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Ratisbona e a intolerância do secularismo ocidental

Há uma intolerância e um fanatismo vigentes no Ocidente, muito semelhantes, em essência, àqueles que imperam no mundo islâmico. É o que o Papa Bento XVI tentou alertar, sem sucesso, em Ratisbona.

Por John H. Boyer* | Os ataques terroristas de 11 de setembro acabaram de completar 15 anos. Com eles, no dia seguinte, completou seu décimo aniversário o famoso discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, na Alemanha. Ainda que a controvérsia sobre essa breve exposição se tenha concentrado nos comentários do Papa a respeito do Islã e da violência, a principal crítica do pontífice era direcionada não ao Islã, mas ao Ocidente.

O propósito de Ratzinger era prover "uma crítica à razão moderna a partir do seu interior", mostrando as autorrestrições que ela tem imposto a si mesma e que a têm tornado incapaz de responder a questões fundamentais de moralidade e da existência humana. Essas autorrestrições advêm da ideia de que só seria possível conhecer o que se pode comprovar empiricamente. Dita posição — que encontra em Bacon e em Hume os seus pioneiros e no positivismo lógico do início do século XX, a sua expressão mais forte — é vista muito claramente hoje sob a forma de "cientificismo", ideologia segundo a qual todo conhecimento vem da ciência e qualquer coisa que não possa ser investigada por raciocínio dedutivo-hipotético, usando métodos quantitativos, não passa de crença e superstição irracional. O cientificismo não sustenta que os métodos matemáticos das ciências experimentais (e até das ciências sociais) sejam a melhor forma de descobrir a verdade; eles seriam, na verdade, o único meio de fazê-lo.

Como sublinha o Papa Bento XVI, esse estreitamento da razão acarreta inúmeras consequências. Em primeiro lugar, a razão moderna deve reconhecer que é incapaz de explicar seus próprios pressupostos. O cientificismo deve admitir "a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais operativas na natureza como um dado de fato, sobre o qual se baseia o seu percurso metódico". O método científico em si mesmo não pode ser justificado usando o método científico, a ponto de podermos dizer inclusive que esse é um método "exclusivo" das ciências naturais. Em segundo lugar, não cabe à ciência comentar ou avaliar a racionalidade de crenças religiosas e asserções morais. A constrição que impossibilita o Ocidente de criticar ou dialogar com o Islã é a mesma que torna o secularismo ocidental incapaz e desinteressado de ouvir ou mesmo tolerar a moral cristã tradicional no próprio Ocidente.

A descrição de razão moderna feita pelo Pontífice pode ajudar-nos a entender melhor a relutância da esquerda atual em tentar dialogar com religiosos e conservadores no Ocidente. Por um lado, credos religiosos tendem a ser considerados intrinsecamente irracionais. Entendimentos tradicionais a respeito de complementaridade sexual, sexo e gênero, igualdade e justiça são vistos como se não tivessem qualquer base sólida. Isso ajuda a explicar por que, ao descreverem o que consideram intolerância, as pessoas vêm substituindo "ismos" por "fobias".

Ironicamente, a ligação que Ratzinger faz entre voluntarismo e coação, encontrada na teologia violenta da jihad — "está certo porque Deus quer e, se Ele mandar, também podemos impô-lo violentamente" —, aplica-se perfeitamente ao movimento revolucionário moderno. A esquerda secularista moderna é coerciva. Ao invés de tentar convencer seus oponentes raciocinando a partir de princípios comuns, o que ela procura fazer é silenciá-los. A atual ideologia de gênero surgiu praticamente do nada. Isso não significa dizer que não houve nenhuma estrutura intelectual da qual ela tenha advindo. Houve, sim, e trata-se de uma estrutura perturbadora. No entanto, sem qualquer debate ou tentativa de persuasão, pessoas comuns foram simplesmente informadas de que, agora, deveriam aceitar e jurar fidelidade a uma ideologia que reconhece homens travestidos de "mulheres". Quaisquer pessoas que não usem sua voz para louvá-los ou suas mãos para aplaudi-los não são apenas insensíveis como constituem casos de "fanatismo" e "intolerância", provenientes de uma "fobia" profundamente arraigada. Não pode haver nenhuma dissensão.

O mesmo pode ser observado na chamada teoria do "privilégio" e na sua prática nos campus das universidades. O apelo "Reveja seus privilégios" (Check your privilege), constante em sites de esquerda norte-americanos, não serve senão para afirmar que homens brancos, heterossexuais e "cisgêneros" devem reconhecer que possuem vantagens imerecidas na sociedade. É uma declaração de que eles não têm nenhum direito de opinar sobre questões de "interseccionalidade". Isso equivale à reivindicação de que as minorias detêm um lugar privilegiado para julgar o que é justo e injusto com base puramente em seu tom de pele, em sua "orientação sexual", em sua "identidade de gênero" etc. Se alguém de qualquer uma dessas classes "oprimidas" se sentir minimamente agredido, então o que quer que tenha acionado esses sentimentos de opressão deve ser considerado injusto e imoral. Não se trata de um juízo moral baseado em princípios comuns de racionalidade. "Eu não gosto, então está errado e você tem que respeitar os meus sentimentos" é um exemplo textual do ressentimento nietzscheniano, a "vontade de poder" exercida pelos ressentidos.

Analisando essa situação a partir dos comentários do Papa, percebemos que tudo isso não passa de uma forma diferente de voluntarismo. A esquerda não quer usar argumentos recorrendo à razão; o que ela quer é encerrar toda e qualquer discussão. Acontece que a expressão "cala a boca" não é racionalidade, mas arbítrio puro e simples. Será que deveríamos surpreender-nos, no entanto, com um desenvolvimento desse tipo, quando o conceito moderno de razão definiu que questões morais e existenciais estão para além dos limites da investigação racional? Essa é a consequência de estreitar a esfera da razão ao que é puramente matemático. Raciocínios filosóficos sobre moralidade deixaram de ser científicos ou racionais. Se é assim, não há necessidade alguma de tentar convencer aqueles que discordam de você. Os outros devem simplesmente ser silenciados.

Isso tudo é bastante irônico, é claro. Os proponentes da "liberação" sexual, da confusão de gênero e de todas essas coisas demonizam a moral cristã como objetivamente retrógrada e errada — e falam com certeza e segurança morais. Acontece que o mesmo argumento, de que a fé cristã deve ser rejeitada como irracional por não ser científica, aplica-se igualmente à nova ortodoxia da esquerda. Como católicos, porém, não devemos meramente contentar-nos em apontar essa inconsistência. Afinal, se nosso único argumento for tu quoque ("você também"), acabamos abandonando a premissa de que os ensinamentos da Igreja têm fundamento e podem ser conhecidos e defendidos racionalmente.

Se é verdade que devemos defender nossa liberdade religiosa, não podemos simplesmente dizer: "Eu me oponho ao casamento gay porque sou católico". Precisamos explicar que nos opomos a isso porque se trata de uma incompreensão e de uma perversão do casamento, baseada em um falso entendimento da natureza humana, do sexo e do amor. Do mesmo modo, não nos opomos ao aborto simplesmente porque o Papa nos diz para fazê-lo. Opomo-nos a isso pela mesma razão por que o Papa se opõe: porque é algo objetivamente mau, e nós podemos usar a razão para demonstrá-lo.

Em seu discurso, o Papa Bento XVI defendeu por que é imperativo à academia reconhecer que os amplos horizontes da investigação racional incluem questões de fé, de moral e de metafísica. Para aqueles que não estão na educação superior, que nada têm a dizer sobre esse departamento, nós devemos continuar a educar-nos e prover defesas claras e racionais de nossos princípios morais. Não devemos pressupor que a fé é a crença cega em afirmações que não podem ser amparadas ou fundamentadas pela razão. Apelar para a liberdade religiosa como argumento único é implicitamente conceder que a religião é algo irracional e, no fim das contas, sequer seremos capazes de explicar por que nos é devida essa liberdade, em primeiro lugar.

Fonte: Crisis Magazine | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

* John H. Boyer é doutorando em Filosofia pelo Centro de Estudos Tomistas da Universidade de Santo Tomás, em Houston, no Texas. Também contribui para o site The Federalist.

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A prova que faltava: livro recomendado pelo MEC ensina gênero nas escolas

O livro Sociologia em movimento insiste na tese marxista de que a culpa para as discriminações está na família e na Igreja

Certa vez, quando questionado a respeito da popularidade dos jornais, o escritor inglês G. K. Chesterton explicou que aquele sucesso se devia à ficção promovida por eles. "A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro", declarou.

A cobertura da imprensa sobre o debate acerca da inclusão do termo gênero nos Planos Municipais de Educação é o mais recente exemplo dessa ficção. Na maior parte das reportagens, procurou-se transmitir um retrato bastante distorcido da realidade, no qual os cristãos apareciam como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento. Quem lesse esses jornais, logo teria a impressão de que a Igreja, movida por um repentino acesso de cólera, havia se levantado para uma cruzada pelo obscurantismo. Gênero, segundo a mídia e os ideólogos de plantão, seria uma expressão inofensiva, cujo significado se resumiria tão somente a uma luta pelo fim da discriminação.

Eis que agora nos surgem as provas cabais de que a Teoria de Gênero é exatamente aquilo tudo que havíamos denunciado aqui no site: um programa de destruição da família e da Igreja. Está nas mãos de alunos do ensino médio um livro chamado Sociologia em movimento. A obra, segundo consta, foi editada em 2013, pela Editora Moderna, de acordo com as determinações do Ministério da Educação para o Programa Nacional do Livro Didático — ou seja, antes mesmo que o Plano Nacional de Educação fosse votado.

No capítulo 14, intitulado Gênero e sexualidade, o leitor encontra uma apologia aberta ao fim da família e da lei natural, em nome de uma suposta liberdade e do que os autores entendem por "identidade de gênero", isto é, "uma construção cultural estabelecida socialmente através de símbolos e comportamentos, e não uma determinação de diferenças anatômicas entre os seres humanos" [1]. A confissão vem logo nas primeiras linhas: "As permanências da sociedade patriarcal e do androcentrismo estão entre as principais explicações para esse fenômeno (a discriminação), e serão trabalhadas ao longo do capítulo, juntamente com as evidências que apontam para a reversão desse quadro social" [2]. O objetivo do estudo, conforme as próprias palavras do texto, é "reconstruir os papéis sociais estabelecidos" [3].

Quem não está familiarizado com o linguajar revolucionário deste tipo de publicação, é facilmente induzido a trocar gato por lebre. Ocorre que, no mundo pós-moderno, como explica Padre Paulo Ricardo no curso de Filosofia da Linguagem, a guerra cultural é uma guerra de palavras. A linguagem é um dos meios mais importantes utilizados pela intelligentsia para refundar o mundo à sua imagem e semelhança.

O próprio debate sobre o uso da palavra "gênero" nos planos de educação comprova isso. Embora o texto vigente do Plano Nacional defenda a "superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação", não faltaram críticas à supressão da tal palavra. Pergunta: se se trata apenas de uma luta pelo respeito, por que não basta dizer "erradicação de todas as formas de discriminação"? Essa é uma questão que eles não respondem. Mas para a qual há uma resposta.

Filhos de Karl Marx

"Para a Sociologia", diz o livro, "a família (...) pode assumir diferentes configurações e padrões de normalidade". A pergunta é se os pais estão de acordo com essa visão subjetiva e relativista de família.

A palavra "gênero", do modo como foi pensada pelos ideólogos, representa todo um projeto de engenharia social. Como fica claro no livro, a tese tem suas raízes no pensamento de Karl Marx e Engels. Na obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado, esses dois ídolos do pensamento esquerdista atribuem à família a máxima culpa pelas desigualdades sociais. Eles afirmam: "O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino" [4]. Seria preciso, portanto, para destruir o capitalismo, destruir primeiro a família. Por isso, quando se fala de luta contra a "família patriarcal" ou "família burguesa", saiba que se fala de luta contra a família natural, a saber, aquela formada por um homem, uma mulher e seus filhos. Padre Paulo Ricardo explica muito bem essa questão no vídeo Marxismo e a destruição da família.

O marxismo nega a existência da verdade. A estrutura do mundo se resumiria a uma tensão de forças antagonistas, influenciada pelo pensamento dominante ou, nas palavras de Marx, pela ideologia. Essa ideologia, por sua vez, seria a superestrutura, aquelas instituições que sustentam o status quo — família e Igreja, por exemplo. Desse modo, para que a estrutura opressora caia, é mister que se corrompa a superestrutura por meio de uma nova ideologia, de um novo discurso. O Papa Pio XI notou que o socialismo propõe "a formação das inteligências e dos costumes" como também "se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem 'socialista' que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo" [5].

É fato. Sem a presença da família, as crianças são "educadas" pela escola, conforme os interesses do Estado. Isso já acontece em países como a Suécia, onde os filhos são completamente retirados do convívio dos pais. A razão é a seguinte: para que as crianças percam a noção de certo e errado, é preciso moldá-las desde a mais tenra idade. A lei que obriga as famílias a colocarem seus filhos nas escolas com apenas quatro anos de idade está intimamente ligada a esse projeto. Aliás, não deixa de ser interessante o fato de que, nos planos municipais de algumas cidades do Brasil, "gênero" apareceu apenas nos parágrafos referentes à educação infantil.

O livro Sociologia em movimento abraça essa tese marxista, bem como a de outras correntes filosóficas contrárias ao cristianismo, quando, por exemplo, defende a ideia de que "o discurso sobre a sexualidade não é uma descrição da natureza reprodutiva, mas sim um meio de estabelecer relações de poder construídas historicamente nas sociedades ocidentais" [6]. Os autores ainda insistem no absurdo:

O peso cultural da família patriarcal e da Igreja em nossa sociedade (...) continua a ser uma forte influência para a marginalização dos grupos LGBT. Isso leva à violência homofóbica e transfóbica (aversão a homossexuais e a transgêneros), assim como à violência doméstica contra mulheres, fenômeno social de intolerância e machismo que por vezes acarreta a morte de mulheres, homossexuais, transgêneros e pessoas que não se enquadram nos estereótipos tradicionais dos gêneros [7].

No geral, a obra é um conjunto de falácias e preconceitos, que levam o leitor desavisado a acreditar que na origem de todas as desgraças estão a família e a Igreja. E não deixa de ser curiosa a afirmação de que "o discurso da sexualidade" seria apenas uma convenção social para legitimar o poder de algumas instituições. Com isso, o livro dá um tiro no próprio pé e deixa claro o propósito da agenda de gênero: chegar ao poder. Trata-se de uma ideologia criada para levar seus defensores à liderança da sociedade. Dadas as premissas, a conclusão não pode ser outra: se não existe uma lei natural para a sexualidade — mas discursos ideológicos, como dizem —, que seria a questão de gênero senão apenas outra ideologia? O gato se esconde, mas deixa o rabo de fora.

Percebam: o direito natural, como propõe a filosofia perene, desautoriza qualquer interpretação relativista a respeito da pessoa humana. Assim, é preciso destruir a sensibilidade social, para que, uma vez cega aos apelos da natureza e da razão, possa-se instaurar um novo modelo de comportamento, o qual favoreça os interesses ideológicos.

A Igreja, ao contrário, não defende um modelo sexual porque quer dominar as pessoas, mas porque esse modelo corresponde à verdade do ser humano. Se essa lei natural é posta de lado, "abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político" [8]. As leis ficam sob o arbítrio da maioria. Perdem o seu fundamento. Bento XVI deixou isso evidente em uma de suas catequeses sobre Santo Tomás de Aquino:

A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural, este fundamento com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia na sua Encíclica Evangelium vitae palavras que permanecem de grande atualidade: "Para o bem do futuro da sociedade e do progresso de uma democracia sadia, urge pois redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e naturais, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum estado jamais poderá criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover".

A mentira pseudocientífica

Ė uma enorme tolice acreditar que a liberdade virá com o fim da família e da Igreja. Marx descreveu com eloquência, embora de forma bastante desonesta, as dificuldades enfrentadas pelos operários. Pregou a revolução para daí, supostamente, nascer o mundo melhor. Mas nada disse sobre o ordenamento desse mundo, o qual acabou se mostrando, na prática, bem distante da utopia libertadora. O saldo é de mais de 100 milhões de mortos.

A esperança socialista é vazia e duvidosa, porque se fundamenta num erro crasso: o materialismo. Ela ignora que "o homem permanece sempre homem", que sua "liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal" [9]. Um arranjo econômico hipoteticamente superior não pode alterar essa realidade, já que o ser humano "não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis" [10]. Do mesmo modo, a destruição da estrutura familiar natural, longe de trazer soluções autênticas, só causará mais violência. A experiência dos últimos anos, com tantas famílias em crise, tem provado isso de maneira inequívoca.

Existe, sim, uma realidade chamada pecado. E ignorá-la "dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes" [11]. É no seio da família, marcada pelas virtudes humanas e teologais, que essa tendência ao mal pode ser enfrentada com verdadeira eficácia. A Agenda de Gênero prega justamente o contrário, a pretexto de uma nova ordem mundial, exercida de maneira raivosa e delinquente.

Desmascarando a farsa

Nenhuma outra instituição no mundo fez mais pela dignidade da mulher que a família e a Igreja. Sociólogos sérios, como o agnóstico Rodney Stark e tantos outros escondidos do público pela mídia e por muitas universidades, reconhecem que o cristianismo exerceu um papel fundamental na emancipação da mulher. Isso explica o grande número de conversões femininas, nos primeiros séculos. É significativa esta declaração de Stark:

Em meio às denúncias atuais de que o cristianismo é patriarcal e sexista, facilmente se esquece de que a Igreja primitiva era tão particularmente atraente para mulheres que no ano 370 o imperador Valentiniano emitiu uma ordem escrita ao papa Dâmaso I requerendo que os missionários cristãos parassem de visitar as casas de mulheres pagãs. Embora alguns autores clássicos afirmem que as mulheres eram presa fácil para qualquer 'superstição forânea', muitos reconhecem que o cristianismo era extraordinariamente atraente porque no interior da subcultura cristã as mulheres tinham um status mais elevado do que no mundo greco-romano em geral [12].

O sociólogo explica que esse status elevado da mulher no cristianismo se devia, entre outras coisas, à visão humanista da religião cristã. Com a proibição ao aborto e ao infanticídio, por exemplo, a mulher deixou de ser vista como propriedade do marido, um objeto descartável, para converter-se em uma companheira, pela qual deveria dar a vida, como Cristo deu a vida pela Igreja (cf. Ef 5, 25). É no cristianismo medieval, sobretudo, que surge a figura das grandes rainhas católicas, cheias de virtudes para pastorear a grei. No paganismo, por outro lado, as mulheres eram vistas simplesmente como objetos de prazer do homem, os quais possuíam mesmo o direito de assassiná-las.

É da pena de Santo Tomás de Aquino que provém uma das mais belas apologias da dignidade feminina já vistas. "Era conveniente que a mulher fosse formada da costela do homem", ele escreve, "para significar que entre o homem e a mulher deve haver uma união de sociedade, pois nem a mulher deve dominar o homem, e por isso não foi formada da cabeça; nem deve ser desprezada pelo homem, como se lhe fosse servilmente submetida, e por isso não foi formada dos pés" [13].

Fica evidente, por conseguinte, a falsidade da acusação feita por Marx, Michel Foucault e cia. É no paganismo, na libertinagem sexual, na depravação moral que surgem as opressões contra as mulheres, os homossexuais e outros indivíduos — não no cristianismo. E isso por uma razão óbvia: a libertinagem sexual transforma o ser humano em um ser descartável, em uma massinha de modelar. O comportamento violento dos jovens — como vimos na aula sobre a redução da maioridade penal — é resultado direto desse modelo de educação liberal, que os considera animais adestráveis. Um animal se comportará como um animal.

Uma visão distorcida da realidade

"O conceito de gênero", diz a obra, "não se fundamenta em um princípio evolutivo, biológico ou morfológico, e sim em uma construção social". Disto a ensinar às crianças que elas devem "construir a própria identidade de gênero" é um passo.

O principal problema dessa questão é de cunho humanístico. A Teoria de Gênero defende uma visão de pessoa humana profundamente equivocada, segundo a qual o ser humano seria determinado apenas pelo ego e pela vontade. O corpo nada tem a dizer nessa história. Trata-se apenas de um instrumento para a satisfação das vontades. Assim, pode-se admitir todo tipo de "união sexual", desde que exista o desejo e o consentimento para tal. O homem fica reduzido às suas paixões.

Os frutos de uma loucura como essa são colhidos dentro do próprio movimento homossexual, como no caso escandaloso dos clubes do carimbo, que têm espalhado de propósito o vírus do HIV entre os homossexuais. O prazer é a justificativa. Se a lei apóia a libertinagem como um direito inalienável, "nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos" [14].

Acusar a Igreja e a família de fomentarem a violência é de uma insanidade inominável. A castidade que a Igreja pede aos homossexuais é a mesma pedida aos heterossexuais. Não há nada de homofóbico. Norteados pela regra da caridade fraterna, o que a Igreja e a família têm por princípio são estas palavras de São Bento: "Tolerem pacientissimamente as suas fraquezas, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas sobretudo o que é para o outro" [15]. Já está mais do que na cara o que realmente gera a violência contra as mulheres e os homossexuais. Aliás, vale a pena conferir este artigo, publicado recentemente no site, a respeito das origens sexistas e racistas da Teoria de Gênero.

A resposta necessária

O livro Sociologia em movimento, nas mãos de alunos do ensino médio mesmo depois da aprovação do Plano Nacional da Educação sem referência à gênero, é um insulto à Constituição, à verdade dos fatos e ao bom senso. Mais: trata-se de uma ação orquestrada contra a família e a Igreja, que merece nosso imediato repúdio. Os pais devem, com todo o direito, unir-se em associações e pedir a retirada desse material das bibliotecas de nossas escolas, além de verificar as outras apostilas de seus filhos. É bem possível que o ninho da serpente esteja escondido lá. Estejamos atentos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013, p. 339.
  2. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013, p. 337.
  3. Idem.
  4. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, p. 18.
  5. Pio XI, Carta Encíclica Quadragesimo anno (15 de maio de 1931).
  6. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. Moderna: 2013, p. 347.
  7. Idem, p. 351.
  8. Bento XVI, Audiência Geral (16 de junho de 2010).
  9. Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi (30 de novembro de 2007), n. 21.
  10. Idem.
  11. Catecismo da Igreja Católica, n. 407.
  12. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 111.
  13. Suma Teológica, I, q. 92, a. 3.
  14. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais (1º de outubro de 1986), n. 10.
  15. Regra de São Bento, 72 (PL 66, 927-928).

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Jamais tocar no nome de Deus

“Jamais tocar no nome de Deus” parece ser o novo mandamento da modernidade. Nenhuma ideologia, porém, pode cancelar a sede de Deus do coração humano.

Quando Pio XII denunciou o desprezo da humanidade por Cristo, em 1952, a Segunda Guerra Mundial já havia acabado.

No conflito bélico que durou de 1939 a 1945, guerrearam entre si duas grandes ideologias anticristãs: o nazismo, do lado do Eixo, e o socialismo, entre os Aliados. A primeira havia sido denunciada pela encíclica do Papa Pio XI, Mit Brennender Sörge ("Com ardente preocupação"); a segunda foi um dos sistemas mais reprovados pelo Magistério na história da Igreja – de todos os Papas do século XX, só João Paulo I não condenou o comunismo ateu, e só não o fez porque não teve tempo.

Da ideologia de Adolf Hitler, restaram tão somente cinzas. Felizmente, o aparelho político que condenou milhares de judeus ao extermínio veio abaixo – e com a ajuda de todo o Ocidente. O socialismo, porém, até por estar do lado vitorioso, não só não foi destruído, como experimentou seus "anos de glória". No auge da Guerra Fria, o sistema soviético alcançou a simpatia de muitos facínoras sedentos pelo poder, penetrando violentamente em vários lugares do mundo.

No decorrer do tempo, todavia, especialmente com Antônio Gramsci e a influência da Escola de Frankfurt, os comunistas substituíram a iniciativa da revolução armada pela infiltração cultural. Os ideólogos marxistas não falavam mais de profanar igrejas, assassinar sacerdotes ou aprisionar religiosos – embora em várias partes do mundo eles continuassem a fazê-lo, sem remorsos. O seu novo plano era mais discreto: destruir a religião cristã por dentro, minar as próprias bases da sociedade, implantando a revolução de modo gradual e até imperceptível, se possível fosse.

Hoje, 70 anos depois do fim da Grande Guerra, é possível dizer que, no que diz respeito à religião – a qual os comunistas sempre reputaram como "o ópio do povo" –, o seu intento foi largamente alcançado. Se eles não conseguiram, é verdade, extinguir dos corações humanos o pensamento de Cristo, deram um passo que já é muito de se lamentar – banir a menção de Deus da vida pública. As pessoas continuam pensando n'Ele, no eterno e no transcendente, mas não podem dizê-lo, sob pena de serem tachadas de intolerantes, atrasadas ou "desnecessárias". O mandamento que pede que não se tome o nome de Deus em vão foi transformado em outro: não tocar nunca no Seu nome, absolutamente.

Tome-se como exemplo a jovem estrela do futebol, Neymar. No último dia 6, ao comemorar o título da Champions League com a camisa do Barcelona, o craque brasileiro usou uma faixa na cabeça, com a inscrição "100% Jesus". Essa simples e inofensiva referência ao nome de Cristo teria sido motivo de escândalo mundo afora. No Brasil, um jornalista considerou o gesto de Neymar "desnecessário"; outro escreveu que seria melhor que "certas intimidades fossem como deveriam ser, isto é, apenas íntimas".

Os dois comentários, vindos do mundo dos esportes, só confirmam a ideia que se enunciou acima. Neymar não pediu que ninguém se convertesse à fé cristã, nem fez algum discurso eloquente em defesa de Cristo. Seu único crime foi estampar o nome de Jesus em sua cabeça.

A acusação que pesa sobre o jogador é de "proselitismo religioso". "Internautas tacharam a mensagem de 'ridícula' e criticaram a tentativa do brasileiro de 'impor' sua religião aos outros", diz a notícia. De que modo Neymar estaria impondo o cristianismo aos outros, é coisa que os veículos de comunicação não explicam. Talvez o jogador devesse ser um pouco mais comedido em sua comemoração. Ao invés de "100% Jesus", uma faixa mais larga com "50% Jesus", dando a outra metade para Baal, Buda ou Zoroastro; quem sabe, uma com alguma mensagem mais palatável ao crivo dos ateus, como "Deus está morto", ou com uma inscrição exaltando Maomé – que, certamente, passaria ilesa pela crítica jornalística.

Seja como for, o problema aqui é com uma religião específica: o cristianismo. Não se suportam nem crucifixos nos tribunais, nem educação confessional nas escolas, nem menção a Cristo nos estádios de futebol. Vai-se configurando, entre os próprios cristãos, o que o Papa João Paulo II chamou de uma "apostasia silenciosa" [1], em que as pessoas já não são mais capazes de anunciar a boa nova do Evangelho, seja porque sequer acreditam que esta seja uma "boa nova", seja porque não a veem mais como algo "verdadeiro".

De fato, se os cristãos realmente acreditassem em Cristo, não ficariam calados; se verdadeiramente compreendessem a mensagem de salvação que porta o Evangelho, não a guardariam para si; se entendessem o impacto da vida eterna, não permaneceriam em silêncio. Seria, na verdade, uma tremenda falta de caridade, que, preenchidos com a felicidade divina – que nenhuma criatura pode oferecer ao homem –, eles fechassem a boca e não anunciassem Cristo ao mundo.

Por isso, a religião cristã é essencialmente pública, porque a verdade não se pode encerrar num cubículo, assim como "não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acender uma luz para colocá-la debaixo do alqueire" (Mt 5, 14-15). O ser humano só pode ser plenamente saciado por Deus, e inquieto está enquanto não repousa n'Ele [2]. Ainda que queiram abolir o Seu santíssimo nome das cabeças dos atletas ou das paredes dos prédios, ele está inscrito no mais íntimo do coração humano e, daí, jamais – por nenhuma força humana ou angélica – poderá ser apagado.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Exortação Apostólica Ecclesia in Europa (28 de junho de 2003), n. 9.
  2. Santo Agostinho, Confissões, I, 1.

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Os católicos clandestinos da China

As duas Igrejas da China, a "oficial" e a clandestina, revelam a realidade para qual caminham muitos países do ocidente

Enquanto os púlpitos das universidades brasileiras estão impregnados pelo discurso esquerdista, a ponto de se abrirem Centros para Difusão do Comunismo, como acontece, por exemplo, na Universidade Federal de Ouro Preto, do outro lado do Atlântico, mais especificamente na China, católicos são obrigados a refazer o caminho dos primeiros cristãos perseguidos. É a dura realidade da Igreja Católica clandestina, imposta pela revolução cultural do tirano Mao Tsé-Tung, no início da década de 50, com a criação da República Popular da China. Segundo cálculos do premiado professor de Ciência Política da Universidade do Havaí, Rudolph J. Rummel, cerca de 76 milhões de pessoas foram mortas pelo regime entre os anos de 1949 e 1987.

O advento do comunismo chinês provocou uma avalanche de perseguições à religião. Templos foram profanados, igrejas e conventos fechados, fieis foram mortos. Para evitar o nascimento de novas vocações e a autoridade do Papa, o governo criou em 1957 a Associação Patriótica Católica. Desde então, as relações da Santa Sé com o regime tirânico vêm se arrastando de forma conturbada, sobretudo por causa das sagrações episcopais ilícitas promovidas pela Associação. No ano passado, após romper com o Estado e anunciar que não mais serviria ao regime comunista, o recém ordenado bispo, Dom Thaddeus Ma Daqin, desapareceu. Os católicos acusam o governo de tê-lo aprisionado.

Com efeito, os seminaristas que desejam servir à Igreja precisam enfrentar uma verdadeira jornada, às vezes até indo para outros países, a fim de receber uma adequada formação doutrinal. É o caso, por exemplo, do jovem diácono Tomás Zhang, que sonha em se ordenar sacerdote para a Igreja de seu país. Há seis anos em Pamplona, Espanha, Zhang foi ordenado diácono pelo arcebispo Francisco Pérez. No próximo sete de setembro, será ordenado sacerdote em Navarra. Conforme relata, a vida de um padre chinês não é muito diferente da de outros países, a não ser no que se refere aos cuidados com a segurança. Têm que trabalhar de forma secreta e muitos dormem de dia e trabalham à noite, "quando dormem os policiais, para evitar ir para prisão".

A Igreja Católica chinesa, conta Zhang, é uma autêntica igreja doméstica, uma vez que a maioria das celebrações eucarísticas acontecem nas casas de algumas famílias. Ciente dessa situação conflitante, o Papa Francisco exortou os católicos chineses a serem fiéis ao Sucessor de Pedro, e a "viver(em) cada dia no serviço ao seu país e aos seus concidadãos de modo coerente com a fé que professam". O pedido foi feito em uma das tradicionais audiências gerais de quarta-feira.

Considerando a distância e as circunstâncias diversas nas quais os católicos brasileiros se encontram, a realidade chinesa parece até surreal. Mas não é. O processo de secularização dos países ocidentais caminha a passos largos e o destino final não é muito diferente do dos irmãos orientais. Quando se tem a fé apenas como um pressuposto e se coloca em seu lugar o ativismo social, não demora muito para que esse pressuposto desapareça e o ativismo se torne demagogia. E o Brasil, outrora maior país católico do mundo, é a prova mais contundente disso.

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. UM ESPANTO E UM ABSURDO: há um Centro de Difusão do Comunismo em uma importante Universidade federal — pago com nosso dinheiro. O currículo inclui até "militância anticapitalista"
  2. Tomás Zhang, diácono en Pamplona, volverá a China como sacerdote clandestino dentro de 2 años