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Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?
História da Igreja

Com que direito Lutero
pretendia “reformar” a Igreja?

Com que direito Lutero
pretendia “reformar” a Igreja?

Lutero negou a autoridade, negou a Tradição, negou o Magistério, negou a Igreja orgânica, visível e hierárquica. Mas com que direito? Quais as credenciais desta sua embaixada extraordinária?

Pe. Leonel Franca31 de Outubro de 2017
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Lutero começou por negar. Negou a autoridade, negou a tradição, negou o magistério eclesiástico, negou a Igreja orgânica, visível, hierárquica. Com que direito? Com que títulos? Não existia havia 15 séculos o cristianismo? Não ascendiam os seus pastores, os seus bispos, os seus papas, por uma sucessão ininterrupta até aos apóstolos, até ao próprio Cristo?

— Mas a Igreja Católica havia perdido o espírito primitivo, havia adulterado os ensinamentos do Evangelho, havia-o sobrecarregado com uma farragem de superstições humanas, havia-o prostituído com a idolatria de Babilônia.

— E como o sabe ele? Como o prova? Não havia Cristo prometido a sua assistência infalível à Igreja? Não lhe havia assegurado que com ela estaria todos os dias até à consumação dos séculos?

Não importa. Lutero entrincheira-se na Bíblia. — Mas a Bíblia, quem a interpreta? Não a possuía, não a possui porventura a Igreja Católica? Não a liam todos os Santos Padres e Doutores? Não a conheciam todos os concílios? Não a vulgarizavam todos os santos reformadores? E por que a nenhum ocorreu a ideia de começar uma reforma destruindo a Igreja em nome da Escritura, de embandeirar a Bíblia em pendão de revolta contra a autoridade constituída por Cristo?

Lutero, porém, possui um segredo especial de exegese desconhecido de toda a antiguidade eclesiástica. Ele, o frade despeitado, guinda-se às alturas proféticas de novo evangelista, recebe diretamente ilustrações do Espírito Santo, comunica com o santuário da Trindade [1] e dos seus recessos inacessíveis traz ao mundo o dom de uma hermenêutica sacra, de cujo bojo sai um cristianismo todo novo.

Destarte, de consequência em consequência, Frei Martinho é obrigado a arvorar-se uma missão divina, a atribuir-se uma legação religiosa especial.

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

Ora, onde estão as credenciais desta embaixada extraordinária? Nenhum homem pode levantar-se no meio dos seus semelhantes e afirmar, sem provas cabais, que é um enviado do Altíssimo. Nenhum homem pode guindar-se à trípode dos oráculos e daí legislar religião para a humanidade sem antes demonstrar apoditicamente a autenticidade de sua missão plenipotenciária. Religião, só Deus a pode impor ao homem. Falar à consciência religiosa, ensinando verdades a crer e preceitos a praticar, sem títulos divinos, sem autorização divina, sem sanção divina, é embuste, é impostura, é charlatanismo. Nossa dignidade de seres racionais revolta-se contra semelhantes exploradores da credulidade pública. — Profeta de Wittenberg, onde estão as cartas de crença de tua missão divina?

A garantia que temos da origem celeste de uma doutrina reside na autoridade recebida do alto por aquele que no-la propõe.

Ora os sinais com que Deus chancela a autoridade dos seus enviados são os milagres: milagres que se manifestam na ordem física, milagres que resplendem na santidade irrepreensível do divino enviado. Só o milagre, intervenção extraordinária da divina onipotência, pode autenticar as missões do céu.

Com milagres provou Jesus a sua messianidade (cf. Jo 5, 36; 10, 37-38; 15, 22; Mt 12, 39-40); com milagres sigilou Deus a embaixada dos seus apóstolos (cf. 2Pd 1, 18; 2Cor 12, 12; Mc 16, 20); no milagre reconheceu sempre a apologética cristã, firmada nos princípios da razão e nos ensinamentos dos livros inspirados, a assinatura inimitável do divino Autor nas suas manifestações extraordinárias à humanidade.

O próprio Lutero reconheceu a necessidade desta autenticação celeste. Querendo impedir a pregação de Tomás Müntzer em Mulhouse, escreve em 1524 aos magistrados desta cidade que, se o turbulento inovador não puder provar com obras extraordinárias a sua missão, não o recebam. “Se ele disser que Deus e o seu espírito o enviam como aos apóstolos, que o prove com prodígios e milagres; do contrário, proibi-lhe a pregação” [2].

