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Os heróis da Terra Média
Espiritualidade

Os heróis da Terra Média

Os heróis da Terra Média

A emoção da aventura e o desafio de se tornar um homem: eis o que jovens e adolescentes encontram no universo de J. R. R. Tolkien; eis uma razão para o grande sucesso de “O Senhor dos Anéis”.

Leon PodlesTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Janeiro de 2018
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Pouquíssimos escritores contribuíram tanto para a literatura fantástica no século XX quanto J. R. R. Tolkien. Com milhões de livros vendidos e um site que recebe mensalmente 30 milhões de visitas, “O Senhor dos Anéis”, a principal obra literária de Tolkien, foi considerado pelos britânicos o melhor livro do século XX e, para os membros da Folio Society, o melhor livro inglês de todos os tempos.

Meu interesse por Tolkien surgiu aos dezesseis anos, quando me entretinha com o catolicismo de Chesterton e as sagas islandesas, que o artista, designer e escritor do século XIX, William Morris, traduziu. Encontrei em Tolkien um grande amigo. Mas a enorme popularidade do autor justifica-se por preocupações maiores que as minhas naquela idade: preocupações sobre masculinidade e heroísmo, sobre o significado do amor entre criaturas mortais e a importância da vida em um mundo sombrio onde a morte é inevitável.

A presença desses assuntos nos livros de Tolkien é recorrente porque, assim como todo o século XX, o autor viveu sob as sombras da guerra e dos genocídios. E isso levou-o a entender que a salvação vem apenas pela graça, por meio de um heroísmo semelhante ao de Cristo.

Tolkien formou uma imaginação cristã e masculina. A masculinidade heróica de “O Senhor dos Anéis, por exemplo, possui vários pontos em comum com a missão heróica de Cristo: a bravura, a piedade, a misericórdia, o amor, a abnegação e o sofrimento. Todos esses elementos estão presentes na obra de Tolkien, e são fundamentais para se compreender o apelo e a riqueza de um livro escrito por uma imaginação cristã.

O heroísmo masculino

O Senhor dos Anéis” assemelha-se a epopeias tradicionais como a “Odisseia”. Trata-se de livros que traduzem, de maneira fantástica, a jornada de um menino para tornar-se adulto. De fato, a vida de todo garoto é um grande desafio para receber o título de “homem de verdade”. Eles crescem ouvindo histórias de como rapazes da sua idade deixaram a própria casa, enfrentaram lutas e ameaças de morte, até retornarem transformados em homens. Nesta fase, o menino deve distanciar-se da pessoa de quem é mais próximo e de quem mais ama — sua mãe —, porque ela não lhe pode fornecer o modelo do que ele se deve tornar.

O menino precisa distanciar-se do mundo infantil, onde está seguro e protegido, a fim de que possa entrar no mundo adulto, onde aprende a cuidar e proteger os outros. O tema do desafio é universal porque todas as culturas do mundo contam histórias a seus garotos sobre desafios para se tornar homem. O herói, ou seja, aquele que alcançou esse objetivo e se tornou homem, é a figura central da literatura de cada cultura. E, ainda que a maior parte dos homens dos quais Tolkien escreveu seja da raça dos hobbits, eles têm os mesmos problemas de maturidade que um humano do sexo masculino tem.

Tolkien tornou-se um homem, por assim dizer, durante a Primeira Guerra Mundial, quando perdeu amigos próximos, viu a dureza das batalhas e, especialmente, os horrores do genocídio industrial, que envenenou a terra e deixou dezenas de milhares de corpos abandonados no campo de batalha.

Na faculdade, o autor interessou-se pela literatura masculina anglo-saxã e islandesa. O estilo dessas literaturas é lacônico, e seu assunto consiste em batalhas e lutas diante da morte inevitável. Em contraste com a atmosfera efeminada e homossexual da universidade inglesa (basta pensar no personagem Sebastian, de Evelyn Waugh, em “Memórias de Brideshead”), J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis e outros Inklings bebiam cerveja, usavam tweeds e faziam longas caminhadas, de modo que sua vida civil era marcada pela masculinidade.

Tolkien entendia que a tarefa de tornar-se homem e herói (a excelência da masculinidade) não era simples, porque está cheia não só de perigos, mas também de paradoxos. A força masculina pode ser usada tanto para o bem como para o mal; a vontade de enfrentar a morte pode levar ao amor pela morte; e o niilismo é o poço onde pode cair o homem mais disposto a aceitar os desafios da masculinidade. Ou seja, o herói ou é divino ou demoníaco. Aquiles é um fogo ardente e devorador; Beowulf é como seu adversário, Grandel. Como em todas as realidades da Terra Média, masculinidade e heroísmo são autodestrutivos. A Terra Média, portanto, não pode salvar-se a si mesma.

Guerra e amizade masculina

O tradicional heroísmo militar também está presente em “O Senhor dos Anéis. Aragorn, por exemplo, é o rei disfarçado, que eventualmente lidera seu exército na batalha, mas apenas como uma diversão. O heroísmo militar, entretanto — por maior e mais digno que seja —, é, na melhor das hipóteses, inadequado, e, na pior, perigoso para as pessoas que procura proteger. De fato, os cavaleiros de Rohan lançaram-se contra o inimigo sob o grito de “morte!”, mas não puderam derrotar os Nazgûl, nem a tropa de Aragorn venceu Sauron. Mais ainda: Boromir quis usar o Anel para defender o seu povo, mas acabou pervertido e transformado em um monstro, só se redimindo mais tarde, ao dar a vida pela salvação dos hobbits, em um ato supremo de verdadeira amizade.

As amizades mais próximas em “O Senhor dos Anéis” são entre homens de diferentes espécies: humanos, hobbits, anões e elfos. A amizade masculina é o centro emocional do livro. No caso de Bilbo e Frodo, por sua vez, os leitores notam uma coisa típica da tradição germânica, na qual a relação “tio-sobrinho” está mais próxima da relação “pai-filho”. Bilbo vive solteiro e faz de seu sobrinho Frodo o seu herdeiro. Há ainda outros relacionamentos masculinos, como a relação mestre-servo de Frodo e Sam, a camaradagem dos adolescentes Pippin e Merry, a amizade entre os opostos Legolas e Gimli, a liderança de Aragorn e a fraca liderança de Boromir.

