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Os heróis da Terra Média
Espiritualidade

Os heróis da Terra Média

Os heróis da Terra Média

A emoção da aventura e o desafio de se tornar um homem: eis o que jovens e adolescentes encontram no universo de J. R. R. Tolkien; eis uma razão para o grande sucesso de “O Senhor dos Anéis”.

Leon PodlesTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Janeiro de 2018
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Pouquíssimos escritores contribuíram tanto para a literatura fantástica no século XX quanto J. R. R. Tolkien. Com milhões de livros vendidos e um site que recebe mensalmente 30 milhões de visitas, “O Senhor dos Anéis”, a principal obra literária de Tolkien, foi considerado pelos britânicos o melhor livro do século XX e, para os membros da Folio Society, o melhor livro inglês de todos os tempos.

Meu interesse por Tolkien surgiu aos dezesseis anos, quando me entretinha com o catolicismo de Chesterton e as sagas islandesas, que o artista, designer e escritor do século XIX, William Morris, traduziu. Encontrei em Tolkien um grande amigo. Mas a enorme popularidade do autor justifica-se por preocupações maiores que as minhas naquela idade: preocupações sobre masculinidade e heroísmo, sobre o significado do amor entre criaturas mortais e a importância da vida em um mundo sombrio onde a morte é inevitável.

A presença desses assuntos nos livros de Tolkien é recorrente porque, assim como todo o século XX, o autor viveu sob as sombras da guerra e dos genocídios. E isso levou-o a entender que a salvação vem apenas pela graça, por meio de um heroísmo semelhante ao de Cristo.

Tolkien formou uma imaginação cristã e masculina. A masculinidade heróica de “O Senhor dos Anéis, por exemplo, possui vários pontos em comum com a missão heróica de Cristo: a bravura, a piedade, a misericórdia, o amor, a abnegação e o sofrimento. Todos esses elementos estão presentes na obra de Tolkien, e são fundamentais para se compreender o apelo e a riqueza de um livro escrito por uma imaginação cristã.

O heroísmo masculino

O Senhor dos Anéis” assemelha-se a epopeias tradicionais como a “Odisseia”. Trata-se de livros que traduzem, de maneira fantástica, a jornada de um menino para tornar-se adulto. De fato, a vida de todo garoto é um grande desafio para receber o título de “homem de verdade”. Eles crescem ouvindo histórias de como rapazes da sua idade deixaram a própria casa, enfrentaram lutas e ameaças de morte, até retornarem transformados em homens. Nesta fase, o menino deve distanciar-se da pessoa de quem é mais próximo e de quem mais ama — sua mãe —, porque ela não lhe pode fornecer o modelo do que ele se deve tornar.

O menino precisa distanciar-se do mundo infantil, onde está seguro e protegido, a fim de que possa entrar no mundo adulto, onde aprende a cuidar e proteger os outros. O tema do desafio é universal porque todas as culturas do mundo contam histórias a seus garotos sobre desafios para se tornar homem. O herói, ou seja, aquele que alcançou esse objetivo e se tornou homem, é a figura central da literatura de cada cultura. E, ainda que a maior parte dos homens dos quais Tolkien escreveu seja da raça dos hobbits, eles têm os mesmos problemas de maturidade que um humano do sexo masculino tem.

Tolkien tornou-se um homem, por assim dizer, durante a Primeira Guerra Mundial, quando perdeu amigos próximos, viu a dureza das batalhas e, especialmente, os horrores do genocídio industrial, que envenenou a terra e deixou dezenas de milhares de corpos abandonados no campo de batalha.

Na faculdade, o autor interessou-se pela literatura masculina anglo-saxã e islandesa. O estilo dessas literaturas é lacônico, e seu assunto consiste em batalhas e lutas diante da morte inevitável. Em contraste com a atmosfera efeminada e homossexual da universidade inglesa (basta pensar no personagem Sebastian, de Evelyn Waugh, em “Memórias de Brideshead”), J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis e outros Inklings bebiam cerveja, usavam tweeds e faziam longas caminhadas, de modo que sua vida civil era marcada pela masculinidade.

Tolkien entendia que a tarefa de tornar-se homem e herói (a excelência da masculinidade) não era simples, porque está cheia não só de perigos, mas também de paradoxos. A força masculina pode ser usada tanto para o bem como para o mal; a vontade de enfrentar a morte pode levar ao amor pela morte; e o niilismo é o poço onde pode cair o homem mais disposto a aceitar os desafios da masculinidade. Ou seja, o herói ou é divino ou demoníaco. Aquiles é um fogo ardente e devorador; Beowulf é como seu adversário, Grandel. Como em todas as realidades da Terra Média, masculinidade e heroísmo são autodestrutivos. A Terra Média, portanto, não pode salvar-se a si mesma.

Guerra e amizade masculina

O tradicional heroísmo militar também está presente em “O Senhor dos Anéis. Aragorn, por exemplo, é o rei disfarçado, que eventualmente lidera seu exército na batalha, mas apenas como uma diversão. O heroísmo militar, entretanto — por maior e mais digno que seja —, é, na melhor das hipóteses, inadequado, e, na pior, perigoso para as pessoas que procura proteger. De fato, os cavaleiros de Rohan lançaram-se contra o inimigo sob o grito de “morte!”, mas não puderam derrotar os Nazgûl, nem a tropa de Aragorn venceu Sauron. Mais ainda: Boromir quis usar o Anel para defender o seu povo, mas acabou pervertido e transformado em um monstro, só se redimindo mais tarde, ao dar a vida pela salvação dos hobbits, em um ato supremo de verdadeira amizade.

As amizades mais próximas em “O Senhor dos Anéis” são entre homens de diferentes espécies: humanos, hobbits, anões e elfos. A amizade masculina é o centro emocional do livro. No caso de Bilbo e Frodo, por sua vez, os leitores notam uma coisa típica da tradição germânica, na qual a relação “tio-sobrinho” está mais próxima da relação “pai-filho”. Bilbo vive solteiro e faz de seu sobrinho Frodo o seu herdeiro. Há ainda outros relacionamentos masculinos, como a relação mestre-servo de Frodo e Sam, a camaradagem dos adolescentes Pippin e Merry, a amizade entre os opostos Legolas e Gimli, a liderança de Aragorn e a fraca liderança de Boromir.

Sam, que se torna um grande herói no final de “O Senhor dos Anéis”, é o modelo dos soldados que Tolkien encontrou na Primeira Guerra Mundial. A camaradagem dos soldados no sofrimento é intensa e física. Na guerra, os homens sentem a proximidade de seus companheiros, que estão dispostos a morrer um pelo outro, em um amor que supera o das mulheres. A cena em que Sam resgata Frodo dos orcs mostra a intensidade e a proximidade dessa relação.

