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Jesus não existiu, foi casado e teve filhos

Os “estudiosos” ainda não se decidiram se Jesus não existiu ou se foi casado e teve filhos. Para o efeito que eles pretendem alcançar, porém, nada disso realmente importa. Qualquer hipótese é aceitável, desde que diga o contrário do que está na Bíblia.

De tempos a tempos, depara-se-nos a notícia de que Jesus de Nazaré não existiu. A fonte da "boa-nova" é sempre algum estudo histórico seríssimo, que só a censura eclesiástica e os escrúpulos para com o sentimento religioso do povo puderam reprimir durante os últimos dois milénios. No entanto, já aprendi com a experiência destas coisas a suspender a minha opinião sobre estes estudos, pelo menos até que a maior parte dos que murmuram sobre eles, bem como a maior parte daqueles que os fazem, consiga decidir definitivamente se Jesus deveras não existiu ou se foi casado e teve filhos.

A impressão que fica é que qualquer hipótese é aceitável desde que diga o contrário do relato evangélico, ora afirmando que Jesus não existiu, ora atribuindo-lhe uma existência inusitada. Talvez um dia os cépticos venham a descobrir que estas teorias não passam pelo crivo do cepticismo e que a hipótese mais parcimoniosa é, afinal, a de que Jesus existiu, não casou, teve um ministério público nas cidades da Palestina, foi crucificado entre salteadores, morreu, e na manhã de Domingo o túmulo em que o haviam depositado estava vazio.

É claro que existem algumas boas razões para não acreditar nos estudos que concluem pela inexistência de Jesus e a maior razão entre elas é o facto de as testemunhas oculares estarem perfeitamente convencidas do contrário, o que é um aspecto que nenhum historiador digno do nome pode ignorar. Contudo, uma vez que os académicos que negam a existência do humilde carpinteiro de Nazaré parecem apostados em negligenciar essas testemunhas por terem acreditado no que viram, há que citar-lhes as palavras de outros que puderam informar-se razoavelmente sobre os acontecimentos, embora não fossem cristãos. A investigação dos relatos judaicos e pagãos da época, escritos por homens que não tinham o menor interesse em favorecer com as suas palavras a pregação cristã nascente, confirma notavelmente a narrativa ortodoxa da vida de Jesus de Nazaré.

A ajudar a nossa pesquisa, o historiador Lawrence Mykytiuk publicou recentemente um artigo em que sintetiza as informações sobre a vida de Jesus contidas nas principais fontes pagãs e judaicas. Mykytiuk nomeia vários autores antigos, mas é suficiente por agora concentrarmos a atenção em apenas três fontes — o pagão Tácito, o judeu Josefo e os escritos rabínicos dos primeiros séculos da era cristã.

Tácito é um formidável historiador da vida em Roma no primeiro século depois de Cristo. Era um homem de grande reputação entre os seus contemporâneos que foi procônsul na Turquia e senador em Roma. É no seu trabalho mais extenso, os Anais, posto por escrito no início do segundo século, no capítulo XV, 44, que Tácito fala de Cristo. As breves palavras que escreve sobre Jesus aparecem a propósito da perseguição que o imperador Nero moveu contra os cristãos. O parágrafo que redigiu, marcado por um laivo de desprezo pela «letal superstição» cristã, menciona Cristo - «Christus» - como fundador desse «mal». Esse homem, proveniente da Judeia, conta-nos Tácito, foi executado no tempo do imperador Tibério, às ordens do procurador Pôncio Pilatos. Este extraordinário pedaço de literatura antiga não apenas confirma a existência do fundador da nova religião, o Cristo, como confirma a narrativa da sua morte e o tempo em que ocorreram os eventos da vida de Jesus, algures entre os anos 26 e 36 da era cristã, o período em que Pôncio Pilatos foi procurador da Judeia enquanto Tibério era imperador.

O sacerdote hebraico, Flávio Josefo, que foi deportado para Roma por ocasião da revolta judaica contra Roma, iniciada em 66 d.C., é vulgarmente citado na presente questão por causa do que escreveu sobre Jesus no décimo oitavo livro das suas Antiguidades Judaicas, excerto que é conhecido pelos historiadores como Testimonium Flavianum. Outra referência que fez a Jesus, no vigésimo livro daquela obra, mais discreta e muito menos conteste, costuma passar despercebida. Esta menção está inserida na narrativa da sentença de morte de Tiago, proferida pelo sumo sacerdote Ananias. Tiago era um nome muito comum na época e Josefo precisou de distinguir claramente a pessoa de quem estava a falar naquele trecho. Então, associou o nome de Tiago a outro nome, que, aparentemente, o tornaria claramente reconhecível, o nome do seu primo Jesus.

Porém, como o nome Jesus era também de uso frequente naquela época, Josefo diferenciou a pessoa a que se referia escrevendo que era aquele a quem chamavam o Messias, ou, em latim, «Christus». A menção incidental de Jesus, servindo apenas a função de identificar Tiago, só faz sentido se tratar de alguém que realmente existiu e que poderia ser um ponto de referência para os leitores da época. Josefo parece considerar que a mera indicação do parentesco com Jesus para distinguir Tiago é bastante, o que sugere, como hipótese mais provável, que Jesus já deveria ser conhecido do leitor por alguma menção feita anteriormente na obra — ao que tudo indica, o célebre passo do décimo oitavo livro. Este excerto, que confirma, entre outros aspectos, a história do julgamento e crucificação de Jesus, merece considerações mais demoradas, para as quais devolvo o leitor ao artigo de Mykytiuk.

O testemunho que mais me impressiona sobre Jesus é aquele que é dado pelos seus inimigos. Aqueles contemporâneos do primeiro século a quem Jesus foi mais incómodo seriam aqueles que teriam todo o interesse em contar a verdade sobre o mito de Jesus, mito que seria singularmente frágil, uma vez que os cristãos pregavam que o seu mestre havia tido um ministério público nas cidades da Galileia. No entanto, não o fizeram. As autoridades judaicas da época e as tradições rabínicas falavam de Jesus como se ele tivesse realmente existido e chegaram mesmo a voltar contra o Nazareno os estranhos acontecimentos da sua vida, tal como já o haviam feito antes, quando disseram que era pelo poder do príncipe dos demónios que Ele expulsava os demónios. Pergunto-me se não seria poupar dores de cabeça e arrelias ter logo dito que ele não existira — a não ser que dizê-lo fosse um perfeito disparate; a não ser que Ele tivesse mesmo existido.

Como nota Mykytiuk, a esmagadora maioria dos historiadores não questiona a existência de Jesus — as vozes que bradam no deserto para a negar, quaisquer que sejam os motivos pelos quais o fazem, não o fazem, certamente, por motivos científicos.

É óbvio que estas fontes vêm trazer um grande reforço à tese de que Jesus foi casado e teve filhos, uma vez que existiu para o efeito. Talvez seja de esperar, portanto, um consenso entre os autores de estudos sobre de que maneira é que a Bíblia há-de estar errada.

Por Hugo Monteiro Dantas | Fonte: Senza Pagare | Destaques por Equipe CNP

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Filhos são um dom de Deus, não um “direito”

Por trás da mentalidade que justifica os métodos reprodutivos condenados pela moral cristã está um erro tão básico quanto funesto: conceber o filho, não como um dom de Deus, mas como um direito e uma “commodity” a ser produzida e comercializada.

