| Categoria: Doutrina

“Não julgueis”: como responder a um amigo relativista quando ele cita Jesus

A grande tragédia do relativismo moral é que ele nos impede de amar as pessoas.

É impressionante como algumas pessoas que raramente lêem a Bíblia são rápidas no gatilho na hora de citar um versículo bíblico quando discutem com cristãos: "Não julgueis" ( Mt 7, 1).

Essa frase é utilizada muitas vezes para calar-nos e impedir-nos de tocar em questões morais. "Você não deve dizer aos outros o que é certo ou errado! Afinal de contas, Jesus disse: 'Não julgueis!'"

A Bíblia, porém, refere-se ao julgamento de diferentes maneiras. Antes de mais nada, nós nunca deveríamos julgar a alma de outra pessoa. É isso o que Jesus critica ao dizer: "Não julgueis." Somente Deus sabe em que condições espirituais as pessoas se encontram e como elas se relacionam com Ele.

Por outro lado, ao mesmo tempo que nos proíbe julgar os outros, Jesus não nos diz que é pecado usar a inteligência para discernir o certo do errado. De fato, a Bíblia nos exorta a formar bons e sábios juízos a respeito de muitas coisas na vida. São Paulo, por exemplo, diz que "o homem espiritual julga todas as coisas" (1Cor 2, 15).

O problema é que muitas pessoas têm medo de dizer que algo é moralmente errado porque não querem parecer "intransigentes", "sentenciosas", e nós precisamos ajudá-las a perceber que há uma grande diferença entre fazer um julgamento moral, por um lado, e julgar a alma de alguém, por outro.

Ora, eu posso usar a minha inteligência para fazer um simples julgamento? Se percebo que está chovendo, formulo o seguinte juízo: "Tenho de levar o guarda-chuva"; se, pelo contrário, estiver nevando, julgo de outra maneira: "Preciso me agasalhar". Devo ser considerado um "preconceituoso sem coração" por fazê-lo? É claro que não; Deus me deu uma inteligência, e quer que eu a utilize.

De modo parecido, posso usar a minha razão para fazer um julgamento sobre as ações de outras pessoas? Se eu vir a minha filhinha correndo em direção à rua, posso julgar assim: "Isso não será bom para ela, porque talvez seja atropelada"? Se eu o fizer, não estarei dizendo que minha filha é uma pessoa horrível, condenada ao fogo do inferno; estarei apenas observando que ela está prestes a fazer algo que lhe pode ser prejudicial.

Mas sigamos em frente. Posso usar a minha inteligência para avaliar as ações morais de outra pessoa? Suponhamos que haja uma jovem universitária que tem-se deitado com um rapaz depois do outro. Posso empregar minha razão e julgar: "Isso não é bom para ela"? Posso fazer o seguinte julgamento: "Ela não vai ser feliz se continuar vivendo assim, pois nunca encontrará o amor duradouro que tanto deseja. Ela foi feita para algo melhor do que isso"? É claro que posso!

Mas não nos esqueçamos: fazê-lo não é julgar a sua alma. Ela pode muito bem estar fazendo algo objetivamente errado; mas eu, em todo caso, não tenho acesso à situação pessoal dela perante Deus. Não conheço o seu passado, a sua vida, as suas mágoas. O estado de uma alma aos olhos de Deus é algo reservado apenas a Deus e a essa alma. O Catecismo da Igreja Católica explica como diversos fatores podem entrar em jogo nas decisões livres do homem de tal maneira que a sua culpabilidade pode ser diminuída e limitada (cf., por exemplo, CIC, § 1860).

Só Deus enxerga o quadro inteiro. Talvez essa moça venha de uma família mal estruturada e nunca tenha vivido um amor autêntico; talvez tenha sido abusada; talvez lhe tenham ensinado que isto, fazer sexo casual, significa "ser uma mulher livre e autônoma". Essa jovem não precisa que eu a condene ao inferno; ela precisa conhecer o amor de Deus, a sua misericórdia e os planos que Ele tem para a vida dela.

Ao mesmo tempo — e isto é imprescindível —, se eu me importo verdadeiramente com ela, não deveria dizer-lhe algo sobre o modo como tem vivido? Se ela fosse, por exemplo, uma amiga próxima ou até mesmo um parente, não deveria falar-lhe dessas coisas?

Eu não estaria julgando a sua alma — isso é algo entre ela e Deus. Mas amar é querer o bem do outro, buscar o que é o melhor para a outra pessoa; e se eu realmente a amo, não haverá prova maior desse amor do que procurar endireitá-la, mostrar-lhe o bom caminho.

Eu devo, é claro, ser prudente, falar no tempo e do modo conveniente, com fina delicadeza, humildade e compaixão. Mas ficar sentado de braços cruzados, sem nunca compartilhar com ela a verdade, não é por certo uma grande prova de amor. É como se eu visse a minha filha de dois anos a ponto de tocar a boca quente do fogão e lhe dissesse: " Olha, eu não faria isso; mas não quero julgar. Faça o que a fizer feliz".

Imagine ainda que a minha filha, que ainda não sabe falar, está prestes a jogar-se na piscina e eu lhe digo: "Bom, se é o que deseja fazer… Eu, pessoalmente, não o faria; mas não quero lhe impor minhas opiniões. A vida é sua". Seria isso um gesto de amor? Evidentemente não.

Essa postura nos revela mais uma tragédia do relativismo moral: ele nos impede de amar as pessoas. Ele pode tornar-nos indiferente às necessidades das pessoas que Deus colocou em nossa vida. Em vez de tratar com amor e solidariedade os irmãos que vemos tropeçar na vida, fazemo-nos apáticos e desentendidos. Imitamos o exemplo de Caim, que disse: "Sou porventura eu o guarda de meu irmão?" (Gn 4, 9). Isso não é amor.

Saiamos logo da cultura do relativismo e mostremos mais amor às pessoas que fazem parte de nossa vida, partilhando com elas a verdade.

Por Edward Sri | Fonte: National Catholic Register | Tradução: Equipe CNP

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C. S. Lewis: um protestante que cria no Purgatório

“É claro que eu rezo pelos mortos”, dizia C. S. Lewis. “Que tipo de relacionamento eu poderia ter com Deus, se aqueles a quem eu mais amo não pudessem ser mencionados diante dEle?”

C. S. Lewis é considerado um dos maiores apologetas cristãos do século XX. Muitas de suas obras foram traduzidas para o português, dentre as quais merecem destaque "Cristianismo Puro e Simples" e "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz". Seu maior sucesso, no entanto, é sem dúvida "As Crônicas de Nárnia", obra sua de ficção que ganhou as telas do cinema e fez inúmeros fãs, de todas as idades.

Embora sua conversão a Cristo esteja profundamente associada à Igreja Católica — pois foi o escritor católico J. R. R. Tolkien quem o convenceu da verdade da fé cristã —, C. S. Lewis escolheu professar, para desgosto do amigo, a confissão anglicana, na qual permaneceu até o fim de sua vida.

Curiosamente, porém, C. S. Lewis acreditava no Purgatório. Os reformadores protestantes negaram esse dogma católico, no século XVI, e Martinho Lutero chegou a arrancar do Cânon das Escrituras os dois livros veterotestamentários dos Macabeus, que continham exemplos de orações dos judeus pelos mortos. Em 1801, uma convenção episcopalista definiu, entre os artigos de fé da comunhão anglicana, que "a doutrina católica a respeito do Purgatório" seria "uma coisa fantasiosa, inventada inutilmente e sem nenhuma base na Escritura, sendo repugnante, na verdade, à Palavra de Deus".

Como essas definições protestantes nunca passaram, entretanto, de convenções humanas — e os próprios evangélicos o admitem —, Lewis aparentemente não via problema algum em dar crédito à doutrina católica sobre o Purgatório. Sua confissão é manifesta na obra Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer, publicada postumamente em 1964:

É claro que eu rezo pelos mortos. A ação é tão espontânea, tão inevitável, que só o tipo teológico mais compulsivo poderia dissuadir-me de fazê-lo. E eu não sei como o resto das minhas orações sobreviveria se aquelas pelos mortos fossem proibidas. Em nossa idade, a maioria daqueles que mais amamos estão mortos. Que tipo de relacionamento com Deus eu poderia ter, se o que eu mais amo não pudesse ser mencionado diante dEle?

Na visão protestante tradicional, todos os mortos estão ou condenados ou salvos. Se estão perdidos, a oração por eles é inútil. Se estão salvos, igualmente; Deus já fez tudo por eles. O que mais, então, deveríamos pedir?

Mas não cremos nós que Deus já fez e está fazendo tudo o que pode pelos vivos? O que mais deveríamos pedir? E, no entanto, somos comandados a fazê-lo.

"Sim", alguém me responderá, "mas os vivos estão ainda no caminho. Novas tentações, crescimentos e possibilidades de erro os esperam. Os salvos, ao contrário, foram elevados à perfeição. Eles completaram o percurso. Rezar por eles pressupõe que o progresso e a dificuldade ainda são possíveis. Na verdade, você está trazendo algo como o Purgatório."

Bem, eu suponho que sim. [...] Eu acredito no Purgatório.

A visão do autor anglicano tinha seus aspectos pessoais, é verdade. C. S. Lewis se incomodava, por exemplo, com as descrições fortes que São Thomas More e São João Fisher faziam do Purgatório, pois tinha a impressão de que as penas pareciam mais de um "Inferno temporário" que de um lugar propriamente de purificação. Agradava-lhe, ao contrário, o que ia retratado na obra poética The Dream of Gerontius, do Beato John Henry Newman, onde "a alma salva, bem aos pés do trono de Deus, implora para ser levada embora e purificada, sem poder suportar mais um momento sequer que a sua escuridão seja confrontada por aquela luz".

Precisamente nisso consiste o Purgatório. Como explicou certa vez o Papa Bento XVI, apresentando a conhecida doutrina de Santa Catarina de Gênova, "Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina". Por isso, "os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu" (Catecismo da Igreja Católica, § 1030) — santidade "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12, 14).

Em essência, portanto, C. S. Lewis tinha compreendido muito bem a doutrina sobre o Purgatório, mesmo estando fora da Igreja Católica:

Nossas almas têm necessidade do Purgatório, não? Não nos partiria o coração se Deus nos dissesse: "É verdade, meu filho, que teu hálito fede e que de tuas roupas gotejam lama e lodo, mas nós somos caridosos aqui e ninguém vai censurar-te por causa dessas coisas, nem se afastar de ti. Entra na alegria"? Não deveríamos nós replicar: "Com todo o respeito, senhor, e se não há nenhuma objeção, eu gostaria de ser purificado antes." "Isso pode doer, sabe" — "Mesmo assim, senhor."

Suponho eu que o processo de purificação irá naturalmente envolver sofrimento. Em parte por causa da tradição, em parte porque a maioria dos bens que recebi nesta vida envolveram sofrimento. Mas não acho que seja este o propósito da purgação. Posso acreditar muito bem que pessoas nem tão piores nem tão melhores do que eu sofrerão menos do que eu ou mais. [...] O tratamento dado será aquele requerido, doa o que doer, pouco ou muito que seja.

Evidentemente, pedir que todos os protestantes aceitem esse dogma católico, independentemente do lugar em que se encontrem, talvez seja querer demais. Guiados pelos excelentes argumentos do anglicano C. S. Lewis, no entanto, qualquer um deles pode admitir: é muito mais razoável purificar-se antes de entrar no Céu do que aparecer, com a alma suja e "fedendo", na presença do Altíssimo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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A castidade é para os idiotas?

Através da graça, os castos participam na comunhão do homem com Deus. Isso não é uma forma apenas de ganhar o Céu, mas de vivê-lo aqui e agora. Só um mundo ao avesso consideraria isso uma coisa para idiotas.

A castidade, que já foi considerada uma virtude, é tida nos dias de hoje como uma coisa para idiotas. Os que querem acabar com ela descrevem seu fim como uma vitória da vida e do amor. Mas a verdade é justamente o oposto disso.

Um mundo impuro é um mundo morto e absorvido pelo egoísmo. Ao subordinar a natureza procriativa do sexo a propósitos recreativos, uma sociedade incasta vai sempre produzir filhos indesejados: em um lugar assim, o aborto não é opção, mas uma solução necessária. O "direito" que as pessoas recém descobriram de viver a própria sexualidade não pode ser livremente exercido sem que se afaste o direito dos filhos à vida. Que esses direitos sejam incompatíveis, deveria ser algo a acender-nos o alerta: algo errado está a se passar.

Não que viver a nossa sexualidade não seja, de fato, o mais básico dos direitos: perseguir esse caminho significa buscar a própria vida. Mas esses direitos, e a vida para a qual conduzem, não estão baseados em desejos eróticos, senão na verdadeira natureza de nossa sexualidade. Por isso, viver a castidade significa redimir a própria sexualidade, dando-lhe verdadeiro sentido e restaurando o direito que toda criança tem à vida e ao amor.

Para entender tudo isso, é necessário resgatar a sexualidade indefinida de hoje das nuvens sempre inconstantes do desejo, restaurando o seu significado objetivo. Independentemente da espécie, a nossa natureza sexual pertence, por definição, à biologia da criação da vida. Atos aparentemente sexuais que contrariem, portanto, a sua natureza inerentemente procriativa, não são atos sexuais de verdade. Isso incluiria tanto a relação sexual com contracepção, quanto atos intrinsecamente inférteis, tais como a sodomia e a masturbação. Sem abertura para a propagação da vida, atos assim não passam, na verdade, de aberrações da sexualidade. Considerá-los de outra forma significaria separar a sexualidade de uma definição ou sentido. Só apartada dessas aberrações a sexualidade pode ter restaurado o seu papel criador de vida. Olhando para a vida biológica, percebemos que nossa sexualidade é ao mesmo tempo procriativa e unitiva: é essa combinação inseparável que nos distingue do reino animal e nos torna verdadeiramente humanos.

A sexualidade se torna unitiva quando aceita a sua natureza procriativa. Ao aceitar a responsabilidade do poder de criar vida, o "eu" dá lugar ao "nós". Olhando para o filho que pode gerar, o homem verá cada mulher como uma mãe daquele filho. Ele verá a necessidade que ela tem de ser amada como mulher, como mãe. Um homem ama todas as mulheres quando leva uma vida que ajuda cada mulher a experimentar a maternidade no momento e no lugar certos. Amando toda mulher, então, ele ama toda criança, vendo a necessidade que todas as crianças têm de pais que se amem, uns aos outros, pela vida. Assim, também toda mulher deve ver, em cada homem, um pai e, por trás de cada homem, uma criança. Sem esse reconhecimento mútuo do potencial para serem pais e mães, a natureza inerentemente unitiva de nossa sexualidade se perde. É a procriação que produz a união.

Quando o ato sexual é designado como ato conjugal, fica reconhecida essa unidade inseparável. Uma vida casta honra essa definição, direciona-se propiciamente à formação de uniões matrimoniais e requer que vivamos interligados como homens e mulheres, como pais e mães em potencial. Na realização plena de nossa sexualidade, nós acolhemos toda criança ainda por nascer como digna do nosso amor. A castidade não é a vocação apenas de homens e mulheres solteiros, mas de todos os homens e mulheres. A meta para todos é ter filhos que sejam gerados no amor. Viver castamente é participar na alegria de cada criança que é concebida.

Isso não é abstinência, mas um chamado ao êxtase. Em Deus Caritas Est, Bento XVI nos fala do êxtase "não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus". A castidade é um ato de comunhão que traz todos os homens e mulheres para a união com Deus e para a alegria da própria criação. Sua natureza unitiva reúne todas as coisas em uma comunhão de amor, não simplesmente do homem e da mulher, mas a comunhão última com o próprio Céu, aqui e agora. Chamar isso de mera abstinência é um reducionismo absurdo.

No entanto, o absurdo reina nos dias de hoje. Ao mesmo tempo em que condena a castidade como um fardo arcaico, a Revolução Sexual segue condenando as pessoas à escravidão e à morte. Aborto, crianças abandonadas e famílias destruídas não são meros acidentes, mas o resultado natural de uma sexualidade separada de sua natureza criadora. O estilo de vida que se propaga não é estilo de vida coisa nenhuma, senão "estilo de morte", uma rejeição da vida. Oferece um paraíso falso de autorrealização, ao mesmo tempo em que destrói a comunhão do "nós" em favor do grito de guerra do "eu". Atrás do falso paraíso mora o inferno do egocentrismo. A Revolução Sexual é simplesmente um convite para começar a viver o inferno aqui e agora.

E a resposta a essa falsa sexualidade chama-se castidade: o único e verdadeiro estilo de vida, voltado para a vida. A maioria de nós, no entanto, vê a castidade como uma vida de negação. Talvez o problema não esteja com a castidade, no fim das contas, mas com o modo como a enxergamos. O mau ladrão provocou Jesus na cruz: "Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e também a nós!" Só o que ele via era a dor sem propósito algum. Mas, olhando para o mesmo homem pendendo da mesma cruz, o bom ladrão viu, além da dor, o próprio paraíso: "Senhor, lembra-te de mim…" Um ladrão viu Jesus sem a graça. O outro viu Jesus através da graça. Da mesma forma, nós podemos ver a vida casta sem a graça, como uma dor sem propósito, ou podemos vê-la através da graça, como um convite para participar na alegria da criação. O primeiro olhar diminui e amarga, enquanto o segundo nos atrai para o Céu, um Céu que se estende por toda a eternidade.

A escolha entre o Céu e o inferno está bem diante de nós. Hoje nós enfrentamos uma escolha entre um estilo de vida que rejeita a vida e um que a abraça. A castidade rejeita o inferno narcisista da falsa sexualidade e preenche o Céu vinculado à natureza da verdadeira sexualidade. Através da graça, os castos participam na comunhão do homem com Deus, vivendo a sua sexualidade radicalmente e no êxtase da entrega de si mesmo. Isso não é menos, é mais. Não é uma forma apenas de ganhar o Céu, mas de vivê-lo aqui e agora. Só um mundo ao avesso consideraria isso uma coisa para idiotas.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Rompendo o “Silêncio” com o Esplendor da Verdade

Quem quer assistir ao filme “Silêncio”, de Martin Scorsese, arme-se antes com a encíclica “Veritatis Splendor”, de São João Paulo II. Nunca antes as palavras do grande “João de Deus” foram tão necessárias, para a Igreja e para o mundo.

Agora que já se foi a primeira efervescência em torno de Silêncio, o filme baseado na obra homônima de Shusaku Endo, gostaríamos de tecer algumas considerações sobre a totalidade da produção de Martin Scorsese.

Em nossa primeira manifestação a respeito do filme, traduzimos um texto em inglês, de autoria de John Horvat II, ao qual demos um título categórico: "Silêncio", uma trágica negação da graça de Deus. À época, tivemos contato com alguns outros textos, escritos por católicos, principalmente de língua inglesa, mas as críticas todas iam praticamente no mesmo sentido: no final da história, o que sobressai, mais que o testemunho da fé pela qual deram a vida os mártires japoneses, é uma tentativa patética de justificar, de algum modo, a apostasia dos traidores.

De nossa parte, a impressão que tivemos, assistindo à produção de Scorsese, foi a mesma.

A primeira hora de filme retrata, de fato, cenas belíssimas e emocionantes (de chorar mesmo): uma comunidade cristã vivendo "nas catacumbas" por causa das perseguições, sedenta por sinais de fé, que se confessa, que comunga, que reza, que quer se entregar a Deus. A crucificação dos japoneses Ichizo e Mokichi, e o canto de louvor que este último eleva a Deus enquanto morre, constituem como que o clímax desse primeiro trecho da história. Na confissão de Kichijiro (a primeira), reconhecendo a sua miséria diante da misericórdia divina, cada um de nós pode ver a si mesmo e deplorar juntamente com ele a fraqueza de nossa carne.

Quando, porém, o protagonista da trama, Padre Rodrigues, interpretado por Andrew Garfield, diz ao mártir Mokichi que não há problema algum em pisar na imagem de Nosso Senhor (o fumi-e, como era chamado, em japonês), o filme muda totalmente de rumo. A partir disso, é como se o tom fúnebre com o qual se encerra a trama já começasse a tocar: era só uma questão de tempo para que Rodrigues imitasse Ferreira (Liam Neeson) e se rendesse, no final, passando o resto de seus dias como um apóstata.

A questão que vimos alguns levantando foi: esses fatos realmente se passaram, houve cristãos que traíram a sua fé e o filme simplesmente retrata o que aconteceu, sem a pretensão fabular de transmitir uma "moral da história". Só porque os protagonistas de Silêncio são traidores, não quer dizer que Scorsese esteja incentivando as pessoas a traírem a sua fé.

É claro que não, devemos dizer. Filmes não precisam ser, como alguém comentou aqui, um "catecismo de perguntas e respostas". A arte deve trabalhar com possibilidades, mais que com preceitos e "comandos". Acontece porém que, até na forma como um artista escolhe retratar o bem e o mal, a verdade e a mentira, a beleza e a feiúra, existe um componente moral que não pode ser ignorado. Nesse sentido, o que Scorsese faz em Silêncio é ainda pior do que faz o Padre Ferreira para arrastar Rodrigues à apostasia: o diretor não incentiva as pessoas a traírem a fé porque, na verdade, não existe sequer traição, no sentido próprio do termo. Se é a própria voz de Cristo que manda Rodrigues pisar no fumi-e, como vai retratado na trama, o ato de apostatar é relativo: tanto faz resistir ou ceder, ser mártir ou apóstata; o que importa é morrer como Padre Rodrigues, segurando um crucifixo. Se Judas Iscariotes tivesse um desses na mão enquanto se suicidava, estaria no Céu com os outros Apóstolos.

Um dos comentaristas que se irritaram com nosso primeiro texto captou bem essa mensagem moral de Silêncio quando escreveu aqui, em tom crítico, que "na vida certas escolhas dolorosas, pelo fato mesmo de serem dolorosas, não envolvem a opção fundamental da pessoa". Mal sabia ele (ou sabia?) que estava a apoiar uma tese já há muito condenada pelo Magistério da Igreja: a teoria da… (e atenção, porque a expressão é exatamente a mesma) "opção fundamental".

Cuidadosamente examinada pelo Papa São João Paulo II na encíclica Veritatis Splendor, de 1993, essa teoria constitui uma chave de leitura perfeita para o filme Silêncio. Com ela, alguns teólogos dão a entender que os "comportamentos concretos" de uma pessoa não influiriam na sua "opção fundamental": assim, por mais pecados que viesse a cometer, se alguém tivesse se decidido a crer em Cristo — ou a "fazer o bem", genericamente —, poderia se salvar do mesmo modo, sem muita dificuldade (quase como o "Pecca fortiter sed crede fortius" [1], de Martinho Lutero). Explica-nos melhor o Papa Wojtyla:

Deste modo, chega-se a introduzir uma distinção entre a opção fundamental e as escolhas deliberadas de um comportamento concreto, uma distinção que, nalguns autores, assume a forma de uma separação, já que eles restringem expressamente o "bem" e o "mal" moral à dimensão transcendental própria da opção fundamental, qualificando como "justas" ou "erradas" as escolhas de comportamentos particulares "intramundanos", isto é, referentes às relações do homem consigo próprio, com os outros e com o mundo das coisas. Parece assim delinear-se, no interior do agir humano, uma cisão entre dois níveis de moralidade: por um lado, a ordem do bem e do mal que depende da vontade, e, por outro, os comportamentos determinados, que são julgados como moralmente justos ou errados, somente em função de um cálculo técnico da proporção entre bens e males "pré-morais" ou "físicos", que efetivamente resultam da ação. E isto até ao ponto de um comportamento concreto, mesmo escolhido livremente, ser considerado como um processo simplesmente físico, e não segundo os critérios próprios de um ato humano. O resultado a que se chega, é reservar a qualificação propriamente moral da pessoa à opção fundamental, subtraindo-a total ou parcialmente à escolha dos atos particulares, dos comportamentos concretos.

[...]

Pela lógica das posições acima descritas, o homem poderia, em virtude de uma opção fundamental, permanecer fiel a Deus, independentemente da conformidade ou não de algumas das suas escolhas e dos seus atos determinados com as normas ou regras morais específicas. Devido a uma opção originária pela caridade, o homem poderia manter-se moralmente bom, perseverar na graça de Deus, alcançar a própria salvação, mesmo se alguns dos seus comportamentos concretos fossem deliberada e gravemente contrários aos mandamentos de Deus, reafirmados pela Igreja. [2]

A primeira consequência dessa forma de pensamento é fácil de prever: abole-se conceito de pecado mortal. Só pecaria gravemente contra Deus quem atentasse contra a sua "opção fundamental", talvez por uma carta renunciando expressamente a Cristo ou através um pacto com Satanás. Nessa lógica, o beijo de Judas, por exemplo, não teria sido suficiente para condená-lo ao inferno; uma traição só não seria ainda um adultério completo; um único roubo não bastaria para qualificar um ladrão. Quantas infidelidades formariam um pecado mortal, ficaria a cargo desses mesmos teólogos descobrir…

A resposta da Igreja a essa teoria absurda não poderia ser outra senão um anátema de São João Paulo II:

Na verdade, o homem não se perde só pela infidelidade àquela opção fundamental, pela qual ele se entregou total e deliberadamente a Deus. Em cada pecado mortal cometido deliberadamente, ele ofende a Deus que deu a lei e torna-se, portanto, culpável perante toda a lei (cf. Tg 2, 8-11); mesmo conservando-se na fé, ele perde a "graça santificante", a "caridade" e a "bem-aventurança eterna". A graça da justificação — ensina o Concílio de Trento —, uma vez recebida, pode ser perdida não só pela infidelidade que faz perder a mesma fé, mas também por qualquer outro pecado mortal.

[...]

Há-de evitar-se reduzir o pecado mortal a um ato de "opção fundamental" — como hoje em dia se costuma dizer — contra Deus, entendendo com isso quer um desprezo explícito e formal de Deus e do próximo, quer uma recusa implícita e não reflexa do amor. Dá-se, efetivamente, o pecado mortal também quando o homem, sabendo e querendo, por qualquer motivo escolhe alguma coisa gravemente desordenada. Com efeito, numa escolha assim já está incluído um desprezo do preceito divino, uma rejeição do amor de Deus para com a humanidade e para com toda a criação: o homem afasta-se de Deus e perde a caridade. A orientação fundamental pode, pois, ser radicalmente modificada por atos particulares. Podem, sem dúvida, verificar-se situações muito complexas e obscuras sob o ponto de vista psicológico, que influem na imputabilidade subjetiva do pecador. Mas, da consideração da esfera psicológica, não se pode passar para a constituição de uma categoria teológica, como é precisamente a da "opção fundamental", entendendo-a de tal modo que, no plano objetivo, mudasse ou pusesse em dúvida a concepção tradicional de pecado mortal. [3]

Mas, dados esses esclarecimentos, voltemos ao filme de Scorsese. Há algo de bom que se pode colher dele? A resposta é sim. Qualquer narrativa da vida dos mártires é capaz de nos colocar diante da mesma pergunta: o que faríamos nós, que com tanta facilidade traímos a Nosso Senhor no dia a dia, diante da perseguição e da morte? Testados em nossa fé, agiríamos nós como os santos ou como Kichijiro? Cada um faça, diante de Deus, o seu exame de consciência.

O que não se pode ignorar é a grande confusão em que pode entrar uma pessoa mal formada, ao sair de uma sessão de Silêncio. O relativismo moral dos nossos tempos não permite que tratemos esse filme com um simples dar de ombros, como se a arte não tivesse sua influência, para o bem e para o mal, sobre a forma de pensar e de agir das pessoas. Quem quer assistir ao Silêncio perturbador de Scorsese, portanto, arme-se antes com o "Esplendor da Verdade", de São João Paulo II. Nunca antes as palavras do grande "João de Deus" foram tão necessárias — para a Igreja e para o mundo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta a Melâncton, 1.º de agosto de 1521.
  2. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor, 6 de agosto de 1993, n. 65, 68.
  3. Ibid., n. 68, 70.

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O que os católicos devem fazer para ajudar os homossexuais?

É na Igreja dos santos, e não nas boates e festas mundanas, que os homossexuais podem viver a plena felicidade. E é dever dos católicos convencê-los disso!

O fenômeno da homossexualidade já não pode ser ignorado por nenhuma esfera da sociedade. O tema já se tornou praticamente onipresente, especialmente no mundo das artes e das comunicações, a ponto de as pessoas se sentirem quase que impelidas a aceitar a propaganda LGBT promovida pela mídia.

É verdade, a prática homossexual existe desde o pecado original. O que há de novo na contemporaneidade é a tentativa de se construir uma "cultura gay", em que a homossexualidade seja vista como uma fonte positiva de comportamento, ainda que sua prática "esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de um grande número de pessoas" [1].

São incontáveis, de fato, os testemunhos de rapazes e moças que se encontram escravos de suas próprias paixões porque adotaram ingenuamente esse estilo de vida em que o sexo se torna um deus. Joseph Sciambra é um caso notável. Em seu livro Swallowed by Satan ("Engolido por Satanás", sem tradução para o português), o ex-ator homossexual conta como a pornografia e a propaganda do movimento LGBT quase o mataram.

Aos 19 anos, Sciambra saiu à procura de experiências mais "ousadas" que aquelas que via nos filmes eróticos. Frequentando um bairro gay de São Francisco, nos Estados Unidos, o então rapaz engatou um relacionamento com um homem mais velho, que o conduziu para a indústria pornográfica. Depois de envolver-se com o ocultismo e gravações cada vez mais violentas, Sciambra desenvolveu sérios problemas de saúde e se viu às portas do inferno. Uma vez recuperado do trauma e reconciliado com a graça de Deus, o rapaz decidiu iniciar seu apostolado para ajudar outros homossexuais a lidarem de maneira sadia com a própria sexualidade, longe das promessas de felicidade da cultura LGBT. É chocante um vídeo divulgado em seu site, no qual ele elenca uma série de atores pornográficos que morreram por causa do HIV.

De maneira idêntica à narrada acima, outros tantos homossexuais estão aprisionados pela cultura gay, que os trata como objetos de prazer. E o exemplo mais triste dessa desordem é o famoso caso do "clube do carimbo", a prática de transmitir HIV propositalmente a outras pessoas — que se tornou moda nas casas noturnas dedicadas a esse público.

A resposta católica à homossexualidade

A dificuldade da maior parte dos católicos com relação a esse tema é não saber distinguir a pessoa com tendências homossexuais — esta deve ser acolhida e amada generosamente — e a "cultura gay" — uma ideologia que tem como motor as paixões e as frustrações de muitos homossexuais. Essa falta de conhecimento da moral da Igreja conduz a muitos desentendimentos. Por isso, não há nada mais urgente que uma resposta clara dos católicos à homossexualidade, a fim de que as pessoas que experimentam essa tendência não se sintam seduzidas por um estilo de vida autodestrutivo.

A grande diferença entre a perspectiva católica e a "cultura gay" é que esta última define a identidade humana a partir de seu apetite concupiscível, ao passo que aquela entende que a "pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual" [2]. A Igreja recusa-se "a considerar a pessoa meramente como um 'heterossexual' ou um 'homossexual'" porque sabe precisamente que a identidade fundamental de todo e qualquer homem é a de "ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna" [3]. É dessa autêntica antropologia, radicada no íntimo do coração humano, que se pode desenvolver um verdadeiro serviço às pessoas com atração pelo mesmo sexo.

As pessoas com tendências homosssexuais podem, certamente, contribuir de maneira positiva para a sociedade por meio de um testemunho louvável e coerente, chegando mesmo à santidade. Não faltam exemplos de homossexuais que demonstram, e.g., um carinho imenso por seus familiares, zelando e cuidando deles no tempo da velhice. A Igreja reconhece essas virtudes, sublinhando, porém, que elas não derivam de uma vivência desordenada da sexualidade, mas procedem justamente daquela "semente divina" que está depositada no coração dos homens e por meio da qual eles são chamados à comunhão com Deus [4].

De fato, a homossexualidade é um desafio e implica uma séria renúncia. Trata-se mesmo de uma cruz. Porque a "atividade homossexual não exprime uma união complementar, capaz de transmitir a vida", as pessoas que a ela se entregam "reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência" [5]. E isso as impede de atingir a maturidade ideal como também torna menos eficazes as suas virtudes humanas, que poderiam evoluir mais perfeitamente se não fossem deturpadas pela perniciosidade de um comportamento desordenado. Notem que a mesma crítica é válida para heterossexuais que não vivem a vocação ao matrimônio, preferindo a masturbação e as relações efêmeras.

Neste sentido é que a fé católica defende "uma particular solicitude pastoral" para com os homossexuais, a fim de que eles não sejam "levados a crer que a realização concreta de tal tendência nas relações homossexuais seja uma opção moralmente aceitável" [6]. Os homossexuais necessitam encontrar um ambiente discreto, seguro e amoroso, onde possam compartilhar seus dramas íntimos sem o risco de serem expostos à humilhação pública ou, pior, ao isolamento.

O papel da família

Infelizmente, algumas situações de preconceito injusto e má vontade existem no seio da família e em outros ambientes sociais, de sorte que muitos jovens com atração pelo mesmo sexo acabam procurando refúgio no mundo LGBT.

A Igreja mesmo deplora "firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas", ao mesmo tempo em que defende "um programa pastoral autêntico", por meio do qual esses jovens, sobretudo, possam ser ajudados "em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual" [7]. É desta forma que "a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento" [8]. É evidente que os pais devem favorecer o diálogo com os filhos para que eles não caiam em falsas promessas ideológicas.

Os homossexuais, assim como qualquer pessoa, são chamados a crescer no amor a Deus e ao próximo, até que estejam totalmente configurados aos sentimentos de Cristo. E isso depende também da ajuda de boas amizades, que os motivem a adquirir mais e mais virtudes humanas e sobrenaturais, de modo que o seu agir já não seja em função da carne, mas da conquista de uma coroa incorruptível. É na Igreja dos santos, não nas boates e noitadas, que os homossexuais podem viver a plena felicidade. E é dever dos católicos convencê-los disso!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, 1 de out. 1986, n. 9.
  2. Ibidem, n. 16.
  3. Ibidem, n. 2.
  4. Concílio Vaticano II, Const. Past. Gaudium et Spes, 7 de dez. 1965, n. 3.
  5. Congregação para a Doutrina da Fé, op. cit., n. 7.
  6. Ibidem, n. 3.
  7. Ibidem, n. 15.
  8. Ibidem.

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O recado de uma freira católica aos foliões de Carnaval

Aos cristãos que aproveitam a festa do Carnaval para cair na farra e na bebedeira, Madre Angélica tem um recado importante para passar.

São conhecidas as sentenças dos santos da Igreja sobre o tempo do Carnaval. Elas estão espalhadas na Internet e deveriam formar todos aqueles que se dizem católicos. Para citar um só exemplo, vindo da terra do santo Papa João Paulo II, vejamos o que diz Santa Faustina Kowalska sobre esses dias de festa e aparente alegria:

"Nestes dois últimos dias de carnaval, conheci um grande acúmulo de castigos e pecados. O Senhor deu-me a conhecer num instante os pecados do mundo inteiro cometidos nestes dias. Desfaleci de terror e, apesar de conhecer toda a profundeza da misericórdia divina, admirei-me que Deus permita que a humanidade exista." (Diário, 926)

Essa apóstola da Divina Misericórdia escrevia tais palavras ainda na primeira metade do século XX. Hoje, passados já mais de 100 anos, não há dúvidas de que os festejos carnavalescos pioraram muito. Se a revelação recebida por Faustina fê-la "desfalecer de terror", com que tristeza não deveríamos reagir ao quadro que, agora, infelizmente, todos podemos ter diante dos olhos, graças ao alarde dos meios de comunicação! Se, com um só Carnaval do século passado, uma santa se admirava por Deus permitir que a humanidade existisse, o que dizer dos festivais que se repetem, ano após ano, aumentando mais e mais a sua malícia — a ponto de a ala de uma escola de samba anunciar, este ano, "que terá 40 casais simulando sexo na Avenida"?

Mas nós, infelizes que somos, perdemos a noção do que seja o pecado. A ofensa cometida a Deus tornou-se para os nossos contemporâneos uma trivialidade, algo banal. Os homens e mulheres de nosso tempo não estão minimamente preocupados com mandamento algum: embebedam-se fim de semana sim e outro também; têm sexo quando, como e com quem bem entendem; e, pior do que tudo isso, criam os filhos que têm, frutos do acaso, para viverem as mesmas coisas que eles vivem. Em resumo, e é esta a grande tragédia de nossa época, o homem moderno transformou a sua vida em uma festa de Carnaval prolongada. Que as pessoas vivam 4 dias de festas indecentes uma vez por ano, é escandaloso; mas que passem as 4 idades de sua vida na mesma situação, é uma tragédia muito pior.

O quadro é horrendo, mas a pergunta que devemos fazer nós, que estamos no mundo sem sermos do mundo, é como acordar essas pessoas, que convivem conosco no dia a dia e até que fazem parte de nossa família. Qual a melhor forma de convertê-las e tirá-las do abismo em que se acham?

Uma sugestão que muitas vezes o Padre Paulo Ricardo lança em suas pregações é mostrar para os pecadores como eles são infelizes na vida que levam. Para aqueles que estão cegos e apaixonados pelas coisas do mundo, será muitas vezes inútil repetirmos o velho sermão dos santos — embora não o devamos subestimar, absolutamente. Com muita frequência, no entanto, as palavras deles só costumam funcionar para "os de dentro", que já têm o mínimo de temor de Deus. Para quem "está fora", muito mais eficaz é apontar para a tristeza que mora nos corações afastados do Senhor: onde estão, na Quarta-feira de Cinzas, os sorrisos e as gargalhadas que desfilaram na Sapucaí? Para onde foram tantas energias gastas pelo prazer, pela roupa mais exuberante, por mais um gole de bebida?

É mais ou menos esse o quadro que pinta, no vídeo acima, a grande comunicadora católica Madre Angélica, falecida ano passado (2016), nos Estados Unidos. No excerto em questão, a religiosa bem-humorada mistura com a estratégia do "olha para ti mesmo" a tradicional pregação cristã sobre o pecado, o escândalo, a penitência e o inferno, à semelhança do pai de família do Evangelho "que tira do seu baú coisas novas e velhas" ( Mt 13, 52).

Que as suas palavras possam cair, de alguma forma, nos corações afastados de Cristo e da sua Igreja. Para os que entendem inglês, vale a pena assistir ao episódio completo de onde foi extraído esse vídeo: o programa foi ao ar no dia 2 de março de 1999, e fala sobre as "observâncias quaresmais".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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As pessoas mais difíceis de converter. Seria você uma delas?

Esta matéria é sobre um tipo difícil de converter, que acha que conhece a Cristo, que já vive o Evangelho e que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Seria você, por acaso, uma dessas pessoas?

As pessoas mais difíceis de converter não são os que estão no mundo, mas os próprios católicos.

Ninguém se escandalize com isso, porque essa situação já foi denunciada várias vezes por pregadores de outros séculos. O pe. António Vieira, por exemplo, dizia que, "antigamente, batizavam-se os que eram convertidos; hoje, é preciso converter os que são batizados". Se a situação era assim no seu tempo, o século XVII, quanto mais em nossa época, em que a TV, a Internet e os meios de comunicação de uma forma geral são os maiores responsáveis por "formar" (ou deformar) as mentes das pessoas! Nunca foi tão fácil ser mundano, render-se aos encantamentos do mundo e esquecer-se de Deus, de nossa alma e das verdades eternas!

No entanto, este que é um verdadeiro drama — o de perder a Deus pelo pecado e deixar escapar pelas mãos a própria salvação — só é vivido verdadeiramente por quem tem fé. Aqueles que não a têm já estão entregues, rendidos, derrotados. E é deles principalmente que falamos quando nos referimos às pessoas mais difíceis de converter. É a católicos sem fé que queremos atingir com estas linhas.

Cumpre dizer, antes de mais nada, que não queremos pintar um quadro horrendo para os outros, enquanto mascaramos a nossa própria condição. Nossa santificação, o trabalho de nossa conversão, não é, evidentemente, obra de um dia ou de uma semana. Nós, que caminhamos por este vale de lágrimas, devemos estar sempre conscientes de que a presença da Santíssima Trindade em nós, pela graça, vai encerrada "em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós" (2Cor 4, 7). Não é nossa pretensão criar uma "casta" de iluminados dentro da Igreja, nem instituir algum tipo de "alfândega" para limitar as pessoas que atravessam a soleira de nossos templos. Essa exortação é mais um "convite à penitência comum", pois é assim que deve ser a correção fraterna feita a pecadores por… pecadores [1]. Em outras palavras, Cristo veio ao mundo para salvar os delinquentes e nós somos os primeiros deles (cf. 1Tm 1, 15)!

Partamos, porém, sem mais delongas, a uma breve descrição de como vive a maior parte de nossos autodenominados católicos.

Crêem eles, porventura? Talvez nos artigos do Creio, se tomados de modo simples; desdobrado o conteúdo que ali se encontra, certamente encontraremos muitos negando, por exemplo, a existência dos demônios ou da condenação eterna. Eles certamente não se negarão a repetir os artigos do Creio, um por um, quando se levantarem no domingo, durante a Missa, para rezá-lo; mas é que eles vão à Missa com tanta irregularidade, que muitas vezes sequer se dão conta de que estão tropeçando em uma e outra parte da oração.

Mas o que acontece quando alguém lhe mostra que faltar à Missa aos domingos é pecado mortal? E que é preciso confessar-se, portanto, antes de aproximar-se novamente da Sagrada Comunhão? Neste momento, o tipo a que nos referimos imediatamente desconversa, dá de ombros, tenta dizer alguma coisa para se desculpar e leva a sua vida do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. No próximo domingo em que for à Missa, talvez daí a um mês — ou mesmo durante a semana, quando sentir vontade —, ele entrará tranquilamente na procissão para receber Jesus Eucarístico, sem nenhum escrúpulo ou remorso de consciência.

Esse exemplo é ainda muito simples, porque faz referência apenas ao preceito dominical. Se fosse tratado, no entanto, o problema do sexto mandamento, certamente a resistência seria ainda maior. Onde já se viu não poder comungar, por exemplo, quem usa anticoncepcionais? Ou quem dorme com o namorado ou a namorada? Ou quem assiste a vídeos pornográficos ou cai no pecado da masturbação? Ou até, e aqui se rasgam definitivamente as vestes, quem consente em maus pensamentos e já pratica o adultério com os outros no coração?

Esse tipo, porém, é empedernido, é teimoso. Quer participar das cerimônias católicas, mas sem levar muito a sério a Igreja da qual diz fazer parte. Quer ser ativo na liturgia, participar das pastorais e dos movimentos, mas isso é o bastante. Ele traça uma linha para demarcar o limite da sua entrega: até aqui eu vou, até aqui eu sou católico, até aqui eu obedeço à Igreja. Ir além — ele já estabeleceu, ex cathedra, em sua mente — é "moralismo", "radicalismo", "extremismo".

Por que é tão difícil mudar a cabeça de pessoas assim, é muitíssimo fácil de perceber. Diferentemente de quem vive no mundo, despreocupado de tudo e desligado de qualquer prática religiosa, esse tipo de católico acha que conhece a Cristo, acha que já vive o Evangelho, acha que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Se estivesse fora, assumisse a sua ignorância e entrasse na Igreja com a intenção de aprender e reformar as próprias opiniões, certamente produziria muito mais frutos do que no atual estado em que se acha.

Muito apropriadas nesse sentido são as palavras do bem-aventurado John Henry Newman, durante um discurso a pessoas de várias religiões:

"Ninguém deveria entrar na Igreja sem o firme propósito de aceitar a sua palavra em todas as matérias de doutrina e moral, e isso por ela vir diretamente do Deus da Verdade. Tu deves enfrentar a matéria e calcular os gastos (cf. Lc 14, 28). Se não te aproximas com esse espírito, tu sequer deverias aproximar-te: grandes e pequenos, instruídos e ignorantes, todos devem vir para aprender. Se tens essa disposição, dificilmente algo dará errado, pois tens uma boa base; do contrário, se vens com qualquer outra intenção, é melhor que esperes até que te tenhas livrado dela. Tu deves vir à Igreja, eu te digo, para aprender; deves vir, não para trazeres a ela tuas próprias noções, mas com a intenção de ser sempre um aprendiz; deves vir com a intenção de tomá-la como parte de tua herança e de jamais apartar-te dela. Não venhas como para um experimento; não venhas como para arrumar assentos em uma capela, ou bilhetes para uma conferência; vem a ela como para tua casa, para a escola de tua alma, para a Mãe dos Santos e vestíbulo dos céus." [2]

A recomendação que o Cardeal Newman faz em seu discurso é importante porque lembra que existe, na Igreja Católica, uma identidade substancialmente diferente do protestantismo, religião muito comum na Inglaterra de sua época (e, agora, cada vez mais, também no Brasil). Enquanto entre os protestantes cada cristão é, por assim dizer, o seu próprio papa, a única e verdadeira Igreja de Cristo é una. Isso significa que um católico, quando crê, não é no que quer, mas no que recebeu de outrem; quando leva uma vida moral, não é com base em suas próprias ideias, mas nos ensinamentos de uma autoridade; quando reza, não é conforme a sua cabeça, mas de acordo com o modo como Deus mesmo manifestou que quer ser cultuado. Nós não inventamos a nossa própria religião; vivemos (ou melhor, esforçamo-nos por viver) a religião que Deus mesmo instituiu.

Ser católico exige, portanto, em primeiríssimo lugar, uma autêntica mudança de mentalidade. Sem isso, não estaremos seguindo a Igreja, mas tão somente o nosso próprio "eu", como diz Santo Tomás de Aquino:

"É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade." [3]

Se a Igreja lhe diz, por exemplo, com a sua autoridade dada pelo próprio Cristo (cf. Mt 16, 18), que tal coisa é pecado, e você, ao invés de acatar, desconversa, diz que "não é bem assim" e tenta se justificar, é muito triste dizê-lo, mas seu catolicismo é superficial, não passa de um verniz, de uma fachada. Você não acredita na Igreja, mas em você mesmo. Sua opinião conta muito mais que a religião a qual você diz seguir. Seria muito mais honesto abandonar de vez essa peça farsesca que você encena e procurar a igreja protestante mais próxima e que mais se adequa aos seus gostos e posições.

Abra os olhos de uma vez por todas, pare de tentar mentir para si mesmo e de ficar se defendendo com insultos. Não chame os outros de "moralistas" só porque não compartilham do "código moral" inventado por você; não chame os outros de "radicais" só porque não são superficiais como você; não chame os outros de "extremistas" só porque você se contenta com uma vida morna e levada de qualquer modo. Converta-se, mude de mentalidade e honre as águas do santo Batismo com que a Igreja o banhou! Foi a ela, afinal, não a você, que Cristo confiou as chaves do Reino dos céus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 33, a. 5.
  2. John Henry Newman, Faith and Doubt. In: Discourses to Mixed Congregations, p. 231.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 3.

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Uma resposta católica às indignidades do homem moderno

Em uma sociedade atingida pela desumanização cada vez maior da pessoa, nada como recordar a vida e o magistério do Papa São João Paulo II.

"Perdendo o sentido de Deus, tende-se a perder também o sentido do homem, da sua dignidade e da sua vida." (Evangelium Vitae, 21)

Por Brian Kranick — Muitos podem ficar perplexos, mas é fato histórico que Adolf Hitler, um dos mais prolíficos genocidas em massa que o mundo já conheceu, foi também um vegetariano a quem causava horror a crueldade com os animais. Esse mesmíssimo e peculiar enigma foi revisitado quando a organização PETA (sigla em inglês para "Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais") lançou a peça publicitária "Holocausto no seu prato" (Holocaust on Your Plate), em 2003, comparando animais confinados para consumo a prisioneiros judeus em campos de concentração nazistas. Como notou Richard Weikart, ironicamente ambos os grupos, os nazistas e o PETA, caíram na falácia do antropomorfismo, obscurecendo a distinção que existe entre humanos e animais. Esses são exemplos extremos, mas que lançam luz sobre uma profunda confusão filosófica da era moderna a respeito da dignidade da vida humana. Subjacente a essa desvalorização do homem está uma negação implícita da personalidade.

Essa visão misantrópica infelizmente está em ascensão na cultura ocidental. Para se ter uma ideia do problema, basta olhar para a grande onda de indignação e repúdio às mortes do leão Cecil e do gorila Harambe. O outro lado da supervalorização da vida animal pode ser, muitas vezes, o desprezo pela vida humana; o escândalo por causa de Cecil e Harabe contrasta fortemente com a complacência de nossa cultura em relação ao aborto, à eutanásia, à eugenia, ao suicídio e ao suicídio assistido. Essa "cultura de morte" é a dimensão negativa do esforço moderno por remodelar o ser humano simplesmente como um animal ordinário, não mais dotado de uma dignidade ontológica ou de um propósito teleológico dados por Deus. A vida humana se torna dispensável, em comparação com o reconhecido bem maior da sociedade ou do Estado, ou com o capricho do indivíduo. O valor da pessoa humana hoje se tornou obscuro.

Como chegamos a esse ponto?

A mistura da dignidade do homem e do animal não é senão sintoma de uma outra confusão, mais geral e sutil. O crescente desapreço pelo fato de o homem ser especial atravessa os séculos, tendo como incremento subversões filosóficas às bases do verdadeiro conhecimento.

O núcleo dessa crise está na epistemologia. A amplitude e a profundidade do conhecimento humano foram sacrificadas nos altares do ceticismo e do materialismo. Esse erro epistemológico moderno gira em torno da negação de nossa verdadeira natureza humana como seres compostos, de corpo e alma. Como consequência dessa separação, os primeiros passos em falso foram dados na filosofia.

Alguns traçam os erros do secularismo moderno até Guilherme de Ockham, no século XIV, para quem essências universais, como a humanidade, não eram reais, mas apenas extrapolações nominais em nossas mentes. A teoria de Ockham era de que não existiam formas universais, apenas formas individuais. Isso minou parte de nossa habilidade de explicar a realidade objetiva. Se não há nenhuma forma humana universal, ou natureza humana, então estamos privados de satisfazer os fins de nossa natureza e o nosso propósito teleológico. Uma vez que essas coisas se foram, não é difícil imaginar uma confusão de personalidade e uma perda de ética.

Na era do Iluminismo, empiristas como Locke e Hume propuseram que apenas o fenômeno de uma coisa podia ser conhecida, não a coisa em si. Assim como Ockham, eles rejeitaram o conhecimento abstrato dos universais em favor simplesmente da experiência sensível. Em outras palavras, eles trocaram nosso conhecimento intelectual e espiritual por um semelhante ao dos animais. Kant, de modo similar, só admitia que conhecêssemos "as coisas tal como se conheciam", tal como interpretadas pela mente, mas não "as coisas em si mesmas". Esse "geocentrismo epistemológico", como o chamava o padre Stanley Jaki, impede-nos de conhecer a Deus, a alma e a natureza completa da realidade.

Mas talvez o golpe mais devastador ao entendimento de nossa natureza composta venha do materialismo biológico, na forma do darwinismo do século XIX. A teoria de Darwin tornou o materialismo biológico estrito e o cientificismo os únicos conhecimentos predominantemente "aceitáveis". Não mais era necessária uma criação especial do homem por Deus, ou uma alma intelectual e imaterial. O homem seria apenas um primata evoluído, criado através de forças cegas, erros genéticos e graças à sobrevivência dos mais fortes. A separação de corpo e alma, iniciada em filosofias dos séculos anteriores, estava agora completa. Como notou Chesterton, " o que a evolução nega em especial não é a existência de Deus, mas a existência do homem". O homem não era mais um ente composto espiritual, mas apenas uma criatura física.

O mundo que o materialismo forjou

Esse reducionismo materialista teve grandes repercussões na visão de mundo moderna e na desumanização do homem. Quando os materialistas finalmente tomaram o poder, os regimes comunistas, de Stálin, Mao e Pol Pot, mataram cerca de 100 milhões de pessoas. Também o darwinismo social se infiltrou no pensamento do Ocidente, espalhando a ideia de que havia pessoas "aptas" e "inaptas", bem como raças "superiores" e "inferiores". Isso se tornou notável na Alemanha nazista, onde noções racistas eram supostamente "provadas" e "justificadas" pela ciência. Hitler abraçou completamente essa ideia da ética evolucionista em sua marcha rumo à guerra e ao genocídio.

A evidência do século passado mostra como a ética evolucionista é, na verdade, ética nenhuma. Ela mina nossa segurança em relação à moralidade, tornando-a subjetiva e, no espírito dos nossos tempos, relativista. O reducionismo material alterou a visão das pessoas sobre a santidade da vida humana, desvalorizando o que significa ser humano. A alma se tornou meramente um epifenômeno da matéria. Nesse sentido, o Cristianismo está em desacordo com o materialismo darwinista estrito, tal como oposto à teoria geral da evolução, com a qual, na verdade, não existe conflito algum. Esse materialismo dogmático nega a priori até mesmo a possibilidade de causalidade final no homem. Ela reprime falsamente a razoabilidade da fé em Deus, de nossos princípios morais e o conhecimento de nós mesmos como seres espirituais.

Infelizmente, esse reducionismo epistemológico não tem só persistido, mas também aumentado, até o presente. Ainda que haja algum progresso contra a cultura da morte, ainda permanece uma espécie de amnésia, persistindo em nossa psiquê cultural, acerca da dignidade humana. Não surpreendentemente, também tem acontecido um simultâneo afastamento da fé, como evidenciam os números recorde de não-religiosos e ateus em entrevistas recentes (i.e., o "crescimento dos Nenhum", que assinalam "nenhuma" preferência religiosa).

Uma resposta católica

Como nós, católicos, devemos reagir a tudo isso? Comecemos reafirmando que existem muitas razões boas, intelectuais e multifaces para crer. O Cristianismo e a fé em Deus são perfeitamente razoáveis, não obstante os protestos dos materialistas científicos modernos e dos ateístas. Ciência e teologia, fé e razão não são opostas uma à outra, mas são "como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade" [1]. De fato, nunca antes se teve disponíveis tantos registros científicos avançados que apontam para um Criador. Que melhor comprovação poderia haver, por exemplo, do argumento cosmológico de Santo Tomás para Deus como o "primeiro motor", que o Big Bang e a sua última evidência: radiação cósmica de fundo em micro-ondas?

O Cristianismo foi construído sobre a revelação, é claro, mas também sobre a razão. Jesus mandou-nos amar a Deus com todo o nosso entendimento (cf. Mt 22, 37). A tradição intelectual do Ocidente e a sua ciência empírica são, no fim das contas, frutos de nossa civilização cristã. A disputa com o secularismo moderno só surge com a negação materialista de Deus e da alma humana, por serem uma negação de nosso próprio ser. O ateísmo sofre de um defeito epistemológico, que é o de negar a personalidade. Como afirma o Papa Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum, de 1891, "o que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência" [2]. Devemos abraçar a ideia da personalidade e a filosofia do personalismo como parte de nossa ética e visão de mundo, e como um bastião contra as filosofias desumanizadoras de nosso tempo.

Um dos grandes proponentes da moderna filosofia do personalismo foi o Papa São João Paulo II. Quando era apenas Karol Wojtyla, ele testemunhou em primeira mão essas forças desumanizadoras do materialismo na Polônia, inicialmente sob a ocupação nazista e, depois, debaixo do comunismo soviético. Ele esteve no epicentro de ambas as sanhas totalitárias e observou o que chamava de "pulverização" da pessoa humana. Foi em reação a essas ideologias destruidoras e às tiranias políticas subsequentes que ele ajudou a liderar um novo movimento filosófico e uma teologia moral focada na dignidade absoluta da pessoa humana.

Wojtyla defendia um "personalismo tomista", uma filosofia focada na dignidade transcendente de cada pessoa. O seu personalismo em particular era fundado na metafísica clássica de Santo Tomás de Aquino, bem como na visão cosmológica do ser humano como um ente apartado do resto da criação por seu intelecto e por sua natureza racional.

Wojtyla procurou ir além disso, no entanto, a fim de explicar a "totalidade da pessoa". Ele reconhecia a grande importância, para a experiência humana, da perspectiva interior. Esta ele a chamava de "subjetividade", experimentada na consciência de cada pessoa, da qual não poderia sequer haver duas iguais. Cada pessoa, então, é absolutamente irrepetível, insubstituível, incomunicável e irredutível.

O Papa João Paulo falava disso em termos práticos, em seu "princípio personalista", dizendo que o ser humano deve sempre ser tratado como um fim em si mesmo, sem jamais ser submetido a outrem como meio para atingir um fim. Internalizar esse princípio produziria inevitavelmente aplicações práticas concretas, tais como ir contra a escravidão e o tráfico humano. Mas também poderia ajudar a colocar a sociedade atual contra a normalização dessa cultura de morte, com seus impulsos de descaracterizar a pessoa humana, como se viu recentemente na Holanda — onde praticaram a eutanásia com um homem por ele ser alcóolatra — e no discurso de Peter Singer — o ético utilitarista de Princeton que pediu pelo fim da vida de crianças deficientes.

Cada ser humano é único

Como católicos, nós devemos sempre defender a dignidade inviolável da pessoa humana, princípio que remonta ao próprio Gênesis, é claro, onde lemos que "Deus criou o homem à sua imagem" ( Gn 1, 27). O Magistério faz eco disso ao chamar cada um de nós de "sinal do Deus vivo, ícone de Jesus Cristo" [3]. Temos uma transcendência interior em comum com nosso Criador. Nós, humanos, somos relacionais e seres sociais, feitos em conformidade com Deus, uma trindade de Pessoas intrarrelacionais.

Por ser imagem de Deus, há algo de especial no homem, que o separa de todo o resto da criação. Nós, sozinhos, podemos dizer "Eu". Nenhum outro animal, por mais belo que pareça, pode pronunciar algo assim. Eles estão limitados pelo instinto. Mesmo nos mais elevados primatas, como no caso fascinante de Koko, a gorila que se comunica por sinais, a disparidade continua sendo imensa. Nas palavras do Papa João Paulo, é preciso dar "um salto ontológico" para atravessar o "grande abismo" que separa pessoa e não-pessoa. Só o ser humano é capaz de pensamento racional e abstrato, livre arbítrio, autoconsciência, ação moral, linguagem complexa, progresso tecnológica, propósito elevado, altruísmo, amor, criatividade, oração e adoração. O ser humano é diferente em grau e em substância, porque Deus formou cada pessoa da infinitude de Si mesmo [4].

No Novo Testamento, Jesus dá-nos o coração do personalismo com seu mandamento de "amar ao próximo como a si mesmo". Porque, como ele revela noutro lugar, "o que tiverdes feito ao menor destes meus irmãos, foi a Mim que o fizestes". Ao abraçar essa noção personalista em nossas vidas, nós nos livramos de nosso próprio egoísmo e frieza em relação ao próximo. Tornamo-nos capazes de ver a face de Deus no outro. Essa é a nossa vacina contra a desumanização da pessoa, juntamente com a adoção de uma cultura da vida que resista a séculos de ceticismo e materialismo e nos atraia a um conhecimento mais completo. O materialismo é apenas parcialmente verdadeiro. Ele nega a natureza mais elevada de nosso ser espiritual. Ao reconhecer a imagem de Deus em cada um, vemos o valor universal ontológico de cada pessoa, mesmo dos aparentemente menores e mais fracos de nós. Assim podemos, à luz do sacrifício de Cristo, contemplar "quão precioso aos olhos de Deus e quão inestimável é o valor da sua vida" com "a dignidade quase divina de cada homem" [5] — e agir de acordo com essa verdade.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 1.
  2. Papa Leão XIII, Carta Encíclica Rerum Novarum (15 de maio de 1891), n. 5.
  3. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995), n. 84.
  4. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2258.
  5. Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995), n. 25.