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A hipocrisia do mundo moderno

O homem moderno parece ter duas cabeças: afirma com uma o que nega com a outra. Da teologia à embriologia, da moral sexual à nutrição, não há nada que escape ao cacoete moderno de ser contraditoriamente hipócrita.

Por Nicholas Senz — Um dos engenheiros de software do Google enviou a toda a companhia um memorando em que afirmava que a empresa criou uma "câmara de eco ideológica". "O Google", escreveu ele, "possui uma série de preconceitos, e a ideologia dominante tem silenciado a discussão honesta sobre estes preconceitos". A resposta do Google às acusações do memorando consistiu, por um lado, em rebatê-las por palavra, proclamando o seu comprometimento com a diversidade e o diálogo aberto, e em confirmá-las, por outro, demitindo o engenheiro que as formulou.

Se você não enxerga a ironia da situação, então você tem provavelmente a mesma mentalidade que a "ideologia dominante" das universidades, dos meios de comunicação e das corporações — em particular, da indústria tecnológica — de hoje. Mas se você foi capaz de perceber a inconsistência da resposta do Google, então é provável que já tenha notado uma certa epidemia de "duplipensar". (Termos orwellianos talvez se tenham desgastado pelo uso, mas isso só foi possível porque eles são cada vez mais apropriados à nossa realidade.)

A controvérsia em torno do memorando do Google é só mais um exemplo de como o mundo nos diz que devemos ser tolerantes e acolhedores, permitindo que todas as opiniões e estilos de vida sejam expressos e vividos… a menos que a sua opinião ou estilo de vida entre em conflito com os temas dominantes da sociedade secular, em cujo caso você será publicamente desprezado, e o seu sustento e a sua honra correrão sérios riscos.

Querem fazer-nos crer, como diz uma recente representação do seriado Sherlock Holmes, que Deus não passa de "uma fantasia absurda, concebida para dar alguma oportunidade profissional ao idiota da família". E quem o diz são as mesmas pessoas que sugerem, com toda seriedade, ser possível que estejamos vivendo em uma "simulação" do tipo Matrix.

Insistem que a criança no ventre materno não é uma pessoa humana, embora já tenha orientação sexual firmemente determinada, mas não a própria "identidade de gênero". (Trata-se, é claro, de um conjunto metafisicamente inconsistente de afirmações; mas, dizem-nos, a metafísica foi destruída de vez pelos filósofos iluministas, ainda que não nos expliquem como, exatamente, eles lograram tamanho feito.)

Dizem-nos que, para sermos saudáveis, precisamos sacrificar-nos, ter disciplina, que precisamos ser, efetivamente, atletas em treinamento (ou, como diríamos em grego, "ascetas"): nada de gordura saturada; nada de xarope de milho com altas doses de frutose; distância total dos carboidratos e do glúten; nem pensar em organismos geneticamente modificados ou vegetais com agrotóxico — pelo contrário, coma enormes quantidades de couve e de pescado sustentável e você viverá para sempre.

Na verdade, dizem eles, deveríamos sobretaxar ou banir por completo as chamadas "porcarias", e é assim que, de uma hora para outra, o preço do seu refrigerante aumenta em 12%. No entanto, à mera sugestão de que outros tipos de apetite devem ser moderados e controlados — como, por exemplo, o apetite sexual, que afeta não apenas a saúde e o bem-estar das pessoas envolvidas no ato, mas tem ainda o potencial de gerar ali mesmo um novo ser humano — responde-se com uivos de: "Deixe o governo fora do meu quarto!" E quando perguntamos por que razão o governo teria o direito de se intrometer na sua cozinha, mas não no seu quarto, a única resposta que podemos esperar são zombarias.

A expressão "hipocrisia" é frequentemente mal empregada, ou, melhor dizendo, utilizada de forma imprecisa. Um "hipócrita", na maioria das vezes, é visto como alguém que não vive à altura dos ideais que ele mesmo professa; essa caracterização, no entanto, parece insuficiente. Ninguém segue com perfeição o próprio código moral. De fato, todos somos pecadores, necessitados da misericórdia e da graça de Deus. Ora, se essa definição de "hipócrita" abrange todo o mundo e não é capaz de descrever algum atributo constitutivo da natureza humana, então ela não é lá muito útil.

Mas se acrescentarmos a ela um outro elemento, as coisas começarão a ficar mais claras. Um hipócrita, com efeito, não é apenas o sujeito que diz: "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". O hipócrita é aquele que diz: "Eu tenho permissão de fazer isso, mas você não". Os hipócritas aplicam às outras pessoas critérios distintos dos que eles aplicam a si mesmos. Não se trata, portanto, de fracassar em observar as próprias regras; é uma questão de querer submeter os outros a um conjunto de regras diferente daquele a que o hipócrita mesmo se submete.

É justamente isto que verificamos nos exemplos acima. Em todos eles, as pessoas pensam ser perfeitamente coerente agir de forma incoerente. É em nome do diálogo aberto que o Google manda um funcionário embora, pelo simples fato de ele querer ter um diálogo aberto. Chamam a Deus uma "ideia absurda", e ao mesmo tempo propõem como modelo explicativo do mundo uma ideia flagrantemente absurda. Afirmando que os fetos ainda não são seres humanos, o pensamento social da moda reconhece no feto, não obstante, determinadas características que só um ser humano poderia ter. Exigindo liberdade de toda e qualquer coação externa, o ativista pretende policiar nos mínimos detalhes a dieta alheia.

Ora, a raiz dessa hipocrisia não é senão o desejo de controlar os demais. Os hipócritas desejam que todos cumpram a cláusula do contrato, enquanto eles mesmos vivem livres e desimpedidos de qualquer obrigação. Os hipócritas tendem a usar o "plural não inclusivo" — noutras palavras, quando dizem "nós", o que na verdade estão dizendo é: "vocês todos, menos eu". A classe política, só, poderia oferecer-nos uma multidão de exemplos: há os que se opõem à isenção de impostos para ricos e, ao mesmo tempo, fazem de tudo para contornar a taxação e, assim, pagar muito menos do que o "povo trabalhador" que eles dizem representar; há os que elaboram leis de seguridade médica que oprimem a população com planos de saúde obrigatórios e impagáveis, reforçados ainda por cláusulas penais contra os inadimplentes, planos porém de que eles mesmos estão isentos; há os que dão a volta no mundo em seus jatos particulares, denunciando a emissão de gases e o desperdício de recursos; há ainda os que negam a concessão de cheques escolares e tecem loas ao sistema público de educação, quando os seus próprios filhos frequentam colégios particulares caríssimos. E a lista poderia crescer indefinidamente.

