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Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?
História da Igreja

Com que direito Lutero
pretendia “reformar” a Igreja?

Com que direito Lutero pretendia “reformar” a Igreja?

Lutero negou a autoridade, negou a Tradição, negou o Magistério, negou a Igreja orgânica, visível e hierárquica. Mas com que direito? Quais as credenciais desta sua embaixada extraordinária?

Pe. Leonel Franca31 de Outubro de 2017
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Lutero começou por negar. Negou a autoridade, negou a tradição, negou o magistério eclesiástico, negou a Igreja orgânica, visível, hierárquica. Com que direito? Com que títulos? Não existia havia 15 séculos o cristianismo? Não ascendiam os seus pastores, os seus bispos, os seus papas, por uma sucessão ininterrupta até aos apóstolos, até ao próprio Cristo?

— Mas a Igreja Católica havia perdido o espírito primitivo, havia adulterado os ensinamentos do Evangelho, havia-o sobrecarregado com uma farragem de superstições humanas, havia-o prostituído com a idolatria de Babilônia.

— E como o sabe ele? Como o prova? Não havia Cristo prometido a sua assistência infalível à Igreja? Não lhe havia assegurado que com ela estaria todos os dias até à consumação dos séculos?

Não importa. Lutero entrincheira-se na Bíblia. — Mas a Bíblia, quem a interpreta? Não a possuía, não a possui porventura a Igreja Católica? Não a liam todos os Santos Padres e Doutores? Não a conheciam todos os concílios? Não a vulgarizavam todos os santos reformadores? E por que a nenhum ocorreu a ideia de começar uma reforma destruindo a Igreja em nome da Escritura, de embandeirar a Bíblia em pendão de revolta contra a autoridade constituída por Cristo?

Lutero, porém, possui um segredo especial de exegese desconhecido de toda a antiguidade eclesiástica. Ele, o frade despeitado, guinda-se às alturas proféticas de novo evangelista, recebe diretamente ilustrações do Espírito Santo, comunica com o santuário da Trindade [1] e dos seus recessos inacessíveis traz ao mundo o dom de uma hermenêutica sacra, de cujo bojo sai um cristianismo todo novo.

Destarte, de consequência em consequência, Frei Martinho é obrigado a arvorar-se uma missão divina, a atribuir-se uma legação religiosa especial.

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

Ora, onde estão as credenciais desta embaixada extraordinária? Nenhum homem pode levantar-se no meio dos seus semelhantes e afirmar, sem provas cabais, que é um enviado do Altíssimo. Nenhum homem pode guindar-se à trípode dos oráculos e daí legislar religião para a humanidade sem antes demonstrar apoditicamente a autenticidade de sua missão plenipotenciária. Religião, só Deus a pode impor ao homem. Falar à consciência religiosa, ensinando verdades a crer e preceitos a praticar, sem títulos divinos, sem autorização divina, sem sanção divina, é embuste, é impostura, é charlatanismo. Nossa dignidade de seres racionais revolta-se contra semelhantes exploradores da credulidade pública. — Profeta de Wittenberg, onde estão as cartas de crença de tua missão divina?

A garantia que temos da origem celeste de uma doutrina reside na autoridade recebida do alto por aquele que no-la propõe.

Ora os sinais com que Deus chancela a autoridade dos seus enviados são os milagres: milagres que se manifestam na ordem física, milagres que resplendem na santidade irrepreensível do divino enviado. Só o milagre, intervenção extraordinária da divina onipotência, pode autenticar as missões do céu.

Com milagres provou Jesus a sua messianidade (cf. Jo 5, 36; 10, 37-38; 15, 22; Mt 12, 39-40); com milagres sigilou Deus a embaixada dos seus apóstolos (cf. 2Pd 1, 18; 2Cor 12, 12; Mc 16, 20); no milagre reconheceu sempre a apologética cristã, firmada nos princípios da razão e nos ensinamentos dos livros inspirados, a assinatura inimitável do divino Autor nas suas manifestações extraordinárias à humanidade.

O próprio Lutero reconheceu a necessidade desta autenticação celeste. Querendo impedir a pregação de Tomás Müntzer em Mulhouse, escreve em 1524 aos magistrados desta cidade que, se o turbulento inovador não puder provar com obras extraordinárias a sua missão, não o recebam. “Se ele disser que Deus e o seu espírito o enviam como aos apóstolos, que o prove com prodígios e milagres; do contrário, proibi-lhe a pregação” [2].

Quando Carlostadt, apelando para ilustrações divinas, o contradisse, Lutero intimou-o a demonstrar com milagres a sua vocação: “É necessário que Deus manifeste com obras milagrosas que revoga os seus antigos preceitos” [3]. E alhures:

Quem quer pôr em campo alguma novidade ou ensinar doutrinas diversas deve ser chamado por Deus e comprovar a sua vocação com verdadeiras ações prodigiosas. Quem não a puder demonstrar deste modo, abra mão da empresa et in malam rem abeat. [4]

Julgando-o por esta craveira, que milagres fez Lutero? Que milagres fizeram os primeiros reformadores para atestar o caráter divino de sua missão? De todos os protestantes escreveu, gracejando, Erasmo, que até então não haviam endireitado a perna a um cavalo coxo. Lutero acabou por perceber esta lacuna na sua missão, mas, por um destes truques de sofista em que era useiro e vezeiro, virou de bordo e proclamou o milagre uma inutilidade… Depois, triunfando exclama: “Não hão de ver milagres feitos por nós”, porque, se os fizéramos, o mundo os havia de atribuir ao diabo [5]!

E profecias? — Há uma que ocorre frequentemente nos escritos dos primeiros inovadores: a iminente ruína do Papado. Lutero gostava muito do verso Pestis eram vivens, moriens tua mors ero, papa, isto é, “Em vida eu era a tua peste, morrendo, serei a tua morte, ó Papa!” Inseriu-o numa carta em 1527; mais tarde, com um pedaço de giz, escreveu-o nas paredes do quarto onde, poucas horas depois, o salteou de improviso a morte. — Depois de quatro séculos podemos dizer que a esmagadora realidade histórica não abonou os títulos proféticos do vate saxônio.

Além dos prodígios físicos, que são extrínsecos ao taumaturgo, há outro milagre de ordem moral, que, por assim dizer, se consubstancia com a sua própria pessoa: é a santidade da vida. Um homem que pode atirar aos seus adversários a luva, dizendo-lhes: Quis ex vobis arguet me de peccato?, “Quem de vós me pode acusar de pecado?” (Jo 8, 46). Um homem, em cuja veracidade não pode caber a mínima suspeita de impostura, merece lhe prestemos fé. Nesta grandeza moral, superior à fragilidade humana temos uma fiança de que Deus está com ele. Salvas as proporções necessárias, o que se diz de Cristo vale de um puro homem que se apresenta na história com uma missão divina.

Ora, deram os primeiros reformadores este espectáculo edificante de santidade? Oh, se o protestantismo pudera passar uma esponja sobre as nódoas que enxovalham as origens vergonhosas! Mas a história não se apaga e a verdade beneficia sempre de suas lições indeléveis.

Pouco a pouco, a despeito de dificuldades inauditas, rasgou-se o véu que cobria ao mundo as torpezas e incoerências destas vidas vergonhosas e a posteridade pregou os patriarcas do protestantismo no pelourinho da ignomínia e da execração pública.

Não é meu intuito humilhar aqui os protestantes. Quisera tão somente iluminá-los. Verdades que amargam são muitas vezes verdades que salvam.

Lutero inaugura a sua missão com o gravíssimo pecado do sacrilégio e da apostasia. Jovem, era livre. Um dia, enamorado do ideal evangélico de perfeição, desejoso de seguir de perto a Cristo, estende espontaneamente a mão sobre o altar e pronuncia os votos religiosos de pobreza, obediência e castidade. Passam os anos. Raia o dia do seu sacerdócio. Ainda uma vez, quando o crisma sagrado lhe ungia as mãos, o neolevita renova a consagração do religioso. Mais tarde, que faz Lutero de todas estas promessas firmadas com a santidade inviolável do juramento? Quebra a fé empenhada, rasga os seus compromissos, atira o burel de religioso às urtigas e enxovalha a candura da estola sacerdotal no lodo de um casamento duplamente sacrílego!

O orgulho fizera o fedífrago, o orgulho cegou o doutor. Na sua autossuficiência dir-se-ia que esqueceu não só a humildade evangélica mas as reservas da modéstia mais elementar. Até ao aparecimento do seu Evangelho ninguém soubera quem era Cristo, que eram os sacramentos, que era a fé, quem era Deus e a sua Igreja [6]. Os Santos Padres, os Apóstolos, os Concílios, a Igreja toda errou! Sua doutrina é a única verdadeira. “Muito embora a Igreja, Agostinho e os outros doutores, Pedro e Apolo e até um anjo do céu ensinem o contrário, minha doutrina é tal que só ela engrandece a graça e a glória de Deus e condena a justiça de todos os homens na sua sabedoria” [7]. Qualquer dos seus sequazes, as crianças que estudaram os seus ensinamentos, sabem mais em matéria de religião e de cristianismo que todos os religiosos e todas as escolas católicas. — Que demência de soberba!

Mais ao vivo ainda se revela o frenesi desta inteligência decaída, nestas palavras que não têm semelhantes nos fastos do despotismo e do orgulho humano:

Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu juízo é o juízo de Deus. [8]

Tenho certeza que meus dogmas vêm do céu… eles hão de prevalecer e o Papa há de cair a despeito de todas as portas de inferno, a despeito de todos os poderes dos ares, da terra e do mar. [9]

Não devemos ceder aos ímpios papistas… Nossa soberba contra o Papa é necessária… Não havemos de ceder nem a todos os anjos do céu, nem a Pedro, nem a Paulo, nem a cem imperadores, nem a mil Papas, nem a todo o mundo… a ninguém, cedo nulli. [10]

Orgia de orgulho satânico ou caso de patologia mental?

Não é pois de maravilhar que este homem assim enfatuado de sua ciência, depois de haver negado a infalibilidade do Papa e proclamado a liberdade de exame para legitimar os próprios excessos, se tenha arvorado em cátedra inerrante de fé, constrangendo os seus sequazes a curvarem submissos a fronte ante os arestos inapeláveis de suas decisões infalíveis. Não houve tirania mais insuportável nem arrogância mais impetuosa que a deste pregador do livre exame.

Lutero pregando em Wartburgo, de Hugo Vogel.

Todos os seus correligionários gemem sob o peso de seu jugo de ferro. Müntzer dizia: “Há dois papas: o de Roma e Lutero, e este mais duro”. Ao seu confidente Bulinger escrevia Calvino: “Já não é possível suportar os arrebatamentos de Lutero: cega-o a tal extremo o amor próprio que não vê os próprios defeitos nem tolera que o contradigam”. Contra Carlostadt, seu antigo mestre, que em tirar as conclusões da nova doutrina foi além do que pretendia o reformador, obteve o decreto de expulsão da Saxônia e não o readmitiu senão com a promessa de “não defender em público, por palavra ou por escrito, suas opiniões contrárias à de Lutero” [11]. A Müntzer, por motivo análogo, cessou a liberdade de palavra, apesar do verbum Dei non est alligatum — “a Palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2, 9) — que ele tantas vezes invocara contra a Igreja Católica. Assim entendia Lutero o livre exame!

Ao ver esta prepotência com que o chefe da Reforma impunha despoticamente as suas opiniões, crê toda a gente sensata que nada mais firme, nada mais assentado e maduramente refletido que a nova doutrina. Erro. O inculcado emissário divino que modestamente se prefere a todos os doutores do céu e da terra, que blasona de inspirado do Espírito Santo, que recebeu “os seus dogmas do céu”, hesita, retrata-se, contradiz-se, assenta e destrói dogmas pelos motivos mais fúteis, muda de opinião como um ator de roupa.

Trata-se do batismo sob condição. A 12 de maio de 1531 escreve Lutero a Link: “Quanto ao batismo sob condição, depois de diligente ponderação definimos (!) que deve simplesmente eliminar-se da Igreja”. Poucas horas bastaram para mudar-lhe o cânon definido após “diligente ponderação”. No dia seguinte, novamente inspirado sem dúvida, escreve a Ossiandro: “Não posso condenar o batismo sob condição dado às crianças de cujo batismo se duvida” [12].

Em 1519 escreve: “Confesso plenamente o supremo poder da Igreja Romana; fora de Jesus Cristo, Senhor Nosso, nada no céu e na terra se lhe deve preferir” [13]. Esta Igreja “é a predileta de Deus; não pode haver razão alguma, por mais grave, que autorize a quem quer que seja a apartar-se dela e, com o cisma, separar-se da sua unidade” [14]. Em 1520 na sua Epístola luterana tece os mais rasgados encômios a Leão X, louva-lhe a vida intemerata, superior a qualquer ataque [15]. Nesse mesmo ano já Leão X é o Anticristo, e a Igreja romana “uma licenciosa espelunca de ladrões, o mais impudente dos lupanares, o reino do pecado, da morte e do inferno” [16].

Em 1519, dois anos depois de haver iniciado publicamente a pregação da Reforma, defendendo-se dos adversários, ensina o culto dos santos, a existência do purgatório, a oração pelos defuntos, a prática do jejum, etc [17]. Alguns anos depois rejeita tudo isto como idolatria, superstição e fanatismo.

Em 1541, jura por Cristo que, ao iniciar a sua pregação contra o dominicano Tetzel não sabia nem o que significava a palavra indulgência! [18] E pensar que as indulgências foram o primeiro cavalo de batalha contra Roma, o especioso pretexto com que o monge agostiniano saiu a público para divulgar os seus erros e pregar a revolta!

Quanto à origem e legitimidade de sua missão, em pouco mais de 15 anos, Lutero mudou pelo menos 14 vezes de parecer [19].

Outro retrato de Martinho Lutero, desta vez, por certo, na famosa disputa de Leipzig.

O oportunismo decidia da escolha. Uma opinião servia-lhe para combater os católicos, outra para defender-se dos colegas, uma terceira para pacificar os ânimos turbulentos nas comunidades recém-formadas. O guarda-roupa do ator era bem provido: havia trajes para todas as personagens e todos os papéis.

Não fôra difícil continuar esse elenco. Quase não há dogma importante sobre o qual Lutero não tivesse, em épocas diversas, sustentado o sim e o não.

Não são menos instrutivas para o conhecimento da psicologia do reformador as razões que o induziam a abraçar suas opiniões. Acerca da comunhão sob uma ou duas espécie ele na sua Fórmula da Missa: “Se um Concílio ordenasse ou permitisse as duas espécies, por despeito ao Concílio, nós só receberíamos uma, ou mesmo, nem uma nem outro e anatematizaríamos os que, em virtude desta ordenação, recebessem as duas” [20].

De outra feita, declara haver finalmente suprimido a elevação da hóstia por despeito ao Papado e de havê-la conservado por tanto tempo por despeito a Carlostadt [21]. Com igual baixeza escrevia em 1523:

Se acontecesse que um, dois, mil ou mais concílios decidissem que os eclesiásticos pudessem contrair matrimônio, preferiria, confiado na graça de Deus, perdoar a quem, por toda a vida, tivesse uma, duas ou três meretrizes, do que aquele que, consoante à decisão conciliar, tomasse mulher legítima e sem tal decisão não a pudesse tomar. [22]

É ainda a mesma disposição dum ânimo acirrado contra os odiados papistas que lhe ditava estas linhas: “Enquanto eles (os papistas), a seu juízo, triunfam de uma heresia minha, quero propor outra” [23].

Sinceramente, esta linguagem, estas incertezas e contradições doutrinais, esta frivolidade em construir e destruir dogmas, esta soberba luciferina dizem bem num enviado do céu para restaurar o cristianismo?

Até aqui não acenamos senão aos vícios que mancham a parte superior do homem. Mas por uma lei infatigável da divina Providência, a soberba do espírito é castigada com as rebeldias da carne. Desce abaixo do bruto quem se arvora em divindade.

Retrato de Catarina de Bora.

Lutero oferece à história mais um triste exemplo desta punição providencial. Em 1521, uns restos de educação católica ditavam-lhe estas palavras de uma carta a Espalatino: “Santo Deus! Os nossos Wittenberguenses quererão casar também os frades? A mim é que não hão de impingir mulher… Toma tento e não cases para não incorreres nas tribulações da carne” [24]. Com os anos, as novas doutrinas abriram brecha no seu propósito. Em 1525, estalou às súbitas no mundo reformado a inesperada notícia que Lutero, aos 41 anos, havia casado com Catarina de Bora, egressa cisterciense. Que acontecera? O reformador resolvera-se repentinamente ao casamento para fechar a boca às más línguas.

As más línguas, porém, não taramelavam sem motivo. Numa carta de 1525 endereçada a Ruhel, conselheiro de Mansfeld, dizia o heresiarca: “Se posso, a despeito do demônio (sic!) inda hei de casar com a minha Catarina, antes de morrer” [25]. Como quer que seja, a impressão causada nos contemporâneos e correligionários foi das mais desfavoráveis. Lutero percebeu-o. “Com este meu casamento tornei-me tão desprezível que os anjos se hão de rir e os demônios chorar. Só em mim escarnece o mundo a obra de Deus como ímpia e diabólica” [26].

Retrato de Felipe Melanchton.

Numa confidência a Camerário dizia Melanchton: “Lutero era um homem extremamente leviano e as freiras [por ele soltadas dos conventos] que lhe armavam laços com grande astúcia acabaram por envisgá-lo. O frequente comércio com elas teria talvez efeminado um homem mais forte e de mais nobres sentimentos e ateado o incêndio” [27]. Qual tenha sido o resto da vida do ex-frade circundado desse elemento feminino capaz, no dizer de Melanchton, de enervar constituições morais de mais robusta envergadura, é fácil imaginar e inconveniente dizer.

Raras vezes a vida licenciosa vai desacompanhada dos excessos intemperantes da mesa. Em Lutero, a febre de concupiscência carnal era estimulada pela embriaguez e pela crápula. À sua Catarina escrevia em 1540: “Vou comendo como um boêmio e bebendo como um alemão, louvado seja Deus!” [28] Em 25 de julho de 1534 de novo à Catarina:

Ontem aqui bebi mal e depois fui obrigado a cantar; bebi mal e sinto-o muito. Como quisera haver bebido bem ao pensar que bom vinho e que boa cerveja tenho em casa, e mais uma bela mulher… Bem farias em mandar-me daí toda a adega bem provida do meu vinho e, o mais frequentemente que puderes, um barril de tua cerveja. [29]

De Wartburgo (14 de maio de 1541) mandava dizer: Ego otiosus hic et crapulosus sedeo tota die — “Aqui passo todo o dia no ócio e na embriaguez” [30]. Na noite em que o reformador, em companhia de outros, chegou a Erfurt (19 de outubro de 1522) não se fez senão “beber e gritar, como de costume” [31], escreve Melanchton presente à cena.

O nobre motivo por que o reformador ia pedir ao aturdimento do vinho e da cerveja a distração e a paz que não encontrava na consciência, declara-o ele próprio numa carta consolatória a um amigo (6 de novembro de 1530). Jerônimo Weller era trabalhado de frequentes acessos de melancolia. Lutero, como bom diretor espiritual, manda-lhe esta receita anti-hipocondríaca:

Quando te vexar o diabo com estes pensamentos, palestra com os amigos, bebe mais largamente, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. De quando em quando se deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias… Quando te disser o diabo: não bebas, responde-lhe: por isso mesmo que me proíbes hei de beber e em nome de Jesus Cristo beberei mais copiosamente… Por que pensar que eu bebo, assim, com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade e banqueteio-me com mais frequência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar a mim?... Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo. [32]

E se bem o aconselhava, melhor o fazia. Era em comezainas pantagruélicas, entre o espumar dos vinhos generosos e os vapores das iguarias fumegantes que se reuniam os concílios dos novos reformadores e se decidiam as questões mais transcendentes do dogma e da moral evangélica.

Retrato de Martinho Lutero em seu leito mortuário.

Na manhã seguinte à da morte de Lutero encontraram-no por terra com o abdome intumescido pelo “demasiado comer e beber. O reformador tivera no dia precedente uma mesa ricamente preparada e abundância de vinhos doces e estrangeiros” [33].

Assim acabou como um gastrônomo e libertino vulgar o apóstata que se arvorara em reformador do cristianismo. “Na hierarquia dos anjos rebeldes, em que pese aos seus amigos, Lutero ocupa o degrau mais baixo, mais próximo do lodo e do pântano” [34].

E as sombras morais do homem projetam-se sobre toda a sua obra. Ante o espetáculo desta vida desregrada, temos o direito de pedir aos nossos adversários que nos demonstrem com razões peremptórias que este monge devasso, beberrão, grosseiro e insultador foi o eleito de Deus para reconduzir à sua pureza primitiva a Igreja de Santo Tomás e de São Bernardo, de São Gregório e de São Leão, de Santo Agostinho e de Santo Irineu.

Referências

  1. Certus sum dogmata mea habere de caelo, “Estou certo de ter recebido dos céus os meus dogmas”, Weimar, X, 2 Abt., p. 184.
  2. De Wette, II, 538; Weimar, XV, 240.
  3. Weimar, XVIII, 96-97.
  4. Weimar, XX, 724.
  5. Erl., XII, 218-21; XLVI, 205.
  6. Cf. Weimar, XXX, 3 Abteilung, 317.
  7. Weimar, XL, 1 Abt., 132.
  8. Weimar, X, 2 Abt., 107.
  9. Weimar, X, 2 Abt., 184.
  10. Weimar, XV, 1 Abt., 180-1.
  11. Weimar, XVIII, 86 sg.
  12. De Wette, IV, 254, 256.
  13. De Wette, I, 234.
  14. Weimar, II, 72.
  15. Cf. De Wette, I, 498.
  16. De Wette, I, 522, 500; Weimar, VII, 44.
  17. Weimar, II, 69ss.
  18. Erl., XXVI, 50ss. Aqui, porém, como tantas outras vezes, Lutero falta à verdade. Mas o caráter do homem revela-se do mesmo modo.
  19. Cf. Doellinger, Die Reformation, III, 205ss.
  20. Cf. Bossuet, Hist. des Variations, l. 2, n. 10.
  21. Erl., XXXII, 420, 422.
  22. Weimar, XII, 237.
  23. Weimar, VI, 501.
  24. De Wette, II, 40, 41.
  25. De Wette, II, 655.
  26. De Wette, III, 2, 3.
  27. Melanchton, Brief an Camerarius über Luthers Heirat von 16 Junii 1525, von P. A. Kirch, Mainz, 1900, p. 8, 11.
  28. Burkardt, Dr. M. Luth. Briefwechsel, Leipzig, 1866, p. 357. Cit., por H. Brück, Lehrbuch der Kirchengeschichte (4), Mainz 1888, p. 614.
  29. De Wette, IV, 553.
  30. De Wette, II, 6.
  31. Corpus reformatorum, I, 579.
  32. De Wette, IV, 188.
  33. Paulus, Luthers Lebensende und der Eislebener Apotheker Johann Landau, Mainz, 1896, p. 5.
  34. Th. Mainage, Témoignage des Apostats (2), Paris, Beauchesne, 1916, p. 76.

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Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade
Oração

Conheça e aprenda
a rezar a Ladainha da Humildade

Conheça e aprenda a rezar a Ladainha da Humildade

Uma oração simples, mas cativante, composta por um Cardeal da Igreja e amigo íntimo do Papa São Pio X.

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Novembro de 2017
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Nesta oração composta pelo Cardeal Merry del Val, secretário do Estado do Vaticano durante o pontificado de São Pio X, peçamos juntos ao Senhor a graça da humildade de coração, alicerce da vida interior e remédio eficaz contra o pecado da soberba.

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser difamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu,
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído,
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado,
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado,
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas,
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

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Onde estava a Igreja de Cristo antes de Lutero?
Igreja Católica

Onde estava a Igreja de Cristo
antes de Lutero?

Onde estava a Igreja de Cristo antes de Lutero?

Se a Igreja Católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, então ela nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos. Do contrário, Jesus Cristo nos enganou.

Pe. Leonel Franca16 de Novembro de 2017
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Da infalibilidade da Igreja deriva um corolário fatal a todas as heresias. Qualquer grupo de almas batizadas que se separa da comunhão dos fiéis e rompe com os ensinamentos e tradições antigas já está condenado pela sua própria novidade.

A Igreja de Cristo é una como a verdade. O Espírito Santo nela habita com a sua assistência continuada todos os dias, até a consumação dos tempos. Impossível assinalar uma época na história em que a Esposa do Verbo se tenha desviado da senda real da ortodoxia. As promessas divinas falhariam, Cristo deixaria de ser Deus e a religião por ele instituída afundaria para sempre no pego imenso das superstições humanas.

Após 15 séculos de cristianismo levante-se um monge no coração da Alemanha e lança ao mundo o pregão de uma reforma. Simples regeneração dos costumes?

Não, reforma doutrinal.

O que então se chamava doutrina cristã admitida pela Igreja universal era uma adulteração profunda do Evangelho, um acervo de superstições e idolatrias, patrocinadas pelo anticristo de Roma. A Igreja se havia apartado da verdadeira fé: era mister reconduzi-la às fontes genuínas do Evangelho.

Cristo errara a mão. Fundara uma sociedade fadada a destinos imortais. Plantara-a no mundo como cidade visível para acolher os eleitos. Mas apenas saída das suas mãos divinas, apenas o mundo pagão, com a paz de Constantino, viera buscar à sombra da cruz a verdade e a vida, a Igreja desfalece, corrompe-se, paganiza-se. Onze séculos de ignorância, de trevas e de superstições ensombraram a obra do Salvador.

"A entrega das chaves a S. Pedro", de Pietro Perugino.

Foi mister que um frade apóstata, sensual e orgulhoso apontasse no horizonte religioso da humanidade para reconduzi-la aos mananciais cristalinos do Evangelho, e, mais feliz, mais próvido, mais sábio, mais poderoso que o Cristo, fundasse uma nova Igreja de vitalidade menos efêmera, Igreja imorredoura e incorruptível, destinada a acolher sob as suas tendas as gerações do porvir. Eis a significação real do protestantismo. Eis outrossim a sua condenação, a seta fatal que se lhe embebeu no peito e há de arrastá-lo à morte inevitável.

Se Cristo é Deus, se Cristo fundou uma Igreja, essa é indefectível e imortal como as obras divinas. Mas se a Igreja caiu no erro, as portas do inferno prevaleceram contra ela e Cristo não manteve a sua promessa. Cristo enganou-nos, Cristo não é Deus, e o cristianismo é uma grande impostura. É tão forte a consequência que muitos protestantes por este motivo abjuraram o cristianismo. É o exemplo de Staudlin, que dizia:

Se na religião partimos de um princípio sobrenatural (como uma revelação, a Bíblia, por exemplo ou o Corão), cumpre necessariamente admitir que a Divindade, comunicando uma revelação ao homem, deve prover outrossim o modo de impedir que o sentido desta revelação não seja abandonado às arbitrariedades do juízo subjetivo. Esta inconsequência de Jesus Cristo não me permite considerá-lo senão como um sábio benfeitor. [1]

Ochin, outro protestante, que no dizer de Calvino, era mais sábio ele só que a Itália inteira, chegava pelo mesmo caminho à mesma conclusão. “Considerando, de um lado, como poderia a Igreja haver sido fundada por Jesus Cristo e regada com o seu sangue, e, do outro, como poderia ela ser fundamentalmente adulterada pelo catolicismo, como estamos vendo, conclui que aquele que a estabeleceu não podia ser o Filho de Deus; faltou-lhe evidentemente a Providência” [2]. E Ochin, renunciando ao protestantismo, fez-se judeu.

Nada, com efeito, mais diametralmente oposto aos ensinamentos e promessas do Evangelho do que a ideia de uma Igreja que pode desgarrar da sua primeira instituição, pregar o erro e a corrupção. O Espírito de Verdade habitará nela para todo o sempre: prometeu-o formalmente Cristo. Formalmente mandou-nos o Senhor que obedecêssemos à Igreja em todos os tempos e em todos os lugares. Não nos disse: Escutai a Igreja durante 300 ou 1.000 anos, mas ouvi-a sempre, sem nenhum limite de tempo, sem nenhuma reserva, sem nenhuma restrição. “Quem não ouve a Igreja, seja considerado como pagão ou pecador” (Mt 18, 17).

Ora, evidentemente, antes de Lutero existia uma Igreja, a Igreja católica, que por uma sucessão ininterrupta de pastores ascendia aos apóstolos, e, por meio dos apóstolos, ao próprio Cristo. Esta era a Igreja instituída pelo Salvador, esta a Igreja de que falam as promessas evangélicas. Fora dela, a história não conhece outra.

Quando nasceram as igrejas luteranas, calvinistas e anglicanas, já a Igreja católica tinha uma existência quinze vezes secular. Desde Jesus Cristo só há uma Igreja, a grande Igreja, como a chamavam os pagãos, a Igreja, simplesmente, sem epítetos derivados de nomes humanos, como a chamamos nós. Diante deste fato, afirmai agora que essa Igreja entrou a corromper-se no 4.º século e de todo adulterou a doutrina evangélica nas “trevas caliginosas da Idade Média” e tereis anulado as promessas de sua Providência, atributo distintivo da Divindade. Staudlin e Ochin são lógicos. Entre o catolicismo e o naturalismo deísta não há racionalmente meio termo. Se a Igreja católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos [3]. Se não, Jesus Cristo enganou-nos. Seitas cristãs acatólicas são superfetação parasitária destinada a uma existência efêmera.

Por uma feliz incoerência, porém, muitos protestantes não resvalaram até ao fundo do abismo. Parando à meia encosta, esforçam-se por conservar alguns restos de cristianismo. Mas nem estes deixaram de sentir o fio cortante do argumento: onde estava a Igreja antes de Lutero?

Pergunta capciosa? Não, pergunta molesta, pergunta irrespondível, pergunta que vale por si uma apologia inteira, pergunta inexoravelmente fatal ao protestantismo.

Referências

  1. Magazin de l’histoire de la religion, 3e. partie, p. 83.
  2. Citado na obra Dialogues sur le protestantisme, p. 55.
  3. Bem dizia aquele filósofo: Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes.

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Preguiçoso não entra no Céu
Espiritualidade

Preguiçoso não entra no Céu

Preguiçoso não entra no Céu

A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Mons. Ascânio Brandão14 de Novembro de 2017
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A Sagrada Escritura diz que a ociosidade é a mãe de todos os vícios, porque ensina muita maldade (cf. Eclo 33, 29).

Comentando esta passagem, escreve S. Bernardo:

O ferro se enferruja quando não se usa. O ar se corrompe e gera doenças quando não é agitado por muito tempo. A água sem correnteza torna-se fétida e nela se desenvolvem os insetos. Assim também o corpo que se corrompe pela preguiça torna-se uma sede de todas as más inclinações.

A ociosidade é má conselheira. Por isto um Padre da Igreja dizia: “Um homem ocupado só tem um demônio para o tentar. O preguiçoso tem cem”.

A preguiça é um grande mal. É mãe de todos os males. Preguiçoso não entra no céu. O Reino dos Céus padece violência. Só quem luta o alcança.

Nosso Senhor no Evangelho nos fala tanto da luta, da penitência, da cruz, do sacrifício, da guerra às paixões. Como seguir o Mestre de braços cruzados, na ociosidade?

O preguiçoso não pode se salvar. A preguiça leva a todos os vícios, à miséria neste mundo e à condenação eterna no outro.

Cuidado! Há uma preguiça espiritual verdadeiramente desastrada na piedade. É o mal dos nossos dias.

"Uma leitura interessante", de Miguel Jadraque y Sánchez Ocaña.

Muitos cristãos não perseveram na virtude por uma preguiça que os domina quando se trata das coisas eternas, do sacrifício, da luta pelo bem.

E queres saber quando nos domina esta preguiça espiritual? Eis os sinais:

  • Infidelidades contínuas à voz da consciência.
  • Um desprezo secreto das pessoas piedosas.
  • Distrações voluntárias e contínuas na oração.
  • Sacramentos recebidos com frieza e sem fruto.
  • Aborrecimento das coisas santas.
  • Inúmeras faltas repetidas e ausência de qualquer esforço para se corrigir.

Como sair deste triste estado?

Só há dois recursos: — Trabalho e Mortificação.

Referências

  • Transcrito e levemente adaptado de Meu ponto de meditação, do Padre Ascânio Brandão, Taubaté: Editora SCJ, 1941, p. 49s.

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Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima
Virgem MariaTeologia

Os fundamentos da
escravidão à Virgem Santíssima

Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima

O culto de escravidão sintetiza todos os cultos que devemos a Nossa Senhora, como Rainha que ela é de todo o universo.

Pe. Gabriel M. RoschiniTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2017
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Além do culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação e de imitação, à Virgem SS. é devido, como Rainha de todo o universo, um culto de escravidão. É este último ato de culto mariano que sintetiza todos os demais.

  • O escravo fiel à sua Rainha, se realmente o é, venera-a antes de tudo, reconhecendo sua singular excelência.
  • Em segundo lugar, ama-a e faz tudo o que a agrada, evitando tudo o que possa aborrecê-la.
  • Enche-se de gratidão por Ela, devido aos grandes favores que dela recebeu.
  • Está cheio de confiança em sua Rainha, se sabe que Ela conhece, pode e quer socorrê-lo em todas as suas necessidades.
  • O servo fiel à sua Rainha, enfim, se o é realmente, trata de imitá-la, uma vez que reconhece nEla o seu modelo ideal.

Eis aqui, portanto, como o ato de escravidão sintetiza todos os outros atos do culto singular que devemos a Maria SS., Mãe de Deus, Mãe dos homens, Corredentora do gênero humano, dispensadora de todas as graças divinas, modelo insuperável de nossa vida.

No conhecido Salmo 44, em que se celebram as núpcias do Rei messiânico, o autor inspirado não se esquece de ressaltar o culto de servidão tributado ao Rei incomparável e à Rainha, sua esposa, representada à sua direita. Diz-se do Rei que a ele se submeterão os povos (v. 6); põe-se de relevo a homenagem que lhe tributam suas filhas (v. 9). Depois, referindo-se à Rainha, o hagiógrafo nota como os habitantes de Tiro, uma das cidades ricas de então, vêm a Ela com seus presentes, e como os próceres do povo tratam de conquistar o seu favor (v. 13). Em outra parte, a Rainha é representada com um cortejo de virgens à sua volta, companheiras e servas suas, símbolo evidente daquela inumerável corte de almas — todas as almas verdadeiramente cristãs — que haveriam de servi-la.

Em outro lugar, prediz-se que todos os povos hão de servir o Rei messiânico: “Omnes gentes servient ei” (Sl 72, 11). Ora, não deveria dizer-se o mesmo da Rainha, Mãe e Esposa sua? Assim como Ela compartilha com Ele o domínio real sobre todas coisas, assim também deve compartilhar com Ele o culto de escravidão que lhe temos de tributar todos nós, já que o Rei e a Rainha constituem uma única pessoa moral.

O primeiro dos Padres da Igreja que se declarou expressamente “servo de Maria” foi, ao que parece, o diácono S. Efrém, o Sírio (306-373), chamado de “sol dos Sírios”, “harpa do Espírito Santo”, “o cantor de Maria”. Depois de proclamá-la “Senhora de todos os mortais”, S. Efrém se declara humildemente um “indigno servo seu”. Em seu primeiro canto de louvor a Maria, o santo lhe dirige esta ardente oração:

Ó Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, Rainha do universo, esperança dos mais desesperados, gloriosíssima, ótima e honorabilíssima Senhora Nossa! Ó grande Princesa e Rainha, incomparável Virgem, puríssima e castíssima Senhora de todos os senhores, Mãe de Deus, nós nos entregamos e consagramos ao vosso serviço desde nossa infância. Levamos o nome de servos vossos.

Não permitais, pois, que Satanás, o espírito maligno, nos arraste para o inferno. Enchei de agora em diante a minha boca, ó Santa Senhora, com a doçura da vossa graça. Aceitai, ó Virgem Santa, que o teu humílimo servo vos louve e vos diga: Saúdo-vos, ó vaso magnifico e precioso de Deus! Saúdo-vos, Maria, Soberana minha cheia de graça! Saúdo-vos, Soberana de todas as criaturas! Saúdo-vos, cântico dos querubins, doce harmonia dos anjos! Saúdo-vos, hino dos solitários! Saúdo-vos, Soberana, que tendes em mãos o cetro sobre os vossos fiéis servos!

Fundamentos racionais. O fundamento último do culto mariano de singular servidão apóia-se no domínio completamente singular que a bem-aventurada Virgem exerce sobre todas as criaturas, como Rainha do universo. “O servo”, observa o Angélico, “diz relação a seu Senhor”. Onde há, pois, uma especial razão de senhorio e de domínio, haverá também uma razão especial de servidão.

Ora, que na Virgem SS. exista uma especial razão de domínio e de senhorio sobre todas as coisas, é algo que se segue de sua universal realeza. Podemos, portanto, concluir com Dionísio, o Cartuxo: “Ela domina e pode mandar em todas as criaturas, no céu e na terra”; ou com S. Bernardino de Sena: “Tantas são as criaturas que servem a Maria quantas são as que servem a SS. Trindade”.

O servo fiel de qualquer rainha da terra está contínua e habitualmente perto dela, sem nunca abandoná-la. É isto que tem de fazer, de modo análogo, o servo fiel da Rainha dos céus. Deve estar sempre junto dEla, não perdê-la nunca de vista, ou seja, deve ter o seu pensamento constantemente nEla. Pensar habitualmente em Maria SS. lhe tornará mais fácil pensar habitualmente em Deus. Viver, pois, na presença de Maria é viver, com maior facilidade, na presença de Deus.

Ora, o meio mais eficaz para vivermos assim, continuamente — tanto quanto for possível —, na presença de Maria, é estar profundamente persuadido de que a Virgem SS., de uma maneira misteriosa, está sempre presente em cada um de nós, com o pensamento, com o afeto, com as ações. Ela está conosco

  • pelo pensamento, já que continuamente nos vê em Deus;
  • pelo afeto, pois está presente ali onde está o seu amor, e a Virgem SS. nos ama a todos com um amor inefável de Mãe; e
  • pelas ações, uma vez que todas as graças que preservam e fazem desabrochar a nossa vida sobrenatural passam, como por um canal, pelas mãos de Maria.

Referências

  • Transcrito e adaptado da obra La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 363-389.

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