Sam, que se torna um grande herói no final de “O Senhor dos Anéis”, é o modelo dos soldados que Tolkien encontrou na Primeira Guerra Mundial. A camaradagem dos soldados no sofrimento é intensa e física. Na guerra, os homens sentem a proximidade de seus companheiros, que estão dispostos a morrer um pelo outro, em um amor que supera o das mulheres. A cena em que Sam resgata Frodo dos orcs mostra a intensidade e a proximidade dessa relação.

Bravura e misericórdia

Embora “O Hobbit” seja mais alegre que “O Senhor dos Anéis”, este aprofundou muitos dos temas sérios que já estavam naquele. Na história de “O Hobbit”, Bilbo Bolseiro começa com uma vida segura e tranquila em sua toca agradável, mas logo assume o desafio da aventura e procura o dragão e seu tesouro. Bilbo passa por provações que os soldados da Grande Guerra também enfrentaram e dispõe-se a lutar, envolvendo-se em uma batalha ainda mais importante: vencer o seu próprio medo. Quando o pequeno Bolseiro desce à caverna para enfrentar a criatura, ele vive a fase tremenda da sua jornada:  

Foi nesse ponto que Bilbo parou. Ultrapassá-lo foi o gesto mais corajoso de sua vida. As coisas tremendas que aconteceram depois não eram quase nada em comparação àquilo. Lutou a verdadeira batalha sozinho no túnel, antes mesmo de perceber o enorme perigo que estava à sua espera.

Bilbo e os companheiros têm ainda de lidar com os orcs, sobre os quais Tolkien diz:

Não é improvável que tenham inventado algumas das máquinas que desde então perturbam o mundo, especialmente os instrumentos engenhosos para matar um grande número de pessoas de uma só vez, pois sempre gostaram muito de rodas e motores e explosões, como também de não trabalhar com as próprias mãos além do estritamente necessário.

Tolkien encontrou essas máquinas durante o combate na Frente Ocidental.

O desafio mais importante de Bilbo, cujo significado é esclarecido apenas em “O Senhor dos Anéis”, acontece nas cavernas das Montanhas Sombrias, onde, após se separar dos amigos, ele encontra acidentalmente o Anel, que seu antigo dono, Gollum, havia perdido. Bilbo descobre que o Anel o torna invisível, então decide usá-lo para escapar de Gollum — que o está perseguindo e bloqueando a saída das cavernas:

Bilbo quase parou de respirar, enrijecendo-se também. Estava desesperado. Tinha de sair dali, daquela escuridão horrível, enquanto ainda lhe restavam forças. Tinha de lutar. Tinha de apunhalar a coisa maligna, apagar seus olhos, matá-la. Ela queria matá-lo. Não, não seria uma luta justa. Agora ele estava invisível. Gollum não tinha espada. Gollum não havia ameaçado matá-lo, nem havia tentado ainda. E estava arrasado, sozinho, perdido. Uma compreensão repentina, um misto de pena e horror, cresceu no coração de Bilbo: um vislumbre de dias infindáveis e indistintos, sem luz ou esperança de melhora, cheios de pedra dura, peixe frio, movimentos furtivos e sussurros. Todos esses pensamentos lhe passaram pela mente em um lampejo. Estremeceu. Depois, de súbito, num outro lampejo, como se impelido por uma nova força e resolução, deu um salto.

A posse de Bilbo sobre o Anel começa com a virtude da piedade. Embora sua bravura masculina fosse essencial, foi a piedade o que finalmente salvou seus amigos e ele mesmo.

Amor misericordioso

Em “O Senhor dos Anéis”, Frodo torna-se o verdadeiro herói, mas seu heroísmo não é o militar. Ele é como um padre que se sacrifica tornando-se ele próprio o sacrifício. Frodo cruza as terras mortas, que são como os campos de batalha envenenados da Primeira Guerra, e desfaz-se de todas as suas posses — de sua espada e até mesmo da comida de que ele precisaria para retornar ao Condado. Quando tem a chance de livrar-se de Gollum, Frodo não o mata, lembrando-se das palavras de Gandalf sobre piedade e misericórdia.

“É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil quando teve a chance.”

“Pena?! Foi justamente pena o que ele teve. Pena e misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir o Anel desse modo. Com pena.”

“Sinto muito — disse Frodo. — Mas estou com medo; e não sinto nenhuma pena de Gollum.”

“Você não o viu — Gandalf interrompeu.”

“Não vi e não quero ver — disse Frodo. Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte.”

“Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar ou condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados.”

Mesmo depois da traição de Gollum e de seu ataque, o amigo de Frodo, Sam, não o mata também:

A mão de Sam vacilou. Sua mente fervia com o ódio e com a lembrança do mal. Seria justo matar essa criatura traiçoeira, assassina, justo e muitas vezes merecido; além disso parecia a única coisa segura a fazer. Mas no fundo do seu coração havia algo que o impedia: ele não podia atacar aquela coisa caída na poeira, abandonada, arruinada, absolutamente desgraçada. Ele mesmo, embora apenas por pouco tempo, tinha carregado o Anel, e agora adivinhava vagamente a agonia da mente e do corpo murchos de Gollum, escravizados por aquele anel, incapazes de algum dia encontrar outra vez paz ou alívio na vida.

No final, Frodo falha, mas acaba salvo. Ele não joga o Anel no fogo e o reivindica para si. Gollum, então, luta com ele, morde seu dedo e acaba caindo no fogo, destruindo-se a si mesmo e o Anel. Nota-se, por conseguinte, a existência de um poder para além dos personagens, que cuida da Terra Média e traz a salvação, apesar da insuficiência e das falhas dos nossos heróis. E aqueles que, em vez de destruídos pelo poder, são salvos, agem com piedade, respondendo com amor ao sofrimento.

O herói ferido

O herói pode ser misericordioso com aqueles que sofrem porque ele mesmo sofreu. O herói, como qualquer rapaz que se tornou um “homem de verdade”, possui uma cicatriz. Todo homem carrega as cicatrizes — muitas vezes, literalmente — das lutas que precisou vencer para se tornar um homem. Tolkien e Lewis se sentiram atraídos pela literatura nórdica porque os próprios deuses nórdicos têm cicatrizes e são mortais. Eles, como os homens, morreriam na luta contra o mal, combatendo até o fim. Tyr, como Beren, tinha apenas uma mão; ele perdeu uma delas quando derrotou o lobo Fenris. Arthur também é ferido, sendo capaz de curar-se apenas em Avalon.

O soldado que salva seu país vai para a guerra como um menino e volta como um assassino profissional que, como mostra Paul Fussell em “The Great War and Modern Memory” (sem tradução para o português), viu hemorragias e mortes, devendo carregar suas feridas e lembranças para o túmulo. Meu próprio pai morreu por causa dos estilhaços com que ele foi atingido no Oceano Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial.

Frodo foi ferido pela faca envenenada de um Nazgûl, pela Laracna e, sobretudo, pelo peso do Anel que, no final, quase o derrota. Quando volta para o Condado, ele percebe que já não é mais o mesmo, que havia mudado demais.

“Tentei salvar o Condado, e ele foi salvo, mas não para mim. Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las.”

O amor abnegado tem uma glória transcendente, mas pode existir apenas em um mundo que tem sofrimento e morte.

A canção do Crucificado

O amor, que só se acha por meio do sofrimento, estava presente na canção dos Ainur no início da criação, como descreve Tolkien em “O Silmarillion”. Quando os Ainur cantam a canção que formou a Terra Média, os rebelados atrapalham a harmonia, introduzindo outras melodias. Ilúvatar, então, canta um tema “profundo, vasto e belo, mas lento e mesclado a uma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem”.

O espírito rebelde Melkor cantou uma música “alta, fútil e infindavelmente repetitiva”, que tentou “abafar a outra música pela violência da sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene”. Finalmente, Ilúvatar levantou “e num acorde, mais profundo que o abismo, mais alto que o firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a música cessou”. Ele havia cantado a Palavra final, e não havia mais nada a acrescentar.

Tolkien pensava que, nos mitos criados pelo homem, alguém poderia enxergar um leve e distante brilho do Evangelho, a Boa Nova. A característica principal dos contos de fada é a eucatástrofe, uma libertação inesperada e um final feliz. Nessa libertação, maior do que qualquer coisa que se poderia esperar, há um prelúdio, uma alusão, um deleite da libertação final e completa.

No mundo real, a Encarnação foi a eucatástrofe da criação e a Ressurreição, a eucatástrofe da vida do Senhor. A eucatástrofe é possível tanto na ficção como na vida real apenas porque a discatástrofe também é possível. A ressurreição só é possível em mundo onde a morte existe. Os deuses gregos são definitivamente frívolos porque são imortais. Por outro lado, homens e heróis são sérios porque devem enfrentar a morte. Os deuses nórdicos e o Deus verdadeiramente encarnado são sérios, porque eles, como os homens, podem “falhar” e “morrer”. Mesmo na mitologia nórdica, há uma promessa de novos céus e nova terra; na história cristã, por sua vez, foi pelo fracasso e pela morte que o Reino de Deus pôde ser trazido até nós.

Não há outro caminho, portanto, nem Deus tem outra mensagem ou outra Palavra que não seja a do crucificado. E é com este acorde que a música da criação deve ser concluída: “Está consumado”.

Uma história gloriosa

Frodo é considerado um herói moderno, mas o correto seria chamá-lo de herói nórdico ou, melhor dizendo, herói cristão, pois ele segue o padrão da jornada do herói: enfrenta perigos e quase morre para proteger os povos da Terra Média. Mais tarde, retorna com cicatrizes e feridas, e tem de desistir de algo para que outros possam continuar a jornada, não encontrando consolo na vida comum, razão pela qual deixa a Terra Média para sempre.

Frodo é, por conseguinte, um herói cristão porque mostra a glória e a inadequação do heroísmo e, de fato, de todo esforço humano. Fazemos o nosso melhor, e depois falhamos. O sucesso é uma coisa que vem de fora como um raio. O fogo cai sobre o sacrifício que foi preparado, e a preparação é penosa, o amor que reconhece a tristeza de toda vida fadada à morte.

Não obstante, mesmo no fracasso transformado em sucesso, o herói encontra a verdadeira glória. Ele faz parte de uma história; sua vida e sofrimento têm significado. Enquanto Sam e Frodo aguardam pela morte depois da destruição do Anel, Sam se pergunta se alguém saberá de seus atos.

“Fizemos parte de uma grande história, Sr. Frodo, não foi mesmo?”, disse ele. “Gostaria de poder ouvir alguém contando. O senhor acha que eles vão dizer: ‘Agora vem a história de Frodo-dos-nove-dedos e o Anel da Perdição?’”. E após o resgate e a recuperação deles, Sam e Frodo ouviram o menestrel dizer, na cerimônia de honras aos dois: “Vou cantar para vocês sobre Frodo-dos-Nove-Dedos e o Anel de Perdição”.

O grande mérito de “O Senhor dos Anéis” é nos fazer acreditar, enfim, que também fazemos parte de uma jornada ainda mais maravilhosa que aquela. Meninos e adolescentes encontram em “O Senhor dos Anéis” a emoção da aventura e o desafio de tornar-se um homem. Na verdade, eles e outros leitores encontram em Frodo, Sam e demais personagens o mistério da amizade em face da morte e do autossacrifício necessário para que outros possam viver.

O vinho da bem-aventurança

Os heróis da Terra Média encontram ainda algo ao mesmo tempo terrível e reconfortante: Aquele que conta a nossa história conhece nossas tristezas e sofrimentos, que existem desde o início do mundo, mas, felizmente, não têm a última palavra. Ainda maior que a amargura de nossos fracassos, decepções e mortes é o resgate que nos aguarda, rápido e inesperado, que traz uma alegria mais vibrante do que o sofrimento, e somente possível pela existência da tristeza; trata-se do bem provocado pelo mal, mas que supera esse mesmo mal com o amor cujo nome é piedade.

O Senhor dos Anéis” exala misericórdia por toda parte. Tolkien lida com o conflito e a morte, mas não lhes concede a palavra final. A coragem é algo fundamental para a batalha, mas não é mais forte do que a piedade e a misericórdia. O herói cristão luta contra a maldade, e deve derrotar principalmente o mal que existe dentro de si mesmo. Mas não pode fazer isso sozinho. Para vencer, deve saber que, sem o auxílio da graça, a vitória é impossível.

A graça atua pela misericórdia, e usa dela para atingir os seus fins. A misericórdia é, na verdade, o amor que existe no mundo mortal. Tolkien procura justificar os caminhos de Deus para o homem, especialmente o caminho pelo qual o homem encontra duramente o dom da morte. Sem a morte, diz o autor, o homem não conseguiria alcançar o amor maior do autossacrifício, da coragem de morrer pelo outro, como Deus escolheu fazer por nós. De fato, Deus permitiu a morte no mundo para que Ele também pudesse morrer e dar a sua vida pelas suas criaturas.

Para aceitar os fatos mais amargos da vida, é preciso prová-los até o limite do possível. Sam questiona Gandalf: “Eu achei que você estava morto. Depois, achei que eu mesmo estivesse morto. Afinal, tudo que era triste vai se revelar falso?”. “Não”, responde o mago, “mas a alegria é algo que só pode vir após a tristeza”. E Gandalf prossegue dizendo que “a alegria deles era como uma guerra, na qual a dor e o prazer fluem juntos e as lágrimas são o próprio vinho da bem aventurança”.

O herói vai para a morte carregando as suas feridas para a eternidade, e são elas a sua glória, o testemunho de um amor misericordioso que atravessa a própria morte. O Cordeiro é vitorioso principalmente porque sua vitória é a de ser eternamente uma vítima.

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As pessoas continuarão casadas no céu?
Doutrina

As pessoas continuarão casadas no céu?

As pessoas continuarão casadas no céu?

No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2019
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É comum, depois da morte do marido ou da mulher, que os viúvos me façam perguntas parecidas com esta:

Eu perdi recentemente o meu marido, de 46 anos, e desejo muito reencontrá-lo um dia. Mas algumas pessoas têm-me dito que, com a morte dele, o nosso casamento acabou e que Jesus disse que não seremos mais esposos nem considerados marido e mulher no céu. Para mim, isso é muito difícil de entender. No céu, nós iremos nos conhecer? Haverá entre nós alguma relação especial?

É fácil sentir a dor com que a pergunta é formulada. Trata-se, talvez, de uma dor desnecessária, nascida de uma leitura excessivamente estrita das palavras de Jesus no Evangelho segundo São Marcos. Ali, Jesus está respondendo a uma questão hipotética levantada pelos saduceus sobre uma mulher que fora casada sucessivamente com sete irmãos, nenhum dos quais lhe deu filhos. Os saduceus formulam o problema não tanto para atacar o matrimônio como para mostrar o aparente “absurdo” da ressurreição dos mortos. Jesus contesta da seguinte maneira: 

Vieram ter com ele os saduceus, que afirmam não haver ressurreição, e perguntaram-lhe: “Mestre, Moisés prescreveu-nos: Se morrer o irmão de alguém, e deixar mulher sem filhos, seu irmão despose a viúva e suscite posteridade a seu irmão. Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência. Então, o segundo desposou a viúva, e morreu sem deixar posteridade. Do mesmo modo o terceiro. E assim tomaram-na os sete, e não deixaram filhos. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, a quem desses pertencerá a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher”.

Jesus respondeu-lhes: “Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos nos céus. Mas, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’ (Ex 3, 6)? Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados” (Mc 12, 18-27).

A primeira coisa que devemos notar é que Jesus se refere ao matrimônio apenas de passagem. Sua resposta à estranha pergunta dos saduceus pretende ser um solene ensinamento sobre a realidade da ressurreição dos mortos. Nela, portanto, Jesus não desenvolve com profundidade uma doutrina sobre a experiência que terão os esposos no céu.

Por isso, não devemos ser apressados e afirmar que um casamento duradouro nesta vida não terá valor algum na futura. No céu, o nosso corpo e a nossa alma serão perfeitos e, portanto, também o serão os nossos relacionamentos fundamentais, tanto conjugais como familiares. Eles não serão jogados fora nem simplesmente esquecidos. Decerto, os que foram casados neste mundo terão no céu uma união muito mais perfeita: eles se entenderão e amarão plenamente e terão uma intimidade espiritual muito maior do que poderiam ter um dia sequer imaginado. E eles estarão assim tão unidos porque, antes de tudo, estiveram unidos a Deus: com, em e por meio de Deus, eles estarão unidos numa união perfeitíssima. Isso também se aplica aos nossos outros relacionamentos familiares e de amizade, cada um segundo o que lhe é próprio e perfeito. Os casados, é claro, o terão em grau supremo, já que os vínculos matrimoniais são abençoados na terra com graças especiais.

Eis o que diz Tertuliano, escritor dos primeiros séculos da Igreja:

Além do que, havemos de estar unidos às nossas falecidas esposas, porque estamos destinados a um melhor estado […], a uma união espiritual […]. Por conseguinte, os que estamos unidos a Deus hemos de permanecer juntos […]. Na vida eterna, portanto, Deus não irá separar os que Ele uniu nesta vida, na qual Ele mesmo proíbe que se separem” (Sobre a monogamia, 10). 

Na verdade, alguns aspectos do matrimônio terminam mesmo com a morte de um dos esposos. Por exemplo, os votos matrimoniais que unem o casal em um relacionamento exclusivo só permanecem válidos até a morte de um deles. Logo, a morte do cônjuge permite, sim, ao esposo supérstite casar outra vez. Em alguns casos, aliás, sobretudo nos nossos tempos, as segundas núpcias podem até ser necessárias aos viúvos por motivos financeiros ou familiares. 

Ora, que o casamento termine quando um dos esposos morre é algo que diz respeito mais às realidades terrenas do que às celestes. Mas daí não se segue que um casamento contraído na terra não tenha mais valor no céu. Mesmo que uma pessoa se case novamente após a morte do primeiro esposo, não há dúvida de que ambos os relacionamentos se tornarão perfeitos no céu, sem exceção. Como a união espiritual entre eles será perfeita, não haverá ciúmes nem ressentimentos entre o primeiro e o segundo cônjuge.

No entanto, ao responder aos saduceus, Jesus afirma claramente que não haverá no céu novos matrimônios. Não haverá nem sinos nem cerimônias, porque o céu já é, por definição, a grande boda entre Cristo e sua Esposa, a Igreja.