Em nome da liberdade, impõe-se a conformidade. É a "ditadura do relativismo" de que falava o Papa Emérito Bento XVI. É a ascensão da classe dos tecnocratas, que modelariam uma humanidade nova, enquanto eles mesmos permanecem intocados, inalterados, desimpedidos, como já prenunciava C. S. Lewis em A Abolição do Homem. Só uma visão alternativa, que arraste consigo os corações com a força da verdade, do bem e da beleza, pode fazer frente a tudo isso: uma visão do homem como imagem de Deus, digno em si mesmo, valioso, inestimável, criado para unir-se ao seu Criador. Assim entendido, o homem não pode ser controlado ou manipulado; antes, tem o direito de amadurecer, o que não vai acontecer enquanto o obrigarem a viver à base de couve.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Descubra o modo perturbador como a Islândia está “erradicando” a síndrome de Down

Os islandeses estão prestes a erradicar a síndrome de Down, mas de um modo nada ortodoxo: desde 2000, eles simplesmente matam, antes de nascer, quem é diagnosticado com a doença.

"Ao longo da última década, a Islândia praticamente eliminou novos casos de síndrome de Down": é a chamada de uma reportagem da rede CBS, dos Estados Unidos. O modo como isso foi feito, no entanto, é assustador: as crianças diagnosticadas com a doença são simplesmente… mortas antes de nascer.

Foi no começo dos anos 2000 que o teste pré-natal para identificar a síndrome de Down começou a ser realizado na ilha nórdica. Desde então, o exame tornou-se uma rotina na vida das gestantes islandesas e, como a prática do aborto é livre no país, quase 100% das crianças diagnosticadas previamente com Down não sobrevivem por escolha de suas mães [*].

"Sim, é claro", algumas mulheres se sentem culpadas por abortar seus filhos deficientes, uma conselheira de abortos explica à repórter da CBS. Ela também mostra um cartão, com uma oração e a impressão do pezinho de um bebê, que os pais podem guardar como lembrança do filho abortado. De qualquer modo, ela continua:

Nós não olhamos para o aborto como assassinato. Olhamos para ele como uma "coisa" a que nós damos fim. Nós damos fim a uma "vida possível" que poderia ter grandes complicações. Trata-se de prevenir sofrimento para a criança e também para a família. Assim é melhor. Ver isso como um assassinato é muito "preto e branco", a vida não é "preto e branco". A vida é "cinza". [...] A mídia vende a imagem de uma criança bonitinha de três anos, mas você precisa olhar para a síndrome de Down como um espectro. Você tem essa bonitinha com síndrome de Down… mas também há pessoas com a síndrome e mais um monte de outras complicações.

Na reportagem da CBS, algumas pessoas manifestam sua preocupação com uma sociedade que simplesmente "seleciona e descarta" seres humanos, só porque possuem esta ou aquela doença genética. Nesta matéria, é claro, a Islândia não está sozinha. A pequena ilha do Atlântico Norte, juntamente com outros países da Europa, são campeões em "direitos reprodutivos" — um jeito delicado e politicamente correto de dizer que eles são especialistas em matar os próprios filhos.

Um fator que influencia essa tomada de decisões, como a reportagem também aponta, é a alta secularização em que vivem países como a Islândia. Assim, enquanto em alguns lugares onde o aborto é liberado a religião ainda exerce certa influência na vida das pessoas, impedindo-as de realizar a prática, na Islândia até mesmo os cristãos se renderam ao espírito dos tempos: a Igreja Evangélica Luterana é a religião oficial do país e dá todo o suporte a quem quer que procure fazer um aborto.

O fator "secularização" é importante porque, para citar uma frase conhecida de Dostoiévski, "se Deus não existe, tudo é permitido". Não nos esqueçamos que o biólogo e escritor Richard Dawkins, famoso por suas apologias apaixonadas do novo ateísmo, já chegou a defender abertamente no Twitter o aborto de crianças com síndrome de Down. "Aborte-a e tente novamente", ele respondeu certa vez a uma internauta em dúvida sobre o que faria caso tivesse uma criança com a síndrome. "Imoral" seria, na verdade, "trazê-la ao mundo, se você pode escolher não fazê-lo".

A nós, cristãos, que ainda não alcançamos esse patamar "elevado" de moralidade de que desfrutam os "avançados" países nórdicos, a nós que ainda não estamos "para além do bem e do mal", só nos resta repetir o óbvio: tentar erradicar uma doença ou um defeito físico simplesmente exterminando quem os possui é uma loucura completa. Os eugenistas do século XX ficariam tremendamente orgulhosos.

Com informações de CBS News | Por Equipe Christo Nihil Praeponere


[*] É a informação colhida diretamente da reportagem da CBS. No original: "The vast majority of women -- close to 100 percent -- who received a positive test for Down syndrome terminated their pregnancy." Algumas correções foram feitas na matéria hoje, dia 17 de agosto, a fim de eliminar informações imprecisas, fornecidas pela própria reportagem norte-americana. Também a expressão "erradicou", que constava no título, foi alterada para outra, mais branda -- "está erradicando" --, a fim de não passar de imediato uma impressão errada -- que se desfaz, de qualquer modo, com a simples leitura da matéria --, a saber, de que não existiriam mais crianças com Down vivendo na Islândia. O site El País já havia apresentado, em abril deste ano, um contra-argumento à ideia de que a Islândia estivesse exterminando crianças com síndrome de Down. A verdade, porém, nua e crua, é que eles estão, sim. O debate com relação aos números é importante, sem dúvida, mas preferimos deixá-lo para os especialistas na matéria.

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O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

As discussões a este respeito não têm poupado esforços. No entanto, a falta de experiência com o "casamento" homossexual no Brasil até o momento não nos dá nenhuma resposta concreta. É por isso razoável levar em consideração a experiência canadense, já que o Canadá foi o primeiro país a reconhecer legalmente, há dez anos, o "casamento" entre pessoas do mesmo sexo. Existem, é claro, sensíveis diferenças culturais e institucionais entre os dois países e, como sucede em todo e qualquer assunto público, tudo depende das ações dos protagonistas políticos e culturais de cada lugar. Isso significa, em outras palavras, que não é cem por cento seguro presumir que a experiência canadense se repetirá no Brasil; ela deveria, em todo caso, ser levada em conta. De fato, o que se tem passado no Canadá constitui a melhor evidência que temos à disposição sobre os impactos a curto prazo do "casamento" homossexual em uma sociedade democrática.