Quando Carlostadt, apelando para ilustrações divinas, o contradisse, Lutero intimou-o a demonstrar com milagres a sua vocação: “É necessário que Deus manifeste com obras milagrosas que revoga os seus antigos preceitos” [3]. E alhures:

Quem quer pôr em campo alguma novidade ou ensinar doutrinas diversas deve ser chamado por Deus e comprovar a sua vocação com verdadeiras ações prodigiosas. Quem não a puder demonstrar deste modo, abra mão da empresa et in malam rem abeat. [4]

Julgando-o por esta craveira, que milagres fez Lutero? Que milagres fizeram os primeiros reformadores para atestar o caráter divino de sua missão? De todos os protestantes escreveu, gracejando, Erasmo, que até então não haviam endireitado a perna a um cavalo coxo. Lutero acabou por perceber esta lacuna na sua missão, mas, por um destes truques de sofista em que era useiro e vezeiro, virou de bordo e proclamou o milagre uma inutilidade… Depois, triunfando exclama: “Não hão de ver milagres feitos por nós”, porque, se os fizéramos, o mundo os havia de atribuir ao diabo [5]!

E profecias? — Há uma que ocorre frequentemente nos escritos dos primeiros inovadores: a iminente ruína do Papado. Lutero gostava muito do verso Pestis eram vivens, moriens tua mors ero, papa, isto é, “Em vida eu era a tua peste, morrendo, serei a tua morte, ó Papa!” Inseriu-o numa carta em 1527; mais tarde, com um pedaço de giz, escreveu-o nas paredes do quarto onde, poucas horas depois, o salteou de improviso a morte. — Depois de quatro séculos podemos dizer que a esmagadora realidade histórica não abonou os títulos proféticos do vate saxônio.

Além dos prodígios físicos, que são extrínsecos ao taumaturgo, há outro milagre de ordem moral, que, por assim dizer, se consubstancia com a sua própria pessoa: é a santidade da vida. Um homem que pode atirar aos seus adversários a luva, dizendo-lhes: Quis ex vobis arguet me de peccato?, “Quem de vós me pode acusar de pecado?” (Jo 8, 46). Um homem, em cuja veracidade não pode caber a mínima suspeita de impostura, merece lhe prestemos fé. Nesta grandeza moral, superior à fragilidade humana temos uma fiança de que Deus está com ele. Salvas as proporções necessárias, o que se diz de Cristo vale de um puro homem que se apresenta na história com uma missão divina.

Ora, deram os primeiros reformadores este espectáculo edificante de santidade? Oh, se o protestantismo pudera passar uma esponja sobre as nódoas que enxovalham as origens vergonhosas! Mas a história não se apaga e a verdade beneficia sempre de suas lições indeléveis.

Pouco a pouco, a despeito de dificuldades inauditas, rasgou-se o véu que cobria ao mundo as torpezas e incoerências destas vidas vergonhosas e a posteridade pregou os patriarcas do protestantismo no pelourinho da ignomínia e da execração pública.

Não é meu intuito humilhar aqui os protestantes. Quisera tão somente iluminá-los. Verdades que amargam são muitas vezes verdades que salvam.

Lutero inaugura a sua missão com o gravíssimo pecado do sacrilégio e da apostasia. Jovem, era livre. Um dia, enamorado do ideal evangélico de perfeição, desejoso de seguir de perto a Cristo, estende espontaneamente a mão sobre o altar e pronuncia os votos religiosos de pobreza, obediência e castidade. Passam os anos. Raia o dia do seu sacerdócio. Ainda uma vez, quando o crisma sagrado lhe ungia as mãos, o neolevita renova a consagração do religioso. Mais tarde, que faz Lutero de todas estas promessas firmadas com a santidade inviolável do juramento? Quebra a fé empenhada, rasga os seus compromissos, atira o burel de religioso às urtigas e enxovalha a candura da estola sacerdotal no lodo de um casamento duplamente sacrílego!

O orgulho fizera o fedífrago, o orgulho cegou o doutor. Na sua autossuficiência dir-se-ia que esqueceu não só a humildade evangélica mas as reservas da modéstia mais elementar. Até ao aparecimento do seu Evangelho ninguém soubera quem era Cristo, que eram os sacramentos, que era a fé, quem era Deus e a sua Igreja [6]. Os Santos Padres, os Apóstolos, os Concílios, a Igreja toda errou! Sua doutrina é a única verdadeira. “Muito embora a Igreja, Agostinho e os outros doutores, Pedro e Apolo e até um anjo do céu ensinem o contrário, minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus e condena a justiça de todos os homens na sua sabedoria” [7]. Qualquer dos seus sequazes, as crianças que estudaram os seus ensinamentos, sabem mais em matéria de religião e de cristianismo que todos os religiosos e todas as escolas católicas. — Que demência de soberba!

Mais ao vivo ainda se revela o frenesi desta inteligência decaída, nestas palavras que não têm semelhantes nos fastos do despotismo e do orgulho humano:

Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu juízo é o juízo de Deus. [8]

Tenho certeza que meus dogmas vêm do céu… eles hão de prevalecer e o Papa há de cair a despeito de todas as portas de inferno, a despeito de todos os poderes dos ares, da terra e do mar. [9]

Não devemos ceder aos ímpios papistas… Nossa soberba contra o Papa é necessária… Não havemos de ceder nem a todos os anjos do céu, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a cem imperadores, nem a mil Papas, nem a todo o mundo… a ninguém, cedo nulli. [10]

Orgia de orgulho satânico ou caso de patologia mental?

