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A Torre de Babel e o desejo de tomar o lugar de Deus

Ao brincar de Deus tomando decisões de dar e tirar a vida, de recriar a identidade de alguém pela teoria de gênero e de redefinir o matrimônio, o mundo moderno tem pecado gravemente contra Deus Criador.

Por Maria Cintorino — A história tem o hábito de repetir a si mesma. Não importa o quão avançado se torne o homem moderno, o mundo ainda parece cometer os mesmos erros do passado e deixar-se enganar pelas mesmas mentiras. Uma delas é a noção de que o homem pode tomar o lugar de Deus [1], esforço que não é estranho ao ser humano. Foi com sucesso, afinal, que a serpente convenceu Adão e Eva de que, comendo do fruto da árvore proibida, eles seriam "como Deus, conhecedores do bem e do mal" (Gn 3, 5). Desde o momento da queda, a serpente repete a sua mentira geração após geração.

Ela plantou esse desejo de tomar o lugar de Deus, por exemplo, nos corações dos povos sumérios, a mais antiga civilização de que se tem notícia. Para satisfazer esse desejo, eles pretenderam edificar uma torre tão alta que atingiria os céus. Embora também a quisessem construir como símbolo de sua unidade, os sumérios revelaram o verdadeiro propósito de começarem a construção da Torre de Babel, proclamando: "Façamos para nós uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim nos faremos um nome. Do contrário, seremos dispersados por toda a superfície da terra" (Gn 11, 4). Suas palavras imitam aquelas com as quais Deus criou o homem: "Façamo-lo à nossa imagem e segundo nossa semelhança" (Gn 1, 26). Assim, ao construírem a Torre de Babel, os sumérios tentavam parodiar o ato criador de Deus.

Sua ambição e orgulho, porém, deram em nada. Deus, conhecendo as intenções de seus corações, percebeu que a construção da torre refletia o desejo dos homens de tomarem o lugar dEle. Se desse certo, Deus sabia que sua ambição só aumentaria, já que nada os impediria de fazer o que se propusessem (cf. Gn 11, 7). Por isso, a fim de castigá-los por seu pecado, Ele desce dos céus e confunde as línguas do povo. Ao invés de conseguir a unidade e a honra a que aspiravam, o povo da Suméria não consegue mais entender a si mesmo. A construção da torre chega a um fim abrupto devido à desordem e à confusão, e os seres humanos terminam se espalhando por toda a terra (cf. Gn 11, 9). A torre com que se pretendia representar a unidade e o poder dos sumérios acabou se tornando símbolo de desunião e fracasso.

A mentalidade dos sumérios reflete a da sociedade de hoje. O homem moderno, como aqueles que construíram a Torre de Babel, procura tomar o lugar de Deus, por exemplo, quando O elimina da vida pública e abandona a "fé no Criador" e a "escuta da linguagem da criação", como ensinava o Papa emérito Bento XVI. "O homem pretende fazer-se sozinho e dispor sempre e exclusivamente sozinho o que lhe diz respeito". As eventuais consequências dessas ações levam-no à autodestruição.

Quando o ser humano se coloca como "criador", ele faz com que qualquer coisa, moral ou imoral, se torne permissível. Deixando de guiar-se pela lei natural, ele cria leis que contradizem o seu próprio bem e que tratam o seu próximo como um objeto descartável. A vida de uma criança por nascer, vista não mais como uma bênção, torna-se uma inconveniência para muitos. A sua própria existência depende de uma decisão se ele deve ou não viver ou morrer. Os enfermos e os mais velhos se tornaram descartáveis, já que a sociedade tem o "direito" de legalmente mascarar o homicídio praticando a eutanásia de seus entes queridos a fim de poupar-lhes mais dor e sofrimento. Não fosse o suficiente, em alguns lugares, o suicídio assistido por médicos agora também proporciona o falso conforto de ter os membros de sua família "morrendo com dignidade".

Mas o homem moderno não se contenta em ditar a Deus quando e como a vida deve entrar e sair do mundo. Ele também "instrui o Criador" sobre a própria natureza do homem. Não mais denominada simplesmente como "masculina" e "feminina", a humanidade agora pode escolher entre 63 gêneros para se identificar a si mesma. A natureza básica fundamental do homem e da mulher que Deus criou e planejou para cada pessoa agora se torna resultado de uma escolha pessoal. Disfarçada de "autodescoberta", a crise de gênero tenta recriar o homem, lançando fora a identidade fundamental de toda e cada pessoa, que é "ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna". Quando o homem compromete sua própria natureza, ele põe em perigo sua identidade e a própria imagem que Deus criou para que ele fosse.

Com isso, é minada a sacralidade da família, que é o núcleo da sociedade. A promulgação e a aceitação geral das uniões homossexuais destroem tudo o que é verdadeiro, bom e belo na pessoa humana e na família. O matrimônio de acordo com a ordem natural tem como fins próprios tanto o bem do casal quanto o bem da existência, porque o amor e a vida estão intrinsecamente unidos. Ao reconhecer as uniões homossexuais, o ser humano rejeita Deus como autor do matrimônio e repudia o casamento tanto natural quanto sobrenaturalmente.

O resultado só gera cada vez mais confusão e desordem. Esquecido de sua identidade, o ser humano acredita piamente que nada é impossível para ele atingir ou recriar. Em seu encontro com os bispos poloneses na última Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco mencionou uma conversa privada que teve com o Papa emérito Bento XVI, na qual ele disse: "Santidade, esta é a época do pecado contra Deus Criador". Francisco continua: "É inteligente! Deus criou o homem e a mulher; Deus criou o mundo assim, assim e assim; e nós estamos a fazer o contrário". Ainda que essa referência tenha sido feita especificamente em relação à crise de gênero, ela soa verdadeira para todas as formas pelas quais os membros da sociedade perdem sua identidade como criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus e, consequentemente, tentam agir como Deus. Os resultados dessas ações levam, como adverte o Papa Bento, à "autodestruição do homem e portanto [a] uma destruição da própria obra de Deus".

Ao brincar de Deus tomando decisões de dar e tirar a vida, de recriar a identidade de alguém pela teoria de gênero e de redefinir o matrimônio, o mundo moderno tem pecado gravemente contra Deus Criador. O ser humano tem distorcido a própria natureza com que foi criado. O Papa Francisco diz com propriedade que "estamos a viver um momento de aniquilação do homem como imagem de Deus". Ao tentar ser como Deus, o homem esqueceu quem é e perdeu a própria dignidade que recebeu em virtude da imagem e semelhança com que foi criado. Em vez de enxergar o mundo e a si mesmo como um belo mistério com o qual se maravilhar — mistério que aponta para a grandeza e a sabedoria de Deus —, o ser humano põe a paciência de Deus à prova, ultrapassando os limites de sua soberania sobre a terra, a qual lhe foi dada no Jardim do Éden. Sua busca por emancipar-se de Deus Criador só termina em sua própria destruição.

É verdade, a humanidade não aprendeu com os seus erros ao longo dos anos. O homem moderno continua tentando recriar a si mesmo e o mundo à sua volta, continua a dar ouvidos às mentiras da serpente. Com isso, ele não se torna nem um pouco diferente dos sumérios que pensavam, também eles, serem capazes de tomar o lugar de Deus, construindo uma torre para atingir os céus.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e referências

  1. O original inglês usa a expressão "be like God". Embora no Gênesis a frase com que são tentados nossos primeiros pais seja exatamente esta: "Sereis como deuses" (3, 5), no texto demos preferência várias vezes à expressão "tomar o lugar de Deus". A intenção é deixar claro aos leitores que nem todo desejo de "ser como Deus" é pecaminoso, conforme explicação cristalina de Santo Tomás de Aquino.

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O milagre eucarístico de Sokólka

Em 2008, esta pequena cidade no nordeste da Polônia foi agraciada com um milagre, quando parte de uma Hóstia consagrada começou a sangrar e transformou-se em verdadeira carne humana.

Todos os dias, em todos os altares do mundo, dá-se o maior milagre possível: o da transformação do pão e do vinho no verdadeiro Corpo e Sangue de Jesus Cristo. No entanto, ao recebermos a comunhão, podemos tocá-lO apenas pela fé, pois aos nossos sentidos é oferecida apenas a forma do pão e do vinho fisicamente inalteradas pela consagração. O que é que, afinal, traz à nossa fé o acontecimento eucarístico de Sokólka?

Foi no domingo, 12 de outubro de 2008, logo após a beatificação do servo de Deus Pe. Miguel Sopocko. Durante a Santa Missa iniciada na igreja paroquial de Santo Antônio de Sokólka às 8h30, durante a distribuição da Comunhão, caiu a um dos sacerdotes aos pés do altar uma Hóstia consagrada. O sacerdote interrompeu a distribuição da Comunhão, pegou nela e, de acordo com as normas litúrgicas, colocou-a no vasculum, um pequeno recipiente com água que se encontra normalmente ao lado do sacrário, servindo para o sacerdote lavar os dedos após a distribuição da Comunhão. A Hóstia deveria dissolver-se nesse recipiente.

No fim da Missa, a irmã Júlia Dubowska, sacristã da Congregação das Irmãs Eucarísticas, em serviço na paróquia, tendo a consciência de que a Hóstia consagrada levaria algum tempo a dissolver-se, a pedido do Pe. Stanislaw Gniedziejko, pároco da paróquia, despejou o conteúdo do vasculum noutro recipiente e colocou-o no cofre que se encontra na sacristia da paróquia. Só a Irmã e o Pároco tinham as chaves do cofre.

Ao fim de uma semana, no dia 19 de outubro, Domingo das missões, a irmã Júlia – questionada pelo pároco sobre o estado da Hóstia – foi ver o cofre. Ao abrir a porta, sentiu um aroma delicado a pão ázimo. Quando abriu o recipiente, viu a água limpa com a Hóstia a dissolver-se e no meio desta uma mancha arqueada com uma cor vermelha intensa, lembrando um coágulo de sangue, com a forma de uma espécie de partícula viva de um corpo. A água permanecia incolor.

A Irmã informou imediatamente o Pároco, que veio logo com os sacerdotes locais e o missionário Pe. Ryszard Górowski. Todos ficaram surpreendidos e atônitos com o que viram.

Mantiveram discrição e prudência, não esquecendo o peso do acontecimento, pois tratava-se de Pão consagrado que, pelo poder das palavras de Cristo no Cenáculo, é verdadeiramente o Seu Corpo. Do ponto de vista humano, foi difícil definir se a forma alterada do fragmento da Hóstia é o resultado de uma reação orgânica, química ou de outro tipo de ação.

Imediatamente notificaram do sucedido o Arcebispo Metropolitano de Bialystok, Edward Ozorowski, que se dirigiu a Sokólka juntamente com o chanceler da cúria, os sacerdotes prelados e catedráticos. Todos ficaram profundamente comovidos com o que viram. O Arcebispo mandou proteger a Hóstia, esperar e observar o que iria acontecer.

No dia 29 de outubro, o recipiente com a Hóstia foi transportado para a capela da Misericórdia Divina na casa paroquial e colocado no sacrário. No dia seguinte, por decisão do Arcebispo, retirou-se a Hóstia com a mancha visível da água, colocou-se num pequeno corporal e em seguida no sacrário. Deste modo se conservou a Hóstia durante três anos, até ter sido solenemente levada para a igreja, no dia 2 de outubro de 2011. Durante o primeiro ano foi guardada em segredo. Foi um tempo de reflexão sobre o que fazer, pois tratava-se de um sinal de Deus que era necessário interpretar.

Até meados de janeiro de 2009, o fragmento da Hóstia alterada secou de forma natural e permaneceu como coágulo de sangue. Desde essa altura não mudou de aparência.

Em janeiro de 2009, o Arcebispo ordenou que se fizessem análises pato-morfológicas à Hóstia e a 30 de Março desse ano criou uma comissão eclesial para analisar o fenômeno.

O fragmento da Hóstia em forma alterada recolhido foi analisado pela Prof. Dr.ª Maria Sobaniec-Lotowska e pelo Prof. Dr. Stanislaw Sulkowski – de forma independente um do outro, com vista a uma maior credibilidade dos resultados –, pato-morfologistas da Universidade de Medicina de Bialystok. As análises foram realizadas no Instituto de Pato-morfologia dessa universidade. O trabalho de ambos os especialistas foi regido pelas normas e obrigações dos cientistas para analisar cada problema científico de acordo com as diretrizes do Comitê de Ética da Ciência da Academia das Ciências Polacas. As análises foram descritas e fotografadas exaustivamente. A documentação completa foi entregue à Curia Metropolitana de Bialystok.

Quando foram recolhidas as amostras para análise, a parte não dissolvida da Hóstia consagrada estava já embebida no tecido. Porém, a estrutura de sangue acastanhado do fragmento da Hóstia não perdeu nada da sua clareza. Este fragmento estava seco e frágil, intimamente ligado à restante parte da Hóstia em forma de pão. A amostra recolhida foi o suficiente para realizar todas as análises indispensáveis.

Os resultados de ambas as análises independentes sobrepuseram-se completamente. Concluíram que a estrutura do fragmento da Hóstia analisado é idêntica a tecido do músculo do coração de uma pessoa viva, mas em estado de agonia. A estrutura da fibra do músculo do coração e a estrutura do pão estavam interligadas de forma muito estreita, de forma impossível de realizar por ingerência humana.

As análises realizadas provaram que não foi adicionada nenhuma outra substância à Hóstia consagrada, mas que o seu fragmento tomou a forma de tecido do músculo do coração de uma pessoa em estado de agonia. Este tipo de fenômeno não é explicável pelas ciências naturais, sendo que os ensinamentos da Igreja nos dizem que a Hóstia entregue para análise é o Corpo do próprio Cristo pelo poder das Suas próprias palavras proferidas durante a Última Ceia.

O resultado das análises pato-morfológicas datadas de 21 de janeiro de 2009 foram incluídas no protocolo entregue na Cúria Metropolitana de Bialystok.

Para concluir, no comunicado oficial que emitiu, a Cúria Metropolitana de Bialystok afirmou o seguinte: "O acontecimento de Sokolka não se opõe à fé da Igreja, antes pelo contrário, confirma-a. A Igreja professa que, após as palavras da consagração, pelo poder do Espírito Santo, o pão se transforma no Corpo de Cristo e o vinho no Seu Sangue. Para além disso, trata-se de um chamamento para que os ministros da Eucaristia distribuam o Corpo do Senhor com fé e cuidado e que os fiéis O recebam com adoração."

Fonte: Site do Milagre Eucarístico de Sokólka | Tradução: Senza Pagare

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Quando a ciência é transformada em religião

Para destruir “o organismo misterioso de Cristo”, o inimigo substituiu a adoração do Deus verdadeiro pelo culto idolátrico da “deusa da razão”.

De acordo com o Papa Pio XII, o inimigo, em sua obra para destruir “o organismo misterioso de Cristo", quis “a razão sem a fé" [1].

De fato, há muito tempo os anticlericais têm levantado, ensandecidos, a bandeira da razão, acusando a Igreja de ser inimiga da ciência. Com isso, eles propugnam um “divórcio" entre a fé e a razão, como se aquilo que as Sagradas Escrituras definem e que os santos ensinam em sua sabedoria, fosse inconciliável com o parecer da filosofia, com o avanço das ciências e mesmo com o progresso da civilização. A ideia é traçar uma caricatura da religião e de qualquer um que procure conduzir sua vida de acordo com os mandamentos de Deus, apelidando um e outro de atrasado, obscurantista e "medieval" – este último, na verdade, mais um elogio que uma crítica.

Importa dizer, em primeiro lugar, que toda essa campanha – mentirosa, mas, ainda assim, eficaz – não passa de proselitismo. Os cientificistas e demais adeptos do “culto da ciência" não querem simplesmente afastar as pessoas de Cristo, como eles mesmos têm uma religião, com deuses, dogmas e ritos muito bem definidos. A entronização da “deusa da razão" na Catedral de Notre Dame, durante as confusões que marcaram a Revolução Francesa, em 1789, é sintomática: ao desprezar a revelação cristã e o Deus da Bíblia, desde Abraão, Moisés e os profetas até a vinda definitiva de Jesus, o que os iluministas ateus pretendiam (e o que desejam ainda hoje os irreligiosos modernos) não era simplesmente “matar Deus", mas substitui-lo por um ídolo, moldado por suas próprias mãos.

O nome deste ídolo, que eles invocam com o título de “toda-poderosa", é a ciência. São João Paulo II constatou, em sua encíclica Fides et Ratio, “sobre as relações entre fé e razão", que, ainda hoje, “uma certa mentalidade positivista continua a defender a ilusão de que, graças às conquistas científicas e técnicas, o homem, como se fosse um demiurgo, poderá chegar por si mesmo a garantir o domínio total do seu destino" [2].

Não é raro, de fato, ouvir pessoas com esse discurso, alegando que, “no futuro, com os avanços da ciência", não haverá obstáculos de nenhuma ordem para nenhum intento, nem mesmo para a manipulação da vida humana. Aborto, eutanásia, pesquisas com células-tronco embrionárias, fecundação in vitro, clonagem... Não há Deus, tudo é permitido.Tais indivíduos, no fundo, já fizeram da ciência o seu deus, ainda que não o saibam. Colocaram-na acima de si mesmos, da dignidade do homem e do próprio Deus, pois estão convencidas de que algumas pesquisas de laboratório e alguns experimentos empíricos podem abolir tudo, inclusive o bem e o mal.

A prova de que essa “mentalidade positivista" não passa de um grande engano é que, mesmo com tantos equipamentos eletrônicos – com diferentes nomes e múltiplos usos –, tantas informações e tantas “conquistas científicas e técnicas", o homem do século XXI tem tudo, menos a felicidade. Preocupado em encher-se de máquinas e fartar-se de prazeres, ele se esqueceu de saciar o seu coração.

Mas, como pode o homem saciar o seu coração e alcançar a felicidade? Santo Tomás, após demonstrar por que a bem-aventurança do homem não está nem nas riquezas, nem nas honras, nem na fama, nem no poder, nem em nenhum bem do corpo ou da alma, remata com a seguinte lição: “ Só Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana" [3]. O Papa São João Paulo II, explicando porque a razão sozinha não é suficiente ao ser humano, também preleciona:

“Não é possível conhecer profundamente o mundo e os fatos da história, sem ao mesmo tempo professar a fé em Deus que neles atua. A fé aperfeiçoa o olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos, a presença operante da Providência. (...) O insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas, mas, de fato, não é capaz de fixar o olhar nas realidades essenciais. E isto impede-lhe de pôr ordem na sua mente (cf. Pr 1, 7) e de assumir uma atitude correta para consigo mesmo e o ambiente circundante. Quando, depois, chega a afirmar que 'Deus não existe' (Sl 14, 1; 53, 1), isso revela, com absoluta clareza, quanto seja deficiente o seu conhecimento e quão distante esteja ele da verdade plena a respeito das coisas, da sua origem e do seu destino." [4]

Para voltar a Deus e purificar o templo profanado pelo culto idolátrico da razão, é preciso que o homem recupere a sua vocação de ser “aquele que procura a verdade" [5], como bem definiu João Paulo II. “Embora a supracitada verdade da fé cristã exceda a capacidade da razão humana, os princípios que a razão tem postos em si pela natureza não podem ser contrários àquela verdade" [6]. O mesmo Deus que Se revelou em Cristo é o artífice de todo o universo, o mesmo autor da fé na Palavra que se fez carne é o autor da razão humana: fé e razão, pois, não se contradizem; completam-se – ou melhor, exigem-se mutuamente.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

P.S.: Essa matéria foi postada originalmente no dia 25 de novembro de 2014, com o título A razão sem a fé.

Referências

  1. Papa Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica (12 ottobre 1952).
  2. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 91.
  3. Suma Teológica, I-II, q. 2, a. 8.
  4. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 16. 18.
  5. Ibidem, n. 28.
  6. Suma contra os Gentios, I, VII, 1.

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Hóstia sangra e se transforma em tecido de “origem humana” na Polônia

Novo milagre eucarístico na Polônia: exames identificaram “partes fragmentadas de músculo” em uma Hóstia consagrada e estudos genéticos indicam “a origem humana do tecido”.

A terra do Papa São João Paulo II acaba de ser agraciada com um grande milagre eucarístico. Foi o que reconheceu o bispo da cidade polonesa de Legnica, Zibigniev Kiernikovski, em carta assinada de próprio punho no último dia 17 de abril.

No documento, o bispo conta como, na Solenidade de Natal de 2013, em uma paróquia de Legnica, "durante a distribuição da Sagrada Comunhão, uma Hóstia consagrada caiu ao chão e foi logo recolhida e depositada em um recipiente cheio de água", chamado de vasculum. "Pouco depois, apareceram manchas de cor vermelha". O então bispo do lugar "estabeleceu uma comissão para analisar o fenômeno", e esta "mandou recolher amostras a fim de que exames minuciosos fossem conduzidos por importantes institutos de pesquisa". A conclusão do caso, emitida pelo Departamento de Medicina Forense, foi a seguinte:

"Na imagem histopatológica verificou-se que os fragmentos de tecidos contêm partes fragmentadas de músculo estriado transversal. (...) O conjunto (...) se assemelha ao músculo cardíaco ao sofrer alterações que aparecem com frequência durante a agonia. Os estudos genéticos indicam a origem humana do tecido."

Neste ínterim, "um pequeno fragmento vermelho da Hóstia" já havia sido separado e colocado em um corporal. O bispo polonês também conta que já apresentou a questão ao Vaticano e, agora, "conforme recomendado pela Santa Sé", já está providenciando um local adequado para a exposição da milagrosa relíquia, "a fim de que os fiéis possam dar-lhe a devida adoração".

Este é o segundo milagre eucarístico que acontece em anos recentes na Polônia. O outro se deu em 2008, na cidadezinha de Sokólka, no nordeste do país.

Para saber mais sobre este assunto, leia também a nossa matéria especial sobre a origem e a causa dos milagres eucarísticos.

No momento, é preciso que nos detenhamos neste sinal divino (mais um) confirmando a fé católica na transubstanciação; na doutrina de que, pelas palavras ditas por Jesus Cristo na Última Ceia e repetidas por um sacerdote validamente ordenado, o pão e o cálice de vinho que ele tem em suas mãos já não são mais pão, já não são mais vinho — transformam-se os dois no Corpo e Sangue do próprio Deus encarnado.

Alguém poderia perguntar como um acontecimento desse tipo poderia relacionar-se com os Evangelhos. Os protestantes, por exemplo, têm uma grande dificuldade em enxergar a ação de Deus nessas realidades sensíveis usadas pela Igreja: relíquias de santos, milagres eucarísticos, ícones e esculturas, todas essas coisas parecem desnecessárias e, muitas vezes, são acusadas até de "empecilhos" para prestar a Deus a verdadeira adoração que só a Ele compete. Pessoas de natureza mais ativa, por sua vez, poderiam ver algum problema nessa devoção dos católicos à Eucaristia, nessa preocupação excessiva com a oração e com a espiritualidade. Talvez pensassem que seria mais útil dar comida aos pobres, vestir os nus, ou qualquer coisa do gênero. Se pudessem, convidariam o próprio Deus para oferecer os seus conselhos e sugerir os próximos milagres que Ele deveria fazer.

Eventos como esses, no entanto, mostram o equilíbrio sadio que existe na doutrina católica, ao mesmo tempo sobrenatural e sensível, espiritual e visível, transcendente e material. Justamente porque o homem não é "um espírito preso dentro de um corpo", mas unidade de corpo e alma, convinha que Deus nos elevasse às verdades celestes através das coisas materiais que existem no mundo. Os sacramentos são uma conjugação dessas duas realidades: através de um sinal sensível, é infundida nas almas a graça invisível de Deus. Essa infusão acontece porque os sacramentos são instrumentos da humanidade de Cristo: assim como Jesus operava milagres com as palavras que saíam de Sua boca e com o toque de Sua carne, Ele perdoa os pecados pela boca dos Seus sacerdotes e alimenta espiritualmente as almas com a Eucaristia. Compreender o que significa isso é essencial para entender, por exemplo, por que a Igreja venera as relíquias dos santos ou por que permite o culto das imagens sacras.

Mergulhe fundo nessas questões assistindo ao nosso curso exclusivo "Por que não sou protestante".

Quanto às pessoas mais ativas e mais "práticas", por assim dizer, é preciso responder com o episódio de Marta e Maria: de nada adianta preocupar-se e ficar agitado com muitas coisas, se deixamos de lado "a melhor parte", que é a nossa relação de comunhão e intimidade com Deus (cf. Lc 10, 38-42). Esse é, na verdade, o grande motor da própria caridade cristã: os seguidores de Cristo só dão pão a quem tem fome, água a quem tem sede e abrigo a quem não tem porque enxergam no próximo que sofre o próprio Jesus sofredor: "Então o Rei lhes responderá: 'Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25, 40).

Por isso, em tudo o que existe na Igreja Católica — sacramentos, relíquias, esculturas de santos, obras de caridade —, absolutamente tudo se refere a Cristo, e tudo nos convida à comunhão com Ele. Não sem razão o sacramento da Eucaristia, o maior de todos os sacramentos, também é chamado de "Comunhão". O que aconteceu há pouco tempo na Polônia toca a todos os homens, portanto, porque ninguém está excluído da boa nova da salvação, do anúncio do Evangelho, da verdade de que Deus nos ama e quer que nós entremos em comunhão de amor com Ele. É para levar as pessoas a essa comunhão que Cristo instituiu uma religião. A Igreja vive da Eucaristia e para a Eucaristia.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Associação Americana de Pediatras fulmina ideologia de gênero

Grupo de médicos dos EUA emite declaração explicando, cientificamente, por que ideologia de gênero é nociva para as crianças.

Uma associação de pediatras dos Estados Unidos declarou, no último dia 21 de março, através de seu site na Internet, que "a ideologia de gênero é nociva às crianças" e que "todos nascemos com um sexo biológico", sendo os fatos, e não uma ideologia, que determinam a realidade.

A declaração da American College of Pediatricians expõe 8 razões para os "educadores e legisladores rejeitarem todas as políticas que condicionem as crianças a aceitarem" a teoria de gênero. A iniciativa dos médicos se soma a inúmeras outras, provindas das mais diversas áreas de informação, para conter o que o Papa Francisco chamou de "colonização ideológica". Em 2010, por exemplo, um importante documentário conseguiu desmontar, pelo menos em parte, a estrutura universitária que financiava essa ideologia na Noruega. O programa trouxe o parecer de vários especialistas, dos mais diversos campos científicos, que expuseram a farsa da teoria de gênero.

Agora, a medicina vem respaldar mais uma vez a verdade sobre a família.

A íntegra da nota escrita pelos pediatras norte-americanos pode ser lida a seguir.

A Associação Americana de Pediatras urge educadores e legisladores a rejeitarem todas as políticas que condicionem as crianças a aceitarem como normal uma vida de personificação química e cirúrgica do sexo oposto. Fatos, não ideologia, determinam a realidade.

1. A sexualidade humana é um traço biológico binário objetivo: "XY" e "XX" são marcadores genéticos de saúde, não de um distúrbio. A norma para o design humano é ser concebido ou como macho ou como fêmea. A sexualidade humana é binária por design, com o óbvio propósito da reprodução e florescimento de nossa espécie. Esse princípio é auto-evidente. Os transtornos extremamente raros de diferenciação sexual (DDSs) — inclusive, mas não apenas, a feminização testicular e hiperplasia adrenal congênita — são todos desvios medicamente identificáveis da norma binária sexual, e são justamente reconhecidos como distúrbios do design humano. Indivíduos com DDSs não constituem um terceiro sexo.

2. Ninguém nasce com um gênero. Todos nascem com um sexo biológico. Gênero (uma consciência e percepção de si mesmo como homem ou mulher) é um conceito sociológico e psicológico, não um conceito biológico objetivo. Ninguém nasce com uma consciência de si mesmo como masculino ou feminino; essa consciência se desenvolve ao longo do tempo e, como todos os processos de desenvolvimento, pode ser descarrilada por percepções subjetivas, relacionamentos e experiências adversas da criança, desde a infância. Pessoas que se identificam como "se sentindo do sexo oposto" ou "em algum lugar entre os dois sexos" não compreendem um terceiro sexo. Elas permanecem homens biológicos ou mulheres biológicas.

3. A crença de uma pessoa, que ele ou ela é algo que não é, trata-se, na melhor das hipóteses, de um sinal de pensamento confuso. Quando um menino biologicamente saudável acredita que é uma menina, ou uma menina biologicamente saudável acredita que é um menino, um problema psicológico objetivo existe, que está na mente, não no corpo, e deve ser tratado como tal. Essas crianças sofrem de disforia de gênero (DG). Disforia de gênero, anteriormente chamada de transtorno de identidade de gênero (TIG), é um transtorno mental reconhecido pela mais recente edição do Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana (DSM-V). As teorias psicodinâmicas e sociais de DG/TIG nunca foram refutadas.

4. A puberdade não é uma doença e hormônios que bloqueiam a puberdade podem ser perigosos. Reversíveis ou não, hormônios que bloqueiam a puberdade induzem a um estado doentio — a ausência de puberdade — e inibem o crescimento e a fertilidade em uma criança até então biologicamente saudável.

5. De acordo com o DSM-V, cerca de 98% de meninos e 88% de meninas confusas com o próprio gênero aceitam seu sexo biológico depois de passarem naturalmente pela puberdade.

6. Crianças que usam bloqueadores da puberdade para personificar o sexo oposto vão requerer hormônios do outro sexo no fim da adolescência. Esses hormônios (testosterona e estrogênio) estão associados com riscos à saúde, inclusive, mas não apenas, aumento da pressão arterial, formação de coágulos sanguíneos, acidente vascular cerebral e câncer.

7. Taxas de suicídio são vinte vezes maiores entre adultos que usam hormônios do sexo oposto e se submetem à cirurgia de mudança de sexo, mesmo na Suécia, que está entre os países mais afirmativos em relação aos LGBQT. Que pessoa compassiva e razoável seria capaz de condenar jovens crianças a este destino, sabendo que após a puberdade cerca de 88% das meninas e 98% dos meninos vão acabar aceitando a realidade e atingindo um estado de saúde física e mental?

8. Condicionar crianças a acreditar que uma vida inteira de personificação química e cirúrgica do sexo oposto é normal e saudável, é abuso infantil. Endossar discordância de gênero como normal através da rede pública de educação e de políticas legais irá confundir as crianças e os pais, levando mais crianças a serem apresentadas às "clínicas de gênero", onde lhes serão dados medicamentos bloqueadores da puberdade. Isso, por sua vez, praticamente garante que eles vão "escolher" uma vida inteira de hormônios cancerígenos e tóxicos do sexo oposto, além de levar em conta a possibilidade da mutilação cirúrgica desnecessária de partes saudáveis do seu corpo quando forem jovens adultos.

Michelle A. Cretella, M.D.
Presidente da Associação Americana de Pediatras

Quentin Van Meter, M.D.
Vice-Presidente da Associação Americana de Pediatras
Endocrinologista Pediátrico

Paul McHugh, M.D.
Professor Universitário de Psiquiatria da Universidade Johns Hopkins Medical School, detentor de medalha de distinguidos serviços prestados e ex-psiquiatra-chefe do Johns Hopkins Hospital

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O terrorismo islâmico e a profecia do Papa Bento XVI

Alguns anos atrás, em Ratisbona, o Papa Bento XVI levantava a sua voz contra a violência no mundo muçulmano. Embora a mídia reprovasse o seu discurso, o tempo tratou de dar-lhe razão. Suas palavras nunca foram tão atuais. O Papa foi um profeta.

No dia 12 de setembro de 2006, durante uma Aula Magna na Universidade de Ratisbona, na Alemanha, o Papa emérito Bento XVI fazia um dos mais importantes discursos de todo o seu pontificado. Diante de representantes das ciências, ele convidava as diferentes culturas e religiões do mundo a um diálogo entre a fé e a razão, bem como à superação da violência e da coação em matéria religiosa. "Deus não se compraz com o sangue", dizia o Santo Padre, na ocasião, citando um imperador da Idade Média. "Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus."

Os eventos que vieram em seguida, no entanto, pareciam indicar um desastre. As palavras de Bento XVI foram mal interpretadas no mundo islâmico e, como consequência, extremistas atacaram igrejas na Palestina, uma religiosa italiana foi assassinada na Somália e um padre foi cruelmente decapitado no Iraque: o caos.

Para alguns jornalistas e "especialistas" em religião, não restava dúvidas de que o Papa tinha cometido uma "gafe" – e, até agora, foi mais ou menos essa a imagem que ficou para o mundo. O Papa emérito tinha trocado os pés pelas mãos, causa finita.

Nesta semana, depois de um atentado de radicais muçulmanos à cidade de Paris – que já contabiliza mais de 130 mortos –, foi impossível não lembrar de Ratisbona.

Na verdade, desde o ano passado, com a ascensão do chamado Estado Islâmico, o discurso de Bento XVI começou a ganhar uma atualidade fora do comum, quase profética. Cristãos cruelmente decapitados e crucificados – simplesmente por serem cristãos –, mulheres sequestradas e violentadas sexualmente várias vezes ao dia, crianças mortas sem nenhum sinal de piedade constituem apenas alguns dos itens desse "quadro de horrores" pintado (com sangue) pelos guerreiros do ISIS – um quadro que põe a humanidade em sobressalto e faz de Ratisbona uma mensagem absolutamente obrigatória para os dias de hoje.

Em sua mensagem, o Papa Ratzinger chama o mundo das ciências e das religiões a uma reconciliação. "Fé e razão", diz ele, não são contrárias entre si, mas devem andar juntas. Para provar o seu ponto, Bento cita o início do prólogo do Evangelho de São João, que diz: "No princípio, era o Verbo". Falando da contribuição da filosofia grega para o desenvolvimento do pensamento cristão, ele explica que a palavra "λόγος" ( logos), aqui utilizada pelo Evangelista, significa, literalmente, "razão". Assim, na fé cristã, Deus aparece como a própria Razão, um ente dotado de razoabilidade.

As conclusões desse pensamento, traçadas por um imperador bizantino medieval, Manuel II Paleólogo, são evidentes:

"Não agir segundo a razão ('σὺν λόγω') é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar corretamente, e não da violência nem da ameaça... Para convencer uma alma racional não é necessário dispor do próprio braço, nem de instrumentos para ferir ou de qualquer outro meio com que se possa ameaçar de morte uma pessoa."

Nisso consiste a essência da fala de Bento XVI, a "afirmação decisiva" de toda a sua argumentação. Para ele e para Manuel II, assim como para todos os cristãos, está bem claro: a fé, separada da razão, conduz ao fundamentalismo e à violência. A pergunta a ser feita é se isso está igualmente claro para os muçulmanos, ou se, ao contrário, a sua visão "absolutamente transcendente" de Deus o destaca de todas e quaisquer categorias humanas, incluindo a própria razoabilidade.

Hoje, com as ameaças do Estado Islâmico tomando proporções mundiais, está mais do que evidente a urgência e a importância de questões como essa serem respondidas. Pessoas no mundo inteiro, intrigadas com o que aconteceu em Paris, estão se perguntando o mesmo. Será o Islã capaz de converter as pessoas pelo simples uso da razão, sem recorrer à força bruta ou à agressão? Será capaz de pregar a sua religião sem "dispor do próprio braço" ou "ameaçar de morte uma pessoa"?

No fundo, dar uma resposta efetiva a tudo isso é uma tarefa que só os muçulmanos podem realmente levar a cabo.

Um mês depois de Ratisbona, de fato, algumas vozes do mundo islâmico chegaram a aceitar o convite do Santo Padre a um diálogo. Cem intelectuais, de diversas partes do mundo, endereçaram-lhe uma carta aberta, na qual respondiam respeitosamente algumas das questões levantadas em seu discurso.

Em 2008, foi a vez do Rei Abdullah, da Arábia Saudita, dar uma resposta às indagações de Bento XVI. "Tragédias que aconteceram na história – disse o monarca árabe, durante um encontro inter-religioso – não foram causadas pela religião, mas pelo extremismo adotado por alguns dos seguidores de cada uma das religiões."

Enquanto isso, todavia, o sangue dos mártires cristãos continua a correr e a clamar por justiça no Oriente Médio. Para resolver a situação e dar um basta à impiedade, não bastam elucubrações teológicas de uns ou um mea culpa de outros. É preciso deter efetivamente a violência perpetrada pelo fundamentalismo islâmico, começando de cima, de onde vêm as ordens para a jihad. Até o momento, porém, não há sequer a mais remota esperança de que isso aconteça.

Às famílias francesas, sofrendo pela perda de seus entes queridos, as nossas mais profundas condolências e orações. Possa a França voltar, depressa, à sua vocação de "filha mais velha da Igreja". Possa a Europa recuperar, o quanto antes, a sua identidade cristã. Antes que seja muito tarde.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Um ataque aos direitos humanos

Quando a Igreja defende a lei natural, ela defende os próprios fundamentos dos direitos humanos

A insistência da Igreja Católica no combate à legalização do aborto e de outras práticas contrárias à família é fonte de muitas críticas. Não se consegue entender por que uma instituição religiosa poderia influenciar nas decisões políticas de um Estado que, a princípio, se declara laico. Assistimos a este tipo de argumentação, por exemplo, durante o debate acerca da Sugestão Legislativa 15/2014, a qual pretende "regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das doze primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde".

Essa confusão sobre o papel da Igreja na sociedade tem sua origem em um problema bastante complexo para a mentalidade moderna, e que diz respeito aos próprios fundamentos dos direitos humanos. "A ideia do direito natural" é vista, nos dias de hoje, como "uma doutrina católica bastante singular, sobre a qual não valeria a pena discutir fora do âmbito católico, de tal modo que quase se tem vergonha mesmo só de mencionar o termo" [1]. Isso se deve basicamente a dois fatores: a) a cisão entre fé e razão, a qual gerou uma noção de lei natural rígida demais, sem a consideração de processos históricos; b) o surgimento da doutrina positivista, cuja explicação sobre o ser humano tende a reduzi-lo a uma natureza apenas funcional.

Há, no entanto, outro aspecto a ser considerado. A lei natural constitui um obstáculo à arbitrariedade, pois exige do indivíduo uma adequação às necessidades dos outros, de modo que as paixões não deteriorem a harmonia social. Ela assegura ao homem o direito à objeção de consciência frente a imposições injustas, mesmo quando aprovadas pela maioria ou por juízes aparentemente capazes. O próprio Hans Kelsen, um dos maiores opositores da lei natural, viu-se obrigado a evocá-la para condenar a perseguição nazista que sofreu.

Eis o ponto. Toda a luta a favor do aborto, como disse Padre Paulo Ricardo durante o debate, resume-se a uma luta contra o direito natural. Não se trata de uma defesa das minorias marginalizadas, não se trata de uma defesa das mulheres pobres e negras nem da saúde pública — apesar de insistirem muito neste discurso. O objetivo é bem outro: manipulação e poder.

A razão defende a lei natural

A luz da razão mostra-nos que existe uma verdade natural acerca do ser humano e que, precisamente por isso, deve existir uma coerência ética comum para que essa verdade seja respeitada como um direito inalienável da humanidade. Isso se expressa de maneira eloquente no desejo moral compartilhado por vários grupos étnicos, culturais e sociais ao longo da história. Em praticamente todas as sociedades de que se tem notícia, encontra-se uma máxima ligada à famosa regra de ouro, isto é, aquele conselho de não fazer aos outros aquilo que não queres que façam contigo. Vemos, assim, que a moral não é uma construção social, embora seja influenciada por esse aspecto. Trata-se de algo que corresponde às exigências do próprio ser.

Na tradição filosófica clássica, essa verdade sobre o homem e o meio à sua volta foi denominada lei natural. Aristóteles, talvez o maior expoente desse período, considerava moralmente lícito aquilo que correspondia à natureza [2]. Nesta visão, o Estagirita queria explicar que a busca do homem pela felicidade só poderia ser plenamente cumprida se houvesse um respeito à sua vocação. Aqui entra o papel de instituições como a família e o Estado.

O homem, para poder cumprir sua vocação, necessita de condições favoráveis ao seu agir moral. Nem todos os preceitos da lei natural são evidentes. Eles precisam ser refletidos e ponderados pela razão, para que possam ganhar clareza e força de adesão. No entanto, em um ambiente de vícios, em que se proliferem preconceitos, paixões e má vontade, o indivíduo facilmente tende a ignorar a lei natural, senão mesmo a repudiá-la [3]. Como explica Santo Tomás de Aquino, "a lei natural pode ser destruída do coração humano, seja por más persuasões, como se dão erros relativos às conclusões necessárias na ordem especulativa, seja por maus costumes e hábitos corruptos" [4]. Nestas condições, restam a anarquia e a lei dos mais fortes.

A partir disso, podemos intuir a função da família. Cabe a ela o dever de assegurar uma educação virtuosa, a fim de que os filhos mantenham-se sempre atentos à verdade. Para Aristóteles, as famílias "originam-se da necessidade de os seres humanos manterem-se vivos e protegerem e criarem seus filhos" [5]. E isso postula a complementariedade dos sexos. O Estado, por sua vez, tem a obrigação de proteger as famílias, ajudando-as a educar as crianças para as virtudes. Isso porque a pessoa é "anterior à sociedade e a sociedade é humanizadora somente quando responde às expectativas inscritas na pessoa enquanto ser social" [6].

Por isso a Igreja defende a lei natural. Defendê-la é defender o homem, como explicou o Papa Emérito Bento XVI no Congresso do Partido Popular Europeu, em 2006. A "tutela da vida em todas as suas fases", o "reconhecimento e promoção da estrutura natural da família" e a "tutela do direito dos pais de educar os próprios filhos" são direitos humanos inegociáveis, que garantem a perfeita realização do ser humano [7]:

Estes princípios não são verdades de fé mesmo se recebem ulterior luz e confirmação da fé. Eles estão inscritos na natureza humana e, portanto, são comuns a toda a humanidade. A ação da Igreja de os promover não assume, por conseguinte, um caráter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, prescindindo da sua filiação religiosa. Ao contrário, esta ação é tanto mais necessária quanto mais estes princípios forem negados ou mal compreendidos porque isto constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma grave ferida infligida à própria justiça.

Uma antropologia manipuladora

As fundações internacionais — relativistas que são — negam a existência do direito natural e, por assim dizer, a inviolabilidade desses três valores defendidos não somente pela fé católica, mas, em primeiro lugar, pela racionalidade das coisas. Entendem a sociedade como uma massa de modelar, passível de modificações arbitrárias, pois, afinal, na origem de sua constituição, não haveria princípios elementares para a manutenção de um ambiente virtuoso, voltado para a realização do homem conforme sua própria natureza. Ao contrário. A sociedade atual, para esses ideólogos, seria apenas resultado de uma estrutura opressora, sustentada pelo discurso da Igreja e de outras instituições, no jargão marxista, burguesas.

Encontramos esse tipo de abordagem no livro Sociologia em movimento, comentado recentemente aqui no site. A moral sexual, segundo dizem, seria apenas "um meio de estabelecer relações de poder construídas historicamente nas sociedades ocidentais" [8].

As fundações Ford, Rockfeller, MacArthur e cia. puseram na cabeça que o grande mal da humanidade é o crescimento populacional. Até a década de 1950, a estratégia adotada para impedir novos nascimentos foi o apoio maciço à indústria contraceptiva. O método, porém, não obteve o resultado almejado. A partir da década de 1960, com o investimento em pesquisas sociológicas, essas mesmas fundações encontraram um meio de danificar o tecido social, incentivando o aborto e justificando todos os tipos de práticas sexuais desordenadas.

Essa é a razão da causa LGBT e da liberação do aborto estarem tão atreladas. Qualquer coisa que corrompa a sensibilidade humana para a lei inscrita em sua própria natureza serve como instrumento de manipulação. Tudo se resume a um grande engodo, como já mostramos aqui em outras ocasiões. Acompanhem o raciocínio: se, em matéria sexual, não existe verdade — não existe lei natural, diferentemente do que indica a razão —, mas apenas discursos para a legitimação de poderes "historicamente construídos", acaso essa crítica não caberia também à própria sociologia desenvolvida pelos pesquisadores financiados por tais fundações? A rigor, a tese deles é esta: deixem de ser manipulados pela malvada Igreja Católica para serem manipulados por nós, as fundações internacionais, pois sabemos o que é melhor para a humanidade.

A "ditadura do relativismo", para usar uma expressão do Cardeal J. Ratzinger, é a única tábua de salvação para essas fundações internacionais — em que pese todas as lacunas dessa ditadura. O que elas querem é o poder; por isso, precisam quebrar a coluna da sociedade, ou seja, destruir o direito natural, pois quando este é negado, o que resta é somente a "vontade do legislador que faz a lei" [9].

O que está em jogo nesta questão não é só a aprovação do aborto, que de per si já bastaria para protestarmos. Estamos diante de um ataque orquestrado aos fundamentos dos direitos humanos, sob uma falsa promessa de liberdade e defesa dos oprimidos. O aborto é só a ponta do iceberg.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Bento XVI, Discurso ao Parlamento Federal (22 de setembro de 2011).
  2. Comissão Teológica Internacional, Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural (6 de dezembro de 2008), n. 20.
  3. Papa Pio XII, Carta Encíclica Humani Generis (12 de agosto de 1950), n. 1.
  4. Suma Teológica, I-II, q. 94, a. 6.
  5. ADLER, Mortimer. Aristóteles para todos: uma introdução simples a um pensamento complexo. São Paulo: É Realizações, 2014, p. 117.
  6. Comissão Teológica Internacional, op. cit., n. 86.
  7. Papa Bento XVI, Discurso aos participantes no congresso promovido pelo Partido Popular Europeu (30 de março de 2006).
  8. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013, p. 347.
  9. Comissão Teológica Internacional, op. cit., n. 89.

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O que Santo Tomás nunca disse sobre as mulheres

Publicações feministas põem na boca do santo católico algumas frases nada agradáveis sobre a natureza do sexo feminino. Mas, afinal, teria o Aquinate realmente ensinado que "a mulher é como um macho incompleto"? ​

Circulam na Internet (e em várias publicações feministas) algumas acusações de misoginia à obra de Santo Tomás de Aquino, o qual teria ensinado que "a mulher é como um macho incompleto". A frase constituiria prova irrefutável do machismo da fé cristã e do ódio da Igreja Católica ao sexo feminino.

Se é verdade que Tomás escreveu essa frase em suas obras [1], copiando (atenção!) uma colocação de Aristóteles [2], todas as vezes que a citou, porém, deixou bem claro o que Aristóteles queria dizer e qual era a sua posição a respeito disso.

A mais famosa referência a essa sentença está na conhecida Suma Teológica.

Para quem não está acostumado com o estilo das obras escolásticas, talvez caiba algumas breves considerações.

A Suma Teológica é um tratado intelectual e procede por meio de "questões", "artigos", "objeções" e "respostas". Cada questão (De...) é um tema específico, que possui um número determinado de artigos a ela relacionados. Cada artigo (Utrum...) é uma pergunta, que contém uma resposta aparentemente certa (Videtur...), com a qual Tomás parece concordar, apresentando para tanto várias razões, baseadas muitas vezes na autoridade de outros filósofos e escritores cristãos. Depois de enumerá-las, ele indica algo em desabono dos objetores (Sed contra...), oferece uma resposta definitiva à pergunta (Respondeo dicendum quod...) e rebate a todas as objeções (Ad primum, ad secundum, ad tertium...).

Feitas essas observações, partamos ao texto em que Tomás supostamente defende a "imperfeição" da natureza feminina. Trata-se da primeira parte da Suma ( Prima Pars), questão 92, na qual o santo lida justamente com "a criação da mulher". No artigo 1º, ele pergunta "se a mulher deveria ser produzida na primeira produção das coisas" (isto é, na Criação) e, como primeira objeção à resposta afirmativa, Tomás copia a frase de Aristóteles, segundo a qual "femina est mas occasionatus – a fêmea é um macho incompleto". Mais adiante, porém, o Aquinate rebate a sentença do filósofo grego da seguinte forma:

"Deve-se dizer que considerando a natureza em particular, a mulher é deficiente e falha, pois a potência ativa que se encontra no sêmen do macho visa produzir alguma coisa que lhe seja semelhante em perfeição segundo o sexo masculino; mas, se for gerada uma mulher, isso resulta de uma fraqueza da potência ativa ou de alguma má disposição da matéria, ou ainda de alguma mudança proveniente de fora, por exemplo, dos ventos do sul, que são úmidos, como está escrito no livro sobre a geração dos animais (De Generatione Animalium). Entretanto, se consideramos a natureza universal, a mulher não é falha, mas pela intenção da natureza está ordenada à geração. A intenção da natureza universal depende de Deus, que é o autor universal da natureza. Por isso, quando instituiu a natureza, produziu ele não só o homem, mas também a mulher." [3]

À resposta do Aquinate cabe uma explicação. O que, afinal, ele quer dizer com a distinção entre "a natureza particular" ( natura particularis) e "a natureza universal" (natura universalis)?

Michael Nolan, professor emérito do Centro de Pesquisa Maurice Kennedy, na University College de Dublin (UCD), já escreveu vários artigos sobre esse tema, e explica que o termo "natureza particular" diz respeito à natureza do sêmen masculino. O próprio Aquinate afirma em outro lugar que a natureza particular é a "força que está em determinado sêmen" (virtutis quae est in hoc semine) [4]. Aqui, o que o santo católico faz é reproduzir uma tese biológica de Aristóteles. A teoria de reprodução do filósofo grego "identifica corretamente o sêmen como a substância reprodutiva masculina, mas desconhece a existência do óvulo", a qual foi descoberta apenas no século XVII, por William Harvey. "Aristóteles acha que a substância reprodutiva feminina é uma fração pura do sangue menstrual. Ambas as substâncias, ele diz, são produzidas pelo corpo em um processo de 'concentração' que requer calor. A substância masculina, o sêmen, é mais concentrado que a substância feminina. Disso, Aristóteles conclui que o elemento masculino possui mais calor que o feminino." – E é nesse sentido (e tão somente nesse sentido) que Aristóteles chama a mulher de um "macho incompleto". "Trata-se, como se pode ver, de uma afirmação bem limitada, equivalente a dizer que às mulheres falta o poder muscular dos homens" [5].

O esclarecimento de Santo Tomás é que a afirmação de Aristóteles diz respeito somente à natureza particular do sêmen – pressuposta a validade de sua biologia –, e não à natureza universal, isto é, à ordem da Criação. Portanto, tanto homem quanto mulher foram igualmente queridos por Deus, como atesta o próprio livro do Gênesis: "Homem e mulher ele os criou" (Gn 1, 27).

Com o advento das novas descobertas no campo da biologia, as teses de Aristóteles sobre a geração dos animais caíram por terra, mas uma coisa é indiscutível: Santo Tomás de Aquino nunca escreveu que a mulher fosse um ser humano imperfeito ou tivesse uma dignidade menor que a do homem.

Agora, o que Tomás quer dizer quando escreve que "a mulher não é falha, mas pela intenção da natureza está ordenada à geração"? Estaria o Doutor Angélico dizendo que as mulheres foram feitas apenas para a reprodução, e nada mais?

A resposta é não, absolutamente. No próprio corpo da resposta (Respondeo...) ao art. 1º da questão 92, o Aquinate escreve que "o homem (homo) é ordenado à mais nobre atividade vital, o conhecimento intelectual" — e isso vale tanto para os indivíduos do sexo masculino, quanto para os do sexo feminino.

Para quem quiser aprofundar-se nessa matéria, recomenda-se a leitura do artigo científico do mesmo Michael Nolan, intitulado The Aristotelian Background to Aquinas's Denial that "Woman is a Defective Male" (o link para o texto se encontra abaixo). O estudo explica com profundidade o que Aristóteles queria dizer com a sua frase controversa, a teoria da reprodução do filósofo grego, bem como a opinião de Tomás e São Boaventura sobre toda essa querela. Nunca é demais ir atrás das verdadeiras informações, ao invés de sair falando do que não se sabe.

Assim, quem quiser acusar a Igreja de machismo com as obras de Santo Tomás precisará explicar como podem ter saído de sua pena linhas tão belas sobre a dignidade da mulher, como as que seguem: "Era conveniente — dizia ele — que a mulher fosse formada da costela do homem, para significar que entre o homem e a mulher deve haver uma união de sociedade, pois nem a mulher deve dominar o homem, e por isso não foi formada da cabeça; nem deve ser desprezada pelo homem, como se lhe fosse servilmente submetida, e por isso não foi formada dos pés" [6].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendações

Referências

  1. Cf. II Sent., d. 20, q. 2, a. 1, ad 1; IV Sent., d. 44, q. 1, a. 3c, ad 3; Summa Theologiae I, q. 92, a. 1, ad 1; Summa Theologiae I, q. 99, a. 2, ad 1; De Veritate, q. 5, a. 9, ad 9; Summa contra Gentiles III, c. 94.
  2. De Generatione Animalium, II, 3: 737.
  3. Summa Theologiae, I, q. 92, a. 1, ad 1.
  4. Summa contra Gentiles, III, 94, 6.
  5. NOLAN, Michael. What Aquinas never said about women. First Things, Nov. 1998.
  6. Summa Theologiae, I, q. 92, a. 3.