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Um milagre maior do que o céu e a terra

Céu e terra passarão, mas o que Deus fez por cada um de nós na Páscoa de Cristo jamais passará

Celebrar a Páscoa neste Ano Jubilar da Misericórdia significa celebrar um milagre. É o que sugere Santo Agostinho quando, comentando a passagem do Evangelho que diz: "Fareis obras maiores do que estas" (Jo 14, 12), diz que salvar um pecador é obra maior do que criar o céu e a terra (cf. Tratados sobre o Evangelho de São João, 72, 3).

A frase é surpreendente, mas é verdadeira. Porque o universo foi criado do nada (ex nihilo), mas o ser humano, pelo pecado, ficou abaixo do próprio nada. Porque o universo recebeu a existência, mas o homem, quando é justificado, entra na felicidade do próprio Deus. Porque os céus e a terra passarão, mas a glória dos justos no Céu jamais passará.

Cada vez que um pecador se aproxima do confessionário, portanto, os nossos olhos da carne não enxergam, mas Deus opera um milagre maior do que a criação de todo o universo, resgatando quem era menos do que nada e enriquecendo-o com o bem da graça, que é melhor do que o bem da natureza (cf. Suma Teológica, I-II, q. 113, a. 9, ad 2).

Por isso, não deixe passar esta solenidade sem receber o perdão dos pecados, pela Confissão sacramental, e sem anunciar aos que estão à sua volta o grande milagre da misericórdia divina. Só assim o Aleluia que cantamos na Vigília Pascal poderá ser repetido eternamente no Céu.

Uma feliz e santa Páscoa para você e toda a sua família!

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Ainda há espaço para o silêncio na Santa Missa?

Segundo o atual prefeito da Congregação para o Culto Divino, sim. “O silêncio é uma condição necessária para o aprofundamento, para a oração contemplativa, além de um importante componente da Liturgia”, diz o Cardeal Robert Sarah.

Ainda há espaço para o silêncio na Santa Missa? Segundo o atual prefeito da Congregação para o Culto Divino, sim. Em uma coluna para o L'Osservatore Romano, o Cardeal Robert Sarah exortou os fiéis católicos a buscarem o recolhimento interior durante a Celebração Eucarística, como condição para que Deus manifeste "sua presença em nossas almas, irrigando-as com seu amor trinitário". "Nós deveríamos evitar transformar a Igreja, que é a Casa de Deus destinada à adoração, em um teatro ao qual as pessoas vêm para aplaudir os atores", insistiu o prelado.

O ensinamento do Cardeal Sarah não é novidade. A necessidade de silêncio na Santa Missa já foi tema de inúmeras deliberações por parte de liturgistas bastante competentes. Todavia, como prefeito de um dos mais importantes dicastérios da Cúria Romana — precisamente aquele que tem a função de cuidar dos Sacramentos da Igreja —, o Cardeal Robert Sarah tem uma autoridade singular neste debate. Porque precisa agir em harmonia com a vontade do Santo Padre, quem, aliás, o apontou para exercer o cargo que ocupa, ele não expressa somente a voz de uma opinião isolada, mas a interpretação verdadeiramente autorizada do Magistério, especialmente quando trata da velha celeuma quanto à correta aplicação do Missal de Paulo VI — uma questão, apesar de já exaustivamente debatida, ainda hoje espinhosa. Logo, suas declarações são algo que muito deve nos interessar.

Mas, para compreender o problema abordado, é preciso, antes de tudo, retroceder alguns anos no tempo.

No período anterior à reforma litúrgica do Beato Paulo VI, quando ainda se celebrava a Missa de São Pio V, iniciou-se um intenso movimento de renovação para que, entre outras coisas, os fiéis leigos participassem do "santo sacrifício eucarístico, não com assistência passiva, negligente e distraída, mas com tal empenho e fervor" que os colocassem "em contato íntimo com o sumo sacerdote", o Senhor Jesus [1]. Veio de Pio XII o impulso oficial para tal renovação. Com a encíclica Mediator Dei, o Santo Padre esclareceu o modo pelo qual os fiéis também oferecem o sacrifício eucarístico, embora seja de maneira inferior à do sacerdote, que, por fazer as vezes de Cristo na Terra, é a cabeça de todos os membros da Igreja "e se oferece a si mesmo por eles" (n. 76):

A imolação incruenta por meio da qual, depois que foram pronunciadas as palavras da consagração, Cristo está presente no altar no estado de vítima, é realizada só pelo sacerdote enquanto representa a pessoa de Cristo e não enquanto representa a pessoa dos fiéis. Colocando, porém, no altar a vítima divina, o sacerdote a apresenta a Deus Pai como oblação à glória da SS. Trindade e para o bem de todas as almas. Dessa oblação propriamente dita os fiéis participam do modo que lhes é possível e por um duplo motivo: porque oferecem o sacrifício não somente pelas mãos do sacerdote, mas, de certo modo ainda, junto com ele; e ainda porque com essa participação também a oferta feita pelo povo pertence ao culto litúrgico. Que os fiéis oferecem o sacrifício por meio do sacerdote, é claro, pois o ministro do altar age na pessoa de Cristo enquanto Cabeça, que oferece em nome de todos os membros; pelo que, em bom direito, se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, realiza a oblação da vítima. Quando, pois, se diz que o povo oferece juntamente com o sacerdote, não se afirma que os membros da Igreja de maneira idêntica à do próprio sacerdote realizam o rito litúrgico visível — o que pertence somente ao ministro de Deus para isso designado — mas sim que une os seus votos de louvor, de impetração, de expiação e a sua ação de graças à intenção do sacerdote, aliás do próprio sumo pontífice, a fim de que sejam apresentados a Deus Pai na própria oblação da vítima, embora com o rito externo do sacerdote (n. 83). (negritos nossos).

Nas pegadas de Pio XII, o Concílio Vaticano II introduziu o conceito de "participação ativa" na celebração dos mistérios sagrados, determinando, por meio da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium que, na ação litúrgica, os "pastores de almas" nó só zelassem pela observância das "leis que regulam a celebração válida e lícita", mas também para que os fiéis participassem nela "consciente, ativa e frutuosamente" (n. 11). Para o bem espiritual da grei de Cristo, sem dúvida, tratava-se de algo necessário. Se na Missa presenciamos o sacrifício de Jesus na cruz, por meio do qual a ação divina operou o Mistério da Salvação, é fundamental que os fiéis vivenciem esse momento com profundidade mística e ascese eficaz; não como meros ouvintes, mas como praticantes da Palavra (cf. Tg 1, 22).

Acontece que, no período pós-conciliar, essa "participação ativa" acabou desvirtuada de seu sentido original e — por causa de algumas teologias de sabor protestante — uma excessiva "autonomia" desenvolveu-se nas celebrações, ao mesmo tempo em que se passava a desprezar o Missal antigo, às vezes até com certo fanatismo e intolerância. Do lado oposto, por sua vez, enquanto alguns se opuseram à reforma com igual agressividade, "muitas pessoas, que aceitavam claramente o caráter vinculante do Concílio Vaticano II e que eram fiéis ao Papa e aos Bispos, desejavam contudo reaver também a forma, que lhes era cara, da sagrada Liturgia" [2]. Isso ocorreu porque, como explicou amiúde Bento XVI, "em muitos lugares, se celebrava não se atendo de maneira fiel às prescrições do novo Missal, antes consideravam-se como que autorizados ou até obrigados à criatividade, o que levou frequentemente a deformações da Liturgia no limite do suportável" [3].

Ao longo dos últimos anos, a Igreja procurou resolver tais problemas por meio de várias determinações e ações pastorais [4]. De maneira geral, o que se pretendeu inculcar na mentalidade dos fiéis é que, embora haja elementos litúrgicos "próprios do passado", os quais podem — e, por vezes, devem — ser mudados [5], "aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós". Com efeito, "faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar" [6].

É dentro dessa perspectiva que se insere o artigo do Cardeal Robert Sarah e toda sua defesa do que ele chama de "silêncio místico". Esse silêncio faz parte do grande patrimônio da espiritualidade cristã que deve ser conservado como elemento imprescindível à comunhão com Deus. A Liturgia, diz o Concílio, precisa contribuir "para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja" ( Sacrosanctum Concilium, n. 2). A "participação ativa", portanto, não significa um cartão verde a todo tipo de inovações e pantomimas dentro da Celebração Eucarística, mas uma atitude interior, de oração propriamente dita, que é a de deixar-se conduzir pela ação de Deus, cuja voz se escuta somente no "murmúrio de uma brisa ligeira" (1 Rs 19, 12). Com essa entrega pessoal, o fiel pode ofertar-se verdadeiramente no sacrifício eucarístico, como descreveu Pio XII. Doutro modo, porém, a atividade pela atividade não resolve o problema levantado pelo Movimento Litúrgico; apenas aumenta a quantidade de gestos exteriores. Ademais, não é sem propósito que a exortação dos padres conciliares à observância do silêncio na Missa esteja justamente no parágrafo sobre a "participação ativa" (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 30).

Na linha da grande tradição dos Padres da Igreja e dos santos, que sempre entenderam "o silêncio como condição para a oração contemplativa", e fundamentado pelas mesmas indicações do Antigo e do Novo Testamento, o Cardeal Robert Sarah explica que o "silêncio virtuoso" nada tem que ver com "ociosidade" ou "omissão", comportamentos gerados pelos vícios da covardia, do egoísmo e da dureza do coração. O silêncio virtuoso, ensina, refere-se àquela atitude em que a pessoa deseja "dar espaço aos outros, e especialmente ao Outro absoluto, Deus". É a atitude de Maria — que guardava tudo no coração (cf. Lc 2, 20) — e de José — do qual não se ouve sequer uma palavra durante toda a Escritura. "Em contraste", compara o Prefeito para o Culto Divino, o barulho exterior do tagarela "caracteriza o indivíduo que quer ocupar um lugar mais importante, para empavonar-se ou mostrar-se, ou ainda que deseja preencher seu vazio interior". Ele faz tudo, exceto oração.

"Se nosso 'celular interior' está sempre ocupado porque estamos 'conversando' com outras criaturas, como pode Deus nos alcançar, como Ele pode 'nos ligar'?", questiona o cardeal. Assim, ele conclui, "nós devemos purificar nossas mentes de suas curiosidades, do desejo de seus projetos, a fim de que nos abramos totalmente às graças e à força que Deus quer nos conceder profusamente".

A Instrução Geral do Missal Romano, recorda o Cardeal Sarah, indica os lugares onde se deve fazer silêncio na Missa:

Também se deve guardar, nos momentos próprios, o silêncio sagrado, como parte da celebração. A natureza deste silêncio depende do momento em que ele é observado no decurso da celebração. Assim, no ato penitencial e a seguir ao convite à oração, o silêncio destina-se ao recolhimento interior; a seguir às leituras ou à homilia, é para uma breve meditação sobre o que se ouviu; depois da Comunhão, favorece a oração interior de louvor e ação de graças.

Antes da própria celebração é louvável observar o silêncio na igreja, na sacristia e nos lugares que lhes ficam mais próximos, para que todos se preparem para celebrar devota e dignamente os ritos sagrados (n. 45). (negritos nossos).

Certamente, o ato de silenciar-se não é fácil e requer, como tudo que está relacionado à vida interior, uma "ação violenta" do indivíduo no caminho da ascese — aliás, "um meio indispensável", como explica o Cardeal Sarah, "para nos ajudar a remover de nossa vida qualquer coisa que nos arraste para baixo, em outras palavras, qualquer coisa que dificulte nossa vida espiritual ou interior e, portanto, um obstáculo à oração". A grande dificuldade para os fiéis cristãos de hoje, porém, é que se perdeu, sob muitos aspectos, essa noção de vida ascética. Por isso, tudo parece tão assustador e fora da realidade. Mas, já nos está claro, engana-se quem considera ser possível escutar a Palavra de Deus e colocá-la em prática sem o devido recolhimento interior. E não é preciso nenhum artigo de cardeal para nos convencer disso. Bastam as palavras de São Tiago: "Se alguém pensa ser piedoso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo: vã é a sua religião" (Tg 1, 26).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Pio XII, Carta Encíclica Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 73.
  2. Papa Bento XVI, Carta aos bispos que acompanha o "Motu Proprio" Summorum Pontificum (7 de julho de 2007).
  3. Idem.
  4. Cf. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia (17 de abril de 2003); Congregação para o Culto Divino..., Instrução Redemptionis Sacramentum (25 de março de 2004); Papa Bento XVI, Motu Proprio Summorum Pontificum (7 de julho de 2007).
  5. Cf. Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (24 de novembro de 2013), n. 94.
  6. Papa Bento XVI, Carta aos bispos que acompanha o "Motu Proprio" Summorum Pontificum (7 de julho de 2007).

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Conheça a história dos monges que cantam e rezam na terra de São Bento

​Depois de 200 anos, a identidade de Núrsia finalmente está completa, graças à presença dos monges que cantam e alegram a cidade com as suas cervejas e os seus conselhos. "É como se, com os monges aqui, tudo fosse dar certo."

No coração da Itália, em meio às montanhas da região da Úmbria, está a pacata cidade de Núrsia ( Norcia, no italiano), com suas estreitas ruas de pedra e paisagens extraordinárias. Famoso por suas linguiças suínas e trufas negras, o povoado de quase 5 mil habitantes é também a terra natal de São Bento, pai da vida monástica.

Por séculos, a comuna de Núrsia contou com a presença de monges beneditinos, que traziam segurança e conforto espiritual aos seus moradores. Mas, em 1810, com a promulgação do Código de Napoleão, os religiosos foram obrigados a deixar o local, sem que lhes fosse dado um prazo para retornar.

Espiritualmente órfãos, os nursini fizeram uma petição e recolheram entre si mais de 4 mil assinaturas, pedindo ao superior de São Bento que enviasse beneditinos de volta à terra do seu fundador. Finalmente, em 2000, o anseio dos moradores locais foi satisfeito e a vida monástica voltou a florescer em Núrsia: com mais dois religiosos, o padre norte-americano Cassian Folsom fundou na comuna o Mosteiro Beneditino Maria Sedes Sapientiae ("Maria, Sede da Sabedoria"), começando o apostolado de trabalho e oração ("Ora et labora") que resume a Regra de São Bento.

"A vida monástica é muito simples e ordinária", explica o prior da comunidade, padre Cassian. "Você levanta, reza, faz o seu trabalho, vai para a cama e, no dia seguinte, faz tudo de novo. São Bento, em certo sentido, é o padroeiro do ordinário, faz encontrar a presença de Deus no ordinário."

Um álbum de louvor a Deus

Há alguns meses, no entanto, a rotina comum dessa discreta casa religiosa ganhou os holofotes do mundo. É que as vozes desses monges foram reunidas no álbum Benedicta, uma excelente produção de canto gregoriano, que chegou a figurar entre os mais vendidos de música clássica.

O que explica tamanho sucesso, na opinião do premiado produtor Christopher Alder, é o transcendente embutido nas canções. ­"O canto que nós gravamos significa algo para eles, e você pode ouvir isso na sinceridade com que eles cantam", ele diz. "Há algo, no melhor sentido, hipnotizante ou meditativo. Quem ouve sente que entra em contato com o passado."

As faixas do CD reúnem orações e antífonas rezadas todos os dias pelos monges e dedicadas à Mãe de Deus. "Eu amo música, e a música, para a vida monástica, é uma parte essencial da nossa oração. O canto faz parte do ar que respiramos e, já que fazemos isso com tanta frequência, a coisa vem naturalmente depois de algumas décadas", ele garante. "Nós cantamos os louvores de Deus nove vezes por dia. Se você soma tudo, são cinco horas, mais ou menos, todos os dias, faça chuva ou faça sol, 365 dias por ano, o tempo todo."

Perguntado se as mesmas canções, interpretadas por artistas pop, obteriam o mesmo resultado, padre Cassian responde vigorosamente que não: "Você tem que acreditar no que está cantando", ele diz. "O canto é uma forma de expressarmos o nosso amor por Deus."

O padre Basil Nixen, regente de coro, aposta na beleza e na serenidade da música para chamar as pessoas a um encontro com Deus. "No fim, nós sempre tentamos agradar a Deus quando cantamos, então agradar às outras pessoas é mais fácil do que agradar à pessoa mais importante", ele afirma, em entrevista à CBS News.

"Para alegrar o coração"

Quando não estão rezando, uma das atividades dos monges é a produção de cervejas. A Birra Nursia, com o lema bíblico: "Ut laetificet cor – Para alegrar o coração" (Sl 103, 15), já é conhecida mundo afora e comercializada em Portugal, na Irlanda e nos Estados Unidos.

"Nós aprendemos a arte dos monges trapistas na Bélgica. Transformamos uma garagem embaixo do mosteiro em sala de fermentação e todos os monges ajudam a engarrafar as cervejas", conta o padre Cassian, em entrevista à Religion & Ethics. "A cerveja é muito boa e tem servido, de um modo extraordinário, como atração para a evangelização porque, mesmo se as pessoas não são de ir à igreja, quase todos gostam de tomar cerveja. Então, eles vêm ao mosteiro por causa da cerveja e logo começam a falar de outras coisas, coisas mais importantes."

"O povo da cidade recorre aos monges quando está com problemas, quando quer conversar com alguém sobre a sua vida familiar", ele diz. "Ter os monges de volta, depois de quase 200 anos, ajuda a completar a identidade da cidade. É como se, com os monges aqui, tudo fosse dar certo."

Introibo ad altare Dei

A música e a cerveja, no entanto, são aspectos apenas secundários do trabalho desses monges. O mosteiro de Núrsia faz parte de uma rede de comunidades tradicionais ao redor do mundo, preocupadas em zelar pela "sacralidade" do tesouro litúrgico da Igreja.

Para tanto, eles não têm problemas em celebrar a Missa nas duas formas do Rito Romano, intentando realizar aquele "enriquecimento mútuo" tão necessário e tão pedido pelo Papa Bento XVI. Verdadeiramente, "aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós".

"O Rito Antigo, ou a tradição litúrgica da Igreja, para nós, é um patrimônio, não uma peça de museu, mas algo vivo", diz o padre Cassian, em entrevista à EWTN. A iniciativa atrai principalmente os jovens, que constituem, hoje, a maioria de seus membros. A média de idade dos religiosos é de 33 anos.

O Amado às portas

O prior do mosteiro beneditino é também o membro mais velho da casa. Com 63 anos, a fama de Cassian Folsom, dentro e fora da cidade de Núrsia, é de santidade. Recentemente, a luta contra um câncer ajudou a catalisar esse processo de ascensão espiritual. Em 2006, ele já tinha vencido a doença, mas ela voltou uma segunda vez e, mesmo com o tumor na fase de remissão, o padre Cassian sabe que pode acontecer tudo de novo.

"Como qualquer um diagnosticado com câncer, isso muda a sua vida", ele declara. "Acho que a doença tem me dado uma paciência maior, uma tolerância maior, fazendo-me olhar para as coisas como se nem tudo importasse tanto quanto eu achava que importava."

A repórter do Religion & Ethics, Judy Valente, pergunta ao religioso se ele não esperava merecer "algo mais do que dois diagnósticos de câncer", já que tinha dedicado a sua vida para o serviço de Deus. A resposta dele é uma lição espiritual:

"Isso é apenas parte da vida, é tudo. Eu diria isto: nós podemos olhar para a morte como uma ladra ou como uma mensageira. Um ladrão vem e rouba o que temos de mais valioso e, por isso, nós temos medo. Um mensageiro que vem para dizer-nos que o nosso Amado está às portas, nós recebemos de modo bem diferente, não? Então, este é o tipo de escolha que devemos fazer: se a morte é uma ladra ou uma mensageira. Para mim, é uma mensageira."

É com essa mensageira em mente que o padre Cassian e os seus religiosos rezam, todas as noites, o cântico do velho Simeão: " Nunc dimittis servum tuum, Domini, in pace – Deixai agora, Senhor, vosso servo ir em paz" (Lc 2, 29). Por viverem em constante oração, todos os seus trabalhos vão se orientando, quase que de modo automático, à única coisa verdadeiramente necessária: a vontade divina.

Questionado se o sucesso de Benedicta afetará de alguma forma a personalidade e os hábitos do mosteiro de Núrsia, o padre Basil Nixen assegura que não. "Este é o ponto de nossas vidas: nós não viemos aqui para ter sucesso, mas para procurar a Deus".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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Mensagem de Natal: Quanto Te custou haver-me amado!

Meditando a letra do belo cântico “Tu scendi dalle stelle”, determinemo-nos a pagar o preço do amor. Se tanto custou a Deus amar-nos, como queremos que isso não nos custe nada?

O mistério do Natal só pode ser entendido se se compreende o mistério da misericórdia divina. A Segunda Pessoa divina da Santíssima Trindade, o próprio Verbo de Deus tomou uma carne. Para elevar a humanidade miserável e pecadora à participação na Sua própria vida, na Sua bem-aventurança eterna, Ele Se fez homem.

Diante de um amor tão grande, que faz o Criador de tudo o que existe transpor o abismo infinito e tomar as vestes de Sua criatura, a única resposta adequada do homem é a gratidão. A quem foi alvo de tão grande misericórdia, só lhe resta transformar a sua vida e corresponder generosamente ao amor com que foi amado.

"Ó Deus bem-aventurado, quanto Te custou haver-me amado!" É o que canta a Igreja neste Natal do Senhor, pegando emprestadas as palavras de Santo Afonso de Ligório, em seu famoso poema Tu scendi dalle stelle ("Tu desces das estrelas"). Meditando a letra desta bela cantiga natalina, determinemo-nos também nós a pagar o preço do amor. Se tanto custou a Deus amar-nos, como queremos que isso não nos custe nada?

Tu scendi dalle stelle
(Tu desces das estrelas"),
de Santo Afonso Maria de Ligório

Tu scendi dalle stelle, o Re del cielo,
e vieni in una grotta al freddo e al gelo.
O Bambino mio divino, io ti vedo qui a tremar;
o Dio beato! Ah, quanto ti costò l'avermi amato!

A te, che sei del mondo il Creatore,
mancano panni e fuoco, o mio Signore.
Caro eletto pargoletto, quanto questa povertà
più m'innamora, giacché ti fece amor povero ancora.

Tu lasci il bel gioir del divin seno,
per giunger a penar su questo fieno.
Dolce amore del mio core, dove amore ti trasportò?
O Gesù mio, perché tanto patir? Per amor mio!

Ma se fu tuo voler il tuo patire,
perché vuoi pianger poi, perché vagire?
Mio Gesù, t'intendo sì! Ah, mio Signore!
Tu piangi non per duol, ma per amore.

Tu piangi per vederti da me ingrato
dopo sì grande amor, sì poco amato!
O diletto - del mio petto,
se già un tempo fu così, or te sol bramo
Caro non pianger più, ch'io t'amo e t'amo

Tu dormi, Ninno mio, ma intanto il core
non dorme, no ma veglia a tutte l'ore
Deh, mio bello e puro Agnello
a che pensi? dimmi tu. O amore immenso,
un dì morir per te, rispondi, io penso.

Dunque a morire per me, tu pensi, o Dio
ed altro, fuor di te, amar poss'io?
O Maria, speranza mia,
se poc'amo il tuo Gesù, non ti sdegnare
amalo tu per me, s'io non so amare!

Tu desces das estrelas, ó Rei do céu
E vens a uma gruta no frio e no gelo.
Ó Menino meu divino, eu Te vejo aqui a tremer;
Ó Deus beato, quanto Te custou haver-me amado!

A Ti, que és do mundo o Criador,
Faltam agasalhos e fogo, ó meu Senhor.
Querida e eleita criança, esta Tua pobreza me apaixona
Pois foi o amor que Te fez pobre novamente.

Tu deixas as delícias da intimidade divina
Para vir a sofrer sobre essa palha.
Doce amor do meu coração, aonde Te levou o amor?
Ó meu Jesus, por que tanto sofrer? Por meu amor!

Mas se sofres por Tua própria vontade,
por que então este choro, por que estes gemidos?
Meu Jesus, eu Te entendo sim! Ah, meu Senhor!
Tu choras não de dor, mas de amor!

Tu choras ao ver a minha ingratidão,
Um amor tão grande e tão pouco amado!
Ó amado do meu coração,
se fui assim outrora, hoje somente por Ti eu anseio
Querido, não chores mais, pois eu Te amo, Te amo.

Enquanto dormes, meu Menino, o coração
não dorme, não, mas vigia a todo momento
Vai, meu querido e puro Cordeiro,
Em que pensas? Dize-me Tu. Ó amor imenso,
um dia em morrer por ti, respondes, é o que eu penso.

Então, pensas em morrer por mim, ó Deus
Que mais posso eu amar fora de Ti?
Ó Maria, esperança minha,
se pouco eu amo o teu Jesus, não te indignes
de amá-Lo tu por mim, se eu não O sei amar!

Um feliz e santo Natal!

Por Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

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Um plano diabólico contra a Eucaristia

O diabo quer levar as almas para o inferno através da profanação do Santíssimo Sacramento

A encarnação de Deus é um evento fundamental para o gênero humano. Depois da aliança com Noé e Abraão, depois da libertação do Egito, depois de todos os profetas terem anunciado a mensagem salvífica e a promessa de uma redenção definitiva, Aquele que é desde sempre e para sempre fez-Se um de nós para nos elevar, assim, à condição de filhos do Pai (cf. Jo 1, 12). São João explica o significado desse acontecimento singular com palavras belíssimas: "Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados" (1 Jo 4, 10). O homem pode agora amar porque recebeu o amor de quem o é por natureza, de quem Se desfez de sua dignidade real, assumindo um corpo de carne, para curar o coração humano, ferido pelo pecado. Essa é a alegria do Evangelho.

Jesus Cristo, "verdadeiro Deus e verdadeiro homem", redimiu a natureza humana em todas as suas dimensões. Por causa da culpa original, cujo salário é a morte, nenhum homem poderia mais alcançar a vida eterna (cf. Rm 6, 23). Os portões do Céu haviam se fechado e nada, senão o sacrifício do cordeiro de Deus (cf. Hb 7, 26), poderia abri-los novamente. Na cruz, Cristo humilhado entrega-Se em um verdadeiro holocausto — não simbólico, como eram os sacrifícios do Antigo Testamento —, pelo qual perdoa cada falta dos homens para conceder-lhes de novo a posse da vida eterna. Jesus padeceu uma dor fora das possibilidades de um homem qualquer, a fim de resgatar-nos das mãos do diabo.

É natural, portanto, que as pessoas pensem ser a morte de cruz a mais grave das humilhações de Cristo. Mas Ele não Se limitou ao sacrifício cruento do madeiro. Na noite anterior à sua morte, reuniu-Se com os apóstolos na celebração de sua derradeira páscoa. Os relatos bíblicos contam que, tomando o pão e o vinho, Jesus deu graças, elevou-os ao céu e disse: "Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim […] Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós" (Lc 22, 19-20).

Com a instituição da Santa Missa, isto é, da celebração eucarística, Jesus antecipou sua paixão; tornou-Se alimento para a nossa alma. É por isso que os santos são unânimes em dizer que, ao esconder-Se sob o véu do sacramento, no pão e no vinho, Jesus humilhou-Se ainda mais do que na encarnação, pois enquanto nesta, por um lado, Ele assumiu o corpo do homem, que é "imagem e semelhança de Deus" (Gn 1, 27), na Eucaristia, por outro, colocou-Se totalmente aos seus cuidados, na fragilidade das partículas eucarísticas. "Mais humilhação e mais aniquilamento na Hóstia Santíssima; mais que no estábulo, e que em Nazaré, e que na cruz. Por isso, como estou obrigado a amar a Missa!", assim resumia São Josemaria Escrivá [1].

O Santo Sacrifício da Missa é a mais perfeita das celebrações de culto a Deus. Tamanha é a reverência da Igreja à sua sacra liturgia, que ela não se preocupa em exagerar no louvor e no zelo. Pelo contrário, o Magistério convida-nos insistentemente a uma opção preferencial pela Eucaristia, pois dela extraímos as forças necessárias ao apostolado com nossos irmãos, mormente com aqueles que mais sofrem. É neste sentido que se deve compreender este discurso surpreendente de São Bernardo de Claraval: "Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece participar devotamente de uma Santa Missa do que distribuir todas as riquezas aos pobres ou fazer peregrinações por toda a terra" [2]. É claro que São Bernardo — de cuja regra monástica podemos extrair um exímio exemplo de austeridade e atenção aos pobres — não desmerecia o trabalho social; mas, antes, fazia valer aquelas palavras sempre válidas de Nosso Senhor: "Nem só de pão vive o homem, mas [...] de tudo o que sai da boca do Senhor" (cf. Mt 4, 4; Lc 4, 4; Dt 8, 3).

O zelo do cristão pela Hóstia Santa justifica-se por aquilo que explicamos acima. Jesus Eucarístico é o pobre dos pobres, que Se submete aos nossos cuidados. Jesus Eucarístico é, outrossim, o remédio salutar para nossas imperfeições. Na oração do Pai Nosso, após a súplica para que se realize a vontade de Deus no Céu e na Terra, pedimos-Lhe que nos dê, hoje, o "pão nosso de cada dia". Esse pão, diferentemente do que se costuma pensar, não é o pão comum, o alimento material. Trata-se, na verdade, da divina Eucaristia, conforme esclarece Santa Teresa d'Ávila: "Está Ele a ensinar-nos a fixar a nossa vontade nas coisas do Céu, e a pedir a graça de começarmos a gozar dele aqui debaixo: e havia de meter-nos em coisas tão baixas como pedir de comer?" [3]. Santa Teresa demonstra que o "pão nosso de cada dia" é deveras o meio pelo qual o Pai tornou possível ao homem realizar a vontade d'Ele "assim na Terra como no Céu". De fato, a Eucaristia "é o remédio mais válido e radical contra as idolatrias de ontem e de hoje" [4].

Eis o porquê de Satanás fazer guerra à Santa Missa. Ele odeia todos os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a confissão. Em nossos dias, assistimos com perplexidade a inúmeros insultos ao sacrifício eucarístico, às vezes mesmo dentro da Igreja. É seu plano diabólico levar os fiéis a comunhões sacrílegas, pois, desse modo, ele consegue tanto profanar a dignidade deste augusto sacramento como também ganhar almas para o inferno, através do pecado da indiferença. Notem o que diz São Paulo: "Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor" (1 Cor 11, 27). O apóstolo fala à comunidade de Corinto, onde parece estar ocorrendo graves profanações. "Essa é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos", explica (1 Cor 11, 30). Deus permite que essas mazelas se perpetuem para arrependermo-nos e "não sermos condenados com o mundo" (1 Cor 11, 32).

Um dos sinais mais evidentes de que há ofensas à Eucaristia em uma comunidade é a divisão. Onde reina a fofoca, a luta por cargos, o desprezo mútuo e a indiferença, não pode haver verdadeiro culto a Deus. Esse lugar é a casa do diabo. Nada prospera porque estão como que amarrados pela idolatria. Aqueles que não conseguem desenvolver apostolado frutífero em um determinado local, examinem, portanto, de que maneira as pessoas deste mesmo local, dessa comunidade, paróquia etc., costumam tratar o Santíssimo Sacramento. Não há de assustar-se acaso descobrir profanações e, até, rituais de magia negra. Os sintomas de delitos como esses são exatamente os descritos anteriormente.

Nas aparições de Fátima, a Virgem Santíssima suplicou pela reparação às ofensas cometidas contra o seu Imaculado Coração e o Sagrado Coração de seu Filho. Com efeito, o anjo de Portugal fez o mesmo pedido, ensinando as três crianças a rezar aquela famosa oração: "Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam". Ao longo da história, os santos pregaram a necessidade da chamada hora santa, um tempo de adoração ao Santíssimo, no intuito de consolar a Deus pelas ofensas cometidas contra seu santo nome. Temos, enfim, esta grande exortação de Santo Agostinho: "Ninguém come essa carne, sem antes a adorar; pecaríamos se não a adorássemos" [5].

A própria Liturgia, quando bem celebrada, segundo as normas estabelecidas pela Madre Igreja, é um excelente meio de reparação aos ataques contra a santidade de Nosso Senhor na Eucaristia. A sabedoria do Magistério estabeleceu essas diversas normas e sinais externos para auxiliar a natureza decaída do homem a contemplar mais facilmente a divindade de Cristo, seja pela maneira de se receber a comunhão, seja pela orientação dos atos litúrgicos. É o que explica esta nota do Concílio de Trento: "A natureza humana é tal que não pode ser facilmente elevada à meditação das coisas divinas, sem ajudas externas: por conta disso a Igreja, como uma mãe amorosa, estabeleceu certos ritos [...] para tornar mais evidente a majestade de um sacrifício tão grande" [6]. Essa reverência se completa ainda mais pela ação de graças que todo fiel deveria fazer por algum tempo após o término da celebração. São Charbel Makhluf não perdia a oportunidade de render louvores a Deus, antes e após a Missa, chegando a passar mais de três horas em atitude de adoração.

A Eucaristia é a fonte e o ápice da nossa vida cristã. Sobretudo neste tempo de neopaganismo, é nosso dever defendê-la de todos os ataques malignos, demonstrando, por meio de nossas atitudes, a sacralidade de sua natureza. Salvando a Eucaristia, a Eucaristia nos salvará.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho. Trad. port. de Alípio M. de Castro. 9.ª ed., São Paulo: Quadrante, p. 171, n. 533.
  2. Catilina Rivas. A Santa Missa: Testemunho de Catalina. Trad. port. Lívia Barbosa Burin. 1.ª ed., São Paulo: Secretariado de Nossa Senhora, Rainha da Paz, 2004, p. 9.
  3. Santa Teresa d'Ávila, Caminho de Perfeição. Trad. port. das Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 200.
  4. Bento XVI, Homilia para Solenidade de Corpus Christi, de 22 mai. 2008.
  5. Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos 98, 9 (PL 37, 1264).
  6. DS 1746.

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"Lúcifer no Vaticano" e a exploração da ignorância

Na Vigília Pascal, toda a Igreja saúda Jesus como “astro da manhã”. Mas, para um grupo de protestantes, a cerimônia é um “canto gregoriano” que “exalta Lúcifer”.

Chega às raias da irracionalidade o ódio que muitas seitas protestantes nutrem pela Igreja Católica – ódio preenchido com acusações injustas e acessos de fúria injustificados. Quem nunca foi chamado de "idólatra" simplesmente por amar a Virgem Maria e os santos? Ou nunca ouviu apelidos, um mais absurdo que o outro, referindo-se à Igreja e ao Papa? Portais de notícias sempre trazem alguma reportagem recente de algum evangélico que invadiu uma igreja e profanou imagens de santos – ainda que essa não represente a atitude da maioria dos protestantes.

A verdade é que tanta balbúrdia e dedos em riste não passam, em grande parte, de ignorância. Um vídeo que circula desde 2013 no YouTube, intitulado "Canto Gregoriano Exalta Lúcifer no VATICANO", exemplifica muito bem isso. No hangout, alguns protestantes se reúnem para comentar o vídeo de um diácono católico que menciona a palavra latina "lucifer" na Basílica de São Pedro, em Roma. O editor do vídeo, que alega trazer a "verdade final revelada", é antecedido por um senhor chamado Sebastião. "Eles invocam Satanás dentro do Vaticano e não tem como nenhum católico negar aquilo", diz ele. "Se eles quiserem continuar adorando, quando eles terminam o cântico, toda a congregação, ela diz 'Amém'."

O que dizer deste vídeo, senão que se trata de um curioso retrato da ignorância protestante? A cerimônia exibida no Vaticano é um extrato do Precônio Pascal, cantado em toda Vigília de Sábado Santo, no mundo inteiro. O cântico Exsultet – que não é um "canto gregoriano" – é concluído com os seguintes versos, em latim: "Flammas eius lucifer matutinus inveniat / Ille, inquam, lucifer, qui nescit occasum / Christus Filius tuus, / qui, regressus ab inferis, / humano generi serenus illuxit, / et vivit et regnat in saecula saeculorum. / Amen.", cuja tradução litúrgica – sem distorções fantasiosas – é: "Que ele [o círio pascal] brilhe ainda quando se levantar o astro da manhã, / aquele astro que não tem ocaso, / Jesus Cristo, vosso Filho, / que, ressuscitando dentre os mortos, / iluminou o gênero humano com a sua luz e a sua paz / e vive glorioso pelos séculos dos séculos. / Amém."

Ora, que um grupo de protestantes desconheça o significado de algumas frases em latim, é bastante compreensível. Que retoquem o que leem ou escutam para difamar a Igreja, porém, é uma atitude de muita desonestidade intelectual.

No texto em questão, a palavra " lucifer" não se refere a Satanás, o príncipe dos demônios. Trata-se de um nome comum, que significa "portador da luz" ou "estrela da manhã". É "lucifer" com "l" minúsculo, diferentemente do nome próprio, "Lúcifer". A propósito, essa não é a única ocasião em que o termo "lucifer" é usado com tal sentido. A Vulgata de São Jerônimo traz, no livro de Jó, a palavra "lucifer" (cf. 11, 17), que é traduzida por "alva" na própria edição João Ferreira de Almeida. Nas mesmas Sagradas Escrituras, São Pedro, ao fazer referência à voz de Deus Pai confirmando a missão de Jesus, pede que se mantenham firmes as palavras da profecia, "donec dies illucescat, et lucifer oriatur in cordibus vestris – até clarear o dia e levantar-se a estrela da manhã em vossos corações" (2 Pd 1, 19). No canto litúrgico exibido no vídeo, também, é Nosso Senhor quem é denominado como "astro da manhã", "aquele astro que não tem ocaso" – não o Seu inimigo.

Na verdade, o nome próprio "Lúcifer" não foi usado desde o começo para se referir ao demônio. Antes, a palavra era usada tão somente em seu significado comum, tanto que um bispo com esse nome, Lúcifer de Cagliari, do século IV, é santo católico celebrado pela liturgia. Uma referência do Autor Sagrado ao rei da Babilônia, no entanto, passou a ser usada para o anjo decaído – "Como despencaste das alturas do céu, tu, estrela da manhã (a Vulgata traz, novamente, ' lucifer'), clarão da madrugada?" (Is 14, 12) – e o que era simplesmente um astro luminoso se transformou em sinônimo de Satanás.

Portanto, não, a Igreja Católica não adora, não exalta e nem invoca o príncipe das trevas em sua liturgia. É voltada a Cristo e em Seu nome que ela termina todas as suas orações, como mostra a bela composição do Exsultet, cantada todos os anos em nossas igrejas.

A propósito, tomem cuidado. No Sábado Santo que se aproxima, Nosso Senhor Jesus Cristo será novamente chamado de "astro da manhã" no Vaticano. Estejam prontos para separar a luz da verdade das trevas do erro e da ignorância. Nestes tempos difíceis, poucas coisas são tão urgentes e tão necessárias.

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O último desejo de São João Paulo II

Em um dos últimos documentos de seu pontificado, João Paulo II exortou a Igreja a celebrar corretamente o sacrifício eucarístico.

Há exatos 10 anos, a Congregação para o Culto Divino, seguindo as disposições do então papa João Paulo II, publicava a Instrução Redemptionis Sacramentum[1]. O documento tinha por objetivo esclarecer alguns aspectos sobre a correta celebração da Eucaristia, e pôr termo à maré de abusos litúrgicos que se insurgia dentro da Igreja. Sendo a Santíssima Eucaristia o depósito "no qual está contido todo o bem espiritual da Igreja"[2], a preocupação do Santo Padre, exposta solenemente nessa instrução e na sua última encíclica, Ecclesia de Eucharistia, era nada mais que salvaguardar a fé dos fiéis, tornando a celebração dos sacramentos um ambiente livre de rixas e brigas fratricidas, advindas de falsas interpretações do Santo Sacrifício de Cristo.

O zelo pelo augusto sacramento eucarístico faz parte da história dos cristãos. Desde a sua origem, os católicos procuraram render glórias ao Criador por meio do culto à Eucaristia, chegando, em alguns casos, até mesmo às vias do martírio. " Sine dominico non possumus" – sem o domingo, não podemos viver. Era o que diziam os mártires de Abinitas, região do norte da África, ao desafiarem a lei do império, que os proibia de prestar culto a Deus. Desse eloquente testemunho do início do século IV, podemos haurir a íntima relação que existe entre a vida ordinária dos cristãos e a sua fé eucarística. O homem só consegue viver de acordo com sua reta natureza quando põe em primeiro plano o seu dever para com Deus. É que sem a verdadeira religião, todo ser humano acaba abeirando-se de outros altares; queimando incensos para novidades muitas vezes desumanas. A lei moral depende diretamente do reconhecimento de Deus. Trata-se de um dever natural dos homens; e, por isso, dizia o Papa Pio XII, "Deus os elevou à ordem sobrenatural"[3].

A liturgia cristã, por sua vez, não é uma invenção humana. Não se trata de uma busca de Deus às apalpadelas, como se se estivesse a construir outra Torre de Babel. Deus é quem nos ensina a forma correta de adorá-Lo. É Ele, e somente Ele, o verdadeiro protagonista de toda ação litúrgica. Com efeito, dada a missão da Igreja de guardar e ensinar a fé apostólica, cabe a ela, por direito divino, o dever de esclarecer e coibir os equívocos contra a doutrina de Deus, sobretudo no que tange à matéria sagrada do Santíssimo Sacramento – uma vez que não são poucos os que inserem princípios errôneos na celebração eucarística que, "em teoria ou na prática, comprometem esta santíssima causa, e frequentemente até a contaminam de erros que atingem a fé católica e a doutrina ascética"[4].

Quando pensamos em exemplos como o de Madre Teresa de Calcutá – que passava horas diante do altar, rogando a Deus pelo bom êxito de seus trabalhos –, ou na imagem de São Padre Pio de Pietrelcina – que muitas vezes ardia em febre pela Santíssima Eucaristia –, conseguimos compreender o que significa viver eucaristicamente. A comunhão do Corpo de Cristo provoca uma mudança em todo nosso ser. " Não é o alimento eucarístico que se transforma em nós, mas somos nós que acabamos misteriosamente mudados por Ele"[4], até o momento em que cada um possa repetir as palavras do Apóstolo das gentes: "já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Cfr. Gl 2, 22). No altar, mediante a oferta do sacerdote, unimo-nos ao sacrifício de Cristo na cruz. Dessa íntima comunhão, nasce a necessidade de uma presença iluminadora no meio da sociedade, a fim de que Deus possa ser tudo em todos. Dizia o Papa Pio XII:

Assistindo, pois, ao altar, devemos transformar a nossa alma de modo que se apague radicalmente todo o pecado que está nela, e com toda diligência se restaure e reforce tudo aquilo que, mediante Cristo, dá a vida sobrenatural: e assim nos tornemos, junto com a hóstia imaculada, uma vítima agradável a Deus Pai. [5]

Nesse sentido, o respeito às normas litúrgicas não deve ser encarado como uma prisão, mas como autêntica liberdade. As extremidades de um quadro não cerceiam a criatividade de um pintor; pelo contrário, são elas que garantem a existência e aplicabilidade de sua arte. Mutatis mutandis, as rubricas do missal nada mais são do que as extremidades do quadro litúrgico de Deus, a fim de que o homem possa adorá-Lo "em espírito e em verdade" (Cfr. Jo 4, 23). A missa não consiste "em criar um pequeno mundo alternativo por conta própria"[6]. Isso significaria "o abandono do Deus verdadeiro, disfarçado debaixo de um tampo sacro"[7]. A Missa é o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. "E, a fim de que esta memória não tivesse nenhuma narrativa confusa por parte dos homens" – recorda-nos o venerável Fulton Sheen –, "Ele mesmo instituiu a maneira correta de recordá-la"[8].

Resumidamente, como disserta a instrução do Papa João Paulo II, trata-se do sacramento de nossa redenção.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum (25 de março de 2004)
  2. Ibidem, n. 1
  3. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 13
  4. Ibidem, n. 7
  5. Bento XVI, Exort. Apost. pós-sinodal Sacramentum Caritatis (22 de fevereiro de 2007), n. 70
  6. Pio XII, Carta Enc. Mediator Dei (20 de novembro de 1947), n. 90
  7. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 16
  8. Ibidem
  9. Fulton Sheen, O calvário e a Missa

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Liturgia: mistério da salvação - Parte V

Neste último artigo sobre os ensinamentos de Monsenhor Guido Marini a respeito da liturgia, oferecemos uma distinção entre música sacra e música profana na Missa

A Missa católica foi o grande berço da música ocidental. Através da polifonia e do tradicional cantochão - o gregoriano -, a Igreja pôde transmitir a Palavra de Deus aos quatro cantos da terra, atingindo tanto os incautos quanto as almas mais elevadas. Foi precisamente por isso que, ao longo de sua história, o Magistério procurou distinguir, repetidas vezes, a música litúrgica ou sacra dos cantos seculares.

Com o advento da revolta protestante e o surgimento de expressões musicais das mais variadas, começaram a proliferar práticas fundamentalmente alheias ao autêntico espírito litúrgico. Foi então que o Concílio de Trento interveio no conflito cultural da época - lembra Monsenhor Guido Marini - "restabelecendo a norma pela qual era prioritário na música aderir à palavra, limitando o uso dos instrumentos e indicando clara diferença entre música profana e música sacra". A contrarreforma do Concílio simplesmente pôs abaixo o castelo de cartas do protestantismo. A liturgia romana foi "um dos instrumentos mais poderosos da propaganda jesuítica", derriçando as heresias das seitas ao mesmo tempo em que revigorava a tradição musical daquele período.01

Nos anos seguintes à reforma tridentina, a Igreja continuou sustentando o canto gregoriano como a legítima música litúrgica. E ainda hoje o ensinamento permanece o mesmo. Dando vitalidade aos trabalhos de São Pio X, diz o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, que a "Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar."02 Todavia, apesar das claras admoestações dos padres conciliares - e, obviamente, do magistério posterior -, abriu-se espaço na Missa para expressões bruscamente opostas ao "sentire cum Ecclesia", chegando-se a tachar a música louvada pelo Sacrossanto Concílio como "velharia", "coisa ultrapassada" e outros pejorativos.

A argumentação contra o tradicional canto litúrgico - bem como a outras áreas da Tradição - redunda na ideologia do pauperismo. A Igreja não deveria, nas suas celebrações, assumir uma posição rígida, mas simplista, adotando a criatividade popular de forma totalmente subjetivista e aleatória, como se a liturgia fosse um canteiro de obras, sempre aberto a modificações. O protagonista da ação litúrgica passa a ser o povo, qual ocorre nos regimes democráticos da teologia calvinista: sem espaço para distinções, o culto deve ser de todos.

Com efeito, assim como o simplismo de Calvino acabou com a música na França de sua época, o mesmo raciocínio está destruindo as celebrações católicas de agora, pois no centro da ação não está Deus e a reverência devida a Ele, mas o gosto pessoal de um grupo que prevalece, de paróquia em paróquia, sobre o de outros03. E "uma Igreja que se baseia nas decisões da maioria" - recorda o Cardeal Joseph Ratzinger - "torna-se uma Igreja meramente humana", uma vez que o que se faz a si mesmo "tem sabor do 'si mesmo' que desagrada a outros 'si mesmos' e bem cedo revela a sua insignificância"04.

No seu livro sobre a liturgia, Monsenhor Guido Marini procura lembrar que "a música sacra não pode ser entendida como expressão da pura subjetividade" já que "essas formas musicais", ou seja, o gregoriano e a polifonia - "na sua santidade, bondade e universalidade - são precisamente as que traduzem o autêntico espírito litúrgico em notas, melodia e canto: encaminhando para a adoração do mistério celebrado; tornando-se musicada exegese da palavra de Deus". Do mesmo modo, concorda Bento XVI quando diz que "nem sequer a grande música o gregoriano, ou Bach, ou Mozart é algo do passado, mas vive da vitalidade da liturgia e da nossa fé. Se a fé for viva, a cultura cristã não se tornará algo do "passado", mas permanecerá viva e presente."05

Recentemente, a escritora brasileira Adélia Prado fez uma ótima colocação acerca da dessacralização da liturgia. A teologia da libertação, comentava, na ânsia de atingir o pobre acabou por torná-lo mais pobre, pois retirou-lhe a única riqueza que ainda lhe restava: a beleza da liturgia.06 No lugar do órgão colocou-se a sanfona, no lugar das antífonas, os gritos de guerra, e a isso somados os pés de bananeiras, cocos, os berrantes e bandeirolas de festa junina. Ora, é evidente que assim a missa se torna um passatempo, um entretenimento tacanho e brega que, mais cedo ou mais tarde, deixará de ser interessante como qualquer programa de auditório.

O rigor da Igreja com o canto e com as demais partes da missa tem um nome: amor. É por amor a seu Divino Esposo, Jesus, que a Igreja adorna o templo com as mais belas peças e objetos. E assim também com a música. Ela deve se unir ao louvor dos anjos do céu, sendo uma verdadeira expressão de adoração a Deus, que motive sempre e mais e mais o seu rebanho a responder o imperativo das Sagradas Escrituras: "Cantai ao Senhor um cântico novo" (Cf. Sl 96, 1)

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  1. CARPEAUX, Otto Maria. O Livro de Ouro da História da Música. Ediouro
  2. Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 116 e 117
  3. Ibidem n. 1
  4. RATZINGER, Joseph. Compreender a Igreja hoje, vocação para comunhão. Editora Vozes
  5. Audiência Geral de Bento XVI
  6. Discurso de Adélia Prado sobre a liturgia católica