Por Leila Miller — Em nossa sociedade, os adultos têm "descoberto" e se arrogado novos "direitos" num ritmo assustador, e isto em detrimento dos verdadeiros direitos — inclusive os das crianças. Depois de ler há alguns anos o seguinte parágrafo do Catecismo, decidi pôr fim às minhas buscas. Eu nunca mais o esqueci, talvez porque a cultura em que vivemos o tenha esquecido completamente:

O filho não é algo devido, mas um dom. O "dom mais excelente do matrimônio" é uma pessoa humana. O filho não pode ser considerado como objeto de propriedade, a que conduziria o reconhecimento de um pretenso "direito ao filho". Nesse campo, somente o filho possui verdadeiros direitos: o "de ser fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais, e também o direito de ser respeitado como pessoa desde o momento de sua concepção" (CIC 2378).

A Igreja está dizendo aos adultos: vocês não têm direito a um filho. Vocês têm um direito natural e de origem divina a muitas coisas, mas um filho não é uma delas.

E por quê? Porque a criança é um dom, um presente.

Talvez já tenhamos ouvido esta frase cá e lá, mas será que a entendemos de fato? Pensemos na natureza de todo e qualquer dom — trata-se de algo que, em si mesmo, nunca é "devido". Um dom é algo entregue livre e voluntariamente pelo doador; nunca é exigido nem reivindicado. Não podemos forçar quem quer que seja a dar-nos um presente, porque neste caso ele já não seria mais um presente.

A partir do momento em que um adulto acredita que ter um filho é um "direito" seu, a criança passar a ser vista como objeto de uma prestação que tem de ser satisfeita, quaisquer que sejam os meios necessários para isso. Tratar-se-ia de uma questão de justiça, uma vez que temos direito aos nossos direitos!

Mas quando nossas ideias chegam a este patamar (e isto aconteceu em nossa cultura), começamos a justificar os meios de "conseguir" o filho que nos é devido; a criança é agora uma commodity a ser produzida e adquirida. Além disso, visto que um filho é "considerado um objeto de propriedade", como diz a Igreja, tornam-se permitidas todas as formas de injustiça praticadas contra as crianças. Afinal de contas, o que é que fazemos com nossa propiedade? Ora, tudo o que quisermos: comprar, vender, manipular, dispor etc. Uma propriedade não tem absolutamente direito a nada.

Ainda assim, a Igreja diz às crianças: vocês têm o direito de nascer do ato conjugal daqueles que são seus pais. Vocês, crianças, são as únicas que "possuem verdadeiros direitos" nesse campo da existência humana.

Apesar das opiniões que por aí circulam, toda criança tem o direito natural e primordial de ser concebida a partir de um ato de amor entre seu pai e sua mãe, unidos em matrimônio. Fechemos os ouvidos ao murmúrio que nos rodeia, à falsa promessa de que "você pode ter tudo o que quiser". Não percamos de vista qual era o projeto originário de Deus, "no princípio", para o casamento e a família — a criança é fruto da união de seus pais em uma só carne. Esse projeto não foi alterado.

Ora, uma vez que a criança tem direito a ser o "fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais", técnicas reprodutivas como, por exemplo, a FIV (fecundação in vitro), a doação de esperma e as chamadas "barrigas de aluguel" são sempre moralmente reprováveis. A advogada pró-vida Dorinda Bordlee, do Bioethics Defense Fund (Fundo de Defesa Bioética), chama a estes procedimentos "tráfico de reprodução humana": negociam-se contratos e investem-se vultosas somas de dinheiro para comprar gametas humanos. A concepção de uma criança é posta literalmente na mão de terceiros, e as mães e pais biológicos são alugados, comprados e vendidos como simples "partes" de um corpo.

Esta é uma verdade que nem todos estão dispostos a ouvir. Afinal, o que poderia haver de errado com o desejo de ter um filho, sobretudo quando se trata de casais inférteis e de boa vontade que, desesperados por trazer um bebê para casa, não têm a intenção nem de descartar os embriões "excedentes" durante um ciclo de FIV nem de "reduzir seletivamente" (ou seja, abortar) uma ou mais crianças, já que muitas são implantadas? A resposta é que não há nada de errado com o desejo em si. O desejo de um marido e uma mulher de ter um filho é bom e santo. Mas a boa intenção deles não justifica o uso de meios maus (cf. CIC 1750-1761).

A infertilidade é, de fato, uma cruz pesada, e os casais inférteis podem, sem dúvida nenhuma, servir-se de todas as tecnologias reprodutivas moralmente aceitáveis à disposição para tratar ou curar sua infertilidade, a fim de conceberem e criarem uma criança de modo natural. Aqui se incluem, por exemplo, as terapias hormonais e os fármacos que estimulam a ovulação ou facilitam a implantação do embrião. Há ainda as terapias holísticas (como a NaPro Technology), voltadas para a cura dos problemas de saúde responsáveis pela infertilidade, algo que as técnicas de reprodução artificial são incapazes de fazer.

Uma bela opção para os casais que ou não podem conceber, mesmo depois de um tratamento, ou que preferem renunciar a métodos terapêuticos é a adoção. Mas alguém poderia objetar: acaso a adoção não trata a criança como um "direito", e não como um dom? E o que pensar do fato de um filho adotado não ficar sob os cuidados do casal que o concebeu? Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que a adoção se ordena, antes de tudo, a suprir as necessidades da criança, e não a satisfazer os desejos dos adultos (embora, é claro, isso possa ser uma feliz consequência). A adoção, portanto, consiste em recuperar o que a criança perdeu. É ela que possui aqui os direitos, não os adultos.

De acordo com o Catecismo, o outro direito fundamental de que a criança é titular é o de "ser respeitada como pessoa desde o momento de sua concepção". O "dom mais excelente do matrimônio", uma nova pessoa humana, é uma vida sagrada e inviolável, como todos nós o somos. Toda criança concebida vem ao mundo para amar e ser amada, e nunca, evidentemente, para ser morta. Esta realidade afirma e protege não somente a dignidade da criança, mas também a dignidade de toda pessoa, assim como a do matrimônio.

A criação e as leis de Deus são belas porque formam uma tapeçaria de verdades. Talvez fiquemos confusos e perdidos em uma cultura relativista e consequencialista; mas, quando voltamos à razão, quando esclarecemos nossas ideias e abrimos nosso coração para os primeiros princípios, todas as coisas vão para os seus devidos lugares e nos tornamos capazes de enxergar a beleza do perfeito projeto de Deus.

Fonte: Catholic.com | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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C. S. Lewis: um protestante que cria no Purgatório

“É claro que eu rezo pelos mortos”, dizia C. S. Lewis. “Que tipo de relacionamento eu poderia ter com Deus, se aqueles a quem eu mais amo não pudessem ser mencionados diante dEle?”

C. S. Lewis é considerado um dos maiores apologetas cristãos do século XX. Muitas de suas obras foram traduzidas para o português, dentre as quais merecem destaque "Cristianismo Puro e Simples" e "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz". Seu maior sucesso, no entanto, é sem dúvida "As Crônicas de Nárnia", obra sua de ficção que ganhou as telas do cinema e fez inúmeros fãs, de todas as idades.

Embora sua conversão a Cristo esteja profundamente associada à Igreja Católica — pois foi o escritor católico J. R. R. Tolkien quem o convenceu da verdade da fé cristã —, C. S. Lewis escolheu professar, para desgosto do amigo, a confissão anglicana, na qual permaneceu até o fim de sua vida.

Curiosamente, porém, C. S. Lewis acreditava no Purgatório. Os reformadores protestantes negaram esse dogma católico, no século XVI, e Martinho Lutero chegou a arrancar do Cânon das Escrituras os dois livros veterotestamentários dos Macabeus, que continham exemplos de orações dos judeus pelos mortos. Em 1801, uma convenção episcopalista definiu, entre os artigos de fé da comunhão anglicana, que "a doutrina católica a respeito do Purgatório" seria "uma coisa fantasiosa, inventada inutilmente e sem nenhuma base na Escritura, sendo repugnante, na verdade, à Palavra de Deus".

Como essas definições protestantes nunca passaram, entretanto, de convenções humanas — e os próprios evangélicos o admitem —, Lewis aparentemente não via problema algum em dar crédito à doutrina católica sobre o Purgatório. Sua confissão é manifesta na obra Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer, publicada postumamente em 1964:

É claro que eu rezo pelos mortos. A ação é tão espontânea, tão inevitável, que só o tipo teológico mais compulsivo poderia dissuadir-me de fazê-lo. E eu não sei como o resto das minhas orações sobreviveria se aquelas pelos mortos fossem proibidas. Em nossa idade, a maioria daqueles que mais amamos estão mortos. Que tipo de relacionamento com Deus eu poderia ter, se o que eu mais amo não pudesse ser mencionado diante dEle?

Na visão protestante tradicional, todos os mortos estão ou condenados ou salvos. Se estão perdidos, a oração por eles é inútil. Se estão salvos, igualmente; Deus já fez tudo por eles. O que mais, então, deveríamos pedir?

Mas não cremos nós que Deus já fez e está fazendo tudo o que pode pelos vivos? O que mais deveríamos pedir? E, no entanto, somos comandados a fazê-lo.

"Sim", alguém me responderá, "mas os vivos estão ainda no caminho. Novas tentações, crescimentos e possibilidades de erro os esperam. Os salvos, ao contrário, foram elevados à perfeição. Eles completaram o percurso. Rezar por eles pressupõe que o progresso e a dificuldade ainda são possíveis. Na verdade, você está trazendo algo como o Purgatório."

Bem, eu suponho que sim. [...] Eu acredito no Purgatório.

A visão do autor anglicano tinha seus aspectos pessoais, é verdade. C. S. Lewis se incomodava, por exemplo, com as descrições fortes que São Thomas More e São João Fisher faziam do Purgatório, pois tinha a impressão de que as penas pareciam mais de um "Inferno temporário" que de um lugar propriamente de purificação. Agradava-lhe, ao contrário, o que ia retratado na obra poética The Dream of Gerontius, do Beato John Henry Newman, onde "a alma salva, bem aos pés do trono de Deus, implora para ser levada embora e purificada, sem poder suportar mais um momento sequer que a sua escuridão seja confrontada por aquela luz".

Precisamente nisso consiste o Purgatório. Como explicou certa vez o Papa Bento XVI, apresentando a conhecida doutrina de Santa Catarina de Gênova, "Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina". Por isso, "os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu" (Catecismo da Igreja Católica, § 1030) — santidade "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12, 14).

Em essência, portanto, C. S. Lewis tinha compreendido muito bem a doutrina sobre o Purgatório, mesmo estando fora da Igreja Católica:

Nossas almas têm necessidade do Purgatório, não? Não nos partiria o coração se Deus nos dissesse: "É verdade, meu filho, que teu hálito fede e que de tuas roupas gotejam lama e lodo, mas nós somos caridosos aqui e ninguém vai censurar-te por causa dessas coisas, nem se afastar de ti. Entra na alegria"? Não deveríamos nós replicar: "Com todo o respeito, senhor, e se não há nenhuma objeção, eu gostaria de ser purificado antes." "Isso pode doer, sabe" — "Mesmo assim, senhor."

Suponho eu que o processo de purificação irá naturalmente envolver sofrimento. Em parte por causa da tradição, em parte porque a maioria dos bens que recebi nesta vida envolveram sofrimento. Mas não acho que seja este o propósito da purgação. Posso acreditar muito bem que pessoas nem tão piores nem tão melhores do que eu sofrerão menos do que eu ou mais. [...] O tratamento dado será aquele requerido, doa o que doer, pouco ou muito que seja.

Evidentemente, pedir que todos os protestantes aceitem esse dogma católico, independentemente do lugar em que se encontrem, talvez seja querer demais. Guiados pelos excelentes argumentos do anglicano C. S. Lewis, no entanto, qualquer um deles pode admitir: é muito mais razoável purificar-se antes de entrar no Céu do que aparecer, com a alma suja e "fedendo", na presença do Altíssimo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Gênero e “mudança de sexo”: uma resposta às perguntas mais frequentes

Instituto de bioética dos Estados Unidos lança documento importante, respondendo com base científica às perguntas mais frequentes sobre transtornos de gênero e operação de “mudança de sexo”.

A moda do momento é falar sobre transtornos de gênero e operações de "mudança de sexo" (eufemisticamente chamadas, agora, de "transgenitalização"). Em questão de pouquíssimo tempo, a mídia liberal parece não saber tocar em outro assunto. Revistas internacionais fazem o escarcéu. "Especialistas" falam de introduzir o tema em tudo quanto é lugar — inclusive nas escolas, para doutrinar crianças. E, mais recentemente, o programa "Fantástico" — boletim semanal da Rede Globo e um dos programas televisivos mais assistidos no Brasil — parece estar dedicando uma série especial para o assunto.

Ao mesmo tempo, porém, em que são muitas as informações divulgadas a esse respeito, são pouquíssimas as fontes isentas e confiáveis para saber a verdade sobre a "crise de gênero". Mais escassos ainda são os meios que se preocupam em apresentar uma análise moral de toda essa questão. Nada disso é de se espantar, considerando a "ditadura do relativismo" em que estamos imersos, com cada qual se achando o dono do próprio nariz e fazendo o que bem (ou mal) entende consigo mesmo, com sua família ou, o que é pior, com os filhos dos outros.

Nesse cenário caótico de ideologia e desinformação, a declaração a seguir, de autoria do National Catholic Bioethics Center ("Centro Católico Nacional de Bioética", com sede nos Estados Unidos), trata-se de um verdadeiro "oásis" de bom senso. O documento consiste num resumo didático das perguntas mais frequentes quando o assunto é transtornos de gênero e operações de "mudança de sexo". Qual a diferença entre sexo e gênero? Em que consiste uma cirurgia para "mudar de sexo"? É possível que uma pessoa se sinta mulher no corpo de um homem, e vice-versa?

Diferentemente das reportagens da Rede Globo, que se fazem de isentas enquanto tentam inocular uma ideologia no seio das famílias brasileiras, os autores da declaração a seguir não têm nada a esconder: são católicos, sim, e não têm vergonha alguma de exibir publicamente a sua identidade.

