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Se existe o Anticristo, haveria também uma Antimaria?

Se existe um Anticristo, como dizem as Escrituras, talvez exista também um complemento feminino para ele: uma espécie de “Antimaria”. Mas como ela seria?

Por Carrie Gress — Enquanto fazia pesquisas para o meu próximo livro, The Marian Option: God's Solution to a Civilization in Crisis ["A opção mariana: solução de Deus para uma civilização em crise"], a ser lançado em maio de 2017, veio-me à mente um novo conceito teológico. Eu estava a investigar a noção de Maria como "nova Eva" — uma ideia que remonta aos primeiros padres da Igreja. Maria como nova Eva é o complemento feminino para Cristo, o novo Adão. Na Escritura, São João fala do anticristo como um homem, mas também como um movimento presente ao longo de toda a história (cf. 1Jo 4, 3; 2Jo 1, 7). Isso me fez pensar: se há um anticristo, será que existe também um complemento feminino, uma "antimaria"?

Mas em que consistiria exatamente um movimento "antimaria"?

Seriam mulheres que não dariam valor aos filhos. Elas seriam obscenas, vulgares e iradas. Reagiriam com raiva à ideia de qualquer coisa que se parecesse ou com obediência humilde ou com autossacrifício pelos outros. Elas seriam petulantes, superficiais, maliciosas e exageradamente sensuais. Seriam também auto-absortas, manipuladoras, fofoqueiras, ansiosas e ambiciosas. Em suma, seriam tudo aquilo que a Virgem Maria não é.

Ainda que esse comportamento tenha sido posto como que sob a lente de um microscópio por conta da recente Marcha pelas Mulheres, em Washington [1], a tendência de mulheres mal comportadas não tem nada de nova. Há ampla evidência, no entanto, de que estamos a testemunhar algo, por causa de sua dispersão massiva, bem diferente do vício ordinário visto ao longo da história.

O tratamento que se dá à maternidade é um dos primeiros sinais de que estamos a lidar com um novo movimento. Mães (espirituais ou biológicas) são um ícone natural da Virgem Maria — elas ajudam outras pessoas a conhecerem quem é Maria através de sua generosidade, paciência, compaixão, paz, intuição e habilidade de nutrir almas. O amor de Maria (e o amor materno) oferece uma das melhores imagens de como é o amor de Deus: incondicional, salvador e profundamente pessoal.

As décadas mais recentes da história têm testemunhado o sutil apagamento do ícone mariano nas mulheres reais. Primeiro com a pílula anticoncepcional e depois com o advento do aborto, a maternidade ficou no cepo. Ela se tornou dispensável, a ponto de a cultura geral não dar a mínima quando uma criança é adotada por dois homens.

Toda cultura, inclusive a nossa, sabe quão importante é uma mãe (mesmo nas suas imperfeições) para assegurar uma fase adulta saudável e maturidade espiritual — e nenhuma cultura pode se renovar sem maturidade espiritual. Sim, há muitas pessoas que têm crescido sem mãe, e muitos estão de acordo que, de fato, poucas coisas há que sejam tão trágicas quanto essa. Essas tristes realidades, no entanto, ao invés de diminuírem a importância das mães, apenas fortalecem o argumento de que as crianças precisam delas. Não é por acaso que, com a maternidade tão desvalorizada como está, estejamos testemunhando traumas e transtornos emocionais e mentais sem precedentes em todos os segmentos da população.

Outro sinal impressionante de que estamos em uma era antimariana é que, depois de todo o chamado "progresso" conquistado pelas mulheres, há mui pouca evidência de que essas coisas tenham realmente tornado as mulheres mais felizes. As taxas de divórcio são ainda assombrosas, com 70% dos casos iniciados por mulheres; os índices de suicídio estão nas alturas; abusos de drogas e álcool também; depressão e ansiedade estão em todos os lugares. As mulheres não estão se tornando mais felizes, só estão ficando mais medicadas.

Fonte de dignidade

Poucos em nossa cultura sabem da dívida de gratidão que têm para com o catolicismo pela noção radical de que as mulheres são iguais aos homens. Essa ideia vem especificamente da Virgem Maria. Não veio dos gregos — Aristóteles e outros chamavam as mulheres de "machos imperfeitos" —, não veio do judaísmo — ainda que tivessem um certo status, um movimento maior para promover a dignidade das mulheres nunca chegou a acontecer — e muito menos do islamismo. O pensador William Lecky, acadêmico racionalista do século XIX, não católico, explica:

Não mais a escrava ou o brinquedo do homem, não mais associada apenas a ideias de degradação e de sensualidade, as mulheres ascenderam, na pessoa da Virgem Maria, a uma nova esfera, e tornaram-se objeto de homenagem reverencial, da qual a antiguidade não tem nenhuma notícia… Uma nova personagem foi chamada à existência; um novo tipo de admiração foi encorajado. Em uma idade rude, ignorante e obscurecida, esse tipo ideal infundiu uma concepção de gentileza e pureza, até então desconhecida para as mais orgulhosas civilizações do passado.

Hoje a igualdade entre homens e mulheres nos parece uma coisa óbvia, uma intuição simples que teria qualquer pessoa racional. Mas, se fosse realmente assim, por que então nenhum outro movimento religioso tinha se atentado para esse fato antes? Foi a Virgem Maria quem reverteu os pecados de Eva e propiciou que essa noção, agora tornada lugar-comum, tomasse raízes. O cristianismo, ainda que esteja agora amplamente abandonado pela cultura secular, continua sendo a fonte dessa profunda iluminação.

Nos lugares errados

Hoje as mulheres ainda desejam igualdade e respeito — talvez mais do que nunca —, mas paremos por um instante para observar como elas estão tentando alcançar isso. Elas estão seguindo não a graça de Maria, mas os vícios de Maquiavel: raiva, intimidação, histeria, assédio moral. É esse impulso agressivo que faz a mulher sentir orgulho em ser chamada de "nojenta" [2], sentir-se empoderada por vestir-se como uma prostituta, ou acreditar que uma criança é capaz de destruir a sua vida. Acontece que é precisamente esse tipo de coisas que jamais levará as mulheres à felicidade.

O antimarianismo detém um verdadeiro monopólio em nossa cultura; não há praticamente nenhuma alternativa no espaço público em que as mulheres mais jovens possam se espelhar. Ao invés disso, nós temos Madonna, que em um único discurso é capaz de ao mesmo tempo pedir uma revolução do amor e confessar o seu desejo de explodir a Casa Branca; temos políticas mulheres, que pensam que a única forma de serem eleitas é jurando lealdade a Planned Parenthood; ou Gloria Steinem, que tinha deixado claro, ainda na década de 1980, que sua meta era viver um estilo de vida livre "das amarras" do gênero. Manchetes e vedetes de Hollywood ditam como milhões de meninas e mulheres devem pensar.

Nenhuma mulher é uma ilha

Mas elas não são as únicas atingidas por esse movimento. Homens e rapazes também são profundamente afetados por isso. Eles se sentem à deriva, especialmente quando as virtudes que lhes são mais naturais são mal interpretadas como coisas ruins. Mais do que isso, os homens estão tendo roubada uma compreensão apropriada do eros, ou seja, o tipo de amor animado pela beleza e bondade. É esse tipo de amor que tem povoado a poesia, os sonetos e as canções românticas por séculos. (Não há uma música romântica sequer escrita sobre o amor de um homem por uma mulher arrogante e ranzinza em um terninho.) O eros agora tem sido apagado e substituído por uma forma sórdida de erotismo.

