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Ex-protestante: “Comungar foi o momento mais feliz de toda a minha vida”
Testemunhos

Ex-protestante:
“Comungar foi o momento
mais feliz de toda a minha vida”

Ex-protestante: “Comungar foi o momento mais feliz de toda a minha vida”

Ele resolveu se tornar católico depois de descobrir a presença real de Jesus na Eucaristia. “A Igreja Católica trouxe minha alma a Cristo e eu não tenho palavras para agradecer por isso."

Jeremiah Neely4 de Abril de 2016Tempo de leitura: 14 minutos
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Para os que me conhecem não é nenhuma surpresa o fato de eu ter nascido no "dia da mentira". Meus pais rezaram desesperadamente para que Deus permitisse o meu nascimento em literalmente qualquer outro dia, mas Deus tem o Seu senso de humor. O Seu humor — ou, melhor dizendo, a capacidade que Ele tem de mudar os meus planos — se tornaria um tema recorrente em minha vida.

Por exemplo, eu cresci tocando guitarra rítmica em bandas de louvor e de rock; agora, eu estudo música clássica na universidade. Também já quis ser atleta, mas, ultimamente, passo maior parte do meu tempo trancado, praticando meu instrumento. Fui criado, enfim, como protestante devoto, mas agora me juntei à Igreja Católica — e esta é a minha história:

Desde a mais tenra idade, meus pais me ensinaram que Deus é real, que Ele nos ama e que a Sua palavra é infalível. Eles me mostraram através das suas ações que seguir a Deus é a prioridade sobre todas as coisas, não importando quão absurdo isso parecesse.

Meu pai conduzia uma pequena igreja evangélica e não denominacional chamada Calvary Chapel ("Capela do Calvário", lit.), na cidade de Lodi, no estado da Califórnia. Alguns anos depois, ele se sentiu chamado a mudar para Tulsa, em Oklahoma, onde ele se tornou pastor de outra igreja da mesma organização.

Viver para Cristo não era algo que eu fazia porque meus pais queriam, mas porque o Espírito Santo me atraía a Si. Minha fé era real e se manifestava em um envolvimento ativo no ministério de louvor e adoração, desde a minha adolescência.

Como cabeça do ministério de adoração, eu era simultaneamente pastor e ovelha no rebanho de Cristo. Menor apenas que o meu amor a Cristo era o meu amor à música. A capacidade de expressar o meu amor a Cristo por meio da música, e de levar os outros a fazer o mesmo, era bonita. Quando saí para estudar música na universidade, Deus me colocou na Universidade de Tulsa. Lá eu encontrei as pessoas que eventualmente me levariam a uma união plena com Cristo.

Na faculdade, eu me ocupava a maior parte do tempo com meu quarteto de cordas. Ensaiava por horas incontáveis, toda semana, com duas violinistas e um violista, procurando aperfeiçoar o nosso ofício. Quando você passa tanto tempo com outras pessoas, você termina conhecendo bastante sobre elas. Como queria a divina providência, aconteceu de ambas as violinistas do meu quarteto serem católicas devotas.

Essas mulheres, Ellen e Sarah, logo se tornariam duas das minhas amigas mais próximas. Quanto mais eu crescia em amizade com elas, mais elas me confundiam. De acordo com a minha educação, católicos não eram cristãos de verdade — eles não passavam de idólatras, escravos da lei e da tradição, que tentavam de uma forma ou outra ganhar a sua passagem para o Céu.

Essas católicas, no entanto, eram muito mais santas do que eu. Elas tinham um relacionamento genuíno com Cristo, e Ele era a motivação de cada ação das suas vidas. Elas rezavam com um fervor e consistência que eu queria desesperadamente ter. Interagir pela primeira vez com católicos fervorosos, depois de muito tempo sendo "poupado", foi o primeiro passo rumo à minha conversão.

Sarah e eu tínhamos várias conversas até altas horas da noite sobre Deus. Cada vez mais, eu pensava comigo mesmo: "Essa conversa foi muito boa! Acho que ela deve estar perto de entender as coisas!" Qualquer dia desses, ela veria a verdade, o erro das heresias católicas, e voltaria para casa, para a verdadeira igreja de Cristo. Mal sabia que seria eu a ver o erro dos meus caminhos e a voltar para casa, para a Igreja Católica.

A Eucaristia, verdadeiro corpo de Jesus

Em uma noite de janeiro, Sarah e eu debatíamos teologia, quando veio à tona o tema da Eucaristia. Ela me disse que os católicos acreditavam que, em toda Missa, o pão e o vinho usados para a comunhão (a Eucaristia) cessam de ser pão e vinho e se tornam literalmente a carne e o sangue de Jesus Cristo. A quem não está familiarizado, pode parecer um conceito absurdo — mas, como eu estava prestes a perceber, Deus é um Deus do absurdo.

Eu disse a ela que era irracional acreditar que Jesus estivesse realmente presente na Eucaristia. O que ela fez em seguida causou em mim uma impressão que eu jamais esqueceria. Ela me disse para pegar a minha Bíblia — que eu, como um bom evangélico, trazia convenientemente guardada em minha mochila — e, então, me levou a João, capítulo 6, onde Jesus pronunciava algumas palavras intensas para Seus seguidores:

"Os judeus começaram a discutir, dizendo: 'Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?' Então Jesus lhes disse: 'Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele." (Jo 6, 52-56)

Enquanto lia aquelas palavras em voz alta, eu tentava segurar as lágrimas. Era como se Deus começasse a soprar buracos em minha até então impermeável teologia. Se as palavras do Evangelho fossem literalmente verdadeiras, Jesus nos chama a comer da Sua verdadeira carne e sangue. A comunhão não seria apenas um símbolo de que eu deveria participar mais ou menos uma vez por mês, mas Deus que Se oferece totalmente para a humanidade.

Naquela noite, eu voltei para casa e perguntei ao meu pai por que acreditávamos no que fazíamos. Até hoje posso ouvir a minha voz trêmula dizendo: "Pai, eu preciso de uma boa razão para não acreditar nisso."

Jeremiah Neely.

Tentei desesperadamente me convencer de que estava certo, mas, para a minha frustração, meu pai foi incapaz de explicar aquilo em que ele acreditava de um modo que satisfizesse às minhas questões.

