Se você é católico, uma vez ou outra já deve ter ouvido da boca de um sacerdote, ou lido em algum livro religioso, a palavra “indulgência”. E se não estava acostumado com a expressão, é muito provável que tenha ficado perplexo ao se deparar com ela de novo, tanto tempo depois das aulas de história [i].

Não é para menos. As indulgências não têm uma boa reputação. Muitas pessoas, inclusive alguns católicos, consideram-nas um erro medieval ligado às revoltas que aconteceram na Igreja durante a Reforma Protestante. Infelizmente, elas foram usadas de forma indevida naquele período. Não obstante, ainda são uma ferramenta normal e bastante útil à disposição da Igreja para nos ajudar a responder à graça de Deus.

Qualquer ferramenta pode ser mal utilizada. Mas disso não se segue que ela seja intrinsecamente corrupta. Para entender o verdadeiro significado e propósito das indulgências, devemos analisá-las no contexto mais amplo do amor abundante de Deus e da natureza da Igreja. A partir desse fundamento podemos entender melhor como elas podem ser usadas indevidamente e como elas realmente funcionam na vida de um fiel.

O amor de Deus

O que você pensaria de um fazendeiro que jogasse sementes ao longo de toda a sua propriedade: nas trilhas, no chão pedregoso, em meio aos espinhos e algumas sobre solo fértil? Poderíamos achar que é uma caricatura de fazendeiro ou, talvez, alguém imprudente.

Porém, essa representação está em uma das parábolas de Jesus, na qual Deus é o semeador e sua palavra, a semente (cf. Mc 4, 1-20). Além disso, a semente pode ser entendida como a pessoa de Cristo, que é a Palavra encarnada.

“A Crucifixão de Jesus”, por Gustavo Doré.

Em certo sentido, Deus “lançou” Jesus no mundo, fazendo com que Ele e seu amor ficassem à disposição de todos — Jesus é a Pessoa divina que veio viver entre nós como um ser humano, que nos salvou e fundou uma Igreja através da qual prometeu ficar conosco até nos unirmos a Ele no Céu. Como disse São Paulo: “Pois Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação, por Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele morreu por nós, a fim de que, quer vigiemos quer durmamos, vivamos em união com ele” (1Ts 5, 9-10).

Esta é a vontade de Deus: que tenhamos “acesso ao Pai no Espírito Santo” e nos tornemos “participantes da natureza divina” (Catecismo da Igreja Católica, § 51).

Além disso, parafraseando as palavras de Jesus à samaritana: se realmente valorizássemos o dom de Deus, pediríamos por ele e o honraríamos de acordo com o seu valor (cf. Jo 4, 10). Em outras palavras, ofereceríamos a Deus um solo fértil — uma mente e um espírito bem dispostos —, pronto para receber sua palavra e agir em conformidade com ela, ou, se preferirmos, viver do amor de Deus, sabendo que estamos sendo salvos e que um dia gozaremos da plenitude da salvação.  

São Paulo é um exemplo dessa resposta humana: “A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20).

Quando somos confrontados com esse amor, como podemos deixar de cantar? “Vós sois meu Deus, eu vos bendigo e agradeço! Vós sois meu Deus, eu vos exalto com louvores! Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! Eterna é a sua misericórdia!” (Sl 117, 28-29). Embora nos pareça difícil compreender esse amor — que alguns poderiam chamar de “inconsequente” —, a Escritura nos garante: “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8, 32). Nada — exceto uma rejeição livre e obstinada à oferta de Deus (cf. Catecismo, § 1037) — pode nos separar “do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8, 39).

A natureza da Igreja

Entretanto, mesmo com as garantias do amor de Deus, podemos nos sentir sobrecarregados  com o peso do pecado e os desafios de fazer o que Deus diz. Como as pessoas na parábola do semeador, podemos receber a boa nova inicialmente com alegria, mas logo dificuldades e perseguições vêm enfraquecer o nosso espírito, e as ansiedades mundanas e o desejo por posses disputam a nossa atenção. 

Em tais circunstâncias, precisamos lembrar que Deus, conhecendo nossa fraqueza, propiciou auxílios tangíveis para nos socorrer no caminho em direção a Ele. A Igreja, como já observamos, é a via privilegiada através da qual Jesus continua presente no mundo e compartilha conosco sua graça, principalmente por meio da Eucaristia e dos outros sacramentos. Portanto, podemos dizer em sentido análogo que a própria Igreja é “o sacramento da salvação, o sinal e o instrumento da comunhão de Deus e dos homens” (Catecismo, § 780), pois “comunica a graça invisível que ela significa” (Catecismo, § 774). 

“Adoração da Santíssima Trindade pela Cidade de Deus”, por Albrecht Dürer.

Pela graça de Deus, a Igreja ocupa uma posição transversal entre o Céu e a terra. Ela é “ao mesmo tempo visível e espiritual, sociedade hierárquica e Corpo Místico de Cristo” (Catecismo, § 779). Jesus sustenta a Igreja para sempre com seu poder, amor e graça, numa comunhão sem fim que dá origem a uma “solidariedade sobrenatural” ou comunhão dos santos (Indulgentiarum Doctrina, n. 4-5). O que afeta a um afeta a todos: os santos no Céu, no Purgatório e na terra.

Parte dessa solidariedade é a autoridade dada aos ministros da Igreja na terra de ser “administradores dos mistérios de Deus” (1Cor 4, 1). Jesus fundou a Igreja por meio de Pedro e dos outros Apóstolos. A Pedro Ele confiou “as chaves do Reino do céus” e a todos garantiu: “Tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra será desligado nos céus” (Mt 18, 18). 

Os ministros da Igreja exercem sua autoridade — sempre sujeitos à Revelação divina — pelo governo, pela celebração da liturgia e dos sacramentos e até pelos meios extra-sacramentais como devoções e métodos de oração, sem falar em seus próprios esforços de testemunhar o poderoso amor de Jesus nas próprias vidas. Deveria ser algo óbvio que todos os membros da Igreja, segundo sua vocação particular, são responsáveis por fomentar a comunhão através da participação nesses instrumentos comuns da graça de Deus.

Santa Teresa de Lisieux, à sua maneira tipicamente incisiva e provocativa, resume o profundo significado da pertença ao Corpo de Cristo: “Já que me amastes a ponto de me dardes vosso Filho único para ser meu Salvador e meu Esposo, são meus os infinitos tesouros de seus méritos” (Ato de Oblação ao Amor Misericordioso). A intenção dela não é guardar os méritos de Cristo para si, mas oferecê-los novamente a Deus pela salvação das almas. A ousadia dessa oração articula bem o modo como Deus nos salva e ainda permite que cooperemos com sua obra de salvação, como indivíduos e membros da Igreja.

O significado e o propósito das indulgências

O amor abundante que Deus demonstrou ao nos salvar e a natureza da Igreja como sinal e instrumento desse amor formam o contexto apropriado para compreendermos o significado e o propósito das indulgências. Para ajudar as pessoas a entender as indulgências, esclarecer os erros e evitar os abusos em relação a elas, a Igreja apresenta uma definição que vem da Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina e é repetida no Catecismo (§ 1471):

A indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, (remissão) que o fiel bem-disposto obtém, em condições determinadas, pela intervenção da Igreja que, como dispensadora da redenção, distribui e aplica por sua autoridade o tesouro das satisfações (isto é, dos méritos) de Cristo e dos santos.

Essa definição é uma declaração densamente compactada que resume uma longa (e às vezes problemática) história a respeito das indulgências. A linguagem cuidadosa responde a uma série de questões que surgiram ao longo dos anos.

Satanás distribuindo indulgências, numa iluminura do século XV.

A primeira parte da definição responde a dois dos mais frequentes erros a respeito das indulgências: afirmar que elas perdoam os pecados e distribuem gratuitamente ingressos para o Céu. Não fazem nenhuma dessas duas coisas, pois só é possível ganhar uma indulgência após o perdão dos pecados (uma graça própria do sacramento da Penitência) e quando satisfeitas as condições para lucrar a indulgência. Infelizmente, as falsidades foram perpetuadas pela prática ilegítima de clérigos que espalhavam mentiras e exigiam pagamentos dos penitentes.

O Papa Bonifácio IX condenou tais mentiras, bem como a venda de indulgências, em 1392, mas a situação permaneceu a mesma por séculos. De fato, a prática era tão comum que um dos Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, é dedicado justamente a um pardoner, isto é, “vendedor de indulgências”. No século XVI, o Concílio de Trento (em parte respondendo às objeções de Martinho Lutero sobre as indulgências) incumbiu os bispos da tarefa de extirpar todo tipo de erro. São Pio V reabilitou a eficácia espiritual das indulgências quando, em 1567, proibiu a concessão de qualquer indulgência em troca de dinheiro.

Na verdade, o que os traficantes de indulgências vendiam — e aparentemente não lhes faltavam clientes — era a graça a preço de banana: não o perdão de um pai amoroso que requer uma resposta de quem o ganha, mas uma forma rápida de aliviar uma consciência culpada. No entanto, como deixa clara a definição da Igreja, o pecado tem como consequência não apenas a culpa, mas também os castigos decorrentes da má ação. Observe que a definição menciona apenas a remissão das penas temporais. A punição eterna, que é a separação de Deus por toda a eternidade, só pode ser perdoada e purificada através da Confissão sacramental. Depois da Confissão, Deus permite que as penas temporais permaneçam, pois elas nos acusam da maldade do pecado e nos impelem à conversão. 

Numa audiência geral de setembro de 1999, o Papa São João Paulo II definiu as penas temporais como parte do processo de cura dos “efeitos negativos provocados pelo pecado” na pessoa. Os efeitos negativos resultam num “apego nocivo” às coisas criadas (Catecismo, § 1472), que deve ser purificado e subordinado ao amor de Deus — o qual, diga-se de passagem, encoraja-nos a estabelecer um vínculo saudável com as coisas criadas. As penas, ou o processo de cura, nos preparam para nos apresentarmos diante de Deus tal como Ele nos criou, sem a vergonha ou a culpa causada pelo pecado. A purificação obviamente não se limita às indulgências. Uma pessoa também pode praticar atos de piedade, fazer penitências e, principalmente, realizar obras de caridade, todas as quais também levam à purificação (Indulgentiarum Doctrina, n. 11).

As indulgências, contudo, são uma maneira de a Igreja, “como ministra da redenção”, intervir por um penitente, servindo-se da autoridade que Deus lhe conferiu para eximir todas as punições temporais por conta de pecados (indulgência plenária), ou uma parte delas (indulgência parcial), pelo emprego da satisfação conquistada por Cristo e pelos santos. Em outras palavras, trata-se de uma aplicação da comunhão dos santos, que acertadamente vem em auxílio de um irmão ou irmã que precisa de ajuda. São Paulo já exortava os gálatas a “carregar os fardos uns dos outros” (Gl 6, 2).

Porém, para receber a indulgência, o penitente precisa ter as disposições necessárias e cumprir as condições predeterminadas, pois ninguém pode ser salvo ou curado sem seu próprio consentimento e esforço pessoal. Assim como antigamente um indivíduo podia ver na compra de uma indulgência um jeito fácil de limpar a consciência, outro penitente pode fingir ou pensar que a prática de um punhado de boas obras paga qualquer pena. Tal atitude se contrapõe à contrição e a qualquer esforço de conversão.

Como ganhar uma indulgência?

Como regra geral, uma indulgência plenária é outorgada sob as seguintes condições: o penitente tem de realizar a obra à qual a indulgência está anexa, fazer uma Confissão sacramental, participar da Comunhão eucarística e oferecer orações nas intenções do Santo Padre. Para receber a indulgência plenária, o penitente também precisa ter a disposição de se desapegar de qualquer pecado. Se essa disposição não for plena, ou se as condições não forem satisfeitas, então a indulgência será parcial, contanto que o penitente tenha um coração contrito e leve a cabo ao menos uma parte das ações.

