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Desânimo, a tentação mais perigosa de Satanás
Espiritualidade

Desânimo,
a tentação mais perigosa de Satanás

Desânimo, a tentação mais perigosa de Satanás

Embora nem sempre se lhe dê a devida atenção, o desânimo deve ser encarado como uma tentação, e até como uma tentação das mais perigosas, visto que expõe a alma cristã a abandonar toda obra de piedade.

Padre J. Michel5 de Julho de 2019
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Perigos e efeitos funestos do desânimo. — O desânimo é a tentação mais perigosa que o inimigo da salvação dos homens possa pôr em obra. Nas outras tentações, ele só ataca uma virtude em particular e mostra-se a descoberto; no desânimo, ataca-as todas, e esconde-se.

Nas outras tentações, vê-se facilmente a cilada: na Religião, não raro na própria razão, e numa educação cristã, achamos sentimentos que as condenam: a vista do mal que não podemos disfarçar, a consciência, os princípios de Religião que despertam, servem de apoio para nos sustentarmos. No desânimo não achamos socorro algum; sentimos que a razão não basta para praticar todo o bem que Deus pede; por outro lado, não esperamos achar junto a Deus a proteção de que havemos mister para resistirmos às paixões. Achamo-nos, pois, sem coragem, prontos a tudo abandonar; e é até aí que o demônio quer conduzir a alma desanimada.

Nas outras tentações, vemos claramente que seria mal aderirmos a elas por um sentimento refletido: no desânimo, disfarçado sob mil formas, acreditamos ter razões as mais sólidas para nos deixarmos guiar por esse sentimento, que não consideramos como uma tentação. Entretanto, esse sentimento faz considerar como impossível a prática constante das virtudes, e expõe a alma a se deixar vencer por todas as paixões. É, pois, importante evitar essa cilada.

O efeito mais funesto do desânimo é que a alma que nele cai não o considera uma tentação. A esperança e a confiança em Deus é tão mandada quanto a Fé e as outras virtudes. — O que faz o grande mal de uma alma desanimada é que, iludida por um temor excessivo que lhe disfarça os verdadeiros princípios, abatida pela vista das dificuldades contra as quais não acha em si mesma recurso algum, ela não considera esse estado como uma tentação. Se o encarasse sob este ponto de vista, desconfiaria das razões que o alimentam: e, assim, sairia dele bem mais cedo e mais facilmente.

Bem certo é, entretanto, que se trata de uma tentação bem definida; porquanto todo sentimento que é oposto à lei de Deus, ou em si mesmo ou pelas consequências que pode ter, evidentemente é uma tentação. É assim que julgamos de todas as que podemos experimentar. Se nos vem um pensamento contra a Fé, um sentimento contra a Caridade, ou contra alguma outra virtude, consideramo-lo como uma tentação, desviamo-nos dele, e aplicamo-nos a produzir atos opostos a esse pensamento, a esse sentimento, que nos põe em perigo de ofender a Deus.

Ora, a Esperança e a confiança em Deus é tão mandada quanto a Fé e as outras virtudes. O sentimento que vai contra a Esperança é, pois, tão proibido quanto o que vai contra a Fé, e contra qualquer outra virtude: é, pois, uma tentação bem caracterizada. A lei prescreve-nos fazer amiúdes Atos de Fé, de Esperança e de Caridade: proíbe-nos, por isso mesmo, todo ato, todo sentimento refletido contrário a essas virtudes tão preciosas e tão salutares. Deve-se, pois, considerar o desânimo como uma tentação, e mesmo como uma tentação das mais perigosas, visto que expõe a alma cristã a abandonar toda obra de piedade.

Para tornardes sensível a vós mesmos esse perigo, examinai a conduta ordinária dos homens. A esperança de ser bem sucedido, de se proporcionar um bem, de evitar um mal, numa palavra, de satisfazer algum desejo ou alguma paixão, é que os faz agir, é que os sustenta nas penas que eles têm de suportar, é que os anima nos obstáculos que eles têm a vencer. Tirai-lhes toda esperança, e logo eles cairão na inação. Só um homem no delírio pode dar-se movimentos por um objeto que ele desespera de poder adquirir. O mesmo efeito o desânimo produz na prática das virtudes; funda-se no mesmo princípio, a falta dos meios para chegar ao fim que nos propomos.

A alma cristã que não espera vencer-se na prática de alguma virtude, nada ou quase nada empreende para se fortificar. Os esforços insuficientes que ela faz aumentam-lhe a fraqueza; e, mais do que meio vencida pelo seu desânimo, ela se deixa facilmente arrastar à paixão que a domina. A vista da sua fraqueza lança-a primeiramente na irresolução, na perturbação. Neste estado, todo ocupada da dificuldade que sente em combater, ela já não vê os princípios que devem guiá-la. O temor de não ser bem sucedida impede-a de enxergar os meios que deve adotar para vencer, e que Deus lhe apresenta: ela se entrega, pois, ao inimigo sem defesa. É como uma criança a quem a vista de um gigante que avança contra ela faz tremer, e que não pensa em que uma pedra basta para derrubá-lo, se ela se servir dessa pedra em nome do Senhor. Essa alma, assim, desanimada, tem um socorro poderoso na bondade do Pai mais terno; e que é só reclamar esse socorro, para sair vitoriosa do combate.

Fonte e causa das impressões que o desânimo produz numa alma cristã. — Por que é que o desânimo produz tão fortes e tão funestas impressões numa alma cristã? Ei-lo aqui. A alma está bem convencida da sua fraqueza, que amiudadas vezes ela experimenta: sente vivamente a dificuldade que tem em se vencer, coisa que lhe sucede raramente. Todo ocupada dessas ideias tristes e desalentadoras, de que tem pouca coragem, de que não faz nada para agradar a Deus, ela considera como coisa inútil recorrer ao Senhor, que, nesse estado, não deve escutá-la. Estranho efeito do orgulho do homem, que quereria dever a si mesmo o bem que faz e a felicidade a que aspira, contra esta palavra do Espírito Santo: Quid autem habes quod non accepisti? — “Que tendes que não tenhais recebido?” (1Cor 4, 7). 

Essa alma, pois, não reflete, nem parece contar senão com as suas obras e com as suas próprias forças; de sorte que o seu desânimo diminui, cessa, volta ou aumenta, conforme ela age bem ou mal. Ela não pensa em que só e exclusivamente da misericórdia de Deus é que deve esperar socorro, e não dos seus próprios méritos; que, quando ela faz o bem, é pela graça de Deus que o faz, graça que ela não pôde merecer; e que, em qualquer estado, essa misericórdia lhe está aberta para obter essa graça. 

Quando fazemos sentir a essas almas desanimadas que, a exemplo dos Santos, devem pôr toda a sua confiança em Deus, sem hesitar elas respondem não ser surpreendente que os Santos tivessem confiança em Deus, visto serem Santos, e servirem a Deus com fidelidade; mas que eles não têm as mesmas razões que os Santos para ter essa confiança perfeita. Não vêem que esse raciocínio é contra os princípios da Religião. 

A Esperança é uma virtude teologal; o motivo dela só em Deus pode achar-se: essas almas fazem dela uma virtude humana, cujo motivo se acha no homem e nos seus costumes. Não; os Santos nunca esperaram em Deus porque eram fiéis a Deus; foram fiéis a Deus por haverem esperado n’Ele. Do contrário, o pecador jamais poderia formular um ato de Esperança; e, no entanto, é esse ato de esperança que o dispõe a voltar a Deus. 

Notai bem que S. Paulo não diz: Obtive misericórdia porque fui fiel; mas diz: Quanquam misericordiam consecutus a Domino, ut sim fidelis — “Obtive misericórdia a fim de ser fiel” (1Cor 7, 15). A misericórdia precede sempre o bem que fazemos: é ela que nos dá as graças que no-lo fazem praticar. Os santos nunca contaram com as suas obras para apoiarem a sua confiança em Deus: estavam por demais compenetrados desta lição que Jesus Cristo nos dá: “Quando tiverdes feito tudo o que vos é mandado, dizei: Servi inutiles sumus: quod debuimus facere, fecimus — Somos servos inúteis” (Lc 17, 10). Quanto mais Santos eles eram, tanto mais humildes eram. A sua humildade não lhes deixava enxergar senão a perfeição a que ainda não haviam chegado. Bem distanciados dos sentimentos do Fariseu do Evangelho, eles não achavam nada em si que pudesse assegurar a sua confiança; mas procuravam e achavam no seio de Deus os fundamentos inabaláveis dela. Tais são os motivos que os sustentaram; tais devem ser os que vos animarão e que reanimarão a vossa fraqueza abatida. É importante que sejais instruídos sobre este ponto, para que não caiais novamente na armadilha que o demônio vos tem tantas vezes lançado. 

Do verdadeiro motivo da esperança cristã. Esse motivo é o mesmo para todos os homens. — Consoante a Religião, o motivo da Esperança cristã, ou da confiança em Deus, é o mesmo para todos os homens, santos ou pecadores. 

A Esperança, como já dissemos, é uma virtude teologal, como a Fé e a Caridade. O seu motivo não pode, pois, ser achado senão em Deus, não pode apoiar-se senão nas perfeições divinas. Assim sendo, excluímos desse motivo os nossos méritos. Não esperamos em Deus por lhe havermos sido fiéis: esperamos n’Ele para obtermos a graça de lhe sermos fiéis. 

Em que é que se funda, pois, a Esperança cristã? e qual é o motivo dela segundo a Religião? O Papa Bento XIV, no modelo do “Ato de Esperança”, exprimiu as perfeições divinas que formam esse motivo. Esse ato é assim: “Meu Deus, espero em vós porque sois fiel às vossas promessas, sois todo-poderoso, e porque infinitas são as vossas misericórdias”. Nesse motivo, não há nada do homem; tudo é tomado em Deus mesmo. E pode haver motivo mais forte para nos firmar na Esperança, na confiança em Deus? 

Achamos aí a misericórdia de Deus, que é mais solícita em derramar os seus dons sobre os homens do que estes são em recebê-las; que quer o verdadeiro bem deles, a sua salvação, muito mais sinceramente do que o querem eles próprios, visto que Ele os previne pela sua graça, graça que eles não podem merecer; visto que lhes prepara socorros proporcionados às provações em que os coloca, socorros que eles podem obter por suas preces, e de que podem fazer uso para resistir ao inimigo da salvação: misericórdia infinita, por conseguinte superior a toda a malícia dos homens; e que, depois de se haver manifestado de maneira tão evidente e tão admirável pelo dom que Deus nos fez de seu Filho único para nos remir, não nos recusará os socorros que Ele tem em vista proporcionar-nos por meio desse benefício extraordinário. 