Bravura e misericórdia

Embora “O Hobbit” seja mais alegre que “O Senhor dos Anéis”, este aprofundou muitos dos temas sérios que já estavam naquele. Na história de “O Hobbit”, Bilbo Bolseiro começa com uma vida segura e tranquila em sua toca agradável, mas logo assume o desafio da aventura e procura o dragão e seu tesouro. Bilbo passa por provações que os soldados da Grande Guerra também enfrentaram e dispõe-se a lutar, envolvendo-se em uma batalha ainda mais importante: vencer o seu próprio medo. Quando o pequeno Bolseiro desce à caverna para enfrentar a criatura, ele vive a fase tremenda da sua jornada:  

Foi nesse ponto que Bilbo parou. Ultrapassá-lo foi o gesto mais corajoso de sua vida. As coisas tremendas que aconteceram depois não eram quase nada em comparação àquilo. Lutou a verdadeira batalha sozinho no túnel, antes mesmo de perceber o enorme perigo que estava à sua espera.

Bilbo e os companheiros têm ainda de lidar com os orcs, sobre os quais Tolkien diz:

Não é improvável que tenham inventado algumas das máquinas que desde então perturbam o mundo, especialmente os instrumentos engenhosos para matar um grande número de pessoas de uma só vez, pois sempre gostaram muito de rodas e motores e explosões, como também de não trabalhar com as próprias mãos além do estritamente necessário.

Tolkien encontrou essas máquinas durante o combate na Frente Ocidental.

O desafio mais importante de Bilbo, cujo significado é esclarecido apenas em “O Senhor dos Anéis”, acontece nas cavernas das Montanhas Sombrias, onde, após se separar dos amigos, ele encontra acidentalmente o Anel, que seu antigo dono, Gollum, havia perdido. Bilbo descobre que o Anel o torna invisível, então decide usá-lo para escapar de Gollum — que o está perseguindo e bloqueando a saída das cavernas:

Bilbo quase parou de respirar, enrijecendo-se também. Estava desesperado. Tinha de sair dali, daquela escuridão horrível, enquanto ainda lhe restavam forças. Tinha de lutar. Tinha de apunhalar a coisa maligna, apagar seus olhos, matá-la. Ela queria matá-lo. Não, não seria uma luta justa. Agora ele estava invisível. Gollum não tinha espada. Gollum não havia ameaçado matá-lo, nem havia tentado ainda. E estava arrasado, sozinho, perdido. Uma compreensão repentina, um misto de pena e horror, cresceu no coração de Bilbo: um vislumbre de dias infindáveis e indistintos, sem luz ou esperança de melhora, cheios de pedra dura, peixe frio, movimentos furtivos e sussurros. Todos esses pensamentos lhe passaram pela mente em um lampejo. Estremeceu. Depois, de súbito, num outro lampejo, como se impelido por uma nova força e resolução, deu um salto.

A posse de Bilbo sobre o Anel começa com a virtude da piedade. Embora sua bravura masculina fosse essencial, foi a piedade o que finalmente salvou seus amigos e ele mesmo.

Amor misericordioso

Em “O Senhor dos Anéis”, Frodo torna-se o verdadeiro herói, mas seu heroísmo não é o militar. Ele é como um padre que se sacrifica tornando-se ele próprio o sacrifício. Frodo cruza as terras mortas, que são como os campos de batalha envenenados da Primeira Guerra, e desfaz-se de todas as suas posses — de sua espada e até mesmo da comida de que ele precisaria para retornar ao Condado. Quando tem a chance de livrar-se de Gollum, Frodo não o mata, lembrando-se das palavras de Gandalf sobre piedade e misericórdia.

“É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil quando teve a chance.”

“Pena?! Foi justamente pena o que ele teve. Pena e misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir o Anel desse modo. Com pena.”

“Sinto muito — disse Frodo. — Mas estou com medo; e não sinto nenhuma pena de Gollum.”

“Você não o viu — Gandalf interrompeu.”

“Não vi e não quero ver — disse Frodo. Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte.”

“Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar ou condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados.”

Mesmo depois da traição de Gollum e de seu ataque, o amigo de Frodo, Sam, não o mata também:

A mão de Sam vacilou. Sua mente fervia com o ódio e com a lembrança do mal. Seria justo matar essa criatura traiçoeira, assassina, justo e muitas vezes merecido; além disso parecia a única coisa segura a fazer. Mas no fundo do seu coração havia algo que o impedia: ele não podia atacar aquela coisa caída na poeira, abandonada, arruinada, absolutamente desgraçada. Ele mesmo, embora apenas por pouco tempo, tinha carregado o Anel, e agora adivinhava vagamente a agonia da mente e do corpo murchos de Gollum, escravizados por aquele anel, incapazes de algum dia encontrar outra vez paz ou alívio na vida.

No final, Frodo falha, mas acaba salvo. Ele não joga o Anel no fogo e o reivindica para si. Gollum, então, luta com ele, morde seu dedo e acaba caindo no fogo, destruindo-se a si mesmo e o Anel. Nota-se, por conseguinte, a existência de um poder para além dos personagens, que cuida da Terra Média e traz a salvação, apesar da insuficiência e das falhas dos nossos heróis. E aqueles que, em vez de destruídos pelo poder, são salvos, agem com piedade, respondendo com amor ao sofrimento.

O herói ferido

O herói pode ser misericordioso com aqueles que sofrem porque ele mesmo sofreu. O herói, como qualquer rapaz que se tornou um “homem de verdade”, possui uma cicatriz. Todo homem carrega as cicatrizes — muitas vezes, literalmente — das lutas que precisou vencer para se tornar um homem. Tolkien e Lewis se sentiram atraídos pela literatura nórdica porque os próprios deuses nórdicos têm cicatrizes e são mortais. Eles, como os homens, morreriam na luta contra o mal, combatendo até o fim. Tyr, como Beren, tinha apenas uma mão; ele perdeu uma delas quando derrotou o lobo Fenris. Arthur também é ferido, sendo capaz de curar-se apenas em Avalon.

O soldado que salva seu país vai para a guerra como um menino e volta como um assassino profissional que, como mostra Paul Fussell em “The Great War and Modern Memory” (sem tradução para o português), viu hemorragias e mortes, devendo carregar suas feridas e lembranças para o túmulo. Meu próprio pai morreu por causa dos estilhaços com que ele foi atingido no Oceano Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial.

Frodo foi ferido pela faca envenenada de um Nazgûl, pela Laracna e, sobretudo, pelo peso do Anel que, no final, quase o derrota. Quando volta para o Condado, ele percebe que já não é mais o mesmo, que havia mudado demais.

“Tentei salvar o Condado, e ele foi salvo, mas não para mim. Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las.”

O amor abnegado tem uma glória transcendente, mas pode existir apenas em um mundo que tem sofrimento e morte.

A canção do Crucificado

O amor, que só se acha por meio do sofrimento, estava presente na canção dos Ainur no início da criação, como descreve Tolkien em “O Silmarillion”. Quando os Ainur cantam a canção que formou a Terra Média, os rebelados atrapalham a harmonia, introduzindo outras melodias. Ilúvatar, então, canta um tema “profundo, vasto e belo, mas lento e mesclado a uma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem”.

O espírito rebelde Melkor cantou uma música “alta, fútil e infindavelmente repetitiva”, que tentou “abafar a outra música pela violência da sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene”. Finalmente, Ilúvatar levantou “e num acorde, mais profundo que o abismo, mais alto que o firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a música cessou”. Ele havia cantado a Palavra final, e não havia mais nada a acrescentar.

Tolkien pensava que, nos mitos criados pelo homem, alguém poderia enxergar um leve e distante brilho do Evangelho, a Boa Nova. A característica principal dos contos de fada é a eucatástrofe, uma libertação inesperada e um final feliz. Nessa libertação, maior do que qualquer coisa que se poderia esperar, há um prelúdio, uma alusão, um deleite da libertação final e completa.

No mundo real, a Encarnação foi a eucatástrofe da criação e a Ressurreição, a eucatástrofe da vida do Senhor. A eucatástrofe é possível tanto na ficção como na vida real apenas porque a discatástrofe também é possível. A ressurreição só é possível em mundo onde a morte existe. Os deuses gregos são definitivamente frívolos porque são imortais. Por outro lado, homens e heróis são sérios porque devem enfrentar a morte. Os deuses nórdicos e o Deus verdadeiramente encarnado são sérios, porque eles, como os homens, podem “falhar” e “morrer”. Mesmo na mitologia nórdica, há uma promessa de novos céus e nova terra; na história cristã, por sua vez, foi pelo fracasso e pela morte que o Reino de Deus pôde ser trazido até nós.

Não há outro caminho, portanto, nem Deus tem outra mensagem ou outra Palavra que não seja a do crucificado. E é com este acorde que a música da criação deve ser concluída: “Está consumado”.

Uma história gloriosa

Frodo é considerado um herói moderno, mas o correto seria chamá-lo de herói nórdico ou, melhor dizendo, herói cristão, pois ele segue o padrão da jornada do herói: enfrenta perigos e quase morre para proteger os povos da Terra Média. Mais tarde, retorna com cicatrizes e feridas, e tem de desistir de algo para que outros possam continuar a jornada, não encontrando consolo na vida comum, razão pela qual deixa a Terra Média para sempre.

Frodo é, por conseguinte, um herói cristão porque mostra a glória e a inadequação do heroísmo e, de fato, de todo esforço humano. Fazemos o nosso melhor, e depois falhamos. O sucesso é uma coisa que vem de fora como um raio. O fogo cai sobre o sacrifício que foi preparado, e a preparação é penosa, o amor que reconhece a tristeza de toda vida fadada à morte.

Não obstante, mesmo no fracasso transformado em sucesso, o herói encontra a verdadeira glória. Ele faz parte de uma história; sua vida e sofrimento têm significado. Enquanto Sam e Frodo aguardam pela morte depois da destruição do Anel, Sam se pergunta se alguém saberá de seus atos.

“Fizemos parte de uma grande história, Sr. Frodo, não foi mesmo?”, disse ele. “Gostaria de poder ouvir alguém contando. O senhor acha que eles vão dizer: ‘Agora vem a história de Frodo-dos-nove-dedos e o Anel da Perdição?’”. E após o resgate e a recuperação deles, Sam e Frodo ouviram o menestrel dizer, na cerimônia de honras aos dois: “Vou cantar para vocês sobre Frodo-dos-Nove-Dedos e o Anel de Perdição”.

O grande mérito de “O Senhor dos Anéis” é nos fazer acreditar, enfim, que também fazemos parte de uma jornada ainda mais maravilhosa que aquela. Meninos e adolescentes encontram em “O Senhor dos Anéis” a emoção da aventura e o desafio de tornar-se um homem. Na verdade, eles e outros leitores encontram em Frodo, Sam e demais personagens o mistério da amizade em face da morte e do autossacrifício necessário para que outros possam viver.

O vinho da bem-aventurança

Os heróis da Terra Média encontram ainda algo ao mesmo tempo terrível e reconfortante: Aquele que conta a nossa história conhece nossas tristezas e sofrimentos, que existem desde o início do mundo, mas, felizmente, não têm a última palavra. Ainda maior que a amargura de nossos fracassos, decepções e mortes é o resgate que nos aguarda, rápido e inesperado, que traz uma alegria mais vibrante do que o sofrimento, e somente possível pela existência da tristeza; trata-se do bem provocado pelo mal, mas que supera esse mesmo mal com o amor cujo nome é piedade.

O Senhor dos Anéis” exala misericórdia por toda parte. Tolkien lida com o conflito e a morte, mas não lhes concede a palavra final. A coragem é algo fundamental para a batalha, mas não é mais forte do que a piedade e a misericórdia. O herói cristão luta contra a maldade, e deve derrotar principalmente o mal que existe dentro de si mesmo. Mas não pode fazer isso sozinho. Para vencer, deve saber que, sem o auxílio da graça, a vitória é impossível.

A graça atua pela misericórdia, e usa dela para atingir os seus fins. A misericórdia é, na verdade, o amor que existe no mundo mortal. Tolkien procura justificar os caminhos de Deus para o homem, especialmente o caminho pelo qual o homem encontra duramente o dom da morte. Sem a morte, diz o autor, o homem não conseguiria alcançar o amor maior do autossacrifício, da coragem de morrer pelo outro, como Deus escolheu fazer por nós. De fato, Deus permitiu a morte no mundo para que Ele também pudesse morrer e dar a sua vida pelas suas criaturas.

Para aceitar os fatos mais amargos da vida, é preciso prová-los até o limite do possível. Sam questiona Gandalf: “Eu achei que você estava morto. Depois, achei que eu mesmo estivesse morto. Afinal, tudo que era triste vai se revelar falso?”. “Não”, responde o mago, “mas a alegria é algo que só pode vir após a tristeza”. E Gandalf prossegue dizendo que “a alegria deles era como uma guerra, na qual a dor e o prazer fluem juntos e as lágrimas são o próprio vinho da bem aventurança”.

O herói vai para a morte carregando as suas feridas para a eternidade, e são elas a sua glória, o testemunho de um amor misericordioso que atravessa a própria morte. O Cordeiro é vitorioso principalmente porque sua vitória é a de ser eternamente uma vítima.

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A Revolução Sexual e suas mentiras
Sociedade

A Revolução Sexual e suas mentiras

A Revolução Sexual e suas mentiras

A história ensinada em praticamente todas nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia. Os adeptos da revolução não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que eles sempre fazem.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Outubro de 2018
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“O modo mais eficaz de destruir as pessoas”, notou certa vez George Orwell, “é negando e apagando-lhes da memória o próprio entendimento que elas têm da sua história”. Na cultura atual, o próprio conhecimento da história será em pouco tempo coisa do passado.

Apresentadores de programas noturnos às vezes fazem comédia desse crescente “Alzheimer” cultural perguntando a pessoas nas ruas questões banais como: “Quem foram os Aliados na Segunda Guerra Mundial?”, e recebendo respostas vergonhosas. Mas há um lado notadamente menos engraçado do nosso esquecimento. Nós estamos correndo o grande risco, como diz o velho ditado, não apenas de repetir a história por nos termos esquecido dela, mas de repeti-la sem sequer estarmos cientes disso.

Foi esse ponto que o experiente jornalista e autor canadense Ted Byfield fez questão de enfatizar mais de uma vez quando conversamos algum tempo atrás. “Nós estamos abandonando rápido muitos dos princípios sociais e morais fundamentais sobre os quais nossa civilização se encontra fundada”, disse ele. “Estamos cortando apaixonadamente o galho em que nos sentamos… Muito poucas pessoas, instruídas ou não, sabem de onde vieram esses princípios, e como viemos a abraçá-los. Ignoramos nossa herança e história, e isso é muito perigoso.”

Ted Byfiel está certo. Quando há vários anos eu comecei a pesquisar sobre a história da sociedade ocidental, fiquei muito surpreso com o simples fato de que muitas coisas que eu havia aprendido — ou pelo menos tinha sido levado a acreditar — não eram verdade. Se há muitos professores universitários generosos e eruditos, alguns dos quais tive o privilégio de conhecer, há também muitos hippies senis que trocaram suas comunas por uma forma mais fértil de disseminar a própria ideologia: a academia. Em auditórios diante de milhares de estudantes, eles vendem sua própria versão de como a história se desenrolou, deixando a maioria de nós completamente ignorante de como as coisas realmente aconteceram.

Desde que finalizei minha graduação em história, tenho percebido com frequência uma ironia: muitos pais cristãos lutam contra as influências da cultura a fim de inculcar em seus filhos os valores tradicionais e uma visão de mundo cristã, para depois bancar-lhes os estudos universitários e dar à faculdade quatro anos para convencer seus filhos a abandonarem essa visão de mundo.

Alfred Kinsey, uma fraude ainda celebrada nas universidades.

Eu aprendi, por exemplo, no primeiro ano de história, que não houve Revolução Sexual coisíssima nenhuma, porque os infames relatórios de Alfred Kinsey em 1950 haviam “revelado” que norte-americanos de todas as classes sociais já estavam praticando todo tipo imaginável de ato sexual. Praticamente ninguém era fiel a seu cônjuge, relações homossexuais eram comuns e até a bestialidade era supostamente frequente.

Essa ainda é a história que vem sendo ensinada sem questionamento — mesmo que os relatórios Kinsey tenham sido desbancados, e ele mesmo tenha sido desacreditado por inúmeras culpas, desde ter permitido atos horríveis de pedofilia para chegar a seus dados até tê-los distorcido de propósito para contestar a ética sexual cristã. Aqueles, porém, que ainda se dedicam de coração a celebrar a velha e doentia Revolução de 60 muito têm a perder com a divulgação desse conjunto perturbador de fatos históricos.

O mesmo se deu com a antropóloga Margaret Mead e seu famoso livro Coming of Age in Samoa (“Adolescência, sexo e cultura em Samoa”), de 1928 — uma obra que estourou na consciência ocidental “revelando” que outras culturas rejeitavam códigos tradicionais de comportamento sexual e estavam prosperando em consequência disso.

Depois de ter sido o livro de antropologia mais famoso já escrito (leitura obrigatória nas universidades de todo o mundo ocidental), mais tarde ficou provado que suas pesquisas foram mal conduzidas e eram até mesmo fraudulentas. De fato, as fontes de Margaret Mead revelaram a um professor que acompanhou suas teses anos depois que suas excitantes histórias haviam sido apenas uma piada. Ainda assim, você não verá a obra da antropóloga ser examinada criticamente na maior parte das universidades — ainda que seja ela a sustentar grande parte das atitudes de nossa sociedade em relação à chamada liberação sexual.

Dr. Bernard Nathanson, médico aborteiro que se converteu à causa pró-vida.

A rede de fraudes continuou com o aborto. O Dr. Bernard Nathanson — médico que ajudou a fundar (com líderes feministas eminentes, como Betty Friedan) a NARAL, uma associação para repelir leis contrárias ao aborto — foi uma voz fundamental para promover a maior clínica de abortos do mundo, no estado de Nova Iorque. Depois de se tornar pró-vida, como resultado de estudos avançados feitos na área da embriologia, ele revelou em uma série de memórias que o número de abortos clandestinos usado pela NARAL e o movimento abortista para defender a legalização da prática era inventado.

A informação é corroborada pelo fato de nenhuma fonte histórica confiável fornecer qualquer evidência dos números impressionantes de abortos ilegais que o establishment pró-aborto diz acontecerem nos Estados Unidos até hoje. Existem ainda dezenas de pessoas nos campi usando o argumento de que o aborto não diminui quando se torna ilegal. E por quê? Porque eles nunca aprenderam história alguma de fato, apenas a narrativa fictícia criada para o consumo público.

Esses são apenas três exemplos alarmantes de centenas que poderiam ser dadas. Nossas elites culturais — a mídia, o cinema, a academia e até muitos do establishment político — estão envolvidas demais no terrível experimento que foi a Revolução Sexual para examinar honestamente a sua história ou os seus trágicos resultados. Nossa história não é nossa. A história ensinada em praticamente todas as nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia.

Os revolucionários sexuais não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que revolucionários sempre fazem. Isso chamou minha atenção em particular há alguns meses durante uma viagem à China. Nossa guia turística, Anna, levava a mim e a um amigo meu da Cidade Proibida, passando pela Praça de Tiananmen, até o Mausoléu de Mao Tsé-Tung, onde o falecido ditador ainda repousa em um caixão de vidro. Depois de escutá-la exaltando por horas o ditador, perguntei-lhe como era possível que ela acreditasse que Mao havia sido bom para a China quando, segundo algumas estimativas, ele foi responsável pela morte de quase 70 milhões de pessoas. Primeiro ela se irritou e depois ficou agitada. Informou-me que Mao havia sido um “grande líder” e concluiu nossa discussão anunciando que “negar Mao seria como negar o Partido Comunista”! E, com isso, a verdade histórica foi facilmente descartada por obrigação ideológica.

A fim de entender a insanidade sexual e a carnificina que tomaram conta de nossa cultura em praticamente todas as frentes, é preciso devolver à história o seu lugar de honra. Nós temos de analisar honestamente e entender como chegamos a esse ponto. Sem isso, sequer começaremos a tomar consciência do que nos cabe fazer. Precisamos armar nossos filhos e as futuras gerações com a verdade do que realmente aconteceu na história, e com o porquê de nós acreditarmos no que acreditamos.

É precisamente isso o que me disse Ted Byfield, agora em seus 80 anos, quando lhe perguntei o que os mais jovens poderiam fazer para começar um processo de renovação cultural. Ler história com urgência, disse-me. As pessoas ficarão impressionadas quando descobrirem o que realmente aconteceu — “elas ficarão surpresas com as coisas completamente sem sentido que fizemos no século passado; o que precisa ser enfatizado em nossa geração é a descoberta do que aconteceu; em outras palavras, é preciso entrar em contato com a história.”

À medida que as pessoas fizerem isso, finalmente as coisas começarão a fazer mais sentido.

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Os filhos abortados do rock n’roll
Sociedade

Os filhos abortados do rock n’roll

Os filhos abortados do rock n’roll

Eles se devotaram a pregar e viver sob o lema “sexo, drogas e rock n’roll”. Mas quase ninguém fala do que acontecia na manhã seguinte, quando era hora de arcar com as consequências dos próprios atos.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Outubro de 2018
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Há uma tragédia que acontece unicamente com o aborto. Trata-se de um procedimento que cruelmente dá fim à vida de um pequeno bebê, mas cuja feiúra quase nunca se dá a olhos vistos. A criança fica viva por apenas alguns instantes, mas frequentemente deixa um vazio enorme, que invade as profundezas dos que descartaram a vida daquele pequenino para o outro mundo. Sua ausência deixa perguntas impossíveis de ser respondidas: “Quem eu seria? Quanto você teria me amado? Quem eu poderia ter sido para você?”

Essas questões deixaram marcas na literatura norte-americana, permearam as canções de artistas angustiados, e a grande lacuna do que poderiam ter sido essas crianças tornou-se praticamente onipresente na arte dos cantores e escritores de nossos tempos rebeldes. Em poucos lugares isso é tão verdadeiro quanto nas biografias dos cantores responsáveis pela trilha sonora das assombrosas mudanças sociais do último século, aqueles que proclamaram sua fé na tríade “sexo, drogas e rock n’roll.

As estrelas do rock, que caíram nas graças de milhões de fãs apaixonados, tiveram de pagar um preço por suas tentativas de viver uma “eterna juventude” — ainda que, na maior parte das vezes, tenham sido suas mulheres e filhos as maiores vítimas de suas irresponsabilidades.

Elvis Presley.

Joyce Bova abortou um filho de Elvis Presley sem lhe contar nada — à época, ele ainda estava casado com Priscilla, a quem o astro abandonou depois de ela dar à luz sua única filha viva até hoje. Elvis tinha uma política pessoal hedionda de descartar mulheres se elas engravidassem.

O filho de Bob Dylan com Suze Rotolo foi abortado em 1963, e o evento trágico foi um catalisador para o fim do relacionamento dos dois, um ano depois.

Eric Clapton supostamente teria forçado sua namorada Lory Del Santo a abortar o único filho dos dois, Conor, e embora ela tenha se recusado a fazê-lo, o garotinho morreu com quatro anos, depois de despencar de um arranha-céus em Nova Iorque.

Não surpreende que os abortos estivessem em alta demanda entre os altaneiros canarinhos dos anos 60 que cruzavam continentes, cantando odes à liberdade pessoal pela qual alguém, em algum lugar, teria de pagar.

Janis Joplin passou por um aborto mal feito em Tijuana, no México, mas ainda assim decidiu tornar-se, depois, benfeitora da mesma clínica ilegal.

Suzi Quatro, uma das poucas artistas femininas de sucesso prolongado no rock, era constantemente torturada pelo aborto que fizera depois de engravidar de um executivo musical casado. Apesar de sua carreira, ela não conseguia escapar da consciência de suas raízes ítalo-católicas, e o bebê espreitava as arestas de seus pensamentos por décadas. “Aquilo nunca foi embora”, ela observava com tristeza. “Quando meus dois filhos nasceram, eu não conseguia tirar da minha cabeça quem aquele primeiro bebê poderia ter se tornado. Ele ou ela teria 46 anos agora. Qualquer mulher que tenha passado por um aborto e diga a você que não foi nada, está mentindo.”

A ética pró-vida de imigrantes católico-italianos nem sempre conseguiu segurar a todos, infelizmente. A mãe de Frank Sinatra, por exemplo, trabalhou como parteira e fornecia abortos clandestinos “seguros” para mulheres em Hoboken, Nova Jersey. Ela ganhou um registro criminal por seus esforços, tendo sido presa pelo menos duas vezes por cometer abortos ilícitos. Depois, pelo menos dois de seus netos também morreriam nas mãos de aborteiras — Ava Gardner provocou dois abortos ao longo de seu casamento com Frank Sinatra. O casamento dos dois era tumultuado, repleto de ciúmes e explosões de raiva, e Ava diria depois que não queria trazer filhos para a instabilidade do relacionamento que tinham os dois. O cantor teria ficado de coração partido ao descobrir os filhos que ele nunca chegou a conhecer.

Mesmo antes da era “sexo, drogas e rock n’roll”, o aborto era uma prática comum entre as estrelas musicais norte-americanas.

Ray Charles.

Uma amante da lenda dos R&B, o cego Ray Charles, revelou ter abortado um filho dos dois depois de um caso, quando ele ainda era casado com Della Robinson. Mas a amante nunca contou isso ao astro.

Inúmeros biógrafos apontam que a infertilidade da lenda do jazz Ella Fitzgerald era certamente devido a um aborto no passado.

A cantora do mesmo gênero Billie Holiday contou a um escritor de um aborto caseiro agonizante que ela foi obrigada por sua mãe a fazer ainda jovem.

A atriz Judy Garland foi forçada a realizar um aborto por um estúdio de cinema, pois, eles diziam, a maternidade arruinaria o aspecto doce e inocente que lhe tinha feito render tanto dinheiro.

Quando Tina Turner descobriu que seu abusivo marido Ike havia engravidado uma amante ao mesmo tempo que a ela… a cantora abortou o próprio filho.

Em meio aos jogos sujos de infidelidade que aconteciam nas elites musicais, eram seus filhos que “pagavam o pato”. Audrey Mae Sheppard, a primeira esposa da lenda do country Hank Williams, começou sua própria série de affairs para competir com as infidelidades do marido. Quando ficou grávida em 1950 — ninguém sabia se o filho era de Hank ou não —, ela teve um aborto ilegal em casa, e acabou parando em um hospital com uma infecção. Hank apareceu com presentes e tentou cobri-la de afeto, ao que ela respondeu com xingamentos, acusando-o de tê-la feito passar por aquela situação e rompendo com ele. Pouco tempo depois, Hank Williams escreveu uma música sobre tudo isso e intitulou-a Cold, cold heart (“Coração gelado”). O cantor morreu três anos depois com apenas 29 anos.

Patsy Cline, outra lenda country de curta duração, que morreu aos 30 em um trágico acidente de avião, também teve um aborto.

Steven Tyler e Julia Holcomb.

Como sempre, o aborto traz consigo o remorso e a dor pelos filhos ausentes e mudos, descartados antes que fosse possível descobrir quem eles realmente seriam.

Julia Holcomb, a jovem tiete que conheceu Steven Tyler, da banda “Aerosmith”, nos bastidores de um show de rock, embarcou em um vicioso relacionamento de três anos com o cantor. O caso dos dois quase virou casamento, mas terminou com o aborto do filho que eles conceberam juntos. Foi o amigo de Steven, Ray Tabano, que o convenceu em 1975 que um aborto era a única solução, e a experiência marcou-o permanentemente. “Foi uma grande crise”, escreveu o vocalista em sua autobiografia. “Convenceram-nos de que aquilo jamais daria certo, que iria arruinar nossas vidas.”

Mais tarde, seria do aborto, e não do filho, que o casal se arrependeria. Steven Tyler descreveu com horror o ato de ter visto o aborto acontecer. O bebê já estava com cinco meses. “Você vai ao médico, eles colocam a agulha na barriga dela, apertam aquele negócio (injeção salina) e você assiste. E a criança sai morta. Eu fiquei bem devastado. Na minha mente eu dizia: o que foi que eu fiz?” Julia depois escreveu que o bebê nasceu vivo e foi deixado para morrer.

Ray Tabano, o amigo que havia convencido Steven de que o aborto era a coisa certa a se fazer, admitiu que o impacto de tudo não foi como ele previra. “Eles tiveram um aborto e isso realmente deixou Steven perturbado”, contou o amigo. “Ele viu tudo acontecer e isso o perturbou por muito tempo.” Julia Holcomb se mudou com seus pais dois anos depois, e nunca mais falou com Steven. Ela agora é casada, tem seis filhos e é uma sólida defensora da causa pró-vida.

Testemunhar com os próprios olhos o que o aborto faz na realidade, como aconteceu com Steven Tyler, pode resultar, em muitos casos, numa incredulidade repulsiva. O grupo “Sex Pistols” chegou a gravar uma música aterrorizante sobre o aborto, baseada em uma fã que os acompanhava e havia realizado vários abortos. Diz uma das histórias que a mulher foi à porta da casa de John Lydon, vocalista da banda, segurando um bebê abortado dentro de um saco plástico transparente — em sua autobiografia, ele descreve a mulher, chamada Pauline, contando-lhe os abortos por que passou em todos os seus excruciantes detalhes.

O cantor satânico Marilyn Manson, por outro lado, que procurou transformar toda a sua vida em uma obra de arte que celebrasse a morte, descreveu o aborto de seu filho com tranquilidade e até com prazer em um de seus livros:

Os médicos introduziram na cérvix de Missi (Melissa Romero, namorada do cantor na década de 90) uma haste do tamanho de um palito de fósforo, com dois pequenos filamentos saindo para fora na parte de cima, dilatando o colo antes de arrancar o cérebro de nosso filho com um fórceps.

O perverso ato de Manson de celebrar a decapitação do próprio filho não é a norma. Ainda que as estrelas do mundo da música sejam em grande parte favoráveis ao aborto, suas biografias revelam com clareza o dano causado pela prática. Sharon, esposa de Ozzy Osbourne e que teve um aborto aos 17 anos, conta:

Foi a pior coisa que eu já fiz… Eu fui sozinha. Estava aterrorizada. O lugar estava cheio de outras jovens mulheres, e todas nós estávamos aterrorizadas, olhando umas para as outras, e ninguém era capaz de dizer uma palavra sequer. Eu gritava o tempo todo, e foi horrível. Eu não recomendaria isso jamais, a ninguém, porque é algo que volta para te assombrar. Quando tentei ter filhos, perdi três — acho que porque algo aconteceu com o colo do meu útero durante o aborto.

Até mesmo o rapper Eminem, conhecido por suas letras de música brutais e assassinas, compôs uma música que assumiu a forma de uma confissão detalhada de um aborto e do mal que havia sido feito a um “pequenino”.

Os exemplos são infindáveis. Anita Pallenberg foi forçada a fazer um aborto por seu namorado, Keith Richards, dos “Rolling Stones”, para que ela pudesse estrelar em um filme no qual eles estavam trabalhando. A cantora Sinitta Malone já falou de um aborto terrível que ela teve nos anos 80 depois de conceber um filho com o magnata da música Simon Cowell — aborto que, ela conta, deixou ambos “devastados”.

Mesmo Madonna, uma apoiadora clamorosa do aborto, admite ter se arrependido do aborto por que passou quando sua carreira estava começando. “Você sempre se arrepende quando toma esse tipo de decisão”, ela contou à revista “Time” em 1996, “mas você precisa olhar para o seu estilo de vida e se perguntar: ‘Será que eu estou numa posição da minha vida em que eu posso devotar tempo para ser realmente o bom pai e a boa mãe que eu gostaria de ser?’”

A declaração de Madonna resume com franqueza a situação. Ainda que muitos cantores e estrelas do rock se arrependam dos abortos que praticaram, causaram ou financiaram, seus estilos de vida normalmente eram (e ainda são) incompatíveis com filhos. A verdade nua e crua é que promiscuidade geralmente acaba em gravidez, e bebês são um fardo para os que se gabam das alegrias da Revolução Sexual em seus microfones, diante de multidões barulhentas, pulando, repletas de jovens com os hormônios à flor da pele e querendo se divertir.

“Sexo, drogas e rock n’roll” — mas ninguém fala do que acontece na manhã seguinte, quando é hora de pagar o preço do que se fez. A ressaca bate, o traficante quer seu dinheiro e o teste de gravidez dá positivo. O que acontece em seguida? Como os bebês esquartejados do cenário musical norte-americano nos falam sem dizer nada, o aborto vem depois — e as crianças são reduzidas a uma mera “sujeira de sangue”. As músicas então dão lugar ao silêncio, e o vazio da perda é avassalador o bastante para engolir vidas inteiras.

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Pecado mortal, inferno antecipado
Espiritualidade

Pecado mortal, inferno antecipado

Pecado mortal, inferno antecipado

“Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Outubro de 2018
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Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, amados e muitos queridos irmãos em Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo e conforto no precioso sangue do seu Filho, desejosa de vos ver como verdadeiros filhos, sempre vivendo no autêntico e santo temor de Deus, de maneira que jamais desprezeis o sangue de Cristo.

Muito ao contrário, vós deveis desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus. De fato, bem merece repreensão quem entrega o próprio corpo à maldade e à impureza. Pensando na perfeita união de Deus com a humanidade, meus queridos irmãos, quero que isso não aconteça convosco. Especialmente tu, Vanni! Põe tua alma diante dos olhos, bem como a brevidade. Lembra-te de que deves morrer e não sabes quando. Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará. Mas convido os três a sacrificar os próprios corpos e a aceitar morrer por Cristo crucificado (na Cruzada), se for preciso. Antes disso, até que chegue a hora, quero que sejais santamente virtuosos confessando-vos e alegrando-vos sempre em ouvir a Palavra de Deus. Porque, como o corpo não pode ficar sem o alimento, também a alma não pode ficar sem ouvir a Palavra de Deus. Cuidado com os maus companheiros, pois seriam um obstáculo ao bom propósito.

Nada mais acrescento. Queridos e bondosos irmãos em Cristo Jesus, permanecei no santo e doce amor de Deus [1].

Como muitos outros grandes santos e místicos da Igreja, Santa Catarina de Sena escolheu passar a vida no meio do mundo. Ela estava imersa em Deus, sim, mas justamente por amor a Ele, vivia “com as mãos na massa”, entregando-se ao apostolado, levantando as pessoas à sua volta e levando-as à comunhão com o Deus que ela mesma havia encontrado. A carta acima, aqui transcrita na íntegra, é apenas um exemplo das muitas correspondências que ela escreveu alertando seus filhos espirituais do perigo do pecado mortal.

Nesta carta em especial, a santa fala da importância de “desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus”.

Quando pecamos mortalmente — isto é, quando nos afastamos gravemente da lei de Deus querendo e sabendo o que estamos fazendo —, é como se serrássemos o próprio galho em que estamos sentados: o pecado grave corta nosso relacionamento com o autor da vida, com o sustentador do nosso ser, com Aquele que nos concede todas as graças de que precisamos. De modo que — é o que sempre ensinou a Igreja e é o que repete Santa Catarina nesta carta — se morrêssemos nessa condição, nosso destino eterno seria o inferno: “Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Ao que tudo indica, Santa Catarina escrevia a uma pessoa que já tinha fé católica. Hoje, porém, antes de recomendar às pessoas que se arrependam de seus pecados e procurem um padre para se confessarem, é necessário que primeiro elas creiam! Precisamos nos convencer de que, como diz Nosso Senhor no Evangelho, “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora”, “secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo e será queimado” (Jo 15, 6). As mil justificativas que nossa cabeça tenta arrumar para pecarmos — ou pior, para vivermos afundados na lama do pecado — não passam de tentações e precisam ser afastadas sem demora. O que está em jogo é nossa salvação eterna.

Mas o inferno de quem vive em pecado mortal se antecipa, de certo modo, já nesta vida. O martelo do “Rei de tremenda majestade” nem sentenciou ainda a alma ao inferno, e ela já sofre nesta vida as terríveis consequências de seu alijamento de Deus. A começar pelo fato de que, quando cai no pecado, a primeira coisa que costuma fazer o pecador é deixar a vida de oração.

Se estivesse realmente disposto a sair do buraco em que se enfiou — ou seja, se visse no pecado que cometeu o que ele deveria ser de fato: uma queda, após a qual é preciso levantar-se rápido, sem demora —, o pecador não tardaria a se pôr de joelhos, suscitar em seu coração um arrependimento vivo de sua culpa e suplicar o perdão divino pelo que fez. Mas não… ele prefere voltar as costas a Deus e levar a vida como se nada tivesse acontecido, adiando sua Confissão e conversão verdadeira para “amanhã, semana que vem ou mês que vem, quem sabe”…

Nessa toada, os dias de quem vive no pecado mortal se transformam ou em remorso ou em falta de fé. Ou a pessoa sente constantemente os “remordimentos” de sua consciência, chamando-a de volta para o caminho que abandonou, ou faz calar essa incômoda voz e deixa de acreditar em Deus, no pecado e no inferno, abraçando de uma vez a falsa paz do mundo. Assim é o inferno antecipado dos que perderam a graça de Deus: estão condenados ou à amargura ou à infidelidade, ou à desobediência ou ao ateísmo, ou a viver fugindo ou a viver negando a Verdade.

Para não cairmos nessa tragédia, é preciso que fortaleçamos a nossa fé: em Deus, em Cristo e na Igreja, sim, mas também no pecado, porque há muitos hoje na Igreja que dizem crer em Deus, mas que, ao mesmo tempo, perderam completamente a noção do pecado.

Não aconteça isso conosco! Coloquemos de uma vez por todas em nossa cabeça que o pecado mortal não é um simples acidente de percurso… Não, ele é o desviamento total da rota, é o veículo que deu perda total e do qual precisamos sair o quanto antes, antes que exploda, ainda que tenhamos fazer o caminho a pé, vivendo em constante penitência por nossos erros.

Quem caiu, portanto, levante-se logo e passe a viver o quanto antes “no autêntico e santo temor de Deus”. Não venhamos a desprezar, com nosso proceder, o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado no madeiro para nossa salvação. Trabalhemos em nossa conversão com a urgência que essa obra reclama.

Referências

  1. Santa Catarina de Sena, Carta 157, “Conselho aos jovens”. In: Cartas Completas (trad. de João Alves Basílio). São Paulo: Paulus: 2016, pp. 524-25.

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Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?
Doutrina

Se Cristo andava com os pecadores,
por que nem todos podem comungar?

Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?