Além disso, nesta vida, os homens e as mulheres se dão em casamento, fundamentalmente, para a propagação da espécie humana mediante a geração de novas vidas. E esta necessidade não mais existirá no céu, onde a morte não tem lugar. Os Padres da Igreja enfatizam este ponto em seus escritos:

  • “Com efeito, quando ressuscitarem dentre os mortos, eles já não se casarão nem se darão em casamento, mas serão como os anjos do céu, como disse o Senhor. Haverá certa restauração celeste e angelical à vida, de modo que não mais sofreremos nem mudaremos; e é por esta razão que irá cessar o matrimônio. De fato, este existe agora em função do nosso estado decaído e porque é necessário que as gerações se sucedam. Um dia, porém, seremos como os anjos do céu, nos quais não há sucessão de gerações e cuja raça dura para sempre” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Na ressurreição, os homens serão como os anjos de Deus, isto é, nenhum homem lá poderá morrer, nenhum irá nascer: não haverá crianças nem velhos” (Pseudo-Jerônimo, citado em Catena Aurea).
  • “Ora, o matrimônio existe para a geração de filhos, estes existem para a sucessão de gerações, e esta é necessária por causa da morte do indivíduo. Ora, onde não há morte, não há casamentos; e, por isso, os filhos da ressurreição serão como os anjos de Deus” (Agostinho, citado em Catena Aurea).

Quanto ao fato de que viveremos como anjos, o Senhor se refere à imortalidade, mas também a que não haverá mais necessidade de relações sexuais. Isso pode parecer frustrante para algumas pessoas, sobretudo nesta nossa época superssexualizada. No entanto, a intimidade entre os esposos no céu será muito maior do que qualquer união meramente física. Haverá entre eles uma alegria tão grande que tornará opacos os demais prazeres. Aqui também os Padres da Igreja são unânimes:

  • “Nosso Senhor nos indica que na ressurreição não haverá relações carnais” (Teofilacto, citado em Catena Aurea).
  • “Dado que será destruída toda luxúria carnal […], os homens se tornarão semelhantes aos santos anjos” (Cirilo de Alexandria, Hom. 136 super Luc.).

Os casais devem olhar com esperança para um relacionamento que será pleno e perfeito no céu, e não uma vaga lembrança. Embora, é verdade, os aspectos jurídicos do matrimônio cheguem ao fim com a morte, a união de vida e corações não passará. Em Cristo, permanece uma conexão espiritual, uma aliança de amor que se estende dos céus à terra, e no céu o Senhor irá com certeza levar à plenitude o que Ele uniu na terra, dando aos esposos uma alegria e união inimagináveis:

Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o Sheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina. As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios o poderiam submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo (Ct 6, 7-8).

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Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar
Virgem Maria

Cinco lições
que a Assunção tem a nos ensinar

Cinco lições que a Assunção tem a nos ensinar

A bela festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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Diante da enxurrada de males que inundam hoje a Igreja de Cristo, acabamos facilmente perdendo de vista o que deve ser para nós um consolo e estímulo constantes à prática da virtude: a única finalidade dos nossos esforços é a vida eterna no Reino de Deus, a Jerusalém celeste, a Igreja em sua perfeição materna e imaculada, junto de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de todos os anjos e santos.

O caminho que devemos percorrer até lá chegar é a caridade e a busca da santidade. E a belíssima festa da Assunção da bem-aventurada Virgem Maria é um dos “lembretes” mais poderosos do nosso glorioso destino e do poder infinito de Deus para nos levar de volta para casa.

Esta festa tem muito a ensinar; consideremos, porém, somente cinco coisas:

1) Em primeiro lugar, não temos morada definitiva nesta terra, este vale de lágrimas mortal, passageiro, infestado de pecados. Em sua imutável eternidade, Deus pensou em cada um de nós, criou-nos para si mesmo e colocou-nos no jardim deste mundo para cultivá-lo e guardá-lo, até que chegasse o momento de conduzir-nos àquele grande e belo paraíso do qual este mundo é sombra opaca, ou precipitar-nos para todo o sempre no inferno, por causa da nossa preguiça, desobediência e desprezo pelo chamado que nos fizera o nosso Criador.

Mas por que — alguém poderia pensar — temos nós de permanecer neste mundo por algum tempo antes de sermos elevados à morada eterna dos santos? Os seres humanos, sendo criaturas racionais, devem alcançar seu próprio fim passo a passo, e não de imediato, com um único ato (como foi o caso dos anjos, logo após serem criados). A condição humana, tal como Deus a quis, consiste em crescer até a maturidade, em crescer no conhecimento e na entrega de si mesmo. A nossa vida na terra, portanto, é uma escola de virtudes, de oração e amor, é um período de prova para saber o que realmente valemos e para onde queremos ir por toda a eternidade. E vemos que Nossa Senhora foi a melhor aluna desta escola: é aquela que escutou o Pai, recebeu sua Palavra e a deu livremente ao mundo.

A Assunção da Virgem, pintada por Murillo.

2) Em segundo, a nossa condição real não é a de um fantasma, nem a de uma ideia ou de um anjo, puramente espiritual. Não, somos feitos de carne e osso, somos o ponto de encontro entre o visível e o invisível. O Verbo se faz carne para redimir e divinizar este animal racional que somos nós, para lhe aperfeiçoar tanto a racionalidade como a animalidade. Em Cristo ressuscitado vemos, pois, perfeição tanto de espírito como de matéria. Eis aí o nosso destino: ressuscitar dos mortos, com nossas carnes íntegras e nossa alma unida ao corpo — a pessoa humana inteira, criada por Deus do pó da terra e insuflada com o sopro divino.

É o que já aconteceu com a Virgem Maria: ela, que não conheceu a corrupção do pecado, não havia de conhecer a corrupção do sepulcro; ela, em cujo ventre habitou a Palavra viva e vivificante, não havia de ser acorrentada pela morte: antes, pelo contrário, em toda a beleza de sua natureza humana, intacta, íntegra e cheia de graça, ela foi assunta em corpo e alma à glória do céu, tendo já alcançado plenamente a promessa da ressurreição.

