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O homem precisa de fé para manter-se homem

O primeiro realista é aquele que acredita, pois viver de fé abre o ser humano à verdadeira grandeza do mundo. Aquele que tem fé enxerga para além das ninharias desta vida.

É conhecida por quase todos os católicos aquela expressão com que São Paulo fala da justificação do homem: "O justo vive pela fé" ( Rm 1, 17). Com essa expressão, retirada do livro do profeta Habacuc, o apóstolo das gentes queria manifestar aos cristãos de sua época a importância da fidelidade à aliança com Deus. Como solenemente afirmou o Concílio de Trento, a "fé é princípio da salvação humana, fundamento e raiz de toda a justificação; sem ela é impossível agradar a Deus e chegar a ser filhos Seus" [1].

O mundo moderno, erigido sobre os ideais iluministas e anticlericais, inverteu esse pensamento paulino, de modo que hoje é quase comum encontrar pessoas indiferentes à religião, senão até hostis. A fé virou sinônimo de alienação e injustiça. Para o mundo moderno, apóstolo do humanismo, a religiosidade seria apenas um limite, uma espécie de prisão que impede o homem de alçar voo e descobrir sua verdadeira natureza.

Agora livre dos códigos e preceitos morais, pensa-se, o homem moderno pode finalmente contribuir para a criação de um mundo melhor: ele não vive mais de fé; vive da realidade que o circunda e que precisa urgentemente ser transformada. E que belo será este mundo, que bela será a Nova Atlântida que há de vir dos escombros de uma época de trevas e ignorância, à qual o homem esteve tanto tempo aprisionado. Assim bradavam os humanistas com otimismo estridente, assim ainda falam hoje os inimigos da religião. E vieram as duas grandes guerras, o nazismo, os gulags e toda a sorte de (ir)realizações que o homem moderno, o homem orgulhosamente sem fé, conseguiu produzir.

Que teria dado errado? A verdade parece ser uma só: a crença equivocada do homem moderno de que, para encontrar sua verdadeira natureza, ele teria de voar, a fim de contemplar-se de cima para baixo. E o que encontrou foi apenas o seu "eu exterior", pelo qual acabou desgraçadamente se apaixonando: aquele homem cafajeste, cuja única pretensão é satisfazer o próprio ego, não importando os meios nem os fins.

Em sua obra monumental Dois amores e duas cidades, livro obrigatório para quem deseja entender o que aconteceu com a civilização ocidental após a loucura nominalista, Gustavo Corção recorda que o motor da história não é a economia, como erroneamente pensava Karl Marx, mas a maneira e em que ordem o homem ama as coisas e se ama a si mesmo. O que ocorreu na idade moderna foi precisamente a desordem completa do amor, de sorte que as pessoas tomaram como principal de si mesmas a "vida exterior" e as coisas que poderiam torná-la mais confortável, esquecendo-se, por completo, de se prepararem para a vida eterna. Para descobrir o corpo, o homem decidiu perder a alma. E não poderia haver material mais explosivo que o amor desordenado por si mesmo.

Se é, portanto, no "eu exterior" que se forma o amor-próprio, fonte de todos os pecados, o homem, então, não necessita voar para descobrir quem ele é; precisa, antes, de um mergulho na intimidade de seu ser, lá no interior intimo meo de Santo Agostinho, onde se encontra a razão de sua existência, o "eu interior". Em suma, trata-se de uma espécie de socratismo cristão, isto é, a regra do "conhece-te a ti mesmo" vivida em Deus.

Ocorre que esse mergulho nas profundezas do próprio ser está para além das forças humanas. A experiência dos últimos séculos só tem comprovado isso nas tantas e tantas filosofias vãs que ora reduziram o homem ao animalesco, ora o colocaram no pedestal do mundo, quase como um deus ou super-homem.

Necessita-se de uma luz. E é aí que deve entrar a fé, virtude sobre a qual muito escreveu o Papa Francisco no início de seu pontificado.

A humanidade precisa da luz da fé para atravessar a sua escuridão mais íntima e encontrar tanto a própria identidade quanto aquela "Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo" [2]. Porque a fé é mais que um arrepio do corpo, ela nos concede um fundamento novo, a prova das realidades invisíveis, que é aquela rocha firme sobre a qual o homem deve edificar a sua casa, sem risco de que desmorone tudo ao primeiro vento: as frustrações pessoais, o tédio da vida corrente, uma situação irremediável etc. É por isso que Bento XVI, com toda a razão, dizia que o primeiro realista é aquele que acredita, pois viver de fé abre o ser humano à verdadeira grandeza do mundo; aquele que tem fé enxerga para além das ninharias desta vida.

Na mesma obra já citada, Gustavo Corção assevera que "a sorte de uma civilização depende dos valores transformados em ideais no firmamento cultural dessa civilização" [3]. Em que pesem todos os erros cometidos pelos homens medievais, eles só souberam preservar o Ocidente e levá-lo adiante porque antes nutriam uns pelos outros aquela familiaridade própria de quem deseja ver o amigo no Céu. A base cultural da Idade Média era a fé e a busca da salvação, de modo que seus homens tinham a peito o estandarte da cruz e lutavam aqui na terra para construir sua casa na morada celeste. O Ocidente contemporâneo, em sentido inverso, morre dia após dia porque se esqueceu de suas raízes, julgou desnecessária a vida interior e passou a viver apenas de aparência e tolerância. Uma civilização que não sabe quem é, não tem por que lutar.

A vida do homem é movida por um motor ou causa final, como diria Santo Tomás, ou sentido, como diria Viktor Frankl. Aqui então se aplica a regra física de Newton: uma força produz o movimento de uma massa, que cresce progressivamente em velocidade segundo certa aceleração. Para a humanidade, essa força motora pode ser tanto a força da fé como a força gravitacional da Terra. E esse movimento será tanto mais acelerado quanto mais próximo estiver da força que o atrai. Daí se entende porque o homem medieval construía aquelas belíssimas catedrais voltadas para o Céu e, hoje, o homem moderno está a um passo de abandonar a posição ereta para literalmente voltar a andar sobre quatro patas.

O homem precisa de fé para manter-se homem, para manter-se viril e lidar com as pressões do mundo exterior com honestidade e coragem. Ele precisa então de uma verdadeira psicologia do profundo, voltar-se para seu eu interior, a fim de descobrir o núcleo de sua personalidade, sua substância ou essência, como queiram dizer, a fim de que não se deixe corromper pelos acidentes e apetites desordenados da carne. Enfim, precisa parar de cantarolar Imagine e voltar a recitar os salmos: "Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo" (Sl 22, 4). Deus queira que se convença disso o quanto antes!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. De justificatione, c. 8.
  2. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 1.
  3. Gustavo Corção, Dois amores e duas cidades, Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 1, p. 53.

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A importância de Fátima na batalha pela vida e pela família

Nossa resposta à cultura perversa deste século é nossa renovação espiritual e conversão contínuas. Estamos sendo chamados à santidade.

"A mensagem de Fátima, no seu núcleo fundamental, é o chamamento à conversão e à penitência, como no Evangelho. Este chamamento foi feito nos inícios do século vinte e, portanto, foi dirigido, de um modo particular a este mesmo século. [...] O apelo à penitência é um apelo maternal; e, ao mesmo tempo, é enérgico e feito com decisão." [1]

(Papa São João Paulo II)

Por Pe. Shenan J. Bouquet — Neste ano de 2017, a Igreja celebra o Centenário dos milagrosos eventos ocorridos em Fátima, recordando a maravilhosa aparição de nossa Mãe do Céu e a mensagem de vida que Ela nos veio trazer. Considerando o significado desse acontecimento e o que ele tem a dizer ao mundo de hoje, lembro-me de algo que a Irmã Lúcia escreveu em uma carta ao Cardeal Caffarra:

" O confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o matrimônio", ela escreveu. "Não tenha medo, porque qualquer um que trabalhar pela santidade do matrimônio e da família será sempre combatido e contrariado de todos os modos, porque este é o ponto decisivo. No entanto, Nossa Senhora já lhe esmagou a sua cabeça."

Nas minhas muitas viagens, eu experimento em primeira mão as proféticas palavras da Ir. Lúcia quanto ao Matrimônio e à família. Essas instituições sagradas estão no coração da batalha porque se referem aos fundamentos mesmos da Criação, ou seja, à verdade sobre a relação entre o homem e a mulher, feitos à imagem e semelhança de Deus. Se essas instituições divinas são comprometidas, então se põe em perigo de ruir todo o edifício.

Não devemos ver a mensagem de Fátima meramente como um momento histórico, mas antes como uma mensagem viva propositadamente para os dias de hoje. A crise moral que vemos no mundo demanda de nossa parte orações, penitências e sacrifícios. Nossa resposta à cultura perversa deste século é nossa renovação espiritual e conversão contínuas. Estamos sendo chamados à santidade.

Pelo exemplo dos videntes Francisco, Jacinta e Lúcia, nós somos impelidos a oferecer atos de mortificação com virtude heroica. Do alto de suas inocências, as duas crianças mais jovens, Francisco e Jacinta, ofereceram-se como vítimas de expiação. A Ir. Lúcia, por sua vez, avisada de que teria pela frente uma longa vida, gastaria o resto de seus dias no serviço da oração e da mortificação pela salvação das almas. Tendo perguntado a Nossa Senhora, de fato, se ela os levaria para o Céu, a resposta recebida foi esta:

A Jacinta e o Francisco levo-os em breve, mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no Mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação, e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono.

— Fico cá sozinha? — disse, com tristeza [Lúcia].

— Não, filha. Eu nunca te deixarei. O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus. [2]

O apelo de Nossa Senhora para rezar e fazer penitência, ao qual as crianças responderam com alegria e completa obediência, também se aplica a nós. A luta pela santidade, através da mortificação dos nossos sentidos, torna-nos fervorosos na oração; dá-nos força interior para resistir às tentações; ajuda a nos desapegarmos de preocupações mundanas; e liberta o nosso coração, por fim, de vaidades terrenas. A busca da santidade aumenta a clareza de pensamento, fazendo-nos mais sensíveis ao discernimento do que é sagrado e do que é abominável aos olhos de Deus.

O inimigo também conhece o significado do Matrimônio e da família, e é por isso que os ataca — assim como atacou Adão e Eva, nossos primeiros pais. O Matrimônio é a única instituição que une os pais aos seus filhos, que reconhece o direito natural de uma criança a ter um pai e uma mãe. A família é a primeira célula da sociedade, a "Igreja doméstica", o primeiro governo, a primeira escola, o primeiro hospital, a primeira economia e a primeira instituição mediadora da sociedade. Dentro dessa escola primária, os filhos aprendem os valores da moral e do Evangelho, os quais dão forma, em última instância, às nossas culturas e sociedades. Toda a sociedade passa, afinal de contas, pela família, que é a primeira de todas as escolas.

É certo que defender a verdade sobre a vida, o Matrimônio e a família é uma tarefa custosa. As crianças de Fátima, por exemplo, sofreram bastante por causa das aparições. Familiares e amigos perseguiram-nas. Os jornais conduziram uma campanha implacável para desacreditar tanto as aparições quanto os videntes. Mesmo assim, apesar de todo o tratamento negativo, os três suportaram tudo com paciência e caridade, lembrando sempre do pedido de Nossa Senhora para que oferecessem os seus sacrifícios em favor dos pobres pecadores.

Ao entrarmos no bom combate sobre o Matrimônio e a família, entramos cientes de que também nós seremos cercados pelo ódio e pela rejeição. "Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim", lembra-nos Nosso Senhor. "Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como ama o que é seu; mas, porque não sois do mundo, e porque eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos odeia." (Jo 15, 18-19) Estamos diante de duas visões opostas: uma enraizada no caminho da obediência e da vida, e outra no da desobediência e da morte.

Sabemos também que os ataques contra o plano divino para o Matrimônio e a família não vêm só de fora da Igreja, mas também de dentro — nascidos dos pecados a que dão origem a desobediência, a divisão e a heresia. É por isso que a Igreja, povo de Deus, precisa da mensagem de Fátima como uma lembrança constante do chamado universal à penitência, à conversão e à renovação. Somente neste espírito, renovação de coração e de alma, poderemos ser o fermento na massa de que fala o Evangelho (cf. Lc 13, 18-21). "No amor não há temor. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor" (1Jo 4, 18). Nós obtemos forças e conforto de Nossa Senhora de Fátima, que lembrou à Ir. Lúcia que ela não estaria sozinha nessa grande batalha — no seu Imaculado Coração nós encontramos refúgio.

Ainda temos muito a aprender com Nossa Senhora de Fátima. A sua mensagem é um sinal de esperança para um mundo destruído pelo confronto e pela discórdia. E nossa resposta aos ataques desferidos contra o Matrimônio, a família e a sociedade é a mesma hoje como 100 anos atrás: arrepender-nos de nossos pecados e obedecer à vontade de Deus.

Nossa Senhora de Fátima,
rogai por nós!

Fonte: Human Life International | Tradução e adaptação: Equipe CNP

Referências

  1. Homilia no Santuário de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, 13 de maio de 1982.
  2. Luís Kondor (org.), Memórias da Irmã Lúcia. Introdução e notas de Joaquín M. Alonso. 13. ed., Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2007, p. 192.

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“Pobres filhos de uma sociedade que já não reconhece o Mal”

Da Itália, a carta aberta de “um velho bispo que ainda crê em Deus, em Cristo e na Igreja”, às vítimas do atentado terrorista de Manchester, ocorrido esta semana, na Inglaterra.

Queridos filhos,

Quero chamá-los assim, mesmo que não os conheça. Mas, nas longas horas de insônia que seguiram ao anúncio deste terrível ataque, em que muitos de vocês já morreram e muitos ficaram feridos, eu os senti ligados a mim de uma forma especial.

Vocês vieram ao mundo, muitas vezes sem ser desejados, e ninguém lhes deu as "razões adequadas para viver", como dizia o grande Bernanos a seus contemporâneos adultos. Vocês foram entregues ao mundo sob dois grandes princípios: que podiam fazer o que quisessem, pois cada desejo de vocês é um direito; e a importância de se ter o maior número possível de bens de consumo.

Vocês cresceram assim, acreditando que tivessem tudo. E quando vocês tinham algum problema existencial — antigamente se dizia assim — e o comunicavam aos seus pais, aos seus "adultos", logo tratavam de agendar um psicanalista para resolver o problema. Eles só se esqueciam de dizer a vocês que existia o Mal. E o Mal é uma pessoa, não um conjunto de forças e energias. É uma pessoa. Esta pessoa estava escondida ali, durante o concerto. E a terrível asa da morte, que a acompanha, se apoderou de vocês.

Meus filhos, vocês morreram assim, quase sem razões, do mesmo jeito como viveram. Não se preocupem, afinal ninguém os ajudou a viver; mas farão certamente um belo funeral, no qual se expressará ao máximo esta oca retórica laicista, com todas as autoridades presentes — incluindo, infelizmente, até os religiosos —, todos de pé, em silêncio. Naturalmente, será um funeral em espaço aberto, mesmo para os que têm fé, já que hoje em dia o único templo é a natureza.

Robespierre riria de tudo isso, pois nem mesmo ele teve essa fantasia. Aliás, nas igrejas não se fazem mais funerais, pois, como diz agudamente o cardeal Robert Sarah, agora nas igrejas católicas só se celebram os funerais de Deus. Os "adultos" não se esquecerão de colocar nas calçadas os seus bichinhos de pelúcia, as memórias de sua infância, de sua primeira juventude. E depois tudo será arquivado na retórica daqueles que não têm nada a dizer sobre tragédias, pois nada têm a dizer sobre a vida.

Espero que, nesse momento, pelo menos alguns destes gurus — culturais, políticos e religiosos — contenham as palavras e não nos atropelem com os discursos habituais, dizendo que "não se trata de uma guerra de religião", que "a religião é, por natureza, aberta ao diálogo e à compreensão". Espero que haja um instante silencioso de respeito. Antes de tudo, pelas suas vidas, ceifadas pelo ódio do demônio, mas também pela verdade. Pois os "adultos" deviam, antes de tudo, ter respeito pela verdade. Podem não servi-la, mas devem ter respeito por ela.

Seja como for, eu que sou um velho bispo que ainda crê em Deus, em Cristo e na Igreja, vou celebrar a missa por todos vocês no dia do seu enterro, para que do outro lado — quaisquer que tenham sido suas práticas religiosas — vocês encontrem o rosto querido de Nossa Senhora, e que, apertando vocês em seu abraço, os console desta vida desperdiçada, não por culpa de vocês, mas por culpa dos seus "adultos".

Por Dom Luigi Negri — La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: José Carlos Zamboni

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Qual o problema de governantes sem filhos?

Não parece insignificante que os encarregados de velar pelo futuro da Europa sejam pessoas que decidiram permanecer estéreis.

Por Juan Manuel de Prada — Após a vitória de Macron na França, um amigo me convida a refletir sobre um fato de não pequena importância: trata-se de um governante sem filhos — de mais um governante europeu sem filhos —, assim como a alemã Angela Merkel, assim como a britânica Theresa May, assim como o holandês Mark Rutte, assim como o italiano Paolo Gentiloni, assim como o sueco Stefan Löfven, assim como o luxemburgûes Xavier Bettel, assim como muitos outros mandatários europeus, incluído o nobilíssimo Jean-Claude Juncker.

Poder chamar com plena propriedade a todas estas personagens uma récua de mulas nos causa, por certo, uma enorme satisfação; mas, além disso, resulta ser muito inquietante que os governantes europeus sejam em sua maioria "filhos sem filhos". Não parece insignificante que os encarregados de velar pelo futuro da Europa e assegurar o porvir de nossos filhos sejam pessoas que decidiram permanecer estéreis.

O pensamento político clássico, ao explicar as obrigações do príncipe com respeito aos súditos, comparava-as com as de um pai com respeito aos filhos. O príncipe estava obrigado a zelar pelos súditos com a mesma diligência exigida de um pai de família, defendendo-os ao ponto de derramar o próprio sangue; e os súditos, por sua vez, estavam obrigados a prestar-lhe a obediência afetuosa e leal que um bom filho deve a seu pai.

