas secundários do trabalho desses monges. O mosteiro de Núrsia faz parte de uma rede de comunidades tradicionais ao redor do mundo, preocupadas em zelar pela "sacralidade" do tesouro litúrgico da Igreja.

Para tanto, eles não têm problemas em celebrar a Missa nas duas formas do Rito Romano, intentando realizar aquele "enriquecimento mútuo" tão necessário e tão pedido pelo Papa Bento XVI. Verdadeiramente, "aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós".

"O Rito Antigo, ou a tradição litúrgica da Igreja, para nós, é um patrimônio, não uma peça de museu, mas algo vivo", diz o padre Cassian, em entrevista à EWTN. A iniciativa atrai principalmente os jovens, que constituem, hoje, a maioria de seus membros. A média de idade dos religiosos é de 33 anos.

O Amado às portas

O prior do mosteiro beneditino é também o membro mais velho da casa. Com 63 anos, a fama de Cassian Folsom, dentro e fora da cidade de Núrsia, é de santidade. Recentemente, a luta contra um câncer ajudou a catalisar esse processo de ascensão espiritual. Em 2006, ele já tinha vencido a doença, mas ela voltou uma segunda vez e, mesmo com o tumor na fase de remissão, o padre Cassian sabe que pode acontecer tudo de novo.

"Como qualquer um diagnosticado com câncer, isso muda a sua vida", ele declara. "Acho que a doença tem me dado uma paciência maior, uma tolerância maior, fazendo-me olhar para as coisas como se nem tudo importasse tanto quanto eu achava que importava."

A repórter do Religion & Ethics, Judy Valente, pergunta ao religioso se ele não esperava merecer "algo mais do que dois diagnósticos de câncer", já que tinha dedicado a sua vida para o serviço de Deus. A resposta dele é uma lição espiritual:

"Isso é apenas parte da vida, é tudo. Eu diria isto: nós podemos olhar para a morte como uma ladra ou como uma mensageira. Um ladrão vem e rouba o que temos de mais valioso e, por isso, nós temos medo. Um mensageiro que vem para dizer-nos que o nosso Amado está às portas, nós recebemos de modo bem diferente, não? Então, este é o tipo de escolha que devemos fazer: se a morte é uma ladra ou uma mensageira. Para mim, é uma mensageira."

É com essa mensageira em mente que o padre Cassian e os seus religiosos rezam, todas as noites, o cântico do velho Simeão: " Nunc dimittis servum tuum, Domini, in pace – Deixai agora, Senhor, vosso servo ir em paz" (Lc 2, 29). Por viverem em constante oração, todos os seus trabalhos vão se orientando, quase que de modo automático, à única coisa verdadeiramente necessária: a vontade divina.

Questionado se o sucesso de Benedicta afetará de alguma forma a personalidade e os hábitos do mosteiro de Núrsia, o padre Basil Nixen assegura que não. "Este é o ponto de nossas vidas: nós não viemos aqui para ter sucesso, mas para procurar a Deus".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O que significam o ouro, o incenso e a mirra?

Os presentes dos Magos podem parecer estranhos a um primeiro olhar, mas nos ensinam a reconhecer a Deus na pequenez do Menino Jesus.

Quando nasce uma criança, é costume que os familiares e amigos mais próximos demonstrem o seu afeto e estima com presentes dos mais diversos tipos: roupinhas e sapatinhos para agasalhar o bebê; fraldas e produtos para cuidar da sua higiene; e, um pouco mais tarde, quando ele começar a segurar as coisas com as mãos, brinquedos para que tenha com que se divertir. Os padrinhos do recém-nascido talvez até comprem uma banheira, um carrinho ou um berço, ajudando a completar o enxoval.

Mas, quando o Menino Jesus nasceu em Belém, deitado al freddo e al gelo sobre uma manjedoura, os primeiros presentes que recebeu, de três estranhos, não foram nada comuns. O Evangelho diz que Magos vindos do Oriente, "abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra" (Mt 2, 11).

Ora, o que uma criança que mal acabara de nascer podia fazer com ouro, incenso e mirra? À parte o valor incontestável do ouro, o que uma pobre família de Nazaré ia querer com objetos dessa natureza? Qual o significado dessas três coisas que os Magos oferecem a Jesus e que são lembradas, todos os anos, na Solenidade da Epifania do Senhor?

Durante a Missa da Epifania de 2010, o Papa Bento XVI, expressando a mesma perplexidade dessas perguntas, reconheceu que os dons apresentados pelos Magos:

"Sem dúvida, não são dons que correspondem às necessidades primárias ou quotidianas. Naquele momento, a Sagrada Família certamente teria tido mais necessidade de algo diferente do incenso e da mirra, e nem sequer o ouro podia ser-lhe imediatamente útil. Mas estes dons têm um profundo significado: são um ato de justiça. Com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: ou seja, são um ato de submissão. Querem dizer que a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem a sua autoridade."

A reflexão de Bento segue a linha de outros autores da Tradição da Igreja, que associam os três presentes dados ao Menino Jesus com o reconhecimento de Sua identidade e missão divinas. Uma antiga homilia, de autor incerto, lembra que "a qualidade dos presentes oferecidos dava testemunho da divindade que eles consideravam haver no menino" [1], com o ouro se referindo à Sua realeza; o incenso, à Sua divindade; e a mirra, à Sua humanidade.

O Papa São Gregório Magno († 604), em uma de suas homilias, oferece uma interpretação completa [2] do que sejam esses presentes. Primeiro, ele recorre a uma explicação literal, dizendo para que servem o ouro, o incenso e a mirra:

"Os magos tinham ouro, incenso e mirra: o primeiro, evidentemente, corresponde a um rei; o incenso é usado no sacrifício a Deus; a mirra, por fim, embalsama os corpos dos mortos."

Depois, ele dá o sentido alegórico e místico dessa passagem, explicando aquilo em que devemos crer:

"Os Magos que adoram o Cristo também O proclamam com presentes místicos: que Ele é rei, com o ouro; que é Deus, com o incenso; e que é mortal, com a mirra. De fato, são muitos os hereges que acreditam em Deus, mas de modo algum acreditam que Ele reina em todos os lugares. Esses certamente Lhe oferecem incenso, mas o ouro não querem ofertar. São muitos também os que O estimam como rei, mas O negam enquanto Deus. Esses, como se pode ver, oferecem-Lhe ouro, mas o incenso não querem ofertar. Há muitos, enfim, que O exaltam tanto como Deus como quanto rei, mas negam que Ele tenha assumido a carne mortal. Esses oferecem-Lhe muito ouro e incenso, mas a mirra da mortalidade assumida não querem ofertar.

Nós, ao contrário, ao Senhor que nasce ofereçamos ouro, a fim de confessarmos que Ele reina onde quer que seja; ofereçamos incenso, para crermos que aquele que apareceu no tempo é o Deus que existe antes dos tempos; e ofereçamos mirra, para crermos que também assumiu a nossa carne mortal aquele em cuja divindade impassível acreditamos."

Por fim, São Gregório faz uma interpretação moral dessa passagem, mostrando como também nós podemos ofertar ao Menino Jesus ouro, incenso e mirra:

"Porém, no ouro, no incenso e na mirra, outras coisas se pode entender. O ouro, por exemplo, designa a sabedoria, que Salomão atesta quando diz: 'Desejável tesouro se encontra na boca do sábio' (Pr 21, 20). Pelo incenso se exprime aquilo que a força da oração incendeia diante de Deus, como atesta o Salmista: 'Seja elevada diante de tua presença a minha oração como incenso' (Sl 140, 2). Na mirra, enfim, vai figurada a mortificação da nossa carne, de onde a Santa Igreja dizer de seus servidores fiéis, até a morte, que 'suas mãos destilaram mirra' (Ct 5, 5).

Ao Rei que nasce, portanto, ofereçamos ouro, se em Sua presença resplandecemos na luz da sabedoria celeste; ofereçamos incenso, se pelo santo amor à oração queimamos os pensamentos da carne no altar do coração, a fim de andarmos no suave odor do desejo das coisas celestes; ofereçamos mirra, se pela abstinência mortificamos os vícios da carne. A mirra age, de fato, impedindo que a carne se putrefaça. A putrefação da carne mortal significa servir ao impulso da luxúria, como é dito pelo profeta: 'Conspurcaram-se os jumentos em sua imundície' (Jl 1, 17). Os jumentos se conspurcarem em sua imundície quer dizer os homens terminarem a vida na fetidez da luxúria. Ofereçamos a Deus a mirra, portanto, se pelo bálsamo da continência conservamos este corpo mortal livre da corrupção da luxúria." [3]

Outra leitura moral do que seja a mirra é encontrada nos Padres Gregos, que põem o seu significado nas "boas obras": "Assim como a mirra preserva da corrupção o corpo dos defuntos, assim também as boas obras conservam Cristo continuamente crucificado na memória do homem, o qual, por sua vez, é conservado no Cristo", diz um texto atribuído a São João Crisóstomo. "Tu, pois, quando vieres à igreja para rezar a Deus, traz presentes em tuas mãos e dá aos que não têm, pois é enferma a oração quando não munida da virtude das esmolas." [4]

Mais do que o ouro, o incenso e a mirra, portanto, Deus quer que ofereçamos a Ele obras espirituais. O que Ele espera de nós verdadeiramente são uma fé viva, uma oração pura e uma vida santa.

Não temamos, neste tempo do Natal, oferecer tudo isso diante da criança que nasce em Belém. O Menino Jesus não é um infante qualquer, mas o sacramento que une Deus e o homem, que faz descer o Céu à Terra. O que que muitos teólogos modernos teimam em negar, os Magos já o sabiam. Vident enim hominem, et agnoscunt Deum: na gruta de Belém, eles "veem um homem, mas reconhecem Deus" [5].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Para uma interpretação espiritual dessa passagem do Evangelho, associada com a virtude da religião, ouçam o TF. 277 – A estrela que proclama a glória de Deus.

Referências

  1. Eruditi Comentarii in Evangelium Matthaei, Homilia 2, super 2 (PG 56, 642).
  2. Cf. Catecismo da Igreja Católica, § 115-119.
  3. Homiliae in Evangelia, I, 10, 6 (PL 76, 1112). As citações das Sagradas Escrituras foram traduzidas diretamente da Vulgata Clementina.
  4. Eruditi Comentarii in Evangelium Matthaei, Homilia 2, super 2 (PG 56, 642).
  5. Suma Teológica, III, q. 36, a. 8, ad 4.

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A fórmula secreta de São João Bosco para ganhar na loteria

Quer saber como ganhar na loteria? São João Bosco revela os “números mágicos” que você deve jogar para sempre levar o prêmio.

Viveu, no século XIX, um homem muito famoso por seus milagres e profecias. Mesmo antes de morrer em odor de santidade, a fama de São João Bosco se espalhava por todos os lados. A uns, anunciava-lhes por quantos anos havia de viver; a outros, dizia-lhes a profissão que teriam no futuro; e, a muitos, adivinhava-lhes os pecados antes que os contassem no confessionário. Ao todo, Dom Bosco – como era chamado – realizou mais de oitocentos milagres.

Conta-se que um homem pobre, tendo ouvido falar das maravilhas que operava este humilde sacerdote, correu um dia à sua procura para perguntar-lhe algo muito importante: a fórmula para ganhar na loteria. O rapaz queria que o santo lhe dissesse que números deveria escolher na hora de comprar o bilhete.

São João Bosco pensou por um momento e logo lhe respondeu com plena segurança:

"Os 'números mágicos' para que você ganhe na loteria são estes: 10, 7 e 14. Jogue-os, em qualquer ordem, que você conseguirá."

O homem se encheu de alegria e já ia sair correndo para comprar o bilhete, quando o santo, tomando-o pelo braço, disse-lhe sorridente: "Um momento, porque não lhe expliquei bem os números, nem lhe disse de que tipo de loteria eu estava falando. Veja, estes números significam o seguinte:

O santo concluiu: "Se você cumprir estas três coisas: observar os Mandamentos, receber bem os Sacramentos e praticar as obras de misericórdia, ganhará na melhor e mais extraordinária de todas as loterias, que é a glória eterna do Céu."

O homem compreendeu e, ao invés de procurar a lotérica, foi ao asilo para oferecer uma esmola.

A esmola faz parte das 7 obras de misericórdia corporal, que são:

  1. Dar de comer a quem tem fome;
  2. Dar de beber a quem tem sede;
  3. Vestir os nus;
  4. Dar pousada aos peregrinos;
  5. Assistir aos enfermos;
  6. Visitar os presos;
  7. Enterrar os mortos.

Há ainda as obras de misericórdia espiritual, que são as seguintes:

  1. Dar bom conselho;
  2. Ensinar os ignorantes;
  3. Corrigir os que erram;
  4. Consolar os aflitos;
  5. Perdoar as injúrias;
  6. Sofrer com paciência as fraquezas do próximo;
  7. Rogar a Deus por vivos e defuntos.

Longe de ser uma invenção distante da realidade, a lista das obras de misericórdia constitui uma forma prática de viver o próprio mandamento do amor ao próximo, em atenção ao que Cristo ensinou e pediu que fizéssemos aos mais pequeninos dos nossos irmãos (cf. Mt 25, 40). Embora tenha sido negligenciada em alguns ambientes de catequese, essa relação continua sendo, junto com os Mandamentos e os Sacramentos, a escada segura para "ganhar na loteria" da vida eterna.

10, 7 e 14: invista todo o seu coração nestes números e você será verdadeiramente feliz aqui na terra e no Céu.

Fonte: Píldoras de Fé | Tradução e adaptação: Equipe CNP

Veja também

- É pecado apostar na loteria? Assista a esse episódio do programa A Resposta Católica.

- Para conhecer mais sobre a vida de São João Bosco, não deixe de assistir à aula "Dom Bosco e as três alvuras da fé católica".

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A Mãe de Deus e a falsa mãe do mundo

Ante o crescimento de um culto materialista a entidades maternas pagãs, é preciso lembrar que a verdadeira mãe da humanidade é aquela cujo fruto nos alimenta para a eternidade.

No primeiro dia de janeiro, a Igreja celebra a Solenidade de Maria, Mãe de Deus. Não é sem propósito que a liturgia coloca a celebração desse importante dogma de nossa fé, cuja proclamação foi motivo de grande júbilo para os cristãos primitivos, no início do novo ano. Nestes tempos em que a sociedade costuma dirigir seus pensamentos para as coisas mundanas, temos de recordar a maravilhosa notícia da maternidade de Maria.

O dogma da maternidade divina de Maria está ligado a um artigo inegociável do credo cristão: a encarnação do Verbo. Por volta do século V, graves crises cristológicas surgiram, causando grande perturbação no seio da Igreja. Dizia-se, entre outros absurdos, que Jesus não possuía duas naturezas — a humana e a divina —, mas somente esta última. Nestório, um importante bispo da época, defendia outra tese: Jesus seria um simples homem elevado à divindade por pura graça de Deus. Com essa afirmação, ele intentava pôr fim ao piedoso título de Theotókos (Mãe de Deus), atribuído pela comunidade a Maria, porque o considerava um grande escândalo (não muito diferente do que postulam certas seitas atuais).

Ocorre que a afirmação de Nestório, como a das demais heresias cristológicas, provocava uma séria dificuldade para a doutrina da remissão dos pecados. Segundo ensinam os Santos Padres, o que não foi assumido não foi redimido. Isto significa que só há verdadeira salvação se Jesus for o Verbo de Deus verdadeiramente encarnado. Se o que morreu na cruz era apenas um homem, esse sacrifício não teve valor algum. Foi o que notou São Cirilo de Alexandria na sua contundente defesa do título Theotókos. Ora, Maria é Mãe de Deus porque em Jesus há apenas uma pessoa (a divina) e duas naturezas (a divina e a humana). E a maternidade diz respeito a uma pessoa, não a uma natureza.

De fato, este dogma mariano é mais bíblico do que se imagina. Inspirada pelo próprio Espírito Santo, Isabel proclamou: Donde me vem esta honra de vir a mim a Mãe de meu Senhor? (Lc 1, 43). Nestas palavras acertadas, exprime-se toda a alegria com que os católicos costumam dirigir-se a Nossa Senhora, aquela que vem às pressas socorrer as necessidades de seus filhos (cf. Lc 1, 39). Maria está inseparavelmente ligada à redenção porque "foi dela que o Verbo assumiu, como próprio, aquele corpo que havia de oferecer por nós". Não se tratava de um corpo extrínseco nela introduzido, recorda Santo Atanásio; o anjo disse-lhe: de ti (cf. Lc 1, 35), "para se acreditar que o fruto desta concepção procedia realmente de Maria" [1].

A falsa mãe do mundo

Na hora derradeira, Jesus entregou Sua mãe para toda a humanidade, na pessoa do apóstolo amado (cf. Jo 19, 25-26). Desde o princípio, os cristãos acolheram Maria em suas casas, como fez São João, para dedicar-lhe a merecida reverência. E o fizeram na certeza de que quem acolhe a mãe, acolhe também o filho. Ao contrário, aqueles que negaram pousada para a mãe, em Belém, negaram a própria salvação que batia às suas portas, em busca de um lugar para reclinar a cabeça (cf. Mt 8, 20). Jesus nunca pregou em Belém, durante Seu ministério público, porque não havia lugar para Ele naquela região (cf. Lc 2, 7).

Maria é, pois, a mãe que nos dá o verdadeiro alimento que salva: o pão vivo descido do céu. Infelizmente, assistimos a uma nova onda de paganismo, a qual tem minimizado a importância da fé cristã em nossa sociedade, para ressaltar os novos deuses dos tempos modernos. A maternidade de Maria é posta de lado — por vezes, até ridicularizada —, ao passo que a nova mãe do mundo, a Gaia, como dizem alguns, ganha o espaço que antes era da Mãe de Deus. Isso explica o porquê de as igrejas estarem vazias, na virada do ano, e as praias estarem cheias: as luzes efêmeras dos fogos de artifício têm mais valor que a Luz perene irradiada por Cristo.

Uma sociedade materialista moldará deuses materialistas, os quais assegurem as suas "cebolas do Egito". Por isso, prefere-se cultuar a mãe que dá o alimento que passa do que a Mãe que introduz na vida eterna. Mas esse culto à Mãe da Terra, longe de trazer libertação, prende o ser humano nos vícios da carne, nas paixões mundanas e no próprio egoísmo. O homem esquece-se de sua finalidade, que é o Céu, para concentrar esforços numa jornada sem propósito: este mundo mesmo "onde a ferrugem e as traças corroem" ( Mt 6, 19).

Mãe de Deus e da Igreja para sempre

O Concílio Vaticano II ensina que a "maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção". Isso significa que, mesmo após assunta aos Céus, Maria "não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna" [2]. Quantos têm desperdiçado este auxílio precioso por culpa ora de más teologias, ora do paganismo que se propaga nos grandes meios de comunicação.

Caminhamos para o centenário das aparições da Mãe de Deus em Fátima, Portugal. É uma ótima oportunidade para redescobrirmos o valor da espiritualidade mariana, lembrando-nos dos pedidos que a Senhora fez à humanidade: oração e mortificação pela paz no mundo e pela salvação dos povos. Enquanto alguns fazem troça desses pedidos, os católicos têm o dever de ecoar pelos quatro cantos da Terra a mensagem daquela cujo coração triunfará no último dia. Como salientou Bento XVI durante visita a Portugal, "iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída" [3]. Não somos deste mundo, não somos filhos desta terra. Nossa verdadeira Mãe leva-nos a escolher os bens que não passam. Confiemos a ela este novo tempo que se inicia para que tenhamos verdadeiramente um "feliz ano novo".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santo Atanásio, Epist. ad Epictetum, 5-9 (PG 26, 1058; 1062-1066).
  2. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), n. 62.
  3. Papa Bento XVI, Homilia na Esplanada do Santuário de Fátima (13 de maio de 2010).

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Mensagem de Natal: Quanto Te custou haver-me amado!

Meditando a letra do belo cântico “Tu scendi dalle stelle”, determinemo-nos a pagar o preço do amor. Se tanto custou a Deus amar-nos, como queremos que isso não nos custe nada?

O mistério do Natal só pode ser entendido se se compreende o mistério da misericórdia divina. A Segunda Pessoa divina da Santíssima Trindade, o próprio Verbo de Deus tomou uma carne. Para elevar a humanidade miserável e pecadora à participação na Sua própria vida, na Sua bem-aventurança eterna, Ele Se fez homem.

Diante de um amor tão grande, que faz o Criador de tudo o que existe transpor o abismo infinito e tomar as vestes de Sua criatura, a única resposta adequada do homem é a gratidão. A quem foi alvo de tão grande misericórdia, só lhe resta transformar a sua vida e corresponder generosamente ao amor com que foi amado.

"Ó Deus bem-aventurado, quanto Te custou haver-me amado!" É o que canta a Igreja neste Natal do Senhor, pegando emprestadas as palavras de Santo Afonso de Ligório, em seu famoso poema Tu scendi dalle stelle ("Tu desces das estrelas"). Meditando a letra desta bela cantiga natalina, determinemo-nos também nós a pagar o preço do amor. Se tanto custou a Deus amar-nos, como queremos que isso não nos custe nada?

Tu scendi dalle stelle
(Tu desces das estrelas"),
de Santo Afonso Maria de Ligório

Tu scendi dalle stelle, o Re del cielo,
e vieni in una grotta al freddo e al gelo.
O Bambino mio divino, io ti vedo qui a tremar;
o Dio beato! Ah, quanto ti costò l'avermi amato!

A te, che sei del mondo il Creatore,
mancano panni e fuoco, o mio Signore.
Caro eletto pargoletto, quanto questa povertà
più m'innamora, giacché ti fece amor povero ancora.

Tu lasci il bel gioir del divin seno,
per giunger a penar su questo fieno.
Dolce amore del mio core, dove amore ti trasportò?
O Gesù mio, perché tanto patir? Per amor mio!

Ma se fu tuo voler il tuo patire,
perché vuoi pianger poi, perché vagire?
Mio Gesù, t'intendo sì! Ah, mio Signore!
Tu piangi non per duol, ma per amore.

Tu piangi per vederti da me ingrato
dopo sì grande amor, sì poco amato!
O diletto - del mio petto,
se già un tempo fu così, or te sol bramo
Caro non pianger più, ch'io t'amo e t'amo

Tu dormi, Ninno mio, ma intanto il core
non dorme, no ma veglia a tutte l'ore
Deh, mio bello e puro Agnello
a che pensi? dimmi tu. O amore immenso,
un dì morir per te, rispondi, io penso.

Dunque a morire per me, tu pensi, o Dio
ed altro, fuor di te, amar poss'io?
O Maria, speranza mia,
se poc'amo il tuo Gesù, non ti sdegnare
amalo tu per me, s'io non so amare!

Tu desces das estrelas, ó Rei do céu
E vens a uma gruta no frio e no gelo.
Ó Menino meu divino, eu Te vejo aqui a tremer;
Ó Deus beato, quanto Te custou haver-me amado!

A Ti, que és do mundo o Criador,
Faltam agasalhos e fogo, ó meu Senhor.
Querida e eleita criança, esta Tua pobreza me apaixona
Pois foi o amor que Te fez pobre novamente.

Tu deixas as delícias da intimidade divina
Para vir a sofrer sobre essa palha.
Doce amor do meu coração, aonde Te levou o amor?
Ó meu Jesus, por que tanto sofrer? Por meu amor!

Mas se sofres por Tua própria vontade,
por que então este choro, por que estes gemidos?
Meu Jesus, eu Te entendo sim! Ah, meu Senhor!
Tu choras não de dor, mas de amor!

Tu choras ao ver a minha ingratidão,
Um amor tão grande e tão pouco amado!
Ó amado do meu coração,
se fui assim outrora, hoje somente por Ti eu anseio
Querido, não chores mais, pois eu Te amo, Te amo.

Enquanto dormes, meu Menino, o coração
não dorme, não, mas vigia a todo momento
Vai, meu querido e puro Cordeiro,
Em que pensas? Dize-me Tu. Ó amor imenso,
um dia em morrer por ti, respondes, é o que eu penso.

Então, pensas em morrer por mim, ó Deus
Que mais posso eu amar fora de Ti?
Ó Maria, esperança minha,
se pouco eu amo o teu Jesus, não te indignes
de amá-Lo tu por mim, se eu não O sei amar!

Um feliz e santo Natal!

Por Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

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Os Herodes de hoje e o “Natal sem Cristo”

Por que o menino Jesus que nasce na manjedoura de Belém é uma ameaça tão grande aos poderes deste mundo.

Quando os magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém perguntando por um tal "rei dos judeus", Herodes ficou alarmado (cf. Mt 2, 3). O nascimento de um outro rei era um claro sinal de ameaça à sua soberania. Ele, porém, não se limitando a preocupar-se, queria saber onde estava o menino que acabara de nascer (cf. Mt 2, 8): não porque quisesse adorá-lo, como queriam os magos, mas por desejo de matá-lo. (O cruel martírio dos Santos Inocentes que o diga.)

Ainda hoje, diante de Cristo que Se apresenta como Rei do Universo, os poderes deste mundo esboçam a mesma reação. Primeiro, sentem-se ameaçados: diante de uma autoridade que os sobrepuja, eles se incomodam, pois sabem que isso significa um limite ao seu poder. Se Deus existe, nem tudo é permitido. Depois, passado o primeiro choque, eles precisam tomar uma decisão: ou procuram a estrela de Belém para prostrar-se diante do menino Jesus, ou saem à caça de Deus para (tentar) usurpar o Seu trono. No fundo, o que lhes ressoa aos ouvidos é a velha tentação que seduziu os nossos primeiros pais: "Sereis como deuses" (Gn 3, 5).

Deste episódio do Evangelho, no entanto, uma leitura psicológica talvez indique com mais propriedade o porquê de vivermos em um mundo tão secularizado e afastado de Deus. Na verdade, Cristo não reina apenas sobre o cosmos, mas quer ser "rex et centrum omnium cordium – rei e centro de todos os corações". O rei Herodes ameaçado não são apenas os Stálines, os Hitleres e os Estados Islâmicos deste mundo; cada ser humano em particular pode se sentir incomodado pela soberania divina ou até sair em uma louca perseguição contra o menino Jesus – como fazem os chamados "ateus militantes", que, mesmo não acreditando em Deus, só sabem falar n'Ele o dia inteiro.

Sob essa perspectiva – a da alma –, todo o cenário muda e ninguém está isento de uma analogia com o sanguinário Herodes.

É que o grande mal deste mundo – que dá origem a todas as perseguições, ditaduras e massacres – chama-se "pecado". Não adianta fugir ou disfarçar, dizendo que o inimigo está fora ou que "o inferno são os outros". A verdade é que "todos pecaram e estão privados da glória de Deus" (Rm 3, 23). Sem a vida da graça, que nos é dada por Cristo, através do batismo e do perdão dos pecados, a humanidade está toda no mesmo nível.

É inútil recorrer a qualquer divisão humana – burgueses e proletários, direita e esquerda, ricos e pobres, liberais e socialistas – para explicar o problema da maldade. O mundo se divide verdadeiramente em "cidade de Deus" (civitas Dei) e "cidade dos homens" (civitas hominum): em quem está na graça de Deus e em quem está vivendo no pecado mortal. No fim das contas, os justos ganharão a vida eterna – o Céu; e os maus, o opróbrio eterno – o inferno. Tudo o mais não passa de ilusão, ideologia e engano. A quem se gaba de ser mais que os outros confiando em qualquer coisa que não seja a graça divina, Nosso Senhor dá o seu alerta: "Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo" (Lc 13, 3).

Quem olha para personagens bíblicas perversas, como o endurecido faraó, o rei Nabucodonosor ou os carrascos que crucificaram Jesus, é tentado a tomar a atitude daquele fariseu do Evangelho que, batendo no peito, agradecia por não ser tão pecador quanto o resto dos homens (cf. Lc 18, 9-14). O Catecismo da Igreja Católica, porém, é bem claro ao dizer que "todos os pecadores foram os autores da Paixão de Cristo" (§ 598).

Basta que nos examinemos atentamente, sem máscaras ou tentativas de desculpar-nos, e enxergaremos dentro de nós um Herodes totalitário, "preocupado" com os seus direitos, cioso de sua posição, sempre agitado interiormente por não querer "dar a Deus o que é de Deus". É como reagem também muitas pessoas que, tendo abandonado os pecados mais grosseiros, ainda teimam em adiar a sua "segunda conversão": não se dedicam à vida de oração, nem ao cumprimento dos próprios deveres de estado, e negligenciam a luta contra a maledicência e alguns "pecados de estimação", que vão – sem que se deem conta – entravando o caminho de seu progresso espiritual.

Alguém pode objetar que há muitas guerras e violências acontecendo no mundo para que fiquemos nos preocupando com os nossos próprios defeitos – aparentemente tão insignificantes. Veja-se, por exemplo, como alguns lugares do mundo estão deixando de celebrar o Natal. Países mais secularizados, principalmente na Europa, já vivem uma "guerra aberta" à festa da natividade de Cristo. Presépios, árvores natalinas ou quaisquer referências ao menino Jesus são prontamente banidas pelas autoridades públicas; a típica saudação Merry Christmas vai se convertendo em Happy Holidays – assim como, no Brasil, o bom e velho Feliz Natal vai facilmente degenerando em um vago e laico Boas Festas. Até aquilo que era essencialmente religioso vai, pouco a pouco, sendo profanado e destruído por um "fato inteiramente novo e desconcertante": a existência de um "ateísmo militante, operando em plano mundial" [3].

O que acontece publicamente, porém, é apenas o sinal externo de uma tragédia que já acontece dia após dia nos corações humanos. Antes de Herodes ordenar a morte de "todos os meninos de Belém", "de dois anos para baixo" (Mt 2, 16), ele já havia matado Deus em seu coração. "Não poderá haver paz no mundo se não houver paz na alma", pregava o venerável servo de Deus, Fulton Sheen. "As guerras mundiais não passam de projeções dos conflitos travados dentro das almas dos homens modernos, pois nada acontece no mundo exterior que não tenha primeiro acontecido dentro de uma alma" [2].

Por isso, para resgatar a beleza do Natal – e trazer a fé de volta ao mundo –, não bastam os presépios; não basta que o menino Jesus seja simplesmente disposto em uma manjedoura. É preciso que Ele encontre abrigo em nossas almas. Caso contrário, ano após ano, o Natal continuará sendo uma simples "festa de fim de ano", o "feriado" pagão de quem exteriormente está feliz, mas interiormente está a viver o prelúdio do inferno, porque afastado da amizade de Deus.

"Se as almas não forem salvas, nada se salvará", dizia Fulton Sheen [2]. "Dai-me almas e ficai com o resto", repetia São João Bosco. Caia o mundo, venham abaixo os céus, entre tudo em extinção, mas que se salvem as almas! Porque é delas que tem sede Nosso Senhor; e são elas que povoarão, por toda a eternidade, o Reino dos céus!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Admonitiones, 5 (FF, 154).
  2. Papa São João XXIII, Constituição Apostólica Humanae Salutis (25 de dezembro de 1961), n. 3.
  3. SHEEN, Fulton. A Paz da Alma (Trad. de Oscar Mendes). São Paulo: Editora Molokai, 2015, p. 7.
  4. Idem.

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O segredo de Fulton Sheen: uma hora de adoração diária ao Santíssimo Sacramento

Perguntado certa vez sobre o que motivava o seu apostolado, o bispo Fulton Sheen deu uma resposta surpreendente. Sua fonte de inspiração não era nem um Papa, nem um bispo, nem algum padre ou religiosa, mas o martírio de uma criança. Conheça essa história.

Poucos homens da história recente da Igreja exerceram tamanha influência espiritual sobre as almas quanto o bispo norte-americano Fulton Sheen. Autor de inúmeros livros e pioneiro na evangelização pela TV, as suas aulas e pregações mudaram a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.

O que fez esse homem de Deus tão especial, além de seu intelecto afiado e de sua profunda humildade, foi a oração. Ele geralmente dizia que o segredo para o seu grande sucesso em ganhar almas para Cristo era que, todos os dias de sua vida, ele separava uma hora de adoração diante do Santíssimo Sacramento – a "Hora Santa".

Fulton Sheen chamava esse momento que tinha com Deus de "hora do poder" e o propósito de todas as suas conversas era sempre inspirar a todos, padres e leigos, a fazer uma Hora Santa diária diante de Jesus Sacramentado. Ele citava Jesus no Evangelho, dizendo que quem quer que permanecesse em uma hora de união com Ele, presente no Santíssimo Sacramento, "daria muito fruto" (Jo 15, 5).

Ele mesmo experimentou esses frutos em sua vida apostólica. Quando pregava, todos o escutavam, mesmo quem não era católico. Sua mensagem era ao mesmo tempo cativante e transcendente.

Alguns meses antes de sua morte, ele foi entrevistado em cadeia nacional de televisão. Uma das questões que lhe fizeram foi:

"Vossa Excelência tem inspirado milhões de pessoas em todo o mundo. E o senhor? Quem o inspirou? Foi talvez um Papa?"

Surpreendemente, Fulton Sheen respondeu que quem o tinha inspirado não foi nem um Papa, nem um cardeal, nem outro bispo, nem mesmo um padre ou uma religiosa, mas uma garotinha chinesa, de nove anos de idade.

Ele explicou que, quando os comunistas tomaram o controle da China, um sacerdote foi encarcerado em sua própria casa paroquial, próxima à igreja.

Trancado, o padre se horrorizou ao olhar para o lado de fora da janela e ver os comunistas se aproximando da igreja, entrando no santuário e violando o sacrário. Em um ato de abominável profanação, eles pegaram o cibório e lançaram-no ao chão, espalhando no chão todas as Hóstias Consagradas que estavam dentro. O padre sabia exatamente quantas espécies havia no cibório: trinta e duas.

Quando os comunistas saíram, eles não perceberam (ou não prestaram atenção) que uma menininha rezava na parte de trás do templo, depois de ter presenciado tudo.

Naquela mesma noite, ela voltou. Sem que os guardas na casa paroquial a notassem, ela entrou na igreja. Ali, fez uma hora santa de oração e um ato de amor em reparação por aquele sacrilégio. Depois, entrou no santuário, ajoelhou-se, inclinou a cabeça e, com a língua, recebeu Jesus na Sagrada Comunhão. Não era permitido aos leigos, à época, tocar a Hóstia Consagrada com as mãos.

A garotinha continuou voltando todas as noites para fazer sua hora santa e receber Jesus na Sagrada Comunhão, diretamente na língua. Na trigésima segunda noite, depois de consumir a última hóstia, ela acidentalmente fez um barulho e acordou o guarda que estava dormindo. Ele correu atrás dela, capturou-a e bateu nela até a morte com a coronha do seu rifle.

Esse ato heroico de martírio foi presenciado pelo sacerdote, que assistiu a tudo, aflito, da janela de seu quarto.

Quando Sheen ouviu essa história, ele ficou tão impressionado que prometeu a Deus fazer uma hora santa de oração diante de Jesus no Santíssimo Sacramento todos os dias de sua vida. Se aquela pequena criança chinesa tinha arriscado a sua vida para expressar o seu amor por Jesus Eucarístico, com uma hora santa e uma Comunhão, então, o bispo pensou que aquilo era o mínimo que ele poderia fazer. Se aquela frágil menina tinha dado um testemunho tão maravilhoso da presença real de nosso Salvador no Santíssimo Sacramento, o bispo sentiu-se praticamente obrigado a imitá-la.

A partir de então, Fulton Sheen começou a falar publicamente sobre o amor de Deus no Santíssimo Sacramento. Seu único desejo era trazer o mundo ao Coração ardente de Jesus no sacramento da Eucaristia. A garotinha havia lhe mostrado o que realmente significavam zelo e coragem, como a fé podia superar todo medo, como o verdadeiro amor por Jesus Eucarístico deve transcender a própria vida.

O que aquela mártir anônima fez é uma versão moderna do que fez a bem-aventurada Virgem Maria, quando permaneceu com o seu amado Filho aos pés da Cruz. Ficar com Jesus no Santíssimo Sacramento hoje é o mesmo que permanecer com Ele diante da Cruz. No Calvário, Ele foi abandonado, até por Seus amigos, os Seus próprios discípulos fugiram de medo. Só a Sua mãe, o discípulo amado e Maria Madalena testemunharam a sua fé e o seu amor.

Hoje, Nossa Senhora está chamando todos os seus filhos que lhe são consagrados ao mesmo testemunho de fé e de fervorosa caridade. O seu desejo é que todos venham adorar o seu Filho, presente no Santíssimo Sacramento do altar.

A Beata Madre Teresa de Calcutá dizia que a adoração perpétua é o que vai renovar a Igreja e salvar o mundo. Quando fazemos aqui o que é feito no Céu, adorando a Deus perpetuamente, então acontecem novos céus e nova terra (cf. Ap 21, 1). Jesus foi zombado e crucificado por dizer que era Rei. Quando sua Esposa, a Igreja, finalmente proclama Seu reinado e presta-Lhe a honra que Ele merece por meio da adoração perpétua, então Ele vem e estabelece o Seu Reino no mundo.

O homem está para além de uma solução humana. O que ele precisa é de uma intervenção divina. Abram-se, pois, os nossos olhos e dobrem-se os nossos joelhos diante de tão grande mistério: Deus, que desce todos os dias aos altares, no Santíssimo Sacramento; Deus, que se faz "prisioneiro de nosso amor", em todos os sacrários do mundo inteiro; Deus, que quer Se doar às nossas almas, na Sagrada Comunhão.

Não resistamos mais ao Seu amor! "Vinde, adoremos", depressa, o Tão Sublime Sacramento!

Adaptado de The Cardinal Kung Foundation | Por Equipe CNP