Infelizmente, as mulheres não têm ideia de como podem inspirar os homens através da bondade. Como escreveu sabiamente o arcebispo Fulton Sheen: "Quando um homem ama uma mulher, acontece que, quanto mais nobre a mulher, mais nobre é o amor; quanto maiores as exigências da mulher, mais valoroso deve ser o homem. É por isso que a mulher é a medida do nível de nossa civilização". Uma avaliação das mulheres — em seu estado de transtorno, forte medicação e irritação — revela maus presságios para a nossa civilização, independentemente de qual seja o partido político no poder.

O demônio sabe que todas essas marcas da "antimaria" — raiva, indignação, vulgaridade e orgulho — provocam um curto-circuito nos maiores dons que possuem as mulheres: sabedoria, prudência, paciência, paz imperturbável, intuição e a capacidade para um relacionamento profundo com Deus. Ao contrário disso, o tentador promete poder, fama, fortuna, respeito e prazeres fugazes e estéreis — e, como Eva, as mulheres do movimento antimariano continuam a cair em suas mentiras.

Enquanto muitos já demos vários nós em nossa cabeça tentando imaginar uma solução para esse problema, a verdadeira resposta está em voltar à fonte, voltar à mulher por meio da qual toda mulher ganha a sua dignidade. Não importa o quão forte seja o "espírito da Antimaria", a Virgem Maria continua a ser a mulher mais poderosa no mundo.

Fonte: National Catholic Register | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas

  1. Essa manifestação pode ser comparada, mutatis mutandis, aos conhecidos protestos do grupo Femen ao redor do mundo e, aqui no Brasil, às recentes e famigeradas "marchas das vadias".
  2. A autora do texto usa a expressão nasty, referindo-se a um episódio recente das eleições americanas, quando o atual presidente Donald Trump usou esse adjetivo para se referir à sua oponente, Hillary Clinton, durante um debate político. A reação nas redes sociais à frase foi instantânea: inúmeras mulheres manifestaram adesão à candidata democrata, assumindo o adjetivo para si como se fosse motivo de orgulho. A situação lembra o chilique das redes, aqui no Brasil, quando uma revista traçou o perfil de uma mulher como "bela, recatada e do lar".

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Quem marchou pelas mulheres nos Estados Unidos?

Mesmo a mídia e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida.

Um dia após a cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, centenas de milhares de mulheres tomaram as ruas de Washington D.C. para protestar contra suas posições políticas com relação ao aborto e a outros temas que lhe custaram uma enorme dor de cabeça durante o período de campanha. A Marcha das Mulheres, como foi chamada pelos seus organizadores, contou com amplo apoio de organizações filantrópicas, de artistas e, sobretudo, da mídia, que, aliás, fez questão de repercutir a mensagem do protesto para o mundo inteiro. No Brasil, um jornal de grande circulação disse que a marcha representaria a "alma feminina".

"Não aceitem esta nova era de tirania em que não apenas as mulheres estão em perigo, mas todas as pessoas marginalizadas. A revolução começa aqui, este é o começo de uma mudança muito necessária", vociferou a cantora Madonna durante sua participação no evento. Madonna só se esqueceu de explicar, porém, como a Marcha das Mulheres pretende combater essa marginalização se seus próprios organizadores marginalizam quem discorda deles, como no caso do veto à participação de mulheres pró-vidano evento. Nesta nova revolução, é preciso perguntar, mulheres que não tratem seus bebês como apenas mais uma parte de seu corpo serão respeitadas?

A resposta é não. Desde que a ativista Adrienne Germain convenceu John Rockefeller III a investir em pesquisas sociológicas que mudassem o pensamento das mulheres a respeito da maternidade, os movimentos feministas tornaram-se apenas uma massa de manobra nas mãos dos grupos globalistas que querem o controle populacional. A defesa dos tais "direitos reprodutivos" não é uma questão de "alma feminina", mas de marketing para diminuir o número de gestações; não é a pessoa da mulher que interessa, mas o seu útero. É por isso que enquanto Scarlett Johansson discursava na Marcha das Mulheres a favor da Planned Parenthood, essa mesma instituição negava a uma gestante o serviço de pré-natal: "Nós fazemos controle de natalidade, sabe, essas coisas… aborto, nós não fazemos pré-natal". E isso, atenção, é muito mais misógino que qualquer conversa de Donald Trump.

Os jornais erram, mais uma vez, ao vincularem a "alma feminina" à defesa do aborto, como se a Marcha das Mulheres fosse o único grito de protesto ecoado nos Estados Unidos naquelas semanas. Outra marcha ocorreu poucos dias depois, também em Washington, reunindo dezenas de milhares de pessoas, principalmente jovens, para protestarem contra a "cultura da morte", que, desde a famosa decisão "Roe vs. Wade", em 1973, já ceifou a vida de mais de 58 milhões de bebês, mortos em clínicas de aborto. Embora os jornais insistissem em ignorá-la, como denunciou o presidente Donald Trump, a Marcha pela Vida, de fato, tem despertado uma nova geração de homens e mulheres americanos, cuja mentalidade não segue a corrente do hedonismo e do relativismo, mas dos valores perenes da dignidade humana. E esta é a "geração pró-vida" que promete pôr fim a "Roe vs. Wade" nos Estados Unidos.

A primeira Marcha pela Vida aconteceu em janeiro de 1974, graças aos esforços da ativista católica Nellie Gray. Convicta de que toda vida humana deve ser valorizada e protegida, Gray decidiu abandonar sua carreira para dedicar-se exclusivamente à causa pró-vida e à organização anual da marcha. O evento logo arrebanhou uma enorme quantidade de pró-vidas e inspirou outros movimentos ao redor do mundo. Em 2013, poucos dias após a posse de Barack Obama, a Marcha pela Vida reuniu mais de 600 mil pessoas na capital americana para reivindicar o fim do aborto e opor-se às medidas antinatalistas do então presidente democrata. Neste ano, o evento contou com a participação do atual vice-presidente, Mike Pence, e de outros membros do governo republicano. "A vida está vencendo outra vez nos Estados Unidos", comemorou Pence durante seu discurso, fazendo referência à medida assinada por Trump, que pôs fim ao financiamento de ONGs pró-aborto no exterior.

A influência da Marcha pela Vida sobre a cultura americana é reconhecida pelos próprios defensores do aborto. Em 2010, a feminista Nancy Keenan declarou seu espanto acerca da quantidade de jovens presentes na edição da marcha daquele ano, que reuniu 400 mil pessoas: "Eu apenas pensei, meu Deus, eles são tão jovens… há tantos deles e são tão jovens". A Revista Time, por sua vez, publicou uma longa reportagem no aniversário de 40 anos da lei "Roe vs Wade", analisando como os ativistas pró-aborto têm regredido desde 1973: "Conseguir um aborto na América é, em alguns lugares, mais difícil hoje do que em qualquer lugar desde que se tornou um direito constitucionalmente protegido 40 anos atrás".

É claro, portanto, que a Marcha das Mulheres está longe de representar a "alma feminina", como tentaram vender os jornais. Contra fatos não há fake news. Mesmo a enorme campanha midiática e o financiamento das ONGs pró-aborto nos últimos 44 anos não puderam conter o apelo natural e espontâneo da mensagem da Marcha pela Vida. Trata-se do que disse a atual presidente do movimento, Jeanne Mancini: "Ser pró-vida é ser pró-mulher". Essa é a verdadeira "alma feminina".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

“Silêncio”, uma trágica negação da graça de Deus

Se há algum silêncio no filme de Martin Scorsese, é o silêncio que ignora a intrépida coragem e a alegria sobrenatural com que os mártires do Japão entregaram sua vida a Deus.