3) Em terceiro lugar, a festa da Assunção nos ensina que as leis da natureza, por terem em Deus sua origem última, não limitam o poder e a vontade divina. Nossa Senhora foi elevada aos céus, contrariando assim o que chamamos de “leis físicas”, mas em total harmonia com a lei suprema que é a vontade de Deus. Ela entrou em outra dimensão, que não é medida pelo movimento de corpos corruptíveis e pelo tempo que eles levam para ir de um lugar a outro, uma dimensão muito acima do nosso espaço e tempo. Assim também aconteceu com Nosso Senhor em sua Ascensão, isto é, quando Ele subiu ao céu e “uma nuvem o ocultou aos olhos” dos Apóstolos (At 1, 9). Foi o jeito que o evangelista encontrou de dizer que Jesus saiu deste mundo criado e entrou na dimensão própria de Deus, a sua “terra pátria”, misteriosa e inefável, oculta a olhos mortais, mas agora aberta, graças à sua Paixão e Cruz, a quantos forem salvos.

4) Em quarto, a festa de hoje nos ensina a enorme dignidade do corpo humano, templo do Espírito Santo, que não deveríamos nunca profanar com lascívia ou impureza, desfigurar com mutilação e tatuagens, destruir com vícios e indolências, idolatrar com certa obsessão por esportes e exercícios, nem aparentemente desprezar pela cremação de seus restos mortais. O corpo é a digníssima morada de uma alma imortal e do Corpo de Cristo na Santíssima Eucaristia; é o digníssimo instrumento de que Deus se serve para transmitir a vida humana; é o meio essencial por que realizamos obras de caridade espiritual e material. E é este mesmo corpo que há de ressuscitar no último dia. Não é o corpo, contudo, que nos faz humanos nem aquilo em virtude do qual nos tornamos filhos de Deus: isto quem o faz é a nossa alma espiritual, que dá vida ao corpo e, por meio dos sacramentos, recebe o dom da graça santificante. Reconhecer o valor do corpo à luz de sua ordenação à alma e à vida eterna é a chave para debelar vários males atuais que tão mal fazem à carne.

5) Em quinto e último lugar, a Assunção nos revela que Nossa Senhora está perto, muito perto de Nosso Senhor: ela vê nossas necessidades e intercede por nós junto a Ele, assim como fizera outrora nas bodas de Caná: “Eles não têm mais vinho”. Ela sabe do que precisamos, ela escuta os pedidos de seus filhos e lhes providencia o necessário, como faria toda mãe amorosa, e ela é a mais amorosa de todas. E Jesus, que já sabe do que precisamos, como já sabia da falta de vinho nas bodas de Caná, está disposto a ouvir sua Mãe, dando-lhe assim a dignidade de cooperar para a nossa salvação.

A Assunção, pois, traz Nossa Senhora para mais perto de nós do que nunca, justamente por elevá-la para junto do Senhor, que está presente sempre e em todos os lugares. Não temos nada a temer, porque temos uma Mãe tão atenciosa e um Redentor tão generoso.

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E se Tarcísio fosse seu filho?
Santos & Mártires

E se Tarcísio fosse seu filho?

E se Tarcísio fosse seu filho?

“Bonito o relato do martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? E se o jovem Tarcísio fosse seu filho? Você, como pai, o incentivaria à obediência ou à traição?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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São Tarcísio — cuja memória a Igreja propõe à nossa meditação no mesmo dia em que celebra a Assunção da Santíssima Virgem Maria aos céus, dia 15 de agosto — morreu defendendo a Eucaristia, como se sabe. Os antecedentes de seu martírio mostram ainda que ele o fez não “em um ímpeto”, mas de maneira consciente, decidida, meditada de antemão. O Papa emérito Bento XVI chegou a contar os detalhes da história em uma de suas audiências

Certo dia, quando o sacerdote perguntou, como geralmente fazia, quem estava disposto a levar a Eucaristia aos outros irmãos e irmãs que a esperavam, o jovem Tarcísio ergueu-se e disse: “Envia-me a mim!”. Aquele rapaz parecia demasiado jovem para um serviço tão exigente! “A minha juventude — retorquiu Tarcísio — será a melhor salvaguarda para a Eucaristia”. Persuadido, o sacerdote confiou-lhe então aquele Pão precioso, dizendo-lhe: “Tarcísio, recorda-te que um tesouro celestial está a ser confiado aos teus frágeis cuidados. Evita os caminhos frequentados e não te esqueças de que as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos. Conservarás com fidelidade e segurança os Sagrados Mistérios?”. “Morrerei — respondeu com determinação Tarcísio — antes de os ceder!”.

O restante desse episódio todos conhecemos:

Ao longo do caminho, encontrou pela estrada alguns amigos que, aproximando-se dele, lhe pediram para se unir a ele. Quando a sua resposta foi negativa eles — que eram pagãos — começaram a suspeitar e a insistir, e observaram que ele apertava ao peito algo que parecia defender. Em vão procuraram arrancar-lhe o que ele trazia; a luta fez-se cada vez mais furiosa, sobretudo quando vieram a saber que Tarcísio era cristão; começaram a dar-lhe pontapés e lançaram-lhe pedras, mas ele não cedeu. Em agonia, foi levado ao sacerdote por um oficial pretoriano chamado Quadrato que, ocultamente, também viria a tornar-se cristão. Chegou ali sem vida, mas apertado ao peito ainda conservava um pequeno pedaço de linho com a Eucaristia. Foi sepultado imediatamente nas Catacumbas de São Calisto.

O Papa Dâmaso mandou fazer uma inscrição para o túmulo de São Tarcísio, segundo a qual o jovem morreu no ano 257. O Martirológio Romano fixa a sua data no dia 15 de agosto, e no mesmo Martirológio inclui-se também uma bonita tradição oral, segundo a qual no corpo de São Tarcísio não foi encontrado o Santíssimo Sacramento, nem nas mãos, nem na sua roupa. Explicou-se que a partícula consagrada, defendida com a vida pelo pequeno mártir, se tinha tornado carne da sua carne, formando de tal modo com o seu corpo uma única hóstia imaculada, oferecida a Deus.

Esse bonito relato — que grupos de acólitos e coroinhas talvez até saibam de cor, dado que São Tarcísio é seu padroeiro — precisa ser meditado em toda a sua profundidade, porque, à luz de um exame meramente natural e humano, o que esse jovem romano fez não tem lógica. Não pode compreender essa história, de fato, quem não é católico, quem não crê no mistério da Eucaristia, quem não crê que o pão consagrado pelo sacerdote na Santa Missa não é mais pão, mas o Corpo e o Sangue do próprio Deus humanado. 

Sim, porque, em meio aos pontapés e pedradas de que Tarcísio era alvo, fosse aquele um pão qualquer, ele teria o dever de o entregar a seus perseguidores, a fim de se manter vivo. Afinal, na hierarquia dos bens criados, a vida humana possui muito mais dignidade que uma coisa e, no caso, um alimento. Mas Tarcísio tinha , e fé católica. Ele havia aprendido da Igreja que aquilo que trazia nas mãos não era uma coisa, mas um homem; e não um homem qualquer, mas Jesus Cristo, Deus que se fez homem. Diante disso, o quadro se invertia completa e infinitamente: Tarcísio tinha, diante de si, a própria vida e a de Deus; a sua humanidade e a de Cristo. Era preciso, pois, preservar aquele cujo “amor vale mais do que a vida” (Sl 62, 4), e morrer mártir.

“Coisa bela”, podemos dizer, e de fato é. Santo Tomás de Aquino explica em sua Suma Teológica (II-II, 124, 3 c.) que:

O martírio, entre todos os atos virtuosos, é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque, tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais “até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis”, como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo o que está em Jo 15, 13: “Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos”. 

Não nos basta, porém, reconhecer a beleza do ato de São Tarcísio. Os episódios da vida dos santos são-nos propostos não só para que os admiremos, mas também para que os imitemos, senão em sua literalidade, ao menos nas virtudes que os inspiraram.

Por exemplo, imagine a senhora, mãe, imagine o senhor, pai, que Tarcísio fosse seu filho. “Bonito o martírio de São Tarcísio”, sim. Mas e se ele fosse pedido na sua casa? O senhor e a senhora são católicos, crêem na presença real de Jesus na Eucaristia, vão à Missa todos os domingos, comungam com frequência… Mas o que aconselhariam a seu filho, caso ele se achasse em situação semelhante à deste mártir dos primeiros séculos? Melhor: que grito desesperado o sr. e a sra. dariam a seu filho nessa circunstância? Dir-lhe-iam, com a mãe dos Santos Macabeus: “Meu filho, não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos e aceita a morte, para que no dia da misericórdia eu te encontre no meio deles” (2Mb 7, 27.29)? Ou pedir-lhe-iam, como o tio de São José Sánchez del Río, que ele simplesmente fizesse o que seus algozes o instavam a fazer, só para se ver livre da morte?

Pintura digital de S. Tarcísio, por Gabrielle Schadt.

Sim, essa é uma situação extrema, e não seríamos capazes de fazer o correto contando apenas com nossas forças: o martírio, e a aceitação dele, só são possíveis com a graça de Deus. Sem ela, seríamos reféns da fraqueza de nossa carne. Fôssemos os pais de Tarcísio, nossa natureza, nossos sentimentos, a afeição natural que temos por nossos filhos, inevitavelmente nos compeliriam ao grito do “Poupai-o”; só a fé poderia nos fazer agir de modo diferente, e não qualquer fé, mas a da Igreja, isto é: a fé de que Deus se faz realmente presente nas espécies eucarísticas; a fé de que conservar em nosso coração a graça de Deus vale mais do que conservar todos os bens criados, inclusive a própria vida; a fé de que Deus recompensa os atos heroicos que fazemos por seu amor, e pune, por outro lado, as covardias a que cedemos, se movidos por nossa carne.

Mas e nós, cremos nisso?  

A começar pela Eucaristia: como são tratadas em nossas igrejas as hóstias consagradas, em cujas mínimas partículas acreditamos estar nada menos do que o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus? Lidamos com esse sacramento conscientes de que “as coisas santas não devem ser lançadas aos cães, nem as jóias aos porcos”? Comungamos como quem ama de verdade a Nosso Senhor, ou entramos na procissão da Comunhão como quem participa de um rito qualquer? Comungamos discernindo o que vamos receber, ou como quem vai atrás de um simples “pedaço de pão”?

E quanto à nossa vida: como lidamos com as nossas próprias misérias? Como tratamos a vida sobrenatural da graça em nós, e que olhar temos para o pecado? Será que nós cremos realmente que é melhor morrer a cometer um só, um único pecado mortal que seja? Cremos que, por mais que haja sacerdotes à disposição, por mais que possamos sempre recorrer ao tribunal da misericórdia de Deus, devemos tomar muito cuidado para não abusar do perdão de Deus e transformar nossos arrependimentos e confissões em rotina, ou em um “ritual” puramente externo e superficial? Ignoramos, ou fingimos ignorar, que “a misericórdia foi prometida a quem teme a Deus e não a quem abusa dela”?

Só por nos incitar a esse exame de consciência celebrar os mártires é um aprendizado valioso. A teologia do martírio é muito necessária para nós e para a nossa época, tão carentes que somos de virtudes, tão frios que somos na caridade, tão condescendentes que somos com o mal… Deus pede de nós o heroísmo de homens como São Tarcísio, como os Santos Macabeus do Antigo Testamento, como São José Sánchez del Río, e não a pusilanimidade e a covardia em que tantas vezes estamos afundados! Deus nos dá a sua graça não só para que levantemos, mas também para que deixemos de cair. E a nossa perseverança constitui uma espécie de “martírio silencioso”, de quem diz a Deus, dia após dia: “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração!” (Sl 107, 2).

Quanto a nossos filhos, a vida sobrenatural que eles receberam no dia de seu batismo deve ser o bem mais precioso que eles têm a guardar — e nisso consiste a essência de uma boa educação, uma educação verdadeiramente católica. Por que do que adiantará, por exemplo, termos dado cultura a nossos filhos (coisa boa, e que ninguém negará que o seja); do que adiantará que tenhamos feito deles pessoas letradas, cheias de erudição, e que tenham se tornado “bons cidadãos” no futuro, se na eternidade eles se tornarem moradores do inferno, porque levaram esta vida decisiva na lama do pecado mortal? 

É por raciocinarem assim, com fé, que tantos pais têm preferido tirar os seus filhos do atual sistema educacional para educá-los em casa: porque eles sabem que o bem da alma de seus filhos — que o mundo a todo custo quer engolir — vale mais do que tudo. É por causa dessa fé que tantos santos pediam a Deus que levassem seus filhos deste mundo antes de eles cometerem um único pecado grave

Se ainda não chegamos a esse ponto, a essa disposição de entrega, convençamo-nos ao menos da necessidade de pedir a graça de querê-lo. Nós não nascemos para este mundo, tampouco devemos criar nossos filhos para ele. “Se Deus quis as gerações dos homens”, ensina o Papa Pio XI em sua encíclica Casti connubii, “não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, O conhecessem, O amassem e O gozassem eternamente no Céu”.

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Por que viver a modéstia?
Doutrina

Por que viver a modéstia?

Por que viver a modéstia?

Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um “quem”, não como um “quê”. A virtude da modéstia é uma proteção contra um sem número de perigos; desprezá-la, porém, um convite a uma multidão de pecados.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Agosto de 2019
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Em meu último artigo sobre modéstia, defini essa virtude e expliquei por que ela é essencial, e não opcional, à vida cristã. Ela está longe, é fato, de ser a virtude mais importante; mas, ainda assim, vivê-la é uma proteção contra um sem número de perigos, enquanto desprezá-la é um convite a uma multidão de pecados.

A modéstia é uma profunda necessidade humana. Por isso, não é possível rejeitá-la senão à custa da própria integridade e autoestima. Quantas mulheres não haverá por aí, feridas em sua dignidade, assombradas pela lembrança de terem sido usadas uma e outra vez apenas por causa de seus corpos? São vítimas de má instrução, de má educação, de maus conselhos. São mulheres carentes de modéstia, virtude intimamente vinculada ao fato e à percepção da dignidade humana. E por terem sofrido a falta que faz tal virtude, dela necessitam ainda mais para poder recuperar sua dignidade e a consciência do quanto valem, simplesmente por serem pessoas, que merecem ser amadas por si mesmas. Todo o mundo quer ser amado como pessoa, não como coisa; como um quem, não como um quê.

O cristão é chamado a proclamar a primazia do divino sobre o humano e deste sobre o animal. Reconhecemos, assim, a bondade natural e a capacidade de tornar-se santo de todo corpo animado por uma alma imortal, criada à imagem e semelhança de Deus: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7); “Vós me tecestes no seio de minha mãe […], nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas” (Sl 138, 13.14).

O corpo é criação de Deus, templo do Espírito Santo, purificado e ungido no batismo, herdeiro da promessa de ressuscitar um dia para a eterna bem-aventurança. A nossa aparência e o nosso comportamento deveriam ser testemunhas da verdade caracteristicamente católica — atestada com toda a clareza no Novo Testamento — de que tanto o matrimônio como o celibato honram o corpo humano como algo digno de amor, como canal da graça e sinal sagrado, quando consagrado pelos sacramentos de Jesus Cristo: “O corpo não é para a impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o corpo” (1Cor 6, 13).

Quer se trate do corpo físico, do corpo político ou do Corpo místico, cada um deles é, à sua maneira, uma unidade composta de várias partes distintas, distribuídas e relacionadas hierarquicamente. A pessoa humana, neste sentido, consiste numa hierarquia de elementos que lhe compõem a personalidade: há muitos níveis e camadas do “eu”, e nem todas elas devem estar à mostra. Um igualitarismo antropológico radical, que atribui igual valor ao corpo e à alma, ou às diferentes potências da alma — pondo, por exemplo, a imaginação ou a vontade no mesmo nível que a inteligência —, não está menos equivocado do que o igualitarismo político ou eclesiológico. 

A dimensão corporal da pessoa é inseparável do seu significado sacramental, sobretudo quando falamos do corpo nu. Este é o dom mais expressivo que os esposos podem oferecer um ao outro. Ao darem seus corpos, eles se doam a si mesmos, já que o corpo não é apenas algo que “possuo”, como se fora outra propriedade mais, mas parte daquilo que eu sou. A pessoa humana não “está” em um corpo, senão que ela é corporal: somos seres encarnados. Eis o que Santo Tomás nos tem a dizer a esse respeito:

Por que há no corpo natural tantos membros: mãos, pés, boca e assim por diante? Porque tais membros servem às diferentes funções da alma. Ora, a alma, enquanto tal, é causa e princípio desses membros, que são o que a alma é virtualmente. Com efeito, o corpo está feito para alma, e não ao contrário. Por isso, o corpo físico é como que certa plenitude da alma.

Por conseguinte, o corpo, mais do que qualquer outro dom que se possa dar, há de ser descoberto e possuído somente por aquele ou aquela a quem ele houver sido consagrado solenemente, à semelhança da Eucaristia, que, sendo o corpo verdadeiro de Cristo, há de ser recebido apenas pelo batizado que estiver unido a Cristo pela caridade. O corpo do marido, ensina São Paulo, já não pertence a ele, mas à sua esposa, e o corpo desta ao marido (cf. 1Cor 7, 4).

Vale a pena refletir sobre o estreito vínculo sacramental que une os esposos e a completa modéstia, a sensibilidade de alma, por ele exigida. A modéstia é uma virtude essencial, não porque os corpos ou as paixões sejam, em si mesmos, coisa vergonhosa, mas porque a bondade que lhes corresponde e o poder que têm de servir como ministros da graça impõem o dever de protegê-los de todo abuso, manipulação e desordem. Recordemos as belas palavras de São Paulo, tão exaltadas, tão cheias de amor por tudo o que Deus criou e redimiu: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habi­ta em vós, o qual recebes­tes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1Cor 6, 19-20).

Os seres humanos somos chamados a guardar o segredo da nossa personalidade, dom precioso que recebemos de Deus, mistério que não devemos expor para “consumo público”. Aos namorados e noivos, aos recém-casados e esposos de longa data foi confiada uma verdade divina, que eles têm o dever de defender contra as forças hostis que ameaçam profaná-la. Homem e mulher, no fundo, são dois segredos a serem compartilhados no amor; são como uma câmara íntima, que não deve ser escancarada, como uma praça pública: deve, pelo contrário, ser tratada com reverência, como se estivéssemos diante de um santuário ou do sacrário de uma igreja.

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