Qualquer pessoa interessada em avaliar o impacto do "casamento" homossexual na vida pública deveria investigar-lhe os efeitos de três pontos de vista:

  1. em primeiro lugar, no âmbito dos direitos humanos (incluídos aí os impactos sobre os direitos à liberdade de expressão, os direitos dos pais na educação pública e a autonomia das instituições religiosas);
  2. em segundo, da perspectiva aberta pelo "casamento" homossexual à possibilidade de se reconhecerem como matrimônios outros tipos de relacionamento como, por exemplo, a poligamia;
  3. por fim, no âmbito da prática social do casamento.

Impacto sobre os direitos humanos

No Canadá, o resultado formal das decisões judiciais (e da legislação consequente) que institucionalizaram o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi o mero reconhecimento governamental do relacionamento de tais pessoas como um verdadeiro matrimônio; os seus efeitos culturais e legais, no entanto, foram muito mais amplos. O que ocorreu de fato foi a adoção de uma nova "ortodoxia": as relações homossexuais equivalem agora, sem restrições, ao casamento tradicional e devem, portanto, ser tratadas em pé de igualdade com ele perante a lei e a sociedade.

Como consequência disso, quem quer que rejeite essa nova "ortodoxia" é considerado um intolerante, animosamente contrário a gays e lésbicas; qualquer expressão de desacordo com a ideia de "casamento" homossexual é qualificada automaticamente de "ódio" contra uma minoria sexual; despreza-se sem piscar como mero "pretexto" qualquer oposição razoável como, por exemplo, as que embasaram argumentos jurídicos segundo os quais o "casamento" homossexual é incompatível com uma concepção de matrimônio — chamada às vezes "concepção conjugal" — que responda à necessidade que têm as crianças de crescer dentro de uma união estável, fiel e permanente.

Quando se passa a ver na oposição ao "casamento" homossexual manifestações de intolerância e ódio, então se torna bastante difícil suportar por muito tempo as divergências. Foi assim que no Canadá se modificaram à pressa os termos de participação na vida pública. Foram os oficiais responsáveis pela celebração de uniões civis os primeiros a sentir a dureza da nova "ortodoxia"; muitas províncias recusaram-lhes o direito de objeção de consciência a presidir celebrações de casamentos homossexuais e obrigaram-nos a desligar-se de suas funções. Ao mesmo tempo, entidades religiosas como os Cavaleiros de Colombo foram multadas por se recusarem a disponibilizar suas dependências para festas de casamento.

O direito à liberdade de expressão

Os efeitos da nova "ortodoxia", porém, não se limitam ao número, relativamente pequeno, de pessoas em risco de ser obrigadas a auxiliar ou presidir a celebração de um casamento homossexual; a mudança, pelo contrário, tem atingido muitas pessoas, inclusive clérigos, que desejam tornar público o que pensam acerca da sexualidade humana.

Muito do que se podia opinar antes sobre o "casamento" homossexual, agora é arriscado dizê-lo; muitos dos que persistiram abertamente em discordar tornaram-se objeto de investigação de comissões de direitos humanos e, em alguns casos, foram até mesmos processados e levados a tribunais de direitos humanos. As pessoas carentes sem boa formação e afiliação institucional têm sido, de modo particular, alvos fáceis, já que as leis antidiscriminação nem sempre são aplicadas de maneira igualitária; algumas delas foram obrigadas a pagar multas, desculpar-se e nunca mais tocar no assunto em público outra vez. Entre os alvos contam-se pessoas que apenas escreveram cartas aos editores de um jornal local, além de ministros de pequenas congregações cristãs. Um bispo católico foi denunciado duas vezes — ambas as denúncias foram revogadas — devido a comentários feitos por ele numa circular sobre matrimônio.

Muitas cortes de revisão começaram a tomar as rédeas nas comissões e tribunais (sobretudo depois de alguns processos mal instruídos contra o jornalista Mark Steyn e a revista Maclean's em 2009), e vêm defendendo uma compreensão mais abrangente do direito à liberdade de expressão. Em resposta aos protestos públicos que se seguiram ao caso de Steyn e Maclean's, o Parlamento do Canadá revogou recentemente uma disposição da Comissão Canadense de Direitos Humanos que previa instrumentos legais contra os "discursos de ódio".

Como quer que seja, o custo despendido na luta contra a maquinaria dos direitos humanos continua gigantesco: só a revista Maclean's gastou centenas de milhares de dólares com taxas judiciais, nenhuma das quais lhe será devolvida pelas comissões, tribunais e denunciantes a que foram entregues. E casos como este podem levar até dez anos para ser resolvidos. Um pessoa comum, com poucos recursos e que porventura tenha chamado a atenção de uma comissão de direitos humanos, não tem a quem recorrer, nem mesmo às cortes de apelação; a alguém nestas condições resta apenas aceitar as advertências da comissão, pagar uma (relativamente) pequena multa e obedecer à orientação de ficar em silêncio para sempre. Enquanto estes instrumentos estiverem à disposição das comissões, das quais a nova ortodoxia não permite discordar, discutir publicamente a respeito do "casamento" homossexual significa expor-se ao perigo de ser condenado judicialmente.

Uma pressão semelhante sobre quem discorda pode ser, e é efetivamente exercida, por profissionais à frente de organizações como associações de bares, corpos docentes etc., que têm o poder jurídico de punir seus membros por condutas incompatíveis com a profissão. Manifestações de discordância com a razoabilidade de tornar institucional o "casamento" entre pessoas do mesmo sexo são entendidas por esses organismos como atos de discriminação ilegal, o que abre a possibilidade de censura profissional.

Os professores constituem, em particular, um grupo de risco e muito suscetível a medidas disciplinares; com efeito, mesmo os que se manifestam contra o "casamento" homossexual apenas fora de sala de aula são acusados de criar um ambiente hostil a alunos gays. Por já terem assimilado a nova "ortodoxia", a cujos olhos discordar do "casamento" homossexual é uma injusta discriminação que jamais se pode tolerar, outros grupos profissionais e associações de voluntariado vêm adotando políticas parecidas.

Os direitos dos pais na educação pública

A institucionalização do "casamento" homossexual mudou rápida e drasticamente os direitos parentais na educação pública. O debate sobre como abordar em classe o tema do "casamento" gay é muito parecido com a discussão sobre o papel da educação sexual nas escolas e as pretensões do governo de exercer sobre as crianças uma autoridade primária. A educação sexual, entretanto, foi sempre um assunto discreto, no sentido de que, por sua própria natureza, ele é incapaz de permear todo o currículo escolar; o "casamento" homossexual, por outro lado, é algo totalmente distinto.