Quem quer que se detenha a ler o que eles escrevem, no entanto, não achará na defesa de seus postulados nenhum argumento de cunho religioso, muito menos apelos irracionais a emoções — que parecem ser a grande "cartada" dos ideólogos de gênero nos últimos dias. Os membros dessa instituição de bioética falam a partir de seus conhecimentos científicos e é principalmente por isso, antes de qualquer coisa, que seu parecer merece uma atenção especial.

Não deixem de ler e compartilhar esta peça informativa com seus amigos e familiares (especialmente àqueles que gostam de assistir ao "Fantástico" ou a qualquer outro programa tendencioso da TV aberta).

Perguntas frequentes sobre Transtorno de Identidade de Gênero e Operações de "Mudança de Sexo"

Do que estamos falando?

Operações de mudança de sexo não são necessariamente novas. A primeira ocorreu em 1953, com o ator George Jorgensen (mais conhecido por seu nome feminino, Christine). Mais e mais pessoas, no entanto, estão à procura de tais operações agora. Isso tem forçado instituições cristãs e católicas a abordarem a moralidade dessas operações, dado que elas podem começar a fazer parte de planos de seguro obrigatórios, condições de empregabilidade em escolas católicas ou mandados legislativos requerendo que hospitais católicos executem tais procedimentos.

O que é uma operação de mudança de sexo?

Uma operação típica de mudança de sexo consiste em duas partes. Primeiro, a pessoa é submetida a amplos testes psicológicos. Então, ele ou ela é colocado em um regime hormonal e, em seguida, submetido a cirurgia na qual a genitália (original) é removida e substituída pela genitália desejada. No caso de o procedimento ser a transição de homem para mulher, por exemplo, o pênis é removido juntamente com os testículos e no seu lugar é construída uma vagina de improviso. Na transição de mulher para homem, a mulher passa por uma histerectomia, para retirar o seu útero, e uma mastectomia, para remover os seus seios, sendo-lhe anexado, então, um pênis construído e não-funcional. A operação de mudança de sexo invariavelmente torna a pessoa infértil. Deve-se notar que o regime hormonal continua pelo resto da vida da pessoa, a fim de serem mantidas as características sexuais secundárias, como, por exemplo, a voz mais grave ou mais aguda, a presença ou ausência de pelos faciais etc.

Não se deve confundir uma operação de mudança de sexo com certos tipos de procedimento realizados em pessoas de sexualidade ambígua, por exemplo, aqueles que sofrem de hiperplasia adrenal congênita (uma espécie da chamada síndrome de insensibilidade androgênica), mosaicismo, quimerismo, ou alguma outra causa congênita de identidade sexual mista. Esses transtornos apresentam identidade sexual ambígua e certas operações feitas para confirmar a pessoa no sexo "dominante" visam simplesmente corrigir uma condição patológica. Operações assim não devem ser encaradas como uma forma de mudar o sexo de uma pessoa, mas sim de confirmar o que estava originalmente ambíguo.

O que há de imoral em uma operação de mudança de sexo?

Propriamente falando, uma pessoa não pode mudar a sua identidade sexual. Para pessoas que não sofrem os transtornos mencionados acima (hermafroditismo, por exemplo), uma pessoa ou é homem ou é mulher. Toda pessoa consiste em uma unidade de corpo e alma, e uma "alma" deve ser entendida não como algo imaterial em si, mas aquilo que faz o corpo ser o que é, nomeadamente, uma pessoa humana. Nós somos, enquanto pessoas, ou homens ou mulheres, e nada pode mudar isso. Uma pessoa pode mutilar os seus genitais, mas não pode mudar o seu sexo. Mudar o sexo de uma pessoa é fundamentalmente impossível; esses procedimentos são fundamentalmente atos de mutilação.

A mutilação termina tornando uma pessoa impotente, estéril e dependente, para o resto da vida, de regimes hormonais que a fazem parecer algo que ela não é. Não existe nada de errado com a genitália das pessoas que procuram tais operações. Mas ela é removida a fim de se conformar à crença subjetiva do que a pessoa (ele ou ela) deseja ser. Praticar violência com o próprio corpo, quando não há nada de errado com ele, trata-se de um ato injustificável de mutilação. Ademais, a procura por uma mutilação assim manifesta um ódio de si inconsistente com a caridade que devemos a nós mesmos. As pessoas que procuram por essas operações se sentem claramente desconfortáveis com quem elas são de verdade. Para amá-las da maneira apropriada, é necessário confrontar as crenças e a autocompreensão que dão origem a essa rejeição fundamental de si mesmas.

Não são reducionistas esses argumentos que dizem ser imoral o ato de mudar a biologia de alguém?

Dois esclarecimentos de extrema importância: primeiro, uma pessoa não pode mudar de sexo. Uma pessoa pode mudar a genitália que tem, mas não o sexo. Receber hormônios do sexo oposto e remover a própria genitália não são o suficiente para se mudar de sexo. Identidade sexual não se resume a níveis hormonais ou a genitália; trata-se, ao contrário, de um fato objetivo enraizado na natureza específica da pessoa. Segundo, o que torna imorais as operações de mudança genital é o fato de o corpo da pessoa estar sendo mutilado. Assim como não devemos respeitar o desejo de alguém de se transformar num Cyborg, cortando os seus membros e substituindo-os por próteses, tampouco devemos respeitar o desejo de alguém de se tornar um sexo diferente, cortando e transformando a sua genitália.

Uma pessoa não poderia pensar que realmente pertence ao sexo oposto (ele acreditar ser mulher e ela acreditar ser homem)?

O julgamento moral de que operações de mudança de sexo são imorais não implica que as pessoas não possam ter crenças falsas, ou que os seus sentimentos e atitudes não possam ser irracionais ou desconectados da realidade. A identidade sexual de uma pessoa não é determinada pelas suas crenças subjetivas, desejos ou sentimentos. Trata-se de uma função da sua natureza. Assim como existem dados geométricos numa prova geométrica, a identidade sexual é um dado ontológico. Psicoterapia e a aceitação amorosa dessas pessoas que sofrem de confusão de identidade sexual é a maneira adequada de amá-las. Mutilar os seus corpos não.

Qual é a diferença entre sexo e gênero? [*]

Identidade sexual não é uma construção social, mas um fato objetivo enraizado na nossa natureza enquanto pessoas, ou do sexo feminino ou do sexo masculino. O fato mais óbvio que temos a nosso respeito é que ou somos homens ou somos mulheres.

É claro que há uma importante distinção a fazer, nessa matéria, entre identidade sexual e gênero. Identidade sexual se refere propriamente a ser homem ou mulher. Refere-se ao sexo específico da pessoa humana. Ser macho ou fêmea é uma propriedade essencial de quem nós somos enquanto pessoas. Por exemplo, um homem é simplesmente incapaz de, como homem, gestar crianças. Os homens não têm esse poder, mas as mulheres sim. Portanto, ser homem ou mulher é essencial para o que nós somos. Gênero, por outro lado, refere-se a certas disposições emocionais ou traços característicos da feminilidade ou masculinidade. "Feminilidade" e "masculinidade" são termos de gênero e referem-se a traços ou disposições específicas. Um homem pode ter características femininas; de fato, psicoterapeutas homens possuem muitas características femininas, como saber escutar, cuidar e por aí em diante, mas eles continuam sendo homens sexualmente. Mulheres policiais ou militares possuem muitas características masculinas, mas continuam sendo mulheres sexualmente. Assim, enquanto não há nada de intrinsecamente mau em tentar adquirir certos traços ou características que estão à disposição de qualquer ser humano, é errado mutilar o próprio corpo e a identidade sexual de alguém não pode ser mudada. Procurar por uma operação assim é uma demonstração de desprezo e desrespeito por quem se é fundamentalmente.

A posição acima sublinhada não coloca muita ênfase no corpo, ao invés da mente da pessoa — isto é, aquilo que a pessoa sente e acredita? Quando o estado da mente de uma pessoa não se ajusta com o do seu corpo, alguém pode pensar, porque se deveria dar preferência ao corpo? Porque deixar o corpo ditar a identidade sexual de uma pessoa, e não a sua mente?

Essas questões são importantes e conduzem-nos ao coração do problema. Concede-se e aceita-se bem que a personalidade de alguém — a constelação de suas crenças, desejos, disposições emocionais e traços de caráter — constituem a sua auto-imagem e a compreensão que ela tem de si mesma. Mas também se deve considerar que nem todas as nossas crenças, desejos e autocompreensões estão de acordo com a verdade. A nossa capacidade de raciocínio, a nossa memória e até mesmo nossas sensações mais básicas, como percepções visuais, podem errar e dar margem a crenças falsas. A resposta que damos nesses casos é a de corrigir as crenças falsas. Quando nós pensamos algo falso a respeito de nós mesmos, isso é algo que precisa ser corrigido, não estimulado.

Para responder às perguntas diretamente, aqueles que assumem a posição contrária estão a supor, na verdade, um dualismo entre a mente e o corpo. Propriamente falando, as pessoas são ou homens ou mulheres. O corpo (da pessoa) é um indicador fundamental de qual sexo fazemos parte. Trata-se de uma realidade física e empiricamente verificável, que não muda simplesmente porque nossas crenças e desejos mudam. Uma vez rejeitado o dualismo por trás da questão, e reconhecido pela pessoa o sexo que o seu próprio corpo indica, podemos ver que a identidade sexual é um fato objetivo e prontamente discernível a nosso respeito. Como diriam alguns filósofos, nós somos corpos.

Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

[*] N. do T.: A definição de "gênero" oferecida pelo National Catholic Bioethics Center é uma contraposição interessante ao conceito formulado pelos ideólogos de gênero. Os autores do texto reconhecem a possibilidade de que alguns homens tenham traços mais femininos e vice-versa, mas essas variações, longe de sugerirem que a masculinidade e a feminilidade não passam de "construção cultural", só reforçam ainda mais as diferenças existentes entre os dois sexos. Um ideólogo ficaria profundamente ofendido ao ler, e.g., que atos como "saber escutar" e "cuidar" são típicos das mulheres. Embora realmente seja assim.

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A Torre de Babel e o desejo de tomar o lugar de Deus

Ao brincar de Deus tomando decisões de dar e tirar a vida, de recriar a identidade de alguém pela teoria de gênero e de redefinir o matrimônio, o mundo moderno tem pecado gravemente contra Deus Criador.

Por Maria Cintorino — A história tem o hábito de repetir a si mesma. Não importa o quão avançado se torne o homem moderno, o mundo ainda parece cometer os mesmos erros do passado e deixar-se enganar pelas mesmas mentiras. Uma delas é a noção de que o homem pode tomar o lugar de Deus [1], esforço que não é estranho ao ser humano. Foi com sucesso, afinal, que a serpente convenceu Adão e Eva de que, comendo do fruto da árvore proibida, eles seriam "como Deus, conhecedores do bem e do mal" (Gn 3, 5). Desde o momento da queda, a serpente repete a sua mentira geração após geração.

Ela plantou esse desejo de tomar o lugar de Deus, por exemplo, nos corações dos povos sumérios, a mais antiga civilização de que se tem notícia. Para satisfazer esse desejo, eles pretenderam edificar uma torre tão alta que atingiria os céus. Embora também a quisessem construir como símbolo de sua unidade, os sumérios revelaram o verdadeiro propósito de começarem a construção da Torre de Babel, proclamando: "Façamos para nós uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim nos faremos um nome. Do contrário, seremos dispersados por toda a superfície da terra" (Gn 11, 4). Suas palavras imitam aquelas com as quais Deus criou o homem: "Façamo-lo à nossa imagem e segundo nossa semelhança" (Gn 1, 26). Assim, ao construírem a Torre de Babel, os sumérios tentavam parodiar o ato criador de Deus.

Sua ambição e orgulho, porém, deram em nada. Deus, conhecendo as intenções de seus corações, percebeu que a construção da torre refletia o desejo dos homens de tomarem o lugar dEle. Se desse certo, Deus sabia que sua ambição só aumentaria, já que nada os impediria de fazer o que se propusessem (cf. Gn 11, 7). Por isso, a fim de castigá-los por seu pecado, Ele desce dos céus e confunde as línguas do povo. Ao invés de conseguir a unidade e a honra a que aspiravam, o povo da Suméria não consegue mais entender a si mesmo. A construção da torre chega a um fim abrupto devido à desordem e à confusão, e os seres humanos terminam se espalhando por toda a terra (cf. Gn 11, 9). A torre com que se pretendia representar a unidade e o poder dos sumérios acabou se tornando símbolo de desunião e fracasso.

A mentalidade dos sumérios reflete a da sociedade de hoje. O homem moderno, como aqueles que construíram a Torre de Babel, procura tomar o lugar de Deus, por exemplo, quando O elimina da vida pública e abandona a "fé no Criador" e a "escuta da linguagem da criação", como ensinava o Papa emérito Bento XVI. "O homem pretende fazer-se sozinho e dispor sempre e exclusivamente sozinho o que lhe diz respeito". As eventuais consequências dessas ações levam-no à autodestruição.

Quando o ser humano se coloca como "criador", ele faz com que qualquer coisa, moral ou imoral, se torne permissível. Deixando de guiar-se pela lei natural, ele cria leis que contradizem o seu próprio bem e que tratam o seu próximo como um objeto descartável. A vida de uma criança por nascer, vista não mais como uma bênção, torna-se uma inconveniência para muitos. A sua própria existência depende de uma decisão se ele deve ou não viver ou morrer. Os enfermos e os mais velhos se tornaram descartáveis, já que a sociedade tem o "direito" de legalmente mascarar o homicídio praticando a eutanásia de seus entes queridos a fim de poupar-lhes mais dor e sofrimento. Não fosse o suficiente, em alguns lugares, o suicídio assistido por médicos agora também proporciona o falso conforto de ter os membros de sua família "morrendo com dignidade".

Mas o homem moderno não se contenta em ditar a Deus quando e como a vida deve entrar e sair do mundo. Ele também "instrui o Criador" sobre a própria natureza do homem. Não mais denominada simplesmente como "masculina" e "feminina", a humanidade agora pode escolher entre 63 gêneros para se identificar a si mesma. A natureza básica fundamental do homem e da mulher que Deus criou e planejou para cada pessoa agora se torna resultado de uma escolha pessoal. Disfarçada de "autodescoberta", a crise de gênero tenta recriar o homem, lançando fora a identidade fundamental de toda e cada pessoa, que é "ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna". Quando o homem compromete sua própria natureza, ele põe em perigo sua identidade e a própria imagem que Deus criou para que ele fosse.

Com isso, é minada a sacralidade da família, que é o núcleo da sociedade. A promulgação e a aceitação geral das uniões homossexuais destroem tudo o que é verdadeiro, bom e belo na pessoa humana e na família. O matrimônio de acordo com a ordem natural tem como fins próprios tanto o bem do casal quanto o bem da existência, porque o amor e a vida estão intrinsecamente unidos. Ao reconhecer as uniões homossexuais, o ser humano rejeita Deus como autor do matrimônio e repudia o casamento tanto natural quanto sobrenaturalmente.

O resultado só gera cada vez mais confusão e desordem. Esquecido de sua identidade, o ser humano acredita piamente que nada é impossível para ele atingir ou recriar. Em seu encontro com os bispos poloneses na última Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco mencionou uma conversa privada que teve com o Papa emérito Bento XVI, na qual ele disse: "Santidade, esta é a época do pecado contra Deus Criador". Francisco continua: "É inteligente! Deus criou o homem e a mulher; Deus criou o mundo assim, assim e assim; e nós estamos a fazer o contrário". Ainda que essa referência tenha sido feita especificamente em relação à crise de gênero, ela soa verdadeira para todas as formas pelas quais os membros da sociedade perdem sua identidade como criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus e, consequentemente, tentam agir como Deus. Os resultados dessas ações levam, como adverte o Papa Bento, à "autodestruição do homem e portanto [a] uma destruição da própria obra de Deus".

Ao brincar de Deus tomando decisões de dar e tirar a vida, de recriar a identidade de alguém pela teoria de gênero e de redefinir o matrimônio, o mundo moderno tem pecado gravemente contra Deus Criador. O ser humano tem distorcido a própria natureza com que foi criado. O Papa Francisco diz com propriedade que "estamos a viver um momento de aniquilação do homem como imagem de Deus". Ao tentar ser como Deus, o homem esqueceu quem é e perdeu a própria dignidade que recebeu em virtude da imagem e semelhança com que foi criado. Em vez de enxergar o mundo e a si mesmo como um belo mistério com o qual se maravilhar — mistério que aponta para a grandeza e a sabedoria de Deus —, o ser humano põe a paciência de Deus à prova, ultrapassando os limites de sua soberania sobre a terra, a qual lhe foi dada no Jardim do Éden. Sua busca por emancipar-se de Deus Criador só termina em sua própria destruição.

É verdade, a humanidade não aprendeu com os seus erros ao longo dos anos. O homem moderno continua tentando recriar a si mesmo e o mundo à sua volta, continua a dar ouvidos às mentiras da serpente. Com isso, ele não se torna nem um pouco diferente dos sumérios que pensavam, também eles, serem capazes de tomar o lugar de Deus, construindo uma torre para atingir os céus.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e referências

  1. O original inglês usa a expressão "be like God". Embora no Gênesis a frase com que são tentados nossos primeiros pais seja exatamente esta: "Sereis como deuses" (3, 5), no texto demos preferência várias vezes à expressão "tomar o lugar de Deus". A intenção é deixar claro aos leitores que nem todo desejo de "ser como Deus" é pecaminoso, conforme explicação cristalina de Santo Tomás de Aquino.

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O milagre eucarístico de Sokólka

Em 2008, esta pequena cidade no nordeste da Polônia foi agraciada com um milagre, quando parte de uma Hóstia consagrada começou a sangrar e transformou-se em verdadeira carne humana.

Todos os dias, em todos os altares do mundo, dá-se o maior milagre possível: o da transformação do pão e do vinho no verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus Cristo. No entanto, ao recebermos a comunhão, podemos tocá-lO apenas pela fé, pois aos nossos sentidos é oferecida apenas a forma do pão e do vinho fisicamente inalteradas pela consagração. O que é que, afinal, traz à nossa fé o acontecimento eucarístico de Sokólka?

Foi no domingo, 12 de outubro de 2008, logo após a beatificação do servo de Deus Pe. Miguel Sopocko. Durante a Santa Missa iniciada na igreja paroquial de Santo Antônio de Sokólka às 8h30, durante a distribuição da Comunhão, caiu a um dos sacerdotes aos pés do altar uma Hóstia consagrada. O sacerdote interrompeu a distribuição da Comunhão, pegou nela e, de acordo com as normas litúrgicas, colocou-a no vasculum, um pequeno recipiente com água que se encontra normalmente ao lado do sacrário, servindo para o sacerdote lavar os dedos após a distribuição da Comunhão. A Hóstia deveria dissolver-se nesse recipiente.

No fim da Missa, a irmã Júlia Dubowska, sacristã da Congregação das Irmãs Eucarísticas, em serviço na paróquia, tendo a consciência de que a Hóstia consagrada levaria algum tempo a dissolver-se, a pedido do Pe. Stanislaw Gniedziejko, pároco da paróquia, despejou o conteúdo do vasculum noutro recipiente e colocou-o no cofre que se encontra na sacristia da paróquia. Só a Irmã e o Pároco tinham as chaves do cofre.

Ao fim de uma semana, no dia 19 de outubro, Domingo das missões, a irmã Júlia – questionada pelo pároco sobre o estado da Hóstia – foi ver o cofre. Ao abrir a porta, sentiu um aroma delicado a pão ázimo. Quando abriu o recipiente, viu a água limpa com a Hóstia a dissolver-se e no meio desta uma mancha arqueada com uma cor vermelha intensa, lembrando um coágulo de sangue, com a forma de uma espécie de partícula viva de um corpo. A água permanecia incolor.

A Irmã informou imediatamente o Pároco, que veio logo com os sacerdotes locais e o missionário Pe. Ryszard Górowski. Todos ficaram surpreendidos e atônitos com o que viram.

Mantiveram discrição e prudência, não esquecendo o peso do acontecimento, pois tratava-se de Pão consagrado que, pelo poder das palavras de Cristo no Cenáculo, é verdadeiramente o Seu Corpo. Do ponto de vista humano, foi difícil definir se a forma alterada do fragmento da Hóstia é o resultado de uma reação orgânica, química ou de outro tipo de ação.

Imediatamente notificaram do sucedido o Arcebispo Metropolitano de Bialystok, Edward Ozorowski, que se dirigiu a Sokólka juntamente com o chanceler da cúria, os sacerdotes prelados e catedráticos. Todos ficaram profundamente comovidos com o que viram. O Arcebispo mandou proteger a Hóstia, esperar e observar o que iria acontecer.

No dia 29 de outubro, o recipiente com a Hóstia foi transportado para a capela da Misericórdia Divina na casa paroquial e colocado no sacrário. No dia seguinte, por decisão do Arcebispo, retirou-se a Hóstia com a mancha visível da água, colocou-se num pequeno corporal e em seguida no sacrário. Deste modo se conservou a Hóstia durante três anos, até ter sido solenemente levada para a igreja, no dia 2 de outubro de 2011. Durante o primeiro ano foi guardada em segredo. Foi um tempo de reflexão sobre o que fazer, pois tratava-se de um sinal de Deus que era necessário interpretar.

Até meados de janeiro de 2009, o fragmento da Hóstia alterada secou de forma natural e permaneceu como coágulo de sangue. Desde essa altura não mudou de aparência.

Em janeiro de 2009, o Arcebispo ordenou que se fizessem análises pato-morfológicas à Hóstia e a 30 de Março desse ano criou uma comissão eclesial para analisar o fenômeno.

O fragmento da Hóstia em forma alterada recolhido foi analisado pela Prof. Dr.ª Maria Sobaniec-Lotowska e pelo Prof. Dr. Stanislaw Sulkowski – de forma independente um do outro, com vista a uma maior credibilidade dos resultados –, pato-morfologistas da Universidade de Medicina de Bialystok. As análises foram realizadas no Instituto de Pato-morfologia dessa universidade. O trabalho de ambos os especialistas foi regido pelas normas e obrigações dos cientistas para analisar cada problema científico de acordo com as diretrizes do Comitê de Ética da Ciência da Academia das Ciências Polacas. As análises foram descritas e fotografadas exaustivamente. A documentação completa foi entregue à Curia Metropolitana de Bialystok.

Quando foram recolhidas as amostras para análise, a parte não dissolvida da Hóstia consagrada estava já embebida no tecido. Porém, a estrutura de sangue acastanhado do fragmento da Hóstia não perdeu nada da sua clareza. Este fragmento estava seco e frágil, intimamente ligado à restante parte da Hóstia em forma de pão. A amostra recolhida foi o suficiente para realizar todas as análises indispensáveis.

Os resultados de ambas as análises independentes sobrepuseram-se completamente. Concluíram que a estrutura do fragmento da Hóstia analisado é idêntica a tecido do músculo do coração de uma pessoa viva, mas em estado de agonia. A estrutura da fibra do músculo do coração e a estrutura do pão estavam interligadas de forma muito estreita, de forma impossível de realizar por ingerência humana.

As análises realizadas provaram que não foi adicionada nenhuma outra substância à Hóstia consagrada, mas que o seu fragmento tomou a forma de tecido do músculo do coração de uma pessoa em estado de agonia. Este tipo de fenômeno não é explicável pelas ciências naturais, sendo que os ensinamentos da Igreja nos dizem que a Hóstia entregue para análise é o Corpo do próprio Cristo pelo poder das Suas próprias palavras proferidas durante a Última Ceia.

O resultado das análises pato-morfológicas datadas de 21 de janeiro de 2009 foram incluídas no protocolo entregue na Cúria Metropolitana de Bialystok.

Para concluir, no comunicado oficial que emitiu, a Cúria Metropolitana de Bialystok afirmou o seguinte: "O acontecimento de Sokolka não se opõe à fé da Igreja, antes pelo contrário, confirma-a. A Igreja professa que, após as palavras da consagração, pelo poder do Espírito Santo, o pão se transforma no Corpo de Cristo e o vinho no Seu Sangue. Para além disso, trata-se de um chamamento para que os ministros da Eucaristia distribuam o Corpo do Senhor com fé e cuidado e que os fiéis O recebam com adoração."

Fonte: Site do Milagre Eucarístico de Sokólka | Tradução: Senza Pagare

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Quando a ciência é transformada em religião

Para destruir “o organismo misterioso de Cristo”, o inimigo substituiu a adoração do Deus verdadeiro pelo culto idolátrico da “deusa da razão”.

De acordo com o Papa Pio XII, o inimigo, em sua obra para destruir “o organismo misterioso de Cristo", quis “a razão sem a fé" [1].

De fato, há muito tempo os anticlericais têm levantado, ensandecidos, a bandeira da razão, acusando a Igreja de ser inimiga da ciência. Com isso, eles propugnam um “divórcio" entre a fé e a razão, como se aquilo que as Sagradas Escrituras definem e que os santos ensinam em sua sabedoria, fosse inconciliável com o parecer da filosofia, com o avanço das ciências e mesmo com o progresso da civilização. A ideia é traçar uma caricatura da religião e de qualquer um que procure conduzir sua vida de acordo com os mandamentos de Deus, apelidando um e outro de atrasado, obscurantista e "medieval" – este último, na verdade, mais um elogio que uma crítica.

Importa dizer, em primeiro lugar, que toda essa campanha – mentirosa, mas, ainda assim, eficaz – não passa de proselitismo. Os cientificistas e demais adeptos do “culto da ciência" não querem simplesmente afastar as pessoas de Cristo, como eles mesmos têm uma religião, com deuses, dogmas e ritos muito bem definidos. A entronização da “deusa da razão" na Catedral de Notre Dame, durante as confusões que marcaram a Revolução Francesa, em 1789, é sintomática: ao desprezar a revelação cristã e o Deus da Bíblia, desde Abraão, Moisés e os profetas até a vinda definitiva de Jesus, o que os iluministas ateus pretendiam (e o que desejam ainda hoje os irreligiosos modernos) não era simplesmente “matar Deus", mas substitui-lo por um ídolo, moldado por suas próprias mãos.

O nome deste ídolo, que eles invocam com o título de “toda-poderosa", é a ciência. São João Paulo II constatou, em sua encíclica Fides et Ratio, “sobre as relações entre fé e razão", que, ainda hoje, “uma certa mentalidade positivista continua a defender a ilusão de que, graças às conquistas científicas e técnicas, o homem, como se fosse um demiurgo, poderá chegar por si mesmo a garantir o domínio total do seu destino" [2].

Não é raro, de fato, ouvir pessoas com esse discurso, alegando que, “no futuro, com os avanços da ciência", não haverá obstáculos de nenhuma ordem para nenhum intento, nem mesmo para a manipulação da vida humana. Aborto, eutanásia, pesquisas com células-tronco embrionárias, fecundação in vitro, clonagem... Não há Deus, tudo é permitido.Tais indivíduos, no fundo, já fizeram da ciência o seu deus, ainda que não o saibam. Colocaram-na acima de si mesmos, da dignidade do homem e do próprio Deus, pois estão convencidas de que algumas pesquisas de laboratório e alguns experimentos empíricos podem abolir tudo, inclusive o bem e o mal.

A prova de que essa “mentalidade positivista" não passa de um grande engano é que, mesmo com tantos equipamentos eletrônicos – com diferentes nomes e múltiplos usos –, tantas informações e tantas “conquistas científicas e técnicas", o homem do século XXI tem tudo, menos a felicidade. Preocupado em encher-se de máquinas e fartar-se de prazeres, ele se esqueceu de saciar o seu coração.

Mas, como pode o homem saciar o seu coração e alcançar a felicidade? Santo Tomás, após demonstrar por que a bem-aventurança do homem não está nem nas riquezas, nem nas honras, nem na fama, nem no poder, nem em nenhum bem do corpo ou da alma, remata com a seguinte lição: “ Só Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana" [3]. O Papa São João Paulo II, explicando porque a razão sozinha não é suficiente ao ser humano, também preleciona:

“Não é possível conhecer profundamente o mundo e os fatos da história, sem ao mesmo tempo professar a fé em Deus que neles atua. A fé aperfeiçoa o olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos, a presença operante da Providência. (...) O insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas, mas, de fato, não é capaz de fixar o olhar nas realidades essenciais. E isto impede-lhe de pôr ordem na sua mente (cf. Pr 1, 7) e de assumir uma atitude correta para consigo mesmo e o ambiente circundante. Quando, depois, chega a afirmar que 'Deus não existe' (Sl 14, 1; 53, 1), isso revela, com absoluta clareza, quanto seja deficiente o seu conhecimento e quão distante esteja ele da verdade plena a respeito das coisas, da sua origem e do seu destino." [4]

Para voltar a Deus e purificar o templo profanado pelo culto idolátrico da razão, é preciso que o homem recupere a sua vocação de ser “aquele que procura a verdade" [5], como bem definiu João Paulo II. “Embora a supracitada verdade da fé cristã exceda a capacidade da razão humana, os princípios que a razão tem postos em si pela natureza não podem ser contrários àquela verdade" [6]. O mesmo Deus que Se revelou em Cristo é o artífice de todo o universo, o mesmo autor da fé na Palavra que se fez carne é o autor da razão humana: fé e razão, pois, não se contradizem; completam-se – ou melhor, exigem-se mutuamente.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

P.S.: Essa matéria foi postada originalmente no dia 25 de novembro de 2014, com o título A razão sem a fé.

Referências

  1. Papa Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica (12 ottobre 1952).
  2. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 91.
  3. Suma Teológica, I-II, q. 2, a. 8.
  4. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 16. 18.
  5. Ibidem, n. 28.
  6. Suma contra os Gentios, I, VII, 1.

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Hóstia sangra e se transforma em tecido de “origem humana” na Polônia

Novo milagre eucarístico na Polônia: exames identificaram “partes fragmentadas de músculo” em uma Hóstia consagrada e estudos genéticos indicam “a origem humana do tecido”.

A terra do Papa São João Paulo II acaba de ser agraciada com um grande milagre eucarístico. Foi o que reconheceu o bispo da cidade polonesa de Legnica, Zibigniev Kiernikovski, em carta assinada de próprio punho no último dia 17 de abril.

No documento, o bispo conta como, na Solenidade de Natal de 2013, em uma paróquia de Legnica, "durante a distribuição da Sagrada Comunhão, uma Hóstia consagrada caiu ao chão e foi logo recolhida e depositada em um recipiente cheio de água", chamado de vasculum. "Pouco depois, apareceram manchas de cor vermelha". O então bispo do lugar "estabeleceu uma comissão para analisar o fenômeno", e esta "mandou recolher amostras a fim de que exames minuciosos fossem conduzidos por importantes institutos de pesquisa". A conclusão do caso, emitida pelo Departamento de Medicina Forense, foi a seguinte:

"Na imagem histopatológica verificou-se que os fragmentos de tecidos contêm partes fragmentadas de músculo estriado transversal. (...) O conjunto (...) se assemelha ao músculo cardíaco ao sofrer alterações que aparecem com frequência durante a agonia. Os estudos genéticos indicam a origem humana do tecido."

Neste ínterim, "um pequeno fragmento vermelho da Hóstia" já havia sido separado e colocado em um corporal. O bispo polonês também conta que já apresentou a questão ao Vaticano e, agora, "conforme recomendado pela Santa Sé", já está providenciando um local adequado para a exposição da milagrosa relíquia, "a fim de que os fiéis possam dar-lhe a devida adoração".

Este é o segundo milagre eucarístico que acontece em anos recentes na Polônia. O outro se deu em 2008, na cidadezinha de Sokólka, no nordeste do país.

Para saber mais sobre este assunto, leia também a nossa matéria especial sobre a origem e a causa dos milagres eucarísticos.

No momento, é preciso que nos detenhamos neste sinal divino (mais um) confirmando a fé católica na transubstanciação; na doutrina de que, pelas palavras ditas por Jesus Cristo na Última Ceia e repetidas por um sacerdote validamente ordenado, o pão e o cálice de vinho que ele tem em suas mãos já não são mais pão, já não são mais vinho — transformam-se os dois no Corpo e Sangue do próprio Deus encarnado.

Alguém poderia perguntar como um acontecimento desse tipo poderia relacionar-se com os Evangelhos. Os protestantes, por exemplo, têm uma grande dificuldade em enxergar a ação de Deus nessas realidades sensíveis usadas pela Igreja: relíquias de santos, milagres eucarísticos, ícones e esculturas, todas essas coisas parecem desnecessárias e, muitas vezes, são acusadas até de "empecilhos" para prestar a Deus a verdadeira adoração que só a Ele compete. Pessoas de natureza mais ativa, por sua vez, poderiam ver algum problema nessa devoção dos católicos à Eucaristia, nessa preocupação excessiva com a oração e com a espiritualidade. Talvez pensassem que seria mais útil dar comida aos pobres, vestir os nus, ou qualquer coisa do gênero. Se pudessem, convidariam o próprio Deus para oferecer os seus conselhos e sugerir os próximos milagres que Ele deveria fazer.

Eventos como esses, no entanto, mostram o equilíbrio sadio que existe na doutrina católica, ao mesmo tempo sobrenatural e sensível, espiritual e visível, transcendente e material. Justamente porque o homem não é "um espírito preso dentro de um corpo", mas unidade de corpo e alma, convinha que Deus nos elevasse às verdades celestes através das coisas materiais que existem no mundo. Os sacramentos são uma conjugação dessas duas realidades: através de um sinal sensível, é infundida nas almas a graça invisível de Deus. Essa infusão acontece porque os sacramentos são instrumentos da humanidade de Cristo: assim como Jesus operava milagres com as palavras que saíam de Sua boca e com o toque de Sua carne, Ele perdoa os pecados pela boca dos Seus sacerdotes e alimenta espiritualmente as almas com a Eucaristia. Compreender o que significa isso é essencial para entender, por exemplo, por que a Igreja venera as relíquias dos santos ou por que permite o culto das imagens sacras.

Mergulhe fundo nessas questões assistindo ao nosso curso exclusivo "Por que não sou protestante".

Quanto às pessoas mais ativas e mais "práticas", por assim dizer, é preciso responder com o episódio de Marta e Maria: de nada adianta preocupar-se e ficar agitado com muitas coisas, se deixamos de lado "a melhor parte", que é a nossa relação de comunhão e intimidade com Deus (cf. Lc 10, 38-42). Esse é, na verdade, o grande motor da própria caridade cristã: os seguidores de Cristo só dão pão a quem tem fome, água a quem tem sede e abrigo a quem não tem porque enxergam no próximo que sofre o próprio Jesus sofredor: "Então o Rei lhes responderá: 'Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25, 40).

Por isso, em tudo o que existe na Igreja Católica — sacramentos, relíquias, esculturas de santos, obras de caridade —, absolutamente tudo se refere a Cristo, e tudo nos convida à comunhão com Ele. Não sem razão o sacramento da Eucaristia, o maior de todos os sacramentos, também é chamado de "Comunhão". O que aconteceu há pouco tempo na Polônia toca a todos os homens, portanto, porque ninguém está excluído da boa nova da salvação, do anúncio do Evangelho, da verdade de que Deus nos ama e quer que nós entremos em comunhão de amor com Ele. É para levar as pessoas a essa comunhão que Cristo instituiu uma religião. A Igreja vive da Eucaristia e para a Eucaristia.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere