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Os heróis da Terra Média
Espiritualidade

Os heróis da Terra Média

Os heróis da Terra Média

A emoção da aventura e o desafio de se tornar um homem: eis o que jovens e adolescentes encontram no universo de J. R. R. Tolkien; eis uma razão para o grande sucesso de “O Senhor dos Anéis”.

Leon PodlesTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Janeiro de 2018
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Pouquíssimos escritores contribuíram tanto para a literatura fantástica no século XX quanto J. R. R. Tolkien. Com milhões de livros vendidos e um site que recebe mensalmente 30 milhões de visitas, “O Senhor dos Anéis”, a principal obra literária de Tolkien, foi considerado pelos britânicos o melhor livro do século XX e, para os membros da Folio Society, o melhor livro inglês de todos os tempos.

Meu interesse por Tolkien surgiu aos dezesseis anos, quando me entretinha com o catolicismo de Chesterton e as sagas islandesas, que o artista, designer e escritor do século XIX, William Morris, traduziu. Encontrei em Tolkien um grande amigo. Mas a enorme popularidade do autor justifica-se por preocupações maiores que as minhas naquela idade: preocupações sobre masculinidade e heroísmo, sobre o significado do amor entre criaturas mortais e a importância da vida em um mundo sombrio onde a morte é inevitável.

A presença desses assuntos nos livros de Tolkien é recorrente porque, assim como todo o século XX, o autor viveu sob as sombras da guerra e dos genocídios. E isso levou-o a entender que a salvação vem apenas pela graça, por meio de um heroísmo semelhante ao de Cristo.

Tolkien formou uma imaginação cristã e masculina. A masculinidade heróica de “O Senhor dos Anéis, por exemplo, possui vários pontos em comum com a missão heróica de Cristo: a bravura, a piedade, a misericórdia, o amor, a abnegação e o sofrimento. Todos esses elementos estão presentes na obra de Tolkien, e são fundamentais para se compreender o apelo e a riqueza de um livro escrito por uma imaginação cristã.

O heroísmo masculino

O Senhor dos Anéis” assemelha-se a epopeias tradicionais como a “Odisseia”. Trata-se de livros que traduzem, de maneira fantástica, a jornada de um menino para tornar-se adulto. De fato, a vida de todo garoto é um grande desafio para receber o título de “homem de verdade”. Eles crescem ouvindo histórias de como rapazes da sua idade deixaram a própria casa, enfrentaram lutas e ameaças de morte, até retornarem transformados em homens. Nesta fase, o menino deve distanciar-se da pessoa de quem é mais próximo e de quem mais ama — sua mãe —, porque ela não lhe pode fornecer o modelo do que ele se deve tornar.

O menino precisa distanciar-se do mundo infantil, onde está seguro e protegido, a fim de que possa entrar no mundo adulto, onde aprende a cuidar e proteger os outros. O tema do desafio é universal porque todas as culturas do mundo contam histórias a seus garotos sobre desafios para se tornar homem. O herói, ou seja, aquele que alcançou esse objetivo e se tornou homem, é a figura central da literatura de cada cultura. E, ainda que a maior parte dos homens dos quais Tolkien escreveu seja da raça dos hobbits, eles têm os mesmos problemas de maturidade que um humano do sexo masculino tem.

Tolkien tornou-se um homem, por assim dizer, durante a Primeira Guerra Mundial, quando perdeu amigos próximos, viu a dureza das batalhas e, especialmente, os horrores do genocídio industrial, que envenenou a terra e deixou dezenas de milhares de corpos abandonados no campo de batalha.

Na faculdade, o autor interessou-se pela literatura masculina anglo-saxã e islandesa. O estilo dessas literaturas é lacônico, e seu assunto consiste em batalhas e lutas diante da morte inevitável. Em contraste com a atmosfera efeminada e homossexual da universidade inglesa (basta pensar no personagem Sebastian, de Evelyn Waugh, em “Memórias de Brideshead”), J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis e outros Inklings bebiam cerveja, usavam tweeds e faziam longas caminhadas, de modo que sua vida civil era marcada pela masculinidade.

Tolkien entendia que a tarefa de tornar-se homem e herói (a excelência da masculinidade) não era simples, porque está cheia não só de perigos, mas também de paradoxos. A força masculina pode ser usada tanto para o bem como para o mal; a vontade de enfrentar a morte pode levar ao amor pela morte; e o niilismo é o poço onde pode cair o homem mais disposto a aceitar os desafios da masculinidade. Ou seja, o herói ou é divino ou demoníaco. Aquiles é um fogo ardente e devorador; Beowulf é como seu adversário, Grandel. Como em todas as realidades da Terra Média, masculinidade e heroísmo são autodestrutivos. A Terra Média, portanto, não pode salvar-se a si mesma.

Guerra e amizade masculina

O tradicional heroísmo militar também está presente em “O Senhor dos Anéis. Aragorn, por exemplo, é o rei disfarçado, que eventualmente lidera seu exército na batalha, mas apenas como uma diversão. O heroísmo militar, entretanto — por maior e mais digno que seja —, é, na melhor das hipóteses, inadequado, e, na pior, perigoso para as pessoas que procura proteger. De fato, os cavaleiros de Rohan lançaram-se contra o inimigo sob o grito de “morte!”, mas não puderam derrotar os Nazgûl, nem a tropa de Aragorn venceu Sauron. Mais ainda: Boromir quis usar o Anel para defender o seu povo, mas acabou pervertido e transformado em um monstro, só se redimindo mais tarde, ao dar a vida pela salvação dos hobbits, em um ato supremo de verdadeira amizade.

As amizades mais próximas em “O Senhor dos Anéis” são entre homens de diferentes espécies: humanos, hobbits, anões e elfos. A amizade masculina é o centro emocional do livro. No caso de Bilbo e Frodo, por sua vez, os leitores notam uma coisa típica da tradição germânica, na qual a relação “tio-sobrinho” está mais próxima da relação “pai-filho”. Bilbo vive solteiro e faz de seu sobrinho Frodo o seu herdeiro. Há ainda outros relacionamentos masculinos, como a relação mestre-servo de Frodo e Sam, a camaradagem dos adolescentes Pippin e Merry, a amizade entre os opostos Legolas e Gimli, a liderança de Aragorn e a fraca liderança de Boromir.

Sam, que se torna um grande herói no final de “O Senhor dos Anéis”, é o modelo dos soldados que Tolkien encontrou na Primeira Guerra Mundial. A camaradagem dos soldados no sofrimento é intensa e física. Na guerra, os homens sentem a proximidade de seus companheiros, que estão dispostos a morrer um pelo outro, em um amor que supera o das mulheres. A cena em que Sam resgata Frodo dos orcs mostra a intensidade e a proximidade dessa relação.

Bravura e misericórdia

Embora “O Hobbit” seja mais alegre que “O Senhor dos Anéis”, este aprofundou muitos dos temas sérios que já estavam naquele. Na história de “O Hobbit”, Bilbo Bolseiro começa com uma vida segura e tranquila em sua toca agradável, mas logo assume o desafio da aventura e procura o dragão e seu tesouro. Bilbo passa por provações que os soldados da Grande Guerra também enfrentaram e dispõe-se a lutar, envolvendo-se em uma batalha ainda mais importante: vencer o seu próprio medo. Quando o pequeno Bolseiro desce à caverna para enfrentar a criatura, ele vive a fase tremenda da sua jornada:  

Foi nesse ponto que Bilbo parou. Ultrapassá-lo foi o gesto mais corajoso de sua vida. As coisas tremendas que aconteceram depois não eram quase nada em comparação àquilo. Lutou a verdadeira batalha sozinho no túnel, antes mesmo de perceber o enorme perigo que estava à sua espera.

Bilbo e os companheiros têm ainda de lidar com os orcs, sobre os quais Tolkien diz:

Não é improvável que tenham inventado algumas das máquinas que desde então perturbam o mundo, especialmente os instrumentos engenhosos para matar um grande número de pessoas de uma só vez, pois sempre gostaram muito de rodas e motores e explosões, como também de não trabalhar com as próprias mãos além do estritamente necessário.

Tolkien encontrou essas máquinas durante o combate na Frente Ocidental.

O desafio mais importante de Bilbo, cujo significado é esclarecido apenas em “O Senhor dos Anéis”, acontece nas cavernas das Montanhas Sombrias, onde, após se separar dos amigos, ele encontra acidentalmente o Anel, que seu antigo dono, Gollum, havia perdido. Bilbo descobre que o Anel o torna invisível, então decide usá-lo para escapar de Gollum — que o está perseguindo e bloqueando a saída das cavernas:

Bilbo quase parou de respirar, enrijecendo-se também. Estava desesperado. Tinha de sair dali, daquela escuridão horrível, enquanto ainda lhe restavam forças. Tinha de lutar. Tinha de apunhalar a coisa maligna, apagar seus olhos, matá-la. Ela queria matá-lo. Não, não seria uma luta justa. Agora ele estava invisível. Gollum não tinha espada. Gollum não havia ameaçado matá-lo, nem havia tentado ainda. E estava arrasado, sozinho, perdido. Uma compreensão repentina, um misto de pena e horror, cresceu no coração de Bilbo: um vislumbre de dias infindáveis e indistintos, sem luz ou esperança de melhora, cheios de pedra dura, peixe frio, movimentos furtivos e sussurros. Todos esses pensamentos lhe passaram pela mente em um lampejo. Estremeceu. Depois, de súbito, num outro lampejo, como se impelido por uma nova força e resolução, deu um salto.

A posse de Bilbo sobre o Anel começa com a virtude da piedade. Embora sua bravura masculina fosse essencial, foi a piedade o que finalmente salvou seus amigos e ele mesmo.

Amor misericordioso

Em “O Senhor dos Anéis”, Frodo torna-se o verdadeiro herói, mas seu heroísmo não é o militar. Ele é como um padre que se sacrifica tornando-se ele próprio o sacrifício. Frodo cruza as terras mortas, que são como os campos de batalha envenenados da Primeira Guerra, e desfaz-se de todas as suas posses — de sua espada e até mesmo da comida de que ele precisaria para retornar ao Condado. Quando tem a chance de livrar-se de Gollum, Frodo não o mata, lembrando-se das palavras de Gandalf sobre piedade e misericórdia.

“É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil quando teve a chance.”

“Pena?! Foi justamente pena o que ele teve. Pena e misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir o Anel desse modo. Com pena.”

“Sinto muito — disse Frodo. — Mas estou com medo; e não sinto nenhuma pena de Gollum.”

“Você não o viu — Gandalf interrompeu.”

“Não vi e não quero ver — disse Frodo. Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte.”

“Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar ou condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados.”

Mesmo depois da traição de Gollum e de seu ataque, o amigo de Frodo, Sam, não o mata também:

A mão de Sam vacilou. Sua mente fervia com o ódio e com a lembrança do mal. Seria justo matar essa criatura traiçoeira, assassina, justo e muitas vezes merecido; além disso parecia a única coisa segura a fazer. Mas no fundo do seu coração havia algo que o impedia: ele não podia atacar aquela coisa caída na poeira, abandonada, arruinada, absolutamente desgraçada. Ele mesmo, embora apenas por pouco tempo, tinha carregado o Anel, e agora adivinhava vagamente a agonia da mente e do corpo murchos de Gollum, escravizados por aquele anel, incapazes de algum dia encontrar outra vez paz ou alívio na vida.

No final, Frodo falha, mas acaba salvo. Ele não joga o Anel no fogo e o reivindica para si. Gollum, então, luta com ele, morde seu dedo e acaba caindo no fogo, destruindo-se a si mesmo e o Anel. Nota-se, por conseguinte, a existência de um poder para além dos personagens, que cuida da Terra Média e traz a salvação, apesar da insuficiência e das falhas dos nossos heróis. E aqueles que, em vez de destruídos pelo poder, são salvos, agem com piedade, respondendo com amor ao sofrimento.

O herói ferido

O herói pode ser misericordioso com aqueles que sofrem porque ele mesmo sofreu. O herói, como qualquer rapaz que se tornou um “homem de verdade”, possui uma cicatriz. Todo homem carrega as cicatrizes — muitas vezes, literalmente — das lutas que precisou vencer para se tornar um homem. Tolkien e Lewis se sentiram atraídos pela literatura nórdica porque os próprios deuses nórdicos têm cicatrizes e são mortais. Eles, como os homens, morreriam na luta contra o mal, combatendo até o fim. Tyr, como Beren, tinha apenas uma mão; ele perdeu uma delas quando derrotou o lobo Fenris. Arthur também é ferido, sendo capaz de curar-se apenas em Avalon.

O soldado que salva seu país vai para a guerra como um menino e volta como um assassino profissional que, como mostra Paul Fussell em “The Great War and Modern Memory” (sem tradução para o português), viu hemorragias e mortes, devendo carregar suas feridas e lembranças para o túmulo. Meu próprio pai morreu por causa dos estilhaços com que ele foi atingido no Oceano Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial.

Frodo foi ferido pela faca envenenada de um Nazgûl, pela Laracna e, sobretudo, pelo peso do Anel que, no final, quase o derrota. Quando volta para o Condado, ele percebe que já não é mais o mesmo, que havia mudado demais.

“Tentei salvar o Condado, e ele foi salvo, mas não para mim. Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las.”

O amor abnegado tem uma glória transcendente, mas pode existir apenas em um mundo que tem sofrimento e morte.

A canção do Crucificado

O amor, que só se acha por meio do sofrimento, estava presente na canção dos Ainur no início da criação, como descreve Tolkien em “O Silmarillion”. Quando os Ainur cantam a canção que formou a Terra Média, os rebelados atrapalham a harmonia, introduzindo outras melodias. Ilúvatar, então, canta um tema “profundo, vasto e belo, mas lento e mesclado a uma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem”.

O espírito rebelde Melkor cantou uma música “alta, fútil e infindavelmente repetitiva”, que tentou “abafar a outra música pela violência da sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene”. Finalmente, Ilúvatar levantou “e num acorde, mais profundo que o abismo, mais alto que o firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a música cessou”. Ele havia cantado a Palavra final, e não havia mais nada a acrescentar.

Tolkien pensava que, nos mitos criados pelo homem, alguém poderia enxergar um leve e distante brilho do Evangelho, a Boa Nova. A característica principal dos contos de fada é a eucatástrofe, uma libertação inesperada e um final feliz. Nessa libertação, maior do que qualquer coisa que se poderia esperar, há um prelúdio, uma alusão, um deleite da libertação final e completa.

No mundo real, a Encarnação foi a eucatástrofe da criação e a Ressurreição, a eucatástrofe da vida do Senhor. A eucatástrofe é possível tanto na ficção como na vida real apenas porque a discatástrofe também é possível. A ressurreição só é possível em mundo onde a morte existe. Os deuses gregos são definitivamente frívolos porque são imortais. Por outro lado, homens e heróis são sérios porque devem enfrentar a morte. Os deuses nórdicos e o Deus verdadeiramente encarnado são sérios, porque eles, como os homens, podem “falhar” e “morrer”. Mesmo na mitologia nórdica, há uma promessa de novos céus e nova terra; na história cristã, por sua vez, foi pelo fracasso e pela morte que o Reino de Deus pôde ser trazido até nós.

Não há outro caminho, portanto, nem Deus tem outra mensagem ou outra Palavra que não seja a do crucificado. E é com este acorde que a música da criação deve ser concluída: “Está consumado”.

Uma história gloriosa

Frodo é considerado um herói moderno, mas o correto seria chamá-lo de herói nórdico ou, melhor dizendo, herói cristão, pois ele segue o padrão da jornada do herói: enfrenta perigos e quase morre para proteger os povos da Terra Média. Mais tarde, retorna com cicatrizes e feridas, e tem de desistir de algo para que outros possam continuar a jornada, não encontrando consolo na vida comum, razão pela qual deixa a Terra Média para sempre.

Frodo é, por conseguinte, um herói cristão porque mostra a glória e a inadequação do heroísmo e, de fato, de todo esforço humano. Fazemos o nosso melhor, e depois falhamos. O sucesso é uma coisa que vem de fora como um raio. O fogo cai sobre o sacrifício que foi preparado, e a preparação é penosa, o amor que reconhece a tristeza de toda vida fadada à morte.

Não obstante, mesmo no fracasso transformado em sucesso, o herói encontra a verdadeira glória. Ele faz parte de uma história; sua vida e sofrimento têm significado. Enquanto Sam e Frodo aguardam pela morte depois da destruição do Anel, Sam se pergunta se alguém saberá de seus atos.

“Fizemos parte de uma grande história, Sr. Frodo, não foi mesmo?”, disse ele. “Gostaria de poder ouvir alguém contando. O senhor acha que eles vão dizer: ‘Agora vem a história de Frodo-dos-nove-dedos e o Anel da Perdição?’”. E após o resgate e a recuperação deles, Sam e Frodo ouviram o menestrel dizer, na cerimônia de honras aos dois: “Vou cantar para vocês sobre Frodo-dos-Nove-Dedos e o Anel de Perdição”.

O grande mérito de “O Senhor dos Anéis” é nos fazer acreditar, enfim, que também fazemos parte de uma jornada ainda mais maravilhosa que aquela. Meninos e adolescentes encontram em “O Senhor dos Anéis” a emoção da aventura e o desafio de tornar-se um homem. Na verdade, eles e outros leitores encontram em Frodo, Sam e demais personagens o mistério da amizade em face da morte e do autossacrifício necessário para que outros possam viver.

O vinho da bem-aventurança

Os heróis da Terra Média encontram ainda algo ao mesmo tempo terrível e reconfortante: Aquele que conta a nossa história conhece nossas tristezas e sofrimentos, que existem desde o início do mundo, mas, felizmente, não têm a última palavra. Ainda maior que a amargura de nossos fracassos, decepções e mortes é o resgate que nos aguarda, rápido e inesperado, que traz uma alegria mais vibrante do que o sofrimento, e somente possível pela existência da tristeza; trata-se do bem provocado pelo mal, mas que supera esse mesmo mal com o amor cujo nome é piedade.

O Senhor dos Anéis” exala misericórdia por toda parte. Tolkien lida com o conflito e a morte, mas não lhes concede a palavra final. A coragem é algo fundamental para a batalha, mas não é mais forte do que a piedade e a misericórdia. O herói cristão luta contra a maldade, e deve derrotar principalmente o mal que existe dentro de si mesmo. Mas não pode fazer isso sozinho. Para vencer, deve saber que, sem o auxílio da graça, a vitória é impossível.

A graça atua pela misericórdia, e usa dela para atingir os seus fins. A misericórdia é, na verdade, o amor que existe no mundo mortal. Tolkien procura justificar os caminhos de Deus para o homem, especialmente o caminho pelo qual o homem encontra duramente o dom da morte. Sem a morte, diz o autor, o homem não conseguiria alcançar o amor maior do autossacrifício, da coragem de morrer pelo outro, como Deus escolheu fazer por nós. De fato, Deus permitiu a morte no mundo para que Ele também pudesse morrer e dar a sua vida pelas suas criaturas.

Para aceitar os fatos mais amargos da vida, é preciso prová-los até o limite do possível. Sam questiona Gandalf: “Eu achei que você estava morto. Depois, achei que eu mesmo estivesse morto. Afinal, tudo que era triste vai se revelar falso?”. “Não”, responde o mago, “mas a alegria é algo que só pode vir após a tristeza”. E Gandalf prossegue dizendo que “a alegria deles era como uma guerra, na qual a dor e o prazer fluem juntos e as lágrimas são o próprio vinho da bem aventurança”.

O herói vai para a morte carregando as suas feridas para a eternidade, e são elas a sua glória, o testemunho de um amor misericordioso que atravessa a própria morte. O Cordeiro é vitorioso principalmente porque sua vitória é a de ser eternamente uma vítima.

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A amizade deve estar “acima de tudo”?
Espiritualidade

A amizade deve estar “acima de tudo”?

A amizade deve estar “acima de tudo”?

Quem seria tão “arrogante”, “intolerante” ou “farisaico” a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais, afinal, do que princípios ideológicos “frios”?

James H. TonerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Abril de 2019
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I. Eu faço parte de um pequeno círculo de conhecidos do passado — todos ex-alunos da mesma universidade, em 1968 — que compartilha histórias, piadas, citações, recomendações de livro e vídeos. Recentemente, deparamo-nos com a seguinte declaração, comumente atribuída a Thomas Jefferson: “Eu nunca considerei uma divergência de opinião em política, em religião ou em filosofia como razão para me afastar de um amigo.”

Nem é preciso dizer que a citação foi recebida com unanimidade. Afinal de contas, por que qualquer um de nós, velhos conhecidos, amigos e companheiros que somos, descartaríamos nossos cinquenta anos de parceria devido a uma possível diferença de opinião em assuntos tão “triviais” como política, religião ou filosofia?

Digo que “a citação foi recebida com unanimidade”, exceto por mim (ainda que eu tenha me contido). Às vezes, tudo o que alguém sabe ou tudo aquilo em que acredita é colocado em xeque através de uma simples afirmação. Como professor, diácono, soldado (e também como esposo e pai de família), eu passei praticamente toda a minha vida adulta argumentando contra o ponto de vista expresso nessa declaração atribuída a Thomas Jefferson. Ironicamente, eu aprendi essa lição “antijeffersoniana” na mesma faculdade de que participaram os membros desse nosso “grupo virtual”.

Mas, afinal, quem seria tão arrogante, tão intolerante ou tão farisaico a ponto de exaltar a religião ou a política à custa de suas amizades? As relações físicas, de carne e osso, não contam mais numa escala de valores do que princípios ideológicos “frios”? A lealdade aos amigos não é a maior das virtudes? Não deveríamos dizer, com o romancista Edward Morgan Forster: “Se eu tivesse de escolher entre trair a minha pátria e trair um amigo, eu esperaria ter a coragem de trair o meu país”?

“Proibido nadar”, de Norman Rockwell.

II. Não, não e não.

Em grande parte da boa literatura, a amizade é exaltada com justiça e sabedoria. É possível ler sobre o assunto na Ética Nicomaqueia de Aristóteles e na Sirácida bíblica, especialmente em seu capítulo sexto, sem falar de outras obras de duradoura significância. Com isso somos levados a concluir, prima facie, que Thomas Jefferson deve estar certo: se nos fosse dado escolher entre ser fiel a um princípio abstrato ou ser fiel aos amigos, nós deveríamos escolher este último. E esse é, ao que parece, o consenso de nossos contemporâneos.

Mas a amizade ou é meritória ou é “meretrícia”. Se meretrícia, é falsa, fraudulenta e fugaz; se meritória, é verdadeira, fidedigna e duradoura. Se meretrícia, a amizade é construída sobre a areia da falta de caráter, da frivolidade ou da alegria vã; se meritória, porém, é construída sobre a rocha do que é supremo, permanente e piedoso. É o testemunho que nos dá o Salmo 101: “Detesto o crime de quem vos renega; que não me atraia de modo nenhum! Bem longe de mim, corações depravados, nem nome eu conheço de quem é malvado” (v. 3-4), e é o sentido deste versículo de Eclesiástico 6: “Separa-te daqueles que são teus inimigos, e fica de sobreaviso diante de teus amigos” (v. 13).

Toda as lealdades, amizades e camaradagens — valiosas como são — só se mantêm até certo ponto. Elas são circunstanciais, condicionais e contextuais; são contingentes e devem estar em conformidade com o que é bom, verdadeiro e belo, devem ser consistentes tanto com a razão natural quanto com a revelação (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1954). Quando o que parece ser uma amizade é, na verdade, tentação ao pecado e ao mal, a amizade já está dissolvida.

Suponha que um “amigo” viesse lhe pedir para ajudá-lo a fazer algo manifestamente criminoso ou pecaminoso. Sua resposta deveria ser, primeiro, recusar-se e, segundo, admoestar o pecador, tentando convencê-lo do erro e ganhá-lo de volta para fazer o que é certo.

Tudo isso exige, no entanto, algo que está em falta nos dias de hoje: fidelidade a normas transcendentes. Essa ideia foi expressa de maneira clara, concisa e cogente pelo Papa São João XXIII em sua encíclica Ad Petri Cathedram, de 1959:

A causa e a raiz de todos os males que, por assim dizer, envenenam os indivíduos, os povos e as nações, e tantas vezes perturbam o espírito de muitos, está na ignorância da verdade. E não só na ignorância, mas às vezes até no desprezo e no temerário afastamento dela. Daqui erros de toda a espécie, que penetram como peste nas profundezas da alma e se infiltram nas estruturas sociais, desorganizando tudo, com grave ruína dos indivíduos e da sociedade humana (n. 4).

III. A citação de Thomas Jefferson transcrita no começo deste artigo deve ser lida, portanto, justamente ao contrário. Nós deveríamos considerar, sim, uma divergência crucial de opinião em política, em religião ou em filosofia, como forte razão para se afastar de um amigo. Mas o que seria, nesse sentido, uma divergência “crucial”?

Na magnífica peça A Man for All Seasons, de Robert Bolt [n.d.t.: da qual há um filme homônimo, em português chamado “O homem que não vendeu a sua alma”], São Thomas More é instado a trair a verdade para se aliar a outros (que já haviam traído a verdade) “por amizade”. O santo então pergunta, quando a consequência da ação de uma pessoa é ela ser mandada ao inferno, se seus amigos a deveriam acompanhar também àquele lugar, só “por amizade”.

Eis o ponto crucial. Quando uma suposta amizade aprova o mal ou nos conduz ao caminho do pecado (algo a que se costuma chamar “cooperação formal ou material com o mal”), nós devemos ter a prudência e a fortaleza de rejeitar esta que é uma “amizade” falsa, fraudulenta e fugaz. Aqueles que nos levam à perdição não são nossos melhores amigos, mas sim nossos piores inimigos, e nós devemos sim nos afastar deles (tendo-os aconselhado primeiro quanto à razão da rejeição).

O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos tem um ditado segundo o qual “um soldado em dever de guarda não tem amigos”. Tampouco a nós toca ter amigos se o que estamos guardando (cf. 2Tm 1, 14) se encontra ameaçado pelas palavras ou ações daqueles que nós pensávamos ser amigos, aliados, colegas ou companheiros (incluindo nessa lista, a propósito, os homens de colarinho).

“Nós devemos envidar todos os nossos esforços”, diz Aristóteles, “para evitar a iniquidade e ser bons”. É dessa forma que alguém pode se tornar o verdadeiro amigo de outra pessoa. Sem o nosso próprio esforço, supremo e contínuo, pela virtude (cf. 2Pd 1, 3-11), não há fundamento para a amizade. Quando virmos que os outros estão se tornando ou se tornaram corruptos, nossa responsabilidade é nos apartarmos deles, e não nos juntarmos a eles. Provavelmente citando o poeta grego Menandro, São Paulo nos adverte: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33; 5, 11; 6, 9; Pr 13, 20; 2Cor 6, 14).

Há uma forma de entender, por fim, as “amizades” corruptas e nossa obrigação de nos afastarmos (ou mesmo fugirmos) delas. Os verdadeiros amigos, as amizades autênticas podem facilmente se dissolver nos “ácidos morais” de nossa época. Esses “ácidos” vêm do mundo (e de sua insistência em que o aqui e o agora é tudo o que existe), da carne (e de sua insistência em que o prazer físico é o ponto principal de todos os “relacionamentos”) e do diabo (para cujos ardis nós hoje nos encontramos pouquíssimo alertas), os três inimigos da alma, que têm moldado nossos costumes sociais e encontrado sua expressão na música e em outras formas de cultura popular.

IV. Falsas amizades estão sempre fundadas em um destes três males: a crença (irônica) de que Deus não existe, de que a virtude consiste na exaltação soberba de si próprio, e de que podemos imaginar um mundo (pelagiano) no qual somos nós mesmos que fazemos o certo e o errado. (Note-se que Adão e Eva, ao traírem a amizade de Deus, necessariamente prejudicaram o próprio relacionamento entre eles: cf. Gn 3, 5; 6, 5.)

A verdadeira amizade, porém, está sempre fundada, de modo consciente ou não, na piedosa devoção a Deus, no humilde reconhecimento da própria condição de pecador e na nossa necessidade da redenção divina, bem como no entendimento refinado de que existem, de fato, razões profundas para se viver e morrer. Encontrar homens e mulheres que estejam moral e mentalmente vinculados a essas verdades é como descobrir “um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé” (Eclo 6, 14-15).

Um sacerdote católico se perguntou certa vez, refletindo, se os ateus poderiam ser bons cidadãos e chegou à conclusão negativa; eu me pergunto, do mesmo modo, se os que não crêem em Deus podem ser bons amigos, e não posso chegar senão à mesma conclusão. Lealdade autêntica e na medida certa a um amigo só pode ser fruto da minha obediência a Deus (cf. Catecismo, n. 144; Rm 1, 5; 16, 26), sem o qual é inevitável que se siga uma abjeta confusão moral.

Se existe um “conserto” para amizades perversas ou pervertidas? É claro que sim. O conserto está sempre à nossa disposição, se tivermos a inteligência agraciada para ver e ouvir, e então nos conformarmos (cf. Rm 12, 2) à vontade de Deus. Mas o discernimento moral das pessoas parece ter sido sacrificado à “divindade” atual: o subjetivismo, que diz a nós que podemos fazer o que quisermos escolher e apartar-nos arrogantemente do Pão da Vida (cf. Jo 6, 35.66).

Nosso Senhor chama-nos seus amigos (cf. Jo 15, 15), mas essa é uma amizade que podemos abandonar a qualquer momento (e, ai de nós!, mui frequentemente nós o fazemos). Quando, então, pelo pecado, nós traímos essa primeira amizade, perde-se o fundamento para todas as outras amizades.

A primeira obrigação de quem deseja ser um bom amigo deve ser, portanto, a fidelidade à Verdade; e a segunda obrigação deriva naturalmente da primeira: tendo nós mesmos reconhecido o que é bom, verdadeiro e belo, devemos generosamente compartilhar essa visão com os outros e resolutamente chamar à conversão nossos amigos que, vivendo no pecado, erram longe do caminho de Deus (cf. Tg 5, 19; Sl 50, 13).

A amizade genuína, como toda comunidade genuína, pode acolher várias pessoas. Ela deve sempre basear-se, no entanto, não sobre uma diversidade incoerente de julgamentos morais (cf. 1Cor 5), mas antes na devota união de certezas quanto ao que é amável de modo absoluto e infinito (Venite adoremus Dominum, “Vinde, adoremos o Senhor”).

Se a frase com que começamos este texto é de fato de Thomas Jefferson, portanto, ele está errado: a verdadeira amizade exige que nos afastemos dos amigos aparentes, que conspurcam ou traem o que é puro, nobre e eterno.

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Igreja, não museu

Sem o olhar da fé, que é o incêndio que afetou a Catedral de Notre-Dame de Paris senão a destruição de um simples “museu”?

Pe. Benedict KielyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Abril de 2019
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Muito já se escreveu, horas após o fogo que devastou a Catedral de Notre-Dame de Paris, a respeito do “caráter emblemático” do edifício, do seu valor como patrimônio da humanidade e do fato, notado pelo Papa Francisco, de que o edifício constitui “um tesouro arquitetônico de memória coletiva”. Foi necessário, no entanto, que o arcebispo de Paris, Michel Aupetit, um ex-médico — discreto, mas profundo —, viesse responder (com uma pergunta retórica) o porquê de o edifício ser um “tesouro”.

Entrevistado pela TV francesa, Dom Aupetit disse simplesmente que a magnífica basílica foi construída por uma razão, e não era ser um “tesouro”, nem mesmo abrigar a Coroa de Espinhos de Nosso Senhor; Notre-Dame existe para un morceau de pain, isto é, para “um pedaço de pão” — o pão que, ele explicou, os católicos acreditam ser o Corpo de Cristo.

Todas as igrejas católicas — desde a magnificência de uma Notre-Dame em Paris ou de uma Basílica de São Pedro em Roma, até uma igrejinha do interior ou uma cabana de barro em terra de missão —, estando nelas presente a Eucaristia, foram construídas para ser domus Dei, a “casa de Deus”. Para um católico, a ausência real que sentimos na Sexta-feira Santa, quando o sacrário fica vazio e a sua luz se apaga, é uma confirmação palpável de que, em certo sentido, uma igreja onde não está presente o morceau de pain não passa de uma “igreja zumbi”, aparentemente viva, mas na verdade morta.

Com razão o mundo, especialmente aquelas partes que se consideram civilizadas, horrorizou-se ao ver o Estado Islâmico destruindo antigos artefatos da civilização mesopotâmica e tentando destruir a cidade de Palmira, na Síria. Notre-Dame de Paris é um patrimônio da humanidade, uma obra de arte cuja beleza é apreciada por pessoas de todos os credos, e até pelas que não possuem credo nenhum. O edifício fala, entretanto, não apenas da massiva contribuição que a cultura cristã ofereceu para criar a civilização ocidental (contribuição ignorada pela Constituição da União Europeia), mas também da fé viva sem a qual a basílica seria apenas um museu.

A basílica de Nossa Senhora em Paris leva esse nome não para “honrar o edifício como se ele fosse uma mãe” (como disse um repórter na internet, ilustrando a crescente ignorância religiosa da mídia), mas porque foi dedicado à Mãe de Deus, o primeiro tabernáculo vivo da Palavra feito carne. Esse “ícone” aponta para algo maior do que o homem; sua verticalidade e visibilidade são sinais do transcendente; o que nele sobressai é a verdade da fé a partir da qual tantos trabalharam por mais de um século para construí-la.

Quando os monstros que tocaram o terror da Revolução Francesa profanaram a basílica, dando-lhe o nome de templo do “Culto da Razão”, destruindo imagens de Nossa Senhora e substituindo-a pela “deusa da liberdade”, em certo sentido a basílica deixou de existir. Mas, assim como, em países que saíram do comunismo, igrejas que haviam sido usadas como salões de esportes ou cinemas voltaram ao seu uso sagrado, também Notre-Dame retornou à sua antiga glória com os sacramentos sendo celebrados novamente em seu interior.

O Estado francês é proprietário de Notre-Dame de Paris, mas, de acordo com a lei de 1905, a Igreja Católica detém os “direitos exclusivos de usá-la para propósitos religiosos perpetuamente”. O presidente Macron teria dito que a basílica será reconstruída “de uma maneira consistente com nossa nação moderna e cheia de diversidade”. O que se espera é que, por “diversidade”, ele queira se referir simplesmente à ampla variedade de artistas e habilidades que se unirão para restaurar o edifício ao longo dos anos.

Falando aos bispos franceses durante sua visita ad limina apostolorum em 1997, o Papa João Paulo II parabenizou o Estado francês pelo seu cuidado com tantas catedrais e igrejas católicas, mas — ele lembrou na ocasião — a liturgia “deve ser sempre a verdadeira raison d’etre (razão de ser) desses monumentos”.

Notre-Dame, esta “casa do pão” — o morceau de pain que é o Corpo de Cristo — será reconstruída, e a basílica será igreja viva. Não deixará de ser um “tesouro arquitetônico de memória coletiva”, mas não será nunca um museu.