Dado que um dos princípios da nova "ortodoxia" é a necessidade de tratar o "casamento" homossexual com o mesmo respeito com que tratamos o matrimônio tradicional, os seus proponentes têm se saído muito bem na hora de exigir que o "casamento" gay seja retratado positivamente em sala de aula. As reformas curriculares levadas a cabo em jurisdições como, por exemplo, a Colúmbia Britânica agora impedem os pais de exercer o seu poder de veto em matérias referentes a práticas educacionais controversas.

Os novos currículos estão permeados de referências positivas ao "casamento" gay, não em uma ou outra disciplina, senão em todas. Diante dessa artimanha, a única defesa que sobra aos pais é retirar de uma vez por todas a criança do sistema público de ensino. As cortes têm se mostrado muito pouco favoráveis às reclamações dos pais: se estes se estão apegando a fanatismos fora de moda, então as crianças serão obrigadas a carregar o fardo de uma "dissonância cognitiva", pois têm de aprender coisas conflitantes em casa e na escola, enquanto esta tenta sair vencedora.

As reformas, é claro, não foram vendidas ao público como uma maneira de implementar e reforçar a nova "ortodoxia"; ao contrário, a razão apresentada foi a urgência de combater o bullying, quer dizer, de promover a aceitação de jovens gays, lésbicas e crianças vindas de lares homossexuais.

É louvável querer acolher toda e qualquer pessoa; mas, independentemente do que se tenha dito, os meios escolhidos para alcançar esse objetivo constituem um grave atentado contra a família. Trata-se nada menos do que a doutrinação premeditada das crianças, sem embargo da oposição paterna, conduzidas a aceitar uma concepção de casamento que é fundamentalmente hostil ao que seus pais crêem ser bom para elas. Tudo isso subtrai aos pais o poder de transmitir aos filhos uma compreensão do matrimônio que lhes permita amadurecer e tornar-se adultos; já desde pequenas as crianças são ensinadas a desprezar a lógica do casamento e a entendê-lo como um simples meio de satisfazer o desejo que têm os adultos de encontrar um "parceiro" ou uma "companhia".

O direito de autonomia das instituições religiosas

Num primeiro momento, os clérigos e os centros religiosos pareciam de todo imunes à obrigação de aceitar ou celebrar "casamentos" homossexuais. Com efeito, esta foi a grande promessa da legislação pró-"casamento" gay: os clérigos continuariam a ter o direito a não celebrar um casamento que lhes ferisse as convicções religiosas; as casas de culto, por sua vez, não poderiam ser contratadas sem o consentimento de suas respectivas autoridades.

Deveria ter ficado claro desde o começo o quão estreitas eram estas garantias. Elas apenas impediam que clérigos fossem obrigados a celebrar cerimônias matrimoniais; o que elas não protegiam da vigilância das comissões de direitos humanos, como vimos acima, eram os sermões e as circulares pastorais. As congregações tornaram-se, pois, vulneráveis a intervenções judiciais caso se recusem a ceder seus espaços a casais do mesmo sexo que ali queiram celebrar seu "casamento"; o mesmo vale para toda organização que não deseje disponibilizar suas dependências para promover uma visão da sexualidade diametralmente oposta à defendida por ela.

As referidas garantias tampouco impedem que os governos municipal e provincial privem entidades religiosas de seus lucros por causa do que ensinam sobre o matrimônio. A Bill 13, por exemplo, o mesmo estatuto de Ontário que obriga colégios católicos a permitirem a abertura e manutenção de clubes gays, também proíbe que escolas públicas aluguem suas instalações a quem não concorda com o "código de conduta" exigido pela nova "ortodoxia". Ora, dado que muitas congregações cristãs de pequena proporção alugam auditórios escolares para realizar seus ofícios e cultos, é bastante fácil dar-se conta de sua vulnerabilidade.

Mudanças na concepção pública de matrimônio

Tem-se argumentado que, se o "casamento" gay é institucionalizado, então se devem aceitar também novas "categorias maritais", como a poligamia. A partir do momento em que abandonamos uma concepção conjugal do matrimônio e a substituímos por uma visão centrada na figura do "parceiro" adulto, então já não há nada mais em que nos possamos basear para resistir à expansão do estatuto de "matrimônio" a uniões poligâmicas e poliamoristas, por exemplo.

Noutras palavras, se o casamento se resume à satisfação de um desejo por "companhia", qualquer que seja ela, e se o desejo de alguns se estende a novos tipos de configuração familiar, com que direito lhes podemos negar a satisfação desse desejo? Não é aqui minha intenção tomar partido a esse respeito; pretendo tão-somente descrever como esta situação se desenvolveu no Canadá.

Uma conhecida comunidade polígama na Colúmbia Britânica esteve fortemente envolvida na promoção do "casamento" homossexual, e saiu a público para defender que não havia razão alguma que fundamentasse a atual criminalização da poligamia no Canadá. Dentre todas as cortes do país, somente um tribunal de primeira instância na Colúmbia Britânica pôs em juízo se a proibição da poligamia tem base na constituição nacional, e endereçou ao governo da província uma opinião prévia sobre o assunto.

A criminalização da poligamia foi mantida, mas sobre uma frágil base que a define em termos de contração múltipla e simultânea de vários casamentos civis. A corte, em todo caso, não abordou o fenômeno da celebração de múltiplas uniões estáveis. Por isso, as formas preponderantes de poligamia e poliamor até o momento não foram admitidas pelo direito canadense, mas nem uma nem outra encontram impedimentos na prática.

O que fica de lição é o seguinte: uma sociedade que institucionaliza o "casamento homossexual" não institucionaliza, necessariamente, a poligamia. O exemplo da Colúmbia Britânica, ainda assim, sugere que de uma à outra coisa basta um passo. Os argumentos brandidos pelos defensores da poligamia não explicam de forma convincente por que é discriminação negar às uniões homossexuais e lésbicas o rótulo de "matrimônio", mas não o seria negá-lo aos polígamos e poliamoristas. De fato, o veredito parece indicar que o problema reside no "preconceito" contra a poligamia e o poliamor, que não são um instituto jurídico estável.

O impacto na prática matrimonial

No que diz respeito à prática matrimonial, é ainda muito cedo para tirar conclusões. As informações colhidas no censo de 2011 mostram, em primeiro lugar, que o matrimônio está em decadência no Canadá, assim como em todo o resto do Ocidente; em segundo, que o "casamento" gay é, do ponto de vista estatístico, um fenômeno raro; e, por fim, que há muito poucos casais homossexuais (estejam ou não casados) que tenham crianças em casa.

