“Tudo o que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria” (Ecle 9, 10). 

O conselho de Salomão de que devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, com todas as nossas forças, naturalmente nos leva a pensar naquela grande obra que abarca todas as outras, que sobreviverá a todas as outras obras e em função da qual realmente estamos aqui na terra: a salvação das nossas almas. A reflexão sobre essa grande obra, que deve ser realizada com todas as nossas forças e concluída antes da morte, em direção à qual todos nós caminhamos, apresenta-se às nossas mentes com particular intensidade no início de um novo ano. Estamos agora entrando em uma nova etapa da jornada de nossa vida. Sabemos bem como ela terminará e vemos onde é que vamos parar ao anoitecer, embora não enxerguemos o caminho. Sabemos o que nos cabe fazer enquanto viajamos, e que é importante fazê-lo com todas as nossas forças, pois “não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria na sepultura”. Isso é tão óbvio que nada precisa ser dito para nos convencer de que é verdade, pois o sabemos muito bem. A queixa que muitos costumam fazer, quando lhes falam sobre esse assunto, é que já sabem disso, que não é nada de novo, que não precisam lhes dizer nada a respeito, e que é cansativo ouvir a mesma coisa repetida várias vezes, além de ser impertinente por parte de quem a repete. Sim, é dessa forma que os pecadores amordaçam a sua consciência, discutindo com aqueles que apelam para ela. Eles se defendem, se é que isso pode ser chamado de defesa, alegando que já sabem o que devem fazer, e não fazem; sabem perfeitamente bem que estão vivendo afastados de Deus e que se encontram em perigo de ruína eterna; sabem que estão se tornando filhos de Satanás e negando o Senhor que os comprou, e não querem que ninguém lhes diga isso. É assim que dão testemunho contra si mesmos.

No entanto, embora já tenhamos plena consciência de que temos muito a fazer antes de morrer, ainda assim (se prestarmos atenção) pode ser útil ouvir a ênfase dada a essa questão, porque, ao refletir sobre ela de forma séria e constante, possivelmente, pela graça de Deus, podemos adquirir uma convicção profunda dessa verdade; ao passo que, quando nos limitamos a termos gerais e confessamos que esta vida é importante e curta, da maneira sumária com que os homens costumam confessá-la, não temos, propriamente falando, nenhum conhecimento dessa grande verdade.

“O ladrão crucificado”, por Robert Campin.

Consideremos, portanto, o que é morrer. “Na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria.” A morte põe fim de modo absoluto e irrevogável a todos os nossos planos e obras, e isso é inevitável. O salmista fala em “humildes e poderosos, tanto ricos como pobres”. “Mas nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate.” Até mesmo “porque ele verá morrer o sábio, assim como o néscio e o insensato, deixando a outrem os seus bens” (Sl 48, 2-10). Por maior que seja a dificuldade de aceitarmos isso, de compreendermos isso, contudo, da mesma forma que estamos aqui reunidos, com toda a certeza cada um de nós, mais cedo ou mais tarde, será estendido, um por um, no leito da morte. Naturalmente, recuamos perante a ideia da morte e das circunstâncias que a acompanham, mas todas as coisas odiosas e temíveis que ela acarreta se cumprirão a nosso respeito, uma após a outra. 

Mas nada se compara às consequências que dela decorrem. A morte nos detém; detém a nossa raça. Os homens dedicam-se ao seu trabalho ou aos seus prazeres, estão na cidade ou no campo, mas de qualquer forma são interrompidos. De repente, suas ações são avaliadas, um acerto de contas é feito, e tudo é selado até o grande dia. Que mudança! Nas palavras usadas familiarmente ao falar dos mortos, eles já não são. Estavam cheios de planos e projetos. Quer estivessem em uma posição mais elevada ou mais humilde, tinham suas esperanças e medos, suas perspectivas, buscas, rivalidades. Tudo isso chegou ao fim. Um construiu uma casa, e o telhado ficou inacabado; outro comprou mercadorias, e elas ainda não foram vendidas. E todas as suas virtudes e qualidades agradáveis, que os tornavam caros aos seus amigos, desapareceram, pelo menos neste mundo. Onde estão aqueles que eram tão ativos, tão otimistas, tão generosos? Os amáveis, os modestos e os gentis? Morreram, disseram-nos. Desapareceram de repente, e isso é tudo o que sabemos. Foram silenciosamente tirados de nós; não os encontramos nos assentos dos anciãos, nem nas assembleias do povo, nem na multidão heterogênea de homens, nem no refúgio doméstico que tanto apreciavam. Como diz a Sagrada Escritura: “Os dias do homem são semelhantes ao feno; como a flor do campo, assim floresce: apenas é tocada pelo vento, já não existe; nem o seu lugar o conhece mais” (Sl 102, 16). E eles romperam os muitos laços que os mantinham. Eram pais, irmãos, irmãs, filhos e amigos, mas o vínculo de parentesco foi quebrado, e o cordão de prata do amor foi desatado. Seguiram-se lágrimas de dor intensa e uma longa tristeza nos corações angustiados, mas eles não voltam, não respondem; nem sequer satisfazem nosso desejo de saber se sentem por nós a mesma dor que sentimos por eles. A partir de então, falamos deles como se fossem pessoas que não conhecemos; falamos deles como se fossem terceiros, embora eles estivessem sempre conosco, e todos os nossos pensamentos fossem partilhados por eles. Ou, talvez, se nossa dor for muito profunda, nem sequer mencionamos os seus nomes. E os seus bens também ficam para outros. O mundo continua sem eles; esquece-os. E assim é; o mundo consegue esquecer que os homens têm alma, olha para todos eles como meras partes de um grande sistema visível, que continua em movimento. É a isso que o mundo atribui uma espécie de vida e personalidade. Quando algum dos seus membros morre, considera-o apenas como alguém que saiu do sistema e se tornou um nada. Por um minuto, talvez, pensa neles com tristeza, mas depois os abandona — para sempre. Ele mantém os olhos nas coisas visíveis e temporais. Na verdade, sempre que um homem morre, rico ou pobre, uma alma imortal passa pelo juízo, mas, de alguma forma, lemos sobre a morte de pessoas que vimos ou de quem ouvimos falar, e essa reflexão nunca nos ocorre. E assim o mundo de fato rejeita as almas dos homens e, reconhecendo apenas os seus corpos, dá a impressão de que “o destino dos filhos dos homens e o destino dos animais é o mesmo, um mesmo fim os espera. Tanto morre um como o outro. A ambos foi dado o mesmo sopro. A vantagem do homem sobre o animal é nula, porque tudo é vão” (Ecle 3, 19).

“A alma do bom ladrão”, por James Tissot.

Mas acompanhemos o percurso de uma alma que assim se desprende do mundo e é por ele abandonada. Ela parte como um estrangeiro numa viagem. O homem parece morrer e deixar de existir, quando na verdade está apenas nos deixando e começando a viver. Então, ele passa a enxergar coisas que antes nem sequer lhe passavam pela cabeça, e o mundo se torna ainda menos importante para ele do que ele para o mundo. Há pouco tempo, ele estava deitado na cama, doente, mas, na hora da morte, que mudança terrível se abateu sobre ele! Que momento difícil! O quarto onde se encontrava há pouco está em silêncio; nada se passa ali, pois ele se foi e agora pertence a outros. Agora pertence inteiramente ao Senhor que o comprou, e a Ele retorna. Mas se será acolhido seguro no seu lugar de esperança, ou se será aprisionado até o grande dia, isso é outra questão, que depende das obras realizadas em vida, sejam elas boas ou más. 

E agora, quais são os seus pensamentos? Quão infinitamente importante lhe parece agora o valor do tempo, agora, que o tempo para ele é um nada! Um nada, sim, porque, ainda que ele passe séculos à espera de Cristo, já não poderá alterar sua condição de má para boa, ou de boa para má. O estado em que se encontra quando morrer será permanente; uma vez que a árvore cai, ela permanece no chão. Eis a consolação do verdadeiro servo de Deus e a miséria do transgressor. Seu destino está determinado de uma vez por todas, e ele só pode aguardar com esperança ou temor. Homens em seus leitos de morte declararam que só é possível ter uma ideia correta do valor do tempo quando se está prestes a morrer; mas se isso é verdade, tanto mais verdadeiro será após a morte! Que avaliação faremos do tempo enquanto aguardamos o julgamento? Sim, é isso mesmo — tudo isso, repito, pertence a nós de modo muito íntimo. Não devemos encarar isso como uma imagem, tal como alguém que lê um livro agradável num momento de descanso. Temos de morrer: os mais jovens, os mais saudáveis, os mais despreocupados; temos de ser assim separados, de modo antinatural, em duas partes, a alma do corpo; e só nos reuniremos outra vez para sermos mais felizes ou para sermos infelizes por toda a eternidade.

“Memento mori”, por Frans van Everbroeck.

Assim é a morte, quando considerada em sua inevitável necessidade e em sua importância inexprimível — e não podemos garantir a nós mesmos nenhum período de tempo certo antes de sua chegada. O tempo pode ser longo, mas também é possível que seja breve. É claro que um homem pode morrer hoje ou amanhã; tudo o que podemos dizer é que é improvável que ele morra. Mas ao menos disto temos certeza: cedo ou tarde, a morte está continuamente se aproximando de nós. Estamos cada vez mais perto dela. Todas as manhãs, ao acordarmos, ficamos mais perto da sepultura, onde não há trabalho nem artifícios, do que estávamos antes. Estamos agora mais perto da sepultura do que quando entramos nesta igreja. Portanto, a vida está sempre se desintegrando sob nossos pés. O que diríamos a um homem que estivesse em um terreno íngreme, que estivesse sempre desmoronando sob seus pés e oferecendo cada vez menos segurança, mas que não se importasse com isso? Ou o que diríamos a alguém que deixasse um líquido precioso vazar de seu recipiente nas ruas, sem pensar em impedir isso? Que olhasse com indiferença para tal desperdício, cada vez maior com o passar do tempo? 

Mas que tesouro pode igualar-se ao tempo? Ele é a semente da eternidade. No entanto, nós nos permitimos continuar, ano após ano, quase sem usá-lo a serviço de Deus, ou achando que basta dar a Ele, no máximo, um décimo ou um sétimo dele, enquanto semeamos incansavelmente e de todo o coração na carne, para colhermos dela a corrupção (cf. Gl 6, 8). Procuramos dar à religião o mínimo possível, em vez de ter a graça de dar com abundância. “Muitas lágrimas correram de meus olhos, por não ver observada a vossa Lei” (Sl 118, 136), diz o santo salmista. Sem dúvida, um profeta inspirado viu com muito mais clareza do que nos é possível perceber a loucura dos homens que desperdiçam esse tesouro no pecado, quando ele deveria ser usado para comprar o bem maior. 

Mas, se assim é, como essa loucura deve se apresentar aos olhos de Deus! Que mal inveterado e maligno há nos corações dos filhos dos homens, que os leva a sentar-se para comer e beber, e levantar-se para brincar, quando o tempo está passando rapidamente e o julgamento se aproxima? Foi-nos dito o que Ele pensa da incredulidade do homem, embora não possamos adentrar as entranhas dos seus pensamentos. Ele nos mostrou isso em feitos e ações, na medida em que podíamos compreender, quando enviou seu Filho unigênito ao mundo, precisamente naquele momento, para nos resgatar do mundo — o que, certamente, não foi feito de forma leviana. Além disso, aprendemos o que Ele pensa a esse respeito pelas palavras daquele Filho misericordioso — que certamente não foram ditas de modo leviano: “Os ímpios”, diz Ele, “irão para o castigo eterno”. Oh, se tivéssemos um coração tal que nos levasse a temer a Deus e a guardar os seus mandamentos sempre! 

De nada adianta falar, no entanto, pois os homens sabem qual é o seu dever, mas não o cumprem. Dizem que não precisam nem querem que lhes digam isso, que é uma intromissão e uma grosseria falar-lhes sobre a morte e o juízo particular. Temos de aceitar isso, e nós, que devemos falar com eles, precisamos nos submeter a isso. Temos de conversar com eles por um ato de obediência a Deus, queiram eles ouvir ou não, e então deixar nossas palavras como testemunho. Não temos outros meios para acordá-los. Falamos em nome de Cristo, nosso Senhor misericordioso, seu Redentor, que já os perdoou gratuitamente, mas eles não o seguem com um coração sincero. O que mais pode ser feito?

Detalhe do “Juízo Final”, de Michelangelo.

Mais um ano está começando. Ele diz algo aos pensativos, algo que é escutado por aqueles que estão atentos e aguardam a vinda de Cristo. O ano anterior se foi, está morto, jaz no túmulo do tempo passado, não para se decompor e ser esquecido, mas para ser preservado diante da onisciência de Deus, com todos os seus pecados e erros irrevogavelmente registrados, até que, finalmente, seja ressuscitado para dar testemunho sobre nós no último dia; e quem dentre nós poderá suportar a lembrança de suas próprias ações ao longo do ano que passou? De tudo o que disse e fez, de tudo o que concebeu em sua mente ou colocou em prática, e de tudo o que não disse e não fez, e que era seu dever dizer ou fazer? 

Que perspectiva sombria não se nos afigura, quando pensamos que, na última e mais terrível revelação que Deus nos fez sobre o futuro, temos a solene palavra da verdade, prometida a nós, de que, naquele dia, os livros serão abertos! “Abriram-se livros, e ainda outro livro, que é o livro da vida. E os mortos foram julgados conforme o que estava escrito nesse livro, segundo as suas obras” (Ap 20, 12). O que um homem que realmente tem consciência de sua miséria e corrupção não daria para arrancar algumas das folhas ali preservadas! Pois como são hediondos os pecados nelas escritos! Pensemos na multidão de pecados que cometemos desde quando aprendemos a diferença entre o certo e o errado. Nós os esquecemos, mas ali os podemos ver claramente registrados. Com razão o santo Davi exclama: “Não vos lembreis dos pecados de minha juventude e dos meus delitos; em nome de vossa misericórdia, lembrai-vos de mim” (Sl 24, 7). Imaginemos também a multidão de pecados que se tornaram parte de nós, e nos quais agora vivemos, sem ter consciência deles, ou com apenas uma consciência parcial de que são pecados: hábitos de orgulho, autoconfiança, presunção, mau humor, impureza, preguiça, egoísmo, mundanismo. A história de todos esses pecados, sua origem e seu crescimento, está registrada nesses livros terríveis; e quando olhamos para o futuro, quantos pecados teremos cometido até esta mesma época no próximo ano, por mais que nos esforcemos em conhecer o nosso dever e vencer a nós mesmos! Ou melhor: será que teremos a oportunidade de obedecer ou desobedecer a Deus por mais um ano? Quem poderá dizer se, nessa altura, o nosso tempo não se terá esgotado para sempre?

“O perdão do bom ladrão”, por James Tissot.

“Lembra-te de mim, Senhor, quando entrares no teu reino” (Lc 23, 42). Essa foi a oração do bom ladrão na cruz, e também deve ser a nossa. Quem pode nos fazer bem, senão aquele que será também nosso Juiz? Quando pensamentos perturbadores a respeito de nós mesmos nos assolarem e afligirem, “Lembra-te de mim” é tudo o que nos resta dizer. Não temos “trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria” próprios para nos aperfeiçoarmos. Não podemos dizer nada a Deus em nossa defesa: apenas reconhecer que somos pecadores miseráveis e, dirigindo-nos a Ele suplicantes, implorar que tenha misericórdia de nós, por amor ao seu Filho, e que nos conceda alguma graça, não segundo nossos méritos, mas pelo amor de Cristo. Quanto mais tentarmos servi-lo aqui, melhor. Mas, no fim das contas, estamos tão aquém do que deveríamos ser que, se dependêssemos apenas de nós mesmos, seríamos desgraçados — mas somos forçados a sair de nós mesmos pela própria necessidade da nossa condição. A quem devemos recorrer? Quem pode nos fazer bem, senão aquele que nasceu neste mundo para nos regenerar, foi ferido por nossas iniquidades e ressuscitou para nos justificar? Mesmo que o tenhamos servido desde a nossa juventude; mesmo que tenhamos crescido seguindo o seu exemplo, tanto quanto um simples homem pode crescer em sabedoria à medida que crescemos em estatura; mesmo que sempre tenhamos tido corações ternos, vontade mortificada, temperamento ponderado e espírito obediente; ainda assim, na melhor das hipóteses, quanto não deixamos por fazer! Quantas coisas fizemos, e que deveriam ter sido feitas de outra forma! Sabemos, de certa forma, o que Ele pode fazer por nossa natureza, no sentido de santificá-la; vemos isso no caso dos santos; e certamente não conhecemos o limite de sua ação naqueles a quem concede graças especiais, na obra de purificação e renovação por meio do seu Espírito. Mas, quanto a nós mesmos, sabemos muito bem que, por mais que tenhamos tentado, fizemos muito pouco; que o nosso serviço mais dedicado não vale nada — e quanto mais tentamos, mais claramente vemos o quão pouco tentamos até agora.

Cristo salva aqueles que tentam salvar-se a si mesmos, mas se desesperam por não conseguir; que pretendem fazer tudo, mas confessam que não fazem nada; que são todo amor e todo temor; que são os mais santos, mas se confessam os mais pecadores; que sempre procuram agradá-lo, mas sentem que nunca conseguem; que estão cheios de boas obras, mas também de obras de penitência. Tudo isso parece uma contradição para o homem carnal, mas não o é para aqueles a quem Cristo ilumina. Eles compreendem, na medida de sua iluminação, que é possível trabalhar por sua salvação, mas que ela lhes é concedida; que é possível temer e tremer ao pensar no juízo, e ainda assim alegrar-se sempre no Senhor, e esperar e rezar por sua vinda.

Referências

  • [São] John Henry Newman, The Lapse of Time. In: Parochial and Plain Sermons, vol. 7. New York: Longmans, Green and Co., 1908, pp. 1-12.

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