Se Jesus Cristo comia e bebia com os pecadores durante sua vida pública, por que nem todos podem comungar do Corpo e Sangue de Nosso Senhor na Eucaristia?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Outubro de 2018
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Quem nunca ouviu versículos bíblicos sendo usados para a defesa de opiniões as mais disparatadas? Há alguns anos, em um vídeo que viralizou na internet, o Fantástico exibia o caso de um pastor protestante que, a partir de um versículo mal lido de Oséias, tinha chegado à conclusão (!) de que deveria “adulterar” uma fiel de sua igreja.

É claro que esse exemplo chega às raias do ridículo, mas serve para nos recordar como o ser humano pode distorcer e abusar do que Deus colocou à sua disposição. Antes de pensarmos, por exemplo, que uma citação da Escritura seja suficiente para legitimar uma posição qualquer, lembremo-nos que o próprio Satanás serviu-se de passagens sagradas fora de seu contexto para tentar Jesus no deserto (cf. Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).

Pois bem, assim como o inimigo de Deus conhece as Escrituras, também os inimigos da Igreja as conhecem, e até nosso orgulho ou vaidade pode se servir mal desse instrumento divino, fazendo com que nos iludamos ou, até pior, que façamos a cabeça de outras pessoas.

Um argumento muito comum, por exemplo, usado para justificar na Igreja o acesso indiscriminado à Sagrada Comunhão, ou até mesmo para defender uma vida de pecado, é o de que “Jesus comia e bebia com os pecadores”. — Se Ele se sentava à mesa com publicanos e pecadores públicos, se andava com eles e até se deixava tocar por eles, como aquela hemorroíssa que ficou curada apenas por encostar na orla de seu manto… quem seríamos nós, ou até: quem é a Igreja (quem são os padres!?) — diz-se com ares de orgulho — para dizer a este ou aquele pecador que não deve se aproximar da Comunhão, ou que não deve fazer tal e tal coisa?

À parte o fato de que Nosso Senhor, falando aos Apóstolos, disse: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16), e ainda: “Tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus” (Mt 18, 18) — e por isso a Igreja tem toda autoridade para regular as coisas espirituais —, o argumento de que Jesus andava com pecadores (e, portanto, todos podem comungar) parece poderoso aos que o escutam pela primeira vez, mas é falho. E é Santo Tomás de Aquino que identifica o erro e resolve o problema, em sua Suma Teológica (cf. III, q. 80, a. 4, ad 1):

Quando Cristo aparecia no seu aspecto próprio, não se deixava tocar pelas pessoas como sinal de uma união espiritual com ele, como é o caso na Eucaristia. Por isso, os pecadores, que o tocavam na sua própria figura, não cometiam nenhum crime de falsidade a respeito das realidades divinas, como o fazem os pecadores que comungam.

Cristo então estava ainda na “condição da nossa carne de pecado”. Era natural, pois, que ele se deixasse tocar pelos pecadores. Ora, tendo sido afastada a “condição da nossa carne de pecado” pela glória da ressurreição, ele proíbe de tocá-lo à mulher que mostrava falta de fé a respeito dele: “Não me retenhas, pois eu ainda não subi para o meu Pai” (Jo 20, 17), a saber, “no teu coração”, como Agostinho explica. Assim, os pecadores, que carecem da fé formada a respeito de Cristo, devem ser afastados da comunhão.

O argumento colocado pelo Aquinate é muito simples: tocar em Cristo é diferente de unir-se a Ele, assim como uma mulher casada pode ter contato com muitas pessoas, mas só com o seu marido ela mantém um relacionamento íntimo. É claro que Deus não nega a ninguém as suas graças; o que acontece na Comunhão sacramental, porém, envolve uma comunhão anterior, interna, de alma; sem isso, o ato de receber o Corpo e Sangue de Nosso Senhor não passará de uma “simulação”, de uma falsidade. É como quem dá um beijo, sinal de amor, mas por dentro não ama realmente aquele a quem beija. Como fez Judas.

A Comunhão não pode ser recebida por todo o mundo, portanto, não por um defeito da misericórdia divina, mas por uma falta de preparação adequada por parte do homem. Digno de receber este Santíssimo Sacramento ninguém o será plenamente, é verdade, mas desde sempre a Igreja exigiu dos fiéis um mínimo, sem o qual o ato de comungar não só deixa de produzir frutos, como se torna “causa de juízo e condenação”: “Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente”, diz o Apóstolo, “será culpável do corpo e do sangue do Senhor” (1Cor 11, 27).

O chamado estado de graça faz parte desse “mínimo” necessário para receber a Sagrada Comunhão. Por isso, todos os que têm consciência de haver cometido um pecado mortal — isto é, de terem transgredido os Mandamentos em uma matéria grave, com plena consciência e deliberação (sabendo e querendo) — “devem ser afastados da comunhão”. Com essa expressão, Santo Tomás está falando, evidentemente, de um juízo que cada fiel em particular deve fazer antes de entrar na procissão da Comunhão: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice” (1Cor 11, 28).

Isso não exclui, porém, a possibilidade de os ministros da Igreja negarem a Santa Eucaristia a fiéis que estejam em pecado público, como políticos que sejam manifestamente favoráveis ao aborto ou pessoas que estejam em uma situação de vida que contradiga de modo notório a doutrina da Igreja sobre o Matrimônio. O próprio Aquinate comenta essa questão em sua Suma (cf. III, q. 80, a. 6) e o Código de Direito Canônico prevê claramente que “não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto” (cân. 915).

Talvez surpreenda a muitos esse modo de agir, e alguns até acusem a Igreja de querer “excluir” as pessoas. A esses, é sempre oportuno lembrar as duras palavras que Cristo dirigia aos fariseus, chamando-lhes “hipócritas”, “raça de víboras” e “filhos de Satanás”. Quando a Igreja manda que seus filhos comunguem com responsabilidade, prestando atenção à grandeza dAquele que recebem na Eucaristia, ela procura prevenir-nos justamente desse “fermento dos fariseus”, que fazem consistir sua religião mais em ritos externos do que em um impulso do coração; que querem mais aparecer diante dos homens do que fazer a vontade de Deus.

Porque, afinal de contas, o que importa não é se estamos comungando ou não nas Missas de domingo; se estamos fazendo novenas ou rezando muitos terços; se estamos pagando o dízimo à risca ou se somos católicos “de carteirinha”... Tudo isso é muito importante, sim, mas deve ser precedido de uma relação verdadeiramente íntima com Deus, na oração e no cumprimento dos Mandamentos — em uma conversão radical, que brote do interior.

Sem isso, “ainda que toquemos mil vezes o Corpo do Senhor”, como diz S. João Crisóstomo, jamais entraremos realmente comunhão com Ele.

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