Dentre os 6,29 milhões de matrimônios existentes no Canadá, aproximadamente 21.000 são homossexuais. Os casais do mesmo sexo, casados legalmente ou não, constituem 0,8% de todos os casais no país; 9,4% dos 65.575 de casais homossexuais (incluídos os casados civilmente e as uniões estáveis) têm crianças em casa, e 80% deles são formados por lésbicas. O Canadá deixou de contabilizar os divórcios a partir de 2008, e desde então não tem disponibilizado nenhuma informação sobre a incidência de divórcios na comunidade homossexual.

O que podemos deduzir de tudo isso é que o "casamento" gay, ao contrário do que previam os argumentos a seu favor, não tem revitalizado a cultura matrimonial no Canadá; tampouco existe, de qualquer modo, um censo ou banco de dados que forneça argumentos empíricos que permitam vincular a institucionalização do "casamento" homossexual à estabilidade matrimonial.

À falta de dados concretos (indisponíveis no Canadá) acerca das taxas de divórcios, só nos restam argumentos conceituais, que têm de ser avaliados por sua coerência. Neste caso, a experiência canadense não nos é de muita ajuda. E aqui podemos fazer-nos a pergunta: a institucionalização do "casamento" entre pessoas do mesmo sexo baseia-se numa concepção de matrimônio que prioriza a estabilidade, como o faz a concepção conjugal? Se a resposta for negativa, então podemos crer com tranquilidade que o "casamento" gay irá acelerar a aprovação cultural de uma concepção de matrimônio — o modelo do "parceiro" adulto — que vem fazendo muito mal à sociedade ao longo das últimas cinco décadas.

Por Bradley Miller | Fonte: The Public Discourse | Tradução e adaptação: Equipe CNP

P. S.: Devido à sua extensão, quase todas as referências da matéria foram omitidas na versão aqui apresentada. Basta clicar aqui para acessá-las na íntegra.

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Primeira boneca “transgênero” do mundo é lançada nos Estados Unidos

Inspirada em Jazz Jennings, uma celebridade masculina que acredita pertencer ao sexo feminino, a primeira boneca “transgênero” do mundo já tem um protótipo.

O culto à "diversidade" continua, desta vez nos Estados Unidos. Mais uma vez, não se trata de uma notícia exatamente recente, mas ilustra a confusão dos tempos em que vivemos.

A companhia Tonner Doll, que leva o nome de seu fundador, o empresário Robert Tonner, pretende comercializar ainda este ano uma boneca "transgênero", a primeira do mundo. Um protótipo da peça já foi exibido durante uma exposição na cidade de Nova Iorque, em fevereiro. A previsão era de que a boneca estivesse disponível para venda a partir do último mês de julho, mas, até o momento, nenhuma informação foi veiculada a esse respeito.

A peça é baseada em um "transgênero" da vida real, chamado Jazz Jennings. Trata-se de uma celebridade de apenas 17 anos que teve a sua história contada em seriados, filmes e livros. Jared, como ele realmente se chama, começou a sua "transição" para o sexo feminino com apenas 5 anos de idade, recebendo todo o suporte da família para tanto. No momento, o rapaz vem passando por uma terapia hormonal para bloquear a puberdade e o seu desenvolvimento natural como homem — provavelmente tendo em vista uma futura cirurgia de "mudança de sexo".

Para aqueles perguntando como seria uma boneca "transgênero", Robert Tonner e Jazz Jeanings respondem.

Em entrevista concedida à revista Forbes, o criador da boneca explica que, embora a sua intenção seja realmente criar um debate sobre o tema, ele não colocará a palavra "transgênero" na embalagem do produto. "Meu instrutor me perguntou: 'O que faz dessa boneca um 'transgênero' se ela não tem as partes?', ele conta de uma conversa que teve na academia. "Eu disse que tinha a ver com o que a boneca representa: uma pessoa com um problema que… vinte anos atrás, não dava para fazer algo assim. Agora, ela está gerando discussões, e é disso que eu gosto."

Em sua conta no Instagram, Jazz Jeanings manifesta a esperança de que o lançamento ajude a retratar as pessoas "transgênero" de uma forma positiva. "A boneca é tida como a primeira boneca 'transgênero' porque é baseada em um indivíduo que é trans", ele explica. "É claro que se trata apenas de uma boneca feminina normal, porque isso é exatamente o que eu sou: uma garota normal!"

Mas quão "normal" é alguém dizer ser "mulher" tendo, em todas as células do corpo, cromossomos sexuais XY? A propósito, em um dos episódios de I Am Jazz — seriado da rede TLC criado justamente para contar a história de Jazz —, o protagonista da trama relata, em um clima bem descontraído, ter sofrido uma ereção. Com o perdão da franqueza, quão normal é para uma "mulher" ter… ereções?

Não se pode aceitar tudo isso, na verdade, sem aceitar primeiro o "dogma" dos ideólogos de gênero de que "as pessoas podem ser o que elas quiserem ser". Talvez você ainda não tenha deparado com algo assim, mas não é difícil encontrar hoje sites ou páginas nas redes sociais afirmando, por exemplo, que "alguém com pênis não é necessariamente um homem" e "alguém com vagina não é necessariamente uma mulher". O papel da biologia na determinação de nossa identidade vai-se tornando praticamente irrelevante. A diferenciação dos sexos não existe mais. Tudo pode ser mudado pela vontade "onipotente" dos seres humanos.

Como escreve Peter LaBarbera para o LifeSiteNews.com, "os jovens de hoje — como Jazz Jeanings mesmo — são apenas as últimas cobaias das ideologias liberais, que estão reclassificando a sua rejeição do plano maravilhoso de Deus para o homem e a mulher como um 'direito civil'. E nós, é claro, como defensores da natureza e do Deus da natureza, não passamos de 'preconceituosos transfóbicos'."

Santo Antão do Deserto profetizou, certa vez, o seguinte: "No futuro, os homens enlouquecerão. Pegarão um que não é louco e o sacudirão dizendo: você é um louco, você não é como nós" [1]. Pois bem, alguém ainda duvida de que esses tempos sejam os nossos?

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Vita e detti dei padri del deserto (a cura di Luciana Mortari). 5. ed. Roma: Città Nuova, 2008, p. 88.

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Comunidade LGBT celebra “drag queen” de 8 anos no Canadá

Esta matéria é para você ter uma leve ideia de como será o mundo da ideologia de gênero, quando for finalmente implantado “o ideal de que não existe nada que seja só de menino ou só de menina”.

A notícia que você está prestes a ler não é exatamente recente, nem relata algo que se tenha passado no Brasil, mas a gravidade do assunto transcende o tempo e o espaço.

Foi em maio deste ano que Nemis Quinn Mélançon-Golden, um garoto canadense de apenas 8 anos, ganhou os holofotes da comunidade LGBT. Ele participou de uma parada em Montreal, chamada Werq the World Tour, ganhou a atenção de um travesti aparentemente famoso, chamado "Bianca del Rio", e o seu vídeo ficou viral nas redes sociais. Agora Nemis, um menino, é conhecido como "Lactatia", seu nome de "drag queen".

No vídeo a seguir, publicado por um canal LGBT no YouTube, é possível ver a própria mãe de Nemis aplicando maquiagem no rosto de seu filho, preparando-o para sua apresentação. Os pais do menino dão total apoio ao "sonho" de Nemis de ser uma estrela do mundo "drag".

No início do vídeo, já vestido de mulher, Nemis diz: "Eu acho que todos podem fazer o que quiser da vida, não importa o que os outros pensem. Se você quer ser um 'drag queen' e os seus pais não deixam, você precisa de novos pais. Se você quer ser um 'drag queen' e seus amigos não deixam, você precisa de novos amigos."

O LifeSiteNews.com traz mais informações sobre o caso, mas uma matéria em português também pode ser lida aqui, com a diferença de que, neste caso, o articulista vem em defesa da situação. Destaque para o trecho de uma entrevista concedida pelos pais de Nemis (grifos nossos):

O site Best Kept Montreal conversou com os pais de Nemis Quinn Mélançon Golden, responsável por criar Lactatia junto com a irmã Kashmyr Luna Higgins (14 anos), e eles provaram que são, provavelmente, uns dos melhores pais do mundo.

"Quando está fora do personagem, Nemis se identifica como um menino e, quando está nele, como uma menina. Drag, para Nemis, é sobre performance e personagem. Quando ele está como Lactatia, ele é uma garota com pênis. No que diz respeito a gênero, nós somos muito abençoados por ter nossos dois filhos e o ideal de que não existe nada que seja só de menino ou só de menina. Ele está crescendo brincando com os vestidos de princesa e os sapatos da irmã e andando de skate", disse Coriander Golden, pai de Lactatia.

"Claramente não somos como a maioria dos pais. Ao invés de praticar futebol aos sábados de manhã, nós temos aula de Vogue. Quando vamos às compras, compramos a mesma quantidade de jeans preto, peças de caveira, lantejoulas e tules. E conforme a sexualidade e a drag dele evoluem, Nemis entende que a maioria das drag's é gay. Conversamos muito sobre isso, porque ele ficou preocupado com que as pessoas não levassem a drag dele a sério, já que ele não sente que seja gay", completou Jessica Mélançon, mãe de Lactatia. "Talvez no futuro ele se descubra gay? Quem sabe? Por sorte ele tem uma vida inteira pela frente para descobrir esse aspecto sobre ele. Por enquanto ele está satisfeito de encontrar sapatos que sirvam nele e por cuidar das próprias coisas", argumentou o pai.

Certos tipos de notícia devem ser simplesmente veiculados, sem acréscimos, nem comentários adicionais. É o caso dessa notícia. Ela ilustra como será o mundo da ideologia de gênero, quando for finalmente implantado "o ideal de que não existe nada que seja só de menino ou só de menina", como disseram os pais de Nemis.

Algumas famílias já estão vivendo este pesadelo dentro de seus próprios lares, suplantando a realidade do ser por um desejo irrefreável de liberdade. O caso de Nemis não é único, mas constitui um emblema da crise educacional por que passamos: ao invés de realmente formarmos os nossos filhos, são eles quem devem, agora, "descobrir" o que querem ser; ao invés de colocarmos limites às suas pretensões — não porque sejamos "carrascos autoritários", mas porque o mundo real o exige —, fazemos de conta que não existe nada de errado com o mundo, que está tudo bem, que "todos podem fazer o que quiser da vida". O problema é que, embora sejamos "livres" para escolher o que fazer de nossos corpos — e de nossos filhos —, as consequências de nossas opções inevitavelmente se seguem, ainda que não as queiramos.

"Poderíamos imaginar crianças brincando na planície de um topo relvoso de alguma ilha elevada no meio do mar", diria G. K. Chesterton. "Contanto que houvesse um muro em volta do precipício, elas poderiam entregar-se ao jogo frenético e transformar o lugar na mais barulhenta creche. Mas os muros foram derrubados, deixando desguarnecido o perigo do precipício."

E as crianças… elas caíram.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

“O futuro pertence a quem tem filhos, não coisas”

É o que afirma o Arcebispo da Filadélfia, Dom Charles Chaput, que aconselha os casais cristãos a acolher, com amor e generosidade, o dom de novas vidas, penhor de um mundo mais cristão.

Dom Charles Chaput, Arcebispo da Filadélfia, fez um ardente discurso a respeito dos problemas que o mundo ocidental tem de enfrentar e encorajou os católicos empenhados na reconstrução da cultura a casar-se, ter filhos e educá-los na fé. Em discurso no Instituto Napa, d. Chaput lamentou a atual crise dos Estados Unidos.

"A natureza e o ritmo das mudanças culturais hoje em dia não têm precedentes", observou. "Elas ocorrem de maneira extraordinariamente rápida. E seguem em passo acelerado." Tais mudanças são verdadeiras "transformações — no âmbito de nossa filosofia legal, de nossa moral sexual, de nossa demografia, filosofia da educação, economia e tecnologia", disse.

" A pílula contraceptiva e a cisão entre sexo e procriação modificaram o sentido fundamental da sexualidade", disse d. Chaput. E o ativismo a favor do "casamento" homossexual passou a exigir não só aceitação, mas também aprovação, disse. "O ativismo homossexual alimenta-se agora de uma paixão moral pelos direitos gay e pelo reconhecimento da sociedade", advertiu. "De um ponto de vista bíblico, trata-se de um paixão profundamente viciada. Os argumentos a favor da liberdade religiosa e da liberdade sexual baseiam-se em duas concepções diferentes do homem e do sentido de nossa sexualidade. Mas uma paixão moral, ainda que esteja errada, é sempre poderosa."

"É por isso que as concessões a uma aparente igualdade gay já não são o bastante", continuou, ao observar que o principal ativista e financiador do movimento LGBT, Tim Gill, afirmou recentemente querer "punir" aqueles que discordam.

D. Chaput elogiou ainda a Becket Law (antigo "Fundo Becket para a Liberdade Religiosa") e a Alliance Defending Freedom ("Aliança de Defesa da Liberdade"), dos Estados Unidos, por seus trabalhos de proteção ao direito de objeção de consciência.

"A influência da Bíblia na sociedade americana é muito menor do que era no início. E a nossa percepção moral de quem somos e do sentido de nossas vidas encontra-se muito mais fragmentada", disse d. Chaput. "A única maneira de criarmos vida nova em nossa cultura é vivermos alegre e fecundamente, como indivíduos orientados por convicções maiores do que nós mesmos e compartilhadas por pessoas que conhecemos e amamos. Trata-se de um caminho ao mesmo tempo muito simples e muito árduo. Mas é o único caminho para uma mudança efetiva."

E continuou:

Quando jovens me perguntam como transformar o mundo, digo-lhes que se amem uns aos outros, que se casem, permaneçam fiéis, tenham muitos filhos e os eduquem para ser homens e mulheres de caráter cristão. A fé é uma semente. Ela não floresce da noite para o dia. Precisa de tempo, amor e dedicação. O dinheiro é importante, mas não é nunca o mais importante. O futuro pertence às pessoas que têm filhos, não coisas. As coisas quebram e se enferrujam. Mas toda criança é um universo de possibilidades que alcança a eternidade, unindo nossas memórias e esperanças, como um sinal do amor de Deus ao longo das gerações. É isto o que importa. A alma de uma criança existirá para sempre.

Se você quer saber como será o rosto da Europa daqui a cem anos, a não ser por um milagre, olhe para o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos. O Islã tem futuro porque acredita nas crianças. Sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos. E onde não há filhos, não há imaginação, não há motivo para sacrificar-se e não há futuro. Pelo menos seis dos líderes nacionais europeus mais velhos não têm filhos. O mundo deles se encerra com eles. É difícil evitar a sensação de que boa parte da Europa, ou já está morta, ou está morrendo sem dar-se conta disso.

D. Chaput citou também as palavras do Cardeal Robert Sarah em seu novo e elogiado livro, A Força do Silêncio.

"Deus renova o mundo ao renovar primeiro cada pessoa, preciosa e imortal, no silêncio de sua alma", disse ele. "Deus não está ausente do mundo. Somos nós que tornamos impossível escutá-lo. Por isso, o primeiro desafio da vida cristã hoje em dia é desconectar-se, é fomentar o silêncio que nos permite ouvir a voz de Deus e abrir espaço para aquela conversa a que chamamos oração.

D. Chaput disse que a internet pode tornar-se "uma fonte de isolamento". "O espírito humano começa a morrer de fome pouco a pouco" quando confiamos apenas na tecnologia, disse. "Usamos nossas ferramentas, mas elas também nos usam. Elas moldam o nosso modo de pensar, de agir e de ver o mundo. O homem tecnológico vê o mundo, não como um dom de Deus — com a sua própria finalidade e sentido, para ser guardado e administrado —, mas como um conjunto de coisas mortas a serem organizadas e utilizadas."

Uma tal atitude "acaba por difundir a maneira com que tratamos o meio ambiente, os outros seres vivos, as pessoas, a nós mesmos e os nossos próprios corpos."

" Nós não vemos todos os efeitos do bem que praticamos nesta vida", concluiu d. Chaput, lembrando-se de como um amigo viu certa vez um bordado que, de perto, não passava de uma "centena de nós feios e emaranhados num caos de formas confusas e sem sentido". Na verdade, era o Tapiz do Apocalipse de São João, uma conhecida obra de arte europeia. "É uma das mais belas e surpreendentes expressões da civilização medieval e uma das maiores realizações do patrimônio artístico europeu", disse d. Chaput. "Grande parte do que fazemos parece um emaranhado de frustrações e fracassos. Não vemos — deste lado do bordado — o padrão de sentido que sobre ele tece a nossa fé."

"Um dia, porém, nós veremos tudo do outro lado", disse. "E naquele dia, enxergaremos a beleza que Deus permitiu-nos acrescentar à grande história da criação, a revelação do seu amor que perpassa geração após geração, não importa o quão bons ou maus sejam os tempos. E é por isto que a nossa vida tem importância."

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe CNP

P. S.: Para ler o discurso de Dom Charles Chaput na íntegra, em inglês, acesse aqui.

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Não deixem morrer a memória de Charlie Gard

A batalha pela vida de Charlie Gard está chegando ao fim. Mas a guerra que já agora precisamos travar, enquanto família, para resistir à intromissão estatal em nossas casas, só está começando.

Se o bebê Charlie Gard tivesse recebido mais cedo o tratamento para sua doença, ele teria o potencial para crescer como um garoto normal e saudável.

Em linhas gerais, foi o que afirmaram ontem Chris Gard e Connie Yates, os pais do pequeno Charlie Gard, que há quase um ano batalhavam na Justiça pelo direito de tentarem um tratamento especial para seu filho, acometido por uma doença genética rara. Com base na recente avaliação feita por um especialista norte-americano, segundo a qual os músculos da criança já se tinham deteriorado de modo irreversível, os pais chegaram ontem, dia 24 de julho, à difícil decisão de deixar o seu filho partir.

A declaração dos pais de Charlie Gard já correu o mundo e é realmente, como disseram algumas matérias em inglês, "de cortar o coração" ( heartbreaking). Quem quer que se comova, porém, com a voz embargada do pai e o desconsolo da mãe, devastados por terem que ver o seu filho morrer, não se esqueça o que provocou essa dor. Não foi simplesmente uma enfermidade grave que lhe tornou inviável a vida. Antes que a sua condição piorasse, um grupo de burocratas — médicos e juízes, em grande parte — arrogou para si o direito de decidir o futuro de Charlie, impedindo que ele saísse do hospital em que se encontrava e atropelando a vontade de seus pais de lutar pela vida e pela saúde de seu filho.

Por isso, neste início de semana, o mundo assiste não só à morte de uma criança, mas também à triste vitória do Estado contra a família; à triste vitória da "cultura da morte", em última instância, contra a própria dignidade humana.

Esses pais que perderam o seu filho, infelizmente, não foram nem serão os primeiros. Há um movimento global se aproveitando da crise em que vivem muitas de nossas famílias para enfraquecer o pátrio poder, quando não para extingui-lo por completo. Nesse caso em particular, a intervenção descabida do Estado provocou a morte de Charlie. Na Noruega, porém, já há algum tempo, famílias estão perdendo sem mais nem menos a guarda de seus filhos e, em outros tantos lugares do mundo, quantos pais já não perderam as suas crianças, por exemplo, para a educação sexual permissiva que lhes é ministrada nas escolas!

A batalha pela vida dessa criança específica, Charlie Gard, está chegando ao fim. Mas a guerra que já agora precisamos travar, enquanto família, para resistir à intromissão estatal em nossas casas, essa só está começando.

Por isso, não deixem a memória de Charlie Gard morrer. Que o seu exemplo sirva para nos lembrar os sacrifícios que precisaremos fazer, no mundo moderno, pela sobrevivência e salvação eterna de nossos filhos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

Evitar filhos para... conter o “aquecimento global”?

“Ter menos filhos para conter o aquecimento global”, como sugere a chamada de um periódico, é tão ridículo quanto deixar as pessoas morrerem de fome, para salvar a vida dos bois, dos porcos e das galinhas.

A moda agora, senhoras e senhores, é o antinatalismo com fins ecológicos.

Quem anuncia a nova tendência é a Folha de São Paulo. " Ter menos filhos", diz uma reportagem recente do jornal, "pode ser uma das soluções para conter o aquecimento global." O título da matéria, porém, é escrito em tom imperativo: "Tenha menos filhos". Isso salvará o planeta. Quem dá a boa-nova, obviamente, não é o jornalista. Para emprestar um ar de autoridade à ideia, nada melhor do que chamar "pesquisadores", "estudiosos", "cientistas" — pessoas entendidas que, você supõe, não diriam qualquer bobagem.

À parte, porém, o argumentum ad auctoritatem, qualquer um com o mínimo de bom senso é capaz de enxergar a ideologia por trás dessa proposta. Disto que vai escrito na Folha até o pedido expresso de que o homem, quem sabe, migre para Marte, vai uma distância realmente muito curta.

O silogismo de Seth Wynes e Kimberly Nicholas, a dupla sueco-canadense responsável pelo estudo, parece muito simples. Primeiro, parte-se da premissa, já duvidosa, de que o aquecimento global é causado pelo ser humano; este não vai deixar de desejar "um padrão de vida semelhante ao padrão de consumo intenso dos países ricos"; logo, melhor que não tenhamos seres humanos, pelo menos no futuro.

A partir dessa metodologia, os cálculos mostraram que ter um filho a menos (digamos, um casal que decide ter só dois filhos, em vez de três) reduziria as emissões per capita em quase 60 toneladas de gás carbônico por ano. [...] Uma única família americana que decidir ter um filho a menos será capaz de evitar a mesma quantidade de emissões que quase 700 pessoas que passarem a reciclar todo o seu lixo.

Bom, em primeiro lugar, é evidente que as pessoas não precisam de um motivo assim para evitar filhos. A ideia é interessante, no entanto, para atribuir um ar de certa "nobreza moral" à causa dos que não gostam de crianças (ou simplesmente não as querem): não é que eles só pensem no próprio umbigo; a preocupação deles é com o bem do planeta ("do planeta", grife-se, porque a expressão "bem da humanidade" já está evidentemente ultrapassada).

Em segundo lugar, assumindo que essa fosse realmente uma estratégia "genial", quem poderia tê-la, senão um ser humano? Galhos de árvores não folheiam livros, nem escrevem em papel (ainda que o papel venha delas); tampouco os chimpanzés, tidos como o ápice da evolução, são capazes de produzir pesquisas sobre mudanças climáticas. Se o planeta estivesse realmente correndo perigo, quem poderia articular uma estratégia para salvá-lo, a não ser os Homo sapiens sapiens?

Com isso, chegamos ao terceiro ponto, e o mais importante de todos. O grande problema dessa pesquisa é o pressuposto do qual ela parte: o de que, numa escala de interesses a ser tutelados, o planeta estaria acima do ser humano. A velha história de preservar o planeta "para as futuras gerações" finalmente cai por terra. O problema não é conservar o que temos para nossos filhos e netos; o problema são os nossos próprios filhos e netos! Se não os evitarmos, a natureza tratará de os eliminar, num futuro "apocalipse ecológico", como se eles fossem "células cancerígenas".

Sim, alguém já disse isso e, hoje, são muitos os indivíduos no mundo acadêmico que pensam deste modo. No Direito Ambiental, por exemplo, matéria obrigatória em nossas faculdades jurídicas, os seres humanos não são tratados mais como os únicos "sujeitos de direito"; não é simplesmente para ordenar as suas relações que existe o Direito; não é para servir ao homem que existem os animais, os vegetais e tudo quanto há. Não, isso faria parte de uma visão de mundo antropocêntrica. O que conta pontos agora é ser "ecocêntrico"; é defender a natureza por si mesma; é defender igualmente todas as formas de vida!

Os promotores dessa ideologia, no entanto, nem sempre levam até o fim as consequências dessa forma de pensar. Continuam a se alimentar da carne de animais, sem lhes pedir o consentimento; continuam a pisotear baratas e formigas, sem nenhum escrúpulo; e nesse processo predatório e opressor, não poupam nem mesmo as alfaces, perturbando a absoluta tranquilidade que reina entre os vegetais.

Pode parecer brincadeira, mas a verdade sobre as coisas é esta. Sempre que alguém coloca um bife de carne animal na boca, está admitindo que a natureza pode, sim, servir aos interesses do homem. Sempre que assistimos a um documentário animal, em que um leão é visto atacando uma girafa, por exemplo, e não nos revoltamos pelos "direitos" da girafa, é porque sabemos que existe uma hierarquia nas coisas criadas. E esse não é o tipo de coisa que se possa modificar ou abolir simplesmente por uma "lei" ou por uma nova forma de pensar. Nossas ideias, afinal, só valem alguma coisa se estiverem em conformidade com o mundo real. Caso contrário, o único lugar para o qual elas devem ir é a lata de lixo.

"Ter menos filhos para conter o aquecimento global" é tão ridículo quanto dizer que se devem matar todos os leões para salvar a vida das girafas; ou deixar as pessoas morrer de fome, para salvar a vida dos bois, dos porcos e das galinhas. Se você é capaz de entender isso, parabéns! Mais do que um cérebro, você possui uma faculdade chamada inteligência. Use-a para algo útil, povoe o mundo de seres iguais a você e, se possível, ajude a resgatar o jornalismo e as outras ciências humanas da fossa em que há muito tempo elas se encontram.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere