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Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?
História da Igreja

Com que direito Lutero
pretendia “reformar” a Igreja?

Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?

Lutero negou a autoridade, negou a Tradição, negou o Magistério, negou a Igreja orgânica, visível e hierárquica. Mas com que direito? Quais as credenciais desta sua embaixada extraordinária?

Pe. Leonel Franca31 de Outubro de 2017Tempo de leitura: 16 minutos
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Lutero começou por negar. Negou a autoridade, negou a tradição, negou o magistério eclesiástico, negou a Igreja orgânica, visível, hierárquica. Com que direito? Com que títulos? Não existia havia 15 séculos o cristianismo? Não ascendiam os seus pastores, os seus bispos, os seus papas, por uma sucessão ininterrupta até aos apóstolos, até ao próprio Cristo?

— Mas a Igreja Católica havia perdido o espírito primitivo, havia adulterado os ensinamentos do Evangelho, havia-o sobrecarregado com uma farragem de superstições humanas, havia-o prostituído com a idolatria de Babilônia.

— E como o sabe ele? Como o prova? Não havia Cristo prometido a sua assistência infalível à Igreja? Não lhe havia assegurado que com ela estaria todos os dias até à consumação dos séculos?

Não importa. Lutero entrincheira-se na Bíblia. — Mas a Bíblia, quem a interpreta? Não a possuía, não a possui porventura a Igreja Católica? Não a liam todos os Santos Padres e Doutores? Não a conheciam todos os concílios? Não a vulgarizavam todos os santos reformadores? E por que a nenhum ocorreu a ideia de começar uma reforma destruindo a Igreja em nome da Escritura, de embandeirar a Bíblia em pendão de revolta contra a autoridade constituída por Cristo?

Lutero, porém, possui um segredo especial de exegese desconhecido de toda a antiguidade eclesiástica. Ele, o frade despeitado, guinda-se às alturas proféticas de novo evangelista, recebe diretamente ilustrações do Espírito Santo, comunica com o santuário da Trindade [1] e dos seus recessos inacessíveis traz ao mundo o dom de uma hermenêutica sacra, de cujo bojo sai um cristianismo todo novo.

Destarte, de consequência em consequência, Frei Martinho é obrigado a arvorar-se uma missão divina, a atribuir-se uma legação religiosa especial.

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

Ora, onde estão as credenciais desta embaixada extraordinária? Nenhum homem pode levantar-se no meio dos seus semelhantes e afirmar, sem provas cabais, que é um enviado do Altíssimo. Nenhum homem pode guindar-se à trípode dos oráculos e daí legislar religião para a humanidade sem antes demonstrar apoditicamente a autenticidade de sua missão plenipotenciária. Religião, só Deus a pode impor ao homem. Falar à consciência religiosa, ensinando verdades a crer e preceitos a praticar, sem títulos divinos, sem autorização divina, sem sanção divina, é embuste, é impostura, é charlatanismo. Nossa dignidade de seres racionais revolta-se contra semelhantes exploradores da credulidade pública. — Profeta de Wittenberg, onde estão as cartas de crença de tua missão divina?

A garantia que temos da origem celeste de uma doutrina reside na autoridade recebida do alto por aquele que no-la propõe.

Ora os sinais com que Deus chancela a autoridade dos seus enviados são os milagres: milagres que se manifestam na ordem física, milagres que resplendem na santidade irrepreensível do divino enviado. Só o milagre, intervenção extraordinária da divina onipotência, pode autenticar as missões do céu.

Com milagres provou Jesus a sua messianidade (cf. Jo 5, 36; 10, 37-38; 15, 22; Mt 12, 39-40); com milagres sigilou Deus a embaixada dos seus apóstolos (cf. 2Pd 1, 18; 2Cor 12, 12; Mc 16, 20); no milagre reconheceu sempre a apologética cristã, firmada nos princípios da razão e nos ensinamentos dos livros inspirados, a assinatura inimitável do divino Autor nas suas manifestações extraordinárias à humanidade.

O próprio Lutero reconheceu a necessidade desta autenticação celeste. Querendo impedir a pregação de Tomás Müntzer em Mulhouse, escreve em 1524 aos magistrados desta cidade que, se o turbulento inovador não puder provar com obras extraordinárias a sua missão, não o recebam. “Se ele disser que Deus e o seu espírito o enviam como aos apóstolos, que o prove com prodígios e milagres; do contrário, proibi-lhe a pregação” [2].

Quando Carlostadt, apelando para ilustrações divinas, o contradisse, Lutero intimou-o a demonstrar com milagres a sua vocação: “É necessário que Deus manifeste com obras milagrosas que revoga os seus antigos preceitos” [3]. E alhures:

Quem quer pôr em campo alguma novidade ou ensinar doutrinas diversas deve ser chamado por Deus e comprovar a sua vocação com verdadeiras ações prodigiosas. Quem não a puder demonstrar deste modo, abra mão da empresa et in malam rem abeat. [4]

Julgando-o por esta craveira, que milagres fez Lutero? Que milagres fizeram os primeiros reformadores para atestar o caráter divino de sua missão? De todos os protestantes escreveu, gracejando, Erasmo, que até então não haviam endireitado a perna a um cavalo coxo. Lutero acabou por perceber esta lacuna na sua missão, mas, por um destes truques de sofista em que era useiro e vezeiro, virou de bordo e proclamou o milagre uma inutilidade… Depois, triunfando exclama: “Não hão de ver milagres feitos por nós”, porque, se os fizéramos, o mundo os havia de atribuir ao diabo [5]!

E profecias? — Há uma que ocorre frequentemente nos escritos dos primeiros inovadores: a iminente ruína do Papado. Lutero gostava muito do verso Pestis eram vivens, moriens tua mors ero, papa, isto é, “Em vida eu era a tua peste, morrendo, serei a tua morte, ó Papa!” Inseriu-o numa carta em 1527; mais tarde, com um pedaço de giz, escreveu-o nas paredes do quarto onde, poucas horas depois, o salteou de improviso a morte. — Depois de quatro séculos podemos dizer que a esmagadora realidade histórica não abonou os títulos proféticos do vate saxônio.

Além dos prodígios físicos, que são extrínsecos ao taumaturgo, há outro milagre de ordem moral, que, por assim dizer, se consubstancia com a sua própria pessoa: é a santidade da vida. Um homem que pode atirar aos seus adversários a luva, dizendo-lhes: Quis ex vobis arguet me de peccato?, “Quem de vós me pode acusar de pecado?” (Jo 8, 46). Um homem, em cuja veracidade não pode caber a mínima suspeita de impostura, merece lhe prestemos fé. Nesta grandeza moral, superior à fragilidade humana temos uma fiança de que Deus está com ele. Salvas as proporções necessárias, o que se diz de Cristo vale de um puro homem que se apresenta na história com uma missão divina.

Ora, deram os primeiros reformadores este espectáculo edificante de santidade? Oh, se o protestantismo pudera passar uma esponja sobre as nódoas que enxovalham as origens vergonhosas! Mas a história não se apaga e a verdade beneficia sempre de suas lições indeléveis.

Pouco a pouco, a despeito de dificuldades inauditas, rasgou-se o véu que cobria ao mundo as torpezas e incoerências destas vidas vergonhosas e a posteridade pregou os patriarcas do protestantismo no pelourinho da ignomínia e da execração pública.

Não é meu intuito humilhar aqui os protestantes. Quisera tão somente iluminá-los. Verdades que amargam são muitas vezes verdades que salvam.

Lutero inaugura a sua missão com o gravíssimo pecado do sacrilégio e da apostasia. Jovem, era livre. Um dia, enamorado do ideal evangélico de perfeição, desejoso de seguir de perto a Cristo, estende espontaneamente a mão sobre o altar e pronuncia os votos religiosos de pobreza, obediência e castidade. Passam os anos. Raia o dia do seu sacerdócio. Ainda uma vez, quando o crisma sagrado lhe ungia as mãos, o neolevita renova a consagração do religioso. Mais tarde, que faz Lutero de todas estas promessas firmadas com a santidade inviolável do juramento? Quebra a fé empenhada, rasga os seus compromissos, atira o burel de religioso às urtigas e enxovalha a candura da estola sacerdotal no lodo de um casamento duplamente sacrílego!

O orgulho fizera o fedífrago, o orgulho cegou o doutor. Na sua autossuficiência dir-se-ia que esqueceu não só a humildade evangélica mas as reservas da modéstia mais elementar. Até ao aparecimento do seu Evangelho ninguém soubera quem era Cristo, que eram os sacramentos, que era a fé, quem era Deus e a sua Igreja [6]. Os Santos Padres, os Apóstolos, os Concílios, a Igreja toda errou! Sua doutrina é a única verdadeira. “Muito embora a Igreja, Agostinho e os outros doutores, Pedro e Apolo e até um anjo do céu ensinem o contrário, minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus e condena a justiça de todos os homens na sua sabedoria” [7]. Qualquer dos seus sequazes, as crianças que estudaram os seus ensinamentos, sabem mais em matéria de religião e de cristianismo que todos os religiosos e todas as escolas católicas. — Que demência de soberba!

Mais ao vivo ainda se revela o frenesi desta inteligência decaída, nestas palavras que não têm semelhantes nos fastos do despotismo e do orgulho humano:

Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu juízo é o juízo de Deus. [8]

Tenho certeza que meus dogmas vêm do céu… eles hão de prevalecer e o Papa há de cair a despeito de todas as portas de inferno, a despeito de todos os poderes dos ares, da terra e do mar. [9]

Não devemos ceder aos ímpios papistas… Nossa soberba contra o Papa é necessária… Não havemos de ceder nem a todos os anjos do céu, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a cem imperadores, nem a mil Papas, nem a todo o mundo… a ninguém, cedo nulli. [10]

Orgia de orgulho satânico ou caso de patologia mental?

Não é pois de maravilhar que este homem assim enfatuado de sua ciência, depois de haver negado a infalibilidade do Papa e proclamado a liberdade de exame para legitimar os próprios excessos, se tenha arvorado em cátedra inerrante de fé, constrangendo os seus sequazes a curvarem submissos a fronte ante os arestos inapeláveis de suas decisões infalíveis. Não houve tirania mais insuportável nem arrogância mais impetuosa que a deste pregador do livre exame.

Lutero pregando em Wartburgo, de Hugo Vogel.

Todos os seus correligionários gemem sob o peso de seu jugo de ferro. Müntzer dizia: “Há dois papas: o de Roma e Lutero, e este mais duro”. Ao seu confidente Bulinger escrevia Calvino: “Já não é possível suportar os arrebatamentos de Lutero: cega-o a tal extremo o amor próprio que não vê os próprios defeitos nem tolera que o contradigam”. Contra Carlostadt, seu antigo mestre, que em tirar as conclusões da nova doutrina foi além do que pretendia o reformador, obteve o decreto de expulsão da Saxônia e não o readmitiu senão com a promessa de “não defender em público, por palavra ou por escrito, suas opiniões contrárias à de Lutero” [11]. A Müntzer, por motivo análogo, cessou a liberdade de palavra, apesar do verbum Dei non est alligatum — “a Palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2, 9) — que ele tantas vezes invocara contra a Igreja Católica. Assim entendia Lutero o livre exame!

Ao ver esta prepotência com que o chefe da Reforma impunha despoticamente as suas opiniões, crê toda a gente sensata que nada mais firme, nada mais assentado e maduramente refletido que a nova doutrina. Erro. O inculcado emissário divino que modestamente se prefere a todos os doutores do céu e da terra, que blasona de inspirado do Espírito Santo, que recebeu “os seus dogmas do céu”, hesita, retrata-se, contradiz-se, assenta e destrói dogmas pelos motivos mais fúteis, muda de opinião como um ator de roupa.

Trata-se do batismo sob condição. A 12 de maio de 1531 escreve Lutero a Link: “Quanto ao batismo sob condição, depois de diligente ponderação definimos (!) que deve simplesmente eliminar-se da Igreja”. Poucas horas bastaram para mudar-lhe o cânon definido após “diligente ponderação”. No dia seguinte, novamente inspirado sem dúvida, escreve a Ossiandro: “Não posso condenar o batismo sob condição dado às crianças de cujo batismo se duvida” [12].

Em 1519 escreve: “Confesso plenamente o supremo poder da Igreja Romana; fora de Jesus Cristo, Senhor Nosso, nada no céu e na terra se lhe deve preferir” [13]. Esta Igreja “é a predileta de Deus; não pode haver razão alguma, por mais grave, que autorize a quem quer que seja a apartar-se dela e, com o cisma, separar-se da sua unidade” [14]. Em 1520 na sua Epístola luterana tece os mais rasgados encômios a Leão X, louva-lhe a vida intemerata, superior a qualquer ataque [15]. Nesse mesmo ano já Leão X é o Anticristo, e a Igreja romana “uma licenciosa espelunca de ladrões, o mais impudente dos lupanares, o reino do pecado, da morte e do inferno” [16].

Em 1519, dois anos depois de haver iniciado publicamente a pregação da Reforma, defendendo-se dos adversários, ensina o culto dos santos, a existência do purgatório, a oração pelos defuntos, a prática do jejum, etc [17]. Alguns anos depois rejeita tudo isto como idolatria, superstição e fanatismo.

Em 1541, jura por Cristo que, ao iniciar a sua pregação contra o dominicano Tetzel não sabia nem o que significava a palavra indulgência! [18] E pensar que as indulgências foram o primeiro cavalo de batalha contra Roma, o especioso pretexto com que o monge agostiniano saiu a público para divulgar os seus erros e pregar a revolta!

Quanto à origem e legitimidade de sua missão, em pouco mais de 15 anos, Lutero mudou pelo menos 14 vezes de parecer [19].

Outro retrato de Martinho Lutero, desta vez, por certo, na famosa disputa de Leipzig.

O oportunismo decidia da escolha. Uma opinião servia-lhe para combater os católicos, outra para defender-se dos colegas, uma terceira para pacificar os ânimos turbulentos nas comunidades recém-formadas. O guarda-roupa do ator era bem provido: havia trajes para todas as personagens e todos os papéis.

Não fôra difícil continuar esse elenco. Quase não há dogma importante sobre o qual Lutero não tivesse, em épocas diversas, sustentado o sim e o não.

Não são menos instrutivas para o conhecimento da psicologia do reformador as razões que o induziam a abraçar suas opiniões. Acerca da comunhão sob uma ou duas espécie ele na sua Fórmula da Missa: “Se um Concílio ordenasse ou permitisse as duas espécies, por despeito ao Concílio, nós só receberíamos uma, ou mesmo, nem uma nem outro e anatematizaríamos os que, em virtude desta ordenação, recebessem as duas” [20].

De outra feita, declara haver finalmente suprimido a elevação da hóstia por despeito ao Papado e de havê-la conservado por tanto tempo por despeito a Carlostadt [21]. Com igual baixeza escrevia em 1523:

Se acontecesse que um, dois, mil ou mais concílios decidissem que os eclesiásticos pudessem contrair matrimônio, preferiria, confiado na graça de Deus, perdoar a quem, por toda a vida, tivesse uma, duas ou três meretrizes, do que aquele que, consoante à decisão conciliar, tomasse mulher legítima e sem tal decisão não a pudesse tomar. [22]

É ainda a mesma disposição dum ânimo acirrado contra os odiados papistas que lhe ditava estas linhas: “Enquanto eles (os papistas), a seu juízo, triunfam de uma heresia minha, quero propor outra” [23].

Sinceramente, esta linguagem, estas incertezas e contradições doutrinais, esta frivolidade em construir e destruir dogmas, esta soberba luciferina dizem bem num enviado do céu para restaurar o cristianismo?

Até aqui não acenamos senão aos vícios que mancham a parte superior do homem. Mas por uma lei infatigável da divina Providência, a soberba do espírito é castigada com as rebeldias da carne. Desce abaixo do bruto quem se arvora em divindade.

Retrato de Catarina de Bora.

Lutero oferece à história mais um triste exemplo desta punição providencial. Em 1521, uns restos de educação católica ditavam-lhe estas palavras de uma carta a Espalatino: “Santo Deus! Os nossos Wittenberguenses quererão casar também os frades? A mim é que não hão de impingir mulher… Toma tento e não cases para não incorreres nas tribulações da carne” [24]. Com os anos, as novas doutrinas abriram brecha no seu propósito. Em 1525, estalou às súbitas no mundo reformado a inesperada notícia que Lutero, aos 41 anos, havia casado com Catarina de Bora, egressa cisterciense. Que acontecera? O reformador resolvera-se repentinamente ao casamento para fechar a boca às más línguas.

As más línguas, porém, não taramelavam sem motivo. Numa carta de 1525 endereçada a Ruhel, conselheiro de Mansfeld, dizia o heresiarca: “Se posso, a despeito do demônio (sic!) inda hei de casar com a minha Catarina, antes de morrer” [25]. Como quer que seja, a impressão causada nos contemporâneos e correligionários foi das mais desfavoráveis. Lutero percebeu-o. “Com este meu casamento tornei-me tão desprezível que os anjos se hão de rir e os demônios chorar. Só em mim escarnece o mundo a obra de Deus como ímpia e diabólica” [26].

Retrato de Felipe Melanchton.

Numa confidência a Camerário dizia Melanchton: “Lutero era um homem extremamente leviano e as freiras [por ele soltadas dos conventos] que lhe armavam laços com grande astúcia acabaram por envisgá-lo. O frequente comércio com elas teria talvez efeminado um homem mais forte e de mais nobres sentimentos e ateado o incêndio” [27]. Qual tenha sido o resto da vida do ex-frade circundado desse elemento feminino capaz, no dizer de Melanchton, de enervar constituições morais de mais robusta envergadura, é fácil imaginar e inconveniente dizer.

Raras vezes a vida licenciosa vai desacompanhada dos excessos intemperantes da mesa. Em Lutero, a febre de concupiscência carnal era estimulada pela embriaguez e pela crápula. À sua Catarina escrevia em 1540: “Vou comendo como um boêmio e bebendo como um alemão, louvado seja Deus!” [28] Em 25 de julho de 1534 de novo à Catarina:

Ontem aqui bebi mal e depois fui obrigado a cantar; bebi mal e sinto-o muito. Como quisera haver bebido bem ao pensar que bom vinho e que boa cerveja tenho em casa, e mais uma bela mulher… Bem farias em mandar-me daí toda a adega bem provida do meu vinho e, o mais frequentemente que puderes, um barril de tua cerveja. [29]

De Wartburgo (14 de maio de 1541) mandava dizer: Ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die — “Aqui passo todo o dia no ócio e na embriaguez” [30]. Na noite em que o reformador, em companhia de outros, chegou a Erfurt (19 de outubro de 1522) não se fez senão “beber e gritar, como de costume” [31], escreve Melanchton presente à cena.

O nobre motivo por que o reformador ia pedir ao aturdimento do vinho e da cerveja a distração e a paz que não encontrava na consciência, declara-o ele próprio numa carta consolatória a um amigo (6 de novembro de 1530). Jerônimo Weller era trabalhado de frequentes acessos de melancolia. Lutero, como bom diretor espiritual, manda-lhe esta receita anti-hipocondríaca:

Quando te vexar o diabo com estes pensamentos, palestra com os amigos, bebe mais largamente, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. De quando em quando se deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias… Quando te disser o diabo: não bebas, responde-lhe: por isso mesmo que me proíbes hei de beber e em nome de Jesus Cristo beberei mais copiosamente… Por que pensar que eu bebo, assim, com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade e banqueteio-me com mais frequência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar a mim?... Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo. [32]

E se bem o aconselhava, melhor o fazia. Era em comezainas pantagruélicas, entre o espumar dos vinhos generosos e os vapores das iguarias fumegantes que se reuniam os concílios dos novos reformadores e se decidiam as questões mais transcendentes do dogma e da moral evangélica.

Retrato de Martinho Lutero em seu leito mortuário.

Na manhã seguinte à da morte de Lutero encontraram-no por terra com o abdome intumescido pelo “demasiado comer e beber. O reformador tivera no dia precedente uma mesa ricamente preparada e abundância de vinhos doces e estrangeiros” [33].

Assim acabou como um gastrônomo e libertino vulgar o apóstata que se arvorara em reformador do cristianismo. “Na hierarquia dos anjos rebeldes, em que pese aos seus amigos, Lutero ocupa o degrau mais baixo, mais próximo do lodo e do pântano” [34].