Não é pois de maravilhar que este homem assim enfatuado de sua ciência, depois de haver negado a infalibilidade do Papa e proclamado a liberdade de exame para legitimar os próprios excessos, se tenha arvorado em cátedra inerrante de fé, constrangendo os seus sequazes a curvarem submissos a fronte ante os arestos inapeláveis de suas decisões infalíveis. Não houve tirania mais insuportável nem arrogância mais impetuosa que a deste pregador do livre exame.

Lutero pregando em Wartburgo, de Hugo Vogel.

Todos os seus correligionários gemem sob o peso de seu jugo de ferro. Müntzer dizia: “Há dois papas: o de Roma e Lutero, e este mais duro”. Ao seu confidente Bulinger escrevia Calvino: “Já não é possível suportar os arrebatamentos de Lutero: cega-o a tal extremo o amor próprio que não vê os próprios defeitos nem tolera que o contradigam”. Contra Carlostadt, seu antigo mestre, que em tirar as conclusões da nova doutrina foi além do que pretendia o reformador, obteve o decreto de expulsão da Saxônia e não o readmitiu senão com a promessa de “não defender em público, por palavra ou por escrito, suas opiniões contrárias à de Lutero” [11]. A Müntzer, por motivo análogo, cessou a liberdade de palavra, apesar do verbum Dei non est alligatum — “a Palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2, 9) — que ele tantas vezes invocara contra a Igreja Católica. Assim entendia Lutero o livre exame!

Ao ver esta prepotência com que o chefe da Reforma impunha despoticamente as suas opiniões, crê toda a gente sensata que nada mais firme, nada mais assentado e maduramente refletido que a nova doutrina. Erro. O inculcado emissário divino que modestamente se prefere a todos os doutores do céu e da terra, que blasona de inspirado do Espírito Santo, que recebeu “os seus dogmas do céu”, hesita, retrata-se, contradiz-se, assenta e destrói dogmas pelos motivos mais fúteis, muda de opinião como um ator de roupa.

Trata-se do batismo sob condição. A 12 de maio de 1531 escreve Lutero a Link: “Quanto ao batismo sob condição, depois de diligente ponderação definimos (!) que deve simplesmente eliminar-se da Igreja”. Poucas horas bastaram para mudar-lhe o cânon definido após “diligente ponderação”. No dia seguinte, novamente inspirado sem dúvida, escreve a Ossiandro: “Não posso condenar o batismo sob condição dado às crianças de cujo batismo se duvida” [12].

Em 1519 escreve: “Confesso plenamente o supremo poder da Igreja Romana; fora de Jesus Cristo, Senhor Nosso, nada no céu e na terra se lhe deve preferir” [13]. Esta Igreja “é a predileta de Deus; não pode haver razão alguma, por mais grave, que autorize a quem quer que seja a apartar-se dela e, com o cisma, separar-se da sua unidade” [14]. Em 1520 na sua Epístola luterana tece os mais rasgados encômios a Leão X, louva-lhe a vida intemerata, superior a qualquer ataque [15]. Nesse mesmo ano já Leão X é o Anticristo, e a Igreja romana “uma licenciosa espelunca de ladrões, o mais impudente dos lupanares, o reino do pecado, da morte e do inferno” [16].

Em 1519, dois anos depois de haver iniciado publicamente a pregação da Reforma, defendendo-se dos adversários, ensina o culto dos santos, a existência do purgatório, a oração pelos defuntos, a prática do jejum, etc [17]. Alguns anos depois rejeita tudo isto como idolatria, superstição e fanatismo.

Em 1541, jura por Cristo que, ao iniciar a sua pregação contra o dominicano Tetzel não sabia nem o que significava a palavra indulgência! [18] E pensar que as indulgências foram o primeiro cavalo de batalha contra Roma, o especioso pretexto com que o monge agostiniano saiu a público para divulgar os seus erros e pregar a revolta!

Quanto à origem e legitimidade de sua missão, em pouco mais de 15 anos, Lutero mudou pelo menos 14 vezes de parecer [19].

Outro retrato de Martinho Lutero, desta vez, por certo, na famosa disputa de Leipzig.

O oportunismo decidia da escolha. Uma opinião servia-lhe para combater os católicos, outra para defender-se dos colegas, uma terceira para pacificar os ânimos turbulentos nas comunidades recém-formadas. O guarda-roupa do ator era bem provido: havia trajes para todas as personagens e todos os papéis.

Não fôra difícil continuar esse elenco. Quase não há dogma importante sobre o qual Lutero não tivesse, em épocas diversas, sustentado o sim e o não.

Não são menos instrutivas para o conhecimento da psicologia do reformador as razões que o induziam a abraçar suas opiniões. Acerca da comunhão sob uma ou duas espécie ele na sua Fórmula da Missa: “Se um Concílio ordenasse ou permitisse as duas espécies, por despeito ao Concílio, nós só receberíamos uma, ou mesmo, nem uma nem outro e anatematizaríamos os que, em virtude desta ordenação, recebessem as duas” [20].

De outra feita, declara haver finalmente suprimido a elevação da hóstia por despeito ao Papado e de havê-la conservado por tanto tempo por despeito a Carlostadt [21]. Com igual baixeza escrevia em 1523:

Se acontecesse que um, dois, mil ou mais concílios decidissem que os eclesiásticos pudessem contrair matrimônio, preferiria, confiado na graça de Deus, perdoar a quem, por toda a vida, tivesse uma, duas ou três meretrizes, do que aquele que, consoante à decisão conciliar, tomasse mulher legítima e sem tal decisão não a pudesse tomar. [22]

É ainda a mesma disposição dum ânimo acirrado contra os odiados papistas que lhe ditava estas linhas: “Enquanto eles (os papistas), a seu juízo, triunfam de uma heresia minha, quero propor outra” [23].

Sinceramente, esta linguagem, estas incertezas e contradições doutrinais, esta frivolidade em construir e destruir dogmas, esta soberba luciferina dizem bem num enviado do céu para restaurar o cristianismo?

Até aqui não acenamos senão aos vícios que mancham a parte superior do homem. Mas por uma lei infatigável da divina Providência, a soberba do espírito é castigada com as rebeldias da carne. Desce abaixo do bruto quem se arvora em divindade.

Retrato de Catarina de Bora.

Lutero oferece à história mais um triste exemplo desta punição providencial. Em 1521, uns restos de educação católica ditavam-lhe estas palavras de uma carta a Espalatino: “Santo Deus! Os nossos Wittenberguenses quererão casar também os frades? A mim é que não hão de impingir mulher… Toma tento e não cases para não incorreres nas tribulações da carne” [24]. Com os anos, as novas doutrinas abriram brecha no seu propósito. Em 1525, estalou às súbitas no mundo reformado a inesperada notícia que Lutero, aos 41 anos, havia casado com Catarina de Bora, egressa cisterciense. Que acontecera? O reformador resolvera-se repentinamente ao casamento para fechar a boca às más línguas.

As más línguas, porém, não taramelavam sem motivo. Numa carta de 1525 endereçada a Ruhel, conselheiro de Mansfeld, dizia o heresiarca: “Se posso, a despeito do demônio (sic!) inda hei de casar com a minha Catarina, antes de morrer” [25]. Como quer que seja, a impressão causada nos contemporâneos e correligionários foi das mais desfavoráveis. Lutero percebeu-o. “Com este meu casamento tornei-me tão desprezível que os anjos se hão de rir e os demônios chorar. Só em mim escarnece o mundo a obra de Deus como ímpia e diabólica” [26].

Retrato de Felipe Melanchton.

Numa confidência a Camerário dizia Melanchton: “Lutero era um homem extremamente leviano e as freiras [por ele soltadas dos conventos] que lhe armavam laços com grande astúcia acabaram por envisgá-lo. O frequente comércio com elas teria talvez efeminado um homem mais forte e de mais nobres sentimentos e ateado o incêndio” [27]. Qual tenha sido o resto da vida do ex-frade circundado desse elemento feminino capaz, no dizer de Melanchton, de enervar constituições morais de mais robusta envergadura, é fácil imaginar e inconveniente dizer.

Raras vezes a vida licenciosa vai desacompanhada dos excessos intemperantes da mesa. Em Lutero, a febre de concupiscência carnal era estimulada pela embriaguez e pela crápula. À sua Catarina escrevia em 1540: “Vou comendo como um boêmio e bebendo como um alemão, louvado seja Deus!” [28] Em 25 de julho de 1534 de novo à Catarina:

Ontem aqui bebi mal e depois fui obrigado a cantar; bebi mal e sinto-o muito. Como quisera haver bebido bem ao pensar que bom vinho e que boa cerveja tenho em casa, e mais uma bela mulher… Bem farias em mandar-me daí toda a adega bem provida do meu vinho e, o mais frequentemente que puderes, um barril de tua cerveja. [29]

De Wartburgo (14 de maio de 1541) mandava dizer: Ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die — “Aqui passo todo o dia no ócio e na embriaguez” [30]. Na noite em que o reformador, em companhia de outros, chegou a Erfurt (19 de outubro de 1522) não se fez senão “beber e gritar, como de costume” [31], escreve Melanchton presente à cena.

O nobre motivo por que o reformador ia pedir ao aturdimento do vinho e da cerveja a distração e a paz que não encontrava na consciência, declara-o ele próprio numa carta consolatória a um amigo (6 de novembro de 1530). Jerônimo Weller era trabalhado de frequentes acessos de melancolia. Lutero, como bom diretor espiritual, manda-lhe esta receita anti-hipocondríaca:

Quando te vexar o diabo com estes pensamentos, palestra com os amigos, bebe mais largamente, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. De quando em quando se deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias… Quando te disser o diabo: não bebas, responde-lhe: por isso mesmo que me proíbes hei de beber e em nome de Jesus Cristo beberei mais copiosamente… Por que pensar que eu bebo, assim, com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade e banqueteio-me com mais frequência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar a mim?... Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo. [32]

E se bem o aconselhava, melhor o fazia. Era em comezainas pantagruélicas, entre o espumar dos vinhos generosos e os vapores das iguarias fumegantes que se reuniam os concílios dos novos reformadores e se decidiam as questões mais transcendentes do dogma e da moral evangélica.