Voltei-me para Sarah no dia seguinte com alguns contra-argumentos mal produzidos e claramente nada convincentes. Aleguei que Jesus estava apenas falando em parábolas, mas aquilo não explicava por que os discípulos de Jesus O deixaram depois de ouvir aquelas palavras. Disse que aqueles que saíram simplesmente não tinham entendido, mas isso não explicava por que os Seus discípulos tomaram as Suas palavras ao pé da letra quando confrontados. Como eu logo descobriria, é difícil argumentar contra a verdade.

Olhando para trás, é engraçado perceber o quanto eu aceitava mal a ideia de me tornar católico, mesmo depois que comecei a querer sê-lo. Fiz o que pude para evitar o assunto, mas o Espírito Santo continuou o Seu trabalho. Ele tem um jeito de tornar as coisas abundantemente claras. A cada vez que participávamos da comunhão na minha igreja, Deus me lembrava a todo momento do que eu havia lido em Sua palavra. Tentei imaginar que eu realmente tomava parte na Sua carne, mas eu ainda estava insatisfeito com nosso rito da comunhão.

Como Deus costuma fazer, Ele deixou que o assunto se assentasse por um tempo. No momento, eu não percebia o que estava acontecendo, mas as sementes que tinham sido plantadas começavam lentamente a formar raízes. Depois de um verão tranquilo, surgiu algo de repente, cerca de um mês antes da volta às aulas. Minha única explicação para o que aconteceu foi uma moção do Espírito Santo em mim. Eu estava de férias com minha família, descansando tranquilamente no lago, quando me veio essa ideia disparatada e persistente: "E se Sarah estiver certa? E se os católicos estiverem certos? E se a Eucaristia for realmente Jesus?"

As implicações seriam enormes. Eu precisava investigar a questão, independentemente de qual fosse o resultado. Se fosse verdadeira, seria a coisa mais bela que eu já tinha ouvido. Se Jesus me permitisse comer o Seu corpo físico, a cruz ganharia um significado ainda maior para mim. Se fosse falsa, no entanto, toda a Igreja Católica estaria imersa em completa idolatria.

Quanto mais eu pensava sobre o assunto, mais intenso ele se tornava. Os católicos literalmente adoravam o que parecia ser um pedaço de pão. Eu não queria parte nenhuma nisso se aquele pedaço de pão não fosse realmente Jesus Cristo, mas sabia que iria querê-Lo desesperadamente se fosse.

O testemunho dos Padres da Igreja

Na semana seguinte, fiz uma pesquisa intensa. Começando por João, capítulo 6, consultei as Escrituras de novo por minha conta. Esforcei-me por ver qualquer jeito de que Jesus pudesse ter querido dizer qualquer outra coisa que não literalmente comermos a Sua carne e bebermos o Seu sangue.

Eu ainda não estava completamente convencido da verdade do catolicismo, mas já sabia o suficiente para afirmar que ele não era absurdo. Sarah tinha me dito uma vez que, se eu acreditasse na doutrina católica sobre a Eucaristia, tudo o mais se encaixaria no devido lugar. As palavras dela não fizeram sentido para mim no momento. Quando Deus operou em meu coração, no entanto, comecei a perceber o que ela queria dizer.

Se os Evangelhos me fizeram perceber que eu podia possivelmente estar errado, os escritos dos primeiros cristãos me convenceram de vez. Descobri que, até o século XVI, os cristãos acreditaram por unanimidade que a Eucaristia era literalmente Jesus. Eis algumas das citações retiradas dos Santos Padres:

"Considerai bem como se opõem ao pensamento de Deus os que se prendem a doutrinas heterodoxas a respeito da graça de Jesus Cristo, vinda a nós. [...] Abstêm-se eles da Eucaristia e da oração, por­que não reconhecem que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, carne que padeceu por nos­sos pecados e que o Pai, em Sua bondade, ressuscitou. Os que recusam o dom de Deus, morrem disputando." (Santo Inácio de Antioquia [† 110], Epístola aos Esmirnenses, 6-7)

"Não os tomamos como alimento e bebida comuns; do mesmo modo como nos foi ensinado que, pela palavra de Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor se encarnou, assim também estes alimentos, para os que tenham pronunciado as palavras de petição e ação de graças, são a verdadeira carne e sangue daquele Jesus que se fez homem e que entra na nossa carne quando o recebemos." (São Justino Mártir [† 151], Primeira Apologia, 66)

"'Comei a minha carne', ele diz, 'e bebei o meu sangue'. Com esses alimentos o Senhor convenientemente nos abastece, tanto provendo a sua carne quanto derramando o seu sangue, e nada falta ao incremento dos seus filhos." (São Clemente de Alexandria [† 191], O Pedagogo, I, 6 [PG 8, 302a])

"Assim como, antes da santa invocação da Trindade adoranda, o pão e o vinho da Eucaristia eram simplesmente pão e vinho, depois de feita a invocação, o pão se torna o corpo de Cristo e o vinho, o sangue de Cristo." (São Cirilo de Jerusalém [† 350], Catequeses, XIX, 7)

"Cristo era carregado em suas próprias mãos quando, entregando o seu corpo, disse: Isto é o meu corpo." (Santo Agostinho [† 411], Comentários aos Salmos, XXXIII, 1, 10)

"O que vedes é um pão e um cálice, eis o que vossos olhos vos anunciam. O que a vossa fé, porém, propõe à vossa instrução é que o pão é o corpo de Cristo e o cálice, o sangue de Cristo" (Santo Agostinho, Sermões, 272)

Ler aquilo em que os primeiros cristãos acreditavam foi poderoso. Essas citações são apenas um pequeno exemplo da minha pesquisa, mas cada cristão primitivo com que eu me deparava em particular falava da Eucaristia como o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Jesus Cristo. Eu não podia mais lutar contra isso. Fui convencido. Lembrei-me do Evangelho de S. João, especialmente de como aqueles que escutaram as palavras de Jesus ficaram desgostosos e muitos deles O deixaram. Também me lembrei da clássica resposta de São Pedro: "A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna" (Jo 6, 68).

Lembro claramente o momento em que parei de lutar contra Deus. Era ainda verão, e o departamento de música estava deserto. Sentei-me na sala de prática da minha faculdade, completamente sozinho. Parei de tocar o violoncelo por um momento e Deus finalmente me alcançou. Senti como se Jesus estivesse me dando um ultimato: ou eu acreditava em Sua palavra ou eu devia deixá-Lo de uma vez por todas. Eu sabia que seria difícil fazer algo tão contrário a como eu havia sido criado, mas também sabia que não podia jamais deixar de seguir a Cristo. A resposta de São Pedro se tornou a minha oração. Eu então disse a Jesus que realmente não tinha nenhum outro lugar para onde ir.

Voltando para casa

Contei a todos os que eu conhecia sobre a minha conversão de coração, e fui recebido com reações as mais positivas. Quase nenhum dos meus amigos católicos podia prever que isso aconteceria; eles ficaram chocados e cheios de alegria.

Desde o início da minha conversão, a Igreja me ajudou a crescer mais do que eu podia imaginar. Comecei a rezar de verdade pela primeira vez na vida. Enquanto crescia, eu tentava rezar, mas nunca chegava muito longe. Participava de encontros de oração e dizia algumas palavras com os irmãos e as irmãs reunidos. Eu conversava com Deus e tentava escutá-Lo, mas hesitava muito e não tinha posto todo o meu coração naquilo. A minha oração era esporádica, para dizer muito.

Tudo mudou quando percebi que podia passar o meu tempo com Jesus em pessoa. A presença física de Cristo na Eucaristia é algo impressionante. Posso sentar-me em frente ao Deus que criou o universo, que veio a esse mundo na Pessoa de Jesus Cristo. O mesmo corpo que sofreu, foi crucificado, morreu, foi sepultado, ressuscitou do túmulo e subiu aos céus permanece no mesmo lugar comigo quando eu entro em uma capela.

Como a diferença entre passar o tempo pessoalmente com um amigo e mandar mensagem para ele, a presença física é incrivelmente significante em relação a Deus. É bom e necessário rezar a Deus onde quer que estejamos, mas é ainda mais valioso passar o tempo com Ele em pessoa. Comecei a me apaixonar pela oração e, por consequência, me apaixonei mais profundamente por Deus.

O tempo entre minha mudança de coração e minha entrada oficial na Igreja, na Páscoa, foi um dos períodos mais dolorosos da minha vida. Meus pais sentiram como se eu os tivesse traído e nossa relação ficou tensa. Deus usou minhas imperfeições nesse relacionamento para me ensinar a ser humilde e assumir a responsabilidade por meus erros. Mais do que isso, Ele usou meus sofrimentos para me ensinar que eles podiam ser, de fato, algo desejável. Pela primeira vez em minha vida, soube verdadeiramente o que significava não ter ninguém a quem recorrer senão Jesus.

Para tornar as coisas ainda mais difíceis, descobri que não poderia receber Cristo na Eucaristia até a Páscoa. Minha conversão inicial aconteceu por volta de agosto. O período de 8 meses entre agosto e abril pareciam mais como se fossem 8 anos. Apesar da minha impaciência, Deus usou esse tempo de espera para me fortalecer. Na medida em que a Páscoa se aproximava, Ele foi substituindo o meu sofrimento pela alegria.

Durante esse tempo, aprendi que é quando eu sofro que eu mais me pareço com nosso Senhor. Sua última prova de amor foi sofrer e morrer por nossa causa. Assim, quando eu experimento qualquer dificuldade, tenho a oportunidade de imitar o amor de Cristo que se apresenta na Cruz. Se antes eu reclamava da dor, agora eu posso unir minha dor à de Cristo. Assim, meu sofrimento recebe a mesma natureza redentora que tem a paixão de Cristo. Agora eu vejo que o sofrimento não é algo a ser temido, mas a ser acolhido. Se eu quero me unir a Cristo, o caminho mais rápido de fazê-lo é através dos Seus sofrimentos.

Enquanto focava mais completamente em Cristo, Ele colocava tudo o mais em ordem na minha vida. Eu não queria nada mais a não ser unir-me a Ele no sacramento da Sagrada Comunhão, e Deus usou esse desejo para atrair-me a Si.

Durante as semanas de preparação para a Páscoa, os dias pareciam meses. Quando a Semana Santa finalmente chegou, senti-me completamente pronto a receber Cristo. Na noite da Vigília pascal, finalmente fui acolhido na Igreja Católica e recebi o corpo de Cristo na minha primeira Comunhão.

Esse foi de longe o momento mais feliz de toda a minha vida, mas tentar colocar minha experiência em palavras seria injusto. Tudo o que posso dizer é que finalmente me senti completo. Por toda a minha vida estive à procura de algo que me completasse, sem jamais ter encontrado. Eu sabia que a resposta era Jesus, mas, mesmo tendo tentado de tudo, eu ainda sentia que algo estava faltando.

Receber em meu corpo o corpo de Jesus preencheu aquele vazio dentro de mim. No sacramento da Eucaristia, eu comi literalmente o corpo, sangue, alma e divindade de Cristo. Essa não é uma refeição como outra qualquer. O Deus que criou tudo o que existe quis vir fisicamente para dentro do meu corpo. Só de pensar nisso eu me arrepio até o dia de hoje. No coração dos Sacramentos, ninguém mais pode ser encontrado senão Jesus. A missão da Igreja é trazer as pessoas a Ele. A Igreja Católica trouxe minha alma a Cristo e eu não tenho palavras para agradecer por isso.

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O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!
Sociedade

O que é hedonismo?
Muito mais do que você pensa!

O que é hedonismo? Muito mais do que você pensa!

O hedonismo infectou profundamente a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, mas totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Alguns dias atrás, no Evangelho, Jesus expôs a necessidade de aceitar as cruzes da nossa vida e carregá-las (cf. Mt 16, 24). Ora, as cruzes não são apenas os grandes sofrimentos da vida, como doenças, a morte de um ente querido, a perda de um emprego e assim por diante. Existem também as cruzes diárias de autodisciplina, trabalho árduo, obediência, contratempos, consequências das nossas decisões, limites para o que podemos fazer e a cruz de resistir à tentação.

Em oposição a esse ensino do Senhor está o hedonismo. A maioria das pessoas hoje associa o hedonismo ao excesso sexual e talvez à bebida. Mas o hedonismo é uma noção muito mais ampla, e é por isso que S. Paulo disse: “Mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo (pedra de tropeço) para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1, 23). Para os judeus, Jesus crucificado era uma pedra de tropeço, pois eles acreditavam que qualquer pessoa pendurada em uma árvore era amaldiçoada por Deus (cf. Dt 21, 22s). Mas, para os gregos e romanos, a cruz era um absurdo, devido à filosofia hedonista difundida entre eles. Então, o que é hedonismo?

“Uma Festa Romana”, de Roberto Bompiani.

Hedonismo é a doutrina segundo a qual o prazer ou a felicidade são o único ou o principal bem da vida. Vem da palavra grega hēdonē, que significa “prazer”, e é semelhante à palavra grega hēdys, que significa “doce”.

É claro que o prazer pode ser desejado e, até certo ponto, procurado, mas não é o único bem da vida. Na verdade, alguns de nossos maiores bens e realizações exigem sacrifício: anos de estudo e preparação para uma carreira; sangue, suor e lágrimas para criar filhos.

O hedonismo busca evitar sacrifícios e sofrimentos a todo custo. É diretamente oposto à teologia da cruz. S. Paulo falou em seus dias dos inimigos da cruz de Cristo. Seu fim é a destruição; seu deus, o estômago; e eles se gloriam da própria desonra, com a mente voltada para os prazeres terrenos (cf. Fl 3, 18s). Como dissemos, ele também ensinou que a cruz era um absurdo para os gentios (cf. 1Cor 1, 23).

As coisas não mudaram, meus amigos. O mundo reage com grande indignação sempre que a cruz ou o sofrimento estão implícitos. Portanto, o mundo clamará, exasperado e perplexo, e perguntará, incrédulo, à Igreja: estais dizendo que uma mulher que foi estuprada deve levar a gestação até o fim, sem poder abortar? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa gay deve viver o celibato, sem nunca poder “casar” com seu amante do mesmo sexo? Sim, estamos. Estais dizendo que uma criança deficiente no útero deve ser “condenada” a viver no mundo, sem poder ser abortada e expulsa de sua (ou, mais precisamente, nossa) “miséria”? Sim, estamos. Estais dizendo que uma pessoa que sofre não pode ser sacrificada para evitar a dor? Sim, estamos.

A expressão de choque ante esse tipo de pergunta mostra o quão profundamente o hedonismo infectou a mentalidade moderna. O conceito de cruz não é apenas absurdo, é totalmente “imoral” para a mente hedonista, que vê o prazer como o único bem humano verdadeiro. Para o hedonista, uma vida sem prazer suficiente é uma vida que não vale a pena ser vivida, e qualquer um que busque estabelecer limites para os prazeres legítimos (e, às vezes, ilegais) dos outros é mesquinho, odioso, absurdo, obtuso, intolerante e simplesmente mau.

Quando o prazer é o único objetivo ou bem da vida, você, a Igreja ou qualquer pessoa não pode ousar estabelecer limites, muito menos sugerir que o caminho da cruz seja melhor ou obrigatório! Se você o fizer, será banido, silenciado, destruído.

Muitos católicos fiéis, nos bancos de nossas igrejas, estão profundamente infectados com a ilusão do hedonismo. Por isso, assumem uma postura de perplexidade, raiva e zombaria sempre que a Igreja aponta para a cruz e insiste na abnegação, no sacrifício e em fazer a coisa certa, mesmo quando o custo a ser pago é alto. Nas igrejas, em geral, o balançar negativo das cabeças é visível quando um padre ousa pregar que o aborto, a eutanásia, a fertilização in vitro e a contracepção são errados, independentemente do preço a pagar, ou quando se fala sobre a realidade da cruz. Os fiéis que nadam nas águas de uma cultura hedonista geralmente ficam chocados com qualquer coisa que possa limitar o prazer que desejam.

O hedonismo faz os mistérios cristãos centrais, da cruz e do sofrimento redentor, parecerem coisa de um planeta distante ou de um universo paralelo e estranho. A palavra que sai da boca de Jesus: “Arrependei-vos”, soa estranha ao mundo hedonista. Tanto, que este chegou até mesmo a “reconstruir” Jesus como alguém que quer que “sejamos felizes e contentes”. As vozes se elevam, mesmo entre os fiéis: “Deus não quer que eu seja feliz?” Ora, com base nisso, qualquer tipo de comportamento pecaminoso deveria ser tolerado, já que insistir no contrário é “difícil” e pode parecer “mau” falar da cruz ou de autodisciplina em uma cultura hedonista.

Trazer as pessoas de volta para o verdadeiro Jesus e a verdadeira mensagem do Evangelho, que apresenta a cruz como o caminho para a glória, exige muito trabalho e longas conversas. Devemos estar preparados para ter uma longa conversa com as pessoas.

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Quinze orações em honra à Paixão de Cristo
Oração

Quinze orações
em honra à Paixão de Cristo

Quinze orações em honra à Paixão de Cristo

Estas famosas orações em honra à Paixão de Cristo muito provavelmente não foram escritas por Santa Brígida. Mas a espiritualidade de sua Ordem está aqui, e o valor catequético e penitencial desta devoção permanece em nossos dias.

Preces LatinaeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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As quinze orações a seguir, atribuídas a S. Brígida da Suécia (1303-1373), muito provavelmente foram escritas por místicos da sua Ordem, no século XV. Foram publicadas inúmeras vezes ao longo dos séculos, com variação considerável nos textos e até mesmo na ordem das invocações.

Constituem, em si mesmas, uma meditação piedosa sobre os mistérios da Paixão e Morte de Cristo. Eram bastante populares durante a Baixa Idade Média, sendo item frequente nos manuais de oração da época. Cumprem um duplo propósito: catequético, instruindo as pessoas nos episódios mais importantes da vida de Nosso Senhor, e penitencial, excitando-lhes o amor a Deus e o arrependimento dos próprios pecados.

Em muitos lugares estas preces estão associadas a uma lista de promessas supostamente reveladas a S. Brígida quando de sua visita à Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma. As tais promessas listam uma série de incríveis benefícios, que seriam concedidos a quem recitasse estas orações todos os dias ao longo de um ano, e incluem a libertação de 15 almas dos entes queridos do Purgatório e a conversão de 15 pecadores da própria família. A verdade, porém, é que essas promessas jamais foram feitas a S. Brígida e tampouco têm qualquer aprovação eclesiástica que seja.

É muito de se lamentar que essas promessas ainda constem em livros de oração nos nossos dias, pois a própria Congregação do Santo Ofício proibiu, em 1954, a sua publicação [1]. Mas, ainda que não houvesse uma censura a essas promessas vinda de Roma, o conteúdo delas é, de fato, arbitrário e fantástico demais para ser credível. Não temos dúvidas de que abundantes frutos espirituais podem ser colhidos da leitura e meditação das linhas abaixo, mas promessas como as que circulam, associadas a estas orações, terminam transformando em superstição o que deveria ser antes um convite ao fervor na oração, à conversão interior e ao apostolado com as pessoas mais próximas de nós.

A tradução abaixo foi feita por nossa Equipe a partir do texto em latim encontrado na edição de 1670 do livro Paradisus Animæ Christianæ, de Jacob Merlo Horst, e que também pode ser acessado no site Preces Latinæ.


“A Oração no Horto”, de Giandomenico Tiepolo.

Oração I. — Ó Jesus Cristo, eterna doçura dos que vos amam, júbilo que excede toda alegria e todo desejo, salvação e amante dos pecadores, que achais vossas delícias em estar com os filhos dos homens e pelo homem vos fizestes homem na plenitude dos tempos: lembrai-vos de tudo o que previstes e da íntima tristeza que, em vosso Corpo humano, suportastes ao aproximar-se o tempo de vossa salubérrima Paixão, preordenado em vosso divino Coração.

Lembrai-vos da tristeza e da amargura que, pelo vosso testemunho, tivestes em vossa Alma, quando, na Última Ceia, entregastes aos vossos discípulos o vosso Corpo e Sangue, lavastes-lhes os pés e, consolando-os docemente, predissestes vossa iminente Paixão. 

Lembrai-vos de todo o tremor, da angústia e da dor que em vosso delicado Corpo, antes da Paixão de vossa Cruz, suportastes quando, após vossa tríplice oração e o suor de Sangue, fostes traído por Judas, vosso discípulo; preso pela gente escolhida; acusado por falsas testemunhas; injustamente julgado por três juízes; condenado, embora inocente, na cidade eleita, no tempo pascal, na florida juventude de vosso Corpo; despido da vossa própria veste e coberto de vestes alheias; esbofeteado; tivestes vossos olhos e rosto cobertos e fostes espancado, preso à coluna, flagelado, coroado de espinhos, com uma cana ferido na cabeça e lacerado com inumeráveis outras calúnias.

Dai-me, Senhor Deus, eu vo-lo peço, pela memória dessas paixões antes de vossa Cruz, uma verdadeira contrição antes de minha morte, uma pura Confissão, uma digna satisfação e a remissão de todos os pecados. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração II. — Ó Jesus, criador do mundo, a quem nenhuma dimensão pode compreender, que abarcais a Terra com um palmo: recordai-vos de vossa amaríssima dor, que suportastes quando os judeus pregaram vossas santíssimas mãos à Cruz com pregos embotados e, a fim de perfurar vossos delicadíssimos pés, como não lhes fosse o bastante, acrescentaram dor sobre dor às vossas chagas, e assim cruelmente vos distenderam e estenderam pelos braços de vossa Cruz, para que se dissolvessem os vínculos dos vossos membros.

Eu vos imploro, pela memória desta sacratíssima e amaríssima dor na Cruz, que me deis o vosso temor e amor. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

“Cristo na Cruz”, de Eugène Delacroix.

Oração III. — Ó Jesus, médico celeste, recordai-vos do langor, do livor e da dor que, elevado no alto patíbulo da Cruz, padecestes em todos os vossos membros dilacerados, dos quais nenhum permaneceu em bom estado, de modo que não se achasse dor nenhuma semelhante à vossa, pois desde a planta dos pés até o alto da cabeça não havia em vós coisa sã, e no entanto, esquecido de todas as dores, rogastes piedosamente ao Pai pelos vossos inimigos, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Por esta misericórdia e pela memória daquela dor, concedei-me que esta memória de vossa amaríssima Paixão me alcance a plena remissão de todos os meus pecados. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração IV. — Ó Jesus, verdadeira liberdade dos anjos, paraíso de delícias, lembrai-vos da tristeza e do horror que suportastes, quando todos os vossos inimigos, quais leões ferocíssimos, puseram-se ao vosso redor e, com bofetadas, cusparadas, lacerações e outras penas inauditas, vos maltrataram.

Por estas penas e por todas as palavras contumeliosas e os duríssimos tormentos com que vos afligiram, Senhor Jesus Cristo, todos os vossos inimigos, eu vos imploro que me livreis de todos os meus inimigos, visíveis e invisíveis, e me deis chegar, à sombra de vossas asas, à perfeição da salvação eterna. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração V. — Ó Jesus, espelho da claridade eterna, lembrai-vos daquela tristeza que tivestes quando, no espelho de vossa sereníssima majestade, vistes a predestinação dos eleitos, que se haviam de salvar pelos méritos de vossa Paixão, e a reprovação dos maus, que pelos seus deméritos se haviam de condenar, e pelo abismo de vossa piedade, com que vos compadecestes de nós, pecadores e desesperados, e que manifestastes ao ladrão na Cruz, dizendo: “Hoje estarás comigo no paraíso”, rogo-vos, piedoso Jesus, que tenhais misericórdia de mim na hora de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração VI. — Ó Rei amável e amigo todo desejável, lembrai-vos daquela tristeza que tivestes quando, nu e miserável, pendestes na Cruz, e todos os vossos amigos e conhecidos se voltaram contra vós, e não encontrastes ninguém que vos consolasse, além de vossa dileta Mãe, de pé na amargura de sua alma fidelíssima a vós, que confiastes ao vosso discípulo, dizendo: “Mulher, eis aí o teu filho”.

Rogo-vos, piíssimo Jesus, pela espada de dor que transpassou a alma dela, que vos compadeçais de mim em todas as minhas tribulações e aflições, corporais e espirituais, e dai-me a consolação no tempo da tribulação e na hora de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

“Queda no Caminho do Calvário”, de Rafael.

Oração VII. — Ó Jesus, fonte de inexaurível piedade, que por um íntimo afeto de amor dissestes na Cruz: “Tenho sede”, isto é, da salvação do gênero humano, acendei, vo-lo peço, em nossos corações o desejo de perfeição, e abrandai e extingui de todo em nós a sede da concupiscência e o ardor dos prazeres mundanos. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração VIII. — Ó Jesus, doçura dos corações e poderosa suavidade das mentes, pelo azedume do vinagre e do fel que por nós provastes, concedei-nos, na hora de nossa morte, receber dignamente o vosso Corpo e Sangue, como remédio e consolação para nossas almas. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração IX. — Ó Jesus, virtude régia, júbilo espiritual, lembrai-vos da angústia e da dor que padecestes quando, pelo amargor da morte e os insultos dos judeus, com alta voz clamastes, abandonado por Deus Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” Por esta angústia vos peço que nas nossas angústias não nos abandoneis, Senhor Deus nosso. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração X. — Ó Jesus, Alfa e Ômega, vida e poder em todo tempo, recordai-vos que desde o alto da cabeça até a planta do pé vos mergulhastes por nós na água da Paixão.

Pela largura e extensão de vossas chagas, ensinai-me a mim, afundado em muitos pecados, a guardar por verdadeira caridade a Lei que promulgastes. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XI. — Ó Jesus, abismo profundíssimo de misericórdia, rogo-vos, pela profundidade de vossas chagas, que atravessaram a medula de vossos ossos e vísceras, que me tireis da água de pecado em que estou submerso e me escondais, no interior de vossas chagas, do rosto de vossa ira, até que passe o vosso furor, Senhor. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Detalhe de um quadro da Crucifixão, por Francesco Hayez.

Oração XII. — Ó Jesus, espelho da verdade, sinal de unidade e vínculo de caridade, lembrai-vos da multidão de vossas chagas, com que, da cabeça aos pés, fostes vulnerado e rubricado com vosso santíssimo Sangue, multidão de dores que suportastes em vossa carne virginal por nós! Piedoso Jesus, que mais deveríeis fazer e não fizestes?

Gravai, vo-lo peço, ó piedoso Jesus, todas as vossas chagas no meu coração com o vosso preciosíssimo Sangue, para que nelas eu leia sempre a vossa dor e morte e persevere constante até o fim em ação de graças. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XIII. — Ó Jesus, leão fortíssimo, Rei imortal e invencível, lembrai-vos da dor que padecestes quando todas as forças do vosso Coração e Corpo de todo se acabaram e, reclinando a cabeça, dissestes: “Tudo está consumado”. 

Por esta angústia e dor, tende misericórdia de mim, quando minha alma, no momento do último suspiro, estiver vexada e conturbada. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XIV. — Ó Jesus, unigênito do altíssimo Pai, esplendor e figura de sua substância, lembrai-vos da esforçada entrega com que entregastes o espírito ao Pai, dizendo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” e, de Corpo lacerado, de Coração alquebrado, com grande clamor, abertas as vísceras de vossa misericórdia para nos redimir, expirastes.

Por esta preciosíssima morte vos imploro, Rei dos santos, que me fortaleçais para resistir ao diabo, ao mundo, à carne e ao sangue, a fim de que, morto(a) para o mundo, eu viva para vós, e na hora suprema de minha partida acolhei-me o espírito degredado e peregrino a retornar para vós. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração XV. — Ó Jesus, videira verdadeira e fecunda, lembrai-vos da abundante efusão do vosso Sangue, que vós, qual sumo arrancado ao cacho, copiosamente derramastes quando, na cruz, calcastes sozinho o lagar, e do vosso lado aberto pela lança do soldado nos propinastes Sangue e água, de modo que nem uma só gota permanecesse em vós; e quando, enfim, fostes suspenso no alto, qual um feixe de mirra, e vossa carne delicada se desfez, e o licor de vossas vísceras se secou, e a medula de vossos ossos murchou. 

Por esta vossa amaríssima Paixão e pela efusão do precioso Sangue, piedoso Jesus, imploro-vos que recebais minha alma na agonia de minha morte. Amém. — Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Conclusão. — Ó Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, acolhei esta oração com aquele amor excelentíssimo com que suportastes todas as chagas do vosso santíssimo Corpo e tende misericórdia de mim, vosso servo, e dai a todos os pecadores e a todos os fiéis, tanto vivos quanto defuntos, misericórdia, graça, remissão e a vida eterna. Amém.

Notas

  1. A seguinte notitia foi publicada nas AAS 46 (1954) 64: “Em alguns lugares tem sido divulgado certo opúsculo intitulado ‘O segredo da felicidade. Quinze orações reveladas pelo Senhor a S. Brígida na igreja de São Paulo, em Roma’, Nice (e em outros lugares), publicado em várias línguas. Ora, como neste mesmo livro se afirma que a S. Brígida foram feitas por Deus certas promessas, de cuja origem sobrenatural não há evidência alguma, tenham os Ordinários de cada lugar o cuidado de não dar licença para que se vendam ou de novo se imprimam opúsculos ou escritos que contenham as mencionadas promessas. — Dado em Roma, nas dependências do Santo Ofício, no dia 28 jan. 1954. Mário Crovini, Notário da Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício.”

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Há heresias que começam da cintura para baixo
Doutrina

Há heresias
que começam da cintura para baixo

Há heresias que começam da cintura para baixo

“Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé”. Por isso, quando uma pessoa faz da impureza um projeto de vida, padece não só a sua carne, mas também a sua mente e o seu espírito. São as heresias que começam da cintura para baixo.

Dave ArmstrongTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Existe um nexo entre a pureza do coração, do corpo e da fé” (CIC 2518): essa famosa citação expressa a ideia de que os desejos, impulsos e atos sexuais (a saber, fora do matrimônio heterossexual e da procriação) são contrários à teologia, que os define como intrinsecamente imorais. Portanto, quem se deleita com esses pensamentos e atos tende a querer rejeitar também a teologia, ao invés da própria sexualidade mal vivida. Por causa disso, começa a cair em heresia.

Talvez a manifestação clássica dessa mentalidade seja a afirmação do escritor e filósofo inglês Aldous Huxley (1894-1963), autor de quase cinquenta livros e muito famoso por ter escrito Admirável Mundo Novo (1932). Por coincidência, ele morreu no mesmo dia em que C. S. Lewis e John Kennedy. Numa coleção de ensaios publicada em 1937, Huxley escreveu o seguinte:

Eu tinha motivos para não desejar que o mundo tivesse um sentido; consequentemente, presumi que não tinha sentido algum e pude, sem qualquer dificuldade, encontrar razões satisfatórias para esse pressuposto. O filósofo que não vê sentido no mundo não está preocupado apenas com um problema de metafísica pura. Ele também se preocupa em provar que não há uma razão válida pela qual ele não deveria fazer o que quer fazer. Para mim, e sem dúvida para a maioria dos meus amigos, a filosofia da falta de sentido era, em essência, um instrumento de libertação de certo sistema de moralidade. Contestamos a moralidade porque ela interfere em nossa liberdade sexual.  

Lendo a conceituada biografia de Lewis escrita por seu amigo George Sayer, intitulada Jack: C. S. Lewis and His Times (“Jack: C. S. Lewis e sua Época”, sem trad. portuguesa), fiquei surpreso ao saber que, para ele, Lewis (quando tinha entre 13 e 15 anos) perdeu a fé cristã da infância por causa da imoralidade sexual.

Isso confirma minha argumentação como apologista, segundo a qual a perda da fé e a apostasia muitas vezes (senão frequentemente) são o resultado de processos e impulsos não racionais, e não do fracasso do cristianismo ao ser submetido a uma análise intelectual séria. Sayer afirma o seguinte na página 31 do livro:

Ele começou a se masturbar […]. Fez o firme propósito de jamais fazer isso outra vez, e então sofreu repetidas vezes com a humilhação de não conseguir perseverar. Ele diz que sentia aquilo que São Paulo descreve na Carta aos Romanos (cf. 7, 19-24): “Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero”. Ele também rezava, e como suas orações não eram escutadas, logo perdeu a fé […]. Para alcançar um equilíbrio psicológico, teve de reprimir os fortes sentimentos de culpa, o que ele realizou ao rejeitar o cristianismo e sua moralidade.

Consigo imaginar um ateu ou alguém que, sob outros aspectos, seja cético em relação ao cristianismo (ou particularmente ao catolicismo) dizendo: “Bem, como podemos culpar o jovem Lewis? Afinal de contas, ele decidiu com sinceridade abandonar a prática da masturbação, algo que [erradamente] considerava errado, e rezou sinceramente a Deus para conseguir ajuda no cumprimento daquela decisão, e Deus [supondo, a título de argumentação, que realmente existe] o decepcionou. Portanto, não teria sido culpa de Deus, e não dele?”

Há várias condutas muito viciantes ou obsessivas que os seres humanos assumem voluntariamente, mas depois descobrem que foram escravizados, gostariam de parar e, infelizmente, não conseguem. De modo geral, de início não se vê que essa condutas se tornarão tão controladoras ou viciantes; mas, depois que alguém é dominado por esse tipo de conduta, é muito difícil escapar.

Quem é o culpado disso? Deus ou a pessoa que iniciou a jornada em direção àquele comportamento? Eu digo que é a pessoa e que acusar a Deus é transferir a culpa a outrem. Podemos pensar em muitos vícios: por exemplo, fumar, consumir drogas, agredir a esposa, ser guloso ou viver a promiscuidade sexual desenfreada. Mesmo coisas intrinsecamente boas podem tornar-se viciantes e destrutivas: pensemos, por exemplo, num homem que queira ler livros ou praticar a jardinagem o dia inteiro, negligenciando assim sua obrigação de sustentar a família.  

Somos nós que começamos essas coisas; mas, por causa de um orgulho bobo, queremos culpar outra pessoa, quando é evidente que somos nós os envolvidos em condutas prejudiciais e destrutivas. Deus é o alvo errado, porque sempre nos podemos convencer de que “Deus deve me dar a capacidade de parar, se eu lho pedir”. Logo, se Ele não o fizer, poderemos dizer que Ele ou é impotente ou não existe.

Na verdade, há uma coisa chamada graça, um poder divino de superar o pecado e o mal (ver, por exemplo, Rm 8, 37 e Fp 4, 13). Eu e praticamente todo cristão sério experimentamos esse auxílio diversas vezes e, na verdade, grupos muito bem-sucedidos como os Alcoólicos Anônimos pressupõem que ela existe e pode ajudar os alcoólatras a largarem a bebida.

O que quero dizer é que é irracional exigir que Deus (um ser onisciente e infinitamente superior a nós e, portanto, muitas vezes inexplicável, como nós o seríamos para uma formiga) faça neste exato momento aquilo que eu desejo, por medo de ser rejeitado ou desacreditado caso não faça nada.

Deus não tem obrigação de realizar milagre algum nem de atender a todas as nossas orações. Ele faz o que faz em seu próprio ritmo, por suas próprias razões inescrutáveis e objetivos providenciais. Deus não é uma varinha mágica nem um boneco de meia que pode ser usado ao nosso bel prazer. 

Dizer “ou Deus faz X ou não quero mais saber dele!” é ter uma espiritualidade infantilóide, é racionalizar os próprios caprichos, é ter um exagerado senso de (falsa) liberdade. É o pecado original de Adão, Eva e o demônio: escolher a própria vontade no lugar da vontade de Deus. Aldous Huxley reconheceu (de modo admirável) que fazia exatamente isso. E creio que o jovem C. S. Lewis (supondo que a opinião de Sayer esteja correta) também fazia a mesma coisa, e isso era irracional e insensato pelas razões acima apresentadas. Mais tarde, Lewis explicou como e por que a moralidade sexual é tão importante

[Nota da Equipe CNP: A esse propósito, leia-se abaixo um trecho de carta de Lewis a Keith Masson (3 jun. 1956), publicada em The Collected Letters of C. S. Lewis, Vol. III: Narnia, Cambridge, and Joy 1950-1963, editado por Walter Hooper, Harper San Francisco, 2007:

Você supõe que um princípio moral tradicional deva apresentar uma prova de sua validade antes de ser aceito. Eu suponho o contrário: ele deve ser aceito até que alguém apresente uma refutação definitiva.

Além disso, concordo que seja idiotice falar em “desperdício de fluidos vitais”. Para mim, o verdadeiro mal da masturbação reside no fato de ela usar um desejo que, se aplicado de forma correta, conduz a pessoa para fora de si, de modo que possa completar (e corrigir) sua própria personalidade na de outra pessoa (e finalmente nos filhos e netos) e o inverte, enviando o homem novamente à prisão de seu ego a fim de que lá ele possa manter um harém de noivas imaginárias. Depois de ser aceito, esse harém impede que o homem se liberte de si mesmo e se una verdadeiramente a uma mulher real.

Pois o harém é sempre acessível e subserviente, não exige sacrifícios ou ajustes, além de ser dotado de atrações eróticas e psicológicas com as quais nenhuma mulher verdadeira pode competir. O rapaz é sempre adorado pelas noivas sombrias, é sempre considerado o amante perfeito: não exigem nada de seu altruísmo, jamais é imposta à sua vaidade alguma mortificação. No final das contas, elas se tornam apenas o meio pelo qual ele cada vez mais cultua a si mesmo… A faculdade do amor não é a única a ser esterilizada e a ter de retroceder, mas também a faculdade da imaginação...

A masturbação implica esse abuso da imaginação em temas eróticos (que eu considero mau em si) e, portanto, estimula um abuso semelhante dela em todas as esferas. Afinal de contas, a principal tarefa da vida é praticamente sairmos de nós, da pequena e obscura prisão na qual nascemos. A masturbação deve ser evitada, bem como todas as coisas que retardam esse processo. O perigo que nos ronda é o de acabar amando a prisão.]

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Ex-protestante: “Foi a Bíblia que me converteu à fé católica”
Testemunhos

Ex-protestante: “Foi a Bíblia
que me converteu à fé católica”

Ex-protestante: “Foi a Bíblia que me converteu à fé católica”

“A Escritura alimentava minha vida cristã, ajudava-me a crescer espiritualmente e a aproximar-me cada vez mais de Cristo. E, no final das contas, foi a própria Escritura que acabou me convencendo da verdade do catolicismo.”

Lois DayTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Quando, aos dezoito anos, aceitei Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador, comecei pela primeira vez na vida a ler a Bíblia com vontade e interesse. Eu acabara de entrar em um novo relacionamento de fé e amor com Cristo, e era nas páginas da Escritura que eu podia aprender o que era necessário saber sobre Ele. Passei um verão inteiro a ler o Novo Testamento de cabo a rabo. Era como se verdades me saltassem aos olhos; intuições e rios de sabedoria manavam daquelas páginas. Surpreendi-me de achar as Escrituras tão fascinantes. “Isso é por causa do Espírito Santo”, disse-me um amigo, que me tinha levado para o Senhor. “Ele está com você, revelando o que significa a Palavra de Deus”.

Durante os dez anos seguintes, tendo pertencido a uma grande variedade de igrejas, a Bíblia permaneceu a pedra-de-toque da minha fé em Cristo. Tudo em que eu tinha de acreditar como cristã poderia encontrar-se na Bíblia; era ela a minha única autoridade em matéria de fé, e eu a considerava totalmente fiável. Eu a li várias vezes ao longo daqueles anos e tornei-me familiar com muitas de suas passagens. Eu amava a Bíblia, porque era nela que podiam ser descobertas a vontade de Deus e a resposta a todas as perguntas vitais. A Escritura alimentava minha vida cristã, ajudava-me a crescer espiritualmente e a aproximar-me cada vez mais de Cristo. E, no final das contas, foi a própria Escritura que acabou me convencendo da verdade do catolicismo

Quando uma amiga próxima contou-me que estava se tornando católica, eu fiquei chocada. Para mim, a Igreja Católica era uma grande e misteriosa organização, de caráter duvidosamente cristão e cheia de ensinamentos errôneos e contrários à Bíblia. Eu não podia entender como alguém com verdadeira fé em Cristo, tendo com Ele um relacionamento pessoal, poderia virar católico. Por isso, decidi ir atrás da resposta. Mas onde encontrá-la? Ora, onde mais, senão na Bíblia mesmo?

A minha postura era como a dos judeus da Beréia, que, após ouvir a pregação de Paulo, receberam a palavra “com ansioso desejo, indagando todos os dias, nas Escrituras, se essas coisas eram de fato assim” (At 17, 11). A Igreja Católica propunha-me como verdade algumas doutrinas, e eu, como os bereanos, queria examinar a Escritura a respeito dessas doutrinas, para determinar se de fato elas eram ou não verdadeiras. Se a doutrina católica não estivesse de acordo com a Escritura, então ela podia ser rejeitada sem maiores problemas. E eu tinha certeza de que era isso que ia acontecer.

A Bíblia não diz quanto tempo levaram os bereanos para descobrir que o ensinamento de Paulo estava de acordo com a Escritura, ao fim do que “muitos deles creram” (At 17, 12). Para mim, foram precisos cinco anos. Eu estudei os ensinamentos da catolicismo à luz da Escritura, sempre me baseando na Bíblia como em minha única autoridade para encontrar a verdade. E, no final de tudo, descobri que a doutrina católica é, sem sombra de dúvida, escriturística. Tendo-o descoberto, eu devia me comportar como os bereanos. A Escritura tinha-me mostrado que o catolicismo é verdade, e eu então acreditei.

A Escritura convenceu-me de todo o ensinamento católico, mas em nenhum outro ponto ela era mais clara do que na Eucaristia, entendida como verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Enquanto protestante, eu acreditava que Cristo, ao falar em Jo 6 que nos daria de comer sua própria carne, estava se expressando em termos simbólicos, e não literais. “Comer a sua carne”, pensava eu, era o mesmo que dizer, em linguagem figurada, “acreditar nele”. No entanto, a própria Bíblia mostrou-me que essa crença não é escriturística. Toda a minha formação como protestante consistira em ler a Bíblia literalmente, em tomar as palavras da Escritura ao pé da letra, sem tentar “interpretá-las” de forma alguma. Ora, Cristo disse que nos daria de comer sua verdadeira carne e, na Última Ceia, Ele tomou pão e disse: “Isto é o meu Corpo”. Ao ler isso na Bíblia, perguntei a mim mesma: “Se a Bíblia há de entender-se literal, e não simbolicamente, por que não aqui?” Parecia-me claro que, se Cristo disse que a sua carne é verdadeira comida (cf. Jo 6, 55), nós poderíamos supor com segurança que Ele quis dizer exatamente o que disse.

Eu sou católica há seis anos. Como católica, qual é a minha postura diante da Bíblia? Eu amava a Bíblia quando era protestante; ela era a Palavra de Deus, e nela eu encontrava os tesouros de sua sabedoria. Eu me baseava nela como meu guia para a verdade. Agora que sou católica, eu amo a Bíblia ainda mais — se é que é possível —, porque, além de tudo o que ela representava para mim enquanto protestante, eu a reconheço agora como o que ela realmente é: um livro católico, que pertence essencialmente à Igreja Católica.

E foi a própria Escritura que me mostrou onde devo procurar, se desejo saber que doutrinas são verdadeiras: ela me levou até a “casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3, 15).

Notas

  • Lois Day, a autora deste breve testemunho, vive na Virgínia do Norte e é dona de casa. Ela também dá aulas de grego neotestamentário e é membro da Legião de Maria.

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