Por John Horvat II — Na história da Igreja, muitos mártires morreram pela fé. A começar por Santo Estêvão, o protomártir logo após a Ressurreição, eles foram os primeiros a serem lembrados, venerados por seu testemunho público e elevados ao altar com o título de santos. Houve também aqueles que negaram a fé sob pressão. Eles foram esquecidos e enterrados na escuridão da história.

O mundo moderno tem um problema com os mártires. As pessoas não são capazes de entender a glória do testemunho deles por Cristo. O homem moderno preferiria, ao invés, tentar encontrar alguma justificativa por trás da angustiante decisão daqueles que negaram a fé.

Tal é o caso do último filme de Martin Scorsese, Silence ("Silêncio", lançado no Brasil dia 2 de fevereiro). Trata-se de uma história sobre essa segunda categoria de não-mártires — de quem Nosso Senhor disse: "Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus" (Mt 10, 33).

Curiosamente, críticas recentes de "Silêncio" foram negativas — mesmo vindas da mídia liberal e hostil à Igreja. O consenso é que a tentativa de Scorsese, de propor para a admiração geral alguém que publicamente negou a sua fé, foi um fracasso.

Talvez seja porque a natureza humana considera tais renúncias detestáveis. Mesmo o talento do diretor, os efeitos especiais de Hollywood e a publicidade midiática não puderam superar esse fato. A tentativa ardilosa de Scorsese de justificar seu protagonista atormentado mostrou-se entediante e pouco convincente.

A "autoridade docente" de Hollywood

"Silêncio" é baseado em um romance de 1966 de mesmo nome, escrito pelo autor japonês Shusaku Endo. O enredo gira em torno de um personagem fictício: um padre jesuíta português do século XVII, no Japão, na época de uma violenta perseguição anticatólica. O filme representa um "conflito de fé", no qual o padre deve escolher entre a sua fé e as vidas de seu rebanho. Diante de sua provação, ele se depara com o silêncio de Deus às suas súplicas, de onde vem o título do filme. Finalmente, Cristo mesmo supostamente rompe o silêncio, dizendo-lhe interiormente que deve negar a fé, passando por cima de sua imagem a fim de salvar seu rebanho.

Uma história tão superficial e contrária a todo o ensinamento da Igreja normalmente não representaria nenhuma ameaça aos católicos que são firmes na fé. Entretanto, Hollywood tem tragicamente assumido o papel de uma autoridade docente para incontáveis católicos. Portanto, a principal lição ensinada pelo filme — que a negação pública da fé pode ser justificada algumas vezes e até ser desejada por Deus — realmente oferece um perigo a muitos não-catequizados, os quais podem vir a confundir o script de Hollywood com as Escrituras. Qualquer silêncio a respeito de "Silêncio" pode ser mal interpretado como um consentimento.

Não que seja o caso de rever o filme ou explorar os seus complexos enredos e subenredos. Tais filmes não apresentam, na verdade, nada de novo; não passam de meios para reafirmar certas premissas falsas que minam a fé. É de longe muito melhor responder às próprias premissas falsas, especialmente no modo como elas são aplicadas à lamentável incompreensão de martírio que tem a modernidade.

O martírio como uma derrota

A primeira falsa premissa é a concepção moderna de que a vida é o valor supremo. Essa é uma premissa terrível, pois, se não há nenhum valor pelo qual valha a pena morrer, então não há nenhuma razão real pela qual valha a pena viver. Em um mundo materialista que adora a vida e seus prazeres, o martírio representa fracasso. Aqueles que renunciam a fé e o martírio são vencedores. Aqueles que não o fazem são perdedores.

A mensagem de contos fictícios como "Silêncio" é de que a vida é para ser adorada a tal ponto que até mesmo Deus deve fazer-se cúmplice em inspirar a apostasia que salva a vida dos fiéis. Entretanto, narrativas assim são realmente fictícias; elas ignoram a realidade histórica do que aconteceu.

O registro histórico

O registro histórico dos mártires japoneses é um dos mais gloriosos na história da Igreja. Trata-se de uma ardente reprimenda ao mundo moderno por sua "idolatrização" da vida. Dezenas de milhares sofreram ou morreram nas mãos de cruéis executores. Se histórias são necessárias para inspirar autores, deixem-nos falarem da coragem, do heroísmo e da perseverança destes mártires japoneses, jovens e anciãos, homens e mulheres, religiosos e seculares, que alegremente deram suas vidas por Cristo e ganharam para si mesmos a coroa da glória eterna. Se vilões precisam ser encontrados nessas histórias, deixem-nos serem encontrados nos cruéis governadores e juízes que condenaram os cristãos à morte.

Em 1776, Santo Afonso de Ligório escreveu o livro Vitória dos Mártires, o qual contém uma longa seção destinada a contar incríveis histórias sobre os mártires japoneses. Ele fala, por exemplo, de uma cristã japonesa chamada Úrsula, que, ao ver seu marido e dois filhos martirizados, exclamou: "Louvado sejais, ó meu Deus, por me terdes tornado digna de estar aqui neste sacrifício! Concedei-me agora a graça de tomar parte em sua glória". Ela e sua filha mais nova foram decapitadas.

De fato, qualquer padre que salvasse a vida de suas ovelhas renunciando sua fé seria desprezado pelos fiéis japoneses, tanto por sua negação, quanto por ter privado seu rebanho da coroa do martírio.

Se há algum silêncio no "Silêncio" de Scorsese, é o silêncio que ignora a intrépida coragem e a alegria sobrenatural encontrada nos mártires e missionários japoneses, cujo testemunho era tão superior a ponto de seus inimigos serem vencidos por seus argumentos e resolverem matá-los. O martírio desses homens não foi a sua derrota, foi a sua vitória.

Atos sem significado

Uma segunda premissa é a de que atos externos não têm significado algum. Eles significam o que quer que uma pessoa determine que eles sejam. Uma premissa assim é típica do pensamento pós-moderno, que "desconstrói" atos de seu significado e contexto naturais.

Portanto, qualquer benefício ou inspiração pode justificar um ato que significa a negação da fé, já que atos não têm nenhum significado fixo. De fato, o enredo do filme mascara a negação pública com a boa intenção do protagonista de preocupar-se com a segurança de seu rebanho.

Novamente, isso mostra uma profunda incompreensão da ideia de martírio. A palavra martírio significa "testemunha" — uma manifestação externa da fé aos outros. A interpretação pós-moderna do dilema do martírio questiona a noção de que possa haver testemunhas tão convictas das verdades da religião católica a ponto de elas sofrerem felizes a morte ao invés de negarem a fé. A "metanarrativa" dos grandes feitos dos mártires não é mais válida. Mesmo a ideia de verdade é relativa. Tudo deve ser reduzido ao nível da experiência pessoal.

E, outra vez, tal interpretação vai contra a realidade histórica que foi centrada na noção de verdade objetiva. Aqueles que perseguiram a Igreja odiavam a verdade e a lei moral ensinadas por Cristo e pela Igreja. Eles odiavam especialmente o testemunho público dado pelos cristãos porque seu testemunho denunciavam os seus pecados e fraquezas. Tudo o que eles pediam de suas vítimas era algum sinal público de negação. Por essa razão, perseguidores frequentemente forçavam cristãos a negarem sua fé ao invés de tirarem suas vidas.

Historicamente, essa é a razão por que aqueles que perseguem a Igreja sempre querem oferecer honrarias, postos e benefícios àqueles que renunciam a fé. Eles sempre darão aos cristãos uma desculpa para deixarem de ser testemunhas. Isso inclui aquelas "boas intenções" a fim de diminuir o sofrimento da família, dos parentes e dos fiéis cristãos. No entanto, isso é apenas um pretexto. O que eles querem destruir, na verdade, é o testemunho que os assombra e os chama à virtude. Eles querem cristãos renegados para fazerem suas negações públicas e, assim, desencorajarem o testemunho de outros.

Felizmente, seus esforços são sempre frustrados pela constância dos fiéis cristãos que levam outros à conversão. Eles não entendem que "o sangue dos mártires é semente para novos cristãos", como dizia Tertuliano.

O deus do silêncio

A última falsa premissa vem de uma compreensão naturalista do mundo, em que as pessoas não compreendem o modo como Deus trabalha nas almas. O mundo secular pensa que a posição natural de Deus seja a do silêncio. Quando os escritores seculares são forçados a imaginar a ação de Deus sobre seus personagens, eles a retratam como uma questão puramente pessoal, baseada em sentimentos e emoções inconsistentes e distantes da lógica da lei divina.

Essa é, talvez, a maior incompreensão da fé. Os autores modernos criaram o seu próprio "deus" do silêncio, com crentes fora da vida da graça.

Uma combinação assim leva a representações absurdas como as de "Silêncio". O martírio não pode ser baseado em emoções ou sentimentos, já que envolve o sacrifício do maior dom natural que o homem possui — a vida. Isso é algo tão difícil que está acima das forças do ser humano. O martírio requer a graça, que ilumina o intelecto e fortalece a vontade. Só assim os cristãos podem fazer o que está acima de sua natureza humana. A graça de Deus nunca permitiria que uma pessoa negasse a Cristo diante dos homens.

O martírio, fruto da graça

É por isso que Santo Afonso declara ser uma questão de fé que "os mártires devem suas coroas ao poder da graça que receberam de Jesus Cristo; por Ele é que receberam a força para desprezar toda promessa e ameaça dos tiranos e suportar todos os tormentos até que tenham feito um sacrifício completo de suas vidas".

Ademais, Santo Agostinho declara que os méritos dos mártires provêm dos efeitos da graça de Deus e da cooperação deles com essa graça.

Em outras palavras, Deus não pode silenciar-se face ao martírio, como afirma o "Silêncio" de Scorcese. Sua justiça não permitirá a uma pessoa ser tentada além dos limites de sua capacidade. Ele está intimamente unido àqueles que enfrentam o martírio. Ele lhes dá a graça que é uma participação em sua própria vida divina. Enfrentar o martírio sem a graça é impossível. Ainda que Deus permita desafios, Ele nunca está em silêncio.

Os católicos não podem ficar em silêncio

E é por isso que os católicos não podem se silenciar diante desse filme. A produção de Scorsese é uma trágica negação da graça de Deus em um mundo urgentemente necessitado dela. Nestes dias em que católicos estão sendo martirizados, nós precisamos saber que Deus nunca fica em silêncio. Os mártires nunca estarão em uma situação em que Deus trai a si mesmo. Ele sempre estará com eles quando necessário.

A visão de mundo secular é estreita e asfixiante, mas, infelizmente, é a que prevalece hoje em dia. A obsessão com o "eu" permeia a cultura até a exclusão de Deus. Não é de se admirar que muitos pensem haver "silêncio" do outro lado do martírio. Isso se deve em grande parte ao fato de essas pessoas viverem, em suas próprias vidas, um grande vazio existencial. Elas simplesmente não conseguem acreditar na ação de Deus e da Sua graça.

Em meio à frenética intemperança dos nossos tempos, as multidões agitadas ironicamente não buscam Deus onde Ele sempre pode ser encontrado — no silêncio de suas próprias almas.

Fonte: Return to Order | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

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O samba da “pluralidade” de uma nota só

Os modernos arautos da “tolerância” só sabem tolerar, na verdade, quem pensa como eles.

"Presidente da CNBB, o cardeal Sergio da Rocha enviou carta a Temer recomendando a indicação de Ives Gandra Martins Filho para o STF", informa a Folha de S. Paulo. "Os arcebispos dom Odilo Scherer e dom Orani Tempesta também manifestaram apoio ao jurista".

Outros que "entregaram ao Palácio do Planalto cartas de apoio a Ives Gandra Filho para o STF", de acordo com Lauro Jardim, foram os líderes da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil e da Conferência Nacional das Igrejas Evangélicas do Brasil.

Nas redes sociais, foi lançada uma campanha para que as pessoas entrem em contato com o Gabinete da Presidência, pedindo a Michel Temer que indique Ives para a Suprema Corte. Muitos estão fazendo a sua parte e a pressão já está surtindo efeitos.

Do outro lado, as críticas à indicação de Ives continuam, evidentemente, a todo vapor — ainda que os métodos empregados nem sempre sejam os mais honestos. No último dia 30, foi a vez do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) manifestar o seu repúdio ao nome de Ives Gandra. Alega-se, entre outras coisas, que suas posições seriam um grave atentado à "configuração plural" do "conceito de família". Para entender o que isso significa, basta explicar que o IBDFAM é conhecido por defender a poligamia. Para Maria Berenice Dias, uma das fundadoras da organização, a monogamia não passa de "uma mera convenção decorrente do triunfo da propriedade privada sobre o condomínio espontâneo primitivo" — noção que ela aprendeu com ninguém menos que Friedrich Engels.

Compartilha de semelhante opinião o ministro Luiz Edson Fachin, que já foi membro do mesmo instituto. Em prefácio ao livro "Da Monogamia – A sua Superação como Princípio Estruturante do Direito de Família", do seu ex-aluno Marcos Alves da Silva, Fachin pede a superação da monogamia, considerada por ele como um "jugo". Os que defendem que um homem deve ter uma só mulher e vice-versa são comparados pelo jurista a uma "gosma com verniz de epidérmico conhecimento" — mais ou menos como Ives Gandra Filho e a maioria da população brasileira.

Acontece que, no Brasil, a bigamia é crime tipificado pelo art. 235 do Código Penal e o casamento exige dos cônjuges, segundo o art. 1.566 do Código Civil, o dever de "fidelidade recíproca".

Mas, quando nomeado para o Supremo, algum desses veículos de imprensa que agora vociferam contra Ives Gandra pediram a Fachin algum tipo de explicação?

Não, nenhum.

Outro ministro conhecido por suas posições progressistas é Luís Roberto Barroso. Muito antes da patética decisão de dezembro de 2016, quando ele tentou usar um habeas corpus para descriminar o aborto até o terceiro mês de gravidez, o advogado Barroso já havia reconhecido, em entrevista, que "a mulher tem o direito fundamental a escolher se ela quer ou não ter um filho" — mesmo depois de concebido.

Acontece que, no Brasil, o aborto é crime (Código Penal, art. 124), violação do direito fundamental à vida do nascituro (Constituição Federal, art. 5.º, caput; Código Civil, art. 2.º).

Mas, quando indicado para o Supremo, algum desses veículos de imprensa que agora bradam contra Ives Gandra pediram a Barroso algum tipo de explicação?

Mais uma vez, não, absolutamente nenhum.

Este é, portanto, o samba da "pluralidade"… de uma nota só. O Supremo pode albergar militantes ativos das mais variadas causas (inclusive as que estão à margem da lei!), mas uma pessoa, simplesmente porque é católica, contrária ao aborto e favorável ao casamento entre um homem e uma mulher, não só é considerada inapta para o cargo, como é execrada publicamente e tratada como a escória da humanidade.

Está comprovado: os modernos arautos da "tolerância" só sabem tolerar, na verdade, quem pensa como eles.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O assombroso poder de um presidente

Há algo de muito doentio em um sistema de governo que submete a dignidade humana às arbitrariedades de um homem, seja ele quem for.

A notícia de que Donald Trump assinou uma medida contra o financiamento público de ONGs pró-aborto em outros países fez com que ele caísse nas graças de muitos cristãos mundo afora. De fato, a decisão do recém empossado presidente americano foi um grande golpe para a "cultura da morte" e, exatamente por isso, merece todo o apoio. Nenhuma fundação que se considere humanitária, mas defende o aborto, pode ser subvencionada.

Por outro lado, o histórico dessa mesma lei, agora novamente em vigor nos Estados Unidos, causa séria perplexidade.

Em 1984, na Cidade do México, o então presidente americano Ronald Reagan assinou um decreto que exigia, como condição para o financiamento das organizações não-governamentais, a não promoção do aborto em outras nações como método contraceptivo. Essa lei ficou conhecida como Mexico City Policy e perdurou até 1993, quando Bill Clinton assumiu a presidência e a revogou. Durante o mandato de George Bush Filho, a Mexico City Policy voltou a vigorar no país. Com Barack Obama, no entanto, as ONGs pró-aborto tiveram uma nova oportunidade para promover suas ideologias no exterior. A assinatura de Trump nesta última semana foi apenas mais um set dessa espécie de "ping-pong político" que, infelizmente, deve continuar nas próximas gestões.

Acontece que a Mexico City Policy não é apenas uma medida a respeito de juros ou piso salarial. Não é apenas uma questão periférica, que pode ser mudada a cada quatro anos, segundo o projeto político do novo presidente. A Mexico City Policy diz respeito ao direito à vida de milhões de pessoas. É escandaloso, portanto, que uma questão tão delicada e grave seja tratada como jogo político e manipulação ideológica. Ninguém tem o direito de decidir quem deve viver e quem deve morrer. Isso deveria ser algo muito claro para as pessoas, sobretudo para aquelas que exercem alguma liderança política. Mas o fato de ninguém se pronunciar acerca desse problema mostra o quanto a sociedade está míope e, por conseguinte, incapaz de identificar a real causa de grande parte dos crimes contra a dignidade humana.

O Papa Bento XVI acertou em cheio quando avisou que "a negação de um fundamento ontológico dos valores essenciais da vida humana termina, inevitavelmente, no positivismo e leva o direito a depender das correntes de pensamento predominantes numa sociedade" [1]. Hoje um presidente assina um termo pró-vida, amanhã outro assina um termo pró-morte. E "assim caminha a humanidade", como diz a canção, sob o arbítrio das canetadas de quem está mandando. Há algo de muito doentio em um sistema de governo que submete a dignidade humana às arbitrariedades de um homem: "Maldito o homem que confia no homem" (Jr 17, 5). Se nem o Papa pode ser "um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis", imagine o presidente de um país [2]. Ele deve estar a serviço da lei, e não a lei a seu serviço.

De fato, quando não há fundamento seguro para nosso agir, "abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político" [3]. Ao se afastarem da lei natural e dos ensinamentos da Igreja, as pessoas não adquiriram mais liberdade, como postulavam as serpentes do Iluminismo. Elas tornaram-se reféns delas mesmas e de suas escolhas.

Está claro que a fidelidade à lei natural, isto é, àquilo que nos define como pessoas humanas e de onde derivam todos os nossos direitos, deve voltar a ser respeitada e preservada. Como explicou Bento XVI ao Parlamento Alemão, o homem "é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo" [4]. Um verdadeiro governo, portanto, é aquele que respeita essa dignidade do ser humano acima de suas próprias vontades e convicções. Nem a vida, nem a família, nem o sexo podem ser objeto de manipulação ideológica, e tanto menos reféns da assinatura de um presidente.

A decisão de Trump, claro, é bem vinda. Mas está longe de trazer a verdadeira segurança que os homens precisam para viver livremente. É como se a liberdade fosse uma concessão do Estado para a cada quatro anos. O Estado virou Deus. E enquanto esse tipo de mentalidade torpe prevalecer, a "ditadura do relativismo" continuará a cortar cabeças, segundo o último programa de governo da moda.

Por isso, acorde! As próximas canetadas podem ser contra você!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Discurso aos membros da Comissão Teológica Internacional reunidos em Sessão Plenária, 1º de dez. 2005.
  2. ________, Homilia, 7 de maio de 2005.
  3. ________, Audiência Geral, 16 de jun. 2010.
  4. ________, Discurso ao Parlamento Federal, 22 de set. 2011.

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Por que incomoda tanto o nome de Ives Gandra para o STF?

Mal o nome de Ives Gandra Filho despontou como favorito para o STF, a mídia já começou a praticar o seu habitual “assassinato de reputações”.

Nesta semana, tão logo o nome de Ives Gandra da Silva Martins Filho despontou como favorito para o Supremo Tribunal Federal — conforme previsão acertada da mídia alternativa —, a imprensa convencional, pouco dada à imparcialidade, já começou a praticar o seu habitual "assassinato de reputações".

Para o colunista Lauro Jardim, de O Globo, por exemplo, Ives seria "um legítimo representante do século XIX no Supremo". Um site da periferia virtual, do qual não vale a pena fazer propaganda, afirma que a nomeação de Gandra seria o avanço da "seita fascista" Opus Dei no Brasil. Até as revistas Carta Capital e Veja, que normalmente não se sintonizam em matéria política, entraram em um acordo: para a primeira, "Ives demonstra um pensamento preocupante sobre matéria de família"; para a segunda, "Gandra é tido como honesto, católico fervoroso e acima do bem e do mal (!)" (o que, evidentemente, não pode ser um elogio).

O chilique dos jornalistas é devido, obviamente, às posições conservadoras que Ives Gandra manifestamente sustenta em questões de moralidade. Para suscitar o escândalo em relação ao jurista, que é hoje presidente do Tribunal Superior do Trabalho, a mídia faz questão de ressuscitar inclusive trechos de uma obra sua de Direito Constitucional, na qual o ministro defende a complementaridade dos sexos para a existência de um verdadeiro matrimônio, afirma o caráter especialmente procriativo da sociedade conjugal (sexo tem a ver com filhos, não é algo extraordinário?) e condena a realidade do divórcio, cuja admissão no direito positivo só o que tem causado é "maior número de separações", "maior número de filhos desajustados" e "maior despreparo para o casamento".

Em resumo, Ives Gandra Filho parece ostentar apenas um "defeito": pensar como a maioria dos brasileiros pensa. Sim, porque, independentemente da religião a que pertençam, a verdade é que a maior parte dos brasileiros é contrária ao aborto, é contrária ao divórcio, é contrária ao casamento gay, ao mesmo tempo em que é a favor da vida, a favor da família e a favor do casamento monogâmico natural. Todas essas questões, portanto, que para a mídia liberal parecem pesar em desfavor de Ives, para qualquer brasileiro médio é (ou pelo menos deveria ser) motivo de grande satisfação. Com a nomeação de Ives Gandra para o Supremo, finalmente teríamos, na mais alta instância do Poder Judiciário, um ministro de identidade cristã, capaz de falar diretamente aos cidadãos de bem de nosso país.

Porém, é evidente, um bom juiz não se deve medir por sua "representatividade", mas por atuar conforme a lei — e nisso, igualmente, Ives Gandra Filho só parece acumular ainda mais pontos a seu favor. Crítico ferrenho do ativismo judicial, Ives Filho aprendeu com o pai que, para manter o equilíbrio em uma democracia, cada esfera do poder deve manter-se sadiamente dentro de seus limites institucionais, os quais foram fixados pela própria Constituição. Dele não ouviremos, portanto, que um magistrado, depois da investidura, não deve satisfação a mais ninguém. Por sua atuação, não seremos surpreendidos com a criação ou revogação arbitrária das leis de nosso país. Isso porque, muito antes de ser indicado para o STF — e mesmo que a sua nomeação não aconteça —, Ives Filho já tem demonstrado compreender, tanto em sua obra quanto em sua atuação junto à magistratura, o que significa zelar, afinal, pela "guarda da Constituição".

A reação frenética da mídia, então, o que revela?

Na verdade, ela fala muito mais do jornalismo brasileiro que da pessoa de Ives Gandra. Ela mostra o grande descompasso cultural em que estão os nossos agentes midiáticos: eles pendem tanto para as suas próprias certezas e opiniões que se tornaram incapazes — absolutamente incapazes — de mediar qualquer coisa. A redação de Veja fala, por exemplo, em matéria citada mais acima, que, com as suas visões, "[Ives Gandra] muito provavelmente será contra [...] pautas progressistas que conseguem grande mobilização na sociedade". Quais são essas tais "pautas progressistas" que conseguem "grande mobilização" social, é coisa que Veja não diz. Mas ela não diz porque, na verdade, essas coisas simplesmente não existem. O que a redação de Veja certamente quis dizer é que Ives se oporá a causas que conseguem "grande mobilização"... nas redações de jornais e nas universidades. E isso, dadas as circunstâncias terríveis em que se encontram esses ambientes, é muito mais motivo de aplausos que de desabono.

Por essas e outras razões — as quais ficaremos felizes em expor, se Deus permitir, numa outra oportunidade —, o nome de Ives Gandra Martins Filho para ocupar uma cadeira no Supremo é, sem sombra de dúvida, o melhor entre todos os que até agora apareceram. E ninguém põe em questão que se trata de um homem "de notável saber jurídico e reputação ilibada" — requisitos teoricamente indispensáveis para alguém ser ministro da Suprema Corte (conforme art. 101 de nossa Constituição).

Quanto ao barulho da mídia liberal e anticatólica, não se trata propriamente de um problema. Antes, é a prova clara de que sua nomeação será um excelente negócio para o Brasil. E por muitos anos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Uma resposta católica às indignidades do homem moderno

Em uma sociedade atingida pela desumanização cada vez maior da pessoa, nada como recordar a vida e o magistério do Papa São João Paulo II.

"Perdendo o sentido de Deus, tende-se a perder também o sentido do homem, da sua dignidade e da sua vida." (Evangelium Vitae, 21)

Por Brian Kranick — Muitos podem ficar perplexos, mas é fato histórico que Adolf Hitler, um dos mais prolíficos genocidas em massa que o mundo já conheceu, foi também um vegetariano a quem causava horror a crueldade com os animais. Esse mesmíssimo e peculiar enigma foi revisitado quando a organização PETA (sigla em inglês para "Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais") lançou a peça publicitária "Holocausto no seu prato" (Holocaust on Your Plate), em 2003, comparando animais confinados para consumo a prisioneiros judeus em campos de concentração nazistas. Como notou Richard Weikart, ironicamente ambos os grupos, os nazistas e o PETA, caíram na falácia do antropomorfismo, obscurecendo a distinção que existe entre humanos e animais. Esses são exemplos extremos, mas que lançam luz sobre uma profunda confusão filosófica da era moderna a respeito da dignidade da vida humana. Subjacente a essa desvalorização do homem está uma negação implícita da personalidade.

Essa visão misantrópica infelizmente está em ascensão na cultura ocidental. Para se ter uma ideia do problema, basta olhar para a grande onda de indignação e repúdio às mortes do leão Cecil e do gorila Harambe. O outro lado da supervalorização da vida animal pode ser, muitas vezes, o desprezo pela vida humana; o escândalo por causa de Cecil e Harabe contrasta fortemente com a complacência de nossa cultura em relação ao aborto, à eutanásia, à eugenia, ao suicídio e ao suicídio assistido. Essa "cultura de morte" é a dimensão negativa do esforço moderno por remodelar o ser humano simplesmente como um animal ordinário, não mais dotado de uma dignidade ontológica ou de um propósito teleológico dados por Deus. A vida humana se torna dispensável, em comparação com o reconhecido bem maior da sociedade ou do Estado, ou com o capricho do indivíduo. O valor da pessoa humana hoje se tornou obscuro.

Como chegamos a esse ponto?

A mistura da dignidade do homem e do animal não é senão sintoma de uma outra confusão, mais geral e sutil. O crescente desapreço pelo fato de o homem ser especial atravessa os séculos, tendo como incremento subversões filosóficas às bases do verdadeiro conhecimento.

O núcleo dessa crise está na epistemologia. A amplitude e a profundidade do conhecimento humano foram sacrificadas nos altares do ceticismo e do materialismo. Esse erro epistemológico moderno gira em torno da negação de nossa verdadeira natureza humana como seres compostos, de corpo e alma. Como consequência dessa separação, os primeiros passos em falso foram dados na filosofia.

Alguns traçam os erros do secularismo moderno até Guilherme de Ockham, no século XIV, para quem essências universais, como a humanidade, não eram reais, mas apenas extrapolações nominais em nossas mentes. A teoria de Ockham era de que não existiam formas universais, apenas formas individuais. Isso minou parte de nossa habilidade de explicar a realidade objetiva. Se não há nenhuma forma humana universal, ou natureza humana, então estamos privados de satisfazer os fins de nossa natureza e o nosso propósito teleológico. Uma vez que essas coisas se foram, não é difícil imaginar uma confusão de personalidade e uma perda de ética.

Na era do Iluminismo, empiristas como Locke e Hume propuseram que apenas o fenômeno de uma coisa podia ser conhecida, não a coisa em si. Assim como Ockham, eles rejeitaram o conhecimento abstrato dos universais em favor simplesmente da experiência sensível. Em outras palavras, eles trocaram nosso conhecimento intelectual e espiritual por um semelhante ao dos animais. Kant, de modo similar, só admitia que conhecêssemos "as coisas tal como se conheciam", tal como interpretadas pela mente, mas não "as coisas em si mesmas". Esse "geocentrismo epistemológico", como o chamava o padre Stanley Jaki, impede-nos de conhecer a Deus, a alma e a natureza completa da realidade.

Mas talvez o golpe mais devastador ao entendimento de nossa natureza composta venha do materialismo biológico, na forma do darwinismo do século XIX. A teoria de Darwin tornou o materialismo biológico estrito e o cientificismo os únicos conhecimentos predominantemente "aceitáveis". Não mais era necessária uma criação especial do homem por Deus, ou uma alma intelectual e imaterial. O homem seria apenas um primata evoluído, criado através de forças cegas, erros genéticos e graças à sobrevivência dos mais fortes. A separação de corpo e alma, iniciada em filosofias dos séculos anteriores, estava agora completa. Como notou Chesterton, " o que a evolução nega em especial não é a existência de Deus, mas a existência do homem". O homem não era mais um ente composto espiritual, mas apenas uma criatura física.

O mundo que o materialismo forjou

Esse reducionismo materialista teve grandes repercussões na visão de mundo moderna e na desumanização do homem. Quando os materialistas finalmente tomaram o poder, os regimes comunistas, de Stálin, Mao e Pol Pot, mataram cerca de 100 milhões de pessoas. Também o darwinismo social se infiltrou no pensamento do Ocidente, espalhando a ideia de que havia pessoas "aptas" e "inaptas", bem como raças "superiores" e "inferiores". Isso se tornou notável na Alemanha nazista, onde noções racistas eram supostamente "provadas" e "justificadas" pela ciência. Hitler abraçou completamente essa ideia da ética evolucionista em sua marcha rumo à guerra e ao genocídio.

A evidência do século passado mostra como a ética evolucionista é, na verdade, ética nenhuma. Ela mina nossa segurança em relação à moralidade, tornando-a subjetiva e, no espírito dos nossos tempos, relativista. O reducionismo material alterou a visão das pessoas sobre a santidade da vida humana, desvalorizando o que significa ser humano. A alma se tornou meramente um epifenômeno da matéria. Nesse sentido, o Cristianismo está em desacordo com o materialismo darwinista estrito, tal como oposto à teoria geral da evolução, com a qual, na verdade, não existe conflito algum. Esse materialismo dogmático nega a priori até mesmo a possibilidade de causalidade final no homem. Ela reprime falsamente a razoabilidade da fé em Deus, de nossos princípios morais e o conhecimento de nós mesmos como seres espirituais.

Infelizmente, esse reducionismo epistemológico não tem só persistido, mas também aumentado, até o presente. Ainda que haja algum progresso contra a cultura da morte, ainda permanece uma espécie de amnésia, persistindo em nossa psiquê cultural, acerca da dignidade humana. Não surpreendentemente, também tem acontecido um simultâneo afastamento da fé, como evidenciam os números recorde de não-religiosos e ateus em entrevistas recentes (i.e., o "crescimento dos Nenhum", que assinalam "nenhuma" preferência religiosa).

Uma resposta católica

Como nós, católicos, devemos reagir a tudo isso? Comecemos reafirmando que existem muitas razões boas, intelectuais e multifaces para crer. O Cristianismo e a fé em Deus são perfeitamente razoáveis, não obstante os protestos dos materialistas científicos modernos e dos ateístas. Ciência e teologia, fé e razão não são opostas uma à outra, mas são "como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade" [1]. De fato, nunca antes se teve disponíveis tantos registros científicos avançados que apontam para um Criador. Que melhor comprovação poderia haver, por exemplo, do argumento cosmológico de Santo Tomás para Deus como o "primeiro motor", que o Big Bang e a sua última evidência: radiação cósmica de fundo em micro-ondas?

O Cristianismo foi construído sobre a revelação, é claro, mas também sobre a razão. Jesus mandou-nos amar a Deus com todo o nosso entendimento (cf. Mt 22, 37). A tradição intelectual do Ocidente e a sua ciência empírica são, no fim das contas, frutos de nossa civilização cristã. A disputa com o secularismo moderno só surge com a negação materialista de Deus e da alma humana, por serem uma negação de nosso próprio ser. O ateísmo sofre de um defeito epistemológico, que é o de negar a personalidade. Como afirma o Papa Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum, de 1891, "o que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência" [2]. Devemos abraçar a ideia da personalidade e a filosofia do personalismo como parte de nossa ética e visão de mundo, e como um bastião contra as filosofias desumanizadoras de nosso tempo.

Um dos grandes proponentes da moderna filosofia do personalismo foi o Papa São João Paulo II. Quando era apenas Karol Wojtyla, ele testemunhou em primeira mão essas forças desumanizadoras do materialismo na Polônia, inicialmente sob a ocupação nazista e, depois, debaixo do comunismo soviético. Ele esteve no epicentro de ambas as sanhas totalitárias e observou o que chamava de "pulverização" da pessoa humana. Foi em reação a essas ideologias destruidoras e às tiranias políticas subsequentes que ele ajudou a liderar um novo movimento filosófico e uma teologia moral focada na dignidade absoluta da pessoa humana.

Wojtyla defendia um "personalismo tomista", uma filosofia focada na dignidade transcendente de cada pessoa. O seu personalismo em particular era fundado na metafísica clássica de Santo Tomás de Aquino, bem como na visão cosmológica do ser humano como um ente apartado do resto da criação por seu intelecto e por sua natureza racional.

Wojtyla procurou ir além disso, no entanto, a fim de explicar a "totalidade da pessoa". Ele reconhecia a grande importância, para a experiência humana, da perspectiva interior. Esta ele a chamava de "subjetividade", experimentada na consciência de cada pessoa, da qual não poderia sequer haver duas iguais. Cada pessoa, então, é absolutamente irrepetível, insubstituível, incomunicável e irredutível.

O Papa João Paulo falava disso em termos práticos, em seu "princípio personalista", dizendo que o ser humano deve sempre ser tratado como um fim em si mesmo, sem jamais ser submetido a outrem como meio para atingir um fim. Internalizar esse princípio produziria inevitavelmente aplicações práticas concretas, tais como ir contra a escravidão e o tráfico humano. Mas também poderia ajudar a colocar a sociedade atual contra a normalização dessa cultura de morte, com seus impulsos de descaracterizar a pessoa humana, como se viu recentemente na Holanda — onde praticaram a eutanásia com um homem por ele ser alcóolatra — e no discurso de Peter Singer — o ético utilitarista de Princeton que pediu pelo fim da vida de crianças deficientes.

Cada ser humano é único

Como católicos, nós devemos sempre defender a dignidade inviolável da pessoa humana, princípio que remonta ao próprio Gênesis, é claro, onde lemos que "Deus criou o homem à sua imagem" ( Gn 1, 27). O Magistério faz eco disso ao chamar cada um de nós de "sinal do Deus vivo, ícone de Jesus Cristo" [3]. Temos uma transcendência interior em comum com nosso Criador. Nós, humanos, somos relacionais e seres sociais, feitos em conformidade com Deus, uma trindade de Pessoas intrarrelacionais.

Por ser imagem de Deus, há algo de especial no homem, que o separa de todo o resto da criação. Nós, sozinhos, podemos dizer "Eu". Nenhum outro animal, por mais belo que pareça, pode pronunciar algo assim. Eles estão limitados pelo instinto. Mesmo nos mais elevados primatas, como no caso fascinante de Koko, a gorila que se comunica por sinais, a disparidade continua sendo imensa. Nas palavras do Papa João Paulo, é preciso dar "um salto ontológico" para atravessar o "grande abismo" que separa pessoa e não-pessoa. Só o ser humano é capaz de pensamento racional e abstrato, livre arbítrio, autoconsciência, ação moral, linguagem complexa, progresso tecnológica, propósito elevado, altruísmo, amor, criatividade, oração e adoração. O ser humano é diferente em grau e em substância, porque Deus formou cada pessoa da infinitude de Si mesmo [4].