Os efeitos dessa divina misericórdia são-nos assegurados pelas promessas que Deus nos fez de vir em nosso socorro quando o reclamássemos, para operar a nossa salvação. Essencialmente verdadeiro, Deus não pode enganar-nos; e Ele é essencialmente fiel às promessas que faz às suas criaturas. Ora, nos Livros Santos achamos as exortações mais tocantes para recorrermos a Ele nas nossas necessidades, com promessa de que Ele será o nosso sustentáculo e a nossa força. Podemos, então, ter a menor desconfiança, o menor temor refletido de que Ele nos rejeite, de que nos abandone, quando o invocarmos com confiança? Não seria isto acusar Deus de faltar à sua promessa? Ora, isto seria uma blasfêmia. 

Verdade é que, para nos atender, Deus exige que o invoquemos com confiança. Mas também mereceríamos obter os seus benefícios se os pedíssemos com um coração vacilante sobre a sua bondade, bondade cujos efeitos experimentamos a cada instante e de tantas maneiras? Não, diz-nos o Apóstolo S. Tiago (1, 6), um coração que reza com essa disposição de desconfiança não obterá nada. E vemos que Jesus Cristo, na sua vida mortal (cf. Mt 9, 22), só concedia milagres à confiança. 

A onipotência de Deus dá o último traço a este motivo de Esperança cristã, fazendo-nos considerar-nos superiores a todas as nossas necessidades. Muitas vezes, os homens prometem o que não está no poder deles dar: assim não sucede com Deus onipotente. Ele não pode achar obstáculo insuperável à sua vontade nos dons que quer fazer-nos. Nos tesouros infinitos das suas graças Ele tem meios infalíveis para nos conduzir à santidade. Nunca devemos, pois, recear pedir-lhe ou coisas demasiadas ou coisas demasiadamente difíceis. 

Infinitamente rico, Deus possui todos os bens, na ordem da graça, como na ordem da natureza. Infinitamente poderoso, não há nenhum dos seus bens de que Ele não nos possa dar parte. Infinitamente bom, Ele está disposto, segundo as suas promessas, a nos conceder tudo o que nos é necessário para a nossa salvação. É nestes motivos essenciais, hauridos nas perfeições de Deus, que todos os homens devem fundar a sua esperança. Só eles podem dar à nossa confiança essa firmeza inabalável que ela deve ter.

Referências

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As pessoas continuarão casadas no céu?
Doutrina

As pessoas continuarão casadas no céu?

As pessoas continuarão casadas no céu?

No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2019
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É comum, depois da morte do marido ou da mulher, que os viúvos me façam perguntas parecidas com esta:

Eu perdi recentemente o meu marido, de 46 anos, e desejo muito reencontrá-lo um dia. Mas algumas pessoas têm-me dito que, com a morte dele, o nosso casamento acabou e que Jesus disse que não seremos mais esposos nem considerados marido e mulher no céu. Para mim, isso é muito difícil de entender. No céu, nós iremos nos conhecer? Haverá entre nós alguma relação especial?

É fácil sentir a dor com que a pergunta é formulada. Trata-se, talvez, de uma dor desnecessária, nascida de uma leitura excessivamente estrita das palavras de Jesus no Evangelho segundo São Marcos. Ali, Jesus está respondendo a uma questão hipotética levantada pelos saduceus sobre uma mulher que fora casada sucessivamente com sete irmãos, nenhum dos quais lhe deu filhos. Os saduceus formulam o problema não tanto para atacar o matrimônio como para mostrar o aparente “absurdo” da ressurreição dos mortos. Jesus contesta da seguinte maneira: 

Vieram ter com ele os saduceus, que afirmam não haver ressurreição, e perguntaram-lhe: “Mestre, Moisés prescreveu-nos: Se morrer o irmão de alguém, e deixar mulher sem filhos, seu irmão despose a viúva e suscite posteridade a seu irmão. Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência. Então, o segundo desposou a viúva, e morreu sem deixar posteridade. Do mesmo modo o terceiro. E assim tomaram-na os sete, e não deixaram filhos. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, a quem desses pertencerá a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher”.

Jesus respondeu-lhes: “Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos nos céus. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’ (Ex 3, 6)? Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados” (Mc 12, 18-27).

A primeira coisa que devemos notar é que Jesus se refere ao matrimônio apenas de passagem. Sua resposta à estranha pergunta dos saduceus pretende ser um solene ensinamento sobre a realidade da ressurreição dos mortos. Nela, portanto, Jesus não desenvolve com profundidade uma doutrina sobre a experiência que terão os esposos no céu.

Por isso, não devemos ser apressados e afirmar que um casamento duradouro nesta vida não terá valor algum na futura. No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos. Decerto, os que foram casados neste mundo terão no céu uma união muito mais perfeita: eles se entenderão e amarão plenamente e terão uma intimidade espiritual muito maior do que poderiam ter um dia sequer imaginado. E eles estarão assim tão unidos porque, antes de tudo, estiveram unidos a Deus: com, em e por meio de Deus, eles estarão unidos numa união perfeitíssima. Isso também se aplica aos nossos outros relacionamentos familiares e de amizade, cada um segundo o que lhe é próprio e perfeito. Os casados, é claro, o terão em grau supremo, já que os vínculos matrimoniais são abençoados na terra com graças especiais.

Eis o que diz Tertuliano, escritor dos primeiros séculos da Igreja:

Além do que, havemos de estar unidos às nossas falecidas esposas, porque estamos destinados a um melhor estado […], a uma união espiritual […]. Por conseguinte, os que estamos unidos a Deus hemos de permanecer juntos […]. Na vida eterna, portanto, Deus não irá separar os que Ele uniu nesta vida, na qual Ele mesmo proíbe que se separem” (Sobre a monogamia, 10). 

Na verdade, alguns aspectos do matrimônio terminam mesmo com a morte de um dos esposos. Por exemplo, os votos matrimoniais que unem o casal em um relacionamento exclusivo só permanecem válidos até a morte de um deles. Logo, a morte do cônjuge permite, sim, ao esposo supérstite casar outra vez. Em alguns casos, aliás, sobretudo nos nossos tempos, as segundas núpcias podem até ser necessárias aos viúvos por motivos financeiros ou familiares. 

Ora, que o casamento termine quando um dos esposos morre é algo que diz respeito mais às realidades terrenas do que às celestes. Mas daí não se segue que um casamento contraído na terra não tenha mais valor no céu. Mesmo que uma pessoa se case novamente após a morte do primeiro esposo, não há dúvida de que ambos os relacionamentos se tornarão perfeitos no céu, sem exceção. Como a união espiritual entre eles será perfeita, não haverá ciúmes nem ressentimentos entre o primeiro e o segundo cônjuge.

No entanto, ao responder aos saduceus, Jesus afirma claramente que não haverá no céu novos matrimônios. Não haverá nem sinos nem cerimônias, porque o céu já é, por definição, a grande boda entre Cristo e sua Esposa, a Igreja.

Além disso, nesta vida, os homens e as mulheres se dão em casamento, fundamentalmente, para a propagação da espécie humana mediante a geração de novas vidas. E esta necessidade não mais existirá no céu, onde a morte não tem lugar. Os Padres da Igreja enfatizam este ponto em seus escritos:

  • “Com efeito, quando ressuscitarem dentre os mortos, eles já não se casarão nem se darão em casamento, mas serão como os anjos do céu, como disse o Senhor. Haverá certa restauração celeste e angelical à vida, de modo que não mais sofreremos nem mudaremos; e é por esta razão que irá cessar o matrimônio. De fato, este existe agora em função do nosso estado decaído e porque é necessário que as gerações se sucedam. Um dia, porém, seremos como os anjos do céu, nos quais não há sucessão de gerações e cuja raça dura para sempre” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Na ressurreição, os homens serão como os anjos de Deus, isto é, nenhum homem lá poderá morrer, nenhum irá nascer: não haverá crianças nem velhos” (Pseudo-Jerônimo, citado em Catena Aurea).
  • “Ora, o matrimônio existe para a geração de filhos, estes existem para a sucessão de gerações, e esta é necessária por causa da morte do indivíduo. Ora, onde não há morte, não há casamentos; e, por isso, os filhos da ressurreição serão como os anjos de Deus” (Agostinho, citado em Catena Aurea).

Quanto ao fato de que viveremos como anjos, o Senhor se refere à imortalidade, mas também a que não haverá mais necessidade de relações sexuais. Isso pode parecer frustrante para algumas pessoas, sobretudo nesta nossa época superssexualizada. No entanto, a intimidade entre os esposos no céu será muito maior do que qualquer união meramente física. Haverá entre eles uma alegria tão grande que tornará opacos os demais prazeres. Aqui também os Padres da Igreja são unânimes:

  • “Nosso Senhor nos indica que na ressurreição não haverá relações carnais” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Dado que será destruída toda luxúria carnal […], os homens se tornarão semelhantes aos santos anjos” (Cirilo de Alexandria, Hom. 136 super Luc.).

Os casais devem olhar com esperança para um relacionamento que será pleno e perfeito no céu, e não uma vaga lembrança. Embora, é verdade, os aspectos jurídicos do matrimônio cheguem ao fim com a morte, a união de vida e corações não passará. Em Cristo, permanece uma conexão espiritual, uma aliança de amor que se estende dos céus à terra, e no céu o Senhor irá com certeza levar à plenitude o que Ele uniu na terra, dando aos esposos uma alegria e união inimagináveis:

Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o Sheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina. As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios o poderiam submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo (Ct 6, 7-8).

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Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar
Virgem Maria

Cinco lições
que a Assunção tem a nos ensinar

Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar

A bela festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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Diante da enxurrada de males que inundam hoje a Igreja de Cristo, acabamos facilmente perdendo de vista o que deve ser para nós um consolo e estímulo constantes à prática da virtude: a única finalidade dos nossos esforços é a vida eterna no Reino de Deus, a Jerusalém celeste, a Igreja em sua perfeição materna e imaculada, junto de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de todos os anjos e santos.

O caminho que devemos percorrer até lá chegar é a caridade e a busca da santidade. E a belíssima festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Esta festa tem muito a ensinar; consideremos, porém, somente cinco coisas:

1) Em primeiro lugar, não temos morada definitiva nesta terra, este vale de lágrimas mortal, passageiro, infestado de pecados. Em sua imutável eternidade, Deus pensou em cada um de nós, criou-nos para si mesmo e colocou-nos no jardim deste mundo para cultivá-lo e guardá-lo, até que chegasse o momento de conduzir-nos àquele grande e belo paraíso do qual este mundo é sombra opaca, ou precipitar-nos para todo o sempre no inferno, por causa da nossa preguiça, desobediência e desprezo pelo chamado que nos fizera o nosso Criador.

Mas por que — alguém poderia pensar — temos nós de permanecer neste mundo por algum tempo antes de sermos elevados à morada eterna dos santos? Os seres humanos, sendo criaturas racionais, devem alcançar seu próprio fim passo a passo, e não de imediato, com um único ato (como foi o caso dos anjos, logo após serem criados). A condição humana, tal como Deus a quis, consiste em crescer até a maturidade, em crescer no conhecimento e na entrega de si mesmo. A nossa vida na terra, portanto, é uma escola de virtudes, de oração e amor, é um período de prova para saber o que realmente valemos e para onde queremos ir por toda a eternidade. E vemos que Nossa Senhora foi a melhor aluna desta escola: é aquela que escutou o Pai, recebeu sua Palavra e a deu livremente ao mundo.

A Assunção da Virgem, pintada por Murillo.

2) Em segundo, a nossa condição real não é a de um fantasma, nem a de uma ideia ou de um anjo, puramente espiritual. Não, somos feitos de carne e osso, somos o ponto de encontro entre o visível e o invisível. O Verbo se faz carne para redimir e divinizar este animal racional que somos nós, para lhe aperfeiçoar tanto a racionalidade como a animalidade. Em Cristo ressuscitado vemos, pois, perfeição tanto de espírito como de matéria. Eis aí o nosso destino: ressuscitar dos mortos, com nossas carnes íntegras e nossa alma unida ao corpo — a pessoa humana inteira, criada por Deus do pó da terra e insuflada com o sopro divino.

É o que já aconteceu com a Virgem Maria: ela, que não conheceu a corrupção do pecado, não havia de conhecer a corrupção do sepulcro; ela, em cujo ventre habitou a Palavra viva e vivificante, não havia de ser acorrentada pela morte: antes, pelo contrário, em toda a beleza de sua natureza humana, intacta, íntegra e cheia de graça, ela foi assunta em corpo e alma à glória do céu, tendo já alcançado plenamente a promessa da ressurreição.

3) Em terceiro lugar, a festa da Assunção nos ensina que as leis da natureza, por terem em Deus sua origem última, não limitam o poder e a vontade divina. Nossa Senhora foi elevada aos céus, contrariando assim o que chamamos de “leis físicas”, mas em total harmonia com a lei suprema que é a vontade de Deus. Ela entrou em outra dimensão, que não é medida pelo movimento de corpos corruptíveis e pelo tempo que eles levam para ir de um lugar a outro, uma dimensão muito acima do nosso espaço e tempo. Assim também aconteceu com Nosso Senhor em sua Ascensão, isto é, quando Ele subiu ao céu e “uma nuvem o ocultou aos olhos” dos Apóstolos (At 1, 9). Foi o jeito que o evangelista encontrou de dizer que Jesus saiu deste mundo criado e entrou na dimensão própria de Deus, a sua “terra pátria”, misteriosa e inefável, oculta a olhos mortais, mas agora aberta, graças à sua Paixão e Cruz, a quantos forem salvos.

4) Em quarto, a festa de hoje nos ensina a enorme dignidade do corpo humano, templo do Espírito Santo, que não deveríamos nunca profanar com lascívia ou impureza, desfigurar com mutilação e tatuagens, destruir com vícios e indolências, idolatrar com certa obsessão por esportes e exercícios, nem aparentemente desprezar pela cremação de seus restos mortais. O corpo é a digníssima morada de uma alma imortal e do Corpo de Cristo na Santíssima Eucaristia; é o digníssimo instrumento de que Deus se serve para transmitir a vida humana; é o meio essencial por que realizamos obras de caridade espiritual e material. E é este mesmo corpo que há de ressuscitar no último dia. Não é o corpo, contudo, que nos faz humanos nem aquilo em virtude do qual nos tornamos filhos de Deus: isto quem o faz é a nossa alma espiritual, que dá vida ao corpo e, por meio dos sacramentos, recebe o dom da graça santificante. Reconhecer o valor do corpo à luz de sua ordenação à alma e à vida eterna é a chave para debelar vários males atuais que tão mal fazem à carne.

5) Em quinto e último lugar, a Assunção nos revela que Nossa Senhora está perto, muito perto de Nosso Senhor: ela vê nossas necessidades e intercede por nós junto a Ele, assim como fizera outrora nas bodas de Caná: “Eles não têm mais vinho”. Ela sabe do que precisamos, ela escuta os pedidos de seus filhos e lhes providencia o necessário, como faria toda mãe amorosa, e ela é a mais amorosa de todas. E Jesus, que já sabe do que precisamos, como já sabia da falta de vinho nas bodas de Caná, está disposto a ouvir sua Mãe, dando-lhe assim a dignidade de cooperar para a nossa salvação.