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“Nós, os leprosos”: o sacrifício do Padre Damião
Santos & Mártires

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

“Nós, os leprosos”:
o sacrifício do Padre Damião

Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. E dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim ele não deixaria os leprosos.

W. M. Jackson, Inc.15 de Abril de 2019
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Num mesmo seminário da Bélgica se achavam dois irmãos, preparando-se para o sacerdócio. O mais velho devia ser em breve missionário e, nessa qualidade, ir para as ilhas dos mares do sul. Brilhavam-lhe os olhos, esfregava as mãos de contente, sempre que se referia à obra que o esperava além-mar.

Um dia, porém, adoeceu gravemente, e teve de recolher-se ao leito. Era presa de uma febre terrível, e ainda mais empalidecia e se definhava ao pensar na inação a que a doença o obrigava. O irmão mais novo, vindo-lhe à cabeceira, disse um dia com carinho: “Sentir-te-ias melhor se eu ocupasse o teu lugar de missionário?” Os olhos do doente brilharam um momento e ele apertou, sorrindo, as mãos do irmão, o qual escreveu secretamente às autoridades, pedindo permissão para partir em seu lugar.

Um dia, quando estudava, veio ter com ele o diretor do seminário e informou-o de que estava autorizada a sua ida. O rapaz levantou-se, saiu a correr do quarto e percorreu o pátio aos pulos, como um animal selvagem.

“Enlouqueceu?”, perguntavam os colegas.

E por que José Damião mostrava tanta alegria, se afinal ia para um exílio? Por que desejaria abandonar a terra feliz onde se falava sua língua e cujos costumes lhe eram familiares? Por que razão iria trabalhar entre selvagens, para além de mares longínquos, tornando-se invisível aos amigos e deles esquecido?

É que já abandonara o mundo para ser sacerdote e amava, mais que à pompa do mundo, mais que à paz do lar, mais que ao amor de pai e mãe, o Redentor.

Amá-lo e segui-lo, praticando o bem, tornou-se o seu ideal.

José Damião, com um entusiasmo de moço, partiu para as ilhas dos mares do sul e ali missionou. Trabalhou com firmeza e nobremente até a idade de trinta e três anos. Então, um dia, em sua missão entre o povo, ouviu dizer o bom bispo que infelizmente não tinha quem mandar aos pobres leprosos de Molokai, e que esses infelizes estavam entregues não só àquele terrível mal como ainda a pecados terríveis.

José Damião, cuja alma muitas vezes se tinha condoído ao ouvir falar dos leprosos, pediu ao bispo que o mandasse, e o seu oferecimento foi aceito.

Aqui estava outro sacrifício ainda mais respeitável: ir dos selvagens para os leprosos representava abnegação maior do que da Bélgica para os selvagens. Os leprosos viviam isolados, longe de toda a gente, evitados por todos. Estavam fora da humanidade. O mal que lhes roía os corpos tornava-lhes as almas também ruins. Suas cabanas eram verdadeiras pocilgas; viviam como animais; eram horríveis e ver, e mais ainda depois de conhecidos. Não podem vocês imaginar os horrores de Molokai. Deles só uma pequena parte bastaria para impressionar.

Mas o padre Damião levou aos desgraçados a mensagem simples de que Deus os amava; e o seu rosto alegre, a sua voz terna, o seu olhar acarinhador, e, mais que tudo isso, a fé ardente e viva que punha nas suas palavras, converteu-os em filhos do Senhor. Começaram a arrepender-se dos pecados, começaram a sentir que, em verdade, talvez Deus os amasse. Ao menos uma coisa era certa: amava-os o padre Damião.

Dezesseis anos viveu este homem santo e bom entre os leprosos. Ergueu uma igreja, a que se afeiçoaram muito, construiu-lhes casas mais confortáveis, deu-lhes um melhor fornecimento de água, foi seu enfermeiro, tratando das suas chagas horrendas; confortava-os à hora da morte e cavava as suas sepulturas.

Padre Damião, fotografado por William Brigham.

Ouviu-se, então, falar deste padre que trabalhava sozinho entre os leprosos. Escreveram-lhe, mandaram-lhe caixotes de coisas úteis para a sua gente, e houve mesmo quem lá fosse visitá-lo e ajudá-lo. Durante muitos anos trabalhou entre os infelizes, mas por fim foi ele próprio vítima do horrível mal. Um dia entornou água a ferver, e ela lhe caiu num pé. Estranhou não sentir dor nenhuma. Procurou um médico. “Tenho a lepra?”, perguntou. “Sinto informá-lo”, respondeu o médico, “mas está, com efeito, leproso”. Daí em diante o padre Damião, nos seus sermões, já não dizia “meus irmãos”, mas “nós os leprosos”. Sentia-se perfeitamente feliz. Dizia que, se fosse possível curar-se abandonando a ilha, ainda assim não deixaria os leprosos. Continuou trabalhando, com a morte a roer-lhe feroz e vorazmente o corpo.

Quando o levaram para o leito, agradeceu a Deus todos os benefícios e confortos recebidos. Dois padres e irmãs de caridade ajoelharam-se-lhe ao pé do leito.

— Quando estiver no céu, padre Damião — perguntou um deles — não esquecerá estes órfãos que aqui deixa?

— Não, não! — disse, sorrindo, o bom padre. Se algum valimento tiver ante Deus, rezarei por todos que estão no Leprosário.

— E — tornou o padre ajoelhado — não me deixará, como Elias, o seu manto?

— Para quê? — replicou o padre Damião. E depois acrescentou lentamente: Está cheio de lepra.

Nenhum rei teve, porém, manto mais belo!

É que toda a sua vida tinha sido um longo ato de heroísmo.

Referências

  • Extraído de “O melhor do tesouro da juventude”, de W. M. Jackson, Inc., v. 1, Editora Concreta, pp. 90-92 (grifos nossos).

