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"Lúcifer no Vaticano" e a exploração da ignorância

Na Vigília Pascal, toda a Igreja saúda Jesus como “astro da manhã”. Mas, para um grupo de protestantes, a cerimônia é um “canto gregoriano” que “exalta Lúcifer”.

Chega às raias da irracionalidade o ódio que muitas seitas protestantes nutrem pela Igreja Católica – ódio preenchido com acusações injustas e acessos de fúria injustificados. Quem nunca foi chamado de "idólatra" simplesmente por amar a Virgem Maria e os santos? Ou nunca ouviu apelidos, um mais absurdo que o outro, referindo-se à Igreja e ao Papa? Portais de notícias sempre trazem alguma reportagem recente de algum evangélico que invadiu uma igreja e profanou imagens de santos – ainda que essa não represente a atitude da maioria dos protestantes.

A verdade é que tanta balbúrdia e dedos em riste não passam, em grande parte, de ignorância. Um vídeo que circula desde 2013 no YouTube, intitulado "Canto Gregoriano Exalta Lúcifer no VATICANO", exemplifica muito bem isso. No hangout, alguns protestantes se reúnem para comentar o vídeo de um diácono católico que menciona a palavra latina "lucifer" na Basílica de São Pedro, em Roma. O editor do vídeo, que alega trazer a "verdade final revelada", é antecedido por um senhor chamado Sebastião. "Eles invocam Satanás dentro do Vaticano e não tem como nenhum católico negar aquilo", diz ele. "Se eles quiserem continuar adorando, quando eles terminam o cântico, toda a congregação, ela diz 'Amém'."

O que dizer deste vídeo, senão que se trata de um curioso retrato da ignorância protestante? A cerimônia exibida no Vaticano é um extrato do Precônio Pascal, cantado em toda Vigília de Sábado Santo, no mundo inteiro. O cântico Exsultet – que não é um "canto gregoriano" – é concluído com os seguintes versos, em latim: "Flammas eius lucifer matutinus inveniat / Ille, inquam, lucifer, qui nescit occasum / Christus Filius tuus, / qui, regressus ab inferis, / humano generi serenus illuxit, / et vivit et regnat in saecula saeculorum. / Amen.", cuja tradução litúrgica – sem distorções fantasiosas – é: "Que ele [o círio pascal] brilhe ainda quando se levantar o astro da manhã, / aquele astro que não tem ocaso, / Jesus Cristo, vosso Filho, / que, ressuscitando dentre os mortos, / iluminou o gênero humano com a sua luz e a sua paz / e vive glorioso pelos séculos dos séculos. / Amém."

Ora, que um grupo de protestantes desconheça o significado de algumas frases em latim, é bastante compreensível. Que retoquem o que leem ou escutam para difamar a Igreja, porém, é uma atitude de muita desonestidade intelectual.

No texto em questão, a palavra " lucifer" não se refere a Satanás, o príncipe dos demônios. Trata-se de um nome comum, que significa "portador da luz" ou "estrela da manhã". É "lucifer" com "l" minúsculo, diferentemente do nome próprio, "Lúcifer". A propósito, essa não é a única ocasião em que o termo "lucifer" é usado com tal sentido. A Vulgata de São Jerônimo traz, no livro de Jó, a palavra "lucifer" (cf. 11, 17), que é traduzida por "alva" na própria edição João Ferreira de Almeida. Nas mesmas Sagradas Escrituras, São Pedro, ao fazer referência à voz de Deus Pai confirmando a missão de Jesus, pede que se mantenham firmes as palavras da profecia, "donec dies illucescat, et lucifer oriatur in cordibus vestris – até clarear o dia e levantar-se a estrela da manhã em vossos corações" (2 Pd 1, 19). No canto litúrgico exibido no vídeo, também, é Nosso Senhor quem é denominado como "astro da manhã", "aquele astro que não tem ocaso" – não o Seu inimigo.

Na verdade, o nome próprio "Lúcifer" não foi usado desde o começo para se referir ao demônio. Antes, a palavra era usada tão somente em seu significado comum, tanto que um bispo com esse nome, Lúcifer de Cagliari, do século IV, é santo católico celebrado pela liturgia. Uma referência do Autor Sagrado ao rei da Babilônia, no entanto, passou a ser usada para o anjo decaído – "Como despencaste das alturas do céu, tu, estrela da manhã (a Vulgata traz, novamente, ' lucifer'), clarão da madrugada?" (Is 14, 12) – e o que era simplesmente um astro luminoso se transformou em sinônimo de Satanás.

Portanto, não, a Igreja Católica não adora, não exalta e nem invoca o príncipe das trevas em sua liturgia. É voltada a Cristo e em Seu nome que ela termina todas as suas orações, como mostra a bela composição do Exsultet, cantada todos os anos em nossas igrejas.

A propósito, tomem cuidado. No Sábado Santo que se aproxima, Nosso Senhor Jesus Cristo será novamente chamado de "astro da manhã" no Vaticano. Estejam prontos para separar a luz da verdade das trevas do erro e da ignorância. Nestes tempos difíceis, poucas coisas são tão urgentes e tão necessárias.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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O último desejo de João Paulo II

Em um dos últimos documentos de seu pontificado, João Paulo II exortou a Igreja a celebrar corretamente o sacrifício eucarístico

Há exatos 10 anos, a Congregação para o Culto Divino, seguindo as disposições do então papa João Paulo II, publicava a Instrução Redemptionis Sacramentum[1]. O documento tinha por objetivo esclarecer alguns aspectos sobre a correta celebração da Eucaristia, e pôr termo à maré de abusos litúrgicos que se insurgia dentro da Igreja. Sendo a Santíssima Eucaristia o depósito "no qual está contido todo o bem espiritual da Igreja"[2], a preocupação do Santo Padre, exposta solenemente nessa instrução e na sua última encíclica, Ecclesia de Eucharistia, era nada mais que salvaguardar a fé dos fiéis, tornando a celebração dos sacramentos um ambiente livre de rixas e brigas fratricidas, advindas de falsas interpretações do Santo Sacrifício de Cristo.

O zelo pelo augusto sacramento eucarístico faz parte da história dos cristãos. Desde a sua origem, os católicos procuraram render glórias ao Criador por meio do culto à Eucaristia, chegando, em alguns casos, até mesmo às vias do martírio. " Sine dominico non possumus" – sem o domingo, não podemos viver. Era o que diziam os mártires de Abinitas, região do norte da África, ao desafiarem a lei do império, que os proibia de prestar culto a Deus. Desse eloquente testemunho do início do século IV, podemos haurir a íntima relação que existe entre a vida ordinária dos cristãos e a sua fé eucarística. O homem só consegue viver de acordo com sua reta natureza quando põe em primeiro plano o seu dever para com Deus. É que sem a verdadeira religião, todo ser humano acaba abeirando-se de outros altares; queimando incensos para novidades muitas vezes desumanas. A lei moral depende diretamente do reconhecimento de Deus. Trata-se de um dever natural dos homens; e, por isso, dizia o Papa Pio XII, "Deus os elevou à ordem sobrenatural"[3].

A liturgia cristã, por sua vez, não é uma invenção humana. Não se trata de uma busca de Deus às apalpadelas, como se se estivesse a construir outra Torre de Babel. Deus é quem nos ensina a forma correta de adorá-Lo. É Ele, e somente Ele, o verdadeiro protagonista de toda ação litúrgica. Com efeito, dada a missão da Igreja de guardar e ensinar a fé apostólica, cabe a ela, por direito divino, o dever de esclarecer e coibir os equívocos contra a doutrina de Deus, sobretudo no que tange à matéria sagrada do Santíssimo Sacramento – uma vez que não são poucos os que inserem princípios errôneos na celebração eucarística que, "em teoria ou na prática, comprometem esta santíssima causa, e frequentemente até a contaminam de erros que atingem a fé católica e a doutrina ascética"[4].

Quando pensamos em exemplos como o de Madre Teresa de Calcutá – que passava horas diante do altar, rogando a Deus pelo bom êxito de seus trabalhos –, ou na imagem de São Padre Pio de Pietrelcina – que muitas vezes ardia em febre pela Santíssima Eucaristia –, conseguimos compreender o que significa viver eucaristicamente. A comunhão do Corpo de Cristo provoca uma mudança em todo nosso ser. " Não é o alimento eucarístico que se transforma em nós, mas somos nós que acabamos misteriosamente mudados por Ele"[4], até o momento em que cada um possa repetir as palavras do Apóstolo das gentes: "já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Cfr. Gl 2, 22). No altar, mediante a oferta do sacerdote, unimo-nos ao sacrifício de Cristo na cruz. Dessa íntima comunhão, nasce a necessidade de uma presença iluminadora no meio da sociedade, a fim de que Deus possa ser tudo em todos. Dizia o Papa Pio XII:

Assistindo, pois, ao altar, devemos transformar a nossa alma de modo que se apague radicalmente todo o pecado que está nela, e com toda diligência se restaure e reforce tudo aquilo que, mediante Cristo, dá a vida sobrenatural: e assim nos tornemos, junto com a hóstia imaculada, uma vítima agradável a Deus Pai. [5]

Nesse sentido, o respeito às normas litúrgicas não deve ser encarado como uma prisão, mas como autêntica liberdade. As extremidades de um quadro não cerceiam a criatividade de um pintor; pelo contrário, são elas que garantem a existência e aplicabilidade de sua arte. Mutatis mutandis, as rubricas do missal nada mais são do que as extremidades do quadro litúrgico de Deus, a fim de que o homem possa adorá-Lo "em espírito e em verdade" (Cfr. Jo 4, 23). A missa não consiste "em criar um pequeno mundo alternativo por conta própria"[6]. Isso significaria "o abandono do Deus verdadeiro, disfarçado debaixo de um tampo sacro"[7]. A Missa é o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. "E, a fim de que esta memória não tivesse nenhuma narrativa confusa por parte dos homens" – recorda-nos o venerável Fulton Sheen –, "Ele mesmo instituiu a maneira correta de recordá-la"[8].

Resumidamente, como disserta a instrução do Papa João Paulo II, trata-se do sacramento de nossa redenção.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum (25 de março de 2004)
  2. Ibidem, n. 1
  3. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 13
  4. Ibidem, n. 7
  5. Bento XVI, Exort. Apost. pós-sinodal Sacramentum Caritatis (22 de fevereiro de 2007), n. 70
  6. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 90
  7. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 16
  8. Ibidem
  9. Fulton Sheen, O calvário e a Missa

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Liturgia: mistério da salvação - Parte V

Neste último artigo sobre os ensinamentos de Monsenhor Guido Marini a respeito da liturgia, oferecemos uma distinção entre música sacra e música profana na Missa

A Missa católica foi o grande berço da música ocidental. Através da polifonia e do tradicional cantochão - o gregoriano -, a Igreja pôde transmitir a Palavra de Deus aos quatro cantos da terra, atingindo tanto os incautos quanto as almas mais elevadas. Foi precisamente por isso que, ao longo de sua história, o Magistério procurou distinguir, repetidas vezes, a música litúrgica ou sacra dos cantos seculares.

Com o advento da revolta protestante e o surgimento de expressões musicais das mais variadas, começaram a proliferar práticas fundamentalmente alheias ao autêntico espírito litúrgico. Foi então que o Concílio de Trento interveio no conflito cultural da época - lembra Monsenhor Guido Marini - "restabelecendo a norma pela qual era prioritário na música aderir à palavra, limitando o uso dos instrumentos e indicando clara diferença entre música profana e música sacra". A contrarreforma do Concílio simplesmente pôs abaixo o castelo de cartas do protestantismo. A liturgia romana foi "um dos instrumentos mais poderosos da propaganda jesuítica", derriçando as heresias das seitas ao mesmo tempo em que revigorava a tradição musical daquele período.01

Nos anos seguintes à reforma tridentina, a Igreja continuou sustentando o canto gregoriano como a legítima música litúrgica. E ainda hoje o ensinamento permanece o mesmo. Dando vitalidade aos trabalhos de São Pio X, diz o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, que a "Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar."02 Todavia, apesar das claras admoestações dos padres conciliares - e, obviamente, do magistério posterior -, abriu-se espaço na Missa para expressões bruscamente opostas ao "sentire cum Ecclesia", chegando-se a tachar a música louvada pelo Sacrossanto Concílio como "velharia", "coisa ultrapassada" e outros pejorativos.

A argumentação contra o tradicional canto litúrgico - bem como a outras áreas da Tradição - redunda na ideologia do pauperismo. A Igreja não deveria, nas suas celebrações, assumir uma posição rígida, mas simplista, adotando a criatividade popular de forma totalmente subjetivista e aleatória, como se a liturgia fosse um canteiro de obras, sempre aberto a modificações. O protagonista da ação litúrgica passa a ser o povo, qual ocorre nos regimes democráticos da teologia calvinista: sem espaço para distinções, o culto deve ser de todos.

Com efeito, assim como o simplismo de Calvino acabou com a música na França de sua época, o mesmo raciocínio está destruindo as celebrações católicas de agora, pois no centro da ação não está Deus e a reverência devida a Ele, mas o gosto pessoal de um grupo que prevalece, de paróquia em paróquia, sobre o de outros03. E "uma Igreja que se baseia nas decisões da maioria" - recorda o Cardeal Joseph Ratzinger - "torna-se uma Igreja meramente humana", uma vez que o que se faz a si mesmo "tem sabor do 'si mesmo' que desagrada a outros 'si mesmos' e bem cedo revela a sua insignificância"04.

No seu livro sobre a liturgia, Monsenhor Guido Marini procura lembrar que "a música sacra não pode ser entendida como expressão da pura subjetividade" já que "essas formas musicais", ou seja, o gregoriano e a polifonia - "na sua santidade, bondade e universalidade - são precisamente as que traduzem o autêntico espírito litúrgico em notas, melodia e canto: encaminhando para a adoração do mistério celebrado; tornando-se musicada exegese da palavra de Deus". Do mesmo modo, concorda Bento XVI quando diz que "nem sequer a grande música o gregoriano, ou Bach, ou Mozart é algo do passado, mas vive da vitalidade da liturgia e da nossa fé. Se a fé for viva, a cultura cristã não se tornará algo do "passado", mas permanecerá viva e presente."05

Recentemente, a escritora brasileira Adélia Prado fez uma ótima colocação acerca da dessacralização da liturgia. A teologia da libertação, comentava, na ânsia de atingir o pobre acabou por torná-lo mais pobre, pois retirou-lhe a única riqueza que ainda lhe restava: a beleza da liturgia.06 No lugar do órgão colocou-se a sanfona, no lugar das antífonas, os gritos de guerra, e a isso somados os pés de bananeiras, cocos, os berrantes e bandeirolas de festa junina. Ora, é evidente que assim a missa se torna um passatempo, um entretenimento tacanho e brega que, mais cedo ou mais tarde, deixará de ser interessante como qualquer programa de auditório.

O rigor da Igreja com o canto e com as demais partes da missa tem um nome: amor. É por amor a seu Divino Esposo, Jesus, que a Igreja adorna o templo com as mais belas peças e objetos. E assim também com a música. Ela deve se unir ao louvor dos anjos do céu, sendo uma verdadeira expressão de adoração a Deus, que motive sempre e mais e mais o seu rebanho a responder o imperativo das Sagradas Escrituras: "Cantai ao Senhor um cântico novo" (Cf. Sl 96, 1)

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

  1. CARPEAUX, Otto Maria. O Livro de Ouro da História da Música. Ediouro
  2. Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 116 e 117
  3. Ibidem n. 1
  4. RATZINGER, Joseph. Compreender a Igreja hoje, vocação para comunhão. Editora Vozes
  5. Audiência Geral de Bento XVI
  6. Discurso de Adélia Prado sobre a liturgia católica

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A grandeza na Liturgia aponta para a Beleza de Deus

Os sinais externos da sagrada Liturgia não são um insulto à pobreza material dos filhos da Igreja, mas um incentivo à piedade dos fiéis

O venerável Papa Pio XII, em sua encíclica sobre a sagrada Liturgia, explicava que "todo o conjunto do culto que a Igreja rende a Deus deve ser interno e externo". Esta realidade decorre da própria constituição humana, ao mesmo tempo física e espiritual, e da vontade do Senhor, que "dispõe que pelo conhecimento das coisas visíveis sejamos atraídos ao amor das invisíveis".

Este ensinamento explica porque os atos litúrgicos da Igreja sempre foram realizados em templos majestosos, com materiais tão nobres e paramentos trabalhados com inúmeros detalhes. Assim é, não porque a Igreja esteja apegada aos bens materiais ou preocupada em entesourar riquezas, mas porque ao Senhor deve ser oferecido sempre o melhor e o mais belo.

Assim pensava São Francisco, o poverello de Assis. Ele passou toda a sua vida como um pobre entre os pobres, mas, quando falava de Jesus eucarístico, condenava o desprezo e o pouco caso com que muitos celebravam os santos mistérios. Em uma carta aos sacerdotes, Francisco pedia a eles que considerassem dentro de si "como são vis os cálices, os corporais e panos em que é sacrificado" muitas vezes nosso Senhor. E insistia: "Onde quer que o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo for conservado de modo inconveniente ou simplesmente deixado em alguma parte, que o tirem dali para colocá-lo e encerrá-lo num lugar ricamente ordenado"01.

Na França do século XIX, os lojistas comentavam entre si: "No campo há um pároco magro e mal arranjado, com ares de não ter um centavo no bolso, mas que compra para sua igreja tudo o que há de melhor". Era São João Maria Vianney, que vivia em pobreza extrema, mas não hesitava em ornar a casa de Deus com o mais nobre e o mais digno. Em 1820, escreveu ao prefeito de Ars: "Desejaria que a entrada da igreja fosse mais atraente. Isso é absolutamente necessário. Se os palácios dos reis são embelezados pela magnificência das entradas, com maior razão as das igrejas devem ser suntuosas"02.

Toda esta preocupação do Cura d'Ars mostrava um verdadeiro amor a Deus e às almas. Ele encheu a igreja de sua cidade com belíssimas imagens e pinturas, porque, dizia ele, "não raro as imagens nos abalam tão fortemente como as próprias coisas que representam". O santo francês compreendia mais do que ninguém como não só era possível, mas também salutar, que o material e o terreno apontassem para as realidades celestes.

No entender do cardeal Giovanni Bona, um monge cisterciense do século XVII citado por Pio XII, "Se bem que, com efeito, as cerimônias, em si mesmas, não contenham nenhuma perfeição e santidade, são todavia atos externos de religião que, como sinais, estimulam a alma à veneração das coisas sagradas, elevam a mente à realidade sobrenatural, nutrem a piedade, fomentam a caridade, aumentam a fé, robustecem a devoção, instruem os simples, ornam o culto de Deus, conservam a religião e distinguem os verdadeiros dos falsos cristãos e dos heterodoxos." 03

Percebe-se, deste modo, como pondera mal quem diz que a beleza das igrejas do Vaticano e o esplendor dos vasos e ornamentos sagrados deveriam ser renunciados, como se, com isto, a Igreja estivesse se exibindo indevidamente ou ofendendo os mais pobres.

Quem pensa desta forma ainda não compreendeu o que é verdadeiramente a Liturgia e qual é o seu verdadeiro tesouro. Não entendeu que até os sinais externos das ações litúrgicas, manifestados especialmente na Santa Missa, devem indicar Aquele que é a Beleza. E não pense que, persistindo nesta mentalidade, diverge em um ponto pouco importante da fé da Igreja. Nunca é tarde para recordar o anátema do Concílio de Trento: "Se alguém disser que as cerimônias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade — seja excomungado".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Carta 2 aos clérigos
  2. São João Maria Vianney, Patrono dos párocos
  3. I. Card. Bona, De divina psalmodia, c 19, § 3,1. Apud Carta Encíclica Mediator Dei, sobre a Sagrada Liturgia, 20 de novembro de 1947, Papa Pio XII

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O que Pe. Paulo Ricardo realmente disse sobre o Missal de Paulo VI e a "reforma da reforma"

Confira abaixo pronunciamento de Padre Paulo Ricardo acerca das especulações sobre o Missal de Paulo VI

Várzea Grande, 3 de setembro de 2013.

Salve Maria!

Alguns alunos pediram o costumeiro resumo dos conteúdos de meus dois programas ao vivo a respeito de O Missal de Paulo VI e a "reforma da reforma". Decidi fazê-lo pessoalmente para evitar quaisquer equívocos, devido à delicadeza da matéria.

Os dois vídeos são fruto de uma longa reflexão pessoal, que iniciou com a leitura do livro Introdução ao Espírito da Liturgia, do então Cardeal Ratzinger. É de conhecimento comum que o referido livro desencadeou um movimento litúrgico no mundo inteiro. O providencial pontificado do Papa Bento XVI aumentou ainda mais a amplitude e profundidade de seu alcance.

De forma brevíssima poderíamos resumir assim os dois vídeos:

  1. Vídeo 1 – O conteúdo do Missal de Paulo VI é católico, mas, por causa de sua linguagem ecumênica, não toma as precauções que impediriam a manipulação de uma leitura protestante. No século XVI, este tipo de manobra conduziu a Igreja da Inglaterra à perda da fé na Eucaristia.
  2. Vídeo 2 – O tipo de artimanha descrita no vídeo anterior tem feito um mal imenso à Igreja graças à militância de maus teólogos. Devemos seguir o exemplo de Bento XVI e usar as possibilidades que o Missal de Paulo VI nos dá de celebrá-lo de uma forma mais tradicional. Ao mesmo tempo, a liturgia antiga deve ser possibilitada amplamente. Ao Espírito Santo caberá nos conduzir e determinar o futuro do Rito Romano.

Penso que estes dois curtos parágrafos transmitem com fidelidade a substância do que eu desejei transmitir através dos programas.

Espero que isto também seja um instrumento para desmascarar a distorção sensacionalista de alguns resumos que circulam pela internet e que gostariam de interpretar estes dois programas como se fossem uma condenação do Missal de Paulo VI e do Concílio Vaticano II. A estas pessoas eu gostaria de responder com as palavras usadas pelo próprio Cardeal Ratzinger para defender o movimento litúrgico que desejava iniciar:

[Que] se crie a impressão de que nada no Missal jamais poderá ser mudado, como se qualquer reflexão a respeito de possíveis reformas futuras fosse necessariamente um ataque ao Concílio – a uma tal ideia eu só poderia dar o nome de absurda.
(Cardeal Joseph Ratzinger, "Réponse du Cardinal Ratzinger au Père Gy". in La Maison-Dieu 230.2 (2002) 113-20).

Peço aos amigos que divulguem amplamente estes resumos. É um auxílio ao debate sadio das ideias ali enunciadas e uma caridade para com algumas pessoas que não têm tempo ou disposição para assistir os dois longos vídeos. Algumas delas, aliás, de forma imprudente, não se abstém de opinar levianamente a respeito de um assunto sobre o qual não se deram o trabalho de sequer colher as informações preliminares (pedir a estas pessoas uma meditação séria e uma honesta busca da verdade é querer colher uvas de um espinheiro...).

Devido à importância da matéria, pediria também aos sacerdotes e aspirantes ao sacerdócio que acolhessem estas minhas reflexões como um convite ao estudo e ao desapaixonado e objetivo debate do tema.

Peço a Deus que este modesto serviço sirva para o crescimento de sua Santa Igreja, da qual me confirmo filho devotado e obediente,

In Iesu et Maria,
Padre Paulo Ricardo

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Liturgia: Mistério da Salvação - Parte IV

Neste quarto artigo sobre os ensinamentos de Monsenhor Guido Marini, o leitor é convidado a fazer uma reflexão sobre o real sentido da participação ativa durante a liturgia.

Os santos são os melhores exemplos de participação ativa na Liturgia da Igreja. Sendo a santidade o principal efeito de uma profunda vivência litúrgica, nada mais natural que sejam eles as primeiras referências neste assunto, que foi tratado de forma tão especial pelo Concílio Vaticano II. Santo Tomás de Aquino, por exemplo, não podia celebrar os Santos Mistérios sem derramar copiosas lágrimas diante da Eucaristia. De acordo com alguns biógrafos, o doutor angélico tinha o costume de encostar a cabeça no Tabernáculo, a fim de sentir o palpitar do Sagrado Coração de Jesus. Santo Tomás dizia que a Eucaristia era o sacramento da Paixão do Senhor e que, portanto, "tudo que é efeito da Paixão de nosso Senhor, é também efeito desse sacramento, não sendo esse outra coisa que não a aplicação em nós da Paixão do Senhor".

Outro santo a indicar a correta vivência da liturgia é São Padre Pio de Pietrelcina. Quando perguntaram a ele como um fiel deveria assistir à Santa Missa, logo respondeu: "Como a assistiam a Santa Virgem Maria e as Santas mulheres. Como São João assistiu ao Sacrifício Eucarístico e ao Sacrifício sangrento da cruz". Na Celebração, o homem é levado a reconhecer a Páscoa de Cristo - assim como o centurião a reconheceu - e a adorá-lo "em espírito e em verdade". Deste modo, explica o mestre de cerimônias pontifícias, Monsenhor Guido Marini, "não é possível participar sem adorar". Em linhas gerais, resume a Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a liturgia, do Concílio Vatincano II:

"É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador (38), progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos".

Por outro lado, ao longo dos últimos anos, pôde-se perceber um enorme distanciamento de muitas comunidades da correta participação ativa, tal como pede a Igreja. Infelizmente, essa má interpretação do que quer dizer a Constituição Sacrosanctum Conciliumm introduziu uma série de abusos e falsas inculturações, ao ponto de a Santa Missa acabar se tornando mais um espetáculo de bizarrices, que o Sacrifício Redentor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, também reduziu-se a participação dos fiéis a atividades como leitura, canto ou alguns gestos que, em muitos casos, não expressam a realidade do momento litúrgico. É verdade que, quando bem realizado, o serviço próprio de cada um durante a Celebração Eucarística é participação ativa, mas, alerta Guido Marini, "tudo isso não significaria participação verdadeiramente ativa, se não conduzisse para a adoração do mistério da salvação em Cristo Jesus, morto e ressuscitado por nós".

A Sacrosanctum Concilium age de forma contundente a favor da obediência às normas litúrgicas, "de modo que nos seminários e institutos religiosos a vida seja totalmente impregnada de espírito litúrgico" (17). Além disso, exorta os sacerdotes para que "guiem o rebanho não só com palavras mas também com o exemplo" (19). Proíbe expressamente falsas criatividades quando determina que além da Santa Sé e dos bispos em comunhão com ela, "ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica" (22). Finalmente, pede para que "não se introduza inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes" (23). Perante essas prerrogativas parece óbvio o quanto certas celebrações mundo à fora estão afastadas do espírito litúrgico pedido pelo Concílio Vaticano II.

Urge, pois, redescobrir a beleza contida na autêntica celebração litúrgica dos mistérios cristãos, para que assim - e somente assim - tanto sacerdotes, quanto fiéis, possam saborear a ação salvífica de Nosso Senhor Jesus Cristo. Neste sentido, esclarece o Monsenhor Guido Marini, "somente quem adora o mistério, acolhendo-o na própria vida, demonstra ter compreendido o que está celebrando e, portanto, ser verdadeiramente participante da graça do ato litúrgico".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Liturgia: Mistério da Salvação - Parte III

Neste terceiro artigo sobre os ensinamentos de Monsenhor Guido Marini a respeito da liturgia, o texto reflete sobre adoração e união com Deus na Santa Missa

Na adoração eucarística o homem reconhece a beleza do Senhor e tende a glorificá-lo, colocando-se de joelhos e em atitude de plena comunhão. Ali no altar reside Deus, o Santo dos Santos, que se fez carne para nutrir a alma e o coração da humanidade durante a sua peregrinação nesta terra, assim como o maná do céu nutriu o povo que caminhava no deserto. E é por isso que o Bem-aventurado João Paulo II fez questão de enfatizar na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia que "a Igreja vive da Eucaristia". Sem uma, a outra não pode existir.

Com efeito, complementa o mestre de cerimônias pontifícias, Monsenhor Guido Marini, "diante da beleza indizível da caridade de Deus, que toma forma no mistério do Verbo encarnado, morto e ressuscitado em nosso favor, e que encontra na liturgia a sua manifestação sacramental, não nos resta outra coisa senão permanecer em adoração". E aqui cabe lembrar aquela belíssima oração ao Cristo Eucarístico que o Anjo de Portugal ensinou aos três pastorinhos, antes da aparição da Virgem Maria em Fátima: "meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão pelos que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam".

Sendo a Missa, portanto, o lugar do encontro com Deus nas espécies eucarísticas, é de suma importância que todos os sinais da liturgia conduzam à adoração. E isso, observa Marini, inclui "a música, o canto, o silêncio, a maneira de proclamar a Palavra de Deus e o modo de rezar, as vestes litúrgicas e objetos sagrados, como também o edifício sagrado no seu complexo". Tudo deve ser belo, pois Deus é belo. Não se trata, porém, de esteticismo ou espetáculo, mas de conceder a Deus o seu devido culto, uma vez que na liturgia deve resplandecer o mistério da beleza do amor de Deus. É o que praticaram santos como São João Maria Vianney e São Josemaria Escrivá que, não obstante à vida de pobreza e imensa caridade, sempre buscaram celebrar a Eucaristia com os melhores paramentos possíveis. Eis o que ensina também o Papa Emérito Bento XVI:

"As nossas liturgias da terra, inteiramente dedicadas a celebrar este gesto único da história, nunca conseguirão expressar totalmente a sua densidade infinita. Sem dúvida, a beleza dos ritos jamais será bastante requintada, suficientemente cuidada nem muito elaborada, porque nada é demasiado belo para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrenas não poderão ser senão um pálido reflexo da liturgia que se celebra na Jerusalém do céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na terra. Possam, porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la!" (Cf. Homilia durante a celebração das Vésperas na Catedral de Notre Dame, Paris, 12 de Setembro de 2008)

É exatamente nesta perspectiva que se insere a decisão de Bento XVI de, a partir de 2008, distribuir a Sagrada Comunhão diretamente na língua dos fiéis de joelhos. Ora, o próprio Santo Agostinho advertia: "ninguém come desta carne, sem antes adorá-la". Ademais, é importante salientar que a comunhão na boca e de joelhos é um direito dos católicos assegurado pela Santa Sé: "todo fiel tem sempre direito a escolher se deseja receber a sagrada Comunhão na boca ou se, o que vai comungar, quer receber na mão o Sacramento", (nº 92; vid. ainda Missale Romanum, Institutio Generalis, nº 161). A isso também se soma a lição da Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis que "receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração diante daquele que recebemos" (n. 66)

Por outro lado, algumas teologias difundiram em vários ambientes uma ideia um tanto quanto materialista acerca do Sacramento da Comunhão, como se não fosse necessário adorá-lo, somente comê-lo. Há também a acusação de que a adoração obscureceria a dimensão social da caridade. Todavia, a história dos santos mostra uma realidade totalmente diversa. Basta pensar nas horas em que Madre Teresa gastava à frente do sacrário para se desfazer esse pensamento equivocado. Na verdade, novamente explica Guido Marini, "somente através de uma renovada adoração do mistério de Deus em Cristo, mistério que toma forma no ato litúrgico, poderá brotar uma autêntica comunhão fraterna e uma nova história de caridade, conforme a fantasia e heroicidade que só a graça de Deus pode doar aos nossos pobres corações".

Neste sentido, o Papa Francisco deu um belo exemplo a toda a Igreja, quando a 2 de junho convocou uma adoração eucarística universal, na qual dioceses do mundo inteiro se reuniram para adorar o Senhor no mesmo horário que o seu vigário. Como não recordar o belíssimo hino de Santo Tomás de Aquino, Adoro te devote? Adorar a Cristo com devoção significa reconhecer Nele o bondoso pelicano, aquele que lava a sujeira do mundo com o próprio sangue, sendo uma só gota capaz de salvar todo o mundo e apagar todo pecado.

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere

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Liturgia: mistério da salvação - Parte II

Neste segundo artigo sobre o trabalho do mestre de cerimônias pontifícias, Monsenhor Guido Marini, o blog faz uma reflexão a respeito da orientação da oração litúrgica

Arranjo beneditino no altar principal da Basílica de São Pedro, em Missa Celebrada por Bento XVI

A pessoa a quem o cristão se dirige quando reza é Deus. Pense-se, por exemplo, no diálogo introduzido pelo prefácio, no momento da liturgia eucarística, quando o sacerdote se volta para o povo e diz: "corações ao alto" e a assembleia responde: "o nosso coração está em Deus". É o tempo no qual pastor e rebanho se recolhem e olham juntos para o céu à procura da luz que emana de Cristo. É uma ação sobretudo interior, mas que através da sabedoria da Igreja, ganhou sinais exteriores de modo a indicar a correta atitude espiritual do fiel.

A disposição arquitetônica das igrejas e os espaços litúrgicos foram alguns dos elementos que buscaram simbolizar - ao longo da história - a maneira como os cristãos rezam. Tradicionalmente, a chamada oração voltada para o oriente também foi um desses sinais. Conforme explica o mestre de cerimônias pontifícias, Monsenhor Guido Marini, entende-se por oração voltada para o oriente o "coração orante orientado para Cristo, do qual provém a salvação e para o qual todos tendem como Princípio e Termo da história". Mas por que para o oriente? Porque é onde nasce o Sol, e sendo ele símbolo de Cristo, a Tradição achou por bem acolher na Liturgia o que é dito de maneira simples no Evangelho de São Lucas: "O sol que surge no Oriente vem nos visitar" (Cf. Lc 1, 78).

Posto isso, não é difícil de entender o quão equivocadas são certas críticas à maneira como a Igreja celebrava a Santa Missa antes da reforma litúrgica de Paulo VI. Afirmar que o sacerdote rezava de costas para o povo é, no mínimo, injusto. Pelo contrário, a posição do celebrante indicava que tanto ele quanto o resto da assembleia estavam direcionados para o verdadeiro protagonista da Celebração Eucarística: Jesus Cristo. E mesmo no Missal de 1969, no qual o ministro celebra de frente para a assembleia, é a Deus que as orações se dirigem, pois como explica Marini, a expressão celebrar voltado para o povo não tem significado teológico, sendo apenas uma descrição topográfica. Ademais, "a missa, teologicamente falando, está voltada para Deus, através de Cristo nosso Senhor, e seria um grave erro imaginar que a orientação principal da ação sacrifical fosse a comunidade", ensina Marini.

Na Liturgia, indica o Concílio Vaticano II, "os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens" (Cf. Sacrosanctum Concilium, n. 7). Nisso se insere a proposta de Bento XVI, radicada naquilo que se convencionou chamar arranjo beneditino. Trata-se, explica o Santo Padre, de "não buscar novas transformações, mas colocar simplesmente a cruz no centro do altar, para a qual sacerdote e fiéis possam juntos olhar, para deixarem guiar de tal maneira voltados para o Senhor, a quem oramos todos unidos" (Introdução ao espírito da liturgia, p. 70-80). Uma vez que não é para o celebrante que o fiel deve olhar durante esse momento litúrgico, mas para o Senhor, a cruz - lembra Guido Marini - "não impede a visão; ao contrário, lhe abre o horizonte para o mundo de Deus, e a faz contemplar o mistério, a introduz no céu, de onde provém a única luz capaz de dar sentido à vida neste mundo".

O ponto central da Santa Missa é onde se encontra o Senhor, e por isso a presença do crucifixo no altar ajuda a comunidade e o celebrante a lembrarem o mistério que ali acontece. Com efeito, recorda o Catecismo da Igreja Católica, "a liturgia, pela qual, principalmente no divino sacrifício da Eucaristia, 'se exerce a obra de nossa redenção', contribui de modo mais excelente para que os fiéis, em sua vida, exprimam e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a genuína natureza da verdadeira Igreja", (Cf. CIC 1068).

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere