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Como entender que a Igreja é santa?
Doutrina

Como entender que a Igreja é santa?

Como entender que a Igreja é santa?

A Igreja é santa? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja?

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)16 de Julho de 2019Tempo de leitura: 16 minutos
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I. O problema. — A Igreja é santa? São Paulo escreveu aos fiéis de Éfeso as seguintes palavras: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito seme­lhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 25ss). Ora, esta afirmação do Apóstolo se cumprirá apenas na etapa escatológica da história da Igreja ou é uma realidade já existente aqui na terra? Eis o problema que muitos se propõem hoje em dia. 

Pois bem, dado que a Igreja de Cristo não é um ser abstrato, senão que se compõem de cristãos concretos, podemos dizer em verdade que estes são santos? Que haja alguns cristãos verdadeiramente santos, ninguém há que o negue; mas será suficiente este pusillus grex, este pequeno rebanho de santos para poder chamar santa a toda a Igreja? Árduo problema, que devemos estudar no presente artigo. Antes de tudo, porém, é necessário investigar nas fontes primárias da Revelação o conceito de santidade.

1. O adjetivo “santo” na Sagrada Escritura.a) Aplicado a Deus. — O adjetivo “santo”, que por sua etimologia indica a ideia de pureza, isenção de toda falta e pecado, se aplica no Antigo Testamento principalmente a Deus. Isaías é, quiçá, o autor inspirado que mais vezes chama assim a Deus, sobretudo com o nome “o Santo de Israel” (cf. Is 1, 4; 5, 19.24; 10, 17.20; 12, 6; 17, 7; 29, 13.23; 30, 11.12.15; 41, 14.16.22; 43, 3.14; 45, 11), ou chamando-o também três vezes santo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo” (Is 6, 3). Mas também em muitos outros livros do Antigo Testamento se dá com muita frequência este título a Deus.

No Novo Testamento, ao manifestar-se Deus no mistério da SS. Trindade, se dá o nome de santo em primeiro lugar ao Pai: “Pai santo, guarda-os em teu nome” (Jo 17, 11). E, como derivação de sua santidade, os cristãos, filhos seus, se santificam ou purificam à semelhança dele, como nos diz São João em sua primeira epístola: “Caríssimos, desde agora somos fi­lhos de Deus […]. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é. E todo aquele que nele tem essa esperança torna-se puro, como ele é puro” (1Jo 3, 2s).

Também ao Filho encarnado, Jesus Cristo, se dá o epíteto de “santo”. O anjo Gabriel anuncia a Maria que o fruto de suas entranhas se chamará “o Santo, Filho de Deus” (Lc 1, 35). Os próprios demônios o reconhecem como o “Santo de Deus” (Lc 4, 34). Pedro o chama assim em seu segundo discurso aos judeus depois da vinda do Espírito Santo: “Vós renegastes o Santo e o Justo” (At 3, 14). Na epístola aos Hebreus se chama Jesus de “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hb 7, 26).

À terceira pessoa da SS. Trindade se dá também este nome de santo, e isso de tal maneira que ele chega a ser um dos componentes do seu nome próprio: Espírito Santo. Assim aparece tanto nos evangelhos (cf. Mt 1, 18ss; Lc 1, 35; 4, 1; Jo 14, 26; 20, 22 etc.) como nos Atos dos Apóstolos (cf. At 1, 2.5.16; 2, 38; 5, 3; 10, 38.44 etc.) e em várias passagens de São Paulo (cf., por exemplo, Rm 5, 5; 2Cor 13, 13; Ef 1, 13 etc.).

b) Aplicado às criaturas. — Não somente a Deus se aplica na Sagrada Escritura o epíteto “santo”, mas também às pessoas e inclusive às coisas, enquanto pertencem ou estão consagradas a Deus. Tudo o que está mais estreitamente vinculado ao culto divino se chama santo. Assim, chama-se “o santo” à parte do tabernáculo ou do Templo que continha o altar dos perfumes e o candelabro de sete braços (cf. Ex 26, 33; 28, 29; 43, 20; e Hb 9, 2 etc.). E à parte onde estava a Arca da Aliança se chamava “o santo dos santos” (cf. Ex 26, 34; 3Rs 6, 16; Hb 9, 3). Santos eram chamados os ornamentos do Sumo sacerdote (cf. Ex 28, 36), os vasos sagrados (1Rs 21, 5) etc. Jerusalém é a “cidade santa” (cf. Mt 24, 25; Mc 13, 14; Lc 21, 20), e São Pedro chama “santo” ao monte da transfiguração, onde se manifestou a divindade de Jesus Cristo (cf. 2Pd 1, 18). 

Mas com muito maior razão que as coisas, chamam-se santas as pessoas consagradas a Deus. No Levítico se repete muitas vezes esta frase: “Vós sereis santos, porque eu sou santo” (cf. Lv 11, 44s; 19, 2; 20, 26; 21, 8). E São Pedro recorda este texto do Antigo Testamento aos cristãos, exortando-os à santidade (cf. 1Pd 1, 15s). Também São Paulo chama com este nome a todos os cristãos, por estarem consagrados a Deus por meio do Batismo, como se pode ver o início de quase todas as suas epístolas (cf. Rm 1, 17; 1Cor 1, 2; 2Cor 1, 1; Ef 1, 1; Fl 1, 1; Col 1, 2), e a tudo aquilo que Deus pôs na Igreja para santificar os cristãos, como os livros da Sagrada Escritura (cf. Rm 1, 2; v. também 2Pd 1, 21) e os Mandamentos de sua Lei (cf. 2Pd 2, 21).

2. Em que consiste essencialmente esta santidade. — O Novo Testamento, muito mais que o Antigo, nos ensina que a santidade das criaturas racionais radica não tanto em uma dedicação exterior a Deus quanto em uma renovação interior. Assim, São Paulo diz aos seus fiéis que eles hão-de ser “santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos [de Deus]” (Ef 1, 4), e em suas epístolas identifica praticamente santidade com renovação interior, que essencialmente consiste em afastar-se das criaturas, na medida em que o amor desordenado a elas nos leva ao pecado, e unir-se com o Criador, fim último de todas as coisas, pela graça e o exercício das virtudes. Assim expressa o Apóstolo estas ideias: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 22ss).

De toda esta doutrina essencialmente bíblica sobre a santidade, que aqui não podemos mais do que esboçar, se deduz que a santidade do homem pode ser considerada sob dois aspectos: a) como santidade ontológica, ou consagração a Deus pela graça santificante; e b) como santidade moral, ou reta ordenação a Deus, fim último de todas as coisas, mediante a prática de atos moralmente bons. Em concreto, como a Igreja está constituída pelos cristãos, ao falarmos da santidade da Igreja devemos levar em consideração: 1.º) uma santidade ontológica, que há-de consistir nos elementos sobrenaturais (graça, sacramentos etc.) que unam os membros da Igreja com Deus; 2.º) uma santidade moral, que há-de consistir  nos atos de virtude praticados pelos fiéis sob o impulso do Espírito Santo. Nesse sentido, a santidade vem a identificar-se, ao menos em parte, com a virtude da religião, como explica Santo Tomás de Aquino: 

Chama-se santidade a aplicação que o homem faz de sua mente e de seus atos a Deus. Sua diferença, portanto, com a religião não é essencial, mas apenas de razão. A religião, com efeito, proporciona o serviço devido a Deus, no que de modo especial se refere ao culto divino, como o sacrifício, a oblação e coisas semelhantes. A santidade, além disso, ordena a Deus os atos das outras virtudes ou faz com que o homem se disponha, por meio de certos atos, ao culto divino (STh II-II 81, 8 c.).

3. Três graus de santidade. — Logicamente, conforme a realização mais ou menos perfeita deste separar-se do pecado e unir-se a Deus, podemos distinguir, em escala ascendente, três graus de santidade:

  1. Uma santidade ordinária, que se confunde com o estado habitual de graça possuído pelos membros da Igreja que não estão em pecado mortal. Exige, por um lado, uma tendência habitual a fugir do pecado (eis o seu elemento negativo) e, por outro, a observância habitual dos preceitos que obrigam sob pecado grave (eis o seu elemento positivo).
  2. Uma santidade perfeita, que, além da ausência de pecado mortal, exige a inclinação habitual a evitar também o pecado venial (elemento negativo) e a guardar as regras de perfeição mais altas propostas por Cristo no Evangelho, e em particular as que recebem o nome de “conselhos evangélicos” (elemento positivo).
  3. Uma santidade heroica, que implica fugir do pecado venial e seguir os caminhos de perfeição nos casos mais difíceis e árduos, até chegar ao ponto de dar a vida por Cristo e pelo próximo.

Os limites entre estes três graus não são nem podem ser linhas perfeitamente definidas. No entanto, existem casos claríssimos que podemos enquadrar em cada um deste graus, e isto basta para poder distingui-los. Seguir a Cristo em pobreza, castidade e obediência com toda fidelidade será, pois, um ato de santidade perfeita. E o ato mais claro de santidade heroica é entregar-se a Cristo até chegar a dar por Ele a própria vida, segundo aquelas palavras do Senhor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seu amigo” (Jo 14, 13).

Por fim, não seguindo precisamente em progressão ascendente, mas como graça inteiramente extraordinária, concedida por Deus a quem e quando Ele quer, há a santidade chamada “carismática”, que é uma como que confirmação da santidade acompanhada de dons extraordinários, entre os quais se contam principalmente os milagres. 

4. Precisão exata do problema. — Dizer que a Igreja é santa não implica que nela não haja pecadores; mais ainda: nem sequer que o número de santos supere o dos que não o são, desde que esses defeitos se davam à fragilidade humana, a que muitos não sigam os Mandamentos, os exemplos e os meios de santificação existentes na Igreja. Mas implica, sim, como teremos ocasião de ver mais adiante, quando explicarmos em que sentido há-de entender-se esta propriedade essencial da Igreja, que esta santidade deve aparecer de modo manifesto, conforme as palavras do Senhor: “Assim, brilhe vossa luz dian­te dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).

II. Orientação histórica. — 1. Doutrinas errôneas. — Diante do espetáculo que é a multidão de pecadores que há na Igreja, já nos primeiros séculos do cristianismo surgiu a tentação de selecionar e discriminar os bons dos maus, os justos dos pecadores; somente os justos, os puros, seriam membros verdadeiros da Igreja. Assim pensavam os montanistas e os donatistas dos sécs. IV e V da nossa era, assim pensavam os cátaros ou puritanos da Idade Média, bem como os primeirosreformadores” do séc. XVI, sobretudo Lutero, para quem a Igreja era apenas a congregação dos justos. E como somente Deus pode conhecer com toda certeza quem são os justos, só Deus poderá conhecer a sua própria Igreja: daqui nasce a sua teoria da invisibilidade da Igreja. 

Mas advirtamos que os luteranos, que, por um lado, caem em excesso de puritanismo ao excluir da Igreja todos os aqueles que não são justos, se encontram, por outro lado, muito aquém do verdadeiro conceito de santidade ao pôr a justificação somente na imputação dos méritos de Cristo, sem verdadeira transformação interior, o que está em clara oposição à doutrina de uma verdadeira reforma interior, que São Paulo pressupõe e explica continuamente em suas epístolas. Além disso, Lutero desprezava a observância dos conselhos evangélicos como uma clara manifestação de santidade. Escolhamos somente um trecho entre milhares: “Esta classe de vida [a religiosa] é contra o Evangelho […], e é coisa evidentíssima que os seus votos são nulos, ilícitos, ímpios e contrários ao Evangelho” (Obras, ed. Weimar, VIII 688).

Os dissidentes orientais se aproximam muito mais, no conceito que têm da santidade, do modo católico de a conceber; no entanto, não poucas vezes em seus escritos parece que somente dão importância à santidade ontológica e ativa, deixando de lado a santidade passiva ou dos membros da Igreja.

Nos sécs. XVII e XVIII, alguns católicos de diversos matizes jansenistas, como os que se congregaram no Sínodo de Pistóia, também caíram no erro de querer formar uma Igreja santa expulsando os pecadores. Foram condenados pelo Papa Pio VI (cf. DH 2615).

2. Doutrina da Igreja. — A santidade da Igreja é a primeira das propriedades que aparecem nos símbolos, ao fazermos nossa profissão de fé na Igreja. A fórmula mais primitiva que nos foi conservada de tais símbolos, fórmula brevíssima, provavelmente da metade do séc. II, diz assim: “Creio no Pai dominador do universo, e em Jesus Cristo, nosso Salvador, e no Santo Espírito Paráclito, e na Santa Igreja, e na remissão dos pecados” (DH 1). Nos documentos do Magistério eclesiástico, tanto dos Sumos Pontífices como dos Concílios ecumênicos, dá-se continuamente à Igreja o título de “santa”. Em especial, fala o Concílio Vaticano I da “exímia santidade da Igreja” ou da “Santa Igreja que Cristo resolveu fundar”.

III. Valoração teológica. — É de fé divina e católica que a Igreja de Cristo é verdadeiramente santa. Por outro lado, consta que os pecadores, desde que não abandonem a fé ou obediência à hierarquia da Igreja, continuam sendo membros da Igreja, já que foi condenada como herética a proposição contrária, defendida pelo Sínodo de Pistóia (cf. DH 2615). Daqui podemos deduzir que é teologicamente certo que a existência de pecadores na Igreja não está em conflito com a santidade mesma da Igreja. 

IV. Ensinamento bíblico.1. A Igreja é santa com santidade ontológica. — Em primeiro lugar, porque Jesus Cristo, que é Cabeça da Igreja, é santo; todas as páginas do Evangelho dão testemunho desta santidade de Jesus Cristo tanto no sentido de ausência total de pecado como no sentido de exercício de todas as virtudes. Lembremo-nos ainda dos escritos dos Apóstolos, testemunhas imediatas de sua vida na terra, que o chamam continuamente de “o justo”, “o santo” (cf., por exemplo, São Pedro em At 3, 14; 1Pd 1, 18s; 2, 22ss; São Tiago em sua carta, 5, 6; São João em sua primeira epístola, 2, 1; 3, 5; São Paulo muitas vezes: 2Cor 5, 21; Hb 4, 15; 7, 26), e também de seus próprios inimigos, pois aquela pergunta de Jesus: “Quem de vós me acusará de pecado?” (Jo 8, 56) não recebeu contestação.

A doutrina que Cristo nos legou é santa com uns quilates tão sublimes de perfeição, que tem maravilhado até mesmo os pagãos que leem sem preconceitos o Evangelho; bastaria, para se convencer disso, ler os capítulos 5 a 7 de São Mateus, que se chamam comumente “o Sermão da Montanha”. Acrescente-se a isto os sacramentos, instituídos por Cristo para santificar as almas, pelos quais recebemos o Espírito Santo; o sacrifício de Jesus Cristo, que se renova continuamente de forma incruenta, mas realíssima, em todo o mundo; e, por fim, o influxo misterioso do Espírito Santo, alma da Igreja, que atua em todos aqueles que são templos dele pela graça santificante. 