E as sombras morais do homem projetam-se sobre toda a sua obra. Ante o espetáculo desta vida desregrada, temos o direito de pedir aos nossos adversários que nos demonstrem com razões peremptórias que este monge devasso, beberrão, grosseiro e insultador foi o eleito de Deus para reconduzir à sua pureza primitiva a Igreja de Santo Tomás e de São Bernardo, de São Gregório e de São Leão, de Santo Agostinho e de Santo Irineu.

Referências

  1. Certus sum dogmata mea habere de caelo, “Estou certo de ter recebido dos céus os meus dogmas”, Weimar, X, 2 Abt., p. 184.
  2. De Wette, II, 538; Weimar, XV, 240.
  3. Weimar, XVIII, 96-97.
  4. Weimar, XX, 724.
  5. Erl., XII, 218-21; XLVI, 205.
  6. Cf. Weimar, XXX, 3 Abteilung, 317.
  7. Weimar, XL, 1 Abt., 132.
  8. Weimar, X, 2 Abt., 107.
  9. Weimar, X, 2 Abt., 184.
  10. Weimar, XV, 1 Abt., 180-1.
  11. Weimar, XVIII, 86 sg.
  12. De Wette, IV, 254, 256.
  13. De Wette, I, 234.
  14. Weimar, II, 72.
  15. Cf. De Wette, I, 498.
  16. De Wette, I, 522, 500; Weimar, VII, 44.
  17. Weimar, II, 69ss.
  18. Erl., XXVI, 50ss. Aqui, porém, como tantas outras vezes, Lutero falta à verdade. Mas o caráter do homem revela-se do mesmo modo.
  19. Cf. Doellinger, Die Reformation, III, 205ss.
  20. Cf. Bossuet, Hist. des Variations, l. 2, n. 10.
  21. Erl., XXXII, 420, 422.
  22. Weimar, XII, 237.
  23. Weimar, VI, 501.
  24. De Wette, II, 40, 41.
  25. De Wette, II, 655.
  26. De Wette, III, 2, 3.
  27. Melanchton, Brief an Camerarius über Luthers Heirat von 16 Junii 1525, von P. A. Kirch, Mainz, 1900, p. 8, 11.
  28. Burkardt, Dr. M. Luth. Briefwechsel, Leipzig, 1866, p. 357. Cit., por H. Brück, Lehrbuch der Kirchengeschichte (4), Mainz 1888, p. 614.
  29. De Wette, IV, 553.
  30. De Wette, II, 6.
  31. Corpus reformatorum, I, 579.
  32. De Wette, IV, 188.
  33. Paulus, Luthers Lebensende und der Eislebener Apotheker Johann Landau, Mainz, 1896, p. 5.
  34. Th. Mainage, Témoignage des Apostats (2), Paris, Beauchesne, 1916, p. 76.

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Jejuar ainda? Por quê?
Espiritualidade

Jejuar ainda? Por quê?

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O jejum é um dos costumes religiosos mais antigos da história. Sua prática, no entanto, tem sido bastante desprezada por nossa sociedade consumista e sem autocontrole. Por que, então, mesmo assim, a Igreja continua a recomendá-la?

Pe. Blake BrittonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Julho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O jejum é uma das práticas religiosas mais antigas da história. Hoje, porém, numa sociedade dominada pelo consumismo, pelo materialismo e por uma falta de autocontrole generalizada, a disciplina do jejum é bastante desprezada. A Igreja Católica ainda é uma das poucas instituições no mundo que defende a dignidade dessa prática e a sua importância para a vida espiritual. Portanto, devemos nos perguntar: por que a Igreja é tão “inflexível” a respeito desse antigo costume e quais as origens dele?

S. Basílio Magno, em suas homilias para a Quaresma, observa que o jejum é tão antigo quanto a humanidade. Na verdade, foi a primeira ordem que os seres humanos receberam de Deus: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2, 17). De acordo com S. Basílio, foi a incapacidade de jejuar que levou à Queda no Éden. O jejum como tal é um dos remédios para recuperar a dignidade original de nossa identidade como filhos de Deus: “Fomos banidos do Paraíso porque não jejuamos. Portanto, jejuemos para retornar a ele” (Hom. 1 sobre o jejum).

S. Basílio reconhece um duplo propósito nessa ordem primordial de jejuar. Primeiro, o jejum ajuda a alma a amadurecer. Qualquer psicólogo reconhecerá que a falta de disciplina e autocontrole são sinais claros de imaturidade. A incapacidade de ser paciente, tomar decisões sensatas e desfrutar com responsabilidade de comida, bebida ou relacionamentos representa uma grave lacuna no desenvolvimento humano. É por isso que a prática regular da autodisciplina por meio do jejum é tão crucial para a vida espiritual. Não se trata apenas de renunciar a algo porque a Igreja assim o determina. Quanto mais praticamos a abstinência, mais maduros nos tornamos, saindo da imaturidade da satisfação imediata para a maturidade do consumo regrado. Pois o jejum é o “companheiro da sobriedade e o artesão do autocontrole” (Ibid.).  

Portanto, o jejum nos ajuda a fomentar uma virtude específica — a saber, o autocontrole, uma qualidade não muito comentada em nossa época. São Paulo o identifica como um dos frutos do Espírito Santo: “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 22–23). O termo grego usado por Paulo é enkrateia (ἐγκράτεια), que é composto de duas outras palavras: en (de dentro) e kratos (de uma raiz que significa “aperfeiçoar”). Portanto, ter autocontrole significa literalmente “aperfeiçoar-se desde dentro”. Essa definição nos ajuda a entender melhor a segunda afirmação de S. Basílio a respeito das consequências do jejum.

Para S. Basílio, o jejum feito de forma correta ordena os apetites do nosso corpo para o bem da alma: “Quanto mais negar a carne, mais radiante de saúde espiritual se tornará a alma” (Hom. 2 sobre o jejum). Aqui vemos a influência dos Padres do Deserto na espiritualidade de S. Basílio. Esses cristãos da Antiguidade eram inflexíveis quanto à reconquista da dignidade perdida por Adão no Éden. Reconheciam que o erro de Adão estava relacionado à falta de disciplina. Ele cedeu aos seus desejos mais básicos, perdeu de vista a elevada vocação da humanidade como imago Dei (a “imagem e semelhança de Deus”). Assim, monges como Abbá João (525 d.C.) fizeram o seguinte alerta: “Deveríamos sempre evitar o apego [às coisas terrenas], pois isso é prejudicial à alma”. 

Jesus mesmo ensina que “não só de pão vive o homem” (Mt 4, 4). Os seres humanos não são meros animais. Temos apetites que vão além do carnal. Nossa vontade não está orientada pelo instinto. Deve haver uma razão mais profunda para as nossas ações. Quando meu estômago ronca por causa do jejum, tenho nisso um lembrete da fome espiritual que a minha alma experimenta em todos os momentos da minha existência. Essa também é a lógica do jejum antes da recepção da Sagrada Eucaristia. Por meio do jejum eucarístico, meu corpo fica temporariamente “fundido” à fome da minha alma por Cristo no Santíssimo Sacramento.

A alma anseia constantemente pela misericórdia e bondade de Deus. Estamos alimentando esse desejo ou deixamos a nossa alma faminta? Estamos alimentando o nosso espírito com os alimentos nutritivos da Eucaristia, da Confissão, da Sagrada Escritura e da oração contemplativa? 

Sabemos que o jejum foi parte integrante da vida de Jesus, tanto que passou quarenta dias no deserto abstendo-se de alimento terreno. O Senhor não faz nada por acaso ou sem planejar. Todos os acontecimentos de sua vida nos ensinam algo profundo sobre a nossa própria existência como pessoas e a nossa vocação como cristãos. Encontramos no jejum de Cristo uma forma de participar da vida divina de Deus. Ao crescermos no autocontrole a partir dos nossos impulsos imaturos e ao alimentarmos a nossa alma de forma adequada por meio do jejum, sem dúvida cresceremos na intimidade com o Senhor, que nos ama.

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O Papa Leão XIII, cujo nascimento completa 210 anos neste ano, é talvez mais conhecido por seu marianismo. Ele foi um dos maiores promotores do Santo Rosário e foi o primeiro Pontífice a aplicar o título de Medianeira a Nossa Senhora. Porém, ele foi um dos maiores pensadores da modernidade, tendo esboçado para o mundo moderno uma filosofia do homem e da sociedade singularmente católica.

Antes de debatermos os escritos de Leão XIII, é necessário analisar o contexto em que foram elaborados. O nome de batismo de Leão XIII era Vicente Joaquim Pecci. Ele nasceu em 1810, numa Itália em que o Papa era mantido prisioneiro por Napoleão. Apesar da posterior derrota de Napoleão e da restauração dos Estados Pontifícios, as sementes da revolução já haviam sido lançadas, e durante as décadas seguintes a Igreja sofreria constantes ataques dos que buscavam unificar a Itália sob um governo liberal laico. Em 1870, Roma foi ocupada pelo novo Estado italiano. Pela primeira vez em mais de mil anos, o Papa não tinha posses temporais. Quando Leão XIII foi eleito em 1878, foi o primeiro Papa em séculos a não exercer nenhum poder temporal e a ficar integralmente à mercê de um Estado hostil. Leão XIII foi o primeiro Papa a passar seu pontificado inteiro atrás dos muros do Vaticano, impossibilitado de sair, para que não se tornasse vítima de uma agressão secular.

Embora a perda dos Estados Pontifícios tenha sido uma tragédia, ela permitiu que o Papa voltasse sua atenção para assuntos espirituais e para o ensino dos fiéis. Foi nesse contexto que Leão XIII desenvolveu seu grande corpus doutrinal, que procurou abordar os problemas centrais da sua e da nossa época.

As encíclicas de Leão XIII parecem ter sido escritas hoje e lidam com problemas que ainda perturbam a mente da sociedade moderna. Primordiais entre eles estão o papel da religião na sociedade e o problema do indiferentismo religioso, o papel do matrimônio e da família, o problema da criação de uma sociedade justa, e as ideologias que militam contra uma visão cristã da sociedade. 

Na modernidade, estamos acostumados a viver numa sociedade secular que exila a religião para a esfera privada. “Não falamos de Deus”, proclamou há alguns anos um político britânico de destaque. Nada poderia se opor mais à visão católica da sociedade tal como enunciada por Leão, particularmente em sua encíclica Immortale Dei. Embora a Igreja não tenha preferência por nenhum tipo de governo, toda autoridade na sociedade tem origem em Deus e está sujeita à lei divina

Apesar de Igreja e Estado serem domínios com funções distintas, Leão XIII afirma: 

Necessário é, pois, que haja entre os dois poderes um sistema de relações bem ordenado, não sem analogia com aquele que, no homem, constitui a união da alma com o corpo...: um tem por fim próximo e especial ocupar-se dos interesses terrenos, e o outro proporcionar os bens celestes e eternos (n. 19).

Portanto, é terrível para a Igreja defender um conjunto de valores enquanto o Estado arvora-se em princípios completamente opostos aos dela. Na sociedade moderna, todas as religiões são tratadas igualmente como verdadeiras, falsas ou com indiferença. A perspectiva da Igreja é radicalmente diferente. Leão XIII afirma que a obrigação de seguir a verdadeira religião vincula indivíduos e Estados: 

O maior de todos os deveres é abraçar de espírito e de coração a religião, não aquela que cada um prefere, mas aquela que Deus prescreveu e que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas. Assim também as sociedades não podem sem crime comportar-se como se Deus absolutamente não existisse, ou prescindir da religião como estranha e inútil, ou admitir uma indiferentemente, segundo seu beneplácito (n. 11). 

O Estado moderno, diz Leão:

não se julga jungido a nenhuma obrigação para com Deus, não professa oficialmente nenhuma religião, não é obrigado a perquirir qual é a única verdadeira entre todas, nem a preferir uma às outras, nem a favorecer uma principalmente; mas a todas deve atribuir a igualdade em direito, com este fim apenas, de impedi-las de perturbar a ordem pública (n. 32).

Relativamente à religião, pensar que é indiferente tenha ela formas disparatadas e contrárias equivale simplesmente a não querer nem escolher nem seguir qualquer delas (n. 37).

Esses ensinamentos parecem severos aos ouvidos modernos, mas realçam uma verdade essencial. A religião é importante. A religião professada por uma pessoa é importante. A religião professada pelos nossos governante é importante. Ela não é um assunto puramente neutro ou privado.

Igualmente inaceitável para o Papa Leão XIII é a prática — tão comum entre os políticos modernos! — de expressar em privado um conjunto de convicções religiosas e morais e outro em público. Como se estivesse prevendo a existência dos políticos contemporâneos [1], Leão XIII escreve o seguinte: 

Não é, tampouco, permitido ter duas maneiras de proceder: uma em particular e outra em público, de modo a respeitar a autoridade da Igreja na vida privada e a rejeitá-la na vida pública; isso seria aliar juntos o bem e o mal e pôr o homem em luta consigo mesmo (n. 59).

É necessário que um Estado tenha sólidos fundamentos religiosos. Mas isso não é tudo o que é necessário a uma ordenação adequada da sociedade. Um dos alicerces de qualquer sociedade estável e civilizada é a família baseada no casamento. A encíclica de Leão XIII Arcanum tinha por objetivo a defesa da união conjugal contra as ingerências de um Estado secular que a considerava apenas um contrato que poderia ser dissolvido como qualquer outro. Na encíclica Rerum Novarum, Leão XIII descreve a família como uma sociedade mais antiga que o Estado, que tem “certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado” (n. 6).

Na Arcanum, ele chama ao casamento base da união familiar, seu “início” e “fundamento”. Diz Leão XIII que o casamento “se deve dar somente entre dois, isto é, o homem e a mulher”; e que, “por vontade de Deus, o vínculo nupcial é tão íntima e fortemente unido, que ninguém entre os homens pode desfazê-lo ou rompê-lo” (n. 7). 

Essa afirmação pode não ter sido muito controversa em 1880, mas hoje Leão XIII seria denunciado por “discurso de ódio”. Numa época, porém, em que o “casamento gay” é autorizado pelo Estado e na qual já se fala em normalizar a chamada “não-monogamia consensual” [2], as palavras dele são mais relevantes e revigorantes do que nunca. 

O casamento é mais do que um contrato cujos termos podem ser ajustados para se adequar às preferências modernas. Nas palavras de Leão XIII: “Como o matrimônio seja, naturalmente, por sua própria natureza e força, uma coisa sagrada em tudo, é bem justo que seja regulado e moderado não pelo poder dos príncipes” (n. 29). Em outro ponto ele lança um alerta: “Ninguém se deve deixar impressionar por aquela distinção tão celebrada pelos regalistas com a qual distinguem o contrato nupcial do casamento, com a intenção de deixar o contrato em poder e arbítrio dos chefes de Estado, reservando para a Igreja as razões do sacramento” (n. 35). 

Antevendo a miséria que as leis de divórcio liberais causariam na sociedade, Leão XIII lamentou: 

Em verdade, é custoso ter necessidade de dizer quantas consequências funestíssimas encerra em si o divórcio. Pois por seu meio, tornam-se instáveis os matrimônios; diminui-se a benevolência mútua; prestam-se incitamentos perniciosos à infidelidade; causam-se prejuízos ao bem-estar e à educação dos filhos; dá-se ocasião à dissolução das sociedades domésticas; semeiam-se as sementes da discórdia entre as famílias... Por isso é claro que é um absurdo e uma loucura esperar a salvação pública dos divórcios, que levarão a sociedade à ruína certa (n. 46.54).

Deveríamos prestar atenção nessas palavras, pois as leis de divórcio sem culpa têm se tornado onipresentes em nações outrora conhecidas como cristandade. 

A verdadeira religião e a família fundada no matrimônio são base essencial para uma sociedade que busca o bem comum. Religião e família, porém, são cultivadas de forma mais eficaz no seio de uma sociedade justa do ponto de vista social. Hoje, o termo “justiça social” evoca imagens de esquerdistas agressivos promovendo uma agenda marxista que considera injusta a propriedade privada. Mas a perspectiva marxista ou socialista da propriedade coletiva é inteiramente contrária à imaginada por Leão XIII.

Em sua histórica encíclica Rerum Novarum, Leão XIII defendeu o direito fundamental do homem à propriedade, um direito resguardado pela lei natural. Porém, ele também deixa claro que é desejável que a propriedade seja distribuída da forma mais ampla possível e que, quanto maior o número de proprietários, melhor. A propriedade privada é necessária ao desenvolvimento da família, e todas as famílias devem adquirir propriedade a fim de transmiti-las aos filhos. No entanto, o Papa reconheceu que, na economia moderna, a aquisição de propriedade pode não ser fácil e que um homem, caso queira obter propriedade, deve receber um salário suficiente. Por isso, encorajou os empregadores a pagarem um salário justo para que o trabalhador pudesse garantir uma vida digna para si e para sua família:

O operário que receber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua família, se for prudente, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e agirá de forma que, com prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto patrimônio. Já vimos que a presente questão não podia receber solução verdadeiramente eficaz, se se não começasse por estabelecer como princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que as leis favoreçam o espírito de propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares (n. 28).

Leão XIII acrescenta:

O homem é assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua aplicação. Chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só o estritamente necessário, mas ainda uma certa fartura. Não há quem não descubra sem esforço os efeitos desta duplicação da atividade sobre a fecundidade da terra e sobre a riqueza das nações. A terceira utilidade será a suspensão do movimento de emigração; ninguém, com efeito, quereria trocar por uma região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais tolerável (n. 28).

Numa época em que muitos podem considerar difícil obter propriedade para si e em que ocorre imigração em massa entre países, as palavras de Leão XIII são especialmente relevantes.

Na Rerum Novarum, Leão XIII apresentou uma perspectiva de justiça social verdadeira. Porém, milita contra essa perspectiva a ideologia moderna do socialismo. Os socialistas, encorajados por uma falsa noção de igualdade, endossam a apreensão estatal da propriedade em nome da justiça para todos. Leão XIII denuncia isso de forma inequívoca, afirmando que “nem a justiça nem o bem público consentem que se danifique alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de que não há igualdade” (n. 21).

Dado que em 1891, ano da publicação da Rerum Novarum, ainda não havia existido um governo socialista, é bastante profética a previsão de Leão XIII a respeito do fracasso do socialismo na passagem abaixo:

Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas consequências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como consequência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria (n. 7).

Do mesmo modo, Leão XIII também critica o liberalismo laissez-faire, particularmente sua hostilidade à religião e às necessidades morais do trabalhador. 

No século XXI, a religião é considerada irrelevante e o casamento, reduzido a uma “preferência de estilo de vida”; condições sociais e econômicas tornam cada vez mais difícil a obtenção de propriedade, enquanto as ideologias liberal e socialista continuam a atacar os valores da civilização cristã. Neste contexto, não podemos senão restabelecer a ligação com os valores apresentados por Leão XIII, os quais poderiam formar a base para a reconstrução de nossa sociedade destroçada e lançar as sementes de uma contrarrevolução cristã.

Notas

  1. No texto original, o autor cita, nesta passagem, duas personalidades políticas de seu país: Nancy Pelosi e Joe Biden, ambos do Partido Democrata norte-americano. Preferimos omitir os nomes por se tratar de uma crítica específica do contexto dos Estados Unidos. Mas os leitores brasileiros podem fazer uma rápida pesquisa na internet sobre essas figuras e fazer os devidos paralelos com o que temos aqui (n.d.t.).
  2. Também aqui, o autor cita a iniciativa de um conselho profissional dos EUA, a Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association), que dirige um grupo de trabalho sobre a “não-monogamia consensual”. Como o termo, infelizmente, também tem as suas ocorrências na língua portuguesa, preferimos manter a expressão e omitir o fato que, mais uma vez, só tem sentido dentro do contexto específico norte-americano (n.d.t.).

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Uma oração para os médicos
Oração

Uma oração para os médicos

Uma oração para os médicos

Oferecemos a nossos leitores tradução privada de uma oração, publicada por Pio XII, a ser recitada pelos médicos. Nela se pedem a Jesus Redentor, “Médico das almas e dos corpos”, as graças necessárias para o reto exercício dessa tão importante profissão.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 1 minutos
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Oração dos médicos,
promulgada e indulgenciada [1]
pelo Sumo Pontífice Pio XII

Ó divino Médico das almas e dos corpos, Jesus Redentor, que durante a vossa vida mortal tivestes predileção pelos enfermos, curando-os com o toque da vossa mão onipotente, nós, chamados à árdua missão da medicina, Vos adoramos e em Vós reconhecemos o nosso excelso modelo e sustentáculo.

Guiai sempre nossa mente, coração e mãos, de modo que mereçamos o louvor e a honra que o Espírito Santo tributa ao nosso ofício (cf. Eclo 38).

Aumentai em nós a consciência de que somos, de algum modo, colaboradores vossos na defesa e no desenvolvimento das criaturas humanas, e instrumentos da vossa misericórdia.

Iluminai as nossas inteligências na áspera provação contra as inumeráveis enfermidades do corpo, a fim de que, valendo-nos retamente da ciência e seus progressos, não nos sejam ocultas as causas dos males nem nos induzam em engano os seus sintomas, mas possamos indicar com seguro juízo os remédios dispostos pela vossa Providência.

Dilatai com o vosso amor os nossos corações, de modo que, reconhecendo a Vós mesmo nos doentes, particularmente nos mais abandonados, respondamos com incansável solicitude à confiança que depositam eles em nós.

Fazei que, imitando o vosso exemplo, sejamos paternos no compadecimento, sinceros no aconselhamento, diligentes no tratamento, alheios à ilusão, suaves no prenúncio do mistério da dor e da morte; sobretudo, que sejamos firmes ao defender, contra os assaltos do egoísmo e dos instintos perversos, a vossa santa lei do respeito à vida.

Como médicos que nos gloriamos do vosso nome, prometemos que a nossa atividade se moverá constantemente na observância da ordem moral e sob o império das suas leis.

Concedei-nos, enfim, que nós mesmos, pela conduta cristã da vida e pelo reto exercício da profissão, mereçamos um dia escutar dos vossos lábios a beatificante sentença, prometida àqueles que Vos visitaram enfermo nos irmãos: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado” (Mt 25, 34). Assim seja.

10 de maio de 1957

Nosso Emin.º Sr., Papa por providência divina, Pio XII benignamente se dignou conceder aos médicos indulgência parcial de três anos sempre que, de coração contrito, recitarem devotamente a oração acima referida. Não obstante quaisquer disposições contrárias.

N. Card. CANALI, Penitenciário-Mor

S. Luzio, Regente

Notas

  1. De acordo com as normas para a concessão de indulgências, uma “indulgência anexa a alguma oração pode ganhar-se em qualquer língua em que se recite, desde que a tradução seja fiel, por declaração da Sagrada Penitenciaria ou de um dos ordinários ou jerarcas locais” (Enchiridion Indulgentiarum, n. 25). Como a tradução que aqui apresentamos é privada (feita por um aluno, a quem agradecemos a generosidade, e adaptada por nossa equipe), não goza da aprovação eclesiástica necessária à aquisição da indulgência a ela anexa. Os que quiserem lucrá-la, no entanto, podem encontrar a versão italiana original em AAS 49 (1957), p. 428.

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Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos
Sociedade

Santa Sofia
e a Sabedoria que perdemos

Santa Sofia e a Sabedoria que perdemos

Sem a fé dos que as construíram, de nada adianta ter igrejas belíssimas. É triste dizê-lo, mas, com a transformação de Santa Sofia em mesquita, os muçulmanos só tomaram o que, já há muito tempo, nem nosso era.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Calma! 

Ninguém aqui quer convocar uma “cruzada” ou algo do tipo pela retomada de Santa Sofia, a antiga igreja recém-convertida em mesquita (de novo!) pelo sr. Erdogan, presidente da Turquia… 

Esse texto é, antes, sobre a Άγια Σοφία (Hagia Sophia) propriamente dita, isto é, a Santa Sabedoria, a quem foi dedicada essa igreja. 

Interior de Santa Sofia, hoje.

Ao contrário do que poderia pensar alguém que lê a expressão pela primeira vez, não, não se trata de um “ente abstrato” e fantasioso, nem de uma mulher chamada Sofia, nem mesmo do dom do Espírito Santo: a basílica da antiga Constantinopla, então capital do Império Bizantino, foi dedicada no dia 25 de dezembro de 537 à Sabedoria que “se fez carne e habitou entre nós”, Jesus Cristo. É o templo cristão por excelência, poderíamos dizer, pois que consagrado não a este ou àquele santo, mas ao Santo dos Santos, por assim dizer, a fonte da própria santidade, a Segunda Pessoa da divina Trindade. Colocando de forma mais simples: estamos falando de um templo antiquíssimo, originalmente dedicado ao Deus verdadeiro.

Foi a Ele que perdemos em primeiríssimo lugar, muito antes de perder um mero templo religioso, por mais significativo que seja o seu valor histórico, artístico e cultural. Sim, nós perdemos a Santa Sabedoria. E isso significa que deixamos de ser sábios, tornamo-nos (com o perdão da palavra) burros, de modo que a palavra da Escritura nunca pareceu tão apropriada quanto à nossa época: Stultorum infinitus est numerus, “O número dos estultos é infinito” (Ecl 1, 15).

Emburrecemos já faz um tempo, e poderíamos trazer muitos fatos para ilustrá-lo. (Os jornais e noticiários estão cheios deles.) Mas resumamos o desastre identificando a sua causa: segundo S. Tomás (cf. STh II-II 15, 3), a cegueira da mente está intimamente associada aos vícios carnais, que são a gula e, ainda mais, a luxúria. Ou seja, é por ter-se rendido desenfreadamente aos prazeres do sexo, chegando a fazer uma “revolução” em maio de 1968, que a humanidade experimenta hoje um anestesiamento geral das consciências. Hipnotizadas, as pessoas se tornaram incapazes de elevar-se acima do que podem ver, tocar, sentir. Em consequência, a sua capacidade de compreender a verdade ficou comprometida. Nunca antes as ideologias floresceram com tanta força e ganharam tanta adesão, graças também aos modernos meios de comunicação. Os homens deixam-se seduzir pela primeira filosofia barata que aparece, estão alienados em relação à completude da realidade que os rodeia.

A própria perda de Santa Sofia (agora, do templo) é interpretada por nossos “especialistas” em termos meramente materialistas: segundo um portal de notícias, “ao mudar o status de museu histórico, o presidente Erdogan distrai atenção de eleitores dos graves efeitos econômicos da pandemia do novo coronavírus”. É o velho vício marxista de sempre: seja qual for a notícia, nossos intelectuais só sabem interpretá-las sob a lente do dinheiro. Na cabeça da elite ateia que detém os meios de comunicação, nada mais há além de jogos políticos de interesses e poder. E é até compreensível que eles pensem assim, porque é mais ou menos isto mesmo: por não haver Deus (na cabeça deles, é claro), todos querem ser deuses. (Eles, inclusive, são os primeiros: basta pensar no sr. Xi Jinping, presidente da China, que tem obrigado famílias cristãs que recebem auxílio do governo a trocar, em suas casas, Jesus por uma imagem ou dele mesmo ou de Mao Tsé-Tung.)

Trata-se de uma deformação da realidade, sim, mas só o enxerga, só o pode enxergar, quem olha para o mundo com os olhos da fé. Mesmo a luz natural da razão, devido ao pecado original, só consegue iluminar um pouco o homem; se ele está dominado pelos vícios, então, sobra bem pouca esperança.

Por isso, a reconstrução da civilização, muito antes da retomada de uma igreja em particular, como Santa Sofia, é obra daqueles que já têm esta, viva e ardente, habitando em seus corações. São os cristãos, os discípulos da Sabedoria encarnada; sem eles, que são o sal da terra e a luz do mundo, não há esperança alguma neste vale de lágrimas.

É evidente que os cristãos não são, por si mesmos, a salvação, mas apenas na medida em que se configuram a Cristo salvador, que é a divina Sabedoria. Por isso, o que nos resta é:

1. Rezar. Por muitos séculos os cristãos cantaram, no hino Adoro te devote, composto por S. Tomás de Aquino, os seguintes versos:

O memoriále mortis Dómini,
Panis vivus, vitam praestans hómini,
Praesta meae menti de te vívere,
Et te illi semper dulce sápere.

“Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo, que dás vida ao homem,
Dá à minha alma de ti viver
E de ti ter sempre um doce saber.”

O verbo latino sapio, aqui no infinitivo, significa “saborear”, mas também é a palavra donde proveio a nossa “sabedoria”. Ou seja, aquilo que conhecemos através da fé, também precisamos saboreá-lo, e isso é feito através da oração contínua, frequente e perseverante. Precisamos rezar tanto quanto precisamos comer. Sem um trabalho de consideração, meditação, ruminação das verdades divinas, teremos sempre o horizonte limitado, estaremos sempre presos às nossas sensações, àquilo que esse mundo efêmero nos oferece… E, assim, passaremos também nós com as coisas do mundo.

2. Aceitar com alegria os sofrimentos que se nos apresentam. Que devamos conhecer e saborear o memorial da morte do Senhor, sabia-o também o Apóstolo São Paulo:

Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1Cor 2, 1–2).

Esse último acréscimo do Apóstolo, aqui, não é ocioso: é preciso conhecer Cristo, mas Ele crucificado; isto é, o caminho para chegar a Ele nesta vida, o caminho para nos unirmos a Ele, é a cruz, o sofrimento, a provação. 

E não é que precisemos sair à procura de cruzes a carregar: as próprias circunstâncias da vida, cuidadosamente ordenadas por Deus, encarregam-se de nos trazer dificuldades muitas vezes suficientes. Talvez seja uma doença que descobrimos, que nos provoca dor, nos desconforta e debilita; talvez seja uma tragédia que se abateu sobre nossa família e que precisamos suportar com coragem; talvez seja a necessidade econômica, que nos priva do básico e quebra o orgulho. 

Colocando todas essas coisas na oração, como dissemos acima, vamos saber que Deus está por trás de tudo o que nos acontece; que, como diz o Beato Carlos da Áustria, “estamos nas mãos da divina Providência”e, portanto, “tudo o que nos acontece está bem”; que, de fato, “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28); que só o que nos resta é confiar e saborear o zelo de Deus para conosco, que nos permite o mal para crescermos no bem. Assim, também estaremos testemunhando aos mais próximos como Deus nos governa com santa sabedoria.

3. Ter filhos. Se há uma sabedoria que precisamos resgatar com urgência — e está nas nossas mãos fazê-lo —, é aquela que Deus escreveu no próprio ser do homem e da mulher. Quando eles se unem, naturalmente nascem filhos! Redescobrir essa verdade óbvia, tão óbvia quanto o fato de a grama ser verde, é não só o remédio para os vícios da carne, de que nossa época padece de modo especial, mas também a receita para fortalecer a sociedade e a Igreja. (Os muçulmanos já estão fazendo a sua parte nesse sentido; se seus numerosos filhos seguirem a religião paterna, os átrios de suas mesquitas dificilmente ficarão vazios.)

4. Ensinar a fé. É claro que não basta ter filhos; importa sobretudo educá-los, e fazê-lo bem. O Papa Pio XI, na Encíclica “Casti Connubii” (que completa seu 90.º aniversário em dezembro próximo), ensina que os pais devem ser fecundos não apenas para, segundo a ordem divina, propagar e conservar na terra a família humana, tampouco para “educar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus”, mas principalmente para “subministrar filhos à Igreja” e “propiciar concidadãos santos e familiares de Deus” (n. 14). Ou seja, uma vez instruídos pela divina Sabedoria, na vida de oração, na aceitação contínua e perseverante da vontade de Deus em nossas vidas, é preciso que passemos adiante o que recebemos.

Se fizermos esse quádruplo “dever de casa”, retomando em nossas próprias vidas a Santa Sabedoria que perdemos por nosso egoísmo e incredulidade, quem sabe em alguns anos não possamos retomar, também, o templo que há tanto tempo nos foi tirado pelos muçulmanos. Sem o primeiro passo, no entanto, qualquer conjectura de “reconquista” não passará de inútil esforço humano. 

A frase parecerá clichê, mas é verdadeira: a Santa Sabedoria que por tanto tempo habitou o templo de Constantinopla precisa voltar a habitar, primeiro, em nossos corações e nos de nossas famílias. Só poderemos pensar em retomar as igrejas que a Igreja tem perdido, não só na Turquia, mas na Europa inteira, no dia em que nos convencermos de que há um Deus verdadeiro pelo qual vale a pena dar não só uma hora dos nossos domingos, um bocado de dízimo ou uma novena em tempos de crise… Por Ele vale a pena gastar a nossa vida inteira, transformar os nossos maus hábitos, desfazer-nos de nossos apegos infantis e enfrentar com coragem a aventura desta breve vida.

Hoje, se os cristãos retomassem Santa Sofia, a única coisa que eles conseguiriam fazer seria transformá-la no que ela vinha sendo desde 1930: um museu, um “patrimônio histórico”. E nada mais. E também isso é de se lamentar. Não tanto quanto nos lamentamos, agora, pela islamização de Santa Sofia, é claro. Mas se o máximo que o Ocidente pode oferecer ao Deus verdadeiro é um museu; ou melhor, se o ente máximo de que devemos esperar algum reconhecimento é a UNESCO (que considerou Santa Sofia um “patrimônio histórico” da humanidade); se a máxima expressão da religiosidade moderna é um templo cristão dessacralizado, é porque já há muito perdemos a de nossos pais, que construíram a Basílica de Santa Sofia. 

E, sem a fé deles, de nada adianta ter igreja alguma. Só nos restarão ruínas e devastação.

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