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Quando um protestante descobriu que a Missa é o sacrifício da Cruz
Testemunhos

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando um protestante descobriu
que a Missa é o sacrifício da Cruz

Quando Scott Hahn ficou sabendo que os católicos ensinavam ser a Eucaristia a renovação do sacrifício do Calvário, relação que ele só descobriu depois de muita investigação, primeiro ele ficou furioso e despeitado. Mas depois...

José Maria C. S. André15 de Abril de 2019
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Durante a Semana Santa, que começa hoje, a liturgia católica leva-nos a viver uma Páscoa judaica surpreendente. Recordo a perplexidade de Scott Hahn, hoje um grande biblista católico, no tempo em que ele ainda era protestante. Um dia, ao fio dos Evangelhos, o pregador da sua comunidade protestante foi seguindo os passos da Última Ceia, conforme o cânone habitual da Páscoa judaica.

Até dada altura, tudo decorria da forma habitual, ainda que num clima de extraordinária intensidade. A minúcia dos preparativos, da sala e da celebração, anunciava algo especial e Cristo começou por alertar os discípulos para a importância do momento: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer”.

A celebração judaica começa com as abluções rituais. O mais novo da família leva uma jarra e uma bandeja, deitando a água da purificação sobre as pontas dos dedos de cada um. Neste caso, não foi o menos importante — foi o próprio Cristo! — Quem fez a ablução. E não derramou água sobre os dedos: pôs uma toalha à cintura e lavou os pés a cada um dos discípulos. Pedro recusa uma coisa dessas! Depois, é tal a insistência de Cristo, que aceita...

Seguiram-se os salmos do costume e vários cálices rituais, em ação de graças, como símbolo da Aliança do Povo com Deus, etc., até que Cristo altera o sentido de tudo ao estabelecer uma Aliança nova: “Este cálice é a nova Aliança no meu Sangue, derramado por vós”. Neste momento, Cristo coloca-Se a Si próprio como novo centro da ação litúrgica: “todas as vezes que o beberdes, fazei isto em memória de Mim”.

Há outros elementos revolucionários naquela celebração pascal, mas o que mais surpreendeu Scott Hahn e a sua congregação protestante foi que, imediatamente antes do momento culminante, que seria o cálice da Consumação, Cristo interrompe a cerimônia. Não só interrompe, como o declara solenemente, como se fizesse de propósito: “não tornarei a beber o fruto da videira, até àquele dia em que o beberei de novo no Reino de Deus”. Levantaram-se, pois, e saíram para o Monte das Oliveiras. A comunidade de Scott Hahn não sabia o que pensar. Talvez Jesus estivesse perturbado pela iminência da morte, talvez se tivesse esquecido de concluir a cerimônia da Páscoa…

Hahn decidiu reler os Evangelhos de uma ponta à outra, à procura do cálice que faltava, o cálice da Consumação. A conclusão imediata é que não tinha havido esquecimento, quase se diria que Jesus não pensava noutra coisa. Jesus sai do cenáculo da Última Ceia a falar do cálice que faltava: “Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice! Mas não se faça a minha vontade mas a tua”. “Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!...”. Chegam Judas e os soldados, Pedro pega numa espada e corta a orelha de Malco, um criado do Sumo Sacerdote. Jesus cura milagrosamente o ferido e diz a Pedro “Mete a tua espada na bainha. Eu não havia de beber o cálice que o Pai Me deu?”.

Aquele cálice, vinha inclusivamente de muito antes. Ao pedido da mãe de Tiago e João, responde com um desafio misterioso: “Podeis beber o cálice que Eu hei-de beber, ou ser batizados no baptismo com que Eu vou ser batizado?” — qual cálice, tão singular? Qual batismo, se Jesus já tinha sido batizado no Jordão?

No final da Paixão, pendurado da Cruz, momentos antes de morrer, ressurge a referência à consumação da Aliança. “Sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse ‘tenho sede’. Havia ali um vaso de vinagre…” e um dos que estavam ali “correu a tomar uma esponja, ensopou-a, pô-la sobre uma cana e deu-Lhe de beber”... “Deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Tendo-o provado, não quis beber”. Não, aquele vinho misturado com fel não era o cálice esperado; aquele “tenho sede” não era a pedir aquele vinho. Imediatamente a seguir, Jesus exclama “Tudo está consumado!” e, inclinando a cabeça, expirou.

O Dr. Scott Hahn.

De repente, Scott Hahn percebeu que a Última Ceia só terminava no Calvário, no momento em que se estabelece a nova Aliança “no sangue derramado por Cristo”. A Última Ceia é uma unidade com todo o oferecimento de Cristo na Paixão. Participar na Missa é participar no Sacrifício de Cristo na Cruz. Como diz S. Paulo aos de Corinto, “porventura o cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?”. Cristo é, como diz S. Paulo a seguir, “a vítima imolada no altar”. S. Paulo recorda como o próprio Jesus tinha avisado os discípulos, na Última Ceia, de que aquele vinho consagrado apontava para a sua morte no Calvário: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”.

Um dia, na universidade protestante em que dava aulas, Scott Hahn apresentou esta sua investigação e ouviu um comentário de um aluno que tinha tido catequese católica em pequeno: “Isso faz todo o sentido, mas recorda-me o catecismo de Baltimore! [1]”. Scott nunca tinha ouvido falar de um “catecismo de Baltimore”, porque era um livrinho elementar, o primeiro catecismo das crianças católicas da época, e por isso ainda acusou mais o toque [2]. Então, os católicos, esses heréticos, ensinam às crianças que a Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário?! Algo que ele só tinha descoberto ao fim de tanto esforço de investigação?!

Primeiro, Scott ficou furioso, despeitado. Depois, continuou a investigar e fez-se católico.

Referências

  • José Maria C. S. André in Correio dos Açores, 25 mar. 2018, publicado em Senza Pagare.

Notas

  1. O “Catecismo de Baltimore” foi o catecismo oficial para crianças adotado nos Estados Unidos até 1960 (Nota da Equipe CNP).
  2. “Acusar o toque” é expressão lusitana, e significa deixar transparecer dúvida por afirmação de outra pessoa (Nota da Equipe CNP).

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