Retrato de Martinho Lutero em seu leito mortuário.

Na manhã seguinte à da morte de Lutero encontraram-no por terra com o abdome intumescido pelo “demasiado comer e beber. O reformador tivera no dia precedente uma mesa ricamente preparada e abundância de vinhos doces e estrangeiros” [33].

Assim acabou como um gastrônomo e libertino vulgar o apóstata que se arvorara em reformador do cristianismo. “Na hierarquia dos anjos rebeldes, em que pese aos seus amigos, Lutero ocupa o degrau mais baixo, mais próximo do lodo e do pântano” [34].

E as sombras morais do homem projetam-se sobre toda a sua obra. Ante o espetáculo desta vida desregrada, temos o direito de pedir aos nossos adversários que nos demonstrem com razões peremptórias que este monge devasso, beberrão, grosseiro e insultador foi o eleito de Deus para reconduzir à sua pureza primitiva a Igreja de Santo Tomás e de São Bernardo, de São Gregório e de São Leão, de Santo Agostinho e de Santo Irineu.

Referências

  1. Certus sum dogmata mea habere de caelo, “Estou certo de ter recebido dos céus os meus dogmas”, Weimar, X, 2 Abt., p. 184.
  2. De Wette, II, 538; Weimar, XV, 240.
  3. Weimar, XVIII, 96-97.
  4. Weimar, XX, 724.
  5. Erl., XII, 218-21; XLVI, 205.
  6. Cf. Weimar, XXX, 3 Abteilung, 317.
  7. Weimar, XL, 1 Abt., 132.
  8. Weimar, X, 2 Abt., 107.
  9. Weimar, X, 2 Abt., 184.
  10. Weimar, XV, 1 Abt., 180-1.
  11. Weimar, XVIII, 86 sg.
  12. De Wette, IV, 254, 256.
  13. De Wette, I, 234.
  14. Weimar, II, 72.
  15. Cf. De Wette, I, 498.
  16. De Wette, I, 522, 500; Weimar, VII, 44.
  17. Weimar, II, 69ss.
  18. Erl., XXVI, 50ss. Aqui, porém, como tantas outras vezes, Lutero falta à verdade. Mas o caráter do homem revela-se do mesmo modo.
  19. Cf. Doellinger, Die Reformation, III, 205ss.
  20. Cf. Bossuet, Hist. des Variations, l. 2, n. 10.
  21. Erl., XXXII, 420, 422.
  22. Weimar, XII, 237.
  23. Weimar, VI, 501.
  24. De Wette, II, 40, 41.
  25. De Wette, II, 655.
  26. De Wette, III, 2, 3.
  27. Melanchton, Brief an Camerarius über Luthers Heirat von 16 Junii 1525, von P. A. Kirch, Mainz, 1900, p. 8, 11.
  28. Burkardt, Dr. M. Luth. Briefwechsel, Leipzig, 1866, p. 357. Cit., por H. Brück, Lehrbuch der Kirchengeschichte (4), Mainz 1888, p. 614.
  29. De Wette, IV, 553.
  30. De Wette, II, 6.
  31. Corpus reformatorum, I, 579.
  32. De Wette, IV, 188.
  33. Paulus, Luthers Lebensende und der Eislebener Apotheker Johann Landau, Mainz, 1896, p. 5.
  34. Th. Mainage, Témoignage des Apostats (2), Paris, Beauchesne, 1916, p. 76.

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A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019
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I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

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Igreja, não museu
Igreja Católica

Igreja, não museu

Igreja, não museu

Sem o olhar da fé, que é o incêndio que afetou a Catedral de Notre-Dame de Paris senão a destruição de um simples “museu”?

Pe. Benedict KielyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2019
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Muito já se escreveu, horas após o fogo que devastou a Catedral de Notre-Dame de Paris, a respeito do “caráter emblemático” do edifício, do seu valor como patrimônio da humanidade e do fato, notado pelo Papa Francisco, de que o edifício constitui “um tesouro arquitetônico de memória coletiva”. Foi necessário, no entanto, que o arcebispo de Paris, Michel Aupetit, um ex-médico — discreto, mas profundo —, viesse responder (com uma pergunta retórica) o porquê de o edifício ser um “tesouro”.

Entrevistado pela TV francesa, Dom Aupetit disse simplesmente que a magnífica basílica foi construída por uma razão, e não era ser um “tesouro”, nem mesmo abrigar a Coroa de Espinhos de Nosso Senhor; Notre-Dame existe para un morceau de pain, isto é, para “um pedaço de pão” — o pão que, ele explicou, os católicos acreditam ser o Corpo de Cristo.

Todas as igrejas católicas — desde a magnificência de uma Notre-Dame em Paris ou de uma Basílica de São Pedro em Roma, até uma igrejinha do interior ou uma cabana de barro em terra de missão —, estando nelas presente a Eucaristia, foram construídas para ser domus Dei, a “casa de Deus”. Para um católico, a ausência real que sentimos na Sexta-feira Santa, quando o sacrário fica vazio e a sua luz se apaga, é uma confirmação palpável de que, em certo sentido, uma igreja onde não está presente o morceau de pain não passa de uma “igreja zumbi”, aparentemente viva, mas na verdade morta.

Com razão o mundo, especialmente aquelas partes que se consideram civilizadas, horrorizou-se ao ver o Estado Islâmico destruindo antigos artefatos da civilização mesopotâmica e tentando destruir a cidade de Palmira, na Síria. Notre-Dame de Paris é um patrimônio da humanidade, uma obra de arte cuja beleza é apreciada por pessoas de todos os credos, e até pelas que não possuem credo nenhum. O edifício fala, entretanto, não apenas da massiva contribuição que a cultura cristã ofereceu para criar a civilização ocidental (contribuição ignorada pela Constituição da União Europeia), mas também da fé viva sem a qual a basílica seria apenas um museu.

A basílica de Nossa Senhora em Paris leva esse nome não para “honrar o edifício como se ele fosse uma mãe” (como disse um repórter na internet, ilustrando a crescente ignorância religiosa da mídia), mas porque foi dedicado à Mãe de Deus, o primeiro tabernáculo vivo da Palavra feito carne. Esse “ícone” aponta para algo maior do que o homem; sua verticalidade e visibilidade são sinais do transcendente; o que nele sobressai é a verdade da fé a partir da qual tantos trabalharam por mais de um século para construí-la.

Quando os monstros que tocaram o terror da Revolução Francesa profanaram a basílica, dando-lhe o nome de templo do “Culto da Razão”, destruindo imagens de Nossa Senhora e substituindo-a pela “deusa da liberdade”, em certo sentido a basílica deixou de existir. Mas, assim como, em países que saíram do comunismo, igrejas que haviam sido usadas como salões de esportes ou cinemas voltaram ao seu uso sagrado, também Notre-Dame retornou à sua antiga glória com os sacramentos sendo celebrados novamente em seu interior.

O Estado francês é proprietário de Notre-Dame de Paris, mas, de acordo com a lei de 1905, a Igreja Católica detém os “direitos exclusivos de usá-la para propósitos religiosos perpetuamente”. O presidente Macron teria dito que a basílica será reconstruída “de uma maneira consistente com nossa nação moderna e cheia de diversidade”. O que se espera é que, por “diversidade”, ele queira se referir simplesmente à ampla variedade de artistas e habilidades que se unirão para restaurar o edifício ao longo dos anos.

Falando aos bispos franceses durante sua visita ad limina apostolorum em 1997, o Papa João Paulo II parabenizou o Estado francês pelo seu cuidado com tantas catedrais e igrejas católicas, mas — ele lembrou na ocasião — a liturgia “deve ser sempre a verdadeira raison d’etre (razão de ser) desses monumentos”.

Notre-Dame, esta “casa do pão” — o morceau de pain que é o Corpo de Cristo — será reconstruída, e a basílica será igreja viva. Não deixará de ser um “tesouro arquitetônico de memória coletiva”, mas não será nunca um museu.

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“Nós, os leprosos”: o sacrifício do Padre Damião
Santos & Mártires

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. E dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim ele não deixaria os leprosos.

W. M. Jackson, Inc.15 de Abril de 2019
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Num mesmo seminário da Bélgica se achavam dois irmãos, preparando-se para o sacerdócio. O mais velho devia ser em breve missionário e, nessa qualidade, ir para as ilhas dos mares do sul. Brilhavam-lhe os olhos, esfregava as mãos de contente, sempre que se referia à obra que o esperava além-mar.

Um dia, porém, adoeceu gravemente, e teve de recolher-se ao leito. Era presa de uma febre terrível, e ainda mais empalidecia e se definhava ao pensar na inação a que a doença o obrigava. O irmão mais novo, vindo-lhe à cabeceira, disse um dia com carinho: “Sentir-te-ias melhor se eu ocupasse o teu lugar de missionário?” Os olhos do doente brilharam um momento e ele apertou, sorrindo, as mãos do irmão, o qual escreveu secretamente às autoridades, pedindo permissão para partir em seu lugar.

Um dia, quando estudava, veio ter com ele o diretor do seminário e informou-o de que estava autorizada a sua ida. O rapaz levantou-se, saiu a correr do quarto e percorreu o pátio aos pulos, como um animal selvagem.

“Enlouqueceu?”, perguntavam os colegas.

E por que José Damião mostrava tanta alegria, se afinal ia para um exílio? Por que desejaria abandonar a terra feliz onde se falava sua língua e cujos costumes lhe eram familiares? Por que razão iria trabalhar entre selvagens, para além de mares longínquos, tornando-se invisível aos amigos e deles esquecido?

É que já abandonara o mundo para ser sacerdote e amava, mais que à pompa do mundo, mais que à paz do lar, mais que ao amor de pai e mãe, o Redentor.

Amá-lo e segui-lo, praticando o bem, tornou-se o seu ideal.

José Damião, com um entusiasmo de moço, partiu para as ilhas dos mares do sul e ali missionou. Trabalhou com firmeza e nobremente até a idade de trinta e três anos. Então, um dia, em sua missão entre o povo, ouviu dizer o bom bispo que infelizmente não tinha quem mandar aos pobres leprosos de Molokai, e que esses infelizes estavam entregues não só àquele terrível mal como ainda a pecados terríveis.

José Damião, cuja alma muitas vezes se tinha condoído ao ouvir falar dos leprosos, pediu ao bispo que o mandasse, e o seu oferecimento foi aceito.

Aqui estava outro sacrifício ainda mais respeitável: ir dos selvagens para os leprosos representava abnegação maior do que da Bélgica para os selvagens. Os leprosos viviam isolados, longe de toda a gente, evitados por todos. Estavam fora da humanidade. O mal que lhes roía os corpos tornava-lhes as almas também ruins. Suas cabanas eram verdadeiras pocilgas; viviam como animais; eram horríveis e ver, e mais ainda depois de conhecidos. Não podem vocês imaginar os horrores de Molokai. Deles só uma pequena parte bastaria para impressionar.

Mas o padre Damião levou aos desgraçados a mensagem simples de que Deus os amava; e o seu rosto alegre, a sua voz terna, o seu olhar acarinhador, e, mais que tudo isso, a fé ardente e viva que punha nas suas palavras, converteu-os em filhos do Senhor. Começaram a arrepender-se dos pecados, começaram a sentir que, em verdade, talvez Deus os amasse. Ao menos uma coisa era certa: amava-os o padre Damião.

Dezesseis anos viveu este homem santo e bom entre os leprosos. Ergueu uma igreja, a que se afeiçoaram muito, construiu-lhes casas mais confortáveis, deu-lhes um melhor fornecimento de água, foi seu enfermeiro, tratando das suas chagas horrendas; confortava-os à hora da morte e cavava as suas sepulturas.

Padre Damião, fotografado por William Brigham.

Ouviu-se, então, falar deste padre que trabalhava sozinho entre os leprosos. Escreveram-lhe, mandaram-lhe caixotes de coisas úteis para a sua gente, e houve mesmo quem lá fosse visitá-lo e ajudá-lo. Durante muitos anos trabalhou entre os infelizes, mas por fim foi ele próprio vítima do horrível mal. Um dia entornou água a ferver, e ela lhe caiu num pé. Estranhou não sentir dor nenhuma. Procurou um médico. “Tenho a lepra?”, perguntou. “Sinto informá-lo”, respondeu o médico, “mas está, com efeito, leproso”. Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. Sentia-se perfeitamente feliz. Dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim não deixaria os leprosos. Continuou trabalhando, com a morte a roer-lhe feroz e vorazmente o corpo.

Quando o levaram para o leito, agradeceu a Deus todos os benefícios e confortos recebidos. Dois padres e irmãs de caridade ajoelharam-se-lhe ao pé do leito.

— Quando estiver no céu, padre Damião — perguntou um deles — não esquecerá estes órfãos que aqui deixa?

— Não, não! — disse, sorrindo, o bom padre. Se algum valimento tiver ante Deus, rezarei por todos que estão no Leprosário.

— E — tornou o padre ajoelhado — não me deixará, como Elias, o seu manto?

— Para quê? — replicou o padre Damião. E depois acrescentou lentamente: Está cheio de lepra.

Nenhum rei teve, porém, manto mais belo!

É que toda a sua vida tinha sido um longo ato de heroísmo.

Referências

  • Extraído de “O melhor do tesouro da juventude”, de W. M. Jackson, Inc., v. 1, Editora Concreta, pp. 90-92 (grifos nossos).

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Quando um protestante descobriu que a Missa é o sacrifício da Cruz
Testemunhos

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando Scott Hahn ficou sabendo que os católicos ensinavam ser a Eucaristia a renovação do sacrifício do Calvário, relação que ele só descobriu depois de muita investigação, primeiro ele ficou furioso e despeitado. Mas depois...

José Maria C. S. André15 de Abril de 2019
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Durante a Semana Santa, que começa hoje, a liturgia católica leva-nos a viver uma Páscoa judaica surpreendente. Recordo a perplexidade de Scott Hahn, hoje um grande biblista católico, no tempo em que ele ainda era protestante. Um dia, ao fio dos Evangelhos, o pregador da sua comunidade protestante foi seguindo os passos da Última Ceia, conforme o cânone habitual da Páscoa judaica.

Até dada altura, tudo decorria da forma habitual, ainda que num clima de extraordinária intensidade. A minúcia dos preparativos, da sala e da celebração, anunciava algo especial e Cristo começou por alertar os discípulos para a importância do momento: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer”.

A celebração judaica começa com as abluções rituais. O mais novo da família leva uma jarra e uma bandeja, deitando a água da purificação sobre as pontas dos dedos de cada um. Neste caso, não foi o menos importante — foi o próprio Cristo! — Quem fez a ablução. E não derramou água sobre os dedos: pôs uma toalha à cintura e lavou os pés a cada um dos discípulos. Pedro recusa uma coisa dessas! Depois, é tal a insistência de Cristo, que aceita...

Seguiram-se os salmos do costume e vários cálices rituais, em ação de graças, como símbolo da Aliança do Povo com Deus, etc., até que Cristo altera o sentido de tudo ao estabelecer uma Aliança nova: “Este cálice é a nova Aliança no meu Sangue, derramado por vós”. Neste momento, Cristo coloca-Se a Si próprio como novo centro da ação litúrgica: “todas as vezes que o beberdes, fazei isto em memória de Mim”.

Há outros elementos revolucionários naquela celebração pascal, mas o que mais surpreendeu Scott Hahn e a sua congregação protestante foi que, imediatamente antes do momento culminante, que seria o cálice da Consumação, Cristo interrompe a cerimônia. Não só interrompe, como o declara solenemente, como se fizesse de propósito: “não tornarei a beber o fruto da videira, até àquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus”. Levantaram-se, pois, e saíram para o Monte das Oliveiras. A comunidade de Scott Hahn não sabia o que pensar. Talvez Jesus estivesse perturbado pela iminência da morte, talvez se tivesse esquecido de concluir a cerimônia da Páscoa…

Hahn decidiu reler os Evangelhos de uma ponta à outra, à procura do cálice que faltava, o cálice da Consumação. A conclusão imediata é que não tinha havido esquecimento, quase se diria que Jesus não pensava noutra coisa. Jesus sai do cenáculo da Última Ceia a falar do cálice que faltava: “Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice! Mas não se faça a minha vontade mas a tua”. “Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!...”. Chegam Judas e os soldados, Pedro pega numa espada e corta a orelha de Malco, um criado do Sumo Sacerdote. Jesus cura milagrosamente o ferido e diz a Pedro “Mete a tua espada na bainha. Eu não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?”.

Aquele cálice, vinha inclusivamente de muito antes. Ao pedido da mãe de Tiago e João, responde com um desafio misterioso: “Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber, ou ser batizados no baptismo com que Eu vou ser batizado?” — qual cálice, tão singular? Qual batismo, se Jesus já tinha sido batizado no Jordão?

No final da Paixão, pendurado da Cruz, momentos antes de morrer, ressurge a referência à consumação da Aliança. “Sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse ‘tenho sede’. Havia ali um vaso de vinagre…” e um dos que estavam ali “correu a tomar uma esponja, ensopou-a, pô-la sobre uma cana e deu-Lhe de beber”... “Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Tendo-o provado, não quis beber”. Não, aquele vinho misturado com fel não era o cálice esperado; aquele “tenho sede” não era a pedir aquele vinho. Imediatamente a seguir, Jesus exclama “Tudo está consumado!” e, inclinando a cabeça, expirou.

O Dr. Scott Hahn.

De repente, Scott Hahn percebeu que a Última Ceia só terminava no Calvário, no momento em que se estabelece a nova Aliança “no sangue derramado por Cristo”. A Última Ceia é uma unidade com todo o oferecimento de Cristo na Paixão. Participar na Missa é participar no Sacrifício de Cristo na Cruz. Como diz S. Paulo aos de Corinto, “porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?”. Cristo é, como diz S. Paulo a seguir, “a vítima imolada no altar”. S. Paulo recorda como o próprio Jesus tinha avisado os discípulos, na Última Ceia, de que aquele vinho consagrado apontava para a sua morte no Calvário: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”.

Um dia, na universidade protestante em que dava aulas, Scott Hahn apresentou esta sua investigação e ouviu um comentário de um aluno que tinha tido catequese católica em pequeno: “Isso faz todo o sentido, mas recorda-me o catecismo de Baltimore! [1]”. Scott nunca tinha ouvido falar de um “catecismo de Baltimore”, porque era um livrinho elementar, o primeiro catecismo das crianças católicas da época, e por isso ainda acusou mais o toque [2]. Então, os católicos, esses heréticos, ensinam às crianças que a Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário?! Algo que ele só tinha descoberto ao fim de tanto esforço de investigação?!

Primeiro, Scott ficou furioso, despeitado. Depois, continuou a investigar e fez-se católico.

Referências

  • José Maria C. S. André in Correio dos Açores, 25 mar. 2018, publicado em Senza Pagare.

Notas

  1. O “Catecismo de Baltimore” foi o catecismo oficial para crianças adotado nos Estados Unidos até 1960 (Nota da Equipe CNP).
  2. “Acusar o toque” é expressão lusitana, e significa deixar transparecer dúvida por afirmação de outra pessoa (Nota da Equipe CNP).

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