Poucas pessoas discordarão de que o aspecto mais desafiador desses requisitos não são as condições, especialmente para alguém que já reza e frequenta os sacramentos. As obras a praticar também não são nada pesadas — na maioria das vezes consistem em oração, leitura das Escrituras ou obras de misericórdia corporais ou espirituais etc. O aspecto verdadeiramente desafiador é o desapego de todo e qualquer pecado. Uma pessoa pode até estar contrita de seus pecados, mas desapegar-se de todo e qualquer pecado é outra história. Alguém poderia perguntar se é mesmo possível que isso aconteça e por que sequer nos deveríamos dar ao trabalho de ir atrás de indulgências em primeiro lugar.

“A Confissão”, por Giuseppe Molteni.

Para citar Jesus: “Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo é possível” (Mt 19, 26). Jesus pronunciou essas palavras depois de dizer a um jovem rico e aos Apóstolos que eles tinham de ser perfeitos. O jovem partiu triste, e os Apóstolos disseram que isso era impossível. Mas Jesus não falou que eles teriam de fazê-lo com suas próprias forças. Ele disse a eles que o seguissem. Também vale lembrar que a palavra “perfeito” em português traduz a palavra grega teleios, que não significa sem falha, mas pleno e ordenado para o seu fim próprio. Em outras palavras, Jesus estava dizendo ao jovem e aos Apóstolos para subordinarem tudo ao relacionamento com Deus, e assim eles estariam unidos a Deus, o fim próprio de todo homem e toda mulher.

De modo similar, a Igreja usa o dom das indulgências para ajudar homens e mulheres a seguirem Jesus até o Céu. A Igreja sabe que, por si próprio, um indivíduo não consegue crescer em santidade ou perfeição (teleios). É impossível superar os efeitos assoladores do pecado e o mal que existe no mundo sem a graça de Deus e a prática da virtude. De fato, deste lado do Céu existe sempre o risco de escolher pecar novamente, mesmo quando se recebe uma indulgência. Mas quem permanecer perto de Jesus, quem o seguir, gozará da plenitude da salvação. 

Portanto, por que não oferecer uma ajuda às pessoas que querem buscar a Deus de todo o coração? As indulgências não são um requisito da fé nem um preceito da Igreja, mas se as usamos bem, elas gradualmente nos treinam na virtude e na disciplina. Recomendando-nos a oração e as obras de misericórdia, elas nos ajudam a dar as costas para o pecado e a nos voltar a Deus e ao próximo. De fato, um penitente na terra, como membro sofredor da comunhão dos santos, pode pedir a Deus que aplique uma indulgência lucrada não a si mesmo, mas a alguém no Purgatório, a fim de que essa pessoa se purifique e entre mais depressa no Céu.

Somente Deus sabe com exatidão de que maneira se dá a remissão das penas temporais na vida de alguém. Uma pessoa pode ser libertada imediatamente dos grilhões do álcool ou da pornografia, enquanto outra só se vê livre depois de anos de esforço ou no Purgatório. A graça de Deus pode ser vista em ambas as situações. 

Quando bem empregada, a indulgência é uma ferramenta eficaz para curar em nós os efeitos do pecado e abrir-nos mais inteiramente à graça de Deus. De fato, não precisamos conjecturar o que acontece quando respondemos ao amor de Deus com um coração contrito e disposição a crescer na santidade: à medida que desenvolvemos hábitos de oração e caridade, tornamo-nos um pouco menos egoístas e gananciosos, ganhamos um pouco mais de paciência e ficamos com o coração mais generoso; focamos mais no amor a Deus e ao próximo e, finalmente, permitimos que Jesus nos atraia para si.

Notas

  1. Este texto foi publicado originalmente em 16 de abril de 2021, durante o Ano Jubilar de São José. Por isso, foi adaptado passim (especialmente em seu início) para esta tradução.