2. A Igreja é santa com santidade moral. — A esta santidade ontológica deve necessariamente corresponder a santidade moral nos membros da Igreja. 

a) Em primeiro lugar, a santidade ordinária

  1. porque, se Cristo estabeleceu em sua Igreja os meios de santificação que acabamos de indicar, é necessário que eles produzam frutos de santidade nos membros da mesma Igreja, segundo as palavras do Senhor: “Toda árvore boa produz bons frutos” (Mt 7, 17ss). 
  2. porque se o fim da Igreja é, como vimos noutro artigo, a santificação dos homens, é impossível que tal fim, atribuído por Cristo à sua obra, não consiga, em um número bastante grande, o seu efeito, e para isto necessita ele chegar pelo menos ao primeiro grau de santidade ordinária; 
  3. porque a Palavra de Deus é como a semente que cai em terra boa e produz fruto, em uns de trinta, em outros de sessenta, em outros ainda de cem (cf. Mt 12, 13). Por fim, também São Paulo supõe esta santidade em seus cristãos, quando diz que eles devem estar “mortos para o pecado, vivos no Espírito” (Rm 8, 9s) e crucificar o homem velho, a fim de destruir o corpo de pecado (cf. Rm 6, 6), sem levar em conta aqui as exortações a fugir dos vícios e praticar as virtudes, as partes parenéticas de suas epístolas aos Romanos, Gálatas, Efésios etc.

b) Santidade moral perfeita. — Na Igreja de Jesus Cristo se dá também, como consequência necessária de tudo o que nos ensina o Novo Testamento, uma santidade moral perfeita. A razão é que o fim de toda a Lei nova, enquanto se contrapõe o Novo Testamento à Lei antiga, é precisamente a santidade perfeita, coisa que aparece sobretudo no capítulo 5 de São Mateus, já que ali Cristo exige de seus seguidores: o cumprimento de seus Mandamentos, inclusive dos menores (v. 19); dominar a ira até conseguir perdoar aos inimigos (v. 22ss); a pureza em grau sumo (v. 28); não só não resistir ao que nos faz mal, mas ainda oferecer a outra face ao que nos agride (v. 29ss); amar os inimigos (v. 43s); dar esmola em segredo e fugir dos louvores dos homens (6, 1ss); servir a Deus, desprezando o dinheiro e confiando unicamente em sua Providência (v. 24ss). E quem não é capaz de ver que tudo isso requer uma santidade não ordinária, mas em grau exímio?

Jesus Cristo convida a abraçarem a pobreza e a castidade perfeita os que aspiram a um grau maior de santidade. A tradição dos primeiros séculos da Igreja interpretou assim duas passagens de São Mateus (19, 12.16-25). Sempre haverá, pois, quem não olhe para trás, como aconteceu com o jovem rico, mas que siga os caminhos da perfeição em pobreza e castidade.

c) Santidade heroica. — Muito do que acabamos de dizer supõe, em circunstâncias especialmente difíceis, não só uma santidade exímia, mas heroica. Ademais, Jesus Cristo nos deixou o exemplo desta santidade heroica, sobretudo no amor aos homens até o sacrifício da própria vida e no sofrimento das perseguições do mundo contra Ele, e anuncia, como se vê claramente nos capítulos 13, 15 e 16 do evangelho de São João, que não faltarão pessoas que sigam esses exemplos. Era isto mesmo que supunham os Apóstolos como coisa evidente quando exortavam os fiéis cristãos à perfeita imitação de Cristo. Assim diz o Apóstolo São João: “Jesus deu sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos” (1Jo 3, 16); e São Pedro: “É para isso que fostes­ chamados. Também Cristo pa­deceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os seus passos” (1Pd 2, 21).

São Paulo, sobretudo, supõe uma santidade extraordinária nos cristãos. Recordem-se umas poucas passagens de suas cartas, que poderiam multiplicar-se sem problema. Aos romanos escrevia: 

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? Realmente, está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43, 23). Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8, 35-39).

E aos coríntios:

Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entre­gues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida (2Cor 4, 10ss) […] De muito boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós (2Cor 12, 15).

Estas últimas palavras, ainda que São Paulo as tenha dito referindo-se a si mesmo, são sem dúvida um ideal que ele propõe a seus fiéis discípulos.

d) Santidade carismática”. — Jesus a anuncia como algo característico de sua Igreja: diz a seus discípulos que eles hão-de fazer as obras que Ele mesmo fez, e inclusive maiores do que as dele (cf. Jo 14, 12). E, em sua última aparição, ao enviá-los para pregar por todo o mundo, lhes dá o poder de fazer milagres (cf. Mc 16, 17).

A existência destes carismas na Igreja aparece já no epílogo do evangelho de São Marcos (cf. Mc 16, 17-20); nos Atos dos Apóstolos, com muita frequência (recordem-se, por exemplo At 3, 1-11; 5, 15ss; 10, 44-47; 16, 16ss), e em São Paulo, que dá normas acerca da maneira com que se devem portar na Igreja os fiéis com dons carismáticos (cf. 1Cor 12, 1-31).

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 879-886, nn. 771-787.

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A teologia por trás do uso do véu na Igreja
Espiritualidade

A teologia por trás
do uso do véu na Igreja

A teologia por trás do uso do véu na Igreja

O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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A nobre língua latina, que alimentou a piedade durante séculos; a serenidade do canto gregoriano; o esplendor dos paramentos sacerdotais e a visível ênfase na natureza sacrificial da Missa, em que o Senhor da glória torna presente de novo sua oferenda na Cruz em benefício dos vivos e dos mortos — em maior ou menor grau, todas essas coisas e outras mais desapareceram rapidamente depois do Concílio Vaticano II, sob o ilusório pretexto de que o “homem moderno” precisava de algo mais imediatamente acessível do que solenidade, silêncio e sacralidade. Isso foi sem dúvida um grande erro, como leigos, sacerdotes e até bispos têm afirmado de modo cada vez mais franco nas últimas décadas. Em grande medida, o trabalho de restauração tem sido relegado ao nível das bases.

Em debates sobre as reformas pós-conciliares, católicos tradicionais muitas vezes insistem no banimento do latim, do canto gregoriano, da celebração ad orientem e da recepção da Comunhão de joelhos. Isso não surpreende, já que essas mudanças são as mais perceptíveis, e foi muito profundo seu crescente efeito sobre a natureza do culto católico. Porém, houve outras mudanças sutis que com o passar do tempo também afetaram nosso modo de compreender a Fé. Um exemplo é o abandono da genuflexão na seguinte passagem do Credo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine, et homo factus est. Da mesma forma, a maioria das pessoas já não curva a cabeça por reverência quando é pronunciado o santíssimo nome de Jesus.

Corte de uma pintura de José Gallegos y Arnosa.

Uma dessas mudanças foi a extinção quase completa do uso do véu pelas mulheres nas igrejas, quando estão em momento de oração. Antes do Concílio, quando alguém entrava numa igreja para assistir à Missa, via todas as mulheres com a cabeça coberta, fosse por boinas, gorros, véus ou toalhas de renda. Embora ocasionalmente possamos ver hoje mulheres de véu ou chapéu numa Missa Novus Ordo (esse número é maior em países não ocidentais que ainda não foram tomados pelo espírito moderno), em geral, o costume desapareceu fora de locais em que a Missa tradicional em latim sobreviveu ou retornou. E mesmo nestes locais o costume não é de modo algum praticado universalmente. Mulheres que adotam uma postura defensiva podem afirmar que o direito canônico não exige o uso do véu, que o bispo não o autoriza e que o pároco não o menciona. Na verdade, aqueles que olham para o uso do véu como sinal de uma era em que (creem eles) as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe alegram-se com o fato de o véu ter sido marginalizado.  

Porém, antes de descartarmos a mudança como exemplo de algo ultrapassado que foi deixado de lado por não ser mais relevante, temos de analisar o que significava o costume em si e se ele simboliza uma verdade importante, tão válida para nós como para nossos predecessores. Os costumes de piedade popular muitas vezes carregam consigo raízes religiosas e humanas mais profundas do que podemos pensar inicialmente. Neste mundo agitado, coisas boas do passado são muitas vezes abandonadas porque as pessoas se esqueceram de uma verdade fundamental que precisa, mais do que nunca, ser escutada e seguida.

O ensinamento do Apóstolo

A tradição do uso do véu pelas mulheres nas igrejas tem como fundamento as palavras de São Paulo: 

Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. Com efeito, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos (1Cor 11, 7-10). 

A palavra costumeiramente traduzida por “véu” é exousia, que significa “poder” ou “autoridade” [1]. Uma tradução bem literal da passagem ficaria assim: “a mulher deve ter um poder [ou autoridade] sobre sua cabeça”. Ocasionalmente, vemos o texto transformado numa paráfrase: “um poder sobre sua cabeça, simbolizado por um véu”. Isso está mais claro, mas ainda podemos nos perguntar: por que um véu? Temos de voltar à tradição da Igreja para encontrar a resposta.

De acordo com alguns Padres e Doutores da Igreja, essa passagem se refere aos anjos que encobrem seu rosto quando estão na presença de Deus adorando-o diante de seu trono [2]:

Eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!” (Is 6, 1-3).

Os anjos cobrem ou vendam seu rosto como sinal de reverência perante o poder e a majestade gloriosos de Deus; estão sob sua autoridade. São Paulo estaria dizendo, então, que assim como os anjos cobrem seu rosto diante do trono de Deus, também as mulheres deveriam cobrir sua cabeça para adorar. Mas por que apenas as mulheres? Os homens não estão também na presença de Deus? A resposta pode ser encontrada numa série de analogias que São Paulo realiza numa passagem anterior do mesmo capítulo. “Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, senhor de Cristo é Deus” (1Cor 11, 3). Isto é, Cristo está para o Pai como o marido está para Cristo, e o marido está para Cristo assim como a mulher está para o marido — numa sequência de autoridade decrescente. Observemos como é notável a última parte dessa analogia: em seu relacionamento com o marido, a mulher cristã é comparada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em sua relação com o Pai. Portanto, o sentido último da vocação de uma mulher como esposa e mãe é participar, imitar e manifestar o mistério da missão de Cristo: sua entrega é um reflexo do sacrifício de Cristo. 

Uma imitação específica de Cristo e da Igreja

Para esclarecer ainda mais o sentido dessa passagem, temos de levar em conta o que São Paulo diz aos Efésios ao acrescentar outra dimensão ao simbolismo. “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (Ef 5, 22-24). O marido está para a mulher assim como Cristo está para a Igreja. A partir disso, vemos que do mesmo modo uma esposa é chamada a imitar e participar do trabalho da Igreja, que segue Cristo e este segue o Pai. Um grande mistério sobrenatural é prefigurado nas coisas terrenas: a obediência das esposas está enraizada na obediência de Cristo ao Pai e na submissão da Igreja ao Senhor, e brota delas.

A obediência a que uma mulher se submete no matrimônio é uma escolha, uma resposta do seu coração a um dom do Senhor; assim como uma religiosa promete obediência a seus superiores como parte da vocação de servir a um só Senhor. A obediência da esposa está inserida no contexto de um sacramento; não é uma questão de dependência natural ou de inferioridade. Uma esposa se submete ao seu marido principalmente por amor a Deus e em obediência ao chamado dele. O sacrifício de si, mantido pela graça de Deus e corretamente entendido pela esposa, não ameaça sua condição de igualdade em relação ao marido [3].

O Filho é igual ao Pai (como afirmou Orígenes e foi posteriormente definido); no entanto, o Filho é obediente ao Pai. Uma coisa tão suavemente conhecida em muitas relações de amor humano está, além da imaginação, presente nos segredos centrais do céu. Pois o Filho em seu eterno agora deseja a subordinação, e ela lhe pertence. Ele quer que sejam assim; com obediência e de modo filial Ele é inseparável do Pai, assim como o Pai é, com autoridade e modo paternal, inseparável dele. E todas as três Pessoas são eternamente inseparáveis — e iguais [4].

No interior da Santíssima Trindade, a distinção de Pessoas não põe em perigo a unidade da Divindade, compartilhada igual e essencialmente por Pai, Filho e Espírito Santo. Na Trindade, essa hierarquia-na-igualdade é refletida na ordem da salvação ocasionada pelo envio de Cristo pelo Pai, na relação esponsal entre Cristo e a Igreja e, novamente, na ordem do matrimônio.

“A Virgem da Anunciação”, por Antonello de Saliba.

A ferida da rebelião pecaminosa foi curada pela morte de Cristo e a salvação da homem foi obtida precisamente por meio da obediência à vontade de Deus, que teve início com o fiat da Virgem Maria (“Faça-se em mim segundo a vossa palavra”). De modo semelhante, visto como uma participação no mistério de Cristo e de sua Igreja, o relacionamento da esposa com seu marido é salvífico; para ser mais preciso, é um sacrifício livremente consagrado ao único sacrifício de Cristo e inserido nele. Todos os cristãos são chamados a imitar a Virgem, a se unirem a Cristo e mutuamente nele, mas essa vocação tem naturezas distintas para homens e mulheres. Embora Maria seja o arquétipo para todos os cristãos, a vida dela como modelo da verdadeira feminilidade apresenta certas verdades aplicáveis particularmente às mulheres. O véu e qualquer outro símbolo associado às mulheres deve ser considerado à luz do fiat da Virgem, seu abandono à vontade de Deus, o ato por meio do qual ela esmagou a cabeça da serpente — assim como a submissão de Cristo à vontade do Pai “até a morte” significou a derrota de Satanás. “Eis aqui a escrava do Senhor.” “Não a minha, mas a vossa vontade seja feita.” Ao se oferecer, a Virgem se tornou a “ajudante” necessária para que o novo Adão, o grande Sumo Sacerdote, oferecesse o único sacrifício por todos: seu Corpo e Sangue. 

A corresponsabilidade do marido

Para obtermos um quadro completo, temos de nos lembrar do referido ensinamento que São Paulo transmite aos maridos no capítulo 5 da Carta aos Efésios. O Apóstolo diz que os maridos devem representar Cristo; devem servir como cabeça da igreja doméstica. O que isso significa? A verdadeira autoridade vinda dos sacramentos vivificantes tem pouco a ver com a compreensão que o homem caído tem do poder e do governo sobre outros em benefício próprio. 

Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir (Mt 20, 25-28). 

Os maridos devem agir como Cristo Rei — o Rei entronizado na Cruz: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). A autoridade do marido é legítima quando exercida segundo a imitação de Cristo. Santo Tomás de Aquino apreende bem esse ponto: “A esposa sujeita-se a Deus submetendo-se ao seu marido sob Deus” [subiicitur viro sub Deo], ou seja, ela é submissa ao marido na medida em que ele mesmo está “sob Deus”, isto é, governando de acordo com os mandamentos de Deus [5].

Portanto, em todo matrimônio marido e mulher são chamados a imitar e manifestar um ao outro e ao mundo o amor de Cristo e da Igreja, ele mesmo moldado pelo mistério de amor que existe no interior da Santíssima Trindade. Essa imitação e manifestação só pode ocorrer pela graça de Deus, o Deus que é Amor; ela requer oração constante, além de discernimento, paciência e perseverança. O equilíbrio entre hierarquia-na-igualdade e igualdade-na-hierarquia só pode ser mantido pela consciência permanente de nossa vocação para amar — governar e servir mediante o amor e pelo amor. O relacionamento adequado entre marido e mulher e o precioso dom da procriação foram afetados pela Queda (cf. Gn 3, 16), como podemos ver nos homens que abusam de sua autoridade como maridos e em homens que são muito tímidos ou efeminados para assumir suas responsabilidades. Podemos ver todo tipo de problema: homens que governam para satisfazer seu egoísmo; homens que se recusam a governar pelo bem de qualquer pessoa; mulheres que se recusam taxativamente a ser governadas; mulheres que agem como capachas e não questionam abusos de autoridade. Creio que esse é o motivo pelo qual achamos tão estimulante e encorajador o exemplo de um bom casamento no qual os cônjuges vivem em paz e alegria. Ele mostra que isso pode realmente ser feito por meio do esforço humano determinado e a graça de Deus resultante de nossas súplicas.

Deste modo, na teologia de São Paulo o véu é um símbolo de consagração e autossacrifício. Assim como a Igreja se submete a Cristo e Cristo Filho obedece ao Pai, uma esposa está “sob” o poder e a proteção de seu marido. Do ponto de vista litúrgico, faz sentido que a mulher porte um sinal exterior dessa verdade interior, um símbolo público e visível de sua vocação como esposa, especialmente quando está perante o Senhor em adoração. O véu dá testemunho silencioso da dignidade e poder dela em sua submissão ao marido. Em sentido lato, ele é sacramental: um simples objeto que simboliza uma profunda realidade espiritual. Assim como as religiosas dão testemunho ao mundo por meio de seu hábito (incluindo o véu), da mesma forma as esposas dão testemunho da natureza especial do matrimônio cristão ao cobrirem sua própria cabeça na Missa. Esse belo símbolo dá à esposa uma oportunidade de viver sua vocação de modo mais pleno por fazer com que ela e outras pessoas, inclusive suas filhas, recordem seu traço de humildade mariana. Podemos ir mais longe: esse delicado símbolo daquilo que é exemplo perfeito da “pequenez” teresiana pode ser um meio poderoso de reparação para aqueles que se rebelam contra sua identidade ou são infiéis ao seu chamado.

Tradição codificada em símbolos

Considerando o que vimos, é possível explicar outro detalhe de 1Cor 11 que pode passar despercebido. No início do capítulo, o Apóstolo insiste em que os cristãos de Corinto devem preservar as instruções que ele lhes transmitira. “Eu vos felicito, porque em tudo vos lem­brais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti. Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, e o senhor de Cristo é Deus.”

Parte da sagrada tradição que ele transmitiu a eles é o ensino sobre as esposas e a submissão delas aos maridos, e é nesse contexto que o “poder” simbolizado pelo véu entra em sua exortação. Em outras palavras, São Paulo exorta todos a se esforçarem para “imitar Cristo” (1Cor 11, 1) a fim de preservar as tradições que contêm e confirmam a boa doutrina e uma vida santa. “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Ts 2, 15). Esse é com certeza um ensinamento ao qual devemos nos aferrar no mundo moderno. A atual desintegração da vida familiar ocorre, até certo ponto, porque a tradição apostólica da hierarquia familiar não tem sido preservada nem pela família nem pela própria hierarquia eclesiástica.

O ensinamento de São Paulo parece deixar claro que o uso de algo que sirva para cobrir a cabeça só possui sentido “sacramental” pleno para mulheres casadas ou comprometidas  (incluindo religiosas que são casadas com Cristo e noviças que estão se preparando para esse casamento místico). Quando a estudamos de modo contextualizado, vemos que a recomendação segundo a qual “a mulher deve ter um véu sobre sua cabeça”, entendida  como símbolo do poder do homem (exousia), refere-se não ao homem e à mulher enquanto tais, mas às mulheres casadas relativamente aos seus maridos. (Também notamos, porém, que o mesmo capítulo dá instruções aplicáveis a todas as mulheres; São Paulo alterna entre as mulheres em geral e as casadas, dizendo coisas diferentes apropriadas a cada grupo.) Por essa razão, o costume tradicional de todas as mulheres usarem véu na igreja parece se justificar no chamado natural e sobrenatural de cada mulher a ser esposa — seja de Cristo, na vida religiosa, seja de um marido em um casamento cristão. Mesmo antes de esse chamado ser atualizado, e ainda que isso jamais ocorra, trata-se de uma realidade ontológica e espiritual que precisa ser reconhecida, honrada e inserida no grande mysterium fidei celebrado na Santa Missa.

Razões práticas

Também há razões práticas para o uso do véu, e como elas se aplicam tanto às mulheres casadas como às solteiras, corroboram a antiga convenção que prescrevia o uso do véu por todas as mulheres na igreja.

Antes de mais nada, o uso do véu pode evitar a distração tanto para quem o usa como para outras pessoas. Quantas vezes não nos pegamos olhando para outras pessoas na igreja, em vez de nos concentrarmos na oração? O véu pode ser útil às mulheres. Aquelas que estão protegidas e cobertas por ele podem se concentrar melhor [6], recordando-se qual é a principal razão pela qual estão na igreja: trata-se de um momento sagrado, e estou aqui para adorar a Deus.

Outra razão para o uso do véu na igreja é certa “privacidade”, uma necessidade de estar a sós com Deus, em vez de manter uma postura de intimidade e sociabilidade com outras pessoas. Na Missa, o divino Esposo visita a alma cristã esponsal; deveríamos estar preparados para a visita dele. A moderna ênfase desmedida na dimensão social do culto frequentemente leva a uma perda de contato com a única realidade que torna todo o resto real: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que deveria ser recebido com plena e absoluta atenção da alma. O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Uma mulher que usa véu diz ao seu próximo: estamos aqui reunidos para adorar a Deus. Assim, ela presta um serviço aos outros, ajudando-os a se lembrarem o que é realmente a Missa. No final das contas, outras mulheres podem seguir-lhe o exemplo.

Portanto, há muitas razões que mostram a conveniência do uso do véu. Para as esposas, sobretudo, tem a mesma natureza que o hábito tem para as religiosas: é um sinal de seu chamado à consagração ao Senhor, com e por meio de seu marido. Em vez de ser um sinal de opressão das mulheres, é sinal de um amor genuíno e comprometido, assim como a Cruz é o maior sinal de amor já dado à humanidade.

Até esse modesto costume de nossos ancestrais é, então, parte de uma renovação litúrgica mais ampla e bem-sucedida que incorpora o passado adequadamente, compreende as verdadeiras necessidades do presente e preserva a beleza e o simbolismo do culto católico para os séculos vindouros. 

Notas

  1. Segundo Ronald Knox, alguns comentadores afirmam que Paulo está tentando, por meio dessa palavra grega, cunhar uma palavra hebraica que signifique o véu usado tradicionalmente por uma mulher judia.
  2. Esses anjos, usualmente identificados como querubins, são descritos dessa forma por Isaías, Ezequiel e o Apocalipse de São João, e sistematicamente em toda a tradição rabínica judaica. Para referências bíblicas, ver Cornélio a Lápide, Commentaria in Scripturam Sacram (Paris: Vives, 1868), 18: 355-56.
  3. A doutrina segundo a qual as mulheres não são iguais aos homens é herética e análoga à heresia do subordinacionismo, que nega a igualdade entre o Filho e o Pai. Isso está claro na encíclica Casti Connubii, do Papa Pio XI, que ensina que homens e mulheres possuem “igualdade na diferença” e “igualdade em chefia e subordinação”.
  4. Charles Williams, citado em Mary McDermott Shideler, The Theology of Romantic Love, Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Co., 1962, 81-82.
  5. Cf. Lectura super primam epistolam ad Corinthios, c. XI, l. 3, n. 612.
  6. Obviamente, estou falando de um véu mais longo, e não da versão estilo “toalhinha” que vemos às vezes. Não precisa ser feito de renda (embora esse tecido tenha a conveniência de poder ser afixado ao cabelo), mas pode ter o comprimento de um lenço comum de um material leve. Há também a questão dos chapéus. Embora seja verdade que chapéus possam cumprir a função de cobrir a cabeça (e de fato já cumpriram), pertencem mais ao mundo da moda do que à esfera da vida sacramental e litúrgica. Eles não possuem o peso simbólico pleno do véu.

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Eu estava indo para o Inferno!
Testemunhos

Eu estava indo para o Inferno!

Eu estava indo para o Inferno!

Com uma Igreja muda a respeito do pecado, foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente…

Pedro Penitente16 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Eu ainda me lembro do dia da minha conversão. Era julho, e eu estava de férias, na casa de alguns parentes, sentado diante de uma tela de notebook e lendo o livro “Preparação para a morte”, de Santo Afonso Maria de Ligório. Como fui me deparar com essa obra eu já não me lembro mais. Sei que o trecho que mexeu comigo estava num capítulo sobre os maus hábitos, e ele dizia o seguinte:

...o mau hábito os privou da luz. Diz Santo Anselmo que o demônio procede com certos pecadores como aquele que tem um passarinho preso por um cordel.

Ele o deixa voar, mas, quando quer, o faz cair por terra. Tal semelhança — afirma o santo — é aplicável àqueles que são dominados pelo mau hábito. Alguns há, acrescenta São Bernardino de Sena, que pecam sem que a ocasião se apresente. Compara-os este grande santo aos moinhos de vento que qualquer aragem faz girar e que continuam em movimento mesmo que não haja grão para moer, e, às vezes, até rodam contra a vontade do dono. Estes pecadores, observa São João Crisóstomo, vão forjando maus pensamentos, sem ocasião, sem prazer, quase contra sua vontade, tiranizados pela força do mau hábito.

Porque, segundo disse Santo Agostinho, o mau hábito se converte logo em necessidade. O costume, segundo nota São Bernardo, se muda em natureza. Daqui se segue que, assim como ao homem é necessário respirar, assim parece que o pecado se torna necessário para aqueles que habitualmente pecam e se fazem escravos do demônio.

Quando li aquelas palavras, senti-me perdido. Era a mim que elas se referiam! A mim, mais um infeliz fruto da educação liberal desta época; a mim, que tive um contato muito precoce com pornografia e ainda no começo da minha juventude aprendi a me masturbar, e a achar que não havia mal nenhum naquilo; a mim, que já olhava para todas as mulheres à minha volta como objetos sexuais à disposição, como as prostitutas dos filmes pornográficos a que eu assistia… 

Eis que eu estava ali. O “passarinho preso por um cordel”, o viciado que peca “sem que a ocasião se apresente”, o infeliz atormentado por “maus pensamentos”, o escravo do demônio… era eu, era eu

Que vergonha a minha, mas ao mesmo tempo… “eu preciso mudar”, disse a mim mesmo, “não posso continuar nessa situação”, “tem de haver uma saída”. Daquele dia em diante lembro-me de ter tomado a peito a batalha pela castidade. Eu não acreditava de verdade que aquilo fosse possível, porque, desde que meu corpo se tinha despertado para a sexualidade, eu a havia vivido de forma distorcida e depravada. Mas decidi “pagar pra ver” e, com a graça de Deus, pouco a pouco fui sendo transformado e redimido.  

De lá para cá muitos anos se passaram, muitas recaídas eu experimentei, mas hoje estou de pé e buscando dia após dia forças, nos sacramentos e na oração, para não voltar a essa situação terrível com que comecei minha juventude. Minha juventude, que poderia ter sido muito pior, que poderia ter sido arruinada, não fosse este santo do século XVII chamado Afonso me alertar, através de um arquivo “pdf”, que eu, com meu mau hábito, estava sendo escravizado por Satanás… 

Por isso, esse testemunho é, em primeiro lugar, um canto de gratidão a Deus e a Santo Afonso, instrumento dEle em minha vida. 

Mas esse testemunho também é um grito de socorro: foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente… Sim, porque esse “puxão de orelhas”, ou melhor, esse verdadeiro “chacoalhão”, eu não o iria receber jamais do pároco da minha cidade, nem no púlpito, nem no confessionário. Se eu me aconselhasse com ele para saber o que fazer, talvez ele me dissesse para “não me preocupar” com isso, para aproveitar a minha juventude ou algo do tipo. 

A começar pelo fato de que muitos padres hoje, infelizmente, não pregam nem atendem confissões: o púlpito foi abandonado pela transformação do sacerdote em “mais um” do povo, e o confessionário foi substituído pelas “salinhas” de consulta psicológica (e nelas, talvez, a gente escute com mais facilidade justamente o contrário do que ensina a doutrina de sempre da Igreja). Na Missa, o que temos são as homilias “motivacionais”, cheias de obviedades humanas e vazias de fé divina, cuja mensagem central você acha em um livro de autoajuda qualquer. Combinadas com a eloquência, essas palavras “bonitas” talvez até arranquem aplausos e lágrimas da “plateia” que as escuta; conversão, porém, verdadeiro arrependimento dos próprios pecados e confissão… disso nada se fala. Alguns padres hoje estão mais para coaches que verdadeiros curas de almas.

Como consequência disso, o que temos em nossas igrejas é um punhado de gente que, ou por ignorância ou por malícia mesmo, leva a vida como “escravos do demônio”. As pessoas vivem afundadas em seus maus hábitos, não se sentem minimamente incomodadas com o estilo de vida mundano que têm, e vão à igreja por puro hobby, como quem vai a um clube (às vezes até trajados a rigor). A conversão que eles conhecem é a do “bom-mocismo”: importa comportar-se, ter boas maneiras, não usar drogas e ser amigo de todo o mundo. No restante cada um é livre para fazer o que bem entende, desde que não incomode ninguém.

Esse infelizmente é o cenário de muitas paróquias Brasil e mundo afora. Como em muitas delas a Tradição da Igreja simplesmente desapareceu, como o vínculo que nos une — a nós, católicos do século XXI — com os fiéis católicos de todos os séculos anteriores, com os santos dos tempos passados, foi dissolvido sem que ninguém desse notícia, o que restou a muitas pessoas foi buscar recursos na internet e descobrir ali o que anos de frequência paroquial lhes sonegaram. 

Entenda-me bem: não se trata de defender aqui uma espécie de “catolicismo de internet”. (A imagem que vem à mente, com a expressão, é a de um indivíduo egoísta, sentado em frente a uma tela de computador, disposto a apontar o dedo para o mundo inteiro, exceto para si mesmo; a convocar uma “cruzada” contra os infiéis dentro da Igreja, ao mesmo tempo que evita “cruzar” com os próprios defeitos para mudá-los.) Nesse campo todo cuidado é pouco. Não podemos esquecer que a Igreja é uma realidade viva ainda hoje, na sua hierarquia, nos sacramentos e nos sacerdotes que os administram. Continua sendo verdade que unus Christianus, nullus Christianus, “um cristão sozinho não é cristão nenhum”. 

Mas eu também preciso pensar na grande providência que é a internet para a formação dos católicos hoje. Com ela, hoje, temos acesso fácil, instantâneo e gratuito a uma verdadeira biblioteca de bons livros católicos, que nos põem em contato com a fé de sempre e nos dão uma lufada de ar fresco, uma verdadeira libertação da falta de catequese, e até mesmo da má formação, que tantos de nós recebemos em nossa infância, seja dentro de casa, seja nas nossas paróquias. 

Não fosse esse instrumento, eu muito provavelmente ainda estaria deitando e rolando nos vícios do meu começo de juventude… Em outras palavras, eu estaria indo para o Inferno

Esse drama que eu estava vivendo, no entanto, é o drama atual de muitíssimas pessoas (católicas batizadas!), que se encontram na mesmíssima situação de miséria em que eu estava dez anos atrás. Quando elas ouvirão a voz da verdade (se é que terão a chance de ouvi-la)? Quando procurarão o sacramento da Confissão e voltarão para a amizade de Deus (se é que o farão)? Até que despertemos de nossa letargia, de nossa mudez e de nossa covardia em pregar a doutrina de sempre da Igreja, para salvar os vivos, talvez Deus precise continuar ressuscitando os mortos...

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Por que ficou tão difícil defender o óbvio?
Sociedade

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

Por que ficou tão difícil defender o óbvio?

É normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador...

Dale AhlquistTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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Continuamos a cambalear por conta dos golpes desferidos pela cultura da morte. O ataque à vida, e particularmente à família, instituição que gera e alimenta a vida, prossegue implacavelmente. Agora, nossos governos e tribunais deram o nome de “casamento” a um tipo de relacionamento antinatural e estéril, que noutra época não se poderia mencionar num ambiente respeitoso. Ser enxovalhado dessa maneira pode ser desorientador, e temos visto até pessoas boas começando a falar como se tivessem sido atingidas na cabeça muitas vezes.

Infelizmente, temos de admitir: nós aceitamos ser encurralados. Todavia, podemos mudar o ímpeto dessa luta, assumindo, em primeiro lugar, o controle da conversa, para que não sejamos controlados por chavões que servem apenas como distração; temos, por isso, de afastar o debate da palavra “casamento”, da qual tanto se abusa, e focar na palavra “matrimônio”, que pressupõe um vínculo que dá origem à maternidade. E não nos esqueçamos de acrescentar o adjetivo “santo”, que aponta para a sacralidade do ato diante de Deus.

Dessa maneira, levamos a discussão de volta ao princípio do que é uma família e qual é o seu papel na sociedade. Ao longo de toda a história humana, do mundo antigo ao moderno, a família sempre foi o “tijolo” fundamental da civilização. E é o que constrói, de fato, não apenas as quatro paredes do lar, mas também as paredes que protegem a cidade. Portanto, destruir a família equivale a destruir a sociedade, e redefinir a família é essencialmente o mesmo que destruí-la.

Se realmente quisermos ganhar essa batalha, deveríamos ler muito mais G. K. Chesterton, por exemplo. Na verdade, todos deveriam lê-lo. Chesterton é um defensor da fé, da família, da vida e — o que é especialmente necessário para os dias de hoje — ele é um defensor da normalidade. Afinal, é mesmo normal crer em Deus e que uma família é composta de pai, mãe e filhos. É mesmo normal proteger a vida. Mas, surpreendentemente, é difícil defender essas coisas hoje em dia, e afirmar o óbvio tornou-se algo desafiador. Por isso Chesterton pode ajudar bastante.

Fundamentalmente, protegemos o lar porque é um lugar de liberdade, ainda que às vezes seja difícil defini-la. A esse respeito, Chesterton argumenta que o mundo fora da casa — o escritório, a empresa, o banco, a loja — é mais regrado e restritivo, além de ser menos respeitoso com a dignidade humana e a liberdade do que o lar. Vejam que o comércio está sempre preocupado com a moda, assim como a chamada “vida social”. Ambos estão sempre em busca do prazer, o que é bem diferente da felicidade; trata-se de uma questão de gosto, o qual acaba conduzido justamente pela moda. Assim, as pessoas terminam mais presas ao pequeno, estranho e badalado mundo fora do lar do que ao vasto, belo e permanente mundo dentro do lar.

Chesterton diz: “Reclamo da tendência antidoméstica porque ela é tola. As pessoas não sabem o que estão fazendo, porque não sabem o que estão desfazendo”. Toda discussão, acrescenta ele, é “uma evasão ou fuga isolada” que não pretende enfrentar o seguinte: para que serve uma família e como ela está sendo destruída.

Mas como chegamos a este ponto? Chesterton viu há mais de um século que isso aconteceria. O colapso moderno da família, diz ele, deve-se à “emancipação sexual”. Essa expressão abrange muitas coisas que estão interligadas: a perda dos papéis distintos do homem e da mulher, do marido e da esposa, do pai e da mãe; a desonra às promessas matrimoniais, que levou ao divórcio, à segunda união e a crianças com um ou três pais; a relutância à própria realização dos votos, que gerou a epidemia de “coabitação”, a qual, por sua vez, perpetua a infidelidade, a ilegitimidade e o abuso violento; a praga da pornografia, que tenta fazer do sexo algo solitário; e, agora, a mais recente novidade, o escárnio chamado “casamento homossexual”. Tudo isso é parte da “emancipação sexual”, ou seja, “sexo sem sexo”, a vã tentativa de nos libertarmos não apenas do vínculo matrimonial, mas das consequências e responsabilidades da intimidade matrimonial. É também a completa negação do fato evidente de que o sexo gera bebês e o melhor lugar para eles é uma família.

No entanto, destruímos a família e o fizemos sem pensar no que a substituiria. Chesterton diz: “Ninguém jamais discutiu qual seria a alternativa à Família. A única opção óbvia é o Estado… A terrível punição para a emancipação sexual não é a anarquia, mas a burocracia.”

Temos de fazer com que as pessoas entendam isso. Quando uma sociedade está inflamada pela luxúria, deve encontrar uma maneira de manter a ordem enquanto gratifica a si mesma. Inicialmente, a medida é sutil, mas de repente passa a ser oficial. A emancipação sexual leva à escravidão. Embora a escravidão da luxúria seja um aprisionamento pessoal, a emancipação sexual em larga escala põe a sociedade num estado de servidão. O crescimento do governo implica a perda da liberdade, pois o Estado substitui o papel dos pais. 

E isso também leva a ataques contínuos contra aqueles que ainda vivem em família, pois o Estado obriga as empresas privadas a disponibilizar contracepção e aborto, a educação pública impõe mentiras para as crianças e as novas leis e camadas de burocracia implementam à força a redefinição do matrimônio e da família. As novas leis se intrometem em todos os aspectos de nossa vida, particularmente na dimensão mais sagrada e importante dela: nossa relação com Deus. A emancipação sexual é inimiga da liberdade e, particularmente, da liberdade religiosa.

É por isso que a Igreja defende a família. Ela é o tijolo fundamental da sociedade, mas a religião é o cimento que mantém os tijolos unidos. A Sagrada Família é o modelo de família humana e também foi atacada pelo Estado quase imediatamente. A Igreja ocupa a posição ingrata de ter de salvar almas numa sociedade ímpia que quer destruí-las. Diz Chesterton: “Quando Deus é suprimido, o governo torna-se Deus.” Mas este não é o Deus que adoramos. 

De qualquer modo, não devemos nos desesperar agora. Afinal, não apenas temos o Deus único e verdadeiro ao nosso lado, mas temos uns aos outros. Chesterton recorda que há mais pais do que policiais. Em outras palavras, a família ainda é maior que o Estado. É a hora da coragem, do sacrifício e da alegria da batalha.

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Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?
Sociedade

Os nossos direitos
ou os de Deus primeiro?

Os nossos direitos ou os de Deus primeiro?

Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender? É o que queremos explicar, neste texto, aos católicos do Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Por que a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de manter no ar o “Especial de Natal” do grupo Porta dos Fundos, não nos deveria surpreender?

A quem ainda não está acompanhando toda a querela judicial em torno do filme blasfemo, remetemos nossos leitores às duas matérias que já produzimos a esse respeito: a primeira lançando um olhar mais espiritual sobre o caso e a segunda analisando o problema da “liberdade de expressão” (que discutiremos mais a fundo aqui). 

Um resumo do caso

Ministro Dias Toffoli.

Para resumir a história, desde o final do ano passado, prevaleceu a decisão de primeira instância que negara o pedido feito pelo Centro Dom Bosco de retirar da Netflix a referida produção cinematográfica. O caso sofreu, porém, uma reviravolta nesta semana: em segunda instância, o desembargador Benedicto Abicair, da 6.a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, acolheu o recurso dos católicos e, antes mesmo de analisar o mérito da questão, determinou que o serviço de streaming retirasse do ar, ao menos provisoriamente, o filme em questão. 

Mas a decisão teve curto prazo, pois na noite mesmo de ontem, 9 de janeiro, o ministro Toffoli voltou à decisão inicial da Justiça. O argumento do magistrado é de que o Supremo já firmara entendimento sobre “a plenitude do exercício da liberdade de expressão como decorrência imanente da dignidade da pessoa humana” e como “meio de reafirmação/potencialização de outras liberdades constitucionais”. Toffoli foi além e disse que, quanto ao respeito à fé cristã, “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã, cuja existência retrocede há (sic) mais de 2 mil anos, estando insculpida na crença da maioria dos cidadãos brasileiros”.

Desse último argumento falaremos mais adiante. Por ora, voltemos à questão inicial. Por que essa postura, vinda do órgão mais importante do Poder Judiciário, era esperada? Por que é que, dados os pressupostos políticos e jurídicos sob os quais vivemos, infelizmente não se poderia esperar uma atitude diferente do Estado brasileiro? 

Católicos “liberais”

Por um motivo muito simples: vivemos em um Estado liberal. (Esqueçam neste texto a associação desse termo com a economia. Não é de liberdade econômica que queremos falar, mas de liberdade de expressão, no sentido mais amplo do termo.) A ideia por trás é esta exposta por Toffoli: se não pudermos nos expressar livremente, não podemos ser plenamente humanos, não somos “gente completa”. 

Mas é evidente que essa liberdade não é nem pode ser irrestrita, mesmo numa sociedade como a nossa. Assim (embora saibamos que as novelas globais já desceram bastante o nível nos últimos anos), ninguém defenderá (nem os ministros do Supremo) que exibir um filme pornográfico em horário nobre, na TV aberta, seja simples consequência da “plenitude do exercício da liberdade de expressão”. E ninguém o fará porque toda liberdade precisa de limites, sob o risco de ferirmos, por exemplo, a inocência da infância e da juventude (mais do que ela já está ferida, e justamente por conta de uma liberdade mal entendida). 

A pergunta é que limites a sociedade brasileira (e, representando-a, as autoridades civis) está disposta a colocar à tal liberdade de expressão. O que se deduz não só da fala do ministro Toffoli, mas da posição de muitíssimos cristãos católicos é que a ofensa ao cristianismo, o ultraje às verdades da fé, a blasfêmia, em suma, não seriam uma razão justa para tanto. A opinião preponderante é: “Não precisamos concordar com a ‘brincadeira’ do Porta dos Fundos, mas, também, quem não quiser assistir a ela, que não assista, não precisamos ‘censurar’ as pessoas só porque não concordam conosco etc. etc.” A filosofia de muitos católicos batizados, nesse sentido, é não a do Magistério da Igreja, mas a da Revolução Francesa: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.”

Os que pensam assim terão de nos desculpar, mas esse não é o sentir da Igreja Católica, nunca foi e jamais poderá ser. (O autor da frase acima, a propósito, Voltaire, era inimigo declarado de Cristo e da sua Igreja.) Não é verdade que todos são livres para dizer o que bem entenderem e, de nossa parte, seria necessário tolerar o achincalhe à fé cristã, a zombaria de tudo o que temos por mais sagrado… e, ainda por cima, em silêncio e de braços cruzados. 

Muitas vezes, nós só aceitamos essa leniência e consequente mordaça porque já fomos seduzidos pelo grande erro de nossa época: o de que tanto faz a questão religiosa e, portanto, Deus é adorado igualmente tanto no terreiro de macumba quanto na paróquia da minha casa; o de que cada pessoa tem a “sua” verdade, então que cada um viva a sua, ninguém incomode ninguém e está tudo certo. Ou seja, o mal que precisa ser primeiro denunciado e extirpado de nossos corações e famílias chama-se relativismo. Se Jesus Cristo é Deus e nós, católicos, cremos nisso verdadeiramente, se nós gastamos tempo transmitindo essa verdade aos nossos filhos, como podemos ficar indiferentes a produções que o retratam como um beberrão dissoluto? Como pode a nossa fé na divindade de Cristo conviver com a negligência diante das ofensas a essa verdade?

Não, se Jesus Cristo é Deus, Ele tem o direito de ser respeitado.

Agora, se Ele é apenas mais um fundador de religião, como Maomé, como Buda, como Confúcio, então todas as religiões merecem o mesmo respeito (e, consequentemente, o mesmo desprezo). Chesterton dizia que “de um católico espera-se que respeite todas as religiões exceto a sua”. Muito bem, respeitar todas as religiões não dá problema para ninguém, se todas são falsas (falamos disso em nosso primeiro texto a respeito do pecado de blasfêmia). O problema é quando, na ânsia de ofender todos os deuses, você termina ofendendo o único que existe, o único que é verdadeiramente, o único que pode realmente reagir e nos punir por esse desprezo. O problema é quando a Verdade vem nos pedir contas... de como gastamos nossa liberdade.

Mas nós realmente cremos? Cremos de fato que a blasfêmia, a irreverência, a exposição ao ridículo de Deus (como fizeram os algozes de Cristo e como fizeram os “porteiros dos fundos”) são uma ofensa à Verdade e, como tal, não têm o direito de existir, nem de ser veiculadas e exibidas ao público? Cremos, em suma, que os direitos de Deus estão acima dos nossos?

Não, nós não cremos. Porque somos relativistas liberais, preferimos a liberdade à verdade. E é por isso que nossas crianças estão sendo corrompidas tão cedo; é por isso que nossos jovens não conseguem mais discernir o que é bom e o que é mau; é por isso que nossos adultos sofrem com uma “crise de sentido” tremenda e avassaladora. Porque fomos ensinados a ser livres, mas sem conhecer antes a linha que separa o solo firme do precipício

Somos “campeões em liberdade”, ninguém pode negar, fazemos o que bem entendemos e dane-se o que pensam ou deixam de pensar os outros. Mas também somos prostitutos e beberrões, drogados e desbocados, cruéis e mentirosos… Com a diferença de que, nisso, somos escravos, terrivelmente escravos. Escravos porque estamos presos nesse modo de vida, não sabemos (nem fomos ensinados) a levar a vida de outro modo, a vida inteira fomos vítimas da “liberdade de expressão” desta geração perversa e da falta de vigilância dos pobres dos nossos pais.

Por isso, será mesmo verdade que um vídeo besta não tem poder de influência sobre uma geração? O ministro Dias Toffoli diz que “não é de se supor que uma sátira humorística tenha o condão de abalar os valores da fé cristã”. A premissa do jurista está certa, de fato, mas a conclusão está errada. Está certa a premissa porque, com base na promessa de Nosso Senhor, se as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (cf. Mt 16, 18), muito menos a Porta dos Fundos! Mas a conclusão está errada porque, se o filme em questão não pode “abalar os valores da fé cristã” em absoluto, ele pode, sim, abalá-los nas crianças, nos jovens, enfim, em todas as pessoas que lhe deram, dão e darão audiência. Não é só Deus que se ofende com a blasfêmia que lhe fazem (como se fosse pouco); também os homens, criados à sua imagem e semelhança, sofrem terrivelmente, nesta e na outra vida, com o pecado com que colaboram.

Alguma sugestão sobre o que fazer? 

Mas o que fazer quando é a própria Constituição que parece dar aval à liberdade sem limites dos zombadores? 

Bom, comece-se pelo fato de que, seja qual for o culto que os juristas brasileiros têm prestado à Constituição Federal, eles mesmos são os primeiros a torcê-la e retorcê-la para os seus próprios propósitos, tão logo surja a primeira oportunidade. Foi assim que, por obra dos mesmos ministros do STF, a família natural foi transformada no arranjo que se lhe queira dar (por unanimidade) e as crianças com anencefalia foram consideradas indignas de viver (por maioria de votos). Para os que estão no poder, formados num modo marxista e, portanto, liberal de pensar, a verdade não existe; tudo não passa de um jogo de interesses. Quem tem a toga dita as regras do jogo.

Portanto, se tivéssemos bons juristas, com um bom Direito na mente, trabalhando nos órgãos máximos da Justiça, facilmente teríamos uma solução muito melhor e mais adequada ao problema em questão. No fundo, com uma concepção jurídica verdadeira, que levasse em conta o Direito Natural, muitíssima coisa que pensamos ser inevitável poderia tranquilamente ser revertida.

Mas, enquanto isso não acontece, o que nos resta é, primeiro, confiar nossa causa à Justiça divina (a única que não falha); e, segundo, fomentar um verdadeiro movimento cultural a fim de que as pessoas recebam uma formação jurídica íntegra e os católicos que exercem esse mister honrem de fato a tradição religiosa a que pertencem (um estudo das encíclicas sociais do Papa Leão XIII, especialmente a Libertas, seria um ótimo começo): afinal, será preciso muito mais do que uma ação judicial para vencer a cultura da morte e a difusão da blasfêmia. Sim, porque, no “maior país católico do mundo”, certamente há advogados, promotores e juízes católicos… Mas, se eles existem, por que é que não fazem nada ou, pior, até reagem negativamente aos que fazem alguma coisa?

Porque, assim como a separação moderna e laicista entre Estado e Igreja, nossos católicos separam sua vida privada e suas funções públicas, sua fé e seu trabalho, seus direitos e os de Deus, sua liberdade e a verdade na qual dizem crer.

Enquanto isso acontecer, enquanto continuarmos na ilusão de que podemos servir ao mesmo tempo a Jesus Cristo e à Revolução Francesa, ao Deus uno e trino e à “deusa liberdade”, a blasfêmia, a indecência e tudo o que advém de uma liberdade desenfreada se tornará, pouco a pouco, o pão que comemos todas as manhãs. E então, por não termos defendido os direitos de Deus, os católicos terminaremos confinados às sacristias e sem direitos, exceto um: o de ficarmos calados.

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