Este cuidado amoroso que o príncipe devia a seus súditos encontrava sua melhor escola na própria instituição monárquica, que não à toa se fundamentava na continuidade familiar. Sempre que o príncipe tinha um filho, seus súditos celebravam o acontecimento com alvoroço, pois, além de garantir um sucessor, assegurava o porvir dos filhos de seus súditos, aos quais não faltaria um outro príncipe que os protegesse.

Ora, os governos do nosso tempo já não se baseiam na continuidade familiar; no entanto, que os governantes tenham ou não filhos não é uma questão ociosa. Como escrevia o cronista Juan de Lucena, em louvor a Isabel, a Católica: "Em tudo o que os reis façam, seja bom ou mau, procuramos imitá-los. Quando jogava o rei, tínhamos todos o vício do jogo; agora, como estuda a rainha, tornamo-nos todos estudiosos".

Com efeito, em meio ao inverno demográfico que vem assolando a Europa, seria alentador que os europeus pudessem olhar no espelho de alguns governantes que, com seu exemplo, convidam à procriação.

Há algo de muito grave ocorrendo quando um continente que atravessa a etapa mais próspera de sua história, que dispõe de meios para combater doenças e prolongar a vida, que parece ter-se livrado da ameaça das guerras, pragas e catástrofes que, em outras épocas, dizimaram sua população, nega-se, apesar de tudo, a gerar descendência.

Algo muito grave está acontecendo quando cada vez mais europeus se recusam a criar uma nova geração (ao mesmo tempo em que clamam farisaicamente contra a invasão muçulmana) e, não satisfeitos com isso, elegem governantes que os ratificam nesta decisão suicida.

A Europa tornou-se vítima do que Solzhenitsyn chamava uma "sanha de automutilação": o umbiguismo consumista, o egoísmo parasitário, o tédio vital de um continente que se afoga na náusea de sua própria esterilidade mereciam, de fato, que os governasse esta récua de mulas. E poderíamos perguntar-nos também, à luz do pensamento político clássico, se os "filhos sem filhos" são mesmo os mais idôneos para assumir tarefas do governo, para oferecer seu cuidado amoroso e lutar pelo futuro de nossos filhos.

A Europa não apenas carece de recursos morais para manter sua civilização; ela nem sequer possui governantes que a estimulem a prolongar sua existência. Talvez tenha chegado a hora de fechar a banca e esperar que cheguem os bárbaros.

Fonte: Actuall | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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Saiba o que têm em comum os principais líderes da Europa

O que têm em comum os líderes de Alemanha, França, Itália e Inglaterra, as quatro maiores potências econômicas da Europa? O que une Merkel, Macron, Gentiloni e Theresa May?

O que têm em comum os líderes de Alemanha, França, Itália e Inglaterra, as quatro maiores potências econômicas da Europa? O que une Angela Merkel, Emmanuel Macron, Paolo Gentiloni e Theresa May?

Muitas coisas, sem dúvida, mas os quatro compartilham uma peculiaridade bastante significativa: nenhum deles tem filhos biológicos. A eles somam-se ainda o sueco Stefan Löfven e o primeiro-ministro holandês Mark Rutte.

A coincidência é extraordinária, especialmente com a onda de crise demográfica que vive a Europa, seguida de um envelhecimento acelerado da população. A pergunta é se, em igualdade de condições, importa ou não que os governantes das nações não sejam pais. Nós sabemos bem que, de acordo com a linha de pensamento oficial (politicamente correta), chamar a atenção para essa particularidade é ser "machista", "heteronormativo" e "odioso" — e a patrulha habitual sempre procura dissuadir-nos de notar o anômalo.

Por outro lado, não poucas pessoas fazem notar que o fato de não terem família permite a nossos representantes centrar-se mais intensamente nos assuntos públicos, sem preocupações alheias que os distraiam e sem as tentações de nepotismo que normalmente supõe uma descendência numerosa.

Nas redes sociais, porém, onde ainda subsistem (talvez não por muito tempo) pessoas que fogem da férrea ortodoxia que amordaça o jornalismo "de prestígio", alguém assinalou que não ter descendência supõe um menor interesse pessoal na posteridade — uma análise que me pareceu, também, bastante razoável.

Assim também pensa o filósofo alemão Rüdiger Safranski. "Para aqueles que não têm filhos, pensar em termos de gerações futuras é irrelevante", ele escreve. "É por isso que essas pessoas se comportam e se vêem cada vez mais como se fossem os últimos, como se estivessem situados no final da cadeia humana". E, se há uma mentalidade que agrava hoje todos os nossos problemas ao ponto de torná-los quase insolúveis, é essa mentalidade concentrada no curto prazo.

Quase tudo que aparentemente nos sobrevém como uma enchente ameaçando soterrar-nos é consequência do fato de as pessoas não pensarem mais além dos próximos poucos anos que virão. O próprio sistema de mandatos eleitorais, constantes de 4 e 5 anos, incentiva nos políticos, cuja meta primordial é exercer o poder e manter-se nele, a urgência de "tapar buracos" e, sobretudo, de evitar todo e qualquer sacrifício que, ainda que seja aconselhável para o futuro, possa traduzir-se, no horizonte imediato, em uma derrota eleitoral. Cite-se o que quiser: a falência programada da Previdência Social e do Estado de bem-estar social, de modo geral; a imigração massiva com o risco certo de substituição cultural e conflitos que vão muito além do mais trabalhoso de todos, que é o terrorismo; a desaceleração da inovação e criação de novas empresas (um trabalho que costumam empreender mais os jovens que os de idade avançada) etc.

O fato é que a cultura do imediato, mesmo que reforçada pelos mecanismos desse sistema, está absolutamente instalada em nossa mentalidade. E em nada se faz tão evidente esse suicídio gradual como no fato de não nos reproduzirmos. Não há sequer um país de peso no Ocidente que tenha filhos acima do nível de substituição — o mínimo para que se mantenha uma população, sem crescer nem diminuir — e, na imensa maioria dos casos, as nações se movem em médias das quais, advertem os demógrafos, nenhuma civilização na história conseguiu recuperar-se jamais.

A infertilidade dos líderes não passa, portanto, de um reflexo dos ventres da Europa. Se Merkel não tem filhos, 30% das mulheres alemãs tampouco os têm, e o número chega a 40%, no caso das que se graduaram nas universidades. O caso na Alemanha é de tal modo alarmante que a Ministra da Defesa, Úrsula von der Leyen, declarou recentemente que, a menos que as alemãs mudem essa tendência e comecem a gerar filhos, o país está prestes a "apagar as luzes".

Talvez, porém, o caso mais significativo e de maior atualidade seja o do recém-nomeado presidente da República Francesa, Emmanuel Macron. Aquilo que tanto alarma os franceses, e que levou Marine Le Pen ao segundo turno das eleições presidenciais, nomeadamente a islamização da França, não tira minimamente o sono do novo presidente. Mas Macron não precisa temer que seus descendentes vivam em uma França muçulmana, já que ele não deixa nenhum.

Sim, em meio a este vazio demográfico, é evidente quem herdará o continente europeu, e definitivamente não são os mesmos cujos valores o construíram. Os muçulmanos entendem muito melhor que nós como se ganha o jogo da história: o líder turco Erdogan animou recentemente os seus compatriotas na Alemanha a terem "cinco filhos" e os clérigos islâmicos não deixam de urgir os seus fiéis a que façam o mesmo.

O choque cultural que negam nossos líderes irresponsáveis é para os líderes muçulmanos uma razão chave para se prepararem com a melhor arma que se conhece (e de que eles já dispõem): a população.

Por Candela Sande — Fonte: Actuall | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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A visão do inferno, Fátima e os pecados da carne

Depois de mostrar o inferno aos três pastorinhos, Nossa Senhora de Fátima disse que “vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”.

Por Pete Baklinksi — Cem anos atrás, três crianças pastoras em Portugal tiveram uma visão do inferno que as horrorizou tanto a ponto de pensarem que fossem morrer. Viram elas "um grande mar de fogo" onde iam mergulhados "os demônios e as almas" que, em vida, se tinham oposto a Deus e aos seus caminhos. Eles eram "como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas", "que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam", "caindo para todos os lados", "entre gritos e gemidos de dor e desespero".

Foi Nossa Senhora de Fátima quem mostrou às crianças a visão aterrorizante do inferno, lugar "para onde vão as almas dos pobres pecadores". Disse-lhes ainda a Virgem que "vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão".

Os cristãos sempre entenderam os pecados da carne como aquelas ações que constituem um mau uso ou um abuso da sexualidade enquanto dom de Deus. As relações sexuais foram criadas por Ele para serem entre um homem e uma mulher, unidos um ao outro no fiel, exclusivo, permanente e fecundo relacionamento do Matrimônio. Pecados contra o dom da sexualidade incluem a contracepção, o adultério, a fornicação, a prostituição, a pornografia, a imodéstia no vestir, a masturbação e a homossexualidade. Alguns pecados da carne às vezes podem dar origem a outros pecados sérios, como o aborto, e levar também à infidelidade, ao fracasso matrimonial e ao divórcio.

O pior de tudo, entretanto, é que os pecados da carne destroem o nosso relacionamento com Deus, já que o pecador, quando opta por eles, rejeita o plano divino para a sexualidade e dá as costas, em última instância, ao próprio Deus.

E por que se condenam ao inferno mais almas pelos pecados sexuais que por qualquer outro pecado? Talvez pela facilidade que há em se cair neles, especialmente na cultura de hoje, em que o sexo é glorificado como a principal fonte da felicidade humana.

Como pai de sete crianças, que se preocupa com a salvação dos próprios filhos, assusta-me observar as mentiras sexuais com que a cultura de hoje tem tentado envenenar meus filhos. Desde a mais tenra idade, centros educacionais querem expô-los aos pecados da carne em cursos de educação sexual, ensinando-lhes como aumentar o prazer sexual consigo mesmo (masturbação) ou com outros (fornicação, homossexualidade), e removendo, ao mesmo tempo, o propósito reprodutivo da atividade sexual (contracepção e aborto). A indústria do entretenimento quer iniciá-los nos pecados da carne, especialmente os mais velhos, bombardeando-os com conteúdo sexual explícito (pornografia, roupas imodestas) — além de manter os adultos viciados nos pecados da carne, oferecendo-lhes mais do mesmo. Os governos ao redor do mundo têm se servido até mesmo de sua autoridade política para resguardarem na lei certos pecados da carne, fazendo com que seja ilegal falar contra eles e alertar as pessoas sobre os seus perigos (homossexualidade).

Como repórter atuante nas linhas de frente do movimento pró-vida, e que enxerga tudo o que está acontecendo, todos os dias, na batalha pela vida e pela família, eu às vezes tenho que me perguntar com quem e por quem realmente estou a lutar. É muito fácil cair na armadilha de pensar que minha luta é contra provedores de aborto, contra o lobby homossexual ou contra governos corruptos, os quais, ainda que sejam capazes e responsáveis por fazer muito mal, não constituem o inimigo verdadeiro. Eles são apenas pessoas, como todos nós, incluindo eu, que preciso ser salvo do inferno.

Apraz-me particularmente quando São Paulo escreve que "a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço" (Ef 6, 12). É o diabo e a sua legião de anjos caídos que encaminham homens e mulheres, pelos pecados da carne, para o fogo do inferno.

A irmã Lúcia dos Santos, uma das videntes de Fátima, que viveu muito mais que os outros dois pastorinhos, escreveu certa vez uma carta ao Cardeal Carlo Caffarra e nela falou sobre a batalha final entre Deus e Satanás. "O confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o matrimônio", ela escreveu. "Não tenha medo, porque qualquer um que trabalhar pela santidade do matrimônio e da família será sempre combatido e contrariado de todos os modos, porque este é o ponto decisivo. No entanto, Nossa Senhora já lhe esmagou a sua cabeça."

Aqueles que lutam pela vida, pelo Matrimônio e pela família devem lembrar, por ocasião do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima, que a derradeira batalha consiste em salvar as almas do inferno. Isso significa salvar tanto os escravos dos pecados sexuais quanto os que lucram com eles, o aborteiro, o produtor pornográfico, o dono do bordel.

Nossa Senhora de Fátima convidou as crianças a ajudarem as almas por meio da oração e do sacrifício. A vidente mais nova, Jacinta Marto, ficou tão comovida com a visão do inferno, e com o fato de que ela podia fazer alguma coisa para impedir as pessoas de irem para lá, que começou a fazer sacrifícios pela salvação das almas. Ela não bebia água para que pudesse oferecer a sua sede. Ela doava o seu lanche da tarde para que pudesse oferecer a sua fome. Ela usava uma corda áspera, amarrada na cintura e roçando contra a sua pele, para que pudesse oferecer o seu desconforto.

A mensagem de Nossa Senhora sobre a realidade do inferno, assim como o exemplo que nos oferecem essas crianças, mostrando o que podemos fazer para impedir as pessoas de irem para lá, é algo que toda pessoa lutando pela vida e pela família precisa levar a sério. A oração ensinada às crianças deve estar constantemente em nossos lábios: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o Céu, e socorrei principalmente as que mais precisarem."

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

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A castidade é para os idiotas?

Através da graça, os castos participam na comunhão do homem com Deus. Isso não é uma forma apenas de ganhar o Céu, mas de vivê-lo aqui e agora. Só um mundo ao avesso consideraria isso uma coisa para idiotas.

A castidade, que já foi considerada uma virtude, é tida nos dias de hoje como uma coisa para idiotas. Os que querem acabar com ela descrevem seu fim como uma vitória da vida e do amor. Mas a verdade é justamente o oposto disso.

Um mundo impuro é um mundo morto e absorvido pelo egoísmo. Ao subordinar a natureza procriativa do sexo a propósitos recreativos, uma sociedade incasta vai sempre produzir filhos indesejados: em um lugar assim, o aborto não é opção, mas uma solução necessária. O "direito" que as pessoas recém descobriram de viver a própria sexualidade não pode ser livremente exercido sem que se afaste o direito dos filhos à vida. Que esses direitos sejam incompatíveis, deveria ser algo a acender-nos o alerta: algo errado está a se passar.

Não que viver a nossa sexualidade não seja, de fato, o mais básico dos direitos: perseguir esse caminho significa buscar a própria vida. Mas esses direitos, e a vida para a qual conduzem, não estão baseados em desejos eróticos, senão na verdadeira natureza de nossa sexualidade. Por isso, viver a castidade significa redimir a própria sexualidade, dando-lhe verdadeiro sentido e restaurando o direito que toda criança tem à vida e ao amor.

Para entender tudo isso, é necessário resgatar a sexualidade indefinida de hoje das nuvens sempre inconstantes do desejo, restaurando o seu significado objetivo. Independentemente da espécie, a nossa natureza sexual pertence, por definição, à biologia da criação da vida. Atos aparentemente sexuais que contrariem, portanto, a sua natureza inerentemente procriativa, não são atos sexuais de verdade. Isso incluiria tanto a relação sexual com contracepção, quanto atos intrinsecamente inférteis, tais como a sodomia e a masturbação. Sem abertura para a propagação da vida, atos assim não passam, na verdade, de aberrações da sexualidade. Considerá-los de outra forma significaria separar a sexualidade de uma definição ou sentido. Só apartada dessas aberrações a sexualidade pode ter restaurado o seu papel criador de vida. Olhando para a vida biológica, percebemos que nossa sexualidade é ao mesmo tempo procriativa e unitiva: é essa combinação inseparável que nos distingue do reino animal e nos torna verdadeiramente humanos.

A sexualidade se torna unitiva quando aceita a sua natureza procriativa. Ao aceitar a responsabilidade do poder de criar vida, o "eu" dá lugar ao "nós". Olhando para o filho que pode gerar, o homem verá cada mulher como uma mãe daquele filho. Ele verá a necessidade que ela tem de ser amada como mulher, como mãe. Um homem ama todas as mulheres quando leva uma vida que ajuda cada mulher a experimentar a maternidade no momento e no lugar certos. Amando toda mulher, então, ele ama toda criança, vendo a necessidade que todas as crianças têm de pais que se amem, uns aos outros, pela vida. Assim, também toda mulher deve ver, em cada homem, um pai e, por trás de cada homem, uma criança. Sem esse reconhecimento mútuo do potencial para serem pais e mães, a natureza inerentemente unitiva de nossa sexualidade se perde. É a procriação que produz a união.

Quando o ato sexual é designado como ato conjugal, fica reconhecida essa unidade inseparável. Uma vida casta honra essa definição, direciona-se propiciamente à formação de uniões matrimoniais e requer que vivamos interligados como homens e mulheres, como pais e mães em potencial. Na realização plena de nossa sexualidade, nós acolhemos toda criança ainda por nascer como digna do nosso amor. A castidade não é a vocação apenas de homens e mulheres solteiros, mas de todos os homens e mulheres. A meta para todos é ter filhos que sejam gerados no amor. Viver castamente é participar na alegria de cada criança que é concebida.

Isso não é abstinência, mas um chamado ao êxtase. Em Deus Caritas Est, Bento XVI nos fala do êxtase "não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus". A castidade é um ato de comunhão que traz todos os homens e mulheres para a união com Deus e para a alegria da própria criação. Sua natureza unitiva reúne todas as coisas em uma comunhão de amor, não simplesmente do homem e da mulher, mas a comunhão última com o próprio Céu, aqui e agora. Chamar isso de mera abstinência é um reducionismo absurdo.

No entanto, o absurdo reina nos dias de hoje. Ao mesmo tempo em que condena a castidade como um fardo arcaico, a Revolução Sexual segue condenando as pessoas à escravidão e à morte. Aborto, crianças abandonadas e famílias destruídas não são meros acidentes, mas o resultado natural de uma sexualidade separada de sua natureza criadora. O estilo de vida que se propaga não é estilo de vida coisa nenhuma, senão "estilo de morte", uma rejeição da vida. Oferece um paraíso falso de autorrealização, ao mesmo tempo em que destrói a comunhão do "nós" em favor do grito de guerra do "eu". Atrás do falso paraíso mora o inferno do egocentrismo. A Revolução Sexual é simplesmente um convite para começar a viver o inferno aqui e agora.

E a resposta a essa falsa sexualidade chama-se castidade: o único e verdadeiro estilo de vida, voltado para a vida. A maioria de nós, no entanto, vê a castidade como uma vida de negação. Talvez o problema não esteja com a castidade, no fim das contas, mas com o modo como a enxergamos. O mau ladrão provocou Jesus na cruz: "Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e também a nós!" Só o que ele via era a dor sem propósito algum. Mas, olhando para o mesmo homem pendendo da mesma cruz, o bom ladrão viu, além da dor, o próprio paraíso: "Senhor, lembra-te de mim…" Um ladrão viu Jesus sem a graça. O outro viu Jesus através da graça. Da mesma forma, nós podemos ver a vida casta sem a graça, como uma dor sem propósito, ou podemos vê-la através da graça, como um convite para participar na alegria da criação. O primeiro olhar diminui e amarga, enquanto o segundo nos atrai para o Céu, um Céu que se estende por toda a eternidade.

A escolha entre o Céu e o inferno está bem diante de nós. Hoje nós enfrentamos uma escolha entre um estilo de vida que rejeita a vida e um que a abraça. A castidade rejeita o inferno narcisista da falsa sexualidade e preenche o Céu vinculado à natureza da verdadeira sexualidade. Através da graça, os castos participam na comunhão do homem com Deus, vivendo a sua sexualidade radicalmente e no êxtase da entrega de si mesmo. Isso não é menos, é mais. Não é uma forma apenas de ganhar o Céu, mas de vivê-lo aqui e agora. Só um mundo ao avesso consideraria isso uma coisa para idiotas.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

| Categorias: Política, Sociedade

Eleições e anticristianismo na França

Nesta despretensiosa análise política e histórica, saiba como a hostilidade à religião, e à fé católica em particular, está influenciando as eleições presidenciais na França.

Por Jean Duchesne [*] — No dia seguinte à vitória de François Fillon nas primárias republicanas da França, em novembro do ano passado, o título do jornal de esquerda Libération era: "Socorro, Jesus está voltando!" A razão para essa chamada de aflição? Fillon era conhecido como um católico praticante, marido fiel (aspecto nada comum entre os políticos contemporâneos) e visitante regular da Abadia de Solesmes, símbolo da restauração religiosa supostamente neomedieval e "reacionária" do século XIX. Pior, ele era apoiado por muitos dos militantes que organizaram, em 2013, as espetaculares e massivas (ainda que sem sucesso) manifestações contra a legalização do "casamento" gay — la Manif pour tous.

Olhando retrospectivamente, o "pedido de socorro" do jornal Libération, longe de causar pânico entre os secularistas, o que fez foi anunciar a determinação deles de acabar com a candidatura de Fillon. Dentro de semanas, ele foi acusado pela imprensa de fazer o que a maioria dos políticos, em todos os partidos, fazem: colocar a mulher e os filhos, que trabalhavam duro para ele, em cargos assalariados — o que é ilegal apenas se, de fato, nenhum trabalho é realizado. Um promotor público foi rapidamente apontado pelo governo socialista, e de maneira previsível, para acusar o líder da oposição conservadora. As acusações permanecem abertas, para dizer o mínimo. Não houve relatório algum nem de instituições públicas nem de instituições privadas que tivessem pago salários a membros da família Fillon. Detalhes da investigação preliminar foram vazadas para a mídia, que depois acrescentou novas acusações.

Fillon reconheceu que contratar membros de sua família tinha sido imprudente, e desculpou-se por isso. Mas ele foi incapaz de se desvincular das suspeitas de desonestidade. Antes do escândalo, ele estava em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência da França; depois de tudo, ele caiu para o terceiro lugar, ficando atrás de Le Pen e do centrista Emmanuel Macron — e fora do segundo turno.

A acusação de corrupção contra Fillon não foi apenas um golpe político sujo. Foi também um ato motivado por ideologia, e reflete a hostilidade ao Cristianismo presente em vários círculos onde a religião em geral, e a fé católica em particular, é vista como uma doença infantil. Essa não é a ideia só de marxistas meio arrependidos, ainda ansiosos para protestar contra "o ópio das massas", ou de outros adeptos da esquerda materialista. A aversão ao Cristianismo também pode ser encontrada na extrema direita política, com o seu misticismo avesso ao amor e à misericórdia, e entre centristas cuja moderação assimila a fé ao fanatismo religioso.

Marine Le Pen, a candidata populista da Frente Nacional, também é acusada de incluir membros do seu partido na folha de pagamento do Parlamento Europeu, no qual ela detém um mandato eletivo. Apesar disso, ela não foi ferozmente perseguida como Fillon. Uma das razões é que ela aparentava ser, de acordo com as previsões da grande mídia, uma ameaça menor que o candidato republicano. Mas a razão principal por que a mídia caçou Le Pen com menos ferocidade que Fillon é que ela não é considerada uma inimiga do "progresso" na área de maior importância para as pessoas "iluminadas": a assim chamada liberação sexual. Le Pen já se divorciou por duas vezes e é simpatizante da causa gay. Ela não se comporta nem se define como uma boa católica.

A hostilidade à Igreja não é algo novo na França. Alguns historiadores chegam a dizer que o país nunca foi evangelizado por completo. Missões nas províncias foram necessárias até o século XIX, quando o secularismo crescente forçou o clero a se retirar para posições defensivas. Depois do batismo de Clóvis, rei dos francos, pelo bispo São Remígio de Reims, em 496 (considerado o ano de nascimento da nação), a Igreja tendia a confiar no poder real, proporcionando à monarquia, em retorno, uma aura de sacralidade (algumas vezes contrária ao Papa, em tempos de "galicanismo") e súditos obedientes. A aliança fundante entre o trono e o altar foi desafiada, primeiro durante a Reforma (quando aristocratas protestantes ameaçaram a união nacional, conquistada com suor pelos reis durante a Idade Média), e depois mais seriamente nos séculos XVII e XVIII, com a ascensão da burguesia, a nova classe de mercadores abastados.

A Revolução Francesa não faz sentido sem o preexistente peso dos novos ricos na sociedade e o seu ódio tanto ao regime quanto à Igreja. Porque eles não eram autorizados a frequentar a classe alta (como foi o caso da Inglaterra, por exemplo), os novos ricos financiavam intelectuais do livre pensamento. Esses escritores produziram histórias, peças e panfletos que espalharam entre as classes mais baixas a noção de que a pobreza e a fome eram devido à ordem social injusta mantida pela religião oficial. Em setembro de 1792, uma gangue invadiu o convento de Paris, quando centenas de padres e monges foram detidos como "inimigos da nação" e assassinados. Essa gangue, evidentemente, não tinha vindo do nada. Tampouco a multidão que aplaudia enquanto freiras inofensivas eram guilhotinadas sem motivo, a não ser os seus votos religiosos.

Napoleão, que inesperadamente emergiu do caos revolucionário, comprou a paz ao reconhecer o Catolicismo como "a religião da maioria dos franceses". Mas ele também concedeu reconhecimento oficial a judeus e protestantes, a fim de melhor mantê-los sob o seu controle. Isso fez com que fosse fácil, para os secularistas que tomaram o poder um século depois, denunciar e revogar a Concordata que ele havia assinado com a Santa Sé. É claro que, desde a Revolução, o clero e o seu rebanho tinham sido notavelmente persistentes em apostar nos cavalos políticos errados. Eles apoiaram todos os sucessivos regimes do século XIX, antes de se voltarem contra os mesmos, ora por serem muito autoritários, ora por serem muito liberais: sucessivamente, o império napoleônico, uma monarquia restaurada e então menos absolutista, uma segunda república, um segundo império…

Depois que um enfraquecido Napoleão III perdeu, em 1870, a guerra que os prussianos lhe tinham armado, os católicos prefeririam uma segunda restauração, mas uma terceira república, baseada nos ideais da Revolução de 1789, finalmente prevaleceu no voto popular. Eles se recusaram a aceitar isso (ainda que o Papa Leão XIII lhes aconselhasse o contrário), e a separação do Estado e da Igreja, em 1905, foi facilitada por duas crises simultâneas: os católicos estavam mais uma vez do lado errado no caso Dreyfus, que rachou o país no meio, e a repressão da exegese e da teologia "modernistas" passava a ideia de que a fé era incompatível com a razão e a ciência.

Como eram patriotas, os católicos franceses lutaram na Primeira Guerra Mundial, ignorando o Papa Bento XV; mas eles continuaram perdendo terreno político e cultural, até que os alemães voltassem em 1940 e implantassem o regime antissemita de Vichy, que muitos do clero e do laicato acolheram, mais uma vez erroneamente. Eles não gostavam muito de De Gaulle (ainda que ele fosse um deles) e foram lentamente marginalizados após a Segunda Guerra Mundial, conforme o crescimento econômico e a urbanização minavam as estruturas rurais da Igreja, e Marx, Nietzsche e Freud se tornavam os novas referências intelectuais, confirmando que o Cristianismo estava condenado.

Em décadas recentes, a crença de que o Catolicismo não só está fora de moda, como também é nocivo, vai baseada em questões mais sexuais que políticas. A modernidade considera que suas lutas pelo divórcio, pela contracepção e pelo aborto definitivamente ganharam, e agora busca impor a aceitação de todos os tipos de atividade sexual em nome dos direitos das minorias. Nestas circunstâncias, a Igreja é mais do que nunca a inimiga.

A maioria dos cidadãos franceses não são ativamente hostis ao Cristianismo. Eles são simplesmente indiferentes a uma religião que conhecem pouco e cada vez menos. Mas existem uns quantos lobbies efetivos ansiosos para desacreditar a Igreja. Essa pressa para eliminar a religião agora vai de encontro ao imprevisto da expansão islâmica, que nega formalmente a irreversibilidade da secularização. Mas isto não é razão para poupar a fé católica, já que ela não consegue controlar o fanatismo islâmico e continua sendo um alvo mais fácil.

A França não é uma exceção entre nações que já foram cristãs. O ódio anticlerical fez milhares de homicídios no México e durante a Guerra Civil Espanhola. E a recusa da União Europeia em reconhecer quaisquer raízes espirituais para o continente mostra que o anticristianismo não está limitado ao militantes dogmáticos, mas vai espalhado também entre as elites "iluminadas" do Velho Mundo.

Circunstâncias como essas não justificam o pessimismo. Artistas cristãos de renome mundial podem até sentir falta do apoio de uma civilização onde a fé era onipresente e provia um ambiente favorável e uma fonte de inspiração. Mas Igrejas nacionais em apuros, não menos que as triunfantes, também produzem missionários, santos e teólogos. Na França, a ascensão do secularismo durante o ano 1900 coincidiu com Santa Teresinha de Lisieux e as conversões de Péguy, Claudel e Maritain. O totalitarismo do século XX coexistiu com Bernanos, de Lubac, Daniélou, Congar e Bouyer. Alguns dos filósofos franceses mundialmente conhecidos de hoje (Jean-Luc Marion, Rémi Brague) também são católicos. Ou seja, a Igreja gera frutos também quando é incompreendida e desprezada. Ela não será aprovada por unanimidade até o final dos tempos. É essa uma das lições da Cruz de Cristo.

Fonte: First Things | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

Nota do Tradutor

[*] A análise histórica apresentada no texto não reflete necessária e integralmente, em todas as suas particularidades, a opinião do Padre Paulo Ricardo ou da equipe do site. Esse texto foi escolhido para tradução principalmente pela atualidade do tema e pela perspicácia em apontar o anticristianismo notável não só nas eleições francesas, mas em qualquer corrida política que aconteça hoje, em qualquer lugar do mundo. A leniência para com os atentados ao direito natural, a "fobia" midiática diante de candidatos religiosos ou conservadores e, por fim, as lições do autor para uma Igreja cada vez mais confinada às sacristias, são aspectos que todos podemos aproveitar, desse texto, para a nossa própria situação política e espiritual.