No Novo Testamento, Jesus dá-nos o coração do personalismo com seu mandamento de "amar ao próximo como a si mesmo". Porque, como ele revela noutro lugar, "o que tiverdes feito ao menor destes meus irmãos, foi a Mim que o fizestes". Ao abraçar essa noção personalista em nossas vidas, nós nos livramos de nosso próprio egoísmo e frieza em relação ao próximo. Tornamo-nos capazes de ver a face de Deus no outro. Essa é a nossa vacina contra a desumanização da pessoa, juntamente com a adoção de uma cultura da vida que resista a séculos de ceticismo e materialismo e nos atraia a um conhecimento mais completo. O materialismo é apenas parcialmente verdadeiro. Ele nega a natureza mais elevada de nosso ser espiritual. Ao reconhecer a imagem de Deus em cada um, vemos o valor universal ontológico de cada pessoa, mesmo dos aparentemente menores e mais fracos de nós. Assim podemos, à luz do sacrifício de Cristo, contemplar "quão precioso aos olhos de Deus e quão inestimável é o valor da sua vida" com "a dignidade quase divina de cada homem" [5] — e agir de acordo com essa verdade.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 1.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica Rerum Novarum (15 de maio de 1891), n. 5.
  3. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995), n. 84.
  4. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2258.
  5. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995), n. 25.

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Como a Revolução Sexual arruinou a amizade

É difícil para as pessoas cultivarem amizades quando imagens de pessoas nuas pululam em seus cérebros com toda a fixação de um viciado em crack.

Por Jonathon Van Maren | Tradução: Equipe CNP — O panorama cultural de nosso século XXI está repleto de vítimas da Revolução Sexual, ainda que você tenha escutado exclusivamente suas armas propagandistas, a mídia e a academia, e provavelmente pense que todo o experimento tenha sido uma maravilha. A terra dos "não-homens", como resultado da "guerra dos sexos", está coberta com dúzias de novas doenças sexualmente transmissíveis, cérebros saturados com o crescimento da pornografia, casamentos desfeitos e futuros aniquilados.

Uma das vítimas da Revolução Sexual, porém, é significativa: a amizade.

É uma ironia da modernidade que as elites seculares acreditem ser perfeitamente razoável supor que a humanidade tem a habilidade de mudar o clima ou acabar com a pobreza, mas é incapaz de manter-se dentro de suas calças. Nós podemos fazer qualquer coisa, se nós nos focarmos nisso — exceto, é claro, pararmos de cair numa piscina de paixão primitiva no momento em que somos apresentados a uma oportunidade de (des)aventura sexual. Isso porque a "abstinência", informam-nos os gurus da Revolução Sexual, é "irrealista". Portanto, toda amizade é agora suspeita — amizade entre pessoas de sexo diferente especialmente, é claro, mas não só essa, certamente. Isso não é meramente uma observação minha. Muitos dos meus amigos, de várias classes sociais e visões de mundo, têm feito a mesma reclamação. "Amigos? Sei...", sugerem maliciosamente as pessoas, se você começa a passar o que elas consideram ser uma significativa quantidade de tempo com alguém... "interessante".

A cultura pop confirma e acentua essa nova concepção. Notem bem: quase todo seriado na TV tem os personagens deitando-se na cama um com o outro, como se isso fosse simplesmente uma questão de tempo para o alarme indicar que o período da "amizade" acabou e que o dos "amigos com benefícios" pode agora prosseguir. Na verdade, o esmagador hit da NBC nos anos 1990, o sitcom Friends, tinha quase todo personagem dormindo com o outro em algum momento. Neste ponto, o sexo é de pouca importância, e os velhos e nostálgicos hippies professores de história e de literatura aplicam retroativamente uma motivação sexual para cada expressão de amor e afeto que encontram. Desde Abraham Lincoln dividindo a cama com um amigo (como eles poderiam não ser gays?), passando pela antiga amizade do israelita rei Davi com Jonathan, até as linhas aparentemente homossexuais dos sonetos de Shakespeare, tudo agora é suspeito.

A noção de que "intimidade" necessariamente significa "relação sexual" — o que, obviamente, não é verdade — é um daqueles extraordinários reducionismos acerca da pessoa humana. A ideia de que dois seres humanos não podem dividir uma proximidade pessoal e uma relação significativa sem qualquer componente sexual pressupõe que o ser humano, em todas as suas gloriosas e bagunçadas complexidades, não pode estar interessado em ninguém sem tentar obter algo — e algo físico — dele. Pressupõe que amigos verdadeiros, amigos que dividem uma base comum para discutir sobre vida, liberdade e busca da felicidade, vão, ao final do dia, calcular o valor dessa amizade e trocá-la por um prazer físico fugaz, independentemente do custo. Pressupõe que o físico sempre vencerá o cérebro e o intelecto no julgamento moral que as pessoas fazem.

Essa atitude é estúpida, ofensiva, imoral e, penso, incrivelmente intolerante, na medida em que lança um pano de suspeita sobre muitos relacionamentos que nos tempos passados seriam considerados perfeitamente comuns. Embora, de modo especial, a Revolução Sexual tenha nos roubado muito do que é o tesouro de um longo matrimônio, a amizade ocupa quase o topo das perdas. Como escreveu C. S. Lewis, "a amizade não é necessária, como a filosofia e a arte… ela não tem nenhum valor de sobrevivência; ao contrário, é uma daquelas coisas que dá valor à sobrevivência".

Isto não quer dizer, obviamente, que a amizade não tem necessidade de limites (especialmente amizades de sexo diferente). Mas, como uma amiga minha mulher disse, talvez nossa cultura tenha "matado a amizade porque nós estamos tão fixados em sexo que terminamos por negligenciar ao invés de cultivar as amizades de quem talvez precise de nossa ajuda em tempos difíceis — e eles talvez não estejam nem aí para nós no futuro, quando precisarmos deles, porque nós estamos tão supersexualizados que tudo o que nos interessa é alimentar nossos prazeres sensuais". As estatísticas nos dizem que 64-68% dos homens e 19% das mulheres veem pornografia toda semana. É difícil para as pessoas cultivarem amizades quando imagens de pessoas nuas pululam em seus cérebros com toda a fixação de um viciado em crack. E quando você passa uma boa parte da sua noite programando o seu cérebro para ver as pessoas como objetos, torna-se substancialmente mais difícil voltar para o mundo real, com pessoas reais, durante o seu dia.

Como já escrevi antes, amizade duradoura é uma daquelas coisas que fazem a vida ser uma jornada extraordinária. Não é só pelo caminho que você está trilhando; é pelas pessoas que você convidou para lhe acompanhar. Elas estão lá porque você as quer lá, e por nenhuma outra razão que não seja a alegria da sua companhia. Se você as quer lá para ter algo delas, então não é verdadeira amizade. C. S. Lewis notou que "aqueles que não podem conceber a amizade como um amor substancial, mas apenas como um disfarce ou uma elaboração do Eros, traem o fato de que nunca tiveram um amigo". E que suposição terrível e reducionista é ver as pessoas desfrutando da companhia um do outro e assumir que a única coisa que eles têm para oferecer uns aos outros são favores sexuais. Não comprem as mentiras cuidadosamente propagandeadas pela hipersexualizada cultura pop e pornográfica. Para mim, a paisagem "liberal" que eles divulgam parece um abismo e um lugar solitário.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere