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Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?
História da Igreja

Com que direito Lutero
pretendia “reformar” a Igreja?

Com que direito Lutero
pretendia “reformar” a Igreja?

Lutero negou a autoridade, negou a Tradição, negou o Magistério, negou a Igreja orgânica, visível e hierárquica. Mas com que direito? Quais as credenciais desta sua embaixada extraordinária?

Pe. Leonel Franca31 de Outubro de 2017
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Lutero começou por negar. Negou a autoridade, negou a tradição, negou o magistério eclesiástico, negou a Igreja orgânica, visível, hierárquica. Com que direito? Com que títulos? Não existia havia 15 séculos o cristianismo? Não ascendiam os seus pastores, os seus bispos, os seus papas, por uma sucessão ininterrupta até aos apóstolos, até ao próprio Cristo?

— Mas a Igreja Católica havia perdido o espírito primitivo, havia adulterado os ensinamentos do Evangelho, havia-o sobrecarregado com uma farragem de superstições humanas, havia-o prostituído com a idolatria de Babilônia.

— E como o sabe ele? Como o prova? Não havia Cristo prometido a sua assistência infalível à Igreja? Não lhe havia assegurado que com ela estaria todos os dias até à consumação dos séculos?

Não importa. Lutero entrincheira-se na Bíblia. — Mas a Bíblia, quem a interpreta? Não a possuía, não a possui porventura a Igreja Católica? Não a liam todos os Santos Padres e Doutores? Não a conheciam todos os concílios? Não a vulgarizavam todos os santos reformadores? E por que a nenhum ocorreu a ideia de começar uma reforma destruindo a Igreja em nome da Escritura, de embandeirar a Bíblia em pendão de revolta contra a autoridade constituída por Cristo?

Lutero, porém, possui um segredo especial de exegese desconhecido de toda a antiguidade eclesiástica. Ele, o frade despeitado, guinda-se às alturas proféticas de novo evangelista, recebe diretamente ilustrações do Espírito Santo, comunica com o santuário da Trindade [1] e dos seus recessos inacessíveis traz ao mundo o dom de uma hermenêutica sacra, de cujo bojo sai um cristianismo todo novo.

Destarte, de consequência em consequência, Frei Martinho é obrigado a arvorar-se uma missão divina, a atribuir-se uma legação religiosa especial.

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

Ora, onde estão as credenciais desta embaixada extraordinária? Nenhum homem pode levantar-se no meio dos seus semelhantes e afirmar, sem provas cabais, que é um enviado do Altíssimo. Nenhum homem pode guindar-se à trípode dos oráculos e daí legislar religião para a humanidade sem antes demonstrar apoditicamente a autenticidade de sua missão plenipotenciária. Religião, só Deus a pode impor ao homem. Falar à consciência religiosa, ensinando verdades a crer e preceitos a praticar, sem títulos divinos, sem autorização divina, sem sanção divina, é embuste, é impostura, é charlatanismo. Nossa dignidade de seres racionais revolta-se contra semelhantes exploradores da credulidade pública. — Profeta de Wittenberg, onde estão as cartas de crença de tua missão divina?

A garantia que temos da origem celeste de uma doutrina reside na autoridade recebida do alto por aquele que no-la propõe.

Ora os sinais com que Deus chancela a autoridade dos seus enviados são os milagres: milagres que se manifestam na ordem física, milagres que resplendem na santidade irrepreensível do divino enviado. Só o milagre, intervenção extraordinária da divina onipotência, pode autenticar as missões do céu.

Com milagres provou Jesus a sua messianidade (cf. Jo 5, 36; 10, 37-38; 15, 22; Mt 12, 39-40); com milagres sigilou Deus a embaixada dos seus apóstolos (cf. 2Pd 1, 18; 2Cor 12, 12; Mc 16, 20); no milagre reconheceu sempre a apologética cristã, firmada nos princípios da razão e nos ensinamentos dos livros inspirados, a assinatura inimitável do divino Autor nas suas manifestações extraordinárias à humanidade.

O próprio Lutero reconheceu a necessidade desta autenticação celeste. Querendo impedir a pregação de Tomás Müntzer em Mulhouse, escreve em 1524 aos magistrados desta cidade que, se o turbulento inovador não puder provar com obras extraordinárias a sua missão, não o recebam. “Se ele disser que Deus e o seu espírito o enviam como aos apóstolos, que o prove com prodígios e milagres; do contrário, proibi-lhe a pregação” [2].

Quando Carlostadt, apelando para ilustrações divinas, o contradisse, Lutero intimou-o a demonstrar com milagres a sua vocação: “É necessário que Deus manifeste com obras milagrosas que revoga os seus antigos preceitos” [3]. E alhures:

Quem quer pôr em campo alguma novidade ou ensinar doutrinas diversas deve ser chamado por Deus e comprovar a sua vocação com verdadeiras ações prodigiosas. Quem não a puder demonstrar deste modo, abra mão da empresa et in malam rem abeat. [4]

Julgando-o por esta craveira, que milagres fez Lutero? Que milagres fizeram os primeiros reformadores para atestar o caráter divino de sua missão? De todos os protestantes escreveu, gracejando, Erasmo, que até então não haviam endireitado a perna a um cavalo coxo. Lutero acabou por perceber esta lacuna na sua missão, mas, por um destes truques de sofista em que era useiro e vezeiro, virou de bordo e proclamou o milagre uma inutilidade… Depois, triunfando exclama: “Não hão de ver milagres feitos por nós”, porque, se os fizéramos, o mundo os havia de atribuir ao diabo [5]!

E profecias? — Há uma que ocorre frequentemente nos escritos dos primeiros inovadores: a iminente ruína do Papado. Lutero gostava muito do verso Pestis eram vivens, moriens tua mors ero, papa, isto é, “Em vida eu era a tua peste, morrendo, serei a tua morte, ó Papa!” Inseriu-o numa carta em 1527; mais tarde, com um pedaço de giz, escreveu-o nas paredes do quarto onde, poucas horas depois, o salteou de improviso a morte. — Depois de quatro séculos podemos dizer que a esmagadora realidade histórica não abonou os títulos proféticos do vate saxônio.

Além dos prodígios físicos, que são extrínsecos ao taumaturgo, há outro milagre de ordem moral, que, por assim dizer, se consubstancia com a sua própria pessoa: é a santidade da vida. Um homem que pode atirar aos seus adversários a luva, dizendo-lhes: Quis ex vobis arguet me de peccato?, “Quem de vós me pode acusar de pecado?” (Jo 8, 46). Um homem, em cuja veracidade não pode caber a mínima suspeita de impostura, merece lhe prestemos fé. Nesta grandeza moral, superior à fragilidade humana temos uma fiança de que Deus está com ele. Salvas as proporções necessárias, o que se diz de Cristo vale de um puro homem que se apresenta na história com uma missão divina.

Ora, deram os primeiros reformadores este espectáculo edificante de santidade? Oh, se o protestantismo pudera passar uma esponja sobre as nódoas que enxovalham as origens vergonhosas! Mas a história não se apaga e a verdade beneficia sempre de suas lições indeléveis.

Pouco a pouco, a despeito de dificuldades inauditas, rasgou-se o véu que cobria ao mundo as torpezas e incoerências destas vidas vergonhosas e a posteridade pregou os patriarcas do protestantismo no pelourinho da ignomínia e da execração pública.

Não é meu intuito humilhar aqui os protestantes. Quisera tão somente iluminá-los. Verdades que amargam são muitas vezes verdades que salvam.

Lutero inaugura a sua missão com o gravíssimo pecado do sacrilégio e da apostasia. Jovem, era livre. Um dia, enamorado do ideal evangélico de perfeição, desejoso de seguir de perto a Cristo, estende espontaneamente a mão sobre o altar e pronuncia os votos religiosos de pobreza, obediência e castidade. Passam os anos. Raia o dia do seu sacerdócio. Ainda uma vez, quando o crisma sagrado lhe ungia as mãos, o neolevita renova a consagração do religioso. Mais tarde, que faz Lutero de todas estas promessas firmadas com a santidade inviolável do juramento? Quebra a fé empenhada, rasga os seus compromissos, atira o burel de religioso às urtigas e enxovalha a candura da estola sacerdotal no lodo de um casamento duplamente sacrílego!

O orgulho fizera o fedífrago, o orgulho cegou o doutor. Na sua autossuficiência dir-se-ia que esqueceu não só a humildade evangélica mas as reservas da modéstia mais elementar. Até ao aparecimento do seu Evangelho ninguém soubera quem era Cristo, que eram os sacramentos, que era a fé, quem era Deus e a sua Igreja [6]. Os Santos Padres, os Apóstolos, os Concílios, a Igreja toda errou! Sua doutrina é a única verdadeira. “Muito embora a Igreja, Agostinho e os outros doutores, Pedro e Apolo e até um anjo do céu ensinem o contrário, minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus e condena a justiça de todos os homens na sua sabedoria” [7]. Qualquer dos seus sequazes, as crianças que estudaram os seus ensinamentos, sabem mais em matéria de religião e de cristianismo que todos os religiosos e todas as escolas católicas. — Que demência de soberba!

Mais ao vivo ainda se revela o frenesi desta inteligência decaída, nestas palavras que não têm semelhantes nos fastos do despotismo e do orgulho humano:

Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu juízo é o juízo de Deus. [8]

Tenho certeza que meus dogmas vêm do céu… eles hão de prevalecer e o Papa há de cair a despeito de todas as portas de inferno, a despeito de todos os poderes dos ares, da terra e do mar. [9]

Não devemos ceder aos ímpios papistas… Nossa soberba contra o Papa é necessária… Não havemos de ceder nem a todos os anjos do céu, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a cem imperadores, nem a mil Papas, nem a todo o mundo… a ninguém, cedo nulli. [10]

Orgia de orgulho satânico ou caso de patologia mental?

Não é pois de maravilhar que este homem assim enfatuado de sua ciência, depois de haver negado a infalibilidade do Papa e proclamado a liberdade de exame para legitimar os próprios excessos, se tenha arvorado em cátedra inerrante de fé, constrangendo os seus sequazes a curvarem submissos a fronte ante os arestos inapeláveis de suas decisões infalíveis. Não houve tirania mais insuportável nem arrogância mais impetuosa que a deste pregador do livre exame.

Lutero pregando em Wartburgo, de Hugo Vogel.

Todos os seus correligionários gemem sob o peso de seu jugo de ferro. Müntzer dizia: “Há dois papas: o de Roma e Lutero, e este mais duro”. Ao seu confidente Bulinger escrevia Calvino: “Já não é possível suportar os arrebatamentos de Lutero: cega-o a tal extremo o amor próprio que não vê os próprios defeitos nem tolera que o contradigam”. Contra Carlostadt, seu antigo mestre, que em tirar as conclusões da nova doutrina foi além do que pretendia o reformador, obteve o decreto de expulsão da Saxônia e não o readmitiu senão com a promessa de “não defender em público, por palavra ou por escrito, suas opiniões contrárias à de Lutero” [11]. A Müntzer, por motivo análogo, cessou a liberdade de palavra, apesar do verbum Dei non est alligatum — “a Palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2, 9) — que ele tantas vezes invocara contra a Igreja Católica. Assim entendia Lutero o livre exame!

Ao ver esta prepotência com que o chefe da Reforma impunha despoticamente as suas opiniões, crê toda a gente sensata que nada mais firme, nada mais assentado e maduramente refletido que a nova doutrina. Erro. O inculcado emissário divino que modestamente se prefere a todos os doutores do céu e da terra, que blasona de inspirado do Espírito Santo, que recebeu “os seus dogmas do céu”, hesita, retrata-se, contradiz-se, assenta e destrói dogmas pelos motivos mais fúteis, muda de opinião como um ator de roupa.

Trata-se do batismo sob condição. A 12 de maio de 1531 escreve Lutero a Link: “Quanto ao batismo sob condição, depois de diligente ponderação definimos (!) que deve simplesmente eliminar-se da Igreja”. Poucas horas bastaram para mudar-lhe o cânon definido após “diligente ponderação”. No dia seguinte, novamente inspirado sem dúvida, escreve a Ossiandro: “Não posso condenar o batismo sob condição dado às crianças de cujo batismo se duvida” [12].

Em 1519 escreve: “Confesso plenamente o supremo poder da Igreja Romana; fora de Jesus Cristo, Senhor Nosso, nada no céu e na terra se lhe deve preferir” [13]. Esta Igreja “é a predileta de Deus; não pode haver razão alguma, por mais grave, que autorize a quem quer que seja a apartar-se dela e, com o cisma, separar-se da sua unidade” [14]. Em 1520 na sua Epístola luterana tece os mais rasgados encômios a Leão X, louva-lhe a vida intemerata, superior a qualquer ataque [15]. Nesse mesmo ano já Leão X é o Anticristo, e a Igreja romana “uma licenciosa espelunca de ladrões, o mais impudente dos lupanares, o reino do pecado, da morte e do inferno” [16].

Em 1519, dois anos depois de haver iniciado publicamente a pregação da Reforma, defendendo-se dos adversários, ensina o culto dos santos, a existência do purgatório, a oração pelos defuntos, a prática do jejum, etc [17]. Alguns anos depois rejeita tudo isto como idolatria, superstição e fanatismo.

Em 1541, jura por Cristo que, ao iniciar a sua pregação contra o dominicano Tetzel não sabia nem o que significava a palavra indulgência! [18] E pensar que as indulgências foram o primeiro cavalo de batalha contra Roma, o especioso pretexto com que o monge agostiniano saiu a público para divulgar os seus erros e pregar a revolta!

Quanto à origem e legitimidade de sua missão, em pouco mais de 15 anos, Lutero mudou pelo menos 14 vezes de parecer [19].

Outro retrato de Martinho Lutero, desta vez, por certo, na famosa disputa de Leipzig.

O oportunismo decidia da escolha. Uma opinião servia-lhe para combater os católicos, outra para defender-se dos colegas, uma terceira para pacificar os ânimos turbulentos nas comunidades recém-formadas. O guarda-roupa do ator era bem provido: havia trajes para todas as personagens e todos os papéis.

Não fôra difícil continuar esse elenco. Quase não há dogma importante sobre o qual Lutero não tivesse, em épocas diversas, sustentado o sim e o não.

Não são menos instrutivas para o conhecimento da psicologia do reformador as razões que o induziam a abraçar suas opiniões. Acerca da comunhão sob uma ou duas espécie ele na sua Fórmula da Missa: “Se um Concílio ordenasse ou permitisse as duas espécies, por despeito ao Concílio, nós só receberíamos uma, ou mesmo, nem uma nem outro e anatematizaríamos os que, em virtude desta ordenação, recebessem as duas” [20].

De outra feita, declara haver finalmente suprimido a elevação da hóstia por despeito ao Papado e de havê-la conservado por tanto tempo por despeito a Carlostadt [21]. Com igual baixeza escrevia em 1523:

Se acontecesse que um, dois, mil ou mais concílios decidissem que os eclesiásticos pudessem contrair matrimônio, preferiria, confiado na graça de Deus, perdoar a quem, por toda a vida, tivesse uma, duas ou três meretrizes, do que aquele que, consoante à decisão conciliar, tomasse mulher legítima e sem tal decisão não a pudesse tomar. [22]

É ainda a mesma disposição dum ânimo acirrado contra os odiados papistas que lhe ditava estas linhas: “Enquanto eles (os papistas), a seu juízo, triunfam de uma heresia minha, quero propor outra” [23].

Sinceramente, esta linguagem, estas incertezas e contradições doutrinais, esta frivolidade em construir e destruir dogmas, esta soberba luciferina dizem bem num enviado do céu para restaurar o cristianismo?

Até aqui não acenamos senão aos vícios que mancham a parte superior do homem. Mas por uma lei infatigável da divina Providência, a soberba do espírito é castigada com as rebeldias da carne. Desce abaixo do bruto quem se arvora em divindade.

Retrato de Catarina de Bora.

Lutero oferece à história mais um triste exemplo desta punição providencial. Em 1521, uns restos de educação católica ditavam-lhe estas palavras de uma carta a Espalatino: “Santo Deus! Os nossos Wittenberguenses quererão casar também os frades? A mim é que não hão de impingir mulher… Toma tento e não cases para não incorreres nas tribulações da carne” [24]. Com os anos, as novas doutrinas abriram brecha no seu propósito. Em 1525, estalou às súbitas no mundo reformado a inesperada notícia que Lutero, aos 41 anos, havia casado com Catarina de Bora, egressa cisterciense. Que acontecera? O reformador resolvera-se repentinamente ao casamento para fechar a boca às más línguas.

As más línguas, porém, não taramelavam sem motivo. Numa carta de 1525 endereçada a Ruhel, conselheiro de Mansfeld, dizia o heresiarca: “Se posso, a despeito do demônio (sic!) inda hei de casar com a minha Catarina, antes de morrer” [25]. Como quer que seja, a impressão causada nos contemporâneos e correligionários foi das mais desfavoráveis. Lutero percebeu-o. “Com este meu casamento tornei-me tão desprezível que os anjos se hão de rir e os demônios chorar. Só em mim escarnece o mundo a obra de Deus como ímpia e diabólica” [26].

Retrato de Felipe Melanchton.

Numa confidência a Camerário dizia Melanchton: “Lutero era um homem extremamente leviano e as freiras [por ele soltadas dos conventos] que lhe armavam laços com grande astúcia acabaram por envisgá-lo. O frequente comércio com elas teria talvez efeminado um homem mais forte e de mais nobres sentimentos e ateado o incêndio” [27]. Qual tenha sido o resto da vida do ex-frade circundado desse elemento feminino capaz, no dizer de Melanchton, de enervar constituições morais de mais robusta envergadura, é fácil imaginar e inconveniente dizer.

Raras vezes a vida licenciosa vai desacompanhada dos excessos intemperantes da mesa. Em Lutero, a febre de concupiscência carnal era estimulada pela embriaguez e pela crápula. À sua Catarina escrevia em 1540: “Vou comendo como um boêmio e bebendo como um alemão, louvado seja Deus!” [28] Em 25 de julho de 1534 de novo à Catarina:

Ontem aqui bebi mal e depois fui obrigado a cantar; bebi mal e sinto-o muito. Como quisera haver bebido bem ao pensar que bom vinho e que boa cerveja tenho em casa, e mais uma bela mulher… Bem farias em mandar-me daí toda a adega bem provida do meu vinho e, o mais frequentemente que puderes, um barril de tua cerveja. [29]

De Wartburgo (14 de maio de 1541) mandava dizer: Ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die — “Aqui passo todo o dia no ócio e na embriaguez” [30]. Na noite em que o reformador, em companhia de outros, chegou a Erfurt (19 de outubro de 1522) não se fez senão “beber e gritar, como de costume” [31], escreve Melanchton presente à cena.

O nobre motivo por que o reformador ia pedir ao aturdimento do vinho e da cerveja a distração e a paz que não encontrava na consciência, declara-o ele próprio numa carta consolatória a um amigo (6 de novembro de 1530). Jerônimo Weller era trabalhado de frequentes acessos de melancolia. Lutero, como bom diretor espiritual, manda-lhe esta receita anti-hipocondríaca:

Quando te vexar o diabo com estes pensamentos, palestra com os amigos, bebe mais largamente, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. De quando em quando se deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias… Quando te disser o diabo: não bebas, responde-lhe: por isso mesmo que me proíbes hei de beber e em nome de Jesus Cristo beberei mais copiosamente… Por que pensar que eu bebo, assim, com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade e banqueteio-me com mais frequência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar a mim?... Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo. [32]

E se bem o aconselhava, melhor o fazia. Era em comezainas pantagruélicas, entre o espumar dos vinhos generosos e os vapores das iguarias fumegantes que se reuniam os concílios dos novos reformadores e se decidiam as questões mais transcendentes do dogma e da moral evangélica.

Retrato de Martinho Lutero em seu leito mortuário.

Na manhã seguinte à da morte de Lutero encontraram-no por terra com o abdome intumescido pelo “demasiado comer e beber. O reformador tivera no dia precedente uma mesa ricamente preparada e abundância de vinhos doces e estrangeiros” [33].

Assim acabou como um gastrônomo e libertino vulgar o apóstata que se arvorara em reformador do cristianismo. “Na hierarquia dos anjos rebeldes, em que pese aos seus amigos, Lutero ocupa o degrau mais baixo, mais próximo do lodo e do pântano” [34].

E as sombras morais do homem projetam-se sobre toda a sua obra. Ante o espetáculo desta vida desregrada, temos o direito de pedir aos nossos adversários que nos demonstrem com razões peremptórias que este monge devasso, beberrão, grosseiro e insultador foi o eleito de Deus para reconduzir à sua pureza primitiva a Igreja de Santo Tomás e de São Bernardo, de São Gregório e de São Leão, de Santo Agostinho e de Santo Irineu.

Referências

  1. Certus sum dogmata mea habere de caelo, “Estou certo de ter recebido dos céus os meus dogmas”, Weimar, X, 2 Abt., p. 184.
  2. De Wette, II, 538; Weimar, XV, 240.
  3. Weimar, XVIII, 96-97.
  4. Weimar, XX, 724.
  5. Erl., XII, 218-21; XLVI, 205.
  6. Cf. Weimar, XXX, 3 Abteilung, 317.
  7. Weimar, XL, 1 Abt., 132.
  8. Weimar, X, 2 Abt., 107.
  9. Weimar, X, 2 Abt., 184.
  10. Weimar, XV, 1 Abt., 180-1.
  11. Weimar, XVIII, 86 sg.
  12. De Wette, IV, 254, 256.
  13. De Wette, I, 234.
  14. Weimar, II, 72.
  15. Cf. De Wette, I, 498.
  16. De Wette, I, 522, 500; Weimar, VII, 44.
  17. Weimar, II, 69ss.
  18. Erl., XXVI, 50ss. Aqui, porém, como tantas outras vezes, Lutero falta à verdade. Mas o caráter do homem revela-se do mesmo modo.
  19. Cf. Doellinger, Die Reformation, III, 205ss.
  20. Cf. Bossuet, Hist. des Variations, l. 2, n. 10.
  21. Erl., XXXII, 420, 422.
  22. Weimar, XII, 237.
  23. Weimar, VI, 501.
  24. De Wette, II, 40, 41.
  25. De Wette, II, 655.
  26. De Wette, III, 2, 3.
  27. Melanchton, Brief an Camerarius über Luthers Heirat von 16 Junii 1525, von P. A. Kirch, Mainz, 1900, p. 8, 11.
  28. Burkardt, Dr. M. Luth. Briefwechsel, Leipzig, 1866, p. 357. Cit., por H. Brück, Lehrbuch der Kirchengeschichte (4), Mainz 1888, p. 614.
  29. De Wette, IV, 553.
  30. De Wette, II, 6.
  31. Corpus reformatorum, I, 579.
  32. De Wette, IV, 188.
  33. Paulus, Luthers Lebensende und der Eislebener Apotheker Johann Landau, Mainz, 1896, p. 5.
  34. Th. Mainage, Témoignage des Apostats (2), Paris, Beauchesne, 1916, p. 76.

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Crescendo na fé com as encíclicas do Papa Pio XII
Doutrina

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

O Papa Pio XII escreveu de tudo; suas encíclicas podem ser lidas com grandes proveito espiritual; e nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido e meditado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2019
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Há 60 anos, mais exatamente no dia 9 de outubro de 1958, morria Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, que serviu a Igreja como Papa Pio XII, de 1939 a 1958. Embora haja muita agitação envolvendo Papas mais recentes (principalmente após o Vaticano II), as pessoas raramente se dão ao trabalho de aprender a respeito dos Papas anteriores ao Concílio.

A imagem de Pio XII já vem se desgastando há um bom tempo com alegações absurdas de cumplicidade com os nazistas — acusações que, mesmo havendo sido abundantemente refutadas, são sempre trazidas à tona de novo para encher novos bolsos jornalísticos. A verdadeira grandeza do homem e o enorme legado que ele deixou à Igreja, no entanto, raramente são objeto de consideração.

É surpreendente a facilidade com que os católicos somos capazes de esquecer os grandes documentos de um Pontífice falecido, como se o seguinte ofuscasse ou até mesmo fizesse calar a obra de seu predecessor. Nossa visão do desenvolvimento da doutrina cristã deve ser não hegeliana (na qual um estágio posterior confronta e suplanta um anterior, só para ser ele mesmo subsumido em uma nova e inesperada síntese), mas newmaniana [1] (na qual tudo o que é importante e veio antes é cultivado e carregado ao longo do tempo, a fim de formar a base do pensamento e da ação subsequentes).

O Papa Pio XII é um exemplo disso. Ele era intelectualmente ousado, estava pronto para lidar com qualquer assunto, dialogava com o pensamento moderno e sempre estava à procura de novas formas para explicar as antigas verdades da fé. Mas ele também era fiel à herança de Leão XIII, Pio X, Bento XV e Pio XI, Papas que sempre estavam em suas referências e dos quais ele se servia como um compositor que escreve um tema com variações.

Summi Pontificatus, de 1939, foi a encíclica inaugural de Pio XII. Com a paz precária que vivia a Europa sendo aniquilada pela blitzkrieg nazista, o Papa apresenta a visão católica dos princípios que mantêm os homens e as nações em unidade e implora ao mundo que retorne à sã doutrina da Igreja sobre as realidades políticas. Ainda que Pio XII voltasse a tratar de questões sociais em muitos documentos ao longo dos quase 20 anos subsequentes, ele não mais escreveu uma encíclica social e, até hoje, a própria Summi Pontificatus é raramente classificada assim, por não conformar-se ao padrão da encíclica Rerum Novarum.

Seu esquecimento é muito de se lamentar, no entanto, pois em muitos de seus parágrafos a Summi Pontificatus articula princípios sociais básicos em linguagem particularmente vigorosa. O Papa enfatiza que a tendência moderna ao estatismo (a “onicompetência” do Estado secular) é um erro pernicioso a se combater, e que o conceito cristão de um Estado fundado nos preceitos da lei natural exige que se dê suporte ao desenvolvimento da excelência moral e religiosa dos seus cidadãos.

Duas encíclicas inovadoras emergiram em 1943: Mystici Corporis Christi e Divino Afflante Spiritu.

Sua Santidade, o Papa Pio XII.

Dos documentos papais dedicados à eclesiologia (o estudo da Igreja enquanto tal), a Mystici Corporis Christi é seguramente o mais importante e deveria ser de leitura obrigatória para todos os católicos. Por que a Escritura chama a Igreja de “corpo” e, em particular, de corpo de Cristo? Qual a diferença entre um corpo físico, um corpo moral e um corpo místico? Como a Igreja foi gerada ao longo do tempo, e como Cristo quis “precisar” de nós, seus membros? Em que consiste nossa união com Cristo, e a união dos outros com Ele? Por que nós devemos amar a Igreja, e qual a melhor forma de fazê-lo? É com essas questões que lida essa meditação cheia de beleza e rica de doutrina.

Divino Afflante Spiritu é normalmente exaltada como uma encíclica que provocou uma “revolução copernicana” na exegese católica, a qual teria abandonado o “literalismo ingênuo” de Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus. Mas esse é apenas (mais) um exemplo daquela interpretação tendenciosa dos documentos da Igreja que se tornou como que a marca registrada dos apparatchiks universitários. Na realidade, uma leitura imparcial mostra que Pio XII queria harmonizar as legítimas descobertas da ciência exegética moderna com as verdades inegociáveis da fé, tais como a inspiração divina e a inerrância de qualquer declaração autoral na Sagrada Escritura. Nesse sentido, o que ele fez foi menos modificar do que aumentar e refinar o pensamento de Leão XIII, lançando as bases para a Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

Célebres, e com razão, são as encíclicas Mediator Dei, de 1947, e Humani Generis, de 1950. Em ambas Pio XII se opôs firmemente às tendências na Igreja que eram, e ainda são, nocivas à saúde do culto e da teologia católicas (já que as duas são inseparáveis).

A Mediator Dei contém um ensinamento positivo substancial sobre a natureza, o propósito e a simbologia eficaz da sagrada liturgia. Quando eu li pela primeira vez essa encíclica, anos atrás, fiquei assombrado com minha profunda ignorância do que acontecia na igreja todos os domingos. Desde então, cresceu em mim a certeza de que a pior aflição que assalta a Igreja pós-conciliar é o esquecimento do que seja o santo Sacrifício da Missa e, em particular, como ele envolve a mim, aqui e agora. Além disso, essa encíclica nos previne contra as próprias tendências litúrgicas que se tornariam dominantes em nossa época, como o antiquarianismo.

O dogma do 4.º Concílio Ecumênico, o de Calcedônia, que proclamou as naturezas divina e humana em Cristo como sendo distintas sem separação e unidas sem confusão, é o objeto da majestosa encíclica Sempiternus Rex Christus, de 1951, escrita por ocasião do 1.500º aniversário daquele Concílio; as encíclicas Evangelii Praecones, de 1951, e Fidei Donum, de 1957, falam da promoção das missões católicas ao redor do mundo, as quais estavam florescendo durante seu pontificado; a encíclica Sacra Virginitas, de 1954, exalta a virgindade consagrada; a encíclica Musicae Sacrae, de 1955, defende a música sacra tradicional e critica a música religiosa secularizada (o que faz desse documento ainda mais relevante hoje do que era 63 anos atrás); a encíclica Haurietis Aquas, de 1956, trata da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com grande intensidade e pureza de fé; a encíclica Miranda Prorsus, de 1957, advertia os católicos de então, hipnotizados que estavam pelo cinema, pela rádio e pela televisão, a tomarem o cuidado de não entregar suas almas à indústria do entretenimento.

Cada uma das encíclicas acima pode ser lida com grande proveito espiritual, estejamos nós sozinhos na tranquilidade de nosso quarto ou reunidos em um grupo de oração e de estudos. E nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido.

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Nove encíclicas que você precisa ler do Papa Pio XI
Doutrina

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Pio XI. Para beber hoje de sua sabedoria, nada é tão importante quanto revisitar o seu magistério como Papa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Fevereiro de 2019
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O último dia 10 de fevereiro marca o 80.º aniversário da morte do Papa Pio XI, que reinou no trono de Pedro de 1922 a 1939. Em um mundo de produção textual instantânea e incessante, talvez não deveríamos surpreender-nos com o fato de alguém que começou seu pontificado há quase um século ser esquecido em grande parte.

Mas Pio XI merece ser mais bem conhecido e mais afetuosamente amado por suas encíclicas esplêndidas, cheias de amor, clareza e coragem. De fato, esses documentos são uma fonte preciosa, não só para o tenso período entre guerras durante o qual esse Papa foi chamado a servir à Igreja de Cristo, mas para todas as épocas.

Achille Ratti veio de uma família humilde, teve a carreira tranquila de um acadêmico com doutorado em Teologia e serviu à Igreja como prefeito da Biblioteca Vaticana. Seus êxitos subsequentes como núncio na Polônia e como arcebispo de Milão fizeram dele uma boa opção para o trono de São Pedro após a morte de Bento XV.

Não demorou muito para que a Igreja e o mundo notassem a fibra de que era feito o novo Pontífice. Sua encíclica inaugural, Ubi Arcano Dei Consilio, de 1922, descrevia a situação do mundo após a Primeira Guerra Mundial com uma argúcia espiritual de que nenhum historiador secular era capaz, e propunha, como única solução cogente que se adotasse de maneira séria a doutrina social católica.

Essa insistência em implementar o magistério social da Igreja — um esforço em articular uma alternativa genuinamente católica ao socialismo crescente, ao fascismo efervescente e ao capitalismo selvagem — ocuparia Pio XI em muitas de suas mais de 30 encíclicas. O velho adágio “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas” parece especialmente pertinente às encíclicas de Pio XI. Hoje, os fiéis enfrentam os mesmos desafios sobre os quais ele escreveu, ainda que a “clave” ou o “andamento” da música tenha mudado.

A próxima encíclica na ordem, e de enorme significado para o magistério da Igreja, foi a amplamente debatida Quadragesimo Anno, promulgada em 1931 por ocasião dos 40 anos da Rerum Novarum de Leão XIII. De todas as encíclicas sociais desde Leão XIII até João Paulo II, nenhuma é tão forte, incisiva e completa quanto esta, com sua análise dos fundos internacionais e das correntes de exploração que dão forma aos mercados econômicos. Já é passada a hora de resgatarmos o patrimônio de nossa fé, retomando as mais ricas fontes da sabedoria social da Igreja, entre as quais merece ser contada indubitavelmente essa encíclica.

O Papa Pio XI.

Característica fundamental do ensinamento de Pio XI foi, também, o reinado de Jesus Cristo sobre todos os homens, sociedades, nações e instituições. Essa visão do primado e do domínio absoluto de Cristo motivava seus pensamentos, desejos, intervenções e conselhos. E é essa visão que permanece altamente relevante para nós. A Igreja Católica só florirá neste período de “pós-modernidade” à medida que conhecer e viver os ensinamentos que o Papa Pio XI tão corajosamente proclamou em sua encíclica Quas Primas, de 1925, uma das mais importantes cartas papais do século XX. Por meio desse documento, Pio XI estabeleceu uma nova festa, em honra a Cristo Rei — uma festa que se tornou familiar aos católicos em todo o mundo, ainda que sua intenção original tenha sido de alguma forma obnubilada pelas mudanças litúrgicas subsequentes.

A clássica encíclica Casti Connubii, de 1930, com sua visão nobre e realista do Matrimônio, é a melhor abordagem jamais promulgada por um Papa ao entendimento católico sobre esse sacramento. Nós corremos o sério risco de interpretar mal o ensinamento seguinte de João Paulo II sobre o casamento se não procurarmos lê-lo à luz da Casti Connubii e em continuidade com ela. Não há melhor encíclica para preparar os noivos católicos ao Matrimônio.

Foi também esse Papa que nos brindou com a Magna Charta da educação cristã da infância e da juventude: a encíclica Divini Illius Magistri, de 1929. Os pais que educam seus filhos em casa notarão com alegria que Pio XI defende essa situação como a norma e o padrão dados por Deus, ao passo que a educação em escolas é a exceção moderna, carregada de perigos para a formação moral e religiosa das crianças.

Isso, evidentemente, não impede o Papa de explicar os princípios que todos os educadores, seja dentro da família, seja numa profissão, devem observar na educação de discípulos cristãos. Essa encíclica tem uma importância particular para os dias de hoje, quando muitos dos males deplorados por Pio XI, como a educação sexual, se tornaram “rotina”. Muito do que ele tem a dizer, também, sobre pedagogia efetiva e a hierarquia dos sujeitos permanece válido e aplicável.

As duas encíclicas de 1937 sobre as aberrações soviética e nazista — Divini Redemptoris e Mit Brennender Sorge — transportam poderosamente o leitor para as eras sangrentas às quais elas foram dirigidas. Apesar de seus aspectos específicos para aquele tempo, há uma filosofia política católica articulada nessas encíclicas que permanece verdadeira para nossa época, bem como um crítica potente de erros que, mesmo tendo sido continuamente refutados pelos fatos, de alguma forma nunca pararam de surgir nas sociedades, seja nas afluentes e ociosas, seja nas pobres e desesperadas.

Na encíclica Ad Catholici Sacerdotii, de 1935, o Papa Pio XI abre o coração a todos os padres do mundo e a todos os que se tornarão sacerdotes. Esse documento é um dos tratados mais apaixonados, eloquentes e equilibrados jamais escritos a respeito da natureza, dos privilégios e das exigências do sacerdócio católico. Por essa razão, sua leitura deveria ser exigida de todos os seminaristas. Pio XI ao mesmo tempo canta elevados elogios a essa magnífica vocação e aponta para suas exigências irrenunciáveis. A impressão que fica, na mente de quem lê a encíclica, é que o estado de vida sacerdotal, assim como o chamado a vivê-la, é um dom sublime e gratuito do Pai das luzes — chamado que mais pessoas deveriam escutar e estado ao qual mais pessoas deveriam aspirar. Eu acredito, na verdade, que a simples leitura dessa encíclica faria aumentar o número de vocações ao sacerdócio.

Eu mencionaria por último a fascinante encíclica sobre o cinema, Vigilanti Cura, de 1936, escrita numa época em que essa forma de entretenimento estava atingindo seu ápice. Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Achille Ratti. Aqui ele lamenta a iniciação à luxúria promovida por muitos filmes e oferece orientações rigorosas para a censura exercida pelos bispos e associações de fiéis leigos, baseada em princípios precisos, sensíveis à arte e moralmente saudáveis. Por isso, se nós pudermos retornar, de uma forma ou de outra, à sanidade singela e cândida de Vigilanti Cura, nós teremos dado um grande passo rumo à santidade.

O ocaso da vida do Papa Pio XI coincidiu com as trevas espessas que fariam irromper a Segunda Guerra Mundial. Em seu leito de morte, Pio XI ofereceu sua vida pela paz no mundo. Suas encíclicas colocam-nos em contato com um Papa de catolicismo inflexível que, justamente por se preocupar genuinamente com seu povo, não permitia que ele errasse por caminhos falsos, mas, ao contrário, apontava repetidamente para o caminho da vida traçado pela experiência e pela tradição católicas. De nossa parte, faríamos muito bem se bebêssemos de sua sabedoria, não nos deixando desviar por “lobos em pele de cordeiro” e evitando os falsos caminhos que o nosso mundo apresenta como os “expedientes inevitáveis” de uma sociedade pós-moderna.

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Discernir a própria vocação ou “fazer o que der na telha”?
Espiritualidade

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Não se resolve o problema da vocação com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para mim, eu preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Fevereiro de 2019
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Há alguns anos nós publicamos aqui uma matéria a respeito do chamado “discernimento vocacional perpétuo”. O texto e a expressão não eram de autoria nossa; pegamo-los emprestados de Michael W. Hannon, que escreve no site norte-americano First Things. Por muito tempo republicamos esta tradução em nossas redes sociais, mas, reavaliando melhor as ideias apresentadas pelo autor, decidimos despublicá-la e, agora, até para a edificação dos que nos lêem, queremos apresentar o porquê dessa atitude.

Expliquemos, em primeiro lugar, o porquê de havermos escolhido esse texto para publicação: a sua crítica é importante para levantar da inércia os homens e mulheres de nossa época, que ficam indefinidamente pensando no que querem ou no que vão fazer de sua vida, sem no entanto tomar uma atitude ou assumir responsabilidades de gente adulta. É essa inércia e indecisão — conectadas a uma espécie de “discernimento vocacional perpétuo” — que fazem nossos jovens trocarem de curso universitário como quem troca de roupa e viverem com os próprios pais até os 30 e 40 anos, quando em outros tempos eles já teriam constituído uma família ou entrado em uma congregação religiosa.

A solução apresentada por Michael Hannon, no entanto, ao mesmo tempo que procura condenar esse extremo de indecisão e imobilidade, pode facilmente levar à precipitação e a uma visão distorcida de “vocação”. No período talvez mais forte do texto, ele chega a dizer que “não necessariamente Deus nos diz o que fazer a respeito das grandes decisões da vida, incluindo a escolha entre a vida religiosa e a vida secular (sic). Ele nos abençoa com algumas opções boas e virtuosas e, então, deixa a decisão para nós”.

Alto lá…! Se por “deixar a decisão para nós” se entende que Deus não viola o nosso livre-arbítrio, não nos obrigando a seguir este ou aquele caminho, sim, está certo. Mas se por isso se entende que Ele não nos indica e não nos inspira com sua graça este ou aquele caminho, então, está errado. A palavra “vocação”, afinal de contas, significa “chamado”. Se é um chamado, há alguém que chama. (Se é um chamado à vida religiosa ainda por cima, ou à vida matrimonial, caminhos de santidade, é Alguém, com “a” maiúsculo, que chama.) Se Deus nos chama, de nossa parte o que precisamos fazer é escutar. Daí a necessidade de discernirmos, sim, nossa vocação pessoal, para além da vocação geral que, é óbvio, todos os batizados têm à santidade.

Também nessa questão há uma confusão séria presente no texto de Michael Hannon. À pergunta: “Se um cristão não deve presumir que Deus irá querer revelar-lhe sobrenaturalmente a sua ‘vocação pessoal’, como então ele deve conhecer a vontade de Deus para a sua vida?”, o autor diz o seguinte:

Eu me arriscaria a dizer que, se ele tem frequentado a igreja semanalmente e recebeu pelo menos uma catequese razoável ao longo do caminho, ele provavelmente já conhece a vontade de Deus para a sua vida. Cristo a resume sucintamente nos Dez Mandamentos, e ainda mais sucintamente em Mt 22, 34-40: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” e “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Nisso, bem como nos mandamentos da Igreja, consiste toda a instrução de que precisamos para alcançarmos a nossa felicidade e chegarmos à salvação eterna.

Sim, é verdade que a vontade de Deus a respeito da humanidade foi revelada de modo definitivo em Nosso Senhor Jesus Cristo, de modo que — como diz uma célebre passagem de S. João da Cruz, presente inclusive no novo Catecismo da Igreja Católica —, “se [...] alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma” (§ 65). Mas isso não significa que não devamos pedir a Deus que nos mostre, na oração (e sem prescindir da humanidade santíssima de Nosso Senhor!), aquilo que Ele tem reservado de modo particular para a nossa vida.

Convém aqui não misturarmos um capítulo importante de Teologia Dogmática com outro capítulo, igualmente necessário, de Teologia Mística. A frase de São João da Cruz, acima, é substancialmente diferente da do monge ucraniano citado por Hannon em seu texto: este, perguntado por um repórter se Deus falava com ele na oração, respondeu: “Ele não fala comigo, porque ele já falou tudo por meio do Evangelho e por meio das obras dos Santos Padres, dos santos”. É óbvio que, se pelo verbo falar se entende o modo como os seres humanos costumam se comunicar, falando com a boca e ouvindo com os ouvidos, Deus não fala com as pessoas a não ser de modo extraordinário.

Mas uma mínima experiência de vida de oração, uma leitura breve de um bom tratado de teologia mística, são suficientes para nos mostrar que Deus fala, sim, conosco, comunicando-nos as suas graças, movendo-nos com o seu Espírito e dizendo, sim, o que devemos ou não fazer, não só em matéria de “vocação pessoal”, mas principalmente nesses casos. Para dispensar longas citações, limitemo-nos a Santo Tomás de Aquino comentando o versículo “Porque os que são movidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8, 14): “Esses são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” (Sup. Rom., c. VIII, l. 3).

— Ah, mas ele era “Santo” Tomás de Aquino… Deus falava interiormente com os santos mesmo… Por que eu deveria supor que Ele falaria comigo? Não seria presunção? — Absolutamente, não. Vejamos o que diz a esse respeito, por exemplo, o padre Antonio Royo Marín (Teología de la Perfección Cristiana, n. 638):

Consideremos com frequência que o Espírito Santo habita dentro de nós mesmos. Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida.

O problema do “discernimento vocacional perpétuo” não se resolve, portanto, com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se existe uma vocação de Deus para nós, precisamos descobri-la no silêncio da oração e através de “uma vida cristã seriamente vivida”. Como diz o Papa Bento XVI, em uma citação feita pelo próprio Michael Hannon ao fim de seu texto: “Ao ouvir a Deus e caminhar com Ele eu me torno realmente eu mesmo. O que importa não é a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida se torna autêntica.”

Existe ainda, é claro, toda uma reflexão teológica sobre a docilidade que devemos ter ao Espírito Santo, assim que tomamos conhecimento da vontade de Deus a nosso respeito. Dela, no entanto, esperamos falar oportunamente noutra ocasião. Por ora, simplesmente procuremos nos libertar dessas ideias errôneas a respeito de vocação e vida de oração. Não tratemos a Deus como um “desconhecido” que falou no passado e agora nos abandonou à nossa própria sorte. Não, a oração cristã é uma via de mão dupla, na qual nós falamos com Deus e Ele responde sim às nossas petições, conforme promessa do próprio Cristo: “Pedi e vos será dado. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem procura, acha. A quem bate, será aberto.” (Mt 7, 7-8)

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Aborto e contracepção, dois “frutos da mesma planta”
Pró-Vida

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

“A cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção.”

Papa São João Paulo II6 de Fevereiro de 2019
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Publicamos abaixo trecho da encíclica Evangelium Vitae, de São João Paulo II, na qual ele afirma, com muita razão, que o aborto e a contracepção são “frutos da mesma planta”.

A lição é importante porque, quando as pessoas pensam no problema do aborto, a solução imediata que muitas vezes lhes vem à mente é justamente ensinar aos jovens como “prevenir” a gravidez, colocando nas suas mãos todos os métodos contraceptivos à disposição no mercado.

Mas, se queremos educar as futuras gerações para o respeito ao outro e para a maturidade, será esse mesmo o caminho que devemos trilhar? Ou não precisaríamos, antes, de uma verdadeira mudança de mentalidade, que começasse dentro de nossas próprias famílias?


Para facilitar a difusão do aborto, foram investidas — e continuam a sê-lo — somas enormes, destinadas à criação de fármacos que tornem possível a morte do feto no ventre materno, sem necessidade de recorrer à ajuda do médico. A própria investigação científica, neste âmbito, parece quase exclusivamente preocupada em obter produtos cada vez mais simples e eficazes contra a vida e, ao mesmo tempo, capazes de subtrair o aborto a qualquer forma de controle e responsabilidade social.

Afirma-se frequentemente que a contracepção, tornada segura e acessível a todos, é o remédio mais eficaz contra o aborto. E depois acusa-se a Igreja Católica de, na realidade, favorecer o aborto, porque continua obstinadamente a ensinar a ilicitude moral da contracepção.

Bem vista, porém, a objeção é falaciosa. De fato, pode acontecer que muitos recorram aos contraceptivos com a intenção também de evitar depois a tentação do aborto. Mas os pseudovalores inerentes à “mentalidade contraceptiva” — muito diversa do exercício responsável da paternidade e maternidade, atuada no respeito pela verdade plena do ato conjugal — são tais que tornam ainda mais forte essa tentação, na eventualidade de ser concebida uma vida não desejada.

De fato, a cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. Certo é que a contracepção e o aborto são males especificamente diversos do ponto de vista moral: uma contradiz a verdade integral do ato sexual enquanto expressão própria do amor conjugal, o outro destrói a vida de um ser humano; a primeira opõe-se à virtude da castidade matrimonial, o segundo opõe-se à virtude da justiça e viola diretamente o preceito divino “não matarás”.

Mas, apesar de terem natureza e peso moral diversos, eles surgem, com muita frequência, intimamente relacionados como frutos da mesma planta. É verdade que não faltam casos onde, à contracepção e ao próprio aborto se vem juntar a pressão de diversas dificuldades existenciais que, no entanto, não podem nunca exonerar do esforço de observar plenamente a lei de Deus. Mas, em muitíssimos outros casos, tais práticas afundam as suas raízes numa mentalidade hedonista e desresponsabilizadora da sexualidade, e supõem um conceito egoísta da liberdade que vê na procriação um obstáculo ao desenvolvimento da própria personalidade. A vida que poderia nascer do encontro sexual torna-se assim o inimigo que se há de evitar absolutamente, e o aborto a única solução possível diante de uma contracepção falhada.

Infelizmente, emerge cada vez mais a estreita conexão que existe, a nível de mentalidade, entre as práticas da contracepção e do aborto, como o demonstra, de modo alarmante, a produção de fármacos, dispositivos intrauterinos e preservativos, os quais, distribuídos com a mesma facilidade dos contraceptivos, atuam na prática como abortivos nos primeiros dias de desenvolvimento da vida do novo ser humano.

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Ela perdoou o assassino do próprio filho e...
Espiritualidade

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

...como recompensa, viu a alma dele ser libertada do Purgatório. “Querida mãe, porque mostraste misericórdia para com meu assassino”, disse-lhe em aparição o filho, “Deus mostrou misericórdia para comigo.”

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2019
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A caridade cristã, aquela misericórdia que Jesus Cristo tanto recomenda no Evangelho, compreende não apenas a assistência corporal dada aos necessitados, mas todo o bem que fazemos ao nosso próximo trabalhando para sua salvação, suportando-lhe os defeitos e perdoando-lhe as ofensas. Todas essas obras de caridade podem ser oferecidas a Deus pelos fiéis defuntos e possuem grande valor satisfatório.

São Francisco de Sales conta que, na cidade de Pádua, onde ele cumpriu parte de seus estudos, havia um costume detestável: os jovens se divertiam passeando pelas ruas à noite, armados com arcabuzes e gritando a todos os que encontravam: “Quem está aí?As pessoas eram obrigadas a responder, sob pena de levarem um tiro. Com isso, muitos eram feridos e até mesmo assassinados.

Aconteceu uma noite de um estudante, não tendo respondido à pergunta, ser acertado na cabeça por uma bala e ficar mortalmente ferido. O autor deste crime fugiu aterrorizado e procurou refúgio na casa de uma boa viúva que ele conhecia e cujo filho era seu companheiro de turma. Ele confessou a ela aos prantos que havia acabado de matar um desconhecido e implorou que lhe desse um abrigo em sua casa. Tomada de compaixão e não suspeitando ter diante de si ninguém menos que o assassino de seu filho, a senhora escondeu o fugitivo em um lugar seguro, onde os oficiais de justiça não seriam capazes de encontrá-lo.

Nem meia-hora havia transcorrido quando um tumulto se ouviu à sua porta. Um cadáver foi carregado e colocado diante dos olhos da viúva. Infelizmente, era seu filho que havia sido morto, e o assassino dele encontrava-se escondido em sua casa. A pobre mãe irrompeu em gritos de dilacerar o coração e, chegando ao esconderijo do assassino, disse-lhe: “Homem miserável! Que te fez o meu filho para que tu o assassinasses assim, de maneira tão cruel?”

O pobre desgraçado, descobrindo que havia matado seu amigo, começou a chorar em alta voz, arrancar os cabelos e apertar as mãos em sinal de desespero. Prostrando-se no chão, ele implorou o perdão de sua protetora e suplicou-lhe que o entregasse ao magistrado, a fim de expiar o crime tão terrível que havia cometido.

A mãe inconsolável lembrou-se naquele momento que era uma cristã e o exemplo de Jesus Cristo, rezando por seus algozes, deu-lhe impulso para realizar um ato heroico. Ela disse que, desde que ele pedisse perdão a Deus e emendasse de vida, ela o perdoaria e retiraria qualquer acusação contra ele.

Esse perdão foi tão agradável a Deus que Ele quis dar à generosa mãe uma prova impressionante disso, permitindo que a alma de seu filho lhe aparecesse, resplendente de glória e dizendo que ele estava prestes a gozar da bem-aventurança eterna. “Deus mostrou misericórdia para comigo, querida mãe”, disse aquela alma bendita, “porque tu mostraste misericórdia para com meu assassino. Por causa do perdão que tu lhe concedeste, eu fui libertado do Purgatório, onde, não fosse a assistência que tu me prestaste, eu teria de passar por longos anos de intenso sofrimento.”

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