A Assunção, pois, traz Nossa Senhora para mais perto de nós do que nunca, justamente por elevá-la para junto do Senhor, que está presente sempre e em todos os lugares. Não temos nada a temer, porque temos uma Mãe tão atenciosa e um Redentor tão generoso.

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E se Tarcísio fosse seu filho?
Santos & Mártires

E se Tarcísio fosse seu filho?

E se Tarcísio fosse seu filho?

“Bonito o relato do martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? E se o jovem Tarcísio fosse seu filho? Você, como pai, o incentivaria à obediência ou à traição?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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São Tarcísio — cuja memória a Igreja propõe à nossa meditação no mesmo dia em que celebra a Assunção da Santíssima Virgem Maria aos céus, dia 15 de agosto — morreu defendendo a Eucaristia, como se sabe. Os antecedentes de seu martírio mostram ainda que ele o fez não “em um ímpeto”, mas de maneira consciente, decidida, meditada de antemão. O Papa emérito Bento XVI chegou a contar os detalhes da história em uma de suas audiências

Certo dia, quando o sacerdote perguntou, como geralmente fazia, quem estava disposto a levar a Eucaristia aos outros irmãos e irmãs que a esperavam, o jovem Tarcísio ergueu-se e disse: “Envia-me a mim!”. Aquele rapaz parecia demasiado jovem para um serviço tão exigente! “A minha juventude — retorquiu Tarcísio — será a melhor salvaguarda para a Eucaristia”. Persuadido, o sacerdote confiou-lhe então aquele Pão precioso, dizendo-lhe: “Tarcísio, recorda-te que um tesouro celestial está a ser confiado aos teus frágeis cuidados. Evita os caminhos frequentados e não te esqueças de que as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos. Conservarás com fidelidade e segurança os Sagrados Mistérios?”. “Morrerei — respondeu com determinação Tarcísio — antes de os ceder!”.

O restante desse episódio todos conhecemos:

Ao longo do caminho, encontrou pela estrada alguns amigos que, aproximando-se dele, lhe pediram para se unir a ele. Quando a sua resposta foi negativa eles — que eram pagãos — começaram a suspeitar e a insistir, e observaram que ele apertava ao peito algo que parecia defender. Em vão procuraram arrancar-lhe o que ele trazia; a luta fez-se cada vez mais furiosa, sobretudo quando vieram a saber que Tarcísio era cristão; começaram a dar-lhe pontapés e lançaram-lhe pedras, mas ele não cedeu. Em agonia, foi levado ao sacerdote por um oficial pretoriano chamado Quadrato que, ocultamente, também viria a tornar-se cristão. Chegou ali sem vida, mas apertado ao peito ainda conservava um pequeno pedaço de linho com a Eucaristia. Foi sepultado imediatamente nas Catacumbas de São Calisto.

O Papa Dâmaso mandou fazer uma inscrição para o túmulo de São Tarcísio, segundo a qual o jovem morreu no ano 257. O Martirológio Romano fixa a sua data no dia 15 de agosto, e no mesmo Martirológio inclui-se também uma bonita tradição oral, segundo a qual no corpo de São Tarcísio não foi encontrado o Santíssimo Sacramento, nem nas mãos, nem na sua roupa. Explicou-se que a partícula consagrada, defendida com a vida pelo pequeno mártir, se tinha tornado carne da sua carne, formando de tal modo com o seu corpo uma única hóstia imaculada, oferecida a Deus.

Esse bonito relato — que grupos de acólitos e coroinhas talvez até saibam de cor, dado que São Tarcísio é seu padroeiro — precisa ser meditado em toda a sua profundidade, porque, à luz de um exame meramente natural e humano, o que esse jovem romano fez não tem lógica. Não pode compreender essa história, de fato, quem não é católico, quem não crê no mistério da Eucaristia, quem não crê que o pão consagrado pelo sacerdote na Santa Missa não é mais pão, mas o Corpo e o Sangue do próprio Deus humanado. 

Sim, porque, em meio aos pontapés e pedradas de que Tarcísio era alvo, fosse aquele um pão qualquer, ele teria o dever de o entregar a seus perseguidores, a fim de se manter vivo. Afinal, na hierarquia dos bens criados, a vida humana possui muito mais dignidade que uma coisa e, no caso, um alimento. Mas Tarcísio tinha , e fé católica. Ele havia aprendido da Igreja que aquilo que trazia nas mãos não era uma coisa, mas um homem; e não um homem qualquer, mas Jesus Cristo, Deus que se fez homem. Diante disso, o quadro se invertia completa e infinitamente: Tarcísio tinha, diante de si, a própria vida e a de Deus; a sua humanidade e a de Cristo. Era preciso, pois, preservar aquele cujo “amor vale mais do que a vida” (Sl 62, 4), e morrer mártir.

“Coisa bela”, podemos dizer, e de fato é. Santo Tomás de Aquino explica em sua Suma Teológica (II-II, 124, 3 c.) que:

O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque, tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos”. 

Não nos basta, porém, reconhecer a beleza do ato de São Tarcísio. Os episódios da vida dos santos são-nos propostos não só para que os admiremos, mas também para que os imitemos, senão em sua literalidade, ao menos nas virtudes que os inspiraram.

Por exemplo, imagine a senhora, mãe, imagine o senhor, pai, que Tarcísio fosse seu filho. “Bonito o martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? O senhor e a senhora são católicos, crêem na presença real de Jesus na Eucaristia, vão à Missa todos os domingos, comungam com frequência… Mas o que aconselhariam a seu filho, caso ele se achasse em situação semelhante à deste mártir dos primeiros séculos? Melhor: que grito desesperado o sr. e a sra. dariam a seu filho nessa circunstância? Dir-lhe-iam, com a mãe dos Santos Macabeus: “Meu filho, não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles” (2Mb 7, 27.29)? Ou pedir-lhe-iam, como o tio de São José Sánchez del Río, que ele simplesmente fizesse o que seus algozes o instavam a fazer, só para se ver livre da morte?

Pintura digital de S. Tarcísio, por Gabrielle Schadt.

Sim, essa é uma situação extrema, e não seríamos capazes de fazer o correto contando apenas com nossas forças: o martírio, e a aceitação dele, só são possíveis com a graça de Deus. Sem ela, seríamos reféns da fraqueza de nossa carne. Fôssemos os pais de Tarcísio, nossa natureza, nossos sentimentos, a afeição natural que temos por nossos filhos, inevitavelmente nos compeliriam ao grito do “Poupai-o”; só a fé poderia nos fazer agir de modo diferente, e não qualquer fé, mas a da Igreja, isto é: a fé de que Deus se faz realmente presente nas espécies eucarísticas; a fé de que conservar em nosso coração a graça de Deus vale mais do que conservar todos os bens criados, inclusive a própria vida; a fé de que Deus recompensa os atos heroicos que fazemos por seu amor, e pune, por outro lado, as covardias a que cedemos, se movidos por nossa carne.

Mas e nós, cremos nisso?  

A começar pela Eucaristia: como são tratadas em nossas igrejas as hóstias consagradas, em cujas mínimas partículas acreditamos estar nada menos do que o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus? Lidamos com esse sacramento conscientes de que “as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos”? Comungamos como quem ama de verdade a Nosso Senhor, ou entramos na procissão da Comunhão como quem participa de um rito qualquer? Comungamos discernindo o que vamos receber, ou como quem vai atrás de um simples “pedaço de pão”?

E quanto à nossa vida: como lidamos com as nossas próprias misérias? Como tratamos a vida sobrenatural da graça em nós, e que olhar temos para o pecado? Será que nós cremos realmente que é melhor morrer a cometer um só, um único pecado mortal que seja? Cremos que, por mais que haja sacerdotes à disposição, por mais que possamos sempre recorrer ao tribunal da misericórdia de Deus, devemos tomar muito cuidado para não abusar do perdão de Deus e transformar nossos arrependimentos e confissões em rotina, ou em um “ritual” puramente externo e superficial? Ignoramos, ou fingimos ignorar, que “a misericórdia foi prometida a quem teme a Deus e não a quem abusa dela”?

Só por nos incitar a esse exame de consciência celebrar os mártires é um aprendizado valioso. A teologia do martírio é muito necessária para nós e para a nossa época, tão carentes que somos de virtudes, tão frios que somos na caridade, tão condescendentes que somos com o mal… Deus pede de nós o heroísmo de homens como São Tarcísio, como os Santos Macabeus do Antigo Testamento, como São José Sánchez del Río, e não a pusilanimidade e a covardia em que tantas vezes estamos afundados! Deus nos dá a sua graça não só para que levantemos, mas também para que deixemos de cair. E a nossa perseverança constitui uma espécie de “martírio silencioso”, de quem diz a Deus, dia após dia: “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2).

Quanto a nossos filhos, a vida sobrenatural que eles receberam no dia de seu batismo deve ser o bem mais precioso que eles têm a guardar — e nisso consiste a essência de uma boa educação, uma educação verdadeiramente católica. Por que do que adiantará, por exemplo, termos dado cultura a nossos filhos (coisa boa, e que ninguém negará que o seja); do que adiantará que tenhamos feito deles pessoas letradas, cheias de erudição, e que tenham se tornado “bons cidadãos” no futuro, se na eternidade eles se tornarem moradores do inferno, porque levaram esta vida decisiva na lama do pecado mortal? 

É por raciocinarem assim, com fé, que tantos pais têm preferido tirar os seus filhos do atual sistema educacional para educá-los em casa: porque eles sabem que o bem da alma de seus filhos — que o mundo a todo custo quer engolir — vale mais do que tudo. É por causa dessa fé que tantos santos pediam a Deus que levassem seus filhos deste mundo antes de eles cometerem um único pecado grave

Se ainda não chegamos a esse ponto, a essa disposição de entrega, convençamo-nos ao menos da necessidade de pedir a graça de querê-lo. Nós não nascemos para este mundo, tampouco devemos criar nossos filhos para ele. “Se Deus quis as gerações dos homens”, ensina o Papa Pio XI em sua encíclica Casti connubii, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”.

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Por que viver a modéstia?
Doutrina

Por que viver a modéstia?

Por que viver a modéstia?

Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um “quem”, não como um “quê”. A virtude da modéstia é uma proteção contra um sem número de perigos; desprezá-la, porém, um convite a uma multidão de pecados.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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Em meu último artigo sobre modéstia, defini essa virtude e expliquei por que ela é essencial, e não opcional, à vida cristã. Ela está longe, é fato, de ser a virtude mais importante; mas, ainda assim, vivê-la é uma proteção contra um sem número de perigos, enquanto desprezá-la é um convite a uma multidão de pecados.

A modéstia é uma profunda necessidade humana. Por isso, não é possível rejeitá-la senão à custa da própria integridade e autoestima. Quantas mulheres não haverá por aí, feridas em sua dignidade, assombradas pela lembrança de terem sido usadas uma e outra vez apenas por causa de seus corpos? São vítimas de má instrução, de má educação, de maus conselhos. São mulheres carentes de modéstia, virtude intimamente vinculada ao fato e à percepção da dignidade humana. E por terem sofrido a falta que faz tal virtude, dela necessitam ainda mais para poder recuperar sua dignidade e a consciência do quanto valem, simplesmente por serem pessoas, que merecem ser amadas por si mesmas. Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um quem, não como um quê.

O cristão é chamado a proclamar a primazia do divino sobre o humano e deste sobre o animal. Reconhecemos, assim, a bondade natural e a capacidade de tornar-se santo de todo corpo animado por uma alma imortal, criada à imagem e semelhança de Deus: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7); “Vós me tecestes no seio de minha mãe […], nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas” (Sl 138, 13.14).

O corpo é criação de Deus, templo do Espírito Santo, purificado e ungido no batismo, herdeiro da promessa de ressuscitar um dia para a eterna bem-aventurança. A nossa aparência e o nosso comportamento deveriam ser testemunhas da verdade caracteristicamente católica — atestada com toda a clareza no Novo Testamento — de que tanto o matrimônio como o celibato honram o corpo humano como algo digno de amor, como canal da graça e sinal sagrado, quando consagrado pelos sacramentos de Jesus Cristo: “O corpo não é para a impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o corpo” (1Cor 6, 13).

Quer se trate do corpo físico, do corpo político ou do Corpo místico, cada um deles é, à sua maneira, uma unidade composta de várias partes distintas, distribuídas e relacionadas hierarquicamente. A pessoa humana, neste sentido, consiste numa hierarquia de elementos que lhe compõem a personalidade: há muitos níveis e camadas do “eu”, e nem todas elas devem estar à mostra. Um igualitarismo antropológico radical, que atribui igual valor ao corpo e à alma, ou às diferentes potências da alma — pondo, por exemplo, a imaginação ou a vontade no mesmo nível que a inteligência —, não está menos equivocado do que o igualitarismo político ou eclesiológico. 

A dimensão corporal da pessoa é inseparável do seu significado sacramental, sobretudo quando falamos do corpo nu. Este é o dom mais expressivo que os esposos podem oferecer um ao outro. Ao darem seus corpos, eles se doam a si mesmos, já que o corpo não é apenas algo que “possuo”, como se fora outra propriedade mais, mas parte daquilo que eu sou. A pessoa humana não “está” em um corpo, senão que ela é corporal: somos seres encarnados. Eis o que Santo Tomás nos tem a dizer a esse respeito:

Por que há no corpo natural tantos membros: mãos, pés, boca e assim por diante? Porque tais membros servem às diferentes funções da alma. Ora, a alma, enquanto tal, é causa e princípio desses membros, que são o que a alma é virtualmente. Com efeito, o corpo está feito para alma, e não ao contrário. Por isso, o corpo físico é como que certa plenitude da alma.

Por conseguinte, o corpo, mais do que qualquer outro dom que se possa dar, há de ser descoberto e possuído somente por aquele ou aquela a quem ele houver sido consagrado solenemente, à semelhança da Eucaristia, que, sendo o corpo verdadeiro de Cristo, há de ser recebido apenas pelo batizado que estiver unido a Cristo pela caridade. O corpo do marido, ensina São Paulo, já não pertence a ele, mas à sua esposa, e o corpo desta ao marido (cf. 1Cor 7, 4).

Vale a pena refletir sobre o estreito vínculo sacramental que une os esposos e a completa modéstia, a sensibilidade de alma, por ele exigida. A modéstia é uma virtude essencial, não porque os corpos ou as paixões sejam, em si mesmos, coisa vergonhosa, mas porque a bondade que lhes corresponde e o poder que têm de servir como ministros da graça impõem o dever de protegê-los de todo abuso, manipulação e desordem. Recordemos as belas palavras de São Paulo, tão exaltadas, tão cheias de amor por tudo o que Deus criou e redimiu: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Os seres humanos somos chamados a guardar o segredo da nossa personalidade, dom precioso que recebemos de Deus, mistério que não devemos expor para “consumo público”. Aos namorados e noivos, aos recém-casados e esposos de longa data foi confiada uma verdade divina, que eles têm o dever de defender contra as forças hostis que ameaçam profaná-la. Homem e mulher, no fundo, são dois segredos a serem compartilhados no amor; são como uma câmara íntima, que não deve ser escancarada, como uma praça pública: deve, pelo contrário, ser tratada com reverência, como se estivéssemos diante de um santuário ou